segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

A lógica da Xenofobia anti-galega


Por Adrião Morão
 
Pretender que na Galiza, tendo uma língua própria (o galego), mantenhamos sinalização em castelhano é xenofobia e nacionalismo espanhol.
 
Explico:
Um espanhol que não empregue o galego pode comunicar-se igualmente com a administração em castelhano. Não vou entrar em se isto per se é justo, porque num Estado democrático a sério, eu deveria poder entregar documentos oficiais em galego na Crunha, em Madrid ou em Valência. Claro que o do plurilinguismo a Espanha não o leva nada bem... 

Um espanhol que não empregue o galego segue podendo entender praticamente todo o galego escrito. Ou isto é certo ou o resto de espanhóis padecem qualquer tara mental, argumento que é racista e portanto fica descartado. Ou eu sou muito listo e entendo 90% de catalão ou asturiano sem os ter estudado na vida, que também pode ser!
 
Se eu sou galego e falo galego com galegos, a nossa língua comum é o galego. Portanto, o castelhano não é a língua comum de todos os espanhóis, porque eu tenho nacionalidade espanhola desde o nascimento e não utilizo o castelhano com galegos nunca. Não é a minha língua em comum com o resto de galegos. Por que então o castelhano tem esse falso status de língua comum? Há línguas melhores e línguas piores? Noutro caso, não se explica. A não ser que voltemos à teoria da tara mental, que acordáramos que é um argumento racista porque põe o resto de espanhóis como "marcados" genética ou culturalmente ou qualquer cousa do tipo.

Portanto, se temos um hipotético Estado que garante que um cidadão qualquer se poda comunicar com as instituições na sua língua oficial de preferência, não entendo onde está o problema de termos diferentes línguas de coesão social. A ver se vai ser que o nacionalista não sou eu...

 
Existem pessoas que se zangam por não perceber qualquer cousa num sinal por não estar em castelhano? Curioso: não se zangam quando saem do Reino da Espanha. Portanto, não existe um problema de incomodidade causado pola incompreensão, mas um problema político: se a Galiza ou a Catalunha fossem Estados independentes desde há séculos, toda essa gente que se molesta fecharia a boca. Exatamente igual que fazem quando não entendem a sinalização da City de Londres. No caso da Galiza, ainda o têm mais fácil: dizem «galleguiño, ¿qué pone ahí?» e como todos os galegos aprendemos castelhano por imperativo constitucional, podemos responder. Se a petição é educada, evidentemente.

Devemos portanto manter sinalização em castelhano porque outros espanhóis sintam hostilidade pelas línguas diferentes dessa? Devemos manter letreiros em castelhano porque, no Reino da Espanha, a xenofobia se bebe com o café da manhã e se come com a fruta da sobremesa? Estou certo de haver muitas pessoas que, sem falar galego, nunca se sentiram nem se sentiriam molestar por ver que, em troca de "Centro Ciudad" põe "Centro Cidade". Ou "Centre Ciutat" ou como se escreva na Catalunha.

Portanto, manter um uso social do castelhano num país com língua própria, o galego, é legitimar a xenofobia dos espanhóis hostis ao resto de línguas.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

A Capela Sixtina da Pátria Galega.



