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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

A Sobrervivência da deusa céltica Morrigan na mitologia galega


Por David Outeiro

Lembro a primeira vez que me falaram dum encontro com ela...

Era uma das primeiras tardes do outono do ano 2011. Tive a ideia de ir ver o castro de Pena Rubia, onde aparecera uma ara à deusa Navia. Apanhei o meu Terrano como fazia habitualmente porque poderia ser que aquele dia, como muitos outros, tivesse de ir até algum lugar onde só chegassem os veículos com tração às quatro rodas e cheguei até as proximidades do Rio Minho, que naqueles dias tinha pouca água. Fui por uma estrada que atravessava uma formosa carvalheira, cruzei para a outra beira e em pouco tempo vi claramente o Castro, mesmo ainda antes de ver o cartaz que indicava que estava entrando nele. Na entrada da antiga cidade célta havia um espigueiro com uma cruz céltica e um galo ao pé. Acarão do hórreo havia um homem idoso sentado, que estava a olhar para mim; a minha intuiçao fez com que eu fizesse uma paragem e arrumasse o meu carro. Sentei-me no banco onde ele estava e começamos a falar; falou-me duma preocupação que eu compartilhava, a de tantas semanas sem chuva, situação que tinha deixado tudo seco. Continuamos a conversa e falou-me de que naquela altura ele era o dono do castro mas parecia não saber nada da ara de Návia... ou de qualquer pedra com letras gravadas, já que com essas palavras eu lhe fiz a pergunta. O senhor falou-me duma mamoa que estava a procurar e sinalou-me o cimo duma montanha. Quando chegou o momento de me ir, ja era um bocado tarde e tinha de subir até o alto assim que me despedi dizendo-lhe que voltaria vê-lo.
Não demorei muito em voltar por lá com tão boa sorte que achei de novo ao homem em aquele lugar subindo a encosta que dá ao castro. Baixei para falar com ele novamente, para saudá-lo e a conversa prolongou-se bem tempo. Perguntei-lhe por lendas da zona, mas dissera não conheçer nenhuma. Ainda assim houve um momento em que ele me disse: “mas....sim há alguns contos”. Ouvi com atenção e falou-me da gente de Pena Rubia que tinha escutado ao trasno; falou-me também dalguma “maldição” que tinha um homem que fora a tirar pedras do castro sem “prenda da igreja”; falou-me daqueles que foram na procura de tesouros às mamoas da zona. Eu tinha a perceção de que o que aquele senhor me estava a contar não eram lendas para ele, eram uma realidade que se contava para ser transmitida diante do fogo da lareira... Quando a conversa foi derivando em mais cousas mercê à confiança acabou falando-me dum encontro com uma misteriosa e poderosa mulher. Contava -dizia ele-, a historia dum homem apoutado do lugar que ia transitando um dos vieiros daqueles montes. Por uma vez presenciou algo estranho: uma mulher apareceu no meio do caminho sentada enquanto estava a fiar. O homem não podia passar pelo que lhe disse-lhe á mulher dum jeito algo rude: “Afasta-te ou afasto-te!?”. A mulher negou-se a sair do caminho, ergueuse e começou a lutar com o homem. Enquanto pelejavam rodavam pela encosta abaixo até onde estava o rio. Como parecia que o homem tinha as de perder ele percebeu que aquela era uma mulher sobrenatural e portanto começou a “fazer cruzes”. Ao fazer as cruzes, o homem conseguiu libertarse dela, que zangada chegou a manifestar: “Se não chegas a fazer as cruzes, mato-te”. Aquela era uma mulher que fiava (o destino dos homens), uma poderosa e guerreira que levava os homens ao além ao atravessar o rio!... Uma mulher pagã que só o cristianismo (as cruzes) puderam frear... ainda que lá continuava!. Era Návia Corona! Morrigan!, a deusa guerreira e agoireira da morte!. Aquele homem não conhecia a ara, mas parece ser que alguém, no mesmo lugar onde apareceu o jazigo, deu com a mesma deusa!.

Vamos continuar a recompor o nosso quebra-cabeças...
Há um fermoso romance recolhido em Cerdedo no ano 1904 por Vítor Said Armesto duma velha esmoleira chamada Luzia Domingues. O romance musicado por “Fuxan os ventos” fala duma figura mitológica, a Lavandeira...diz assim:
Na mitología galega, a Lavandeira é um espírito feminino, uma mulher sobrenatural que pertence ao outro lado, ao outro mundo. A aparição manifesta-se na beira dos rios ou também nos lavadoiros. É uma mulher de aspecto temível, velha e enrugada segundo dizem alguns. Emite horríveis vozes, laios e berros...enquanto lava a roupa cheia de sangue. Essa é a roupa dos que vão morrer, por isso a Lavandeira é agoireira da morte e o seu aviso é temido. Esta aparição pode fazer uma petiçao àqueles que dão com ela; a de ajudar a lavar a súa roupa. No caso de aceitar a petição os infelizes deverão escorrer as peças torcendo-as no sentido contrario a ella, já que se o fazemos no mesmo sentido a nossa morte será segura e acabará levando-nos com ella ao Além.

Na Ilha de Ons, nas costas de Ogrobe, conta-se a história dum homem que ousou achegar-se à Lavandeira. Neste caso lavandeiras, porque são três mulheres que ele achou lavando uma noite. Achegou-se por curiosidade e perguntou-lhes que era o que faziam lavando a roupa àquelas horas da noite. Uma delas ergueu-se e colhendo o homem pelas suas roupas lançou-o sem esforço até uma silveira. O medo paralisou-o de tal jeito que ficou na silveira toda a noite até que pela manhã os vizinhos que por ali passaram tiveram que tirá-lo dali.

Na Irlanda existe “the Washer-Woman at the ford” (Lavandeira do vão) ou as Banshee (As mulheres do Sidh). As Banshee ao igual que as nossas Lavandeiras são um agoiro de morte. Lavam também as roupas cheias de sangue emitindo os mesmos berros e laios do que as nossas. Pode aparecer como mulher jovem e fermosa, como uma dama ou como uma temível velha -curioso triplo aspecto da deusa ao igual que na aparição da Ilha de Ons-. Pode aparecer também com a forma de corvo viaraz, arminho, donicela ou lebre. As banshee têm a particularidade de estarem vinculadas àlgumas familias importantes. Quando alguém da familia vai a morrer, a Banshee associada ao clã começa a chorar. A apariçao de varias banshee à vez indica a morte de alguêm importante ou sagrado.

Na Escocia é conhecida pelo nome de Bean Nighe ou Nigheadaireachd. Aparece igualmente lavando as roupas de aqueles que vão morrer em rios ou lagos mas têm alguma curiosa particularidade como é a de às vezes aparecerem com os pés palmeados como as aves aquáticas. Nas crenças célticas, este tipo de aves têm a ver com as mensageiras do Além. Talvez por causa da natureça das aves e que ao morarem em meios aquáticos estejam no limiar do além. Se uma pessoa consegue mamar do seu peito, pode transformar-se no seu filho adoptivo e pedir um desejo,como por exemplo saber o nome daqueles que vão morrer. O escritor Dorothy K. Haynes narra uma história dum encontro com uma destas mulheres protagonizado por uma menina chamada Mary. Um dia a menina voltava à sua casa quando escutou um ruido no rio. Ela foi pensando que acharia a sua mãe lavando a roupa mas achou uma mulher com má cara que tinha pequenos pés palmeados como os patos. Mary achegou-se com cuidado mas a mulher bateu nela. Por causa disto, as pernas de Mary paralisaram-se e não pôde caminhar ficando no caminho. A sua mãe conseguiu achá-la após uma angustiosa procura e levou-a para a casa. A história tem um final trágico com a morte de Mary. A Bean Nighe...estava a lavar a roupa da própria menina.
 
