sábado, 15 de junho de 2013

O Rato Rabisaco no cartafol da lua cheia




Por Carlos Solha:
A revista National Geographic, no seu número de maio de 2013, inclui um inspirador artigo intitulado “As caras da Lua”. Jeremy Berlin, redactor de NG, oferece-nos um breve percurso por diversas culturas e tradições, sintetizando aquilo que a humanidade vê bosquejado nas “sombras” faciais da lua cheia. Os científicos -uns estragafestas- atalham qualquer elucubrações denominando a superfície escura “mares lunares”, uma vasta extensão de planalto deprimido.

            Ao artigo bem lhe camparia o título “As caras da cara da Lua”, pois, como é sabido e por causa da sua síncrona rotação com a Terra, o nosso satélite sempre nos mostra a mesma face. A Lua emprega o mesmo tempo em girar sobre si do que em completar a sua viagem orbital derredor do nosso planeta (case 28 dias).

A Lua mantém a outra face oculta aos olhos da humanidade, sejam quais forem as coordenadas terrestres desde onde a observemos. Portanto, a dama da noite engaiola-nos, conturba-nos, possui-nos, inspira-nos, abala-nos e devala-nos, despregando só a metade do seu poder de encantamento.

Ainda que todos os humanos partilhamos a mesma fasquia lunar, com a ajuda dum telescópio darmo-nos-emos conta de que os habitantes do hemisfério norte enxergamos no hemisfério sul lunar, por exemplo, a rechamante cicatriz do astroblema Tycho, uma das crateras mais características da orografia selenita, batizada na honra do astrónomo dinamarquês Tycho Brahe (1546-1601). Contrariamente, os terrícolas do hemisfério sul percebem o mesmo acidente orográfico no hemisfério norte do astro vizinho.

Desde a teogonia greco-latina até o monólito alienígena do tandem Arthur C. Clarke-Stanley Kubrick para 2001: A Space Odyssey (1968), a Lua, e de jeito especial a lua cheia, tem sido manancial inesgotável de mitos e lendas. Cumpre acrescentar que boa parte da humanidade, a mesma que diz observar tal ou qual cousa impressa no pergaminho lunar, desconhece (ou põe em dúvida) que o 20 de julho de 1969 o homem pus pela primeira vez o pé naqueles ermos poeirentos.    

Lemos em National Geographic que, para muitos povos europeus, os nodos lunares representam um velhote carrejando ao lombo um feixe de lenha. Segundo a tradição judeu-cristã, a sua angueira –como a de Sísifo- não tem acoubo, já que, por incumprimento do preceito do descanso dominical (ou do sabbat), Deus o condenou a trabalhar eternamente.

Na Índia acredita-se em que a pegada da deusa Astangi Mata (denominação indiana da nossa Moura) fica salientada naquela agrisalhada epiderme. Mãe de dous gémeos, a deusa enviou-os ao céu, transfigurando-os no Sol e na Lua. Astangi Mata, despediu-se agarimosamente da pequena Chanda –a Lua– e, ao lhe acarinhar as bochechas, deixou gravadas as mãos no rosto da sua filha.

Os estadunidenses alviscam os traços essenciais do rosto dum homem o homem da Lua: olhos, nariz e boca.

Desde o arquipélago das Havaí enxergam uma mulher –Hina– que tece para os deuses, confecionando as teias com a cortiça dum baniano, árvore sagrada. “Mahina” significa “lua” em havaiano.

Os neozelandeses achegam o relato de Rona, uma mulher que ousou ultrajar a Lua. O astro, como castigo, recluiu-a no seu orbe a perpetuidade.

No longínquo Oriente acreditam num coelho de longas orelhas. Para os japoneses, o coelho moe arroz num almofariz para, com a farinha, cozinhar umas saborosas tortas. Em China e Coreia, o coelho elabora numa marmita o elixir da imortalidade. Este animalzinho também está presente no imaginário das culturas centro-americanas.

Já que todo depende dos olhos com que se olhe, o grande número de interpretações é interminável. Contudo, em esta aluarada galeria não pode faltar a proposta galega e, concretamente, a visão que do assunto temos os indígenas de Terra de Montes.

Nas aldeias da revolta do Seixo, os naturais contam do vínculo existente entre o Rato Rabisaco, roedor endémico da peneda do Castro Grande ou Outeiro do Castro, e o plenilúnio. Do rato ao coelho não há muito treito.

O Castro Grande é um prominente afloramento granítico que abrange umas 2 ha de superfície, chegando aos 919 m de altitude (Coordenadas SixPack: 42º 29’ 25’’ N - 8º 23’ 7’’ W). A rocheda do Castro Grande finca a estrema dos concelhos de Cerdedo e Forcarei.

Na sua aba de levante, O Castro apresenta uma rocha de forte pendente, sucada ao meio por uma fenda em ziguezague. Esta ladeira nomeia-se de “rotadoiro” ou “rastenha” e os cativos de outrora usavam-na como balouço, escorregando outeiro abaixo. Os rilhotes amorteciam a queda protegendo o seu traseiro com uma mola. Na parte central, abre-se um buraco por onde se diz que, em noites de lua cheia, contra á meia-noite, se debruça o fugidio Rabisaco.


Assim o recolhi no lugar da Cavadosa, em Avelaindo, em Meilide... Quando a Lua loze completa no firmamento, o lueiro espile o letargo deste pequecho e rebuldeiro animal.


Cumpre não confundir o “Rato Rabisaco”, identificável com um rato-lírio ou leirão (Glis glis), com o “Rabisaco”, mamífero carniceiro (Genetta genetta), também conhecido por “Algaria” ou “Rabilongo”. Ambas as criaturas estarricam um longo e peludo apêndice caudal que serve para denominá-los. A cor gris da pelugem do rato e o seu pequeno tamanho contrastam com o maior porte e a pelame apigarada da algaria.

Portanto, nas noites de luar, o Rabisaco abandona o tobo e rebole pela rastenha aos choutos. De tal maneira que, o derradeiro pincho lhe vale para conseguir a lua e nela se nos representa. Para o entendimento dos aldeãos, o rato, esfomeado, pega no queixo que, evidente, se exibe na alçadeira da noite. Já com a lambetada nas poutas, não demora passá-la pelo dente até fazê-la desaparecer. Como bem se compreende, o Rabisaco é o causante da míngua da lua.

Também se diz que, calhando com o luar pleno, todo aquele que tresnoite ao pé do Castro Grande acabará sendo testemunha do reloucar do Rabisaco. Se tal cousa acontecer, a boa sorte achegar-se-á ás sentinelas como a pez. Por se interessar, na lua cheia volverá espelhar o seu mágico reflexo nas chagorças do alto Seixo.

O rato Rabisaco não é, em aquele território, o único ser mítico relacionado com a lua e o seu devir. Na aldeia cerdedense de Carvalhás e nas forcareicenses de Presqueiras, Cernadelo e Ratel contaram-me do longo sonho dum gigante, conhecido pelo Homem da Leghua, que ao acordar axota a maiola esticando os braços. O mangalhão, com a ponta dos dedos, amostra a lua, propiciando o seu devalo. A dormida do Homem da Leghua prolonga-se durante um mês.

Perto do lugar de Carvalhás, localiza-se o Outeiro das Luas Novas, uma moreia de cachote proveniente dos estragos causados na lua pelo gigante Foupeiro. Tenham por seguro que as andanças do Homem da Leghua dão para outro artigo. De as enristarem, os leitores serão afortunados com a primícia.

