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sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Entrevista ao Homem da Pedra


Por David Outeiro

José Luís Lozano Rua é um homem humilde, mas conhecedor e sabedor do valor do nosso património. Há algo mais dum ano ele fez um achado importante. Trabalhando uma das suas leiras junto com o seu irmão deu com uma pedra enterrada que resultou ser uma "estela" com petróglifos e mais alguns outros elementos dignos de ser tidos em conta por uma administração que não só não atende aquilo que os galegos herdamos do passado mas que mesmo destrói o nosso legado ancestral. O fim da administração? Talvez seja muito arriscado dizer que não quer que exista o nosso passado porque não quer que existamos no futuro?....




Vamos ver que opina o nosso Homem da Pedra: 

Quando e onde é que apareceu o jazigo? Como é que fizeste o achado? foi casual?

O de jazigo é uma nova palavra para mim, suponho que é mais correcta do que achado, mas vou usar esta.

Tentarei de responder por ordem e não repetir as cousas. Eu faço isto desde um telemóvel, com o qual não tenho capacidade de ler em conjunto todo o que escrevo, para além dum pequeno parágrafo. Uma vez isto fica dito, lá vamos. Começo respondendo às duas primeiras de vez.
A leira onde apareceu a estela, está enquadrada no termo chamado da Pedralta. Não se sabe a sua antiguidade, mas sim a sua origem, a própria estela. No ano 2009, meu irmão, o proprietário desta leira, mandou-a lavrar a um vizinho de Vilamaior, uma aldeia próxima. O trator que usou é mais potente do que o nosso e aprofundou mais no terreno do que já tinha feito em outras vezes anteriores. Com isto quero dizer que o achado foi totalmente casual e o vizinho não lhe deu mais importância do devido, excetuando o dano causado no apeiro. Este labor foi feito em primavera e não foi até o outono -acho que foi novembro-, quando fui dar um passeio até o rio da Veiga, nome que lhe damos ao Tâmega. Desde a estrada de terra por onde ia eu, chamou-me a atenção aquele penedo, numa margem da leira. Uma pedra de granito, um perpianho distante uns cem metros de mim. Nesta margem do rio não há granito, só xisto (lousa), por isso o raro do assunto. Quando me aproximei para vê-lo melhor, o sol-pôr estava próximo, como muito a uma hora de luz. Essa luz que lhe dava à pedra, quase esguelhada, permitiu-me ver uns gravados desde longe, talvez uns quinze metros. O coração deu-me um pulo no peito. Aquilo era um petróglifo ali, saindo da terra! Isto pode parecer exagerado, inclusivamente poético, mas foi como sucedeu. O significado desses gravados não os soube até muito tempo depois.

Há máis jazigos arqueológicos nessa zona? há alguma lenda?

As estradas e pistas que hoje percorrem esta terra, não se correspondem com as anteriores à concentração parcelar dos anos 60/70. O mais provável é que a estela fosse quebrada e sepultada nessa época. Nas proximidades da Pedralta há outros termos, como o Castro, onde houve uma vila romana ou São Martinho, onde houve uma capela do mesmo nome e uma necrópole romano-sueva segundo os restos achados, vários sartegos e uma ara com o nome do primeiro homem empadroado nestas terras: Júlio Caro Tamagano. Neste ponto quero dizer, que a estela do Guerreiro também deixa constância doutro homem, mil anos anterior a este. Somente que a escritura é diferente. Pode-se dizer que hieroglífica no que diz respeita dos símbolos gravados. A estrada desde onde vi a pedra-estela leva o nome de Corredoira. Transcorre em direção Norte-Sul, quase paralela ao rio. Quinhentos metros ao norte, por arriba de São Martinho, está o castro da Cabanca, prospetado por Tavoada Chivite nos anos 50/60. No que diz respeito das lendas, estão as típicas de castros e mouros que falam de túneis até o rio e cousas assim.

Qual foi a reaçao do pessoal de Castrelo quando soube da estela e qual a dos responsáveis do património, dos arqueólogos e profissionais?