Em Gales é conhecida com o nome de Cyhyraeth (fantasma ou esqueleto). É um agoiro de morte que emite uma voz que soa três vezes, um triple aviso que cada vez pronuncia com menos intensidade. Também aqui se fala do facto de ter que lavar a roupa no sentido contrario aquela pessoa que consegue dar com ella. De fazê-lo assim concederá 3 desejos.

Na Bretanha armoricana é conhecida com o nome de Tunnerez noz. Ao igual que as outras apariçoes análogas lava no rio as roupas dos que vão morrer aguardando até que alguêm caia na sua armadilha e possa levá-lo ao além.

Como podemos ver é uma aparição com características idénticas ou muito similares nas terras célticas da Galiza, Escocia, Gales, Irlanda e a Bretanha.

Mas agora chega o momento de desvendar a antiga identidade das Lavandeiras. Segundo contam as sagas do herói guerreiro céltico Cúchulainn, Badb apresentouse antes da última batalha do combatente como um agoiro de morte. Cúchulainn vai cara a sua ultima batalha, quando se conta;

Não foram muito longe do castro (de Emain Macha) quando acharam uma bela donzela, bem proporcionada, diante de Áth na Foraire na chaira de Emain, que estaba gemendo e queixando-se à vez que esmagava e lavava restos vermelhos de troços de carnes de feridas feitas nacos nas beiras dum vão”

O druida Cathbad interpretou isto como um agoiro e disse-lhe a Cúchulain que a mulher é Ingin Baidbhi, filha de Badb, que o lavar e o berrar presagia a sua morte:

-Pequeno cão-diz Cathbad-. Sabes o que está a fazer a jovem? O que está lavando são as tuas roupas. Os seus choros e berros ao lavá-las é a sua forma de exprimir a tua próxima morte quando te enfrentes ao exército de Medb. Segue o meu conselho e dá a volta.
-Caro mestre... agradeço muito o teu conselho, mas tu sabes, como eu sei, que o meu fim está próximo e que vou cair lutando. Não tentes que o evite, porque tanto se vou a essa batalha como se fico lá, a minha morte combatendo está próxima.”

Há outra saga na que se fala do rei Cormac onde também aparece Badb como agoireira. A seguinte cita é da saga “Togail Bruidne Da Choca”:

...Cormac Connloingeas, filho de Conchobar mac Nessa, rei do Ulster, vai de caminho desde Connacht até Ulster para ser coroado após a morte do seu pai e ao igual que Cúchulainn, o destino obriga-o quebrar durante a viagem várias geissa (tabus) que o druida Cathbad lhe tinha dito ao nascer. Quando ele e os seus 300 seguidores chegam ao a Rio Shannon, acham uma mulher vermelha à beira dum vão lavando o seu carro de guerra, os assentos e os arneses. Quando ela baixava a mão, a água do rio volta-se vermelha. Mas quando erguia a mão sobre a parte superior das augas, nãoo ficava nem uma gota de água no rio, já que toda era levantada também no alto; e desse jeito cruzaram o rio sem se molharem os pés.”.

Há uma história bélica muito posterior, acontecida na Escocia. No “Cáithréim Thoirdhealbhsigh” fala-se da Batalha de Dystert O'Dea que teve lugar em 3 de Maio de 1318 onde aparece Badb:

Richard de Clare, o chefe dos normandos, dirigir-se-ia até o que acreditava ia ser uma fácil vitória sobre os O'Deas Dystert. Quando ele e o seu exército estavam prontos a cruzar o Rio Fergus, viram no vão uma horríbel Badb lavando as armaduras e luxosas capas até que delas caia sangue vermelha que tingia as águas do río dessa cor. De Clare pediu a um intérprete irlandês que lhe perguntasse á mulher de quem eram essas armaduras e roupas. Ela respondeu “que eram as armaduras, vestiduras e outras vestes do próprio De Clare, seus filhos e o resto dos seus seguidores, muitos dos que não demorariam muito em morrer.” A mulher identificou-na como “In Dodárbrónach- A escura das augas”. De Clare ordenou então que a ignorassem, dizendo que ela viera beneficiar ao Clan Turlough para evitar a expedição contra eles. Finalmente a profecia cumprir-se-ia e De Clare e os seus foram derrotados e mortos...”
No “Cáithréim Thoirdhealbhsigh” também se fala da aparição de Badb na batalha de Corcomroe Abbey, North Clare, em 15 de agosto de 1317.

O rei irlandês recebe a visita de Aoibheall, uma Badb. Citando a Manuel Alberro em ”Diosas celtas”:
Numa descrição do S XII da Batalha de Clontarf (1014) que pus fim às guerras com os viquingues e o seu poder em Irlanda, Aoibheall aparaceu-se-lhe a Brian Ború, rei supremo da Irlanda, a noite anterior da batalha, e predisse que morreria nessa luta, que o primeiro dos seus filhos que ele visse na manhá da batalha seria o seu sucesor e próximo rei.”

Falamos de que Badb se apresenta em forma de mulher lavandeira mas como o seu nome indica, também é um corvo viaraz. Nas crenças galegas o corvo é um animal de mal agoiro, porque é um mensageiro do Além que pode anunciar a morte. Existe também a crença no “passaro da morte”, o qual se apresenta de noite laiando, falando com voz lúgubre ou cantando. A coruja também pode dar este aviso.


A Morrigan pôs-se em forma de pássaro sobre uma pedra vertical que havía em Temair Cuailnge. E falou assim (a Dom Cuailnge);
(…)
Corvos sobre os sanguentos cadáveres, chairas cheias de guerreiros mortos, heróicos guerreiros abatidos pelo pó, guerra sem fim, gado em tropel à carreira, batalhas em Cuailnge, os laios ominosos de Badb no lusco-fusco do campo de batalha, filhos mortos, maridos mortos, camaradas mortos, morte! morte!”

A deusa também se lhe aparece a Cúchulainn numa ocasião em forma de corvo, dizendo o guerreiro: -A aparição dum pássaro neste lugar é de muito mal agoiro!

Sabemos também que a morte de Cúchulainn chega (depois da aparição da lavandeira) quando um corvo se põe sobre ele.

A deusa da morte apareceu perante o herói durante o transcurso da súa vida numa ocaisão com fim positivo:

A Morrigan, na época de Cúchulainn , acostumava a interferir nos assuntos de Irlanda, instigando guerras e pelejas. Ela foi quem numa ocasião levantou Cúchulainn, quando ele era muito jovem, sobre o seu leito e quando estava a ponto de ceder ante o esconjuro mágico que estava sendo utilizado contra ele”.

Como podemos olhar Mórrigan (Grande Rainha), Badb(o corvo viaraz) e Macha (A chaira) são três manifestações “sombrías” duma mesma deusa. Uma deusa que não participa diretamente na guerra mas que interfere nos seus resultados com a sua magia na forma dum corvo viaraz. Uma agoireira de morte que costuma aparecer na forma duma Lavandeira. Uma deusa muito ligada com a morte e portanto com a transformação, o renascimento, o fim dum ciclo. A sua ligação com os cursos de água é clara, já que no mundo céltico são um limiar, uma fronteira que nos permite fazer um trânsito ao Além.

Vemos a obviedade de ser uma divindade comum nas religiões célticas. Por isso a Lavandeira aparece tambêm na Galiza, como fruto duma origem comum. Na minha opinião, esta é a identidade de Návia, que num ara vai acompanhada do epíteto Corona, quer dizer, chefa dum exército. É por isso que há também rios com o seu nome, por causa de que eram um lugar de trânsito ao Além onde se podia aparecer a deusa. De muitas más evidencias falaremos em próximos artigos.

Na Gália aparece com o nome de Cathubodva Bodua e pode ser a mesma Nantosvelta que se tem representado associada ao corvo viaraz.

E passaram milénios e passaram séculos e hoje na Galiza, a Morrigan, A Grande Rainha continua a estar presente.



