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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

HISTÓRIA DA LÍNGUA: Etapa de formação



Por José Manuel Barbosa

A Gallaecia, já romana, entra a fazer parte do mundo imperial e adota pouco a pouco o latim como língua culta embora continuasse com a sua língua autóctone até bem entrada a Idade Média, segundo nos manifestam André Pena e Higino Martins. É essa língua galaico-lusitana o substrato do futuro galego-português e é o latim a base dessa  nova língua neolatina galega, portuguesa ou galego-portuguesa (1)
Segundo Eugênio Coseriu (1989: 793-800) a península ibérica recebe a entrada do latim desde dois diferentes pontos: um desde a costa Tarraconense alimentando os Conventus mediterrânicos; e a outra que penetra desde a Bética subindo pela Lusitânia e chegando á Gallaecia onde de Oeste para Leste vai ocupando pouco a pouco as terras bracarenses, lucenses e posteriormente asturicenses. O primeiro é chamado Latim Citerior. Ulterior o segundo. Mas os acontecimentos posteriores à queda do Império Romano fazem com que a chegada dos povos germânicos à península e nomeadamente os suevos à Galiza tornem o latim numa língua franca entre galaicos-romanos provavelmente bilingues (ou talvez diglóssicos), em latim e galaico-lusitano, e suevos de fala germânica trazida do centro da Europa. Ambos os povos distantes linguisticamente entre si procurassem no latim o seu ponto de encontro. 
 Este latim hispânico ulterior acabaria vendo-se determinado por vários fatores:
1- A chegada do cristianismo, que levaria a cabo o seu projeto ideologizador em latim.
2- A criação do reino suevo fazendo que a língua de Roma se assentasse e consolidasse como língua franca entre galaicos de fala celta e suevos de fala germânica. Esta circunstância vai dar-lhe caráter diferencial dentro dos limites dessa Gallaecia tardo-romana e proto-medieval. 
Com isto, a língua dos suevos, mais débil dum ponto de vista demográfico, cultural e do prestígio social vai ver-se afetada e deslocada do seu contorno natural, próprio do povo germânico que até agora o usava, por este latim galaico durante este processo de substituição, mas também deixando uma importante pegada no novo romanço.
Posteriormente à unificação política do Reino de Visigodo e do Reino da Galiza da mão de Leovigildo e sob hegemonia toledana, pouco ou nada se vai ver na direção duma grande unidade linguistica peninsular, que no seu canto Noroeste, protegido pela incomunicação orográfica, pela unidade política entre as duas etnias aliadas –sueva e galaica- e a fácil adaptação entre ambas, começa a delinear uma criação linguística nova, fruto da dialetalização da língua trazida pelos romanos.
Ao mesmo tempo, com a chegada dos muçulmanos à península, acrescentar-se-ia este facto, delimitando-se um território político com o nome de Gallaeciense Regnum segundo nos dizem as fontes historiográficas andalusis, carolíngias, papais, escandinavas, anglo-saxónicas e grande parte das peninsulares segundo nos informa o professor Lopez Carreira (2005:111-141).
 Em troca, esse Reino galaico vai ser denominado de  Reino de Astúrias ou Reino de Leão nos textos da historiografia tradicional castelhanista embora achemos  em aqueles textos de maior fiabilidade e não retocados pelos cronistas castelhanos de séculos posteriores, um Gallaeciense Regnum, Al-Khalikija ou Christianorum Regnum. A sua primeira corte é em Cangas de Onis, na região das Primórias, posteriormente em Právia, depois Oviedo e mais tarde nas cidades de Leão ou Compostela. Duas capitais: uma política e outra religiosa, seguindo modelos do Sacro Império que tinha a Roma e Aquisgrão.
Foi com a chegada dos muçulmanos à península (710 d.C.) quando aparecem as inovações específicas e mais características da nossa língua, resultado do isolamento dos falares da Galiza medieval e da peculiaridade do Reino criado pelos Suevos trezentos anos atrás. Surge assim nos séculos VIII e IX a língua do Reino da Galiza que se vai manter por oposição à Espanha muçulmana, denominada esta última pelos documentos da época de Spanija, ou Al-Andalus.
Éste latim norte-ocidental começa a se diferenciar dos outros latins da península e da Romania. Já não é tanto ulterior, quanto especificamente galaico e vai acabar impondo-se sobre a sua antecessora e céltica língua galaico-lusitana da mesma forma sobre a fala dos imigrantes germânicos centro-europeus gerando por volta do século X um Proto-romanço galaico, Galaico ou Galeco como lhe chama Carvalho Calero (1983:15-27).
Segundo nos contam estes nossos autores podemos deduzir que houve um momento de bilinguísmo substitutivo entre o romanço proto-galaico e a língua céltica galaico-lusitana que acabou com o retrocesso e desaparição da tradicional língua céltica galega, lusitana e provavelmente também cantábrica a partir do ano 1000 aproximadamente, como nos diz Higino Martins (2008: 151).
         Esta forma de romanço primitivo vai ser a base tanto do galaico-português como do asturo-leonês, assim como ulteriormente do castelhano, como forma de asturo-leonês mas oriental. Coseriu chama-lhe a essa língua Galaico-Asturiana, (1987: 793-805) e Rodrigues Lapa simplesmente nomeia-a de Romanço Galaico (1981:54). Nós concordamos com Carvalho Calero e Rodrigues Lapa no nome de Protogalaico ou Galaico por serem nomes mais amplos e abrangentes de toda a Gallaecia histórica.
        É o professor Ricardo Carvalho Calero quem nos comenta o facto de ser esse Galaico o proto-romanço do qual surgem inicialmente tanto o galaico ocidental ou galego-português quanto o galaico oriental ou asturo-leonês indiferenciados entre si num começo e que ele identifica por volta dos séculos IX e X. (1983: 18)
          Do Galaico Oriental, ou asturo-leonês neste caso, surge na sua parte mais oriental o que posteriormente seria o castelhano sob substrato vasconço e importante influência navarro-aragonesa. O próprio professor espanhol Rafael Lapesa (1991: 162) reconhece que as Glosas Silenses e Emilianenses do Mosteiro Riojano de San Millán de La Cogolla não estám num primitivo castelhano como se nos ensina habitualmente, mas num originário navarro-aragonês, o qual não é em absoluto estranho se temos em conta que a Rioja é uma região originariamente vasconça e navarra.
Segundo Lopez Carreira (2005:105) o vínculo parental e originário entre o Galaico e o castelhano pode ficar intuída num comentário que faz o bispo e historiador castelhano do século XVII Frei Prudencio de Sandoval, quem nos fala duma História da Espanha redigida no século XIII e provavelmente traduzida para o galego-português no XIV. Diz-nos acreditando na sua antiguidade que a original está numa “lengua castellana tan cerrada que parece portuguesa”.
O protagonismo dessa primeira parte da Idade Média corresponde ao Gallaeciense Regnum até o momento em que Castela colhe força política e militar. A língua desse território começa a desenvolver-se com a força que lhe dá um poder político forte e soberano e um prestígio na Europa que reconhece a Galiza segundo John Mundy (1991:40) como um dos três impérios do momento: O Império Bizantino, o Sacro Império Romano Germânico e o Gallaeciense Regnum.