Agora passamos às pessoas. No povo não se faz muito caso deste achado, não porque não tenha importância, mas porque não se sabe avaliar essa mesma como património local e como possível fonte de recursos. A vida rural não deixa muito tempo para interessar-se noutras cousas. Desde o concelho de Castrelo, desde o primeiro momento passou o mesmo e quando vieram técnicos e arqueólogos datar, estudar e catalogar o achado já foi tarde. Isto não é uma opinião pessoal, é uma realidade comum a muitos temas, sobre tudo culturais. A cultura não dá de comer, portanto não é importante.
Resumo um pouco as voltas que me tocou dar desde o ano 2009. Nomear neste ponto a Bruno Rua, um amigo que tem um pequeno guia arqueológico da comarca e que foi o primeiro a quem lhe falei da pedra-estela naquele mesmo mês de novembro. Ele não soube ver as caraterísticas do achado, penso que condicionado pelas suas leituras, onde as estelas não existem no mundo castrejo, as influências celtas são posteriores, e a cultura atlântica não é tal. 
Todo isto que falo também não o conhecia eu, no entanto a feição da pedra sempre significou algo para mim, desde o primeiro momento. Um homem jazendo, uma tumba, nunca um guerreiro de pé, talvez uma figura ou lembrete de algo...

Continuemos. Quando finalmente, por meio de Bruno, vieram dous arqueólogos que andavam a fazer um estudo em Verim -Alberte Reboreda e Breogam Nieto- a ambos lhes surpreendeu a pedra. No entanto não falaram da sua importância nem de que era única em Galiza. Uns dias depois voltaram com um experto e o que eu pensei um técnico de património que se manteve em segundo plano. Geraldo (ou António, não lembro agora) Seara, diretor de património na província de Ourense. O experto é António de la Peña Santos, penso que diretor do museu de Ponte-Vedra e grande 'conhecedor' dos petróglifos galegos. Aqui começa o desencontro, digamo-lo así, entre aldeãos e património. Em primeiro lugar, depois de acordarmos avisar ao Concelho e interessados da sua chegada, não o fizeram. Após aguardar uma chamada, ao vereador de cultura, José Luís Santiago e mais eu, decidimos nos achegarmos a Pedralta... e surpresa!, quatro pessoas estavam a fotografar a estela in situ, e pareceu que a nossa chegada lhes produzia incomodo. Depois de alguns comentários fora de lugar e com muita pressa, acedeu-se ao traslado da estela ao pequeno museu etnográfico de Castrelo do Vale. As pressas nunca foram boas, disse o sapo quando caiu do valado e assim foi. No dia seguinte deu-se a noticia na imprensa e na televisão, sem nos dar tempo ao concelho e demais de tentar fazer as cousas doutro modo, algo que nos prejudicou ao longo desse ano e deste que remata. O tira e afrouxa continua.

Na túa opinião, onde deveria de estar a estela?

Não sei como fiar uma cousa sen outra. A ideia seria conservar o que se possa, os moinhos e represas, os lagares e caminhos, o próprio castro da Cabanca, ou a necrópole. Quando isto começou, há já dous anos, que parecem dez, falamos entre Bruno e eu de fazer uma área de interpretação no lugar da Pedralta. Um projeto a longo prazo, talvez trinta anos... Eu continuo com a ideia. Depois com o Miguel, passeando pelo castro, falamos de roteiros incluídos no projecto. Com Neves Amado a possível escavação da necrópole, restos suevos e romanos e provavelmente mais antigos e a estela como base da ideia. Sem ela não há nada.

Opino que a estela deve ficar na vila de Castrelo, no museu ou na sua ubiquação original. Não é minha intenção deixar de cumprir uma lei, que diz que esta e outras peças devem estar num museu. O feito de que se vaia embora a estela para Ourense é quase um roubo. Não só duma parte da historia de Castrelo e da comarca do alto Tâmega, também duma oportunidade única de melhorar a situação precária deste Concelho, das suas gentes. Uma pequena peça no mundo da arqueologia, mas uma peça fundamental no mundo rural.

Bem, verei se a imprimo ou a repasso. Se queres fazer alguma outra pergunta, aqui estou. Seguro que me queda algo no tinteiro, hei de buscar um par de nomes e apelidos para acrescentar.

Sobre as lendas, há uma referida à necrópole. Um vizinho diz que havia três povos, o castro, a vila romana, e o povo atual. Conta que vinham enterrar-se de trinta léguas à redonda ao São Martinho. Quase nada.

Sobre os crânios, há quem lembra o facto e falaram-me duma cabeça de raposo que veio do castro.

Fala-nos dos problemas que tiveche com a “Xunta de Galicia”?

