sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

HISTÓRIA DA LÍNGUA: Antes do Latim


 Por José Manuel Barbosa

Dedico este artigo à boa gentinha de Pitões das Júnias e à gente do Barroso

Parece ser que o território galaico-lusitano anterior à conquista romana estava ocupado por diferentes povos de raiz indo-europeia e de fala provavelmente proto-celta.

Se repararmos na configuração étnica desses territórios teríamos de norte para sul os seguintes: os povos ártabros (Martins, Higino 2008) ou posteriormente chamados pelos romanos de galaicos lucences que ocupariam a atual Galiza norte (províncias da Corunha, Lugo e norte de Ponte Vedra); os povos gróvios (Martins, Higino 2008) ou galaicos bracarenses (atuais províncias galegas de Ourense e sul de Ponte Vedra junto com todo o norte de Portugal até o Douro); e os povos asturos (atuais Astúrias, Leão, a Zamora do norte do Douro e a parte oriental de Trás-os-Montes).

Ao sul do Douro habitariam os lusitanos até o Tejo incluindo no seu espaço territorial a Estremadura espanhola atual ao norte desse rio. Para sul um conjunto de povos de nome genérico célticos por todo o Alentejo e ficando para o extremo Sul os cônios ou cinetes no Algarve de estirpe celta segundo os autores clássicos.

Segundo os estudos recentes baseados nos achados litográficos de Lamas de Moledo (Évora), Cabeço das Fráguas (A Guarda) e Arroyo del Puerco (Cáceres), a língua falada pelos lusitanos mas também pelos galaicos incluindo neles os asturos e provavelmente também os cântabros, tendo como fronteira oriental com os vascons o rio Asón, era uma língua com capacidade para poder ser compreendida e reconstruída a partir das línguas célticas modernas por linguistas e arqueólogos.

O espaço que poderia ocupar haveria que reconstruí-lo a partir, não só pela localização destas inscrições conhecidas, mas também pela onomástica, a toponímia e a teonímia. Corresponder-se-ia com os velhos conventos romanos da Scallabientense, Asturicense, a Bracarense, a Lucense e parte da Emeritense, bem como parte da atual Cantábria.

Essa parte norte-ocidental da península falaria o que os cientístas denominaram com o nome de lusitano ou como diz Ulrich Schmoll (Schmoll 1959) galaico-lusitano por serem a Gallaecia romana e a Lusitânia originária (entendida como o berço do povo lusitano, não da província romana) a sua zona.

As provas que falam da existência deste galaico-lusitano estão nesses achados litográficos de época imperial romana, cuja época ajustamos e deduzimos por estarem escritos com a ortografia latina.
 
 São os exemplos dos textos litográficos os seguintes:

- Texto de Lamas de Moledo

rufinus et tiro scripserunt: veaminicori doenti angom lamatigom crougeai magareaigoi petranioi radom porgom ioveat caeliobrigo

Este texto datado já em época romana (no século I d.C.) com introdução em latim viria significar o seguinte segundo a tradução de André Pena Granha, arqueólogo e historiador galego:

Rufino e Tiro escreveram: Os Veaminicori (cojunto de jovens solteiros em idade militar) dão um anho lamático (de Lamas de Moledo) para o altar de Petranio (o oficiante), um grosso porco para o Júpiter do Castro de Caelio.

Segundo Higino Martins (2008:87) Veamini Cori ou Wegamenoi korioi significaria “os que viajam em carros”, quer dizer, “os chefes”, ou “senhores”.

- Texto da Pedra de Cabeço das Fráguas:

 oilam trebopala indi porcom laebo commaiam iccona loiminna oilam usseam trebarune indi taurom ifadem(...) reve tre(barune)

Texto também de finais do Império com latinismos como porcom (com p- inicial aparentemente não céltico) e redigido na pedra para um ritual de tipo suovetaurília com o fim de proteger a Treba (território político sob a influência do povo que oferece o ritual). A tradução que o professor André Pena Granha fez a finais do século passado apoiando-se noutras línguas célticas vem sendo a seguinte

...uma ovelha para trebopala (protetora da Treba) e um porco para Laebo (divindade feminina), uma égua para a luminosa Iccona (deusa dos cavalos), uma ovelha dum ano para trebarune (a deusa protetora do País) e um touro dum ano para Reva, senhora da Treba.