Por José Manuel Barbosa

Há quase quinhentos anos, Michelangelo Buonarroti completou com estéticos desenhos os teitos da Capela Sixtina, para que todo o mundo pudesse contemplar a beleza e a arte duma época que prometia ser interessante na história da humanidade. A partir daquela data, milhares....talvez milhões de pessoas puderam desfrutar com absoluto arroubo, tal magnificência e tal formosura saída da mente e da mão dum simples ser humano.
Tanta gente, tantos anos, tantas variações climáticas, tantas respirações dentro da capela, fizeram com que o cromatismo original e a beleza primigénia dos frescos que tanto escandalizaram os cristãos da época se fosse apagando pouco a pouco como se for uma aparição fantasmagórica depois da qual deveríamos esfregar os nossos olhos para comprovarmos se a visão foi real ou não.
Com muito bom critério, há somente uns anos, o Bispo de Roma, decidiu recorrer a um grupo de expertos restauradores de obras de arte para recuperarem a cor originária das pinturas à vez de limparem as impurezas de quase cinco séculos de descuido. Esta decisão provocou o posicionamento em favor ou em contra da recuperação dos frescos da capela. Por um lado estavam os que defendiam a ideia de deixarem como estava a Capela, com a consequente perda de nitidez e colorido de tão grande obra, que talvez acabaria num futuro, mais próximo do que longínquo, com a perda definitiva da criação do génio da Toscana. O argumento mais poderoso que se expunha era que a tal obra não se lhe podia tocar porque seria uma profanação do labor do mestre italiano. Seria melhor deixar que levemente e sem sentirmo-lo se fosse apagando até se perder para sempre e que ficasse como uma simples recordação duma época de harmonia estilística.
Por outra parte, estava o outro grupo de pessoas que defendiam a possibilidade da perpetuação e recuperação das pinturas por meio dum labor profissional, exato, experto, técnico e sensível. Estes julgavam que tal monumento bem valia um banho de carinho reparador e revigorizador qual se duma injeção de vitamina vital se tratasse, para que pelo menos a Capela pudesse resistir outros quinhentos anos de esplendor e que outros tantos milhões de seres humanos amantes da arte e da beleza pudessem sentir vivo o seu espírito na contemplação dos escorços buonarrotianos.
 Também há mais de mil anos, o povo galego fez, a partir da língua que os romanos trouxeram à Galiza mesclado com as falas populares dum povo celta que aqui habitava desde épocas ancestrais, um romanço formoso que servia não só para transmitir pensamentos ou sentimentos mas como instrumento criador duma cultura, duma forma de ser capaz de alimentar a alma de todos os seus utentes e igualmente manter uma identidade sólida como o granito. Posteriormente e quinhentos anos atrás, uns Reis cujos interesses eram os dum poder sediado no planalto castelhano levaram a cabo a “doma do Reino de Galiza”, ou a tentativa de castração nunca conseguida até agora, provocando nesta Capela Sixtina da nossa identidade uma contaminação e uma esclerotização que faria perder o seu colorido originário que se ia apagando lentamente, desviando-se durante vários séculos do seu caminho natural, seguido em troca, de forma perfeita e com muito sucesso no Reino de Portugal.
Como aconteceu nos frescos da bela Capela Sixtina, o nosso idioma na Galiza foi perdendo viveza por falta de cultivo, foi deturpando-se subtilmente como se duma rosa cortada da roseira mãe se tratasse, vendo-se privada do alimento que lhe fornecia a chispa vital.
Hoje, na época em que a humanidade começa um nova e longa etapa de tomada de consciência de si própria, época em que a liberdade é um bem supremo ao lado do conhecimento científico, abrindo-se passagem por todo o orbe, momento em que a mente humana começa um importante período de expansão, época no que as palavras "humanidade", "irmandade" e "consciência" se estendem por todo o planeta, também na Nossa Terra é momento de tomada de posicionamentos: Por uma parte os que querem deixar as cousas tal qual estão, sem modificar o mais mínimo, aceitando a contaminação e a deturpação provocada por séculos de maltrato dirigido por uns interesses que nada têm autótones. Este posicionamento de aceitação da língua dos galegos sem mudanças, faz que caiamos no perigo da perda e da desaparição da língua, perdendo com isso todo o benefício que traz consigo ao pertencermos a uma civilização da qual somos Matriz, renunciando à apertura de caminhos para a prosperidade e a reafirmação da identidade.
Pelo contrário, os que julgamos que a nossa língua, ao igual do que a Capela Sixtina, deve recuperar o seu colorido originário, o seu brilho, o seu esplendor e a sua beleza, não compreendemos como se pode ser tão negativo e tão desleal com o nosso pensamento desde posicionamentos institucionais, impedindo a chegada do nosso discurso, impedindo a transmissão do conhecimento científico, da livre circulação de ideias, do direito à discrepância...no mais puro estilo da Europa medieval e teimando por levar à fogueira as bruxas que defendem não só uma forma de perceber o que nós chamamos português da Galiza mas também as bruxas que mesmo defendem o direito a que um povo como o nosso possa educar os seus filhos numa língua que abre as portas de quase 300 milhões de seres humanos por todo o mundo.
O nosso idioma merece um repasse restaurador com mão amorosa para que possa sobreviver e poder-se livrar dos grandes sáurios que levam o guiador da nossa Pátria para que fiquem na obscura gaveta dos pesadelos.
Aqueles que desde estamentos oficiais –e não só- apoiam que a língua continue como está, apoiam um projeto dirigido desde Madrid que só procura a nossa eliminação como povo. A Galiza não é querida por Madrid, não é amada, nem é aceitada. Faz parte dum Estado que a possui como um marido maltratador ou como a pressa dum vampiro que quer sugar o seu sangue, que quer se aproveitar dela sem dar nada de volta. Existe uma falta de respeito constante e continuado na não aceitação da Galiza que chega ao ponto de contagiar a muitos galegos com certa debilidade inteletual, criando neles uma síndroma que faz deles uns seres desnaturalizados e enfermos que se odeiam a si próprios e os sinais identitários que nos individualizam. Acreditamos que o nosso País não seria aceitado por Madrid ainda se tornando castelhano... e inclusivamente haveria galegos que continuariam a não querer ser galegos mas uma sorte de "madrilegos" mutantes. Chegamos a pensar que ainda estando dentro da Espanha não se quer a prosperidade de Galiza embora isso suponha prosperidade para Espanha. Madrid e com ele os “madrilegos”, não estão interessados nem em fazer mais próspera e mais habitável a sua Espanha porque não querem ver próspera e auto-identificada a Galiza que poderia fornecer elementos de progresso e de crescimento -entre eles o da língua- ao próprio Estado...O que quer Madrid e os “madrilegos” é uma Galiza submissa ainda que com isso Espanha se tornar mais pobre.
Se a Espanha fosse positiva connosco, mesmo poderíamos pensar numa Espanha plurinacional, como plurinacional é a Suíça, por exemplo. Mas acreditar nisso é como acreditar na bondade do diabo. Os galegos conscientes devemos contar com estratégias inteligentes para impedir que se nos apague como povo. A língua neste processo é um elemento identitário fundamental. A língua é a nossa Capela Sixtina e não só do ponto de vista estético, mas igualmente do ponto de vista geo-estratégico e económico. Ela dá-nos força e empodera-nos. Da-nos raiz e arraigo com o qual não estaríamos nunca nem entangaranhados nem raquiticos mentais. Sem língua somos simplesmente uns ninguéns embora com língua podemos inclusivamente dar-lhe a volta ao sistema de forças da península. Se não nos querem, queiramo-nos nós e demostremos o que eles perdem por não nos aceitarem como somos. A auto-estima é contagiosa se com galegos tratamos e por se fosse pouco ela provoca respeito nos que não são galegos e sentimentos contraditórios nos "madrilegos". É uma energia poderosa que nos abre portas e nos posiciona ali onde nunca devimos deixar de estar.





quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

A recuperação do celtismo


Por José Manuel Barbosa

Conta uma velha lenda grega que o herói grego Hércules depois de lhe ter roubado os bois ao gigante Gerião, na atual Crunha, passou-se pelos montes Pirenéus onde vivia a ninfa Pyrene -quem lhe deu o nome ao Cordal-. Ela quis conquistar o coração do herói que acabou caindo nas suas redes e entre os dous surgiu um idílio do qual nasceu um neno chamado Keltos, de  quem deriva o nome dos Celtas (1)
 Esta formosa lenda faz nascer o povo celta nos montes que separam a Península Ibérica da Gália. Cousa curiosa, depois de estarmos acreditando durante décadas na procedência centro-europeia do povo do qual se originam os galegos e após realizarmos uma releitura do paradigma no que uma nova vaga de cientistas vem dar a razão a história de amor protagonizada pelos dous seres mitológicos helénicos.

Foi durante muitos anos que os cientistas apoiados em pressupostos aparentemente científicos fizeram dos celtas um misterioso povo teoricamente nascido longe dos lugares da Europa onde teoricamente mais e melhor  conservavam a sua idiossincrasia. Nações como a irlandesa, a escocesa, a galesa, a córnica, a manx, a bretã e mesmo a kalláika (neologismo que usamos para abranger todo o noroeste da península) conservam ainda o mais fundamental do ser céltico. Irlandeses, escoceses, galeses e bretães ainda falam uma língua que podemos denominar celta. Outros como córnicos e manx recuperam as suas falas perdidas lutando contra todos os obstáculos, após terem vivido séculos de avanço do inglês na Cornualha e a Ilha de Man. No caso da Galiza, as Astúrias (latu sensu) e Norte de Portugal foi perdida há tempo, ainda que estudiosos como o Professor Higino Martins diga que pelo menos tenha chegado como mínimo ao final do I milénio e talvez tenha subsistido em regiões montanhosas e afastadas da influência do romanço até quase o final da Idade Média.