Quando chegou a Castrelo do Vale o director do museu arqueologico de Ourense, vinha com a ideia de levar já a estela. Cousa que não pôde fazer por vários motivos. Entre eles o feito de que a estela se achava na casa familiar dos meus pais, onde eu lhe ia preparar uma base para expô-la no museu etnográfico. Dá-se a circunstância de ser eu filho de carpinteiro. Fazedor de carros e cubas o meu pai e de exercer o ofício de ferreiro, com o qual me ofereci voluntário para esse cometido. Esta situação não foi do agrado do diretor, de quem não lembro o nome, e decidiu apresentar uma denúncia que levou a abrir um expediente administrativo, onde se me acusou de 'sequestro' de bem patrimonial, com uma possível multa da que se fizeram eco os jornais, sempre sedentos de titulares. Depois de recolher assinaturas na comarca, de apresentar-se diversos escritos atenuantes desde o concelho e de senhas cartas enviadas ao Valedor do Povo e ao Defensor del Pueblo (um dado curioso foi que desde Santiago e desde Madrid, com a mesma lei, um aceitou a petição e o outro não). Bem, depois  desse, digamos, movimento de peças, veio um homem desde Santiago, Roberto Pena (não sei justo qual é o seu cargo, desculpe-se o meu desconhecimento), com a ideia de conciliar posturas.
Salto de novo a pergunta. A ver se acarão do fumeiro me saem as respostas.
Vou pela oito, para falar de prós e contras. 
Quem te apoiou?.

Desde o princípio houve muitas pessoas que se interessaram pelo achado dum ponto de vista pessoal e académico. Em primeiro lugar, o meu amigo Bruno Rua, que se plantou com argumentos irrefutáveis sobre a permanência da estela em Castrelo do Vale. Em especial Miguel Losada, pessoa envolvida em qualquer projeto cultural, que fale de conservar tradição ou mostras da nossa historia. Neste ponto falar de Manuel Gago, quem desde a notícia dada na imprensa, apoiou o seu estudo e estadia no povo onde foi feita e posta em pé; a arqueóloga Neves Amado, que respondeu com firmeza todas as minhas perguntas. Mais pessoas se foram conhecendo a partir destes quatro nexos, com maior ou menor interesse na particularidade do achado. Nas últimas datas, começando por ti, David Outeiro, José Manuel Barbosa e a partir dele André Pena Granha.
Quando estive a recolher assinaturas pela comarca, as primeiras foram no escritório de Correios, onde a resposta foi positiva e me animou a continuar. Depois em locais comerciais e de hostelaria, quase todos conhecidos meus. Nomear ao Miguel e ao Suso, que se envolveram e recolheram um bom monte de assinaturas entre os dous. Falar duma moça, que pus em risco o seu posto de empregada, por uma causa que ela considerava justa. Visitei também várias escolas, onde firmaram a maior parte de mestres e mestras, ainda que logo não quiseram fazer mais nada, como uma visita ao Gaias que eu lhes propus...

Agora um apontamento do rechaço ou desinteresse de certas pessoas, que na minha opinião deveriam, quando menos, interessar-se. Num instituto de ESO, os papeis 'extraviaram-se' duas vezes, depois soube que os professores de história decidiram não assinar em bloco. Algumas pessoas que não assinaram argumentando diferentes razões, cada qual mais curiosa. E por último, o caso que mais salientamos: Uma visita ao concelho de Verim, uma conversa com a pessoa responsável de Cultura desse concelho. Isto foi em Abril de 2012, quando a notícia se deu a conhecer um ano antes. A resposta à minha petição de apoio, foi contestada com un contundente " não sei nada'. Esta resposta, para além de me deixar frio demonstrou-me o interesse certo das administrações na cultura.

Onde é que está atualmente a estela? Sabes qual é o que pretendem fazer com ela num futuro?

Teve lugar uma reunião na Câmara Municipal (tentações tenho de pôr “inquisitorial”), entre as partes interessadas. Decidiu-se um convénio, só verbal, de ceder durante un ano a custódia da estela ao Concelho, prorrogável mais tempo se assim se decidia. Também envia-la à exposição “Gallaecia Pétrea”, durante o tempo que esta dura-se. Nesse intervalo de tempo, o Concelho levaria a cabo a habilitação duma sala no pequeno museu etnográfico da localidade, cousa que está sem fazer, depois de seis longos meses, porque pode que esse convénio verbal não seja válido. Como se diz: não é vinculante de qualquer jeito. Se quiserem desde património cumpre-se e se não, não há nada que fazer.