Nota; Há confusão sobre a associação de Badb com os corvídeos. O corvo(Corvus corax) e o corvo viaraz (Corvus corone) não são a mesma espécie. Na minha opinião Badb está associada ao Corvus corone e Lugh ao Corvus corax, de maior tamanho.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Entrevista ao Homem da Pedra


Por David Outeiro

José Luís Lozano Rua é um homem humilde, mas conhecedor e sabedor do valor do nosso património. Há algo mais dum ano ele fez um achado importante. Trabalhando uma das suas leiras junto com o seu irmão deu com uma pedra enterrada que resultou ser uma "estela" com petróglifos e mais alguns outros elementos dignos de ser tidos em conta por uma administração que não só não atende aquilo que os galegos herdamos do passado mas que mesmo destrói o nosso legado ancestral. O fim da administração? Talvez seja muito arriscado dizer que não quer que exista o nosso passado porque não quer que existamos no futuro?....




Vamos ver que opina o nosso Homem da Pedra: 

Quando e onde é que apareceu o jazigo? Como é que fizeste o achado? foi casual?

O de jazigo é uma nova palavra para mim, suponho que é mais correcta do que achado, mas vou usar esta.

Tentarei de responder por ordem e não repetir as cousas. Eu faço isto desde um telemóvel, com o qual não tenho capacidade de ler em conjunto todo o que escrevo, para além dum pequeno parágrafo. Uma vez isto fica dito, lá vamos. Começo respondendo às duas primeiras de vez.
A leira onde apareceu a estela, está enquadrada no termo chamado da Pedralta. Não se sabe a sua antiguidade, mas sim a sua origem, a própria estela. No ano 2009, meu irmão, o proprietário desta leira, mandou-a lavrar a um vizinho de Vilamaior, uma aldeia próxima. O trator que usou é mais potente do que o nosso e aprofundou mais no terreno do que já tinha feito em outras vezes anteriores. Com isto quero dizer que o achado foi totalmente casual e o vizinho não lhe deu mais importância do devido, excetuando o dano causado no apeiro. Este labor foi feito em primavera e não foi até o outono -acho que foi novembro-, quando fui dar um passeio até o rio da Veiga, nome que lhe damos ao Tâmega. Desde a estrada de terra por onde ia eu, chamou-me a atenção aquele penedo, numa margem da leira. Uma pedra de granito, um perpianho distante uns cem metros de mim. Nesta margem do rio não há granito, só xisto (lousa), por isso o raro do assunto. Quando me aproximei para vê-lo melhor, o sol-pôr estava próximo, como muito a uma hora de luz. Essa luz que lhe dava à pedra, quase esguelhada, permitiu-me ver uns gravados desde longe, talvez uns quinze metros. O coração deu-me um pulo no peito. Aquilo era um petróglifo ali, saindo da terra! Isto pode parecer exagerado, inclusivamente poético, mas foi como sucedeu. O significado desses gravados não os soube até muito tempo depois.

Há máis jazigos arqueológicos nessa zona? há alguma lenda?

As estradas e pistas que hoje percorrem esta terra, não se correspondem com as anteriores à concentração parcelar dos anos 60/70. O mais provável é que a estela fosse quebrada e sepultada nessa época. Nas proximidades da Pedralta há outros termos, como o Castro, onde houve uma vila romana ou São Martinho, onde houve uma capela do mesmo nome e uma necrópole romano-sueva segundo os restos achados, vários sartegos e uma ara com o nome do primeiro homem empadroado nestas terras: Júlio Caro Tamagano. Neste ponto quero dizer, que a estela do Guerreiro também deixa constância doutro homem, mil anos anterior a este. Somente que a escritura é diferente. Pode-se dizer que hieroglífica no que diz respeita dos símbolos gravados. A estrada desde onde vi a pedra-estela leva o nome de Corredoira. Transcorre em direção Norte-Sul, quase paralela ao rio. Quinhentos metros ao norte, por arriba de São Martinho, está o castro da Cabanca, prospetado por Tavoada Chivite nos anos 50/60. No que diz respeito das lendas, estão as típicas de castros e mouros que falam de túneis até o rio e cousas assim.

Qual foi a reaçao do pessoal de Castrelo quando soube da estela e qual a dos responsáveis do património, dos arqueólogos e profissionais?

Agora passamos às pessoas. No povo não se faz muito caso deste achado, não porque não tenha importância, mas porque não se sabe avaliar essa mesma como património local e como possível fonte de recursos. A vida rural não deixa muito tempo para interessar-se noutras cousas. Desde o concelho de Castrelo, desde o primeiro momento passou o mesmo e quando vieram técnicos e arqueólogos datar, estudar e catalogar o achado já foi tarde. Isto não é uma opinião pessoal, é uma realidade comum a muitos temas, sobre tudo culturais. A cultura não dá de comer, portanto não é importante.
Resumo um pouco as voltas que me tocou dar desde o ano 2009. Nomear neste ponto a Bruno Rua, um amigo que tem um pequeno guia arqueológico da comarca e que foi o primeiro a quem lhe falei da pedra-estela naquele mesmo mês de novembro. Ele não soube ver as caraterísticas do achado, penso que condicionado pelas suas leituras, onde as estelas não existem no mundo castrejo, as influências celtas são posteriores, e a cultura atlântica não é tal. 
Todo isto que falo também não o conhecia eu, no entanto a feição da pedra sempre significou algo para mim, desde o primeiro momento. Um homem jazendo, uma tumba, nunca um guerreiro de pé, talvez uma figura ou lembrete de algo...

Continuemos. Quando finalmente, por meio de Bruno, vieram dous arqueólogos que andavam a fazer um estudo em Verim -Alberte Reboreda e Breogam Nieto- a ambos lhes surpreendeu a pedra. No entanto não falaram da sua importância nem de que era única em Galiza. Uns dias depois voltaram com um experto e o que eu pensei um técnico de património que se manteve em segundo plano. Geraldo (ou António, não lembro agora) Seara, diretor de património na província de Ourense. O experto é António de la Peña Santos, penso que diretor do museu de Ponte-Vedra e grande 'conhecedor' dos petróglifos galegos. Aqui começa o desencontro, digamo-lo así, entre aldeãos e património. Em primeiro lugar, depois de acordarmos avisar ao Concelho e interessados da sua chegada, não o fizeram. Após aguardar uma chamada, ao vereador de cultura, José Luís Santiago e mais eu, decidimos nos achegarmos a Pedralta... e surpresa!, quatro pessoas estavam a fotografar a estela in situ, e pareceu que a nossa chegada lhes produzia incomodo. Depois de alguns comentários fora de lugar e com muita pressa, acedeu-se ao traslado da estela ao pequeno museu etnográfico de Castrelo do Vale. As pressas nunca foram boas, disse o sapo quando caiu do valado e assim foi. No dia seguinte deu-se a noticia na imprensa e na televisão, sem nos dar tempo ao concelho e demais de tentar fazer as cousas doutro modo, algo que nos prejudicou ao longo desse ano e deste que remata. O tira e afrouxa continua.

Na túa opinião, onde deveria de estar a estela?

Não sei como fiar uma cousa sen outra. A ideia seria conservar o que se possa, os moinhos e represas, os lagares e caminhos, o próprio castro da Cabanca, ou a necrópole. Quando isto começou, há já dous anos, que parecem dez, falamos entre Bruno e eu de fazer uma área de interpretação no lugar da Pedralta. Um projeto a longo prazo, talvez trinta anos... Eu continuo com a ideia. Depois com o Miguel, passeando pelo castro, falamos de roteiros incluídos no projecto. Com Neves Amado a possível escavação da necrópole, restos suevos e romanos e provavelmente mais antigos e a estela como base da ideia. Sem ela não há nada.