Desde o Século XIX os historiadores e os arqueólogos têm defendido uma ideia favorecida na Europa por pensamentos pan-germanistas que defendiam a procedência centro-europeia dos celtas do mesmo jeito do que uma estética física muito afastada da realidade. Eram os míticos celtas louros, altos e germanizados provenientes tanto dos racialismos de entre guerras como dos tópicos hispânicos  de épocas franquistas que identificavam o típico espanhol como um ser de pequena estatura, pele mourisca, mal génio, machismo visceral e ódio a tudo o que cheirasse a Europa e a democracia.

Esse paradigma continuou subsistindo nas universidades até final do século XX e começos do XXI apesar de que os autores clássicos manifestaram nas fontes continuamente que os celtas eram um povo atlântico. Mas foi a partir de começos do XXI quando após um estudo encomendado pelo Governo Irlandês ao Trinity College se chegou à conclusão de que o povo de Lugh não tinha chegado da Suíça ou da Áustria. A nova matéria científica denominada “Dinâmica de Populações” baseada no seguimento dos restos genéticos deixados pelos grupos humanos nas suas migrações, desvendava-nos que os historiadores romanos tinham razão: Os celtas foram sempre um conjunto de povos de origem atlântico. Assim o manifestavam as suas marcas genéticas e assim no-lo confirma a existência de restos de todo tipo.
Se os arqueólogos novecentistas falavam de invasionismo, as provas não nos confirmam que nem nas Ilhas nem na parte ocidental do nosso continente houvesse tal. Pelo menos proveniente do centro da Europa. Os restos Latenianos e Hallsttaticos não marcavam a origem dos celtas pois antes dos mesmos já havia cultura céltica...Da mesma forma não é na Suíça nem na Áustria onde se conservam as línguas célticas. Existem restos toponímicos, teonímicos, léxicos..., isso sim, mas é no Norte da Lusitânia e na Gallaecia romanas onde achamos textos inscritos de época imperial que nos dão a conhecer o velho proto-celta do qual derivaram o resto das línguas gaélicas e britónicas. Se aliás consideramos que o mediterranismo imperante durante séculos considerava o “Mare Nostrum” (na realidade o “Mare Suum”..) como o centro da civilização, reconheceremos com um autêntico dogma na Europa, desde que Roma chegou ao Atlântico, que tantas gerações acreditassem que a Cultura Atlântica era periférica. Mas nada mais longe disso. A Cultura Atlântica foi uma cultura centrada em si própria com os seus centros e as suas periferias e o Atlântico um espaço no que se desenvolveu uma intensa vida cultural, artística, religiosa, mitológica, étnica e linguística durante o Bronze final e a Idade do Ferro.

Autores como Cunliffe, Bradley, Simon James, André Pena, Blanca Garcia-Fernández Albalat, Mario Alinei, Francesco Benozzo, Xavério Ballester... e mais outros que não nomeio por falta de espaço, ajudaram nos últimos anos a botar abaixo o construto pseudo-científico que afastava o velho País de origem dos povos celtas da sua ubiquação aceite pela comunidade científica, chegando mesmo a ser tabu o facto de relacionar as palavras “Celtas” e “Galiza” .
A Teoria da Continuidade Paleolítica está ajudando a desvendar esses erros dos indo-europeistas e celtólogos de séculos passados, de forma que começam a ser um importante número de historiadores e arqueólogos que acreditam nela. É importante e à vez curioso mas não estranho, que aqui na Galiza tenhamos algum dos precursores dessa teoria, ignorado ou desconhecido por quase todos porque a sua condição de galego não ajuda, já que historicamente o que digam os galegos no que diz respeito da História, e mais da própria História, é considerado de pouco valor ou simplesmente obviado. O Professor André Pena Granha falava de continuidade cultural, organizativa, religiosa, mitológica, etnográfica, económica e estética entre épocas pré-históricas e mesmo medievais lá pelos anos 90 quando Alinei e Benozzo ainda não tinham conformado coerentemente o novo Paradigma. Só é ler a sua obra de três volumes “Narón: Un Concello com História de seu”. Tiveram que chegar dous sábios italianos para dizer o mesmo que dizia um galego para que se lhe desse importância a algo que na Galiza estava sendo evidente em 1991. A velha Cailleach, a Mãe Terra é a Kalláikia e está nas zonas atlânticas da não menos velha Hespéria. Aí está o berço do povo celta, esse povo que foi definido por algum famoso autor como “alegres, poéticos, piedosos, crédulos, sagazes, patriotas, gregários, valentes, indisciplinados, indolentes, amáveis, avisados e teimudos”.


 


1) Bergna Juan B: Mitologia Universal I. Madrid. Ediciones Ibéricas. 1960

terça-feira, 13 de novembro de 2012

O tratamento do universalismo e a endofobia nos nossos clássicos


Por José Manuel Barbosa

O amor ao próprio tende a valorizar a sua cultura como algo que é património de todos. Nem só dos nacionais que falam a sua língua ou usam a cultura autótone.

No momento atual estamos vendo como um poder contrário à língua dos galegos favorece o desconhecimento, a ignorância, para favorecer a entrada dos elementos linguísticos alheios que acabar impondo com maior um menor violência uma substituição linguística que em nada favorece Galiza. Os novos galegos são educados em castelhano maioritariamente embora a sua língua inicial seja o seu galego particular. Educam-se para que apanhem consciência de que a fala que eles têm por ancestral não se reconheça como uma língua universal e transnacional. Esta tem uns limites estreitos que coincidem com o território administrativo que os gere sem lhes ensinarem que o mundo é muito grande e nele há muita humanidade com a que podemos nos entendermos sem mudarmos para qualquer outra língua franca, conhecida ou não. Essa ideia tira-lhe utilidade. Não serve para andar pelo mundo que para isso está o castelhano.