Tens algum projecto atualmente ou de futuro?

A recolhida de assinaturas foi o começo do caminho. Posto que não há resposta por parte de concelhos e equipas docentes. Nem da gente do comum, longe de assinar, decidi procurar apoio em associações culturais doutras partes de Galiza, ou da Gallaecia, pois fui a Chaves e à Póvoa da Seabra. Vendo o que se faz em Lugo com Trebas Galaicas, em Santiago com O Sorriso de Daniel ou a Gentalha do Pichel, ou a associação de Amigos dos Castros, Penas Mouras, o Galo..., por nomear algumas. Seguindo esse exemplo, quis formar uma associação cultural na Vila de Castrelo do Vale, algo que por enquanto não tem sido possível por varias causas. Curiosamente, eu sempre fui amante da natureza, graças ao grande Félix Rodríguez de la Fuente e durante este ultimo ano dei-me conta que a conservação do património pode e deve ir unida a conservação do espaço que criou esse património, tanto natural como imaterial... às tradições e costumes, ao jeito de aproveitar os recursos naturais, à forma dos próprios rios e montes... Todo isto conforma uma cultura, um modo de vida e à gente.
Não quero voltar ao século dezanove, nem há três mil anos, no entanto pode-se cuidar o contorno em lugar de usá-lo e com ele cuidar essa nossa cultura e história. Algo tão simples como limpar os caminhos antigos ,cheios de silvas e tojos, às margens dos rios, com o mesmo problema, os montes, invadidos de espécies forâneas que literalmente esgotam e envenenam a terra, ou manter em pé moinhos, lagares, pressas, que foram construídas pelos nossos antergos. Ruínas que falam, não de quem fomos, mas de quem somos hoje e não permitirmos que a nossa história e cultura esmoreçam a prol dum progresso nocivo e destrutor do espírito humano.




terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Castelão censurado ontem e hoje.


Por José Manuel Barbosa

Em 7 de janeiro de 1950  morre Castelão. Faz hoje 63 anos da sua morte.

Finalizada a Guerra de 1936-39, vieram anos de escuridão, tristeza, medo, repressão, falta de liberdade e mesmo de censura política exercida por todo o Estado, incluída a Galiza.

Perante a morte de Castelão, o dia 7, a censura do regime franquista em Espanha fez com que os jornais recebessem a seguinte consigna enviada pela "Dirección General de Prensa" a todos os jornais espanhóis o dia 8 de janeiro, uma vez que aconteceu o óbito do galeguista:



"Habiendo fallecido en Buenos Aires el político republicano y separatista gallego Alfonso Rodríguez Castelao se advierte lo siguiente:


La noticia de su muerte se dará en páginas interiores y a una columna.


Caso de insertar fotografía, esta no deberá ser de ningún acto político.


Se elogiarán únicamente del fallecido sus características de humorista, literato y caricaturista.


Se podrá destacar su personalidad política, siempre y cuando se mencione que aquella fue errada y que se espera de la misericordia de Dios el perdón de sus pecados.


De su actividad literaria y artística no se hará mención alguna del libro “Sempre en Galiza” ni de los álbumes de dibujos de la guerra civil.


Cualquier omisión de estas instrucciones dará lugar al correspondiente expediente.".


A dia de hoje, os herdeiros dos que deram esta ordem entregam cada ano as Medalhas de Galiza com o nome de Castelão
Não há muito que acrescentar, só que na Galiza de hoje achamos em falta uma figura da inteligência e da talha política do rianjeiro. Se ele estivesse presente a dia de hoje, a Galiza seria mais Galiza e seria menos dependente das linhas diretrizes absurdas, inadequadas e agressivas que desde Madrid se indicam e se executam em detrimento do nosso País. 



quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Sobre a amputação da memória


Por Carolina Horstmann

Começamos estas últimas décadas com acontecimentos sociais fortes. Tínhamos por costume nos perguntarmos: Onde é que estavas tu o 11 de setembro? E o tema do World Trade Center deu passagem para o esquecimento, ficou deixado para os comentários e as trocas de opiniões numa noite de canecos de cervejas. Ficamos cheios de palavras como: Talibã, terrorismo, Osama bin Laden, etc... intoxicamo-nos de notícias e novidades.