 A dia de hoje o professor Pena Granha defende que este texto é uma forma de latim baixo-imperial. Uma forma de castrapo celtico-latino.

- Texto de Arroyo del Puerco ou Arroyo de la Luz (Cáceres)

ambatus scripsi carlae praisom secias erba muitie as arimo praeso ndo singeieto ini ava indi veam indi vedagarom teucaecom indi nurim indi udevecom rurseaico ampilva indi loemina indi enu petanim indi arimom sintamom indi teucom sintamo...

isaiccid rueti puppid carlae enetom indi na(.) (...)ce iom.m

Interpretação de Witczak-Wozniak:

“(Eu), Ambatus escrevo: Em Carla, o pacto de amizade ou de reciprocidade por um (parente) que deve ser enviado (ali), que seja contraído (jurado) sem participação de avó e mulheres de irmãos e noivas de filhos e dona da casa (quer dizer, esposa do chefe da família) e sem (participação de) Rursenco Ampilua e servidão, e sem (participação de) Petanim, e (sem) o maior dignatário, e (sem) o filho maior...”

Possíveis interpretações de Blanca María Prosper da linha final que é conhecida como Texto de Arroyo de la Luz III:

“Deste jeito fica dito o que em Carla (está) estabelecido e não (??)...”
“Por aqui fica o que corresponde ao término de Carla...”
“Aqui limita/começa o que está incluído em Carla...”
....................

Ao sul do Tejo dos diferentes povos de filiação céltica segundo os clássicos mas com importante influência tartéssica e fenícia pouco sabemos, mas quiçá não nos sejam de muito interesse por não serem a base, nem as suas línguas, o substrato da futura língua galego-portuguesa.

A língua galaico-lusitana poderia ser identificada como uma língua celta ou proto-celta como nos comenta Armada Pita (1999:260-263) mais ainda nos fornece a ideia de ser a partir do conhecimento das línguas celtas que pode ser possível a tradução dos textos conservados. A compreensão dos mesmos reafirma o parentesco entre esta língua da que estamos a falar com o celta antigo.

A identificação como língua celta é discutida, no entanto, por alguns autores argumentando que algumas palavras possuem um /p/ inicial inexistente neste grupo de línguas, tanto nas atuais como nas antigas.

Mas é o professor valenciano Xaverio Ballester (1998:65-82) da Universidade de Valência quem nos diz:

"O problema na realidade não é a presença linguisticamente incorreta do /p/, mas, dir-se-ia, a posição geograficamente incorreta do lusitano. Se essa mesma documentação que possuímos para o lusitano aparecesse, por exemplo nalguma zona próxima aos Alpes, previsivelmente a linguística indo-europeia tradicional consideraria tal documentação uma testemunha da primeira pola separada da árvore céltica, dessa fase ainda com /p/ que por ser língua indo-europeia, reconstruímos como célticas."

O parentesco com o celta comum parece maior do que se aguardava, portanto.

Diz-nos ainda a professora Fdez-Albalat (1996:39):

"Segundo a minha opinião, estamos perante uma rama celta possivelmente anterior à divisão entre goidels e britons ou bem uma terceira rama de tipo arcaico"

Atendendo para o trabalho de Robert Omnès (1998:247-268) professor da Universidade de Brest, o galego-português tem uns importantes elementos substráticos celtas que determinariam a nossa língua como um “patois” celto-latino. Alguns (e só alguns) desses elementos seriam os seguintes:

1-     Léxico (ver o apêndice n.º 1 da Gramática elemental del gallego común de Carvalho Calero)

2-     Semântica:
  • Preferência pelo verbo ser em vez de ter em frases possessivas do tipo:
O jardim é meu (galego-português)
Y mae gardd gennuf i (galês)
  • Uso da forma levantar (sevel em bretão) com o sentido de “construir”
Levantei uma casa (galego-português)
Sevel eun ti (bretão)
Por exemplo em francês seria construir une maison ou no espanhol construir una casa

3-     Fonética e Fonologia
  • O /k/ implosivo devém num iode ante /t/ explosivo como em irlandês
noctem>noite; octo>oito
  • Em galego-português os ditongos descendentes são os mais numerosos, o que se explica pelo modelo silábico céltico
  • Evolução dos grupos cl-, pl-, fl- iniciais: clamare>chamar; plorare>chorar; flagrare>cheirar
  • A metafonia que Rafael Lapesa (1991:44) identifica como celta:
tenebat>tinha                         Mestr (sg.)/Mistri (pl.): “mestre” em bretão
molinum>moinho                     Bran/Brini: “corvo” em bretão