Os nossos velhos galeguistas conheciam este facto. Conheciam que os galegos tinham um instrumento de comunicação internacional embora o seu uso fosse muito deficiente por desconhecimento da póla mais viçosa conhecida no mundo com o nome de português. Todos eles, ou pelo menos a maior parte deles, deu a conhecer as vantagens que um galego tem à hora de dominar uma das línguas mais estendidas do mundo. Essa extensão e utilidade é algo muito pouco admirada e desejada por aqueles que gerem ainda a dia de hoje a nossa vida linguística. A razão não é limpa. A razão é muito obscura. É a vontade de matar a língua dos galegos e impor a sua por acima de razões linguísticas e benefícios psicológicos e económicos.

Vejamos que ideia de universalismo tinham os nossos clássicos:


“Galiza e Portugal estreitadas ao fin supoñerian unha expansión cultural de idioma diferente do castelán tan extensiva cuase como a diste na península a camiño de rivalizar tamén na América, no baluarte do Brasil”

António Vilar Ponte. Pensamento e Sementeira. Pág 213

“Santo idioma, idioma inmortal, polo que a nobre Lusitania nos tende os seus brazos hirmáns dicíndonos que para él ainda pode haber unha nova hexemonía novecentista! Que tanto galaico-portugués como castelán se falará de novo en América...Que o galaico-portugués, o castelán e o inglés son tres idiomas chamados a loitar por superarse no Novo Mundo. E virá un forte pangaleguismo traguendo a luz para a caduca iberia”

A.Vilar Ponte. A Nosa Terra. nº 60

“O portugués é un fillo do galego e entre os dous non hai mais capitalmente que diferenzas fonéticas que non son tan grandes quizais como as que existen entre o andaluz e o castelán. Si nosoutros empregamos a ortografia histórica galaico-portuguesa teremos salvado a dificultade que separa ambas as duas língoas e daremos ao galego un carácter mais universal, facéndoo accesible ao maior número de homes.
Foi un mal da literatura galega aislarse mediante a sua ortografia. Escrita com ortografía portuguesa houbera corrido mais facilmente o mundo e isto tería influído na vitalidade do noso idioma e do noso pobo, pois ambos van intimamente unidos”

Johan V. Viqueira
Pol-a reforma ortográfica.
A Nosa Terra. nº 43. Pág. 1

“Galiza, como grupo étnico, tem dereito a diñíficar a língoa que o seu proprio xenio creou, porque é una língoa capaz de ser vehículo de cultura universal, porque lle sirve para comunicar cos povos de fala portuguesa”

Castelao. Sempre en Galiza. Pág. 108

“Quen son os que tratan d’arredarse do resto do mundo, nosco –os galeguistas- que falando o nosso idioma conquerimos entendernos com portugueses, brasileiro ou vosco –os desleigados- que por poñer toda-las forzas na defensa do castelán, creendo supremo hacedor, tedes que sere eistraños antre aquelas xentes, co-as que nosco, sin ningún sacrifício, faguemos entendernos?”

Xosé Ares Miramontes
O galego é de moito proveito.
A Nosa Terra nº 72. Pág 3

“Dispois de todo, a lingua nosa é a portuguesa –un, galego modernizado, outra, portugués antigo- xa casi comparte a hexemonía no mundo de civilización latina c’o castelán e acabará por compartilo por inteiro.”

Portugal e Galicia
Unha festa dina de lembranza.
A Nosa Terra. nº 58. Pág 4


Ódio a todo aquilo que cheire a português

Mas o poder, conhecidos estes argumentos e desejoso de que não se estendessem, criou mais uma razão e mais um obstáculo para que os homens e as mulheres galegos do comum, arraigados e amantes do seu, não continuassem adiante no processo de reconhecimento duma realidade que lhes abria as portas dum poderoso mundo no que não só faríamos parte, mas também não seríamos uma parte qualquer. O nosso lugar nesse mundo seria o ponto matricial.
O ensino e os média parciais e servidores de quem não tem em muita estima aquilo de que podemos considerar nosso, apresentam um paradigma que não se corresponde com a realidade que as ciências da linguística apresentam, favorecendo posteriormente uns prejulgamentos que em nada ajudam a um aproveitamento total da nossa língua. Esses prejulgamentos favorecem racismos endógenos, quer dizer endofobias e auto-racismos que se estendem, estes sim, por ali por onde se pode estender a consciência: pelo mundo do qual somos matriz....já não só para não nos reconhecermos, mas para que nós próprios odiemos aquilo que o poder considerou sempre inferior: Portugal e o seu mundo civilizacional. Quem não ouviu alguma vez ou mesmo viu com os seus próprios olhos um comentário ou um ato racista contra um português ou algo procedente de Portugal? Para que isso? Que finalidade tem esse racismo na Galiza?

Portugal foi o único país da Península Ibérica que não consolidou a sua pertença à Monarquia Hispânica. O único país que tem uma língua que pode concorrer com a “lengua común”. O único que dignificou a sua legítima não inclusão num projeto nacionalitariamente impositor.

Os galegos menos vinculados às letras, menos evoluídos inteletualmente, acolheram sempre e acolhem com mais facilidade este tipo de prejuízos, sem se darem conta que ir contra algo que criou o seu próprio povo é ir contra a sua própria individualidade num ato de inconsciência que serve para vilipêndio de próprios e estranhos. Algo que não se explica se não é por falta de cultura, por falta de informação e em muitos casos por motivo duma pailanice integral que sobrevoa a vida dos galegos alimentado por um poder vírico e doentio. Talvez medo a se reconhecerem "muito portugueses" e nada castelhanos... Dizem que a ignorância é atrevida...

Que dizem os galeguistas históricos...?

“...y la huella de dicha nefasta influencia es tan notoria, como puede observarse viendo hasta que punto muchos de nuestros paisanos, sin razón alguna para ello en proceso inconscientemente hijo del prejuicio centralista, se hacen eco del odio de Castilla hacia Cataluña y Portugal, aún cuando con Portugal tengamos una comunidad de lengua y de Cataluña no hayamos jamás recibido un solo agravio”

A.Vilar Ponte. Pensamento e Sementeira. Pág. 261

“...fermosa práitica cultura a dos nosos señoritos e a dos tristes gobernos centralistas que nos arredou e sigue arrendándonos de Portugal e do mundo portugués cada vez mais”.