Todos estes relatos falam-nos da relevância que o nosso satélite teve, e ainda tem, para as comunidades labregas, sempre atentas ás evoluções do astro para dar começo á sementeira, proceder á esterqueira, á decota, á matança, á salgadura..., mesmo para cortar unhas, cabelos e barbas; reminiscência de quando o tempo, em ausência de almanaques, se media somando luadas e primaveras.


sábado, 8 de junho de 2013

Esconjuro da Queimada em Pitões


Por José Goris e José Manuel Barbosa

Os passados 11 e 12 de maio celebramos em Pitões das Júnias as II Jornadas das Letras galego-portuguesas nas que entre outras cousas desfrutamos do escojuro da queimada que nos fez o nosso amigo o Bruxo Queimam.


A continuação deixamos os links da sua atuação:









terça-feira, 21 de maio de 2013

Uma visita à capital do Império


Por Carolina Horstman e José Manuel Barbosa

O 17 de maio foi muito longo. Acordamos por volta das 5:00 horas da manhã porque a viagem exigia pontualidade, preceito que cumprimos quase escrupulosamente. Almoçamos algo ligeiro para podermos com o corpo, tomamos um duche e vestimo-nos a uma velocidade que não seria normal num dia do comum. O carro aguardava-nos na garagem depois duma semana de muito trabalho. Saímos e sem demoras nem pausas entramos na autovia Ourense-Santiago onde viajamos com pouca equipagem: uma mochila com roupa, a minha saca do diário onde levo as cousas pessoais e uma sacola. 

O aeroporto estava cheio como sempre mas ainda assim e depois de arrumarmos num lugar fácil arranjamos as cousas para podermos estar no avião no tempo previsto. Sempre me surpreendeu o controlo que ultimamente gastam antes de entrarmos no aparelho. Controlo que significava que tivesse que tirar as minhas botas, o casaco, o cinto e todo o metal que eu levava no corpo para eles saberem se é algo que possa ocasionar perigos a este sistema em descomposição...Não sei a que lhe temem. Vão cair, controlarem ou não.

Passadas as 10:30, fora do horário previsto, chegamos a Barajas. Ali nos aguardavam o nosso amigo José André Lôpez Gonzâlez e a sua filha Íria que nos iam conduzir por aquele labirinto que é a capital do Império Pequeno. Com muita amizade e amabilidade o José André saudou-nos e fez de guia pelo caminho. A conversa sobre a língua, sobre a história e sobre a política do nosso País foi obrigada. Chovia e ninguém diria que aquilo era Madrid, só os topónimos arabescos e castelhanos estavam a nos dizer que estávamos na velha Al-Andalus. Era o antigo Al-Magrit "o mercado" em árabe, o que nos acolhia. 

O José André e a sua filha Íria levaram-nos até Alcalá de Henares, onde fizemos um lindo passeio pelas ruas da vila. Alcalá ou talvez Al-Kaláh, a fortaleza em árabe....

Vimos as pegadas árabes e judaicas, vimos os edifícios de tijolo, as ruas da parte velha duma formosura muito especial. Visitamos a casa onde supostamente nasceu Miguel de Cervantes, o escritor de origem galega do Quixote, vimos os palácios que nos transladavam no tempo a épocas dos Reis Católicos de infeliz memória para os galegos, o palácio do arcebispo, o pelouro onde os réus cumpriam pena pelo facto de serem muçulmanos, ou judeus, ou protestantes ou simplesmente por serem contrários à política da Monarquia Hispânica... A beleza era uma cousa mas a memória daquela intolerância tão castelhana era outra.

Depois dum longo passeio fomos comer a um restaurante do bairro próximo ao local onde eu ia palestrar. Era a "Associação Galega Corredor do Henares" e no seu nome, o seu Presidente, José André, quem nos tinha convidado para falar d'A Pré-História da Língua e ali chegamos cansados depois dum dia intenso. Também ali estava Iago Rios, quem ligou para nós e arranjou todo o necessário para nós estarmos ali esse dia a essa hora. Nós felizes.

Quando chegamos vimos o formoso local que tem esta associação, que reúne a muitos galegos residentes em Alcalá e nos arredores, quer dizer, no chamado "corredor do rio Henares", e pudemos comprovar como as atividades eram inúmeras: canto, baile, pintura, música, publicação da sua própria revista, palestras, etc. A professora de pintura do local, nativa de Guadalaxara mas vinculada à associação desenhou um "apalpador" motivo de orgulho para o nosso amigo José André por ser ele quem o popularizou nos últimos anos na Galiza.

A nossa presença ali era por ser um 17 de maio, o dia das Letras Galegas e decidiram celebrar o dia falando da língua, da sua história, ou mais concretamente da sua pré-história. Algo que temos trabalhado um bocadinho.

A palestra foi a partir das 19:00 e acho que antes das 20:00 já tinha acabado. Depois, umas peças de música galega, uns bailaricos e uns petiscos nos aguardavam para além da conversa com os amigos presentes que se sentiram atraídos pela temática. Gente interessante, trabalhadora, emigrantes que amavam e amam a sua Terra deixada atrás porque há que trabalhar onde há trabalho. Amor à Terra, morrinha, saudade e desejos de voltar a ela. Vínculo e raiz ainda tendo nascidos alguns na diáspora. Galegos de sangue, de sentimento, de coração...

A nossa retirada para o Hotel foi imediata depois da pequena festa. O sono e o cansaço eram mais poderosos do que a fome. Para ingerir alimentos já teríamos tempo o dia seguinte que também se apresentava longo mas o descanso fazia-se urgente. Levaram-nos ao Hotel o José André e a sua companheira e ali ficamos onde não demoramos muito em pegar no sono...por pouco tempo, porque às 4:00 já estávamos novamente acordando para apanharmos o vó para a Galiza que saía às 6:45. 

A chegada a Santiago não se fez aguardar muito. Chovia e fazia sol à vez na nossa capital o que convertia aquela manhã de sábado num lindo jogo de luzes e sombras próprias dum formoso quadro impressionista..."Quando chove e faz sol casam a raposa e o raposo" dizia a minha avozinha. Almoçamos num bar próximo à ferradura e decidimos dar uma volta pela cidade aproveitando o jogo de luzes com o fim de nos mergulharmos na energia da nossa Terra Galega. Apanhamos o carro e voltamos para a casa. Ali nos aguardavam o nosso Lucas, o nosso inteligente mastim e o David que ficou na casa guardando do nosso guardião. Fomos comer churrasco perto de Chantada e ao chegarmos à casa, por volta das 17:00 horas, apanhamos a cama e dormimos seguido até o domingo as 8:00. Quinze horas de sono. Não esteve mal.
Um fim de semana completo, intenso, lindo, pelo qual agradecemos ao Presidente da Associação Galega Corredor do Henares José André Lôpez Gonçâlez, a sua esposa Carmen, a Iria a filha de ambos e ao Iago Rios....... e obrigado a todos os amigos e amigas galegxs de Alcalá por tão lindo fim de semana, pela sua companha, pela sua atenção e pela assistência à nossa humilde palestra, especialmente a Javier Franco. Aguardamos nos vermos novamente.
A pré-história da Língua 1
A pré-história da Língua 2

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Crónica das II Jornadas das letras galego-portuguesas