4-     Morfossintaxe
  • A repartição dos géneros: os nomes das árvores som femininas em galego-português e em bretão
  • O cal, o labor, o nariz, o sal, o mel, o leite, o sangue, o cume... como em bretão (por exemplo em outras línguas latinas como o espanhol são palavras femininas)
  • A mesma forma pode ser utilizada pelo adjectivo qualificativo e o advérbio tanto em bretão como em galego-português
Henned a labour mad (bretão). Traduc: Ele trabalha bem
Tem bem anos (galego-português)
  • O durativo no infinitivo:
Estou a trabalhar (galego-português)
Rydw i’n gweithio (galês)
Emaonn o labourad (bretão)
Taim a(g) dul Traduc: Estou a ir (irlandês)
O galego-português é a única língua romance que partilha esta característica com as línguas célticas
  • Perguntas e respostas: em galego-português as respostas não são “sim” ou “não”. Exemplo em gaélico escocês:
- Rapaz, tens fome?            - Ydy’r bwyd yn barod? Traduc: Está o jantar pronto?
         - Tenho!                              - Ydy! (Está!)
  • etc

Conectando, portanto com a Teoria da Continuidade Paleolítica formulada pelos professores M. Alinei e F. Benozzo, o galaico-lusitano viria ser a língua da qual derivariam as outras línguas célticas e o ocidente da Península Ibérica o seu berço.

Para o professor Higino Martins Estêvez, em entrevista concedida ao Portal Galego da Língua em 13 de Dezembro de 2008 com motivo da apresentação do seu livro As Tribos Calaicas. Proto-História da Galiza à Luz dos Dados Linguísticos, a velha língua céltica da Galiza pôde ter ressistido viva até aproximadamente o ano 1000 momento no que começou o seu declínio real. Também no-lo diz neste seu livro (2008:151) quando falando de Ogrobe onde nos comenta:

OKOBRIXS “Castro da Ponta” pode nascer antes ou trás a conquista (romana), pois a língua céltica subsistiu, sem registos fora da toponímia, em todo o primeiro milénio cristão.

Ainda o nosso professor diz no seu livro quando fala da etimologia do antropónimo Urraca (2008:529):

 b) os montanheses iletrados da cornija cantábrica ainda falavam céltico. Somente ficarom rastos toponímicos (só se escrevia latim); o que não era latim era invisível, mesmos os romances. Da Orracas de reis surge a língua estar viva nos sécs. IX e X
c) O Reino de Leão (sequela da Gallaecia para os cristãos e muçulmanos) era âmbito rude e iletrado. Os montanheses que só falavam céltico –arcaico e próximo do gaélico- nessa língua residual chamavam Esposa por excelência à do rei. Até o século XII só era dado a rainhas por casamento. Então aparecem desse nome duas rainhas per se. Petronila-Orraca é dúbia: ementam a mudança de nome e a seguir o matrimónio com o conde de Barcelona. A castelhana, rainha de 1109 a 1126, a meu ver já demonstraria a opacidade: em céltico chamariam *RIGANI, não *WRAKKA”
d) não se vê diferença entre cântabro e calaico: a voz é compartilhada pela cornija cantábrica (369)

e diz a pé de página:

369 Nem entre calaico e lusitano, cf. Promontorium Artabrum (Plinio IV 113), Cabo da Roca. Norte da foz do Tejo

e continua na página 543:

Os anos 944 e 1097 notam justo o ponto final do sistema linguístico céltico na cornija cantábrica.

Acrescenta na sua entrevista que mesmo em algumas regiões do nosso país, nomeadamente os Ancares pudo ter durado mais quatro ou cinco séculos. A sua conclusão vem dada pola etimologia dum nome de família exclusivo dos Ancares, como é Deiros o qual só pode ser interpretado apartir dum nome céltico testemunhado na Irlanda.

Para reconfigurar e aproximar os limites desta língua galaico-lusitana da qual estamos a falar são de grande ajuda os mapas elaborados pela professora Fdez-Albalat (1990:422-427) e a opinião de Rosa Brañas (1995:211-253) e o próprio Higino Martins, pelo que também, a partir dessa informação, quisemos elaborar um mapa, o número 5, desde a nossa modéstia que poderemos achar no Atlas Histórico da Galiza na página 18.