Opino que a estela deve ficar na vila de Castrelo, no museu ou na sua ubiquação original. Não é minha intenção deixar de cumprir uma lei, que diz que esta e outras peças devem estar num museu. O feito de que se vaia embora a estela para Ourense é quase um roubo. Não só duma parte da historia de Castrelo e da comarca do alto Tâmega, também duma oportunidade única de melhorar a situação precária deste Concelho, das suas gentes. Uma pequena peça no mundo da arqueologia, mas uma peça fundamental no mundo rural.

Bem, verei se a imprimo ou a repasso. Se queres fazer alguma outra pergunta, aqui estou. Seguro que me queda algo no tinteiro, hei de buscar um par de nomes e apelidos para acrescentar.

Sobre as lendas, há uma referida à necrópole. Um vizinho diz que havia três povos, o castro, a vila romana, e o povo atual. Conta que vinham enterrar-se de trinta léguas à redonda ao São Martinho. Quase nada.

Sobre os crânios, há quem lembra o facto e falaram-me duma cabeça de raposo que veio do castro.

Fala-nos dos problemas que tiveche com a “Xunta de Galicia”?

Quando chegou a Castrelo do Vale o director do museu arqueologico de Ourense, vinha com a ideia de levar já a estela. Cousa que não pôde fazer por vários motivos. Entre eles o feito de que a estela se achava na casa familiar dos meus pais, onde eu lhe ia preparar uma base para expô-la no museu etnográfico. Dá-se a circunstância de ser eu filho de carpinteiro. Fazedor de carros e cubas o meu pai e de exercer o ofício de ferreiro, com o qual me ofereci voluntário para esse cometido. Esta situação não foi do agrado do diretor, de quem não lembro o nome, e decidiu apresentar uma denúncia que levou a abrir um expediente administrativo, onde se me acusou de 'sequestro' de bem patrimonial, com uma possível multa da que se fizeram eco os jornais, sempre sedentos de titulares. Depois de recolher assinaturas na comarca, de apresentar-se diversos escritos atenuantes desde o concelho e de senhas cartas enviadas ao Valedor do Povo e ao Defensor del Pueblo (um dado curioso foi que desde Santiago e desde Madrid, com a mesma lei, um aceitou a petição e o outro não). Bem, depois  desse, digamos, movimento de peças, veio um homem desde Santiago, Roberto Pena (não sei justo qual é o seu cargo, desculpe-se o meu desconhecimento), com a ideia de conciliar posturas.
Salto de novo a pergunta. A ver se acarão do fumeiro me saem as respostas.
Vou pela oito, para falar de prós e contras. 
Quem te apoiou?.

Desde o princípio houve muitas pessoas que se interessaram pelo achado dum ponto de vista pessoal e académico. Em primeiro lugar, o meu amigo Bruno Rua, que se plantou com argumentos irrefutáveis sobre a permanência da estela em Castrelo do Vale. Em especial Miguel Losada, pessoa envolvida em qualquer projeto cultural, que fale de conservar tradição ou mostras da nossa historia. Neste ponto falar de Manuel Gago, quem desde a notícia dada na imprensa, apoiou o seu estudo e estadia no povo onde foi feita e posta em pé; a arqueóloga Neves Amado, que respondeu com firmeza todas as minhas perguntas. Mais pessoas se foram conhecendo a partir destes quatro nexos, com maior ou menor interesse na particularidade do achado. Nas últimas datas, começando por ti, David Outeiro, José Manuel Barbosa e a partir dele André Pena Granha.
Quando estive a recolher assinaturas pela comarca, as primeiras foram no escritório de Correios, onde a resposta foi positiva e me animou a continuar. Depois em locais comerciais e de hostelaria, quase todos conhecidos meus. Nomear ao Miguel e ao Suso, que se envolveram e recolheram um bom monte de assinaturas entre os dous. Falar duma moça, que pus em risco o seu posto de empregada, por uma causa que ela considerava justa. Visitei também várias escolas, onde firmaram a maior parte de mestres e mestras, ainda que logo não quiseram fazer mais nada, como uma visita ao Gaias que eu lhes propus...

Agora um apontamento do rechaço ou desinteresse de certas pessoas, que na minha opinião deveriam, quando menos, interessar-se. Num instituto de ESO, os papeis 'extraviaram-se' duas vezes, depois soube que os professores de história decidiram não assinar em bloco. Algumas pessoas que não assinaram argumentando diferentes razões, cada qual mais curiosa. E por último, o caso que mais salientamos: Uma visita ao concelho de Verim, uma conversa com a pessoa responsável de Cultura desse concelho. Isto foi em Abril de 2012, quando a notícia se deu a conhecer um ano antes. A resposta à minha petição de apoio, foi contestada com un contundente " não sei nada'. Esta resposta, para além de me deixar frio demonstrou-me o interesse certo das administrações na cultura.

Onde é que está atualmente a estela? Sabes qual é o que pretendem fazer com ela num futuro?

Teve lugar uma reunião na Câmara Municipal (tentações tenho de pôr “inquisitorial”), entre as partes interessadas. Decidiu-se um convénio, só verbal, de ceder durante un ano a custódia da estela ao Concelho, prorrogável mais tempo se assim se decidia. Também envia-la à exposição “Gallaecia Pétrea”, durante o tempo que esta dura-se. Nesse intervalo de tempo, o Concelho levaria a cabo a habilitação duma sala no pequeno museu etnográfico da localidade, cousa que está sem fazer, depois de seis longos meses, porque pode que esse convénio verbal não seja válido. Como se diz: não é vinculante de qualquer jeito. Se quiserem desde património cumpre-se e se não, não há nada que fazer.

Tens algum projecto atualmente ou de futuro?

A recolhida de assinaturas foi o começo do caminho. Posto que não há resposta por parte de concelhos e equipas docentes. Nem da gente do comum, longe de assinar, decidi procurar apoio em associações culturais doutras partes de Galiza, ou da Gallaecia, pois fui a Chaves e à Póvoa da Seabra. Vendo o que se faz em Lugo com Trebas Galaicas, em Santiago com O Sorriso de Daniel ou a Gentalha do Pichel, ou a associação de Amigos dos Castros, Penas Mouras, o Galo..., por nomear algumas. Seguindo esse exemplo, quis formar uma associação cultural na Vila de Castrelo do Vale, algo que por enquanto não tem sido possível por varias causas. Curiosamente, eu sempre fui amante da natureza, graças ao grande Félix Rodríguez de la Fuente e durante este ultimo ano dei-me conta que a conservação do património pode e deve ir unida a conservação do espaço que criou esse património, tanto natural como imaterial... às tradições e costumes, ao jeito de aproveitar os recursos naturais, à forma dos próprios rios e montes... Todo isto conforma uma cultura, um modo de vida e à gente.
Não quero voltar ao século dezanove, nem há três mil anos, no entanto pode-se cuidar o contorno em lugar de usá-lo e com ele cuidar essa nossa cultura e história. Algo tão simples como limpar os caminhos antigos ,cheios de silvas e tojos, às margens dos rios, com o mesmo problema, os montes, invadidos de espécies forâneas que literalmente esgotam e envenenam a terra, ou manter em pé moinhos, lagares, pressas, que foram construídas pelos nossos antergos. Ruínas que falam, não de quem fomos, mas de quem somos hoje e não permitirmos que a nossa história e cultura esmoreçam a prol dum progresso nocivo e destrutor do espírito humano.




quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Vida despois da morte


Por David Outeiro

Evidencias científicas e a sua realidade no mundo celta


E se tivesses estado dormindo? E se, enquanto dormias, tivesses sonhado? ¿E se nos teus sonhos, tivesses ido ao céu e ali tivesses apanhado uma estranha flor? E se, ao acordar, tivesses a flor nas tuas maos? Ah!, e que é o que aconteceria, portanto?