“in 1159 the northern annals of Cambrai spoke of three empires: the Byzantine, the German and of the Galicia (St. James of Compostela)”

Os limites do romanço dos galegos nessa altura histórica seriam os limites desse Gallaeciense Regnum -que tanto negam os historiadores pró-castelhanistas- até o ponto de Roger Wright dizer (1991:21-22):

“antes do milénio e quiçá antes do século XIII desterremos também os conceitos distópicos pouco úteis e anacrónicos tais como galego, leonês, castelhano(...); todos esses conceitos modernos estorvam à vista clara. A península (aparte dos que falavam basco, árabe, hebreu, etc) formava uma grande comunidade de fala, complexa mas monolíngue”.

Do nosso ponto de vista talvez não monolíngues em tudo o âmbito peninsular  mas sim monolíngues no que diz respeito ao território do Gallaeciense Regnum por ser esse galaico provavelmente diferente do latim citerior que teria originado as falas catalano-aragonesas. Intuimos com isto que o complexo catalano-ocitânico pudesse conformar outro núcleo linguístico diferente ao do Reino Galaico ligado mais à Gália franca do que ao Noroeste hespérico. No meio, o basco marcaria uns interessantes limites pouco reconhecíveis para um leitor do século XX ou XXI.

Essa situação linguística da velha Galiza medieval -que o professor Carvalho Calero diz “Viveiro de Romanços”-, vai perdurar enquanto dura a hegemonia galaica com um intuito de construção de uma unidade peninsular sob projeto nacional galaico. Isto é até aproximadamente a assunção ao poder do navarro-castelhano Fernando I, no século XI e talvez até o século XII onde o começo dos conflitos políticos pelas estremas castelhanas vão favorecer as ruturas linguísticas. De não se produzirem estas ruturas políticas, a unidade linguística galaica e a sua hegemonia no contexto peninsular seria perdurável. Na altura essa língua é nomeada já de “galego”, bem por ser a Gallaecia o seu berço originário, bem por entenderem os coevos que era a língua desse reino denominado por todos na altura de “gallaeciense”.
Finalmente com as ruturas de Castela no oriente e de Portugal pelo Sul, ficam alterados e deslocados os equilíbrios polítivos e as hegemonias vão ver-se modificadas. Justo no momento de maior florescimento da Galiza acontece a sua desintegração territorial, desequilibrando as forças peninsulares em detrimento do poder galaico e em favor do castelhano-toledano.
Entre os séculos IX ao XII vai dar-se uma etapa na história da língua na que o seu uso vai ser fundamentalmente oral enquanto as formas escritas pelos letrados daquela época vão ser um jeito de latim medieval cheio de giros que havemos de reconhecer como próprios do atual galego-português.


Esta situação de oralidade e tendo em conta a importância do Gallaeciense Regnum e da sua língua em época alto-medieval, causa-nos sensação de estranheza. Surpreende-nos que não sejam conhecidos documentos anteriores ao século XII.