Roma entra na Kalláikia:


No século II antes de Cristo o imperialismo romano no seu afã de alargar o domínio sobre a península toma contacto com os lusitanos. São momentos de sofrimentos e guerras nos que os povos do norte do Douro participam como se com eles fosse, razão que nos faz pensar na unidade étnica galaico-lusitana que Roma quebrou por razões políticas para o seu projeto imperial.

Decimus Junius Brutus, entre o 139 e o 137 a.C. passa-se para a ribeira direita do Douro após uma feroz batalha, como nos conta Casimiro Torres, na que morrem segundo fontes romanas mais de 60.000 soldados galaicos, fazendo que o rio se tinja de vermelho.

São os habitantes da foz do Douro, os Kaláikoi, os que lutam contra os romanos e os que a partir de agora vam dar o nome a todo o país ao norte do rio que eles chamam “Dwórios” ou “das Portas” ou “das Portelas” segundo nos traduz o linguista e celtista galego-argentino Higino Martins Esteves (2008:17).

Brutus chega até o Minho (rio “do Tesouro” ou “da Riqueza”), segundo Martins Esteves (2008:337) levando a guerra aos povos marinheiros do atual norte de Portugal, mas é sobre a sexta década do século I a.C. quando Caesar, Julius Caesar, chega por mar desde a Gália à costa galaica até Brigântia tentando submeter de forma definitiva os Kalláikoi.

Isto não vai ser fácil nem possível até que o seu sucessor Augusto desenvolva as guerras cântabras e acabe, embora não definitivamente, com o problema que lhe ocasionavam os povos do norte da península.

É no 22 d.C. segundo o professor Pedro López Barja, num trabalho feito num livro coordenado por Sanchez Palencia e Julio Mangas (2000:36) quando no monte Medúlio os galegos após intenso assédio morrem envenenados pela sua própria acção de ingerirem seiva do teixo antes de se deixarem capturar pola escravatura que Roma lhes tinha reservada.

No desenvolvimento dessas guerras chamadas Cântabras as últimas batalhas pela conquista do território do Noroeste têm lugar nas montanhas mais afastadas e mais inacessíveis. Ao tempo que se produz o desastre do Medúlio, e quase paralelamente, os astures são também vencidos pelo Império no Mons Víndius situado no cordal Cantâbrico fazendo com que finalmente a totalidade da península se passe ao domínio romano constituindo uma nova província dirigida diretamente pelo imperador Augusto com o nome de “Transduriana”, como nos diz o autor acima citado, Pedro López Barja. Esta província integrava os novos territórios conquistados e habitados por cântabros, astures, lucenses e bracarenses. Segundo ele, essa província duraria desde o 22 a.C. aproximadamente até o 13 a.C. momento no que desapareceria integrada provavelmente dentro da Lusitânia (2000:31-45).



Bibliografia:

Geral:

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NOTA: A FIGURA DO GUERREIRO GALAICO QUE APARECE NESTE ARTIGO É DA AUTORIA DE CARLOS ALFONSO FEITA COM MOTIVO DA ASSESSORIA QUE O PROFESSOR ANDRÉ PENA GRANHA FEZ NA GRAVAÇÃO DO FILME "GALLAICUS".

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Ignorância e Poder.