Samuel Taylor Coleridge

A morte é um dos grandes misterios, uma das maiores preocupações do homem desde que é homem. Um processo pelo qual todos passaremos mas no que muitos não querem pensar. Para todos os povos do mundo,até a chegada das crenças materialistas da ciência, a morte era “simplesmente” um trânsito, não um final. Mas não só isso, havia pessoas especializadas em contatar com os espíritos dos devanceiros e inclusivamente viajar até o Além, em vida; xamãs e druidas. Mas o que muitos não sabem é que em algumas disciplinas científicas estão a investigar elementos que poderiam mudar completamente a nossa perceção da morte. As EQM, as chamadas Experiencias de Quase Morte, chegaram a causar comoção em boa parte da comunidade científica,as cada vez maiores evidências fizeram cair os posicionamentos do materialismo. Psiquiatras, neurocientistas, físicos quánticos, cardiólogistas e cientistas de muitas outras disciplinas estão sinalando que a morte não é o fim, é a consciência que sobrevive à morte física do corpo e pode transcender os limites do espaço-tempo.

Como alguns sabeis, percorro a nossa terra na procura das pegadas do legado ancestral céltico. As pervivências de crenças, rituais e mitos que provêm do passado mais longínquo. Faz uns dous anos comecei a ter notícias dos estudos relacionados com as EQM. Na minha viagem comecei a identificar fases destas experiências nas crenças galegas sobre a morte, que verdadeiramente integram todas as crenças das religiões desde os primordios. Com o tempo achei pessoas que me contaram as suas próprias experiências de quase morte. Experiências que observava com curiosidade mas sem me sair do meu reducionismo biológico, da minha afinidade à ciência materialista com a que sempre estive vinculado como atéu que na maior parte da minha vida fui. Mas no meu caminho apareceu uma pessoa admirável que mudou a minha vida por completo fazendo cair a minha afinidade com a ciência materialista como um castelo de naipes. Esta pessoa, provem duma longa linha herdada de pessoas que têm umas capacidades muito especiais: a de contatar com as ânimas dos devanceiros. O meu ceticismo ofereceu resistência a pesar da confiança que tinha e tenho nesta pessoa. As evidências e as mensagens foram demoledoras. Hoje, não tenho medo em dizê-lo, porque não tenho dúvidas, penso que temos de mudar o paradigma porque...a consciência, a alma sobrevive à morte física do corpo. E sobre isto e a relação com a ciência, falaremos neste artigo.

Foi em 1975 quando o psiquiatra e filósofo norteamericano Raymond Moody publicou o seu primeiro livro; “Life after life”(Vida depois da vida). Nele recolhia centos de testemunhas sobre as EQM, experiências que os livros de medicina não tiveram em conta nunca antes. A publicação teve um amplo sucesso e resultou um grande impato. As experiências, embora muitas seguiam um padrão determinado mudavam em função da experiência. Quanto mais grave fosse o acidente ou enfermidade que causaba a EQM do ponto de vista convencional, mais profundidade e amplitude tinham as fases. Por vezes, alguma fase não se manifestava. As obras publicadas com posterioridade assim como os resultados de estudos realizados por distintos expertos tambem apresentavam o mesmo padrão. As fases que precedem a fronteira da morte são as seguintes:

  • Sensação de bem-estar e paz
  • Experiência extracorpórea na que se percebe como a consciência ou alma deixa o corpo físico. Neste caso, a pessoa que o vivencia poder ver o seu contorno ainda que as constantes vitais sejam ausentes. Após a EQM confirma-se que o que se percebeu foi real.
  • Aparição dum túnel com uma luz no seu final.
  • Encontro com familiares ou pessoas mortas. Por vezes ajudam a transitar até a luz. Têm-se registrado casos de pessoas que visualizam familiares ou pessoas sem saber que estavam falecidas até o contrastarem após a recuperação e o retorno ao corpo físico.
  • Visão dum espaço sobrenatural e paradisíaco com uma natureza de imensa formosura. Por vezes também se audível uma música celestial.
  • Visão duma entidade ou ser de “luz” manifestando-se quer como luminosidade quer como uma entidade antropomórfica. Sentimento de amor e sabidoría.
  • Retrospeçao vital ou resumo da vida da pessoa em segundos, trascendendo os limites espaço-temporais ordinários.
  • Flash forward, quer dizer, visão de acontecimentos futuros na vida da pessoa.
  • Visão duma fronteira. A pessoa têm a perceçao de que no caso de trespassa-la não poderá voltar ao corpo físico.
  • Regresso ao corpo. Muitas vezes as pessoas sentem uma grande deceção por voltarem à vida após passarem um processo de paz e bem-estar tão intenso.

Existe uma reação dum certo ceticismo desde o reducionismo biológico para negar a veracidade ou trascendência destas experiências. Tenta-se explicar o bem-estar por meio da libertação de endorfinas, a visão do túnel pela redução da atividade das sinapses (conexões neuronais) que o projetam, a retrospeçao por meio de memória inconsciente e valoriza-se o demais como simples elucubrações da mente. Reduze-se tudo a simples alucinações causadas pela falta de osigênio ainda que na verdade não se pode explicar o fundamental. Porquê a conciência é mais lúcida do que nunca? Porquê o relato das visões extracorpóreas (inclusivamente em pessoas cegas!) coincidem com os acontecimentos reais? Porquê o dito por alguns familiares mortos se cumpre? Aliás, como é possível que a consciência exista fora do corpo?.

Citando ao filósofo e neurologista Alva Nöe; “ A investigação neurocientista da conciência sustenta-se atualmente sobre umas bases não questionadas, mas muito questionáveis,(...). A consciência não acontece no cérebro.(...). Portanto, não é a atividade neural associada à que determina e controla o carácter da experiência consciente.(...). Seria absurdo procurar correlatos neurais na consciência.(...). Não existem ditas estruturas(...). Esta é a razão pela quealnão fomos capazes de dar uma explicação válida à sua base neural(...). A ideia de que somos o nosso cérebro não é algo que os cientistas apreendessem, mas um prejuizo que os cientistas levaram ao lugar de trabalho desde casa.”

Reconhecidos neurocientistas como Charles S. Sherrington e John C. Eccles, ganhadores do Premio Nobel e o neurocirurgião Wilder Penfield acham que o cérebro é mais um organismo complexo que regista e transmite a conciência do que um ente que a produza.

A consciência é para muitos estudiosos um fenómeno que tem a ver com as realidades investigadas pela física quántica. Não é por tanto um fenómeno material tal e como o percebemos, nem o resultado de reações físico-químicas.

Partilho o meu modo de ver com os cientistas que afirmam que o cerebro é um recetor de consciência, um “aparelho” recetor como pode ser uma rádio ou uma televisão. Acho que a consciência tem a ver com um espaço não-local que transcende os limites do espaço-tempo. Citando ao cardiologista e investigador das EQM, Pim Van Lommel: “O espaço não-local constitui algo mais do que uma descrição matemática. É um espaço metafísico no que a consciência pode exercer o seu influxo porque possui propriedades subjetivas de consciência. Segundo esta hipótese, a consciência é não-local e funciona como origem ou base de todo, incluído o mundo material. Desenvolvi uma hipótese que segue como resposta aos episódios de consciência expandida experimentados durante um ataque cardíaco. Esta consciência expandida supõe aspectos de interconexão não local(...). Oferece a possibilidade de comunicar-se com os pensamentos das pessoas envolvidas em vivências passadas ou com a consciência de amigos e parentes falecidos. Aliás, pode ver-se acompanhada dum sentimento de amor incondicional e aceitação, assim como de um contato com uma forma de conhecimento e sabedoría definitiva e universal(...), a consciência completa e infinita com lembranças acessíveis tem as suas origens no espaço não local, em forma de funções de onda indestrutíveis e não observáveis de forma direto(...). O cérebro e o coração funcionam simplesmente como uma estação de transmissores que recebe parte da nossa consciência global e parte das nossas lembranças na nossa consciência de vigília baixo a forma de campos eletromagnéticos mensuráveis e em constante câmbio. Os campos eletromagnéticos do cérebro não são a causa, mas o efeito da consequência da consciência infinita”.