Por David Outeiro e José Manuel Barbosa

Foi o fim de semana de 11 e 12 de maio de 2013 quando mais de 70 pessoas nos reunimos em Pitões das Júnias para celebrarmos a irmandade e a camaradagem entre gente de ambas as margens da raia maldita. O nosso intuito era unir. Unir gente com a mesma língua, com a mesma vontade de viver, com o mesmo sentir, com a mesma história, com a mesma forma de fazer, de ser e de pensar, com os mesmos defeitos e as mesmas virtudes.... E conseguimos os objetivos.
Quando começamos a organizar este ano contavamos com que o sucesso fosse importante, mas a realidade superou muito os nossos cálculos até o ponto de vermos desbordar o copo e não termos um respiro. Teremos que pensar a forma de conter a maré de consciências galaicas que têm um mesmo foco de atenção.
Chegamos à casa do Padre Fontes quando passava um bocado das 12:00 horas. Dizem que os galegos nunca chegamos à hora....o mesmo se diz dos portugueses....mas o que tenho claro é que, como disse Gandalf  "um mago (nesta caso um galego) nunca chega nem demorado nem cedo; chega justo quando ele se propõe chegar". Ali vimos amigos velhos e vimos amigos novos. Os velhos alimentaram a amizade velha e os novos criaram uma que há durar no tempo. A comida sentados ao lado das pessoas deu as boas vindas a toda a gente que curiosa estava para ver como discorria a jornada. 
Fizemos poesia, rimos, falou o Padre Fontes e ficamos todos contentes. Dentro do horário previsto partimos para Pitões onde nos aguardava mais gente ainda que as cousas houve que prepará-las para os palestrantes poderem fazer o seu trabalho. Solucionados os problemas de som começou falando Rafael Quintia“Geografias míticas da Galiza e espaços hierofânicos. Mitos, rito e crença” foi o título e nele nos falou de como identificar espaços sagrados, lugares ancestrais e ocultos por milénios de esquecimento ou por causa da sua cristianização. Apresentou vários exemplos aos que hoje podemos recorrer quer como elementos ancestrais conservados a dia de hoje apesar dos séculos e do cristianismo e de sincretização, quer como crenças populares e/ou mitológicas que ligam diretamente com o nosso passado pagão e céltico. A palestra foi seguida por um publico interessado e curioso.

Posteriormente o artista gráfico António Alijó continuou falando de “Árvores e pedras mágicas do mundo celta.” Mais do que nada a palestra deu um debate no que participaram várias pessoas do público interessadas no tema. A base temática foi reafirmar a ideia de que há povos hoje que são o que nós fomos no passado que rendem culto às divindades relacionadas com a Terra, onde os xamãs ainda acodem às covas sagradas, com uma perceção do mundo que nós tínhamos há séculos...e estudando esses povos poderemos saber o que fomos. Estudando esses povos podemos apreender quem realmente somos e reformar e regenerar a nossa sociedade doente.
A poesia também fluiu nessa tarde do dia 11, assim como um roteiro pela aldeia de Pitões. 
A ceia na casa da Margarida e do Bruno, na Taberna Terra Celta foi o momento em que as cousas nos sobrepassaram, pois o número de gente fez materialmente impossível uma reunião de  todos os presentes num mesmo e único local. Ali acodiram novamente o Padre Fontes e o Presidente da Junta da Freguesia Sr. António Ferreirinha com quem desfrutamos da noite que acabava com a representação sentida do nosso amigo o Bruxo Queimam (em breve veremos imagens). Para alguns a noite continuou até o dia seguinte que começava o segundo dia.

O dia 12 foi igualmente completo do ponto de vista poético, científico e artístico. As palestras começaram fora de hora devido ao costume galaico de tomarmos as cousas com calma mas deu para completar o horário. Miguel Losada com a sua palestra intitulada “Os que termam do céu. Imagens da Sacralidade antiga ou quando o mundo era um templo.” Os arquétipos universais da religião apareceram manifestados nas diferentes culturas humanas e aplicados ao nosso mundo galaico e barrosão. Todos os povos têm um mesmo padrão cultural manifestado de diversas formas. Somos uma mesma humanidade com representações e estéticas diferentes. Símbolos universais humanos que são manifestados segundo o contexto cultural. Somos diversos dentro da unidade e essa diversidade devemos respeitá-la para a humanidade estar saudável....
Finalmente falou Santiago Bernárdez sobre “Os "Annála Ríoghachta Éireann" e as relações entre a Galiza e Éire na Idade Moderna”. O tema dava para muito e o desconhecimento que há sobre o tema é muito. Não temos muito conhecimento do relacionamento bélico entre tropas galegas defendendo interesses irlandeses contra o inimigo inglês em época dos Habsburgs. O paralelismo entre esses eventos históricos com os eventos míticos narrados no Leabhar Ghabhála Érren são evidentes e os vínculos posteriores às lutas irlandesas pela sua libertação com as chegadas de refugiados reafirmam essa ideia.
Finalizadas todas as palestras e com os momentos poéticos oportunos nos momentos de descanso tivemos a imensa sorte de poder contar entre o público com a conhecida escritora portuguesa Maria Clara Pinto Correia quem nos fez uma avaliação da situação do mundo atual, a passagem do tempo e a sua memória da sua passagem por Pitões. Acabada a sua intervenção fomos comer ao restaurante pitonês "Dom Pedro" onde depois de partilharmos lindas conversas entre as pessoas que nos conhecimos ali fizemos uma entrega de prémios a algumas pessoas como agradecimento pelos seus contributos às atividades do nosso grupo.
De tarde o grupo visitou o mosteiro de Pitões para depois darmos por finalizadas as II Jornadas das letras galego-portuguesas. Aguardamos umas terceiras.
Agradecemos imensamente à Junta da Freguesia de Pitões das Júnias nomeadamente a António Ferreirinha, António Cascais e Lúzia Jorge...sem esquecemos a Kátia Pereira, à Câmara Municipal de Montalegre, ao Bruxo Queimam pela sua atuação generosa para nós, ao Padre Fontes pelo seu apoio, recebimento e calor humano sempre manifestado para nós, aos palestrantes Rafa Quintia, António Alijó, Miguel Losada, Santiago Bernárdez e Clara Pinto Correia, também à Rádio Montalegre, a Margarida e Bruno da Taberna Terra Celta, aos Restaurantes "O Preto" e o "Dom Pedro", aos poetas Nolim Gonçalvez, Concha Rousia, Iolanda Aldrei, Henrique Dória, Alexandre Brea, Rafael Quintia, gente do público que também recitou, cantou e participou, ao público que nos acompanhou... e a todo o povo de Pitões.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

De delinquentes linguísticos e a logopédia necessária.





Por José Manuel Barbosa

Quando a dia de hoje uma pessoa de qualquer país da Lusofonia oficial e um galego têm de se comunicarem entre sí, podem acontecer várias cousas:

a)      Que o paleofalante galego sinta que percebe e pode ser percebido pelo seu interlocutor. Neste caso, o galego reproduz a sua fala dialetal local oferecendo uma margem de distância mínima que a dia de hoje pode não ajudar a total fluidez comunicativa entre as partes. Isto, até o século XX não acontecia, justo até o século em que a Galiza contou com uma versão normativizada da sua língua e uma política linguística que promocionou sempre uma língua “ausbau” diferente da de Portugal. Este relacionamento a duas partes, galego por um lado e português por outro, é o caso habitual que acontece no dia-a-dia nas regiões da raia galego-portuguesa onde nunca houve problemas de relacionamento nem nunca se sentiram “estrangeiros” os uns a respeito dos outros. A distância viria dada porque o português está formado numa língua padrão saída dum determinado centralismo lisboeta e o galego (mal)formado tanto em castelhano como em “galego”. Este caso está em vias de extinção, como indicou a UNESCO a princípios dos século, por serem cada vez menos os paleofalantes os que sentem o português como uma continuação das suas falas e por ser mais os portugueses (e outros lusófonos) os que sentem os galegos como mais uns “españoles” de fala castelhana, nos quais não há que confiar desconhecendo a nossa identidade comum.