Por José Manuel Barbosa

A história do ser humano é uma constante luta contra o desconhecimento na procura do saber e da ciência, o que converte a ignorância no elemento negativo a vencer mais importante de todos. O conhecimento e o saber dão poder, mas quem tem conhecimento e está à contra do poder político converte-se num herege, num apóstata e num subversivo. O autêntico poder sempre está na sombra e à vista estão pessoas na maioria das vezes medíocres e pusilânimes que mais do que nada estão para cobrir um vazio necessário e passar o tempo histórico que há que exprimir ao vulgo, mas quando realmente a lucidez e o poder se aliam é quando a história dá personagens que são autênticos pontos de referência para a humanidade; no entanto, aqui do que vou falar é de todo o contrário; vou falar da ignorância com poder, que é o mais comum e o que está mais presente no dia a dia, como no caso do primeiro presidente do Panamá, Amador Guerrero quem organizou um acto político de importância internacional o dia que o Canal de Panamá se abriu ao trânsito marítimo.
 O Senhor Guerrero convidou todas as delegações das armadas europeias à apertura do Canal em 1914, mas comprovou como alguns países não assistiam nem deixaram nada dito no que diz respeito da sua assistência, como foi o caso da Confederação Helvética. Incomodado, o Senhor Guerrero, e ofendido porque nenhum barco da Suíça tivera assistido a tão importante inauguração, deu ordem aos seus ministros para prepararem com toda a formalidade, uma declaração de guerra contra tão impertinente país. A final e não sem pouco esforço, conseguiram fazer-lhe entender que a Suíça não tinha frota, e muito menos militar.
            Outro caso absurdo de ignorância com poder foi o do primeiro delegado dos EEUU (não podia ser de qualquer outro país!) no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, Warren Austin, quem em 1948, quando se estabeleceu o novo Estado de Israel, a tensão política chegou a tal ponto que acabou em uma guerra aberta entre os hebreus e os palestinianos. O Senhor Austin pediu publicamente desde a ONU aos dous países que arranjassem o conflito “como bons cristãos”.

            Lembro também o caso que aconteceu em 1890 na Abissínia. O Negus, quer dizer, o monarca do país, Menelik II, teve conhecimento da invenção da cadeira eléctrica três anos antes por Harold Brown, um empregado da empresa que era gerida polo famoso Thomas Alba Edison. O macabro invento chegou ao conhecimento do Menelik que pensou que aquilo ia ser um autêntico símbolo do seu poder naquele pobre país, mas não se deu conta, nem sabia o bom do homem, que aquele instrumento de morte funcionava com electricidade, cousa que na Abissínia dos finais do século XIX ainda nem se sabia o que era. O Negus comprovou como aquela cadeira virava totalmente inútil para aos seus fins quando teve a oportunidade de tê-la presente. Por fim e para sair do assunto com certa elegância decidiu utilizá-la como trono.

            Vem-me à memória mais outro episódio não menos engraçado, e é que nos anos anteriores à primeira guerra mundial, o Sultão da Turquia Mehmet V deu ordem de capturar um grupo de mercadores austrohúngaros que penetraram no país legalmente para favorecerem as revoluções no Império Otomano comunicando com total liberdade e impunidade pelo país mensagens em clave para subverter o ordem político estabelecido. Quando o governo autrohúngaro por meio dos seus legados investigou o assunto, descobriu que os pobres mercadores vendiam bicicletas cujas dínamos eram capazes de realizarem um alto número de revoluções por minuto e as mensagens secretas não eram mais do que fórmulas químicas de farmácia para curarem pequenas feridas da pele.

            Pois bem, tudo o que acabamos de contar parece próprio de épocas obscuras nas que as culturas e as civilizações estavam ainda com os cueiros postos, mas é que o que vos vou contar agora aconteceu na Galiza “autoanémica” -como é que diria o nosso José Manuel Beiras-, do século XXI e é a notícia saída no jornal “La Región” de Ourense o passado dia 20 de Janeiro de 2006 na página 23. Nesse pequeninho artigo situado na margem da folha diz-se-nos que uma organização chamada FUNDEU (Fundación del Español Urgente) acentua o apelido FEIJÓO no primeiro “O” segundo a sua análise diária do uso da língua espanhola nos meios de comunicação e faz uma advertência de que o segundo apelido do político dos Peares do PP Alberte Nunes Feijó (Alberto Nuñez Feijóo) leva “tilde” -como se lhe chama em castelhano ao acento gráfico-. As razões são fundamentalmente de uso por parte da sua família pelo que anima a respeitar a grafia escolhida por eles.

            A nossa opinião é que a palavra “Feijó” é uma palavra galego-portuguesa, não castelhana, e que nós grafaríamos com um só “O” e com “J” proveniente da forma greco-latina PHASEOLU que teria por significado o mesmo do que Feijão de cujas formas é variante; seria o nome vulgar e extensivo que se lhe dá a umas plantas da família das leguminosas, com espécies, variedades e formas muito cultivadas e apreçadas na alimentação. Tem por sinónimo Fava e o seu correspondente castelhano seria “Frijol”, termo muito utilizado em alguns lugares de América.