No caso de outras línguas romances como o francês ou langue d’oil existem documentos do século IX como são os Juramentosde Estrasburgo (842) ou a Sequência de Santa Eulália (881) que consolidam esta língua bem diferenciada do Latim. Mesmo nos romanços italianos achamos os primeiros documentos em 960. Porque, portanto, o galego-português só tem textos desde finais do século XII? Quiçá dentro da luta pela hegemonia peninsular entre galegos e castelhanos se chegasse ao ponto de ter-se produzido destruições de documentos antigos por razões políticas e interesses espúrios da mesma forma que temos constância de manipulações e de outras desfeitas conhecidas como é o caso do Bispo Pelayo de Ovedo, Ximenez de Rada, Lucas de Tui, e outros?
Partindo desta oralidade, pouco a pouco o já galego vai ser empregue como língua normal em todas aquelas funções que uma língua tem num país normalizado e soberano, sem distingos sociais. Todas as funções, exceto a internacional, que é reservada para o latim.
            Esta situação funcional é também normal na Europa nesta altura histórica da que estamos a falar. Na Galiza parece apresentar uma situação de diglossia galego/latim que não oferece obstáculos nem anormalidades dentro dum contexto inserido no Orbe cristão europeu que se exprime basicamente em Latim como língua franca continental. É portanto o galego a língua de todos os galegos, mesmo dos reis da Galiza, forem estes coroados em Compostela, Oviedo ou Leão. Os reis -comenta-nos André Pena- falavam galego e mesmo os filhos dos reis eram criados por tutores da aristocracia galega, os quais marcavam o caráter dos futuros monarcas, marcavam a política e mesmo as relações diplomaticas da época (A. Pena, A:1995).
Guardamos provas documentais indiretas da língua dos Reis, como a recolhida por Frei Prudencio de Sandoval, historiador originário de Valhadolid do século XVI-XVII que reproduz os soluços de Afonso VI perante a morte em 1108, na batalha de Uclês do seu filho Sancho, herdeiro do trono. A língua na que chora o Rei não é precisamente o castelhano.
Segundo nos conta Sebastián Rico (1970: 219) na crónica do Frei Prudêncio de Sandoval o Rei diz:

 “...y en la lengua que se usaba dijo con dolor y lágrimas que quebraban el corazón: Ay meu filho! Ay meu filho! Alegria do meu coração et lume dos meus olhos, solaz da minha velheçe! Ay espelho em que me soya veer, et com que tomava muy grand prazer! Ay meu herdeyro mor! Cavaleyros, hu me lo leixastes? Dade-me meu filho Condes!”

Outros autores confirmam isso mesmo como por exemplo António José Saraiva (1995:15), ou mesmo Afonso o Sábio na sua Primeira Crónica Geral de Espanha, Benito Cano em 179 etc...
Mas foi na época de Afonso VII Reimundes o Imperador, que se nos faz passar por castelhano nos estudos oficiais de todas as universidades da península (2) quando o condado portucalense consegue a sua  independência fazendo da nossa língua comum a sua língua nacional. Língua que desde esse momento vai começar a ser enxergada como língua portuguesa.
Também não nos admira que reis posteriores como Afonso o Sábio (Afonso X segundo o cômputo castelhano, mas IX segundo o cômputo galego) ou Fernando III empregassem o galego-português como língua veicular. Era a língua natural desses Reis mas foram curiosamente estes dous últimos os que mudaram o sentido do projeto unificador peninsular. Dum projeto galaico passou-se a um projeto castelhano. É por isso porque a península ibérica de hoje está ocupada majoritariamente pela língua castelhana.

Textos
 
Documento não orginal mais antigo galaico-latino (doação á igreja de Sozelo). Ano 870.

            Christus. In nomine domini nostri Jhesu christi. In honore sanctorum Apostolorum Martirum confessorum Atque uriginum et omnium chorum angelorum salutem Aeternam amen. Ego cartemiro et uxor mea Astrilli abuimus filios et filias nominibus fofinu et gaton et arguiro et uistremiro quinilli et aragunti.et peruenerunt illos filios barones ad ordinem monacorum.et accepit inde fofinus ordinem primiter habitantem in eclesia uocabulo sncte eolalie uriginis fundata in uilla sonosello de presores de ipsa uilla. Ego carterimo et astrilli una cum filiis meis fundaui eclesiam in nostro casale proprio exepre de nostros heredes uocabulo sancti saluatoris sancti andree apostoli sancte marie uirginis et sancti thome apostoli sancti petri apostoli accepit uoluntas dei.et factus de ipsa eclesia cum ipso casale testamentum post partem de propinquis nostris et pro remedio animas nostras et omnes defunctorum que in ipsa eclesia sepulti sunt. Contestamus ad ipsa eclesia illa hereditate per suis terminis qui habuimus de presuria que preserunt nostros priores cum cornu et cum aluende de rege et habuimos VIª de ipsa uilla que habuimus per particione et medietate de illa fonte de salmegia.contestamus cum suo ornamento eclesie libros casullas uestimenta altaris uel templi cruces super euangelia et corona et calice et patena argentea.contestamus in ipsaeclesia cum quantum ominis hic aprestitum esto.sgnum caballos equas boues et uaccas pecora promiscua cubus et cupas lectos et cagtedras mensas sautos et pumares mexinares uineales terras ruptas uel barbaras casas lacar petras mobiles uel immobiles.et diuidet ipso casal ubi ipsa baselica fundata est per casal de louegildo.et inde per rego qui descorret a casa de trasmondo.et inde per ipso uallo et suos dextros et tornat se unde primitus inquoauimus. Ego cartemiro concedo ibidem larea que iacet in çima de ipso uiniale.et habet ipsa larea in amplo VIIIº passales et in longo peruallatur.contestamus ipsum quod in testamento resonat ad ipsa eclesia et ad propinquis nostris fratrum uel sororum monacorum uel clericoru.et qui bono fuerit et uita sancta perseuerauerit habeat et possideat.contestamus ipsa eclesia cum omnia sua ornamenta et sua prestantia.et qui hunc factum nostrum inrumpere quaesierit uel extraneare uoluerit sedeat separatus et excomunicatus et cum iuda traditore habeat participium.et insuper pariat due libra auri bina talenta et a domno qui illa terra imperuerit aliud tantum, et hunc factum nostrum testamentum plenam habeat roborem. Notum die erit pridie kalendas magii era DCCCCVIIIª Cartemiro et astrilli in hoc testamento manus nostras rouoramus.