b)      Que o galego, duma maioria cada vez menos minoritária, fale em castelhano. Nesse caso pode acontecer que o lusófono faça esforço por se adaptar ao outro parceiro, embora há de ser difícil que este último, se adapte ao primeiro, quer por um sentir xenófobo e supremacista incutido pelo castelhanismo, quer pela educação deficiente que na Espanha se ministra em relação às línguas, forem estas de dentro como de fora do Reino. Algo assim acontece nos países anglófonos por terem a ideia de que todo o mundo tem o dever de saber inglês...No Reino, considera-se uma cousa normal que os demais têm o dever de os perceberem em castelhano embora não à inversa sob pena de ser considerado um ignorante. A maior parte das vezes, o espanhol em questão está capacitado para perceber pela pouca distância linguística que há entre a deles e a outra mas finalmente acontece que é um problema de vontade. O espanhol não quer perceber...e o galego-espanhol como subproduto deforme e acomplexado que reproduz ridiculamente os hábitos “cañís” e por um elemento de mimetismo primate copia os comportamentos mesquinhos do modelo espanholista à moda, de caráter intolerante e impositor, fornecido pelos média embora com menos força do que os originários.
 c) Que o galego, quer paleo, quer neofalante, adopte a variante RAG na sua conversa com o lusoparlante. Neste caso o resultado final vai ser que este  perceba a fala do galego como um péssimo português ou que é um espanhol que tenta fazer esforços por falar português. Nesse caso para favorecer o relacionamento acaba por tentar ele falar em castelhano. Ainda assim....o galego-RAG pode insistir na proximidade linguística galego-portuguesa o que resulta absurdo para o lusófono que percebe a fala do galego como uma trapalhada que não há por onde apanhá-la.

Estes são três dos quatro casos possíveis que se podem dar. O que ninguém fala é das circunstâncias que levam a estas irregularidades intercomunicativas, tendo em conta que nem os políticos nem os linguistas que fazem parte das administrações galegas ignoram que as falas galegas e luso-brasileiras fazem parte do mesmo diassistema linguístico... e quando digo que eles “sabem” isso, não estou a dizer que “acreditem” ou que “tenham uma ligeira intuição”. Digo simples e diretamente “sabem” com tudo o que isso implica e compromete.
A pesar de tudo, a princípios dos anos 80 e por decisão política, os responsáveis da administração optavam por oferecer ao administrado galego uma versão normativa para a sua língua que facilitava (e ainda facilita no presente) a distância e favorece o mais alto grau de incomunicação entre galegos e o resto dos lusófonos. Essa versão foi aplicada por decreto para ser aplicada em aqueles âmbitos da vida fulcrais para incutir a ideia de diferença, como é o caso do ensino à vez que faziam orelhas moucas à discrepância legítima de tal forma que nenhum professor pudesse fugir de tal despropósito, castigando a todos aqueles que no exercício da sua liberdade de cátedra optassem por querer transmitir aos alunos uma ideia de identidade linguística galego-portuguesa ou no mais duro dos casos uma versão útil da língua.
Os professores, mesmo não ensinando outra normativa diferente à imposta por um decreto nunca consensuado eram perseguidos, discriminados, desrespeitados como pessoas e sobre eles era exercido um subtil “mobbing” dificilmente demonstrável entre outras cousas porque o claustro de professores do centro de ensino apoiava a ação, quer porque a sua formação linguística não permitia aceder a registos mínimos de conhecimento, quer porque a sua má formação humana e/ou ética os fazia incapazes de frear a ação agressiva contra o acossado, quer por medo a que sobre eles caísse também a repressão. 
Uma outra forma de “mobbing” que não afetasse diretamente à administração era deixar que o protesto “anti-lusista” fosse levado a cabo pelos país das crianças que sentiam que um “lusista” não ministrava as suas aulas como era o convencional. Nestes casos a equipa diretiva ou o claustro lavavam-se as mão de cara ao afetado mas encirrava aos pais ocultamente para apagar a dissidência. Tudo isto sem informar a ninguém que os professores possuíam e possuem legalmente o direito à liberdade de cátedra e que ainda um artigo da Constituição espanhola garante na teoria a não discriminação por qualquer circunstância pessoal e social...e portanto por qualquer razão linguística o que faz que não exista legalidade que defenda uma discriminação por razões de normativa linguística a usar com qualquer língua oficial.
Alguns casos foram muito sonoros na Galiza dos 80 e dos 90, épocas muito obscuras de regressão linguística em Galiza. Lembro dous casos especiais por se saltarem todas as linhas vermelhas do silêncio, do ocultamento  e da censura. Foram protagonizados e sofridos pelos professores Mário Afonso Nozeda e Jesus Sanches Sobrado. Este último reformado ao pouco tempo de começar a trabalhar por causa dum ambiente laboral totalmente hostil  que o levou a uma situação de estress por “mobbing”.