            Não sei se essa fundação linguística defensora do idioma espanhol tem qualquer publicação onde nos aconselhar a utilização de formas tão espanholas como “Guáxinton” para a capital dos Estados Unidos; Yan Yaques Custó para o conhecido oceanografo francês; Roberto Xúman e Güilian Xespir para o famoso músico germano e para o literato inglês; Margarita Zaxer para a ex-primeira ministra britânica (ou Margarita Colmenero!! Que também poderia ser) ou Fransuá Miteján para o também ex-presidente francês. O que sim sabemos com segurança é que o Senhor Feijó não protestou nem contestou à Fundeu, mas nós desde a nossa modéstia, reivindicaríamos, desde o respeito à opção pró-castelhanista do chefe do PP galego e presidente da “Xunta de Galicia” a forma ALBERTO NÚÑEZ FRIJOL, para sermos justos e exactos e ajudarmos à coerência ideológica de tão preclaro e digno personagem.




domingo, 3 de fevereiro de 2013

Sobre o Paradigma

Por José Inácio Regueiro Castro (José Capeloso)
O paradigma baseia-se em axiomas, isto é sentenças que são consideradas como verdadeiras, por consenso social, mas que são apriorísticas, ou de difícil defesa, no campo da lógica, da sua verdade ou validade. Estes postulados "incertos" servem para armar uma construção de compreensão e interpretação do que posteriormente construído, compreendido, ou interpretado, é chamado de Realidade. 
Trato de comunicar até que ponto alguns axiomas ou postulados do paradigma do pensamento ocidental, por vezes ocultos, por vezes já derrubados, seguem operando nas nossas mentes e nos nossos intentos de comunicação.
O paradigma, aqui falado, é entendido como um padrão, um esquema mental que a sociedade, a época, a família nos oferece para interpretação da realidade.

E por isto, que devido a alguns postulados tacitamente aceites, a liberdade fica longe, pois as premissas são in-questionadas, axiomas subliminalmente desconhecidos podem orientar a escolha, pois nós, as gentes presas nestes cárceres conceituais, estamos longe da nossa soberania.

É principal para mim principiar a emancipação pola análise e busca de pré-conceitos para que a liberdade chegue, e é pois principal começar por cavar e assentar a pedra incorretamente alicerçada, erguermo-nos partindo daí, pois qualquer outro intento de liberação, a diferentes níveis, individual, ou coletivo, precisará de fortes muros constrangedores que sustenham, por fora, como os contrafortes de São Martinho de Mondonhedo, a tentativa de crescimento que parte duma raiz apodrecida, muros que tratando de soerguer hão acabar por me limitar.
E é por mim que começo, pois é de lei. 
A simbologia ajuda a aprofundar e sondar o que sustenta esta mole construtiva, que sem consciência compõe o meu quebra-cabeças, fazendo que tudo quadre, para bem dele do PARADIGMA DOMINANTE, e não para o meu bem.

Vejamos onde é que estou:

A linguagem nasce do pensamento e retro-alimenta o pensamento....
É então necessário mudar a linguagem para mudar o pensamento?
Na sua estrutura profunda, a linguagem pode estar fundada sobre doestados axiomas abandonados, e essa linguagem podem criar, e cria uma rota de relações entre conceitos que reflete um paradigma.
Há diferentes categorizações do pensar, autores como o Jung separam o pensar em dous modelos: O pensamento dirigido, ou racional, e o sonho ou devaneio.
Esta categorização dual pode ficar algo escassa, pois não abrange o insight, ou o não-pensar, mais isso fica para além do plano paradigmático dual no que a ocidentalidade costumamos mover-nos. 
A gramática do nosso idioma faz derivar as formas femininas de muitos nomes e adjetivos, das formas masculinas.
A palavra feminina é uma "flexão" do masculino, a igual jeito que Eva é nascida duma costela de Adão.
Mas este parto masculino já está no mito grego, onde a trajada de feminina Σοφία (Sofia), Atena, nasce da cabeça do Zeus sem intervenção de mulher nenhuma.
Com a mesma premissa, o cristianismo anda: no princípio foi o verbo, o São João afirma que o logos foi o primeiro... Logos entendido como força yang.
Isto, na gênese da humanidade, tem acontecido com a chegada do grande ciclo temporal definido pola cultura hindu como Kali Yuga.
O tempo de Kali Yuga é pouco concretizado, mas há quem afirma que este tempo começou quando as diferentes culturas humanas abandonaram o par feminina-masculino como axioma, e aceitárom o masculino como principal ou princípio.
 
