terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Sobrevivência da roda das festividades pagãs na Galiza (1ª Parte)





Por José Manuel Barbosa



A Galiza pertenceu sempre à área cultural atlântica. Isso significa que a sua tradição étnica tem a ver com os povos célticos, como vem de demonstrar a ciência e como se pode ver nos seus costumes populares tradicionais.



Já o nosso Vicente Risco na década de 70 deixou um importante trabalho feito sobre as festas tradicionais galegas, estudadas no seu ritual mas que pouco estudaram outros galeguistas posteriores. O conhecimento da realidade etnográfica, já for relacionado com a cultura material, imaterial, festividades ou ritualismos é de grande importância para a filiação e identificação duma entidade nacional como é a galega necessitada de reconstrução e reconhecimento como matriz tanto do mundo céltico como lusófono.



Para Vicente Risco as festividades importantes da Galiza e consequentemente do Ourense histórico, tanto citadino como regional, seriam as seguintes (VVAA:1979)



  • O Ciclo de Natal
  • O Entroido
  • A Quaresma
  • A Semana Santa
  • A festa dos Maios
  • O Corpus Christi
  • A festa do São João
  • As festas das Paróquias
  • O dia de defuntos



Do nosso ponto de vista e seguindo uma ordenação vinculada ao mundo atlântico do qual fazemos parte, começando portanto pelo início do ano céltico é assim:


  1. Festividade dos Mortos (Magusto)-Sâmanos ou Sâmonis
  2. Ciclo do Natal ou Solstício de Inverno- Yule
  3. Carnaval, Entrudo-Ambiwolka
  4. Ciclo de Primavera-Ostara
  5. Os Maios-Beltónios
  6. Solstício de Verão-Litha
  7. Ciclo de Verão-Lugunástada
  8. Festa da Colheita-Mabon


Faremos um pequeno repasse por cada uma delas.


  1. A Festividade dos Mortos:


Relacionamos esta festa com o Sâmanos, Sâmonios ou Sâmonis, festividade céltica relacionada com o culto aos mortos, que na Galiza se recolhe com o nome popular e tradicional de Magusto, ainda que ultimamente tenha sido adoptado o nome mal traduzido do gaélico irlandês de “Samain” a toda esta temporada (1).



Esta celebração, comum a todo o mundo celta, comemorava a abertura das portas do Além (conhecido como Sidh em gaélico) fazendo que houvesse comunicação entre os vivos e os mortos.

Em origem, as cabeças cortadas ao inimigo eram esvaziadas e uma candeia posta no seu interior para produzir medo àqueles caminhantes que se achegarem até as proximidades da aldeia. Com o tempo e a cristianização passaram a ser nabos em vez de cabeças e ultimamente o nabo deixou o seu lugar a um cabaço fruto da influência cultural norte-americana, denominando-se com o nome de Halloween. Esta tradição foi levada a América pelos emigrantes irlandeses e trazida de volta por causa dos média globais chefiados pelo mundo norte-americano. A festa originária, na Galiza e em Portugal derivou no nosso Magusto e nas Astúrias no Maguestu todos eles celebrados tradicionalmente o 11 de Novembro, data que no antigo calendário Juliano (anterior a 1582) e atual calendário ortodoxo coincide com o 1 de Novembro. Foi o São Martinho de Tours, santo padroeiro da cidade de Ourense e lutador contra as tradições paganistas a quem foi dedicado esse dia como remédio contra as crenças pré-cristãs tão estendidas na Gallaecia alto-medieval e que nunca foram totalmente erradicadas.



Na tradição culinária dessas datas está o costume de comer as castanhas e o vinho novo recém vindimado sendo este um costume que já é recolhido em textos do século XVIII da autoria de estudiosos como Henry Swinburne que no seu livro “Travels through Spain in the year 1775 and 1776” nos conta que os galegos acreditavam em que por cada castanha comida um ânima do purgatório ficava libertada para poder ir ao céu. Mas também na não menos importante tradição ritual contávamos com o costume de pedir pelas portas o presente de Todos os Santos da mesma forma na que se faz hoje nos países onde se celebra o Halloween. Diz-nos o