Por outra parte, e deixando o acosso favorecido pela administração ao que sempre estivemos submetidos os defendores da língua na Galiza, temos que acrescentar que a forma em que as aulas de “galego” se dão ainda nos dias de hoje é própria duma administração que não se importa em deformar às crianças e aos adolescentes, contrariamente ao cometido último que tem o ensino, que é formar e informar (não deformar).
Existiu sempre uma ampla percentagem de professores que não consideraram como opção válida a de começar o ensino da lecto-escritura das crianças na sua língua raiz. Cousa nunca combatida pela administração galega e mesmo impulsionada desde a “Xunta”. Nenos e nenas galaico-parlantes apreenderam e apreendem a ler e a escrever em castelhano, vendo o seu idioma relegado aos usos mais coloquiais ou simplesmente deixando-o para assuntos menores. Muitos professores são mal formados linguisticamente, com índices de conhecimento da realidade socio-linguística deficientes, com prejuízos anti-galegos ou que consideram a língua do País como um elemento de menor importância na formação dos alunos. A causa provém da sua formação universitária originada nos planos de estudo que incutem esses defetos aos futuros professores. Da administração galega parte a permissividade a considerar normal atentar contra a integridade moral e psicológica de um companheiro se este mostra sinais de “lusismo patológico” ou qualquer outro desvio legítimo em qualquer país democrático, à vez que se defende hipocritamente a liberdade do professor a saltar-se toda regra pedagógica de educar a um aluno na sua língua e de negar ao aluno o seu direito de ser formado na sua língua. 
 Na Galiza, como comentava há uns dias no PGL Fernão Portas estão-se a incumprir os dous princípios básicos do ensino quando neste há duas línguas presentes (português e espanhol....ou galego e castelhano se quisermos): “misturar e não marcar fronteira” favorecendo nos alunos o atrapalhamento linguístico podendo levar à necessidade da logopédia em alguns casos que optarem por usar a língua em público. Curiosamente aqueles que optam pelo logopeda para poderem sair num meio de comunicação público são “re-educados” para poderem falar corretamente o castelhano....nunca a língua dos galegos.
É a vontade da administração fomentar a bablização nos galegos em vez da competência nas duas línguas, cometendo um grave delito, talvez não só moral, pois demonstrada a sua intencionalidade de atrapalhar à sociedade investindo grandíssimas sumas de dinheiro público em “normalizar” o galego se obtenha como resultado final a mais alta deserção da língua nos últimos trinta anos dos últimos cinco séculos. Dito de outra forma: houve mais desgaleguizados e castelhanizados desde 1980 até hoje do que entre 1480 e 1980. A perda foi de mais dum 30% desde que chegou o PP à “Xunta” autonómica. Não são os meus dados, são dados das Universidades Galegas, das Instituições (a)normalizadoras dependentes da “Xunta” e da UNESCO.
Esta sociedade leva já muitos anos seguidos sob um regime de ignomínia, abuso, desnacionalização e corrução de todo tipo que afeta a todos os aspectos da vida dos galegos, nomeadamente a parte linguística que é da que estamos a falar, e nunca ninguém denunciou perante a justiça galega, espanhola, europeia ou internacional  a situação que vivemos de genocídio cultural, económico, evidentemente linguístico...e com a emigração favorecida pelo poder, também me atrevo a dizer que genocídio étnico. Este genocídio é subtil e em parte consentido pela ignorância e a estupidez de muitos mas também pelo colaboracionismo de outros que bem mereceriam que a justiça também caísse sobre eles. Por isso os políticos no poder desde os aos 80, momento em que se constituiu a infelizmente denominada “Comunidad autónoma Gallega”, são uns delinquentes só um ponto por baixo dos grandes genocidas da história. O único que os diferencia é que estes últimos recorreram ao sangue, à guerra e ao fogo...os nossos não precisam disso porque há muitos galegos que os votam e que favorecem a bastardia moral e política de quem leva a cabo o processo.
Falávamos acima de três dos casos nos que um galego e um lusófono poderíam interagir comunicativamente. Há um quarto caso...:
  d) O galego tem consciência de falar a mesma língua do que o outro lusófono. Nesse caso a comunicação é fluída porque a inteligência desse galego faz com que a sua fala seja mais próxima, compreensível e universal sem deixar de ser galego. Em vez de usar “irmán” usa “irmão”; em vez de usar “oir” usa “ouvir”; em vez de usar “caer” usa “cair”, em vez de usar “dicir” usa “dizer” em vez de acabar certas palavras em “-ble/bles” acaba em “-vel/veis”; em vez de usar a terminação “-ción/cións” usa a “-ção/ções” comum a todo o universo galego-português que não por perdida na fala diária é menos galega. Também provavelmente recupere a sua fonética com o uso do sesseio tão legítimo como qualquer outra forma absolutamente galega e limpando um elemento fónico de origem castelhana como é o denominado “cetacismo”... Um galego reintegracionista pode andar com o seu galego pelo mundo, pelos organismos internacionais sem sair da sua fala matriz. A sua fala é reconhecida como uma das mais importantes e sucedidas da humanidade, é respeitado e dignificado por distinguir corretamente o seu galego(-português) do castelhano e não seguir o fomento da mistura ensinado nas escolas e liceus galegos...e o que é melhor de tudo é que esse galego reintegracionista nunca deixa de falar galego quando usa a versão internacional da língua. Com essa forma de apresentar as cousas saberá falar corretamente a sua língua sem castelhanizá-la e se quiser falar castelhano poderá falá-lo também sem interferências. Os logopedas não serão necessários mas sim talvez um tribunal de justiça, não sei se nacional ou internacional que julgue os mafiosos da língua por crimes contra a dignidade deste povo pelo qual nem deixaremos de lutar nem renunciaremos de pertencer a ele.


terça-feira, 23 de abril de 2013

O culto às Deusas Mães Galegas


Por Carlos Solha

Aproveitando o relanço da Semana Santa -Luceira Túrvia, como a nomeiam os canteiros da cerna, pois “túrvios” somos os pecadores-, espremendo-lhe, digo, todo o sumo ao lazer, fiz repouso em Cerdedo e ali partilhei um gostoso jantar adubado com sobremesa paroleira. Muito dão de si os latriques cafeinados.
Quase ainda não tinha engolido duas xícaras e um sorvo dum Porto, quando uma das comensais, bem aproximada aos setenta, soltou uma expressão que fez esticar as minhas orelhas do etnógrafo lupário e as daquele neno que fui.
A informante involuntária andava na porfia de apaziguar um pequeno malandro, uma miga consentido. Esgotado o repertório da “supernanny”, a avó, revirando a criança, espetou-lhe: “Se não te aquietas, ponho-te fora para que te leve tua mãe galega!”.
As primeiras são as "Matres" de Bibracte, cidade do povo celta dos Aedui da Gália
Olhem, eu não lhes fui um santo e meu irmão pequeno, também não. Na aldeia, andávamos, entre outros apelidos, pelos Zipi-Zape... Escuso portanto, oferecer ao leitor muitas mais explicações.
Sendo como éramos afilhados do demo, muito sabíamos de ameaças. Que eu lembre, minha mãe tinha foro com o homem do saco, com a bruxa do moinho dos Montinos, com as aranhas, com o lobo, com o tio Gardunho, com os bichos peludos, com a Sisocorda, com o homem das barbas, com o cocão, com a Ramuda, com o Sacauntos... e, na casa, escutávamos chamar por eles a cada pouco.
O ritual da invocação sempre se acompanhava do brandir duma chinela, duma escumadeira ou duma vassoura. Costumes que a moderna sociedade foi extinguindo, pelo medo ao que dirão. Hogano, leva-se mais o do “colegueio” e a negociação inter pares. Intuo que os enxebres assusta-nenos, a poder de reclui-los no ostracismo, já devem ter procurado outras ocupações, ou outras latitudes.
Mais, amentar a “mãe galega” para amedrontar um menino era-che uma circunstância novedia, daí que a minha má consciência de pilhabão optasse, de primeiras, pela alerta “Defcon 1”.
Uma vez racionalizada a situação, sobreveio-me a impressão de ter escutado uma das muitas expressões ofensivas com as que os de fora, batujando no estereótipo, nos presenteiam cada pouco. Recomendo para o particular a leitura da coleção de ensaios intitulada “El gallego, Galicia y los gallegos a través de los tiempos (1985), da autoria de José Luís Pensado.
Era inconcebível que aquela avó reconviesse o seu neto chantando-lhe que, de não mudar a conduta, o ia botar à rua para que a sua verdadeira mãe –de nacionalidade galega- o aturasse. Mulher da vida?, filho de trás da silveira?...
Não me contendo, perguntei. Com o riso nos lábios, a mulher respondeu-me que o que acabava de ouvir era um dito velho e que sua mãe e a mãe de sua mãe também o empregaram nas retesias domésticas. Assim, mesmo, acrescentou que desconhecia o significado da locução e que, inconscientemente, fazia uso dela com o objetivo –infrutuoso- de endireitar os cativos que deixavam ao seu cuidado. Quando lhe enumerei a restra de assusta-nenos que empregava minha mãe comigo, disse-me que habitualmente eram requeridos também por ela, que toda ajuda era pouca para encarreirar as novas gerações: “Estes já não se assustam com nada, estão afeitos a ver de todo na televisão”.
Já na casa, procurei informação sobre a “mãe galega” e, suspeitando a demonização dum antigo númen indígena, após muito remexer, fui dar com o nº 3 de El Eco de Galicia (Revista Semanal de Ciencias, Arte y Literatura), editado na Havana em 16 de julho de 1882.
Na página 2 da nomeada publicação, reparei no titular “Las Madres Gallegas” e, assim que comecei a leitura do artigo, assinado por M. Esmorís, fiquei atordoado:
En casi todo el territorio de Galicia puede decirse sin temor que no hay madre alguna que no haya intimidado alguna vez a sus inocentes hijos con la legendaria frase de “Busca a tu madre gallega”. Cuando sucede esto, es que el niño ha cometido alguna falta reprensible y después de regañarle fuertemente, si aún no se muestra arrepentido, entonces se le lleva a la calle, se le cierra la puerta de la casa y entre otras amenazas, aún hoy se usa la de “Busca a tu madre gallega”.
Aufanian Matrónae do templo romano de Görresburg, Nettersheim (Rheinisches Landesmuseum Bonn).