Gaton abbas confirmo –Zalama abba conf. –Randulfus presbiter conf. –Biatus presbiter confo. –Gundisaluus conf. –Elias presbiter conf.

Pro testes –Aluaro testes –Trasmondo test. –Gondulfo test. –Viliatus test. –Vimara test. –Gaton test.

Menendus presbiter notuit.


Texto original galaico-latino mais antigo que se conserva datado no ano 882 e escrito em letra mal chamada visigótica (3). Fala da fundação da igreja de Lauridosa, hoje Lordosa em Vila do Conde:

Christus. In nomine patri et filii et spiritus sancti.domnis inuictissimis ac triumphatoribus sanctis martiris petri et pauli sancti migaeli arcamgeli.cuius baselica fundamus in uilla quod uocitant lauridosa inter duas annes kaualuno et cebrario subtus monte petroselo territorio anegrie.ego serbus dei muzara et zamora damus adque concedimus ad deum et ad ipsa baselica que nos fundamus in nomine sancti petri et pauli et sancti migaeli arcangeli.damus ipsa uilla ubi ipsa eclesia fundamus in omnique circuitu suos dextruos sicut kanonica sententia docet : duodecim pasales pro corpora tumudamdum (sic) et LXXIIos ad tolorandum fratrum adque indigentium et foru dextruos ipsa uilla pro ubi illa obtinuimus de presuria pro suis locis et terminus antiguiis cum pascuis padulibus montes fontes petras mobiles uel inmouiles aquis aquarum uel sesicas molinarum terras ruptas uel barbaras arbores fructuosas uel infructuosas accessum uel regressum cubus cubas lectus katedras mensas signum de medalo cruce kapsa calice de ariemto cum quamtumque ibidem aprestamo omnis est.damus atque concedimus ipsum que sursur taxatum est pro remedio animabus nostris ad ista eclesia adque sacrosancto altario quod subra taxatum est.concedimus ut diximus pro uicto atque uestimentum monagus et fratres et sirores et propinquis nostris et qui bonus fuerint et in uita sancta perseueraberint seculariter et uia monastica obtinuerint in ipso loco.sibe pro luminaria latariorum uestrorum uel elemosias pauperum.sicut lex et canonica sententia docet.et ibi notuimus ut nec uimdendi nec donandi neque a rex neque ad commide neque ad episcopo neque ad numlo omine inmitendi.se sidea semper inienua usque in sempiternum.et post parte propimquis nostris et qui unc facto nostro infringere uel conare tentaberit reus sit ad sancto comunione separatus et cum iuda traditore accipiat participio in eterna dnanatione sint dimersit (sit) in baradro inferni ubi fletus et ullulatus et anathema marenata accipiar.et in conspectu domini.et não abeant cum domino in prima resurectione ressusitandi.nisi percusus (?) ad eclesia et ab omni cetum christianorum......et insubra parient tantum et alium tanto quantum inde abstulerit et insuper auri talemtum post parti testamenti et coram pontificum.et iudice suo iudigado.et anc scriptura testamenti plena abea firmitate: notum die quod erit VI kalendas abriles era DCCCCXXª. Muzara et zamora in hanc kartula testamenti manu nostras.

Didagu conf. –gumsalbo conf. –uermudo conf. –gutierit conf. –uiliulfo conf. –sisnando conf.

Uimara conf. –gundiarius conf. –quiriagus conf. –gudesteo conf. –gudino conf. –iauini conf.

Floresindo test. –mido test. –pelagio test. -gaton test. – sendino test. –iaquinto test.

Rodorigus abba conf. –Joanne abba conf. –uermudus presbiter conf. –gunsalbus presbiter conf. –didagus presbiter conf. –frariulfus presbiter conf. –froila presbiter conf.