Acrescentamos que a aceitação da imortalidade da consciência implica outra das crenças mais antigas e universais que existia entre os druídas: a reencarnação. Há muitos casos de pessoas que apos uma regressão visualizam a sua vida passada e depois de investigar certos acontecimentos históricos locais, confirmam a veracidade da sua visão. Também há grande quantidade de casos de meninos que lembram com exatitude a sua vida passada, realidade que demostraram identificando com exatitude as suas anteriores pertenças e lembranças de certos lugares.

Com a minha própria experiência e as minhas pesquisas (nada novo) cheguei a conclusão de que o padrão comum das religiões está na interação com o espaço não-local, tendo a ver a existência de muitos mitos com as chamadas realidades não-ordinárias (Stan. Grof). Desde os primórdios, os xamãs tiveram acesso a outras realidades por meio do emprego de técnicas extáticas, quer dizer, induzindo estados alterados de consciência. Este tipo de estados mentais induzidos de forma exógena ou endogenamente, permitem a ativação ou contato de certas áreas do cérebro, o qual podemos verificar cientificamente e que ao meu ver permitem “sintonizar” como uma rádio, outras realidades que a maioria das pessoas não podemos perceber. Entre outras cousas, o contato com as ânimas foi e é uma realidade testemunhada no transcurso do tempo. Os estados alterados de consciência têm também muito a ver com a realidade que apresentam as EQM. A través do tempo, este tipo de experiências foram a cosmogonia das realidades religiosas ou espirituais, realidades que foram exprimidas na linguagem das múltiplas crenças ao largo do planeta.

Nas crenças célticas e galegas existem muitas similitudes com as fases das EQM e evidências da irruçao das realidades transpessoais. Alguns exemplos são os seguintes

  • Entidades psycopompas(condutoras de ânimas ao Além): Há uns meses foi publicada uma entrevista neste blogue, feita a um homem que têm a capacidade de percebir essas outras realidades. O meu amigo “Lobo de Lugh” contava deste jeito uma experiência própria que têm muito a ver com uma EQM: Poucos dias após a chegada, caí doente e o médico de Santarém que foi chamado para me ver, disse não perceber o porquê da minha febre e conversou com os familiares, dizendo que não havia mais nada a fazer senão esperar. Como mais tarde me contou a minha criada Clementina, a que nos criou a todos e estava particularmente ligada a mim, eu falava que estava ali no quarto o meu Pai e uma Senhora vestida de branco. Dizia-lhe que tivesse cuidado ao andar pela habitação para não embarrar neles. Decidiram então que a Senhora era a Virgem de Fátima, muito em “moda” naquela época, 1950, e foi um carro buscar um garrafão de água bendita à Cova de Iria. Com essa água, a Clementina deu-me um banho e, a partir desse momento, comecei a arribar e fiquei bom. Logo foram feitas promessas, rezadas missas, benzeduras pelo cura da terra. Mas a Clementina sempre me disse que quem me tinha curado tinha sido a Senhora da Fonte, e que eu devia, um dia, ir à fonte agradecer-lhe. Fi-lo muitos anos depois”. Esta é ao meu ver a descrição dum “arquétipo”, o da deusa branca e psycopompa do Além. A fermosa Moura que chegada do Além pentea os seus cabelos com um pente de ouro. A mesma deusa céltica relacionada com as plêiades a que os guerreiros lhe levavam um pente de agasalho tal e como nos aparecem em algumas tumbas. Deusa que aliás é tripla como As Tres Marias, brancas, relacionadas com o Cinturão de Orióm e que segundo as crenças galegas se aparecem aos moribundos. A mesma que mais tarde se pôde associar à virgem. Porque finalmente, são distintas nomenclaturas para descreiber uma mesma realidade. Também não me esqueço de Bândua, outro importante ajudante na última viagem.

  • Experiencias extracorpóreas: Na Galiza existe a crença nas ânimas de vivos: A sociedade do Osso. Este tipo de ânimas são uma nomenclatura do corpo astral ou ânima, que é capaz de deixar o corpo em vida para voltar depois. Tal e como acontece numa EQM ou como capacidade que algumas pessoas afirmam ter.

  • Música celestial: Na Galiza os encantos e as entradas ao mundo dos Mouros, isto é, ao Além, são anunciadas com uma música celestial. Por vezes mesmo de gaiteiros.
  • Espaço sobrenatural paradisiaco: Os Immrama e as Echtra célticas, assim como a entrada no mundo do Sidh, descrebem viagens ao Além. O padrão comum é similar ja que por vezes aparece uma mulher ou animal que incita a fazer a viagem, faz aparição uma música celestial ao tempo que se chega a uma terra paradisíaca que é o outro mundo (Tir na nÓg, Tir Na Ambam, Avalon etc.). Ao regressar ao nosso mundo descrebe-se uma diferença temporal, de formq que o espaço-tempo do Além não é o mesmo do que o do mundo dos vivos. Acostuma-se dizer que uns segundos no Além podem ser anos no nosso... Lembremos a inexistência da passagem do tempo no espaço não-local. Por vezes, o que chega ao paraíso do Além não pode voltar, o qual, talvez pode ser uma evidência de ter passado a última fronteira descrita nas EQM.

Temos de lembrar que na Galiza, o equivalente do mundo do Sidh é o Mundo dos Mouros (do céltico mrwos,mortos). O Além, com maiúscula.
Convido ao leitor a ler relatos das Experiências de Quase Morte e fazer uma comparação entre esses relatos e os mitológicos galaicos ou célticos para ver o que acham. Porque ao meu ver, os relatos célticos estão a nos falar de viagens a essa outra realidade numa situação limite ou durante um transe extático.

A VIAGEM DE BRAN, FILHO DE FEBAL

Um dia, quando o jovem Bran, filho de Febal, se passeia pelo jardim da casa real, escuta uma música de tanta doçura que lhe provoca o sono. Quando acorda aparece-se-lhe uma belíssima dama extranhamente vestida, que leva uma maravilhosa pola de maceira, de cor prateada nas súas maos. A mulher descrebe com melodiosos cânticos o esplendor e as delícias incomparáveis do mundo situado para além do oceano ocidental com as suas formosas ilhas, onde moram milhares de jovens e belas mulheres, a sua música celestial e uma completa ausência de perigos e traições, penas, enfermidades e a mesma morte, pois lá eram desconhecidos. Ao dia seguinte, Bran embarca-se com tes companhias de homens cada uma, e depois de dous dias e duas noites de navegação acham ao deus marinho Manannan Mac Lir (psycopompo), que viaja sobre os mares no seu carro de combate com dous cabalos e duas rodas. Conversam, e Manannán, com os seus grandes poderes mágicos transforma os mares e os peixes numa verde chaira com rebanhos de animais do país prometido. Posteriormente seguem o seu caminho para máis adiante chegarem a Ilha da Felicidade e depois a Emain, a Ilha das Mulheres, onde são recibidos por uma dama que os acomoda em camas. A cada um deles com uma bela e jovem doncela. Apetitosos manjares e bebidas, música, cantos, festas e divertimentos fazem a vida doce e pracenteira. O tempo passa assim, docemente mas a eles parecia-lhes que transcorrira um ano quando na verdade pasaram muitos mais. Um día, um deles sente-se afligido por uma grande morrinha e veementemente consegue convencer ao Bran para realizarem uma visita a Irlanda, o seu antigo país. A dama advirte-os de que lhes vai pesar enormemente e que em qualquer caso, se decidirem ir, que não ponham o pé na terra. Ao chegarem a costa da Irlanda, acham uma grande assembleia. O Bran apresenta-se desde o barco e eles dizem não conhece-lo embora tiveram ouvido falar da Viagem de Bran aos Filedda (narradores de contos orais). O homem morrinhento salta à praia mas ao tocar com o pé na areia converte-se em cinzas, como se tivesse morto lá há centos de anos. O Bran relata então as suas aventuras, depois escrebe-as em verso, em ogham, sobre umas peças de madeira que deita na praia. Despede-se e desde aquel momento nunca máis se soube dele nem das súas aventuras...