Como podem imaginar, não desapeguei os olhos do texto até a sua conclusão. Acrescentamos, portanto, umas passagens do mesmo por considerá-las de grande interesse:
As “Mães Galegas” trazem a sua origem das divindades célticas sob cuja proteção se punham os celtas, designando-as com o nome do terreno que ocupava cada tribo [...] Com o transcurso do tempo, os homens estudiosos e afeiçoados ao conhecimento das antiguidades, a força de investigações e de trabalho, chegaram a nos provarem com dados muito seguros, a existência das “Mães Galegas”, que foram representadas ordinariamente por três donzelas, levando nas suas mãos, flores, frutos e pinhas.
Murguía o ilustre historiador galego, que possui muitos e eloquentes dados em matéria de antiguidades, traz na sua obra “Historia de Galicia”, copia de uma inscrição que foi achada perto da Crunha e diz assim: T. Fraternus / Matribus / Gallaicis / v. s. l. m. “Tito Fraterno pagou de boa vontade o seu voto às “Mães Galegas”.
As “Mães Galegas” são divindades da mitologia céltica a cuja intervenção e poder nos destinos da humanidade deveram render culto das suas crenças os idólatras, nossos progenitores, avezados ao fatalismo e à heroicidade por temperamento e pela educação do povo do qual procediam...
Desde aquela altura, os celtas galegos, cedendo no entanto ao contato contínuo e preciso de outras tribos irmãs [...] legaram a sorte dos seus filhos às “Mães Galegas”, e a través daquelas gerações que variavam em costumes e em crenças, sem se darem conta elas próprias, ficou, apesar dos conquistadores, como uma reminiscência, como uma vaga lembrança de primitivos dogmas [...] quando duma forma ou de outra, fazem uso do dito vulgar “procurar a tua mãe galega”.
M. Esmorís, autor do artigo, vincula a inscrição votiva à cidade da Crunha, mas, consoante as minhas pesquisas, a vila onde se achou o epígrafe lapidário foi “Coruña del Conde”, na atual província de Burgos (prédios da antiga Gallaecia). Consultem-se no que diz respeito a Júlio Núñez Marcén e Álvaro Blanco (2002) ou o artigo de Joaquín Gómez-Pantoja titulado “Las Madres de Clunia” (1999). 
As chamadas "Mães Galegas" ou "Matribus Gallaicis" estão no Corinium Museum de Cirrencester (Inglaterra).
Em Núñez-Blanco, lemos: O mais interessante é o sobrenome que as “Matres” receberam em esta ocasião, “Gallaicis” e que parece obvio relacionar com os epítetos de caráter étnico ou de “nacionalidade” [...] Longe de se tratar de dedicatórias tópicas [...] parece mais lógico explicar este tipo de testemunhas como uma tentativa por parte de um “estrangeiro” de “atrair sobre si a benevolência das deusas protetoras do seu povo”
O lugar onde se erigiu ou achou o altar tem uma importância relativa. O substancioso do achado acouta-se ao contido da inscrição. Um galego de há 2.000 anos, longe ou não do seu lar, encomendando-se às deusas, às nossas Mães Galegas.
J. Gómez-Pantoja, no citado trabalho, enumera os atributos com os que habitualmente eram representadas as Deusas Mães: “cestas de frutos, cornucópias, pão, moedas...”, acrescentando que estas ctónicas divindades são advogosas da fertilidade, da prosperidade, dos negócios..., atingindo as virtudes salutíferas doutras deidades aquáticas (ninfas): fertilidade, fartura e saúde. As Deusas Mães vinculavam-se aos mananciais mineiro-medicinais, aos ilhós salutíferos, às burgas, muito abundantes na geografia galega, “benéfica exsudação das divindades da Terra”.
A Mãe Galega é uma deusa trinitária. A tríade divinal que, desde o alvorecer do nosso tempo, rege no tradicional panteão galego, revela-se em Cerdedo, não só na fraseologia popular, mas também no folclore petrificado, adubo conatural deste bento território.
Cumpre, daquela, lembrar a tripla manifestação da Moura já consignada para o monte do Seixo, montanha da prodigalidade: a Moura Pirocha, a Moura do Castro Grande e a Moura da Laja-Moura.
A Moura Pirocha, donzela, arquétipo da pródiga primavera; a Moura do Castro Grande, a mulher madura, adscrita ao verão, ao tempo da colheita, e a Moura da Laja-moura, venerável anciã, a Velha, sábia oraculária, identificada com o inverno: “Ainda vai vir muita chuva, que brilham as pedras do Seixo”, diz-se em Cerdedo.
A Moura Pirocha, explícita, tombada ao cumprido sobre a sua almofada de pedra; a Moura do Outeiro do Castro, núbil, casadoira, custódia de riquezas nunca inventariadas; a Velha da Laja-Moura, fazedora do arco do céu que, fincado naquela fatídica peneda do monte de Meilide, abaixa o lombo para abeberar nas aguas do poço Fumegas, góio do rio do Seixo.
A mesma Moura, humanizada baixo o antropónimo Maria: Mari Diz, a costureira afogada no tremedal da Mulher Morta, em Gestido; A Maria Diz da Serra da Mulher ou do Cordal do Testeiro (Forcarei); a Maria Miguez da Cuinha de Vidoido (Cerdedo); a Maria Amena das lombas da Cima-da-Vila (Caroi-Cotobade); a Marimanta, a Marujaina; a Maria evocada no principiar dos melhores contos: “Em tempos de Maricastanha...”, aquela pretérita idade na que a Deusa Natureza acaparava toda a nossa atenção.
A Deusa Mãe Terra, uma e trina, a semelhança das três Marias que esconjuram o enganido infantil à roda dum cachopo carvalhão, na fronde da aldeia cerdedense de São Bernabeu (advocação substitutiva), ou de redor duma mesa propiciatória.
As Três Laranjiñas do Mar, as Três Mouras, as trigémeas da fonte das Donas de Vidoído (Cerdedo); Ana, Aureana, Ana Manana... Quem sabe se a expressão “Madre!” “Minha Mãe!” ou as suas castelhanizações “Mi madrinha!” (ou “Mimá!”) não serviram para exortar o seu valimento.
O culto á Deusa não é uma religião, mas ao contrário, é a porta do auto-conhecimento, como indivíduos, como povo. O dia no que os galegos lhe viramos as costas á Mãe Galega, e optamos pelo culto aos bonecos procissionantes, trocamos, abofé, os olhos pelo rabo.



domingo, 14 de abril de 2013

HISTÓRIA DA LÍNGUA: Séculos XIX e XX (até 1950)


Por José Manuel Barbosa

O Ressurgimento linguístico

Com a entrada do exército francês na Galiza, o país vai começar a se espreguiçar depois de três séculos de silêncio. A necessidade de chamar à gente à tropa para lutar contra o francês faz com que o galego seja utilizado como um instrumento útil para a captação mas também como instrumento literário. Fernández de Neiva, Pedro de Andrade, Bento Fandinho ou Nicomedes Pastor Díaz são os primeiros a redigirem textos na fala dos galegos embora muito vulgarizada e dialetizada.