António Vilar Ponte. A Nosa Terra. Nº 56. Pág. 1

“...y queda tambén, por lo tanto, condenado para siempre el dicho ignaro de los que a los gallegos que depuran su lengua los califican, como si esto fuese defecto, de aportuguesados”

A.Vilar Ponte
Pensamento e Sementeira. Pág 152

Acrescentamos a isto que em Portugal houve e ainda há hoje, ainda que em menor medida, um sentimento anti-galego que serviu de forma de maltrato aos portugueses do Norte. Tradicionalmente os sulistas nomearam os nortenhos de galegos. Às vezes despetivamente, outras simplesmente como uma forma de identificativo étnico inconsciente que nos leva a acreditar na existência para eles dum continuum humano que não para no Minho nem na raia seca galaico-portuguesa.

“...os lisboetas bulrábanse igoalmente dos portugueses do norte porque éstes eran galegos”

Castelão. Sempre en Galiza. Pág 338

“E dende Lisboa non se ve nin se sinte a necesidade de Galiza, porque tampouco está aló o berce de Portugal”

Castelão. Sempre en Galiza. Pág 335-336

Não sabemos o que aconteceria nas consciências dos galegos se em vez de limitarmos ao Sul com esse Portugal supostamente subdesenvolvido que nos apresentou sempre a Coroa castelhana tivéssemos um Portugal poderoso como podem ser hoje o Reino Unido, os EUA ou a Alemanha. Talvez com essa imagem de poder, os galegos teriam mais consciência de pertença a uma comunidade linguística e étnica galaica que transcendesse as fronteiras políticas impostas por uma história que como sabemos sempre é escrita pelos interesses de uns poucos por acima de uns muitos. Talvez o conceito de reintegração linguística fosse mais fácil de expor e talvez o poder madrileno tivesse mais respeito por uma realidade que ainda hoje vive e permanece apesar das políticas linguísticas e nacionalistas pró-castelhanas.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Vida despois da morte


Por David Outeiro

Evidencias científicas e a sua realidade no mundo celta


E se tivesses estado dormindo? E se, enquanto dormias, tivesses sonhado? ¿E se nos teus sonhos, tivesses ido ao céu e ali tivesses apanhado uma estranha flor? E se, ao acordar, tivesses a flor nas tuas maos? Ah!, e que é o que aconteceria, portanto?

Samuel Taylor Coleridge

A morte é um dos grandes misterios, uma das maiores preocupações do homem desde que é homem. Um processo pelo qual todos passaremos mas no que muitos não querem pensar. Para todos os povos do mundo,até a chegada das crenças materialistas da ciência, a morte era “simplesmente” um trânsito, não um final. Mas não só isso, havia pessoas especializadas em contatar com os espíritos dos devanceiros e inclusivamente viajar até o Além, em vida; xamãs e druidas. Mas o que muitos não sabem é que em algumas disciplinas científicas estão a investigar elementos que poderiam mudar completamente a nossa perceção da morte. As EQM, as chamadas Experiencias de Quase Morte, chegaram a causar comoção em boa parte da comunidade científica,as cada vez maiores evidências fizeram cair os posicionamentos do materialismo. Psiquiatras, neurocientistas, físicos quánticos, cardiólogistas e cientistas de muitas outras disciplinas estão sinalando que a morte não é o fim, é a consciência que sobrevive à morte física do corpo e pode transcender os limites do espaço-tempo.

Como alguns sabeis, percorro a nossa terra na procura das pegadas do legado ancestral céltico. As pervivências de crenças, rituais e mitos que provêm do passado mais longínquo. Faz uns dous anos comecei a ter notícias dos estudos relacionados com as EQM. Na minha viagem comecei a identificar fases destas experiências nas crenças galegas sobre a morte, que verdadeiramente integram todas as crenças das religiões desde os primordios. Com o tempo achei pessoas que me contaram as suas próprias experiências de quase morte. Experiências que observava com curiosidade mas sem me sair do meu reducionismo biológico, da minha afinidade à ciência materialista com a que sempre estive vinculado como atéu que na maior parte da minha vida fui. Mas no meu caminho apareceu uma pessoa admirável que mudou a minha vida por completo fazendo cair a minha afinidade com a ciência materialista como um castelo de naipes. Esta pessoa, provem duma longa linha herdada de pessoas que têm umas capacidades muito especiais: a de contatar com as ânimas dos devanceiros. O meu ceticismo ofereceu resistência a pesar da confiança que tinha e tenho nesta pessoa. As evidências e as mensagens foram demoledoras. Hoje, não tenho medo em dizê-lo, porque não tenho dúvidas, penso que temos de mudar o paradigma porque...a consciência, a alma sobrevive à morte física do corpo. E sobre isto e a relação com a ciência, falaremos neste artigo.

Foi em 1975 quando o psiquiatra e filósofo norteamericano Raymond Moody publicou o seu primeiro livro; “Life after life”(Vida depois da vida). Nele recolhia centos de testemunhas sobre as EQM, experiências que os livros de medicina não tiveram em conta nunca antes. A publicação teve um amplo sucesso e resultou um grande impato. As experiências, embora muitas seguiam um padrão determinado mudavam em função da experiência. Quanto mais grave fosse o acidente ou enfermidade que causaba a EQM do ponto de vista convencional, mais profundidade e amplitude tinham as fases. Por vezes, alguma fase não se manifestava. As obras publicadas com posterioridade assim como os resultados de estudos realizados por distintos expertos tambem apresentavam o mesmo padrão. As fases que precedem a fronteira da morte são as seguintes:

  • Sensação de bem-estar e paz
  • Experiência extracorpórea na que se percebe como a consciência ou alma deixa o corpo físico. Neste caso, a pessoa que o vivencia poder ver o seu contorno ainda que as constantes vitais sejam ausentes. Após a EQM confirma-se que o que se percebeu foi real.
  • Aparição dum túnel com uma luz no seu final.
  • Encontro com familiares ou pessoas mortas. Por vezes ajudam a transitar até a luz. Têm-se registrado casos de pessoas que visualizam familiares ou pessoas sem saber que estavam falecidas até o contrastarem após a recuperação e o retorno ao corpo físico.
  • Visão dum espaço sobrenatural e paradisíaco com uma natureza de imensa formosura. Por vezes também se audível uma música celestial.
  • Visão duma entidade ou ser de “luz” manifestando-se quer como luminosidade quer como uma entidade antropomórfica. Sentimento de amor e sabidoría.
  • Retrospeçao vital ou resumo da vida da pessoa em segundos, trascendendo os limites espaço-temporais ordinários.
  • Flash forward, quer dizer, visão de acontecimentos futuros na vida da pessoa.
  • Visão duma fronteira. A pessoa têm a perceçao de que no caso de trespassa-la não poderá voltar ao corpo físico.
  • Regresso ao corpo. Muitas vezes as pessoas sentem uma grande deceção por voltarem à vida após passarem um processo de paz e bem-estar tão intenso.