Gudinus presbiter notuit



Referências

(1) O latim galaico é um latim ulterior, diferente em origem do latim citerior. Se bem este segundo foi um latim que penetrou com a chegada dos romanos nos século III a.C. na península pela atual Catalunha, ou a Tarraconense da época, o primeiro, o citerior é um latim que chegou via comercial e militar pela Bética até a Gallaecia passando-se pela Lusitânia. Portanto o latim galaico do qual surgem tanto o galego-português como o asturo-leonês é um latim ulterior, diferente em origem e diferente em substrato do citerior que posteriormente criaria o catalão e o navarro-aragonês. Este último em contato com o basco. 
O castelhano, do nosso ponto de vista é um latim basicamente citerior mas também sob um substrato bascão muito importante que lhe da forma embora numa região na que confluem também outras linhas de convergência linguística: por uma parte a influência galaico-astur de toda a etapa medieval na que o Gallaeciense Regnum marcava as linhas políticas, culturais e portanto linguísticas de toda a Idade Média e da que salientamos o facto de ser Compostela o foco irradiador de cultura como nos diz Eugen Cosériu; por outra parte a colonização da meseta norte pelos faramontãos provenientes da montanha cântabra, provavelmente de história linguística próxima do povo basco; e por último de grandíssima influência navarro-aragonesa, identificativamente citerior. 
Diz Rafael Lapesa na sua “Historia de la Lengua Española" editada por Gredos na sua edição nona na página 162 que  tanto as Glosas emilianenses como as silenses do mosteiro de San Millán de La Cogolla estão num original dialeto navarro-aragonês (não em castelhano). Lógico, se temos em conta que La Rioja é uma região originariamente bascona e navarra. Portanto, como poderíamos enquadrar o castelhano? Do nosso ponto de vista achamos que na península há dous blocos: o ocidental ao qual pertencem o galego-português e o asturo-leonês e o oriental o qual pertencem o aragonês e o catalão. Achamos que o castelhano é um latim surgido de todas as confluências anteriores que em nada teria como dialetos, dum ponto de vista genético, ao asturo-leonês nem ao aragonês. Por isso de fazermos os estudos dialetológicos peninsulares deveríamos tratar o castelhano, ou ibero-romanço central sozinho, enquanto os outros blocos, o ocidental (galego-português e asturo-leonês) e oriental (aragonês e catalão) independentemente do central. Devemos perder o medo a reivindicar o parentesco íntimo e não castelhano do galego-português com as falas asturo-leonesas mesmo tendo em conta a liberdade com a que se fala do assunto em Portugal. Não há mais do que lembrar  Leite de Vasconcelos quando falava em co-dialetos no que diz respeito ao Mirandês, Guadramilês e Riodonorês a quem ninguém lhes discute a sua raiz asturo-leonesa. Digamos portanto que o asturo-leonês é um co-dialeto do nosso complexo linguístico ibero-românico ocidental surgido da velha Gallaecia. Não há vontade de assimilação do asturo-leonês mais que pela parte do castelhanismo histórico político-cultural que desfaz identidades e cria confusão no que diz respeito às origens dos povos da península Ibérica e especialmente no referido ao seu histórico concorrente: o projeto nacional galaico

(2) Castela tinha nascido como reino independente sete anos antes da coroação de Afonso VI em Compostela e o mesmo ano no que se corou em Leão, em 1065. Nas Universidades galegas e espanholas Afonso VI é denominado Rei de Castela, do mesmo jeito do que o seu neto Afonso VII. Mas o primeiro rei castelhano da história foi o irmão de Afonso VI, Sancho o forte, na realidade I (primeiro) de Castela. Na historiografia castelhanista é numerado como Sancho II em vez de III como seria seguindo as matemáticas básicas sem se lembrarem (seguindo a filosofia castelhanista) de que houve antes mais dois Sanchos: Sancho Ordonhes, o I (925-929) e Sancho o Gordo, que seria em realidade o II (955-956, e 960-967). Sancho Ordonhês que para além de ser coroado em Compostela e posteriormente no resto do “Gallaeciense Regnum” alguns textos da historiografia oficial preferiram deixá-lo de fora do cômputo e sem número. Como diz Anselmo Lopez Carreira (2003:90) “só as vezes é catalogado de “Rei privativo de Galiza” (com o que se quer dizer que foi quase um ninguém!)”

(3) A letra chamada de “Visigótica” já existia na península antes da chegada dos visigodos ao ângulo Noroeste. Do nosso ponto de vista seria mais correto chamarmos-lhe letra “suevica” ou “galaica”. http://despertadoteusono.blogspot.com/2011/09/o-que-verdade-esconde-1-parte.html

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Saraiva, António José: Iniciação à literatura portuguesa. Gradiva. Lisboa. 1995.

Schmoll, Ulrich (1959): “Die Sprachen der Vorkeltischen Indogermanen Hispaniens und das Keltiberische”. Wiesbaden. Otto Harrassowitz.

Teyssier, Paul. (1982(1980)). História da língua portuguesa. Lisboa: Sá da Costa

Vázquez Cuesta, Pilar e Mendes da Luz, Maria Albertina: Gramática Portuguesa. Tomo I. Terceira ediçom corrigida e acrescentada. Primeira reimpressom. Editorial Gredos. Biblioteca Românica hispânica. 1987. Madrid.

VVAA. de Juana, Jesus e Prada, Julio (coords):  Historia contemporánea de Galicia. Ariel Historia. Barcelona. 2005

Walter, Henriette (1994), A Aventura das Línguas do Ocidente - A sua Origem, a sua História, a sua Geografia (tradução de Manuel Ramos). Terramar, Lisboa, Portugal

G. Weber, "Top Languages",Language Monthly, 3: 12-18, 1997, ISSN 1369-9733 

Wright, R: “La enseñanza de la ortografía en la Galicia de hace mil anos”. Verba, 18, 1991

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Língua materna e Aprendizagem.