Já expulsos os franceses e já morto Fernando VI da Galiza e VII de Castela, a Galiza vai deixar legalmente de existir como Reino. É em 1833 quando o Ministro de Isabel II (4), Javier de Burgos cria quatro províncias com a mesma conexão entre si do que qualquer delas com Almeria ou Cuenca, sem qualquer tradição histórica e com uma dependência a respeito de Madrid como não se conhecia antes. Esta situação faz movimentar o país em grupos contrários a esta repartição anti-histórica e desestruturadora duma realidade de mais de catorze séculos de existência. Desde agora só vai existir o Reino da Espanha, já mais nunca o Reino da Galiza. Com isto, rangem as consciências dos galegos de cultura e surge o chamado “Provincialismo”, movimento que visa a criação duma província única para salvar a realidade política e administrativa galega. Este Provincialismo, primitiva forma de galeguismo, conduz para um levantamento militar no 1846, denominado de “Revolução de abril” sufocada pelo exército espanhol que acaba fuzilando os seus lideres enquanto outros como Antolim Faraldo e Francisco Anhão vão poder fugir para Portugal.


A frustração política favorece uma saída cultural que deriva no cultivo da língua. São, portanto, as primeiras personalidades deste galeguismo literário Rosália de Castro, Eduardo Pondal e Curros Henriquez, cujas obras vão ser consideradas clássicas das nossas letras contemporâneas embora a sua língua seja um reflexo dos falares populares da altura histórica da que estamos a tratar, muito castelhanizados e muito vulgarizados. Aliás, outros autores de grande importância são Lamas Carvajal, Marcial Valladares ou Joám Manuel Pintos.

Os escritores da época, longe da tradição medieval e do seu conhecimento, botam mão daquilo que  lhes é mais familiar: a língua mais castelhanizada no léxico, gramática, morfologia, sintaxe e ortografia, ainda que contrariamente, os estudos posteriores tenham descoberto, construções gramaticais, morfo-sintáticas e até campos semânticos, na altura de uso comum, que mesmo servem para reafirmar as teses regeneracionistas do idioma por serem estas formas, legitimamente galegas, embora proscritas e mesmo proibidas da consideração como tais por coincidirem com aquelas formas escolhidas como padrão em Portugal.
Nesta altura histórica falamos num momento de preocupação a respeito da língua por parte dos galeguistas, que atendem a  problemática do seu uso, vontade de correção e estudo. Saco e Arce, Cuveiro Pinhol, ou outros, publicam gramáticas, dicionários e tratados sobre as suas recolhas de léxico. A Galiza, pobre economicamente e atrasada culturalmente produz mão de obra  para América. Os episódios da emigração são comuns durante esta época embora o sentimento pátrio faça com que também enxerguem ali, onde há cultura, o cultivo do pensamento relacionado com o país.

As preocupações nacionais traduzidas dum ponto de vista social e político recebem o nome de “Regionalismo”, sendo o marido de Rosália de Castro, Manuel Murguia o teórico do galeguismo mais comprometido.

Murguia só conta com a concorrência do também pensador Alfredo Vranhas, que parte de pressupostos mais “politicamente corretos”, quer dizer, menos comprometidos, até ao ponto de ser ele o fundamento do “galeguismo” oficial da Galiza autonômica dos fins do século XX e começos do século XXI sob governos não herdeiros do galeguismo histórico mas do franquismo mais anti-galeguista.


Texto

                                               Probe Galicia, non debes
                                               chamarte nunca española,
                                               que España de ti s´olvida
                                               cando eres, ay! tan hermosa.
                                               Cal si na infamia naceras,
                                               torpe, de ti se avergonza,
                                               y a nai que un fillo despresa
                                               nai sin corasón se noma.
                                               Naide porque te levantes
                                               che alarga a man bondadosa;
                                               naide os teus prantos enxuga,
                                               y homilde choras e choras.
                                               Galicia, ti nos tes patria,
                                               ti vives no mundo soia,
                                               y a prole fecunda tua
                                               se espalla en errantes hordas,
                                               mentras triste e solitaria,
                                               tendida na verde alfombra,
                                               ó mar esperanzas pides,
                                               de Dios a esperanza imploras.
                                               Por eso anque en son de festa
                                               alegre á gaitiña se oia,
                                               eu podo decirche:
                                               non canta, que chora.
                                              
                                               Rosalia de Castro: Cantares Gallegos
  
                                                     A Fala
                                               Nobre e armonïosa
                                               fala de Breogán,
                                               fala boa, de fortes
                                               e grandes sin rival;                                                                                                             ti do celta aos ouvidos                                            
                                               sempre soando estás
                                               como soan os pinos
                                               na costa de Froxan;
                                               ti nos eidos da Celtia
                                               e co tempo será
            un lábaro sagrado
                                               que ao trunfo guiará,
                                               fala nobre, armoniosa,
                                               ¡fala de Breogán!                                                            
                                              
                                               Ti, sinal misterioso
                                               dos teus fillos serás
                                               que plo mundo dispersos
                                               e sin abrigo van;
                                               e a aqueles que foran
           nunha pasada edá
           defensores dos eidos
                                               contra o duro román
                                               e que ainda cobizan
                                               da terra a libertá,
                                               nun pobo nobre e forte,
                                               valente, axuntarás,
                                               ¡oh, fala armonïosa,
                                               fala de Breogán!
                                               Serás épica tuba
                                               e forte sin rival,
                                               que chamarás ós fillos
                                               que aló do Miño están,
                                               os bós fillos do Luso,
                                               apartados irmáns
                                               de nós por un destino
                                               envexoso e fatal.
                                               Cos robustos acentos,
                                               grandes, os chamarás
                                               ¡verbo do gran Camoens,
                                               fala de Breogán!

Eduardo Pondal. Queixumes dos pinheiros

O século XX na Galiza (até 1950)

O mundo da política vê aparecer as agrupações de caráter galego e galeguista, e mesmo de defesa da língua face ao castelhano. Começam portanto as disputas entre os seguidores dum achegamento ao português e aqueles outros que defendem qualquer forma de isolacionismo.

Em 1902 o governo emite um Real Decreto que pune os mestres que ministrem as aulas em galego e no entanto o galeguismo cria a Real Academia Galega em 1906, o jornal “A Nossa Terra” em 1907,  e as Irmandades da Fala em 1916 com finalidades galeguizadoras, chefiada por personagens de grande importância durante o século que agora começa: Vicente Risco, Vilar Ponte, Castelao ou Outeiro Pedraio...Os primeiros parecem seguir critérios mais ilustrados e cientifistas do ponto de vista filológico-linguístico embora os segundos aceitem um populismo que quer ser mais pragmático e melhor aceitado pelo “stablishment” político-cultural. O século XX vai ser especialmente importante porque vai ser quando se reivindique a língua dos galegos com muita mais força do que no passado, mas em troca, vai ser quando a perda de falantes vai ser mais evidente.


As Irmandades da Fala em 1918 declarar-se nacionalista ao considerar a Galiza como uma Nação por possuir todos os condicionantes para ser considerada como tal. O fim da Primeira Guerra Mundial, a independência de muitos países do Leste da Europa sob poder austro-húngaro, turco e/ou russo,e a criação da Sociedade das Nações que propunha a aplicação dos catorze Pontos de Wilson têm muito a ver com tudo isso.