Existe uma reação dum certo ceticismo desde o reducionismo biológico para negar a veracidade ou trascendência destas experiências. Tenta-se explicar o bem-estar por meio da libertação de endorfinas, a visão do túnel pela redução da atividade das sinapses (conexões neuronais) que o projetam, a retrospeçao por meio de memória inconsciente e valoriza-se o demais como simples elucubrações da mente. Reduze-se tudo a simples alucinações causadas pela falta de osigênio ainda que na verdade não se pode explicar o fundamental. Porquê a conciência é mais lúcida do que nunca? Porquê o relato das visões extracorpóreas (inclusivamente em pessoas cegas!) coincidem com os acontecimentos reais? Porquê o dito por alguns familiares mortos se cumpre? Aliás, como é possível que a consciência exista fora do corpo?.

Citando ao filósofo e neurologista Alva Nöe; “ A investigação neurocientista da conciência sustenta-se atualmente sobre umas bases não questionadas, mas muito questionáveis,(...). A consciência não acontece no cérebro.(...). Portanto, não é a atividade neural associada à que determina e controla o carácter da experiência consciente.(...). Seria absurdo procurar correlatos neurais na consciência.(...). Não existem ditas estruturas(...). Esta é a razão pela quealnão fomos capazes de dar uma explicação válida à sua base neural(...). A ideia de que somos o nosso cérebro não é algo que os cientistas apreendessem, mas um prejuizo que os cientistas levaram ao lugar de trabalho desde casa.”

Reconhecidos neurocientistas como Charles S. Sherrington e John C. Eccles, ganhadores do Premio Nobel e o neurocirurgião Wilder Penfield acham que o cérebro é mais um organismo complexo que regista e transmite a conciência do que um ente que a produza.

A consciência é para muitos estudiosos um fenómeno que tem a ver com as realidades investigadas pela física quántica. Não é por tanto um fenómeno material tal e como o percebemos, nem o resultado de reações físico-químicas.

Partilho o meu modo de ver com os cientistas que afirmam que o cerebro é um recetor de consciência, um “aparelho” recetor como pode ser uma rádio ou uma televisão. Acho que a consciência tem a ver com um espaço não-local que transcende os limites do espaço-tempo. Citando ao cardiologista e investigador das EQM, Pim Van Lommel: “O espaço não-local constitui algo mais do que uma descrição matemática. É um espaço metafísico no que a consciência pode exercer o seu influxo porque possui propriedades subjetivas de consciência. Segundo esta hipótese, a consciência é não-local e funciona como origem ou base de todo, incluído o mundo material. Desenvolvi uma hipótese que segue como resposta aos episódios de consciência expandida experimentados durante um ataque cardíaco. Esta consciência expandida supõe aspectos de interconexão não local(...). Oferece a possibilidade de comunicar-se com os pensamentos das pessoas envolvidas em vivências passadas ou com a consciência de amigos e parentes falecidos. Aliás, pode ver-se acompanhada dum sentimento de amor incondicional e aceitação, assim como de um contato com uma forma de conhecimento e sabedoría definitiva e universal(...), a consciência completa e infinita com lembranças acessíveis tem as suas origens no espaço não local, em forma de funções de onda indestrutíveis e não observáveis de forma direto(...). O cérebro e o coração funcionam simplesmente como uma estação de transmissores que recebe parte da nossa consciência global e parte das nossas lembranças na nossa consciência de vigília baixo a forma de campos eletromagnéticos mensuráveis e em constante câmbio. Os campos eletromagnéticos do cérebro não são a causa, mas o efeito da consequência da consciência infinita”.

Acrescentamos que a aceitação da imortalidade da consciência implica outra das crenças mais antigas e universais que existia entre os druídas: a reencarnação. Há muitos casos de pessoas que apos uma regressão visualizam a sua vida passada e depois de investigar certos acontecimentos históricos locais, confirmam a veracidade da sua visão. Também há grande quantidade de casos de meninos que lembram com exatitude a sua vida passada, realidade que demostraram identificando com exatitude as suas anteriores pertenças e lembranças de certos lugares.

Com a minha própria experiência e as minhas pesquisas (nada novo) cheguei a conclusão de que o padrão comum das religiões está na interação com o espaço não-local, tendo a ver a existência de muitos mitos com as chamadas realidades não-ordinárias (Stan. Grof). Desde os primórdios, os xamãs tiveram acesso a outras realidades por meio do emprego de técnicas extáticas, quer dizer, induzindo estados alterados de consciência. Este tipo de estados mentais induzidos de forma exógena ou endogenamente, permitem a ativação ou contato de certas áreas do cérebro, o qual podemos verificar cientificamente e que ao meu ver permitem “sintonizar” como uma rádio, outras realidades que a maioria das pessoas não podemos perceber. Entre outras cousas, o contato com as ânimas foi e é uma realidade testemunhada no transcurso do tempo. Os estados alterados de consciência têm também muito a ver com a realidade que apresentam as EQM. A través do tempo, este tipo de experiências foram a cosmogonia das realidades religiosas ou espirituais, realidades que foram exprimidas na linguagem das múltiplas crenças ao largo do planeta.