Lembre-se que nos dias do presente mês de novembro as portas do Além vão aparecer abertas, e receberemos e conviveremos com os nossos devanceiros. Aa lúa cheia há de ser o momento de máxima apertura e esta aqui.Se não os podeis ver, abri os olhos do coração e da alma. É preciso dignificar e recuperar o seu legado e a súa profunda verdade. Mantenhamos a fogueira acesa.

Bom Sámanos a todos.


domingo, 25 de março de 2012

Galiza: a Galtia, berço dos celtas.

Por David Outeiro

Segundo o Lebhar Ghabála Érenn (Livro das invasões de Irlanda, S II) a última vaga chegou a Irlanda desde o reino de Brigántia, a terra de Breogan e dos Milesianos, a atual Galiza. Foi Ith, filho de Breogan, quem alviscou a ilha desde uma Torre. Ith embarcou-se de cara aquela ilha, mas os nobres nativos decidiram assassiná-lo. Os Milesianos, celtas goidélicos de Brigántia (Bergantinhos), embarcaram-se rumo a Ilha para vingar a morte de Ith. Após chegar a Irlanda, encaminhar-se-ia a Tara para reclamar a soberania da ilha. Durante o caminho aparecem-se Banba, Fodla e Ériu; tríade divina que representa as deusa-mãe da soberania, a mulher do rei celta. Os Milesianos, com a ajuda do seu druida Amergin, vencem finalmente aos Tuatha Dé Dannan. Por causa disto, os Irlandeses sempre acreditaram ser descendentes de galegos.
Em 2006, Bryan Sykes ex-professor de Genética humana da  Universidade de Oxford publicou o livro com o título de “The blood of the Isles”. O livro é o resultado dum estudo genético com o fim de pesquisar a origem da população das Ilhas Britânicas. Os resultados avaliaram o dito pelo Lebhar Ghabála; os Irlandeses descem de “Galegos”. Uma história conservada durante milénios pôde ser avaliada. Mas não só isso.. A identidade de Breogan existiu entre os galaicos, tal e como evidenciaram os jazigos do Facho de Donão (Cangas do Morraço). Era o deus dos mortos, o hospedeiro do Além, o Dis Pater do que diziam descer os galos.
Faz mais de 2500 anos, um nobre da “viril” Treba ou Teuta (Tribo) galaica dos Nérios morreu  em Tartessos. Lá se achou a sua lápide, e no epígrafe está a menção mais antiga á Galiza; a Gáltia. Quer dizer, a Céltia, o povo céltico genuíno, o berço dos celtas. Um povo que tinha uma “consciência nacional” e que tinha uma estruturação complexa comum aos outros povos celtas. Mas este nome também têm  a ver com a origem da sua linhagem de heróis fundadores da estirpe. É por isso que os galaicos se nomeavam a si próprios de Célticos, e é por isso que os autores do mundo clássico os identificaram como tais. Damos começo a uma viagem à génese mesma do nosso povo, da nossa origem; a “linhagem de celtiato”.
 A Europa do Paleolítico final faz 20.000 anos apresentava um panorama muito distinto ao de hoje. O Último Máximo Glacial supus que as populações se vissem forçadas a ir para o sul pelo avanço do gelo. Isso fez com que procurassem refúgios glaciais, lugares onde o clima fosse mais benigno e permitisse a vida humana. O NW Peninsular foi um importante refúgio glacial que deu acolhimento a estas populações. Pelo outro lado da Europa, os Balcãs e o Mar negro também foram refúgios glaciais similares mas os três estavam isolados e afastados. A população do NW da P. Ibérica passa-se por um gargalo de garrafa demográfico, quer dizer, a população sofre uma importante descida. É neste refúgio onde se origina o gene R1B do que falaremos a continuação. Ao Norte, a Europa estava sob uma grossa capa de gelo, e o nível do mar era 120m inferior ao atual, o que o mantinha afastado 12 km da costa atual.. Irlanda estava coberta pelo chamado Manto Fito-escandinavo, o qual empecia  a vida humana. As capas de gelo puderam supor que o NW da P. Ibérica esteve unida as Ilhas Britânicas neste período.
 Ao NW Peninsular chega uma população procedente do atual País Basco com o marcador genético Rox. Após milhares de anos produz-se uma mutação e surge o marcador Rory que só uma parte dos galegos possuem. Portanto, nesta altura existiriam dous haplotipos: o Rox e o Rory. Deste último gene, o chamado “Haplotipo Modal Gaélico” é do que fala Oppenheimer no livro “The origins of the British”. Este gene está fortemente vinculado a homens irlandeses com  nomes gaélicos.
 18.000 anos atrás chega a fim este máximo glacial, o gelo começa a fundir-se e o nível do mar vai em aumento. A população do NW Peninsular dá começo a repovoamento dos territórios do N. Parte desta população desloca-se às Ilhas Britânicas por via marítima. A colonização pelo continente não é possível por uma razão simples: Citando ao professor Manuel Díaz Regueiro (In Labirinto. Revista galega de divulgação científica) “A história, ainda na atualidade, está contada de tal jeito que se obvia a climatologia, determinante nos movimentos das populações europeias. Os grandes rios Europeus do noroeste de Europa confluíram num super-rio no Canal da Mancha há 20.000 anos, segundo nos contam na Universidade de Cambridge”. É por isto que as populações teriam grandes dificuldades para atravessarem a pé este rio por via continental. Também por via fluvial, já que a corrente e a amplitude do rio faria impossível o seu trânsito com tecnologia da época. Temos de ter também em conta que a corrente marítima chamada hoje Gulf Stream favorecia esse trânsito da península às Ilhas. Esta migração está portanto bem definida como resultado dos estudos genéticos Acrescentamos ao dito o resultado do projecto National Geographic/IBM Genographic Project dirigido por Spencer Wells: “DNA analysis shows that the ancestors of most Irish people came from the Iberian Peninsula, who moved north after the last Ice Age, which had depopulated Ireland”. Portanto, esta população do NW Peninsular levou até as Ilhas a sua cultura, a sua língua céltica (precedente do gaélico) e a sua religião. Sendo esta a origem dos povos que denominamos de celtas cuja população se foi expandindo desde o nosso Fisterra até o N e L de Europa.