Os próprios galeguistas de começo do século e nomeadamente o grupo de Ourense vão criar a revista “Nós” cujo labor em favor da cultura galega, é fundamental para percebermos o galeguismo do século XX. O seu campo de investigação abrange tudo aquilo que possa ser definido como galego, num labor imenso de recuperação etnográfica, históriográfica, geográfica, artística e linguística até. Cria-se o Seminário de Estudos Galegos dedicado ao estudo da língua, onde se vão dar os primeiros desencontros entre os favoráveis à convergência com o resto da lusofonia/galeguia e os que posteriormente serão denominados de isolacionistas ou elaboracionistas.

Politicamente a etapa é muito interessante por ser a primeira vez  que houve uma representação galeguista importante no parlamento espanhol de Madrid. É a Segunda República espanhola nascida em 1931 que vê uma representação galega nas Cortes Espanholas levada pelos dois partidos políticos galegos da altura. A ORGA (Organização Republicana Galega Autónoma) e o PG (Partido Galeguista).


Do grupo das Irmandades da Fala da Crunha sai em setembro de 1929 um partido político de pendor galeguista conservador, a ORGA (Organização Republicana Galega Autónoma) que vai chegar no seu momento a pôr um político galego, Santiago Casares Quiroga, na chefia do governo republicano espanhol em maio de 1936. Mas é na Assembleia de Ponte Vedra em 1931 que as Irmandades decidem organizar o Partido Galeguista de feliz memória para a história recente do nosso País. Entre ORGA -que passa a denominar-se posteriormente Federação Republicana Galega (FRG) e mais tarde Partido Republicano Galego (PRG)-, o PG e outros deputados galegos compõem o grupo parlamentar Minoria Galega do Congresso com 19 deputados que serão os que elaborem o Projeto de Estatuto de Autonomia de 1936.

O PG por seu lado vai dar grandes vultos como Daniel R. Castelao, Outeiro Pedraio, Alexandre Bóveda..., que serão quem conquistem o primeiro Estatuto de Autonomia da Galiza. Eles é que vão participar na elaboração e conquista para a Galiza do Estatuto aprovado em junho de 1936, pouco antes do levantamento fascista do mês de julho.

A guerra frustra toda a tentativa de autogoverno exercendo uma repressão brutal contra o nacionalismo galego que vê morrer a muitos dos seus dirigentes -como no caso de Bóveda ou Casal- ou vê o exílio de outros como o caso de Castelao. Dentro da Galiza o PG fica desfeito e em mãos de dirigentes, ameaçados pelo poder e com risco das suas vidas. Perante isso, optam pela dissolução do partido evitando com isso a vantagem futura duma organização clandestina que poderia favorecer a recuperação do partido quando a ditadura chegasse ao seu fim.


O General Francisco Franco, alça-se em rebeldia contra a República legalmente constituída dominando a Galiza desde os primeiros meses. Os franquistas assassinam a todos aqueles opositores que se tivessem distinguido por defenderem os interesses e as ideias galeguistas bem como outros pensamentos políticos sempre contrários aos golpistas. Muitos dos galeguistas, lembrando a situação do 1846, fogem da Espanha, desta vez para a América onde se organizam. Enquanto na própria Galiza, a desgaleguização dos modos de vida e a imposição do castelhano tornam-se brutais. Os meios de comunicação e os métodos de controlo de massas incluída a rádio e a TV criadas desde os anos 50 levam a única língua oficial do Estado às moradas dos galegos às escolas, à igreja e à vida de algumas cidades que vivem a perda da sua galeguidade pouco a pouco
.
Sabido é por todos que o galeguismo na Argentina é o que vai manter o lume acesso da defesa do país e da língua em mãos do liderado de Daniel Castelao quem no seu livro “Sempre em Galiza” marca as linhas a seguir no futuro duma possível queda do poder político anti-galego. Castelão morre em Buenos Aires em 1950 defraudado e desiludido pelos factos acontecidos tanto internacionalmente como dentro da Galiza e do Estado Espanhol. Haverá que aguardar a morte do ditador para ver que acontece com a Galiza...


Textos

A fala galega

            Na Península Ibérica, desprendéronse do baixo latín medieval tres lingoas romances que inda hoxe a dividen en tres bandas verticaes (ficando ó Norte o angulo euskérico).
                Valle-Inclán carauterizounos cunha xenial comprensión da índole social dos pobos das tres falas: “Tres romances se formaron na Península -di-: catalán de comerciantes, galego de labradores e castelao de dominadores”.
                Está recoñecido por cantos se ocupan destas cousas, que, de tódolos vínculos sociaes, é a fala a que máis sopara e carauteriza ós pobos, porque é o máis espirtual de todos, é o que conforma o pensamento e fai a maneira de ser das xentes. O troque de língoa determina, na maor parte dos casos, a dexeneración espirtual dun pobo. A Cuestión é deferente prós individos do que prás nacionalidades. A proba é que a imposición da língoa foi sempre unha violencia que non descoidou ningún imperialismo: foi empregada por Austria cos checos e cos húngaros, por Prusia cos polacos, por Francia cos vascos i os provenzaes, por Castela cos catalás e connosco.
                Mais a pesar da rabia conque o presiguen, o galego vive, fálase polas catro quintas partes da poboación, i achase hoxe nunha das súas épocas de maor frolecemento literario, convertíndose en istrumento de espresión centífica e de produción filosófica.
            Agora, o galego i o portugués son dúas formas dialeutaes do mesmo idioma: esto indica que nós temos un maor parentesco con Portugal do que con Castela. Tres falas, tres civilizaciós; nós pertencemos á civilización da banda oucidental, e culturalmente, pois que esí é filolóxicamente, nada temos que ver coas outras dúas. Queiramos ou non, esto trábanos fortemente, estreitamente con Portugal e coa civilización portuguesa.

Vicente Risco .Teoria do nacionalismo galego.1920

 Texto
            A terra galega é, ao mesmo tempo, unha entidade étnica, pero de dificultosa reconstrución política, porque a fronteira portuguesa róubanos a espranza de anovar en breve a comunidade nacional dos tempos suevos e visigóticos. Con todo, é doado esperar que o Bierzo e demáis comarcas limítrofes de Ourense e Lugo, se incorporen ao seo da súa nación natural, e que o tempo -gran curandeiro dos erros hestóricos- posibilite a reconstrución total da nosa unidade. Non se pode creer que o rio Miño, vello pai de Galiza -representado na franxa azul da nosa bandeira- siga sendo un lindeiro perdurable de dous Estados.
                Galiza é a mellor esquina do solar hispánico, cabo do mundo antigo e avanzada de Europa no mar inmenso da liberdade. A arquiteitura barroca do noso chán, labrada en pedra granítica, está sempre coberta por un manto de zugoso verdor. Os montes son redondos como peitos de muller e as serras son como lombos de boi cebado. Os vals son ledos e farturentos. O mar tolea de carraxe cando non-o deixan penetrar na terra; pero cando entra, quédase adormecido no leito das rias. Galiza é unha unidade territorial armónica, de formas e coor, perfeitamente diferenciada do resto da Hespaña.
                Un fillo de Galiza pode iñorar que o seu idioma labrego e mariñeiro (“rustico”, como din os catedráticos casteláns), fose antano a língoa lírica de toda Hespaña; pero non hai galego que non se sinta orguloso de ser fillo da terra mais fremosa do mundo. Cando un galego entra nas planuras de León ou de Zamora, síntese en terra allea, invadido pol-a tristura que producen os desertos. Cando entra en Asturias ten que afacer os seus ollos a un novo estilo de paisaxe. Pero cando traspón a fronteira portuguesa, síntese na propria terra, e non dá creto ás arbitrariedades da política hestórica.

            Castelao. Sempre en Galiza. Cap. V. Livro 1º.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...