Por Mabel Pérez

Embora não seja fácil definir "língua materna", podemos considerar linguagem materna àquela que uma perssoa tem diretamente ligada à sua cultura de origem, a que representa a realidade que há ao redor, a que nomeia a realidade na que vive, independentemente de quem tenha sido a pessoa ou grupo que a tenha transmitido.
Devemos conhecer, falar, compreender e respeitar a língua mãe, porque se não respeitamos e fortalecemos a nossa língua, ela corre o risco de que se deixe de falar e mesmo chegue a desaparecer. 
 No artigo 23 da Declaração Universal dos Direitos Linguísticos indica-se que "todas as comunidades linguísticas têm direito a usar a sua língua, manter e promover em todas as expressões culturais", por isso temos de defender o direito de falá-la e aprendê-la. Por isso neste artigo vamos tentar mostrar que a língua mãe serve para nos comunicarmos e para conhecermos a realidade do nosso contorno com uma panorâmica que atinge as nossas origens com as palavras que representam essa realidade. Mas não esqueçamos que a nossa língua, a nossa língua materna, também serve como um veículo para a expressão de ideias, preocupações e sentimentos que fazem parte duma realidade diferente às outras. A nossa realidade  que nomeia o mundo duma maneira diferente.
 A língua galega, língua materna dos Galegos e Galegas é o resultado da derivação da língua latina que os romanos trouxeram ao Noroeste da Península mas a contribuição das línguas anteriores à colonização romana (línguas de substrato, isto é  um estrato chamado "Antigo Europeu, pré-céltico ou para-céltico ") e depois (línguas de superstrato, línguas que se superpuseram após a fragmentação do Imperio Romano). Aliás no galego entraram também palavras de empréstimo de outras línguas românicas e não românicas, muitas vezes  através do castelhano, devido á colonização linguística á que é submetida a Galiza desde o Medioevo.
A nossa língua tem um substrato indo-europeu que se remonta á Idade de Pedra, isto sabémo-lo por  palavras de origem indo-europeu que são ainda são conservadas hoje e permanecem também no ocidente europeu e no Norte de África, vozes como "caracol","cosco"" gabanceira”,"queiruga” ou como as que têm a raíz "carr "(carrasco, carroucho).
Há outro grupo de palavras de origem hispano-caucásica, coincidentes em todo o sul europeu, de Galiza ao Cáucaso, como “coto”, “sobaco”, “morodo” ... e Tirrénica, com palavras comúns para a Península Ibérica, Gália e Itália: “touza”, “morea”, “barro”, “abarca”, “esquerdo”, “veiga” ...
Sabemos que as  nossas origens se remontam aos Oestrímnios, povo que deixou as antas e os dólmens preservados na Galiza de tempos pré-romanos e que foram expulsos ou assimilados pelos para-celtas que chegaram no ano 600 aC e que nos deixaram palavras como “cabana”, “pá”, cabaço”, “páramo”, palavras que designan a vida quotidiana das familias, ou nomes de localidades como: “Beasque”, “Viascão”, “Tarascão... ,até que os Celtas, no 800 aC. Instalaram-se no nosso território, empurrados de centro-europa pelos germanos. Esse povo celta foi o que os romanos chamaron "Gallaeci" (Galegos).
Já no léxico comum do galego são palavras celtas os nomes das árvores: “vidoeiro”, “amieiro”..., de plantas: “brusca”..., da agricultura: “colmo”, “embelga”..., as “chedas” e as “cambas” do carro..., nomes de animais: “rodabalho”, “careija”, “beiço”..., acidentes topográficos: “lama”, “lousa”, “laje”, “burato”.. da vida doméstica: billha, berço, tona, boroa..., os topónimos acabados em –obre que vem de –brix ( fortaleza): Baralhobre, outros como Crunha, ou nomes de ríos: “Límia”, “Deva”, “Sar”... 
Antes da chegada dos romanos, o nosso território era habitado por esses povos que falavam distintas línguas. Após a conquista romana, esses povos passaram, pouco a pouco, a falar latim, da mesma forma que também adoptaram a cultura e o tipo de sociedade romanas. Mas estas línguas anteriores ao latim, também achegaram algo ao galego, especialmente no campo léxical, em vozes que são referidas a conceitos concretos, tais como nomes de animais, plantas, topografía, etc. e que seguem a representar a nossa realidade quotidiana, tanto no rural como no urbano. Depois do desaparecimento da Império Romano do Ocidente, outros povos, como os germânicos e os árabes também se instalaram na Gallaecia, mais não apagaram o latim galaico, aínda que deixaram alguma pegada da súa presença, sobre tudo no léxico comum e na toponimia. De origem germánica são palavras como : “roubar”, “branco”, “guardar”, “Allariz”, “Guitiriz” , etc.
A influência árabe foi pequena e, ás vezes, a incorporação duma palavra árabe ao galego não foi diretamente, mas por meio do castelhano. São arabismos: “açucar”, “azeite”, “acelga”, “alfinete” “alfombra”, ou a  interjeição “oxalá”. O que não se sabe com certeza é quando acaba o latim e começa o galegoportuguês, mas sim que nos séculos X e XI já é uma língua bastante bem estruturada e com umas caraterísticas de seu, aínda que o latim continuou a ser usado como única língua na escrita ainda durante muitos anos. Vai ser a partir do século XII quando a nossa língua  passe a ser usada na escrita, como também o fizeram as outras línguas românicas e se converta assim na nossa LÍNGUA MATERNA, berço da nossa cultura e representação da nossa realidade.
A língua materna é muito importante para a aprendizagem d@s estudantes, condiciona as  aprendizagens dos alunos, já que este é o fundamento do pensamento e define uma forma especial de olhar a realidade, organizar, ver e sentir a vida e o mundo que nos rodeia. Por isso é muito importante que professores e família sejan conscientes do papel tão importante que a língua galega tem na aprendizagem da criança e torná-lo visível. Aliás pode melhorar a sua utilização na escola e na vida diariamente.
Se promover e incentivar o uso do galego em alguns contextos, o fato de ter de escolher entre diferentes idiomas, dependendo das diferentes situações, desenvolverá mecanismos cognitivos que podem ser aplicados para resolver problemas em outros contextos. Além disso, o uso na aula da língua galega pode ser, em determinados momentos o fío condutor das relações inter-pessoais, inter-sociais e inter-disciplinares, já que como vimos acima , a realidade do nosso país nomeia-se com palavras próprias da nossa língua, diferente da realidade que mostra o espanhol.
A língua espanhola é uma imposição, que como o latim, é uma realidade estranha, embora seja verdade que a coexistência de ambas as línguas gera uma série de interferências linguísticas interferindo-se mutuamente. Assim é que existem realidades galegas que não podem ser suplantadas pelo castelhano: quem leva a criança no "regazo" e não no “ colo” ? quem em áreas rurais  usam formas de espanhol para representar o seu trabalho diário?, que alun@s da nossa escola vivem com a realidade espanhola e a súa  esfera de influência para além da súa realidade? e daquelas palavras que empregan os seus maiores? Conhecem a realidade doutro modo que não seja a través de palavras galegas?
A língua da Galiza é o galego, e representa a própria Galiza, a Galiza de sempre, dos antergos, o mundo que nos rodeia. Como professor@s, devemos compreender que educar na realidade, ser educado no mundo que nos rodeia, é sentar as bases para a aprendizagem posterior, que o enriquecemento cultural, social, linguístico, passa-se por ensinar a partir das raízes, a partir da língua materna. A partir daí, podemos extender esse conhecimento a outras línguas e outras culturas. De não fazermos assim, veremos a nossa língua condenada ao ostracismo no que já esta em parte, graças a governos galegos como o actual. Não apenas mataremos uma língua e uma cultura, mas cairão gerações de galeg@s na pobreza cultural. Dum ponto de vista da aprendizagem veremos maior dificuldade com aquilo que é estranho para nós do que com aquilo que para nós tem uma base sentimental.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Os políticos, os clássicos e o reintegracionismo.