A recente Teoria da Continuidade Paleolítica aponta a esta evidência. Citando novamente ao Professor Manuel Díaz Regueiro (Labirinto. Revista galega de divulgação científica p. 41-40): ”Nos anos 90, três arqueólogos e três linguistas, apresentaram independentemente uns dos outros, uma nova teoria das origens do indo-europeu -semelhante á Teoria da Continuidade Urálica-, na que se reclama a ininterrupta continuidade paleolítica também dos povos e das línguas indo-europeias. Os três arqueólogos e pré-historiadores são: o americano Homer L. Thomas, o belga Marcel Otte, um dos maiores expertos do mundo do Paleolítico Meio e Superior, e o alemão Alexander Haurler, um especialista na pré-história da Europa Central. Os linguistas são: Mário Alinei, Gabriele Costa e Cicerone Poghirc. “A ‘misteriosa chegada’ dos Celtas ao ocidente de Europa, obrigatória tanto do ponto de vista da Teoria Tradicional como da Teoria da Discontinuidade Neolítica (TDN), é substituída pelo panorama duma mais primitiva diferenciação dos celtas, entendido como grupo indo-europeu mais ocidental da Europa. É evidente que a Europa Ocidental deve ter sido sempre celta e a recente pré-história do Ocidente Europeu -desde a cultura megalítica, atravessando pela cultura do vaso campaniforme, até colonizar La Téne- deveu ser celta. Em consequência, a duração da expansão colonial dos celtas foi muito mais alargada do que se tem pensado e cresceu de oeste para leste, e não ao invés”.
 Durante milhares de anos as populações dos países celto-atlânticos continuariam interagindo após a migração por causa do seu posicionamento “geo-estratégico”. Esta evidencia é salientável no transcurso dos milénios, o qual deu lugar ao que o prof. André Pena Granha denomina Direito Celta Comum ou “Celtic Common Law”.
Temos de salientar o facto de os Irlandeses conservarem em forma de lenda esta realidade histórica. Mas não só isso, pois em certo modo os galaicos viviam na genuína céltica: a Gáltia. Temos a prova num epígrafe Tartéssico da Idade do Bronze.
O linguista e especialista em estudos celtas John T. Koch decifrou a língua tartéssica como  língua celta. Um interessante epígrafe pertencente  a uma lápide, decifrado por Koch diz o seguinte:
 “A invocação dos Lúgoves da gente Néria, por um nobre da Kaltai/Galtai(=Celtia =Gal(i)tia) descansa ainda dentro. Invocando todos os heróis, o sepulcro de Tasionos recebeu-o”
Com curiosidade sinala o Professor Moralejo "...que Callaecia tendría sus allegados etimológicos en latín callus ‘callo” y collis ‘colina, en el (pre)griego colofón… Y Celtae también podría entrar en la opción etimológica *kel-. Serían algo así como los ‘altivos’(…)”. (Juan J. Moralejo Álvarez. In Callaica Nomina)
Os Nérios, etimologicamente “os viris” eram uma treba galaica. Plínio IV,111” Celtici cognomine Nerii et Supertamarci, quorum in paeninsula tres arae Sestianae Augusto dedicatae” (Os célticos ditos de Nérios e Além-Tamâricos, em cuja península há três aras Sestianas dedicadas a Augusto). Mela III,11.  “Cetera Supertamarici Nerique incolunt in eo tractu ultimi” (aliás, Além-Tamáricos e Nérios moram nessa região última). Para o professor Higino Martins, Nérios e Supertamâricos eram os mesmos.

Todo isto quer dizer que nesta altura já existia uma complexa estruturação na sociedade galaica, a qual tinha portanto uma “consciência nacional”. As relações eram próprias duma sociedade estratificada, partindo desde os castros que se agrupavam em filiações de reinos tribais até grandes reinos ou confederações, chegando a ter um centro real como em Irlanda. Em certas datas do ano, principalmente Samhain (Sâmanos galaico), Beltaine (Beltónios), Imbolc (Ambíwolka) e Lughnasad (Lugunastada)  reuniam-se nas Óenach (Oinaikoi); assembleias políticas, religiosas, judiciarias mas também com características festivas. Estas assembleias realizavam-se em lugares com carácter sacro e não habitado onde confluíam distintas tribos ou até grandes reinos. A mais importante, o umbigo da Gáltia, a qual poderia estar vinculada o Rei Supremo era Nemetóbriga. O equivalente galaico de Tara.
Um ônfalon (umbigo) é um centro desde o qual se acha que foi criado o mundo. Neste caso o mundo dos Galaicos: a Gáltia. Este lugar, este Axis Mundi, era um eixo de comunicação entre o mundo dos homens e o mundo superior dos deuses. Mas também era uma volta ao centro, às origens, ao vínculo com os devanceiros e aliás por que isso, neste ponto central celebrava-se o grande Óenach, Oinaikos em galaico) da Gáltia. Citando a Manuel Almendro: “A Óenach representava assim o retorno à unidade original e à recriação da ordem. Servia para manter os simbolismos e o “Status quo”(…).” Era um regresso às origens, ao principio de todas as cousas, uma comemoração e uma representação do acontecimento mitológico que deu origem á sacralidade do lugar. Era um velório ao defunto fundador e as carreiras e competições de jogos funerários. Na Óenach, em presença de reis, nobres e povo em geral, o completo passado mitológico e cronológico da nação era conjurado ao presente pelos druidas (na Gáltia chamados de Durbedes”. Este Ómphalos era Nemetóbriga (Situado em Trives) onde à sua vez convergiam as três grandes confederações: Os Oinaikos dos Ártabroi, dos Gróbioi e dos Austúroi que com a chegada do Império Romano deram lugar aos Conventos (=Oinaikos/Óenach) Lucense, Bracarense e Asturicense.
Em Nemetóbriga deveu existir uma mâmoa fundacional, ao igual do que em muitos campos sacros da nossa terra. Estas mâmoas puderam pertencer a famílias das elites dirigentes. Eram uma referência para justificar o seu poder proveniente legitimamente do devanceiro ou herói fundador. É o caso duma mâmoa fundacional calcolítica de Cela-Nova cuja estela dizia “Aqui jaze Lateron, filho de celtiato” ou mesmo um epígrafe provavelmente vinculado ao guerreiro de Rubiães que diz “Latronus Veroti Filius”: ”Ladron (de Lateronus, que anda ao par do príncipe da treba), filho de Veroto, c.f Proto-celta *U(P)ERO>UERO>VERO “alto”, ”elevado”, ”importante mais o sufixo latino –tus- veja-se comparativamente Uero Breo “Senhor da Alta Casa”( André Pena Granha: Narão, um concelho com história de seu I. pág 38). Temos de ter em conta que as magníficas estátuas galaicas estiveram originalmente sobre grandes mâmoas dizendo: Esta é a nossa terra porque aqui descansam os nossos devanceiros.
E quem será o “herói fundacional” da Gáltia (=Céltia) e dos Celtas (os altivos)? Qual será a origem da linhagem galaica?. Os gauleses diziam ser descendentes de “Dis Pater”. E se os celtas eram os altivos e a Gáltia era a altiva…todos seriam filhos do “Altíssimo”, do “Dis Pater” do senhor da elevada fortaleça, da Bero-Briga da que falam as aras do Facho de Donão. Como diriam os cristãos “todos somos filhos de Deus”.
No Facho de Donão (Cangas do Morraço) acharam-se mais de 170 aras votivas dedicadas a um Deo Lari Bero-Breo ou Bero Breogoco, quer dizer, “O Senhor da Alta Casa (dos mortos)”, o senhor de Bero-briga…a elevada fortaleça. É o deus Hospedeiro, relacionado com a palavra Irlandesa Briugú e que aparece num epígrafe galaico como “Vestio Allonieco” (O Hospedeiro do Além(?)). Mas este deus têm outros epítetos, entre eles Cernunnos. O deus cornudo, soberano do Além. A cornamenta, como a do cervo, é também uma promessa de regeneração, de nova vida.


É, como sustém o prof. André Pena Granha, “O deus do terceiro passo (do sol)”. Mora lá onde se oculta o Astro-Rei, na ilha paradisíaca a onde se dirigem as almas: Tír na nÓg, Tir Na Ambam, Ávalon, Beróbriga...
Lateron dizia ser filho de Celtiato (o altivo) para justificar a sua linhagem e Latronus dizia ser filho de Veroto (o alto, elevado ou importante). É por isso que os celtas, entre eles os gauleses que diziam descer do Dis Pater, eram filhos do “Senhor da Alta Fortaleça” criador da estirpe, da linhagem da Gáltia.
E esse Senhor…Bero-Breo ou Bero Breogoco não é outro que ao que o Lebhar Gabhála Érenn é que se refere como Breogan.
Com razão o Hino galego, escrito por Eduardo Pondal, é que se refere à Nossa Terra como “Fogar de Breogan” ou “Naçao de Breogan”.

 http://www.calameo.com/read/0012929578820193f534d?authid=FfCi9pTFPgnJ
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