Nas crenças célticas e galegas existem muitas similitudes com as fases das EQM e evidências da irruçao das realidades transpessoais. Alguns exemplos são os seguintes

  • Entidades psycopompas(condutoras de ânimas ao Além): Há uns meses foi publicada uma entrevista neste blogue, feita a um homem que têm a capacidade de percebir essas outras realidades. O meu amigo “Lobo de Lugh” contava deste jeito uma experiência própria que têm muito a ver com uma EQM: Poucos dias após a chegada, caí doente e o médico de Santarém que foi chamado para me ver, disse não perceber o porquê da minha febre e conversou com os familiares, dizendo que não havia mais nada a fazer senão esperar. Como mais tarde me contou a minha criada Clementina, a que nos criou a todos e estava particularmente ligada a mim, eu falava que estava ali no quarto o meu Pai e uma Senhora vestida de branco. Dizia-lhe que tivesse cuidado ao andar pela habitação para não embarrar neles. Decidiram então que a Senhora era a Virgem de Fátima, muito em “moda” naquela época, 1950, e foi um carro buscar um garrafão de água bendita à Cova de Iria. Com essa água, a Clementina deu-me um banho e, a partir desse momento, comecei a arribar e fiquei bom. Logo foram feitas promessas, rezadas missas, benzeduras pelo cura da terra. Mas a Clementina sempre me disse que quem me tinha curado tinha sido a Senhora da Fonte, e que eu devia, um dia, ir à fonte agradecer-lhe. Fi-lo muitos anos depois”. Esta é ao meu ver a descrição dum “arquétipo”, o da deusa branca e psycopompa do Além. A fermosa Moura que chegada do Além pentea os seus cabelos com um pente de ouro. A mesma deusa céltica relacionada com as plêiades a que os guerreiros lhe levavam um pente de agasalho tal e como nos aparecem em algumas tumbas. Deusa que aliás é tripla como As Tres Marias, brancas, relacionadas com o Cinturão de Orióm e que segundo as crenças galegas se aparecem aos moribundos. A mesma que mais tarde se pôde associar à virgem. Porque finalmente, são distintas nomenclaturas para descreiber uma mesma realidade. Também não me esqueço de Bândua, outro importante ajudante na última viagem.

  • Experiencias extracorpóreas: Na Galiza existe a crença nas ânimas de vivos: A sociedade do Osso. Este tipo de ânimas são uma nomenclatura do corpo astral ou ânima, que é capaz de deixar o corpo em vida para voltar depois. Tal e como acontece numa EQM ou como capacidade que algumas pessoas afirmam ter.

  • Música celestial: Na Galiza os encantos e as entradas ao mundo dos Mouros, isto é, ao Além, são anunciadas com uma música celestial. Por vezes mesmo de gaiteiros.
  • Espaço sobrenatural paradisiaco: Os Immrama e as Echtra célticas, assim como a entrada no mundo do Sidh, descrebem viagens ao Além. O padrão comum é similar ja que por vezes aparece uma mulher ou animal que incita a fazer a viagem, faz aparição uma música celestial ao tempo que se chega a uma terra paradisíaca que é o outro mundo (Tir na nÓg, Tir Na Ambam, Avalon etc.). Ao regressar ao nosso mundo descrebe-se uma diferença temporal, de formq que o espaço-tempo do Além não é o mesmo do que o do mundo dos vivos. Acostuma-se dizer que uns segundos no Além podem ser anos no nosso... Lembremos a inexistência da passagem do tempo no espaço não-local. Por vezes, o que chega ao paraíso do Além não pode voltar, o qual, talvez pode ser uma evidência de ter passado a última fronteira descrita nas EQM.

Temos de lembrar que na Galiza, o equivalente do mundo do Sidh é o Mundo dos Mouros (do céltico mrwos,mortos). O Além, com maiúscula.
Convido ao leitor a ler relatos das Experiências de Quase Morte e fazer uma comparação entre esses relatos e os mitológicos galaicos ou célticos para ver o que acham. Porque ao meu ver, os relatos célticos estão a nos falar de viagens a essa outra realidade numa situação limite ou durante um transe extático.

A VIAGEM DE BRAN, FILHO DE FEBAL

Um dia, quando o jovem Bran, filho de Febal, se passeia pelo jardim da casa real, escuta uma música de tanta doçura que lhe provoca o sono. Quando acorda aparece-se-lhe uma belíssima dama extranhamente vestida, que leva uma maravilhosa pola de maceira, de cor prateada nas súas maos. A mulher descrebe com melodiosos cânticos o esplendor e as delícias incomparáveis do mundo situado para além do oceano ocidental com as suas formosas ilhas, onde moram milhares de jovens e belas mulheres, a sua música celestial e uma completa ausência de perigos e traições, penas, enfermidades e a mesma morte, pois lá eram desconhecidos. Ao dia seguinte, Bran embarca-se com tes companhias de homens cada uma, e depois de dous dias e duas noites de navegação acham ao deus marinho Manannan Mac Lir (psycopompo), que viaja sobre os mares no seu carro de combate com dous cabalos e duas rodas. Conversam, e Manannán, com os seus grandes poderes mágicos transforma os mares e os peixes numa verde chaira com rebanhos de animais do país prometido. Posteriormente seguem o seu caminho para máis adiante chegarem a Ilha da Felicidade e depois a Emain, a Ilha das Mulheres, onde são recibidos por uma dama que os acomoda em camas. A cada um deles com uma bela e jovem doncela. Apetitosos manjares e bebidas, música, cantos, festas e divertimentos fazem a vida doce e pracenteira. O tempo passa assim, docemente mas a eles parecia-lhes que transcorrira um ano quando na verdade pasaram muitos mais. Um día, um deles sente-se afligido por uma grande morrinha e veementemente consegue convencer ao Bran para realizarem uma visita a Irlanda, o seu antigo país. A dama advirte-os de que lhes vai pesar enormemente e que em qualquer caso, se decidirem ir, que não ponham o pé na terra. Ao chegarem a costa da Irlanda, acham uma grande assembleia. O Bran apresenta-se desde o barco e eles dizem não conhece-lo embora tiveram ouvido falar da Viagem de Bran aos Filedda (narradores de contos orais). O homem morrinhento salta à praia mas ao tocar com o pé na areia converte-se em cinzas, como se tivesse morto lá há centos de anos. O Bran relata então as suas aventuras, depois escrebe-as em verso, em ogham, sobre umas peças de madeira que deita na praia. Despede-se e desde aquel momento nunca máis se soube dele nem das súas aventuras...

Lembre-se que nos dias do presente mês de novembro as portas do Além vão aparecer abertas, e receberemos e conviveremos com os nossos devanceiros. Aa lúa cheia há de ser o momento de máxima apertura e esta aqui.Se não os podeis ver, abri os olhos do coração e da alma. É preciso dignificar e recuperar o seu legado e a súa profunda verdade. Mantenhamos a fogueira acesa.