O ano de 2003 poucos se perguntaram pelos acontecimentos no Iraque após a queima da Biblioteca e a perda de inúmero material do Museu. Muitos menos souberam onde foi que começaram a aparecer os “souvenirs” que tiraram dum país em guerra um grupo de jornalistas duma conhecida cadeia de notícias. A nossa memória sei-que dura o que dura um segmento do noticiário...depois...nada.

Agora hás de te perguntar, com certeza: Como foi que não me inteirei do da Biblioteca do Cairo? São as notícias que correm esta semana (pelo menos por alguns média digitais). O fogo começou nas proximidades da Biblioteca e os manifestantes (enquanto eram atacados pela polícia antidistúrbios) tentaram durante horas resgatar volumes, uma após outro de entre as lapas.

No Instituto Egípcio do Cairo, perderam-se quase 160,000 exemplares, muitos deles únicos. Entre eles podemos contar a obra que Napoleão encomendou a um grupo de cientistas, a chamada Description de L´Egypte, volumes ilustrados por uns 2000 desenhadores e gravadores, que demorou quase 20 anos em ficar rematada..

Como é possível que continuem a acontecer uma e outra vez esses mesmos eventos, ainda com as medidas atuais para a proteção do património mundial?

Sobre a perda da memória.
Se há algo que chama a atenção a dia de hoje, é o letargo que nos corrói. Chega só com ouvir qualquer conversa num lugar público para confirmar o sentimento. Adormecidos, aletargados. Confiados num sistema que dá e responde a todas as nossas necessidades, anestesiados até a medula.

Geração após geração avança este processo de desmemorização perdendo o contato com a nossa história num constante puxar da sociedade atual para nos preparar e nos educar constantemente de cara “ao futuro”. De que jeito havemos de ter futuro se não estamos conetados com o passado, se a história foi apagada, anulada ou re-escrita desde tempos antigos?

John Milton no seu “Areopagítica”, afirmava: “matar um bom livro é quase matar um homem”. Não deixo de pensar que se o aplicarmos à Galiza teríamos os campos cheios de corpos. Não me estou a referir só aos livros destruídos pelo lume ou o deterioramento mas a toda a informação que durante séculos foi silenciada, apagada completamente da nossa história, negada aos estudantes nas suas aulas...

A aniquilação da memória v/s a tentativa de preservação da documentação.
A UNESCO, com o seu programa “Memória do Mundo”, faz uma tentativa de preservar e difundir a documentação mundial, sobre tudo aquela que se acha em lugares de conflito bélico ou destinada a desaparecer pela passagem do tempo. Tendo a encomenda, também, de sensibilizar aos cidadãos sobre a importância que tem para os povos e para os governos este património cultural.
Estabelece este programa quatro razões fundamentais da destruição dos livros:

1.      Catástrofes naturais (inundações, terramotos e incêndios)
2. Catástrofes provocadas pelo homem (guerras, prejuízos, perseguições, lutas religiosas...)
3.      Inimigos naturais (Insetos, umidade, meio ambiente, contaminação)
4.      Papel autodestrutivo (excesso de acidez nos textos actuais)

Estamos perante uma louvável iniciativa, não há dúvida, mas... soluciona realmente os nossos problemas de fundo? Cria reação nos governos? Mobilizam-se as organizações para salvaguardar esse património? Informa-se ao conjunto dos cidadãos? Consegue-se a tomada de contato com as pessoas?

Segundo diz o bibliotecólogo Fernando Báez no seu livro “Historia Universal de la destrucción de libros”, que o livro não se destrui como um objeto físico, mas é que se procura a sua eliminação como vínculo de memória: “O livro dá volume à memória humana”. É este vínculo livro-memória o que dá a força e a constância ao património cultural dum povo ou uma nação. É este património o que conforma o sentimento de afirmação e pertença. A destruição dum livro, portanto, faz-se com a intenção de aniquilar “o património das ideias duma cultura inteira”.

Por cada alínea apagada do nosso passado histórico temos uma alínea menos de verdade num presente que não sabemos compreender. Uma história atual que somos incapazes de enxergar com senso cabal por causa do puzzle aparentemente incompleto no que nos mexemos.

A Galiza tem-se visto enfrentada à luta de poder das altas cúpulas político-religiosas, enfrentando-se com homens profundamente dogmáticos aferrados a um livro irrefutável (e aos seus próprios interesses mundanos). Um livro sagrado que não aceita discrepâncias, que apaga todo posicionamento contrário, que elimina ou tergiversa as verdades que deram alicerce e forma ao Gallaeciense Regnum.