O priscilianismo foi acusado de maniqueu, mas quê fica do maniqueísmo na atualidade? O quê se entende por maniqueísmo?
Maniqueu é agora pejoração para a conceição da realidade em dous bandos bem e mal, ou polarizada.
Mas a perseguição do priscilianismo herético entre outras cousas por maniqueu, talvez não foi polas ideias de polarização, pois estas vigoraram e vigoram no cristianismo e no ocidente, no chamado de politicamente correto, onde bem e mal estão no dia a dia, onde corpo e alma são separados e qualificados positivamente e negativamente, onde o Demo se confronta com o Deus, onde o "comigo ou contra mim" é consigna...
Foi eliminado, erradicado o paradigma que afirmava que a gênese nasce da união de pares complementares, para outros, pares contrários.
Este triunfo monista tivo o reflexo na desaparição da Deusa, e na só existência do Deus; em diversas partes do planeta reforçou-se religiosamente a partir do século VI: Uzza, Al Manāt e al-Lāt de serem as três deusas, as três formas, convertem-nas nas três filhas de Deus no pré-islamismo.
Asherat é negada, demonizada, como par de Yahvé (2).

Pedro Henriquez d'Abreu em 1.651, conta-nos casos nos que as santas galegas são decapitadas por não querer casar com homens de nome Germano.
Nas lendas posteriores populares as santas são obrigadas a casar com mouros, com muçulmanos, mas neste relato antigo aparece Germano.
Seria que: o culto à Deusa não casava com a ideia "germana" de religião?
O abandono do Arianismo polos visigodos acontece neste convulso século VI, talvez século onde uma tolémia iconoclasta e decepadora de cabeças de Deusas, santas para o catolicismo, ocorre.  
Eram pois os arianos os negadores da divindade do filho de Deus, porém negadores da "santidade",  da divindade de Maria, a sua nai.
Século VI do São Martinho da Panónia, que converte ao catolicismo aos arianos suevos, século do primeiro concílio de Braga onde são tidas por anátema as teses maniqueístas, residuais do priscilianismo, (raízes agromadas do substrato céltico?), nas quais o par divino, do masculino e da feminina gera o cosmos. Cosmos que para o Martinho de Dume só podia vir do Deus Pai.

Andou o tempo e tudo isto apenas fica cinza da história do pensamento, outros sistemas operativos que foram desbotados por uma nova ordem de poder que necessitava de outro tipo de súbditos.
E agora?
Simbolicamente andamos por aqui:
Na nota do dólar vemos a pirâmide, herança do olho da providência, por sua vez filho simbólico do olho do Hórus, e é o papel moeda dos Estados Unidos hegemônico no mundo em diversos planos.

Que é o que me leva ao questionamento do pensamento dirigido ou racional como superior e único, na sua certidão e validez frente os outros tipos de cogitação?
Povos, culturas, em contato com a Natureza têm desenvolvido sistemas nos que o pensamento racional tem menor peso na construção da realidade. Nestas circunstâncias sonhos ou outras práticas que potenciem o pensamento onírico orientam o agir. A atuação na cultura ligada à terra fundamenta-se no pensamento associativo-onírico. A pessoalidade e o saber medram baseadas nas praticas potenciadoras do "devaneio", rituais, exercícios na busca duma visão, chegando a compor um corpus íntegro de sabedoria equiparável à bagagem de conhecimentos acadêmicos que o nosso modelo racionalista de sociedade ensalça.
O pensamento não dirigido enraíza e é água da nascente do subconsciente coletivo, mana harmonicamente com o mito.
 