Bom Sámanos a todos.


quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Roteiro

Por Equipa do DTS



O pássado dia 4 de Agosto, o DTS (Desperta do teu sono) organizou um roteiro pelas terras querquernas. Visitamos o Mosterio de Cela Nova e falamos de São Rosendo assim como a pequena capela, talvez mal denominada de moçárabe de São Miguel onde visualizamos uma herança artística derivada em linha direta da arte céltica e megalítica.
Posteriormente fomos ao Castro de Koeliobriga, mas conhecido por Castro Mau onde lembramos a origem do nosso passado étnico. Fomos a Bande, onde comimos, mais concretamente no Alto de Vieiro, lugar onde está um pequeno parque das merendas com uma fonte natural saída do meio duma velha árvore morta.
Nesse Concelho visitamos Santa Comba de Bande, discutida obra monumental cuja origem visigoda tem muita contestação por visualizarmos um passado mais antigo...talvez suevo...mas igualmente  poderiamos ubicá-la no final do Império Romano, nas primeiras épocas do cristianismo galaico.
No mesmo Bande chegamos a Aquis Querquernis, acampamento romano que nos indicava o lugar onde as tropas galaicas treinavam para servir ao Império e lugar ubicado na mesma linha de trânsito da Via Romana XVIII. Ali mesmo, um Centro de Interpretação criado há poucos anos nos deu conhecimento de como se construiu a dita Via e mesmo o acampamento.
Deixamos Bande para irmos a Lóvios onde topamos com a Vila Romana de Aquis Originis. Pousada situada igualmente na mesma linha de trânsito da Via Romana XVIII que unia em tempos as cidades galaicas de Braga (Brácara Augusta...ou melhor Lana Brakara) com Astúrica Augusta (ou Lana Asturika) hoje conhecida com o nome de Astorga. Nessa Vila pudemos visualizar os engenhos que naquela altura eram capazes de construir antigos arquitetos já perdidos na memória e na noite dos tempos.
Seguimos a Via Romana até o lugar dos Miliários pouco antes da fronteira da Mata da Albergaria onde uma floresta de beleza sem igual nos dava ideia de como era a Galiza anterior ao desastre ecológico exercido pelo ser humano durante o século passado. Ao final, a Vila atualmente portuguesa do Gerês. Ali assentamos, descansamos, acabamos e desfrutamos. O próximo será um roteiro bracarense que temos no horizonte. Contaremos-vos a nova aventura.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

O cômputo das Têmporas.

Por José Manuel Barbosa  
Carxs, vamos fazer um pequeno experimento, ainda que só seja por curiosidade. Vamos levar cômputo das têmporas.
Que são as têmporas?
É uma fórmula ancestral do Norte da Península Hespérica -portanto presumivelmente céltico- de conhecimento da climatologia baseando-se em datas determinadas. O tempo climatológico calcula-se por meses e estes vêm dados por três dias da estação anterior à que se calcula. Esses dias sempre se correspondem com o primeiro mês da estação a computar, determinado pela quarta, o segundo mês, determinado pela sexta, e o terceiro mês, determinado pelo sábado.

Que dias concretos são esses?
Para a primavera calculam-se a segunda semana de Quaresma. Quer dizer, a segunda semana depois da quarta-feira de cinza.
Para o verão calcula-se a segunda semana depois do Pentecoste.
Para o outono a semana seguinte à exaltação da Santa Cruz que é o dia 14 de setembro.
Para o inverno, calcula-se a semana seguinte à Santa Luzia que é o 13 de dezembro.
O facto de ter referências cristãs só é pela assimilação do cristianismo de datas anteriores. Quais eram estas não sabemos, mas calculamos que podem vir do neolítico que era quando os new age da época, quer dizer, os que mudaram de sistema político-económico de caçador-coletor para o novo baseado na agricultura, no sedentarismo e no conhecimento do cômputo temporal e climático para melhor controlar os cultivos e as colheitas. Essas datas poderiam ter a ver com fenómenos cósmicos ou astronómicos desconhecidos totalmente para os cientistas de hoje, quer os historiadores quer os astrónomos ou meteorologistas. O desconhecimento destas cousas não significa que não sejam reais. Simplesmente não são científicos mas a ciência habitualmente tem uns limites para além dos quais há realidade. Assim o que antes não era científico, hoje sim é...e consequentemente o que hoje não é, amanhã pode ser.
Proponho um simples experimento. Façamos todos e todas em conjunto a comprovação que nos pode dizer se isso é certo ou não. Vamos controlar que tipo de clima faz os dias que indicados e depois comprovemos se os meses correspondentes obedecem a essa pauta.
Comecemos:
Os primeiros dias a calcular são aqueles que nos indiquem como vão ser os meses de outono, e esses dias se correspondem com a quarta-feira, a sexta-feira e o sábado da semana seguinte à celebração católica da exaltação da Santa Cruz -14 de setembro-, quer dizer, os dias 19, 21 e 22 de setembro. Temos que comprovar se esse dia faz sol ou nuvens, se chove, se faz calor ou faz frio, se o vento é do sul ou do norte....Isso poderemos vê-lo “in situ” simplesmente com sairmos à rua, ou bem assegurarmos a informação entrando em qualquer web sobre metereologia que nos informe sobre o clima da cidade desde a que observemos. Evidentemente o clima não vai ser igual em Ourense, onde eu escrevo, em Faro do Algarve ou em Santos do Brasil). 
Observaremos primeiro a climatologia do dia 19 de setembro que se vai corresponder com a climatologia do primeiro mês do outono, quer dizer, do 22 de setembro até o 22 de Outubro.
Depois, observaremos o dia 21 de setembro que se vai corresponder com o segundo mês do outono, do 22 de Outubro ao 21-22 de novembro aproximadamente.
Finalmente observaremos o sábado dia 22 de setembro que se corresponde com o terceiro mês do outono, do 21-22 de novembro até o 21 de dezembro, data do solstício de inverno.

As têmporas do inverno correspondem-se com os dias 19, 21 e 22 de dezembro.
As têmporas da primavera são os dias 19, 21 e 22 de fevereiro...já de 2013
e as têmporas do verão são os dias 22, 24 e 25 de maio também de 2013
Será igual com a mudança climântica? Tem algo a ver com o dia da marmóta, celebração de origem irlandês? Eu não sei. Nem sei se funciona, mas por comprovar...
Admitem-se comentários de todo tipo.


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