Amputação da memória Galega.
O caso de Galiza, pode ter por resumo “a história contada pelos vencedores”, “Santos senhores” com poder para escrever e re-escrever a vontade. Cronistas, historiadores, eclesiásticos e hábeis políticos que tiveram a encomenda de eliminarem ou manipularem, anulando o nome da Galiza de todos os documentos possíveis.

Figuras salientáveis nesta eliminação de documentos foram: Lucas de Tui, Pelayo de Ovedo e Rodrigo Ximenes de Rada. Todos do S. XII ou XIII a partir dos quais toda contrução histórica feita em adiante ignora Galiza e põe no seu lugar uma Castela neófita e sem experiência. Numa recontrução historiográfica peninsular que a dia de hoje impede que qualquer estudioso chegue a reconhecer a Galiza como o primer Reino da Europa Medieval, ainda existindo Roma.


·    Durante a ocupação romana, a Gallaecia foi uma das províncias do império mais sucedidas economicamente, culturalmente e do ponto de vista artístico sendo o elemento indígena fulcral. Figuras como Prisciliano, Egéria, Paulo Orósio, e Idácio Lémico foram prova da importância da Nossa Terra. A figura de Prisciliano poderia equiparar-se a outras paralelas dentro do mundo céltico e atlântico como São Patrício, São Davide ou Santo André. Aliás, Prisciliano, pode dar pistas a respeito do fenómeno Jacobeu já que há quem assegura que quem realmente está (ou estava) em Compostela não era São Tiago, mas Prisciliano. As provas não são determinantes, mas a lógica leva por esse caminho.

·        Os suevos, um povo germânico dos mais evoluídos e “romanizados”, constituíram na Gallaecia, a zona mais rica e desejável para eles da península, o primeiro Reino independente de Roma com um projeto militar e político de unificação peninsular com capital em Braga e com o apoio, colaboração e implicação dos galaicos que o sentiam como seu. A importância dos mesmos é grande: Com eles a Gallaecia constituiu-se no primeiro Reino medieval da Europa; foram os primeiros em emitirem moeda, o Sólidus suevo; os primeiros em legislar, administrar e construir um Estado; o primeiro Reino cristão após Roma; os criadores da mal chamada “letra visigótica” já que na realidade começou a existir na Gallaecia antes da chegada dos godos; os criadores da primeira arte pré-românica com elementos como o chamado arco de ferradura que na historiografia castelhanista diz-se visigodo; os primeiros em assumirem o cristianismo católico antes do que qualquer outro povo germânico, por isso a sua aceitação pelos galaicos. Na historiografia castelhanista diz-se que foram os visigodos os primeiros em aceitarem o catolicismo...

·        Durante a unificação suevo-visigótica a Galiza manteve a sua personalidade política e administrativa, cultural, social e económica, contrariamente à ideia castelhanista dum Reino unificado visigótico com capitalidade centralista em Toledo e primeira amostra de Estado Espanhol pan-peninsular. Os Reis tinham o título de “Reis de Espanha, Galiza e a Gália” entendendo que a Galiza e a Espanha eram realidades diferentes. A Gália num princípio ocupava a actual Ocitânia para posteriormente ficar só na Septimánia ou Narbonense.

 A dia de hoje, nomear acontecimentos como estes em determinados contextos é motivo de censura, qualificando a quem defende isto como de radical ou no melhor dos casos como anti-espanhol. É por acaso mais sensato guardar os acontecimentos passados para não perturbar a “aparente acálmia” do presente?

Devemos por acaso mantermo-nos na indiferença? Ficarmos com as verdades à metade? Permitir com que os acontecimentos vitais na memória histórica do nosso povo se passem desapercebidas para uma população necessitada de conhecimentos?

Não podemos alimentar a desídia, não podemos deixar nas mãos de organizações muito afastadas de nós o património que vai ficando sem antes escavar e achar a verdade das nossas raízes. Tudo é vital, tudo é um elemento precioso, desde as histórias dos vencedores até os relatos familiares tão ricos em tradição e memória histórica. É tempo já de cada um de nós começar a reconstruir a nossa própria história pessoal e grupal e todos em conjunto a nossa história nacional, tão maltratada, tanto pelos poderosos que no-la escrevem como por nós próprios.

O importante, após reflexionarmos sobre estes pontos em questão, é sabermos até onde estamos dispostos a chegar e até onde somos capazes de permitir a ignomínia da desmemória e da autodesidentificação.



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