A predominância do pensamento dirigido ou a falta de valorização do pensamento onírico, do pensamento associativo, distancia-nos da ânima (1), do animal que somos, e reforça a negação desta parte, justifica a superioridade e arrogância do racional. 
No começo, na essência, o método científico uniu, e une dous paradigmas do conhecimento que acompanham à humanidade: o empirismo e o racionalismo.
Foi, é o saber empírico fonte, onde a razão trabalha, dando fruto a um grande acervo de conhecimento.
O paradigma racionalista nasce do a priori, de que o conhecimento, o saber mana da razão, da mente.
O paradigma empirista tem como base que o conhecimento germola da percepção dos sentidos.
O empirismo (yin) unido com o racionalismo (yang) criaram, e criam o Corpus Científico.
O método científico atual às vezes prescinde muito da observação da Natureza, pois com as ferramentas da razão, a lógica, a matemática... , deduz do Corpus Científico novos saberes, e recria racionalmente nos seus laboratórios, ou nos seus computadores, a Natureza; é por isto que parte dos conhecimentos empíricos, (feitos verificados, verdadeiros, que não encaixam no Corpus Científico, por este estar falto ainda de saber) já não são objeto, desafio ou motivo para o avanço da ciência.
A soberba do racionalismo deixa fora o saber empírico, origem, mãe do método, e insulta, despreza, nega o que ainda não pode entender desde a razão.
E pois, este novo método científico deforme, outra manifestação do desequilíbrio entre as energias do yin e do yang, outra manifestação da arrogância de um hemisfério cerebral, que distorce à interpretação do mundo.
Um impedimento para tratar de enxergar à totalidade?
Um rei vesgo ordena que os seus súditos arranquem os olhos esquerdos para ver melhor.
Tínhamos a semente da vida, a hexa-pétala, no jugo velho, nas casas labregas dos avôs e das avoas, pois nesse tempo e cultura do país, o paradigma racionalista estava com menor força, e o empirista tinha o seu lugar.
Se imos mais atrás na simbologia e nas raízes do nosso, rolante, no giro, a hexa-pétala transforma-se num trisquel.
A semente da vida, feita a compasso por tantos nenos e nenas, essa linda flor, harmoniza as linhas retas do Selo de Salomão, e dalgum jeito exprime um ponto anterior ou posterior á sua gênese.

O desequilíbrio da estrela de seis pontas, formada por dous triângulos em união, simboliza para mim o atual modelo de pensamento, o seu paradigma. Primeiramente a linha reta, pois a linha reta está ausente na Natureza, apenas se encontra no mundo das ideias.
O triângulo com a ponta para riba é o dominante simbólico, cada um dos seus vértices representa uma qualidade da força yang, no hinduísmo temos o trimurti, as três formas ou manifestações: Brahma o criador, Vishna o preservador e Shiva o destruidor ou transformador.
Mas, quê fica disto tudo no nosso mundo religioso próximo? 
O olho de deus é apenas um triângulo sem imbricação, separado e distante.
A trindade divina católica tem o pai, o filho e o espírito santo, que muito deu para pensar aos padres da Igreja de como fazer encaixar este espírito santo na trindade masculina das suas elementares três idades, o neno, o pai, e o avô.
Sendo assim, o avô substituído pelo espírito santo, um ente informe, a experiência do pensar, própria da terceira forma divina, perde-se arquivada em geriátricos.
O preservador, o preservado é apartado. A relação entre as forças criadora e destruidora é predominante, pois o dual tem por premissa isto, incapaz de operar em sistema trinário, aparta o terceiro, a terceira idade. Isto para mim é o que está no transfundo, e é consequente ao desenvolvimento de um paradigma que trato de fazer ver, de ver eu mesmo.
Correndo para trás, a trindade no céltico está bem documentada, isto poderia implicar que o seu sistema operativo de pensamento estaria muito distante do atual.
  
Trindade na velha Gallaecia que se reflexa, emana, na sua  administração, nos seus três conventi, nas suas três assembleias, Lucensis,  Bracarensis e Asturcensis, unidos em Trevinca e em Trives.
Hoje, por exemplo, a Galiza, na cabeça, no razoar, apenas é binária: a costa e o interior, espanhola ou portuguesa...
Mas este pensamento trinitário, não é exclusivo do céltico, a mesma Roma usou dele, pois a Roma nasceu da tribo.
Poderia ser que as falas asturianas conservassem ainda restos do trialismo na diferenciação do gênero como neutro, masculino e feminino?

De onde vem historicamente a gênese e o sucesso do binário?
Talvez da caída da tribo?
Como é que chegamos a crer na supremacia do triângulo bicudo para riba?


(1) É de salientar como no português da Galiza, em certo sentido arcaico, a palavra ânima esta ainda viva, num significado próximo, quase sinônimo, ao de alma. 
(2) Não foi até 432 que a nai de Cristo foi considerada polo catolicismo como nai de Deus, no concílio de Éfeso.Também tardaram até 1854 em decretar que Maria, nai de Deus, fora concebida imaculada.
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