Por José Manuel Barbosa

Após os critérios dos linguistas também queremos expor aqueles pontos de vista de quem que não querendo seguir premissas  científicas exprimem o seu pensar de pontos de vista políticos. Esses critérios passam a ser, já não linguísticos, mas ideológicos, e  para isso botamos mão em primeiro lugar das duas personagens mais significativas do ponto de vista político na Galiza do século XX:  Daniel R. Castelao e Manuel Fraga.  O primeiro por nacionalista galego, defensor do nosso idioma e do projeto nacional. Ele manifesta aberta e claramente a identificação linguística galego-portuguesa; o outro, Manuel Fraga defensor de todo o contrário,  representante do nacionalismo espanhol, falso promotor da língua e favorecedor da supremacia do castelhano na Galiza. Este último devido à sua condição contraditória de anti-galego e presidente da Galiza, manteve um posicionamento ambíguo com o fim de ocultar as suas autênticas intenções.
De Castelao temos:


“Deseo, además, que el gallego se acerque y confunda con el portugues,[...].” Textos fac-símilares nos apêndices de biografia de Castelao feita por Valentin Paz Andrade em CASTELAO NA LUZ E NA SOMBRA. Crunha. 1982. Carta endereçada a Sanchez Albornoz.

No Sempre em Galiza Castelão escreveu: 

“Pero afortunadamente a nosa língua está viva e floresce en Portugal, fálana e cultivana máis de sesenta millons de seres que hoxe por hoxe ainda viven fora  do  imperialismo español” RODRIGUEZ CASTELAO, A.D.; Sempre en Galiza. Akal Editor. Arealonga.3ªEd. Madrid. 1980, Pág 241

Temos igualmente...:
      
“O galego é un idioma estenso e útil, porque- con pequenas variantes- fálase no Brasil, en Portugal e nas colonias portuguesas.” RODRIGUEZ CASTELAO, A.D..: Sempre en Galiza. Akal Editor. Arealonga. 3ªEd.Madrid. 1980, Pág, 241.


No entanto, da autoria de Manuel Fraga, temos os seguintes textos publicados, o primeiro em Portugal para leitores portugueses, mas o segundo publicado para leitores galegos. Se repararmos no texto veremos que é o mesmo, mas com toda certeza com objetivos diferentes. A ambiguidade calculada é difícil de racionalizar se não é por causas obscuras que nos fazem pensar em princípio, numas intenções pouco claras mas do nosso ponto de  vista pouco amantes da nossa língua comum e em favor da supremacismo do castelhano. Lembremos que na sua etapa de governo a língua dos galegos chegou ao ponto de quebra da transmissão intergeracional baixando no seu uso num 30 pontos percentuais segundo dados da UNESCO:



1º Texto:

“Tui, a sua cidade e a sua terra, com a sua artéria vital, o rio Minho, são o ponto de encontro de dois povos irmãos, portugueses e galegos. É um encontro a que nos chama a pertença geográfica a um mesmo espaço fisico, a herança cultural de uma língua comum e de um património cultural multissecular, [...].” FRAGA IRIBARNE, M.: A Galiza e Portugal no marco europeu. Edita Xunta de Galicia. 1991. Pág 7
2º Texto:


“É un encontro a que nos chama a pertenza xeográfica a un mesmo espacio fisico, a herdanza cultural de linguas con raices comuns, un património cultural multisecular, [...].” FRAGA IRIBARNE, M.: Jornal do Arco Atlantico. 23 de outubro de 1992 nº 1, Pág 3


Finalmente, a terceira bateria de argumentos é referida a textos históricos nos quais os grandes vultos do galeguismo manifestam a sua opção a seguir quanto à língua.

“Si o noso é un idioma vivo que empregan 30.000.000 d’homes entre portugueses, brasileiros e galegos.”
LUGRIS FREIRE: A Nosa Terra. Nº 10, Pág 3

Ou...:


“...El señor Unamuno autor de unas páginas maravillosas sobre el paisaje gallego, sabe muchísimo mejor que yo que Galicia, tanto etnográficamente, como geográficamente y desde el aspecto lingüístico, es una prolongación de Portugal, o Portugal es una prolongación de Galicia: lo mismo me dá.” Discurso de OTERO PEDRAYO no parlamento espanhol. 18/09/31
                                                                               
O seguinte texto é igualmente interessante pronunciado por Otero Pedrayo quando ele era parlamentar galego em Madrid:
        
“Por algo nuestra lengua es la misma de Portugal.” Discurso de OTERO PEDRAYO no parlamento espanhol 24/5/33
  
Mas também temos algum texto do autor da "Teoria do nacionalismo galego" Vicente Risco e Aguero, quem nunca negou o vínculo com Portugal e as falas portuguesas. Este livro que acima citamos de Risco é um dos mais importantes do galeguismo até o ponto de podermos dizer que com a chegada de Castelao com o seu "Sempre em Galiza, a filosofia galeguista esteve sempre impregnada dum importante "risquismo" talvez nunca suficientemente considerado pelo galeguismo. Talvez porque a trajetória vital posteior do autor seja em algum ponto contraditória com a inicial mas isso nunca vai poder impedir valorizar corretamente o papel dele na conformação teórica do galeguismo do século XX.
 


“Agora, o galego e o portugués son duas formas do mesmo idioma: esto indica que nós temos un maior parentesco con Portugal que con Castela.”
RISCO VICENTE.: A Nosa Terra. nº 160, Pág 1

De António Vilar Ponte temos muitos textos. Dele podemos dizer que foi o autentico teórico do galeguismo de princípios do século XX juntamente com Risco. Com Vilar Ponte podemos ver um "lusismo" muito ciente, muito definido e muito claro:


“O galego-portugués falanno mais de 30 millóns de almas entre Europa,  Africa  e America.” VILAR PONTE A:. A Nosa Terra. nº120, 4-5, 21/05/1920 
e ...: 
                                                     
“Eu entendo  que os nazonalistas galegos temos que chegar axiña a maor unificación posíbel, sin mágoa do enxebre, entre o noso idioma e o portugués. ”VILAR PONTE A.: Pensamento e Sementeira. Pág. 257. El pueblo gallego. Vigo. Pensamento e Sementeira de Anton Vilar Ponte. Edición Galicia del Centro gallego de Buenos Aires e Instituto Argentino de Cultura Gallega, Pág. 257

Até os convencidos isolacionistas da época não podiam evitar reconhecer a evidência.

De Aurélio Ribalta:
“Ningien pode negalo: o portuges non é mais q’unha modalidáde do galego. Por desgracia a ortografia portugesa non é nada recomendabre. Como se be, a ortografia portugesa está moi lonxe de merecere os onores da adoucêón polos gallegos”.
 RIBALTA AURELIO.: A Nosa Terra. nº 93, Pág 2


No entanto devemos salientar defensores do reintegracionismo como João Vicente Viqueira que são mais claros, arriscados e inteligentes como é o caso salientável de João Vicente Biqueira grandíssimo pensador e filósofo morto prematuramente. Muitas pessoas acreditam no seu valor como inteletual e o que poderia chegar a ser se ele pudesse ter vivido durante mais anos. O infortúnio impediu que a filosofia galeguista pudesse contar com uma pessoa que poderia ter sido o sustento dum reintegracionismo real durante os primeiros anos do século XX.                   

“Si nosoutros empregamos a ortografia histórica galaico-portuguesa teremos salvado  a  dificultade  que separa as duas linguas e daremos ao galego un  caracter  mais universal, [...]. Asin introduciremos o NH pol-a Ñ, a LH pol-a LL e outras modificacións que o leitor poda adiviñar facilmente.” VIQUEIRA, JOÁM VICENTE.: A Nosa Terra. nº 43, Pág 1, 20/01/1918


Depois da exposição de textos, apresentamos a exposição das razões pelas quais o galeguismo histórico não optou por recuperar a ortografia que Viqueira chamava etimológica.
     
 A saber:

      1º.- O galego não era instrumento de comunicação oficial em Galiza,  nem portanto, matéria de ensino, por isso, para a nossa língua chegar aos galegos alfabetizados em castelhano e com pobre cultura académica e escolar, ele deveria revestir uma farda compreensível para qualquer pessoa que quiser perceber baseada no na língua oficial do Estado.
      2º.- Era, porém, objetivo do galeguismo reintegrar o galego no seu âmbito Ibero-românico ocidental “até a sua confusão com o português” em palavras de Castelão.
      3º.- O momento adequado para essa reintegração, portanto, seria aquele em que a nossa língua fosse por fim idioma oficial de uma administração autónoma galega conseguida finalmente e após muito tempo de sofrimentos e lutas, no ano 1981.

Teríamos que acrescentar que após 30 anos de autonomia política e de sucessivas políticas linguísticas fracassadas (lembremos que a nossa língua perdeu mais falantes nos anos de “autonomia” do que em todos os anos chamados “séculos obscuros”) aqui ninguém denuncia os responsáveis desta desfeita glotofágica e todo o mundo com responsabilidades públicas diz que tudo vai bem, que a língua está no melhor dos seus momentos e que não devemos impô-la porque o castelhano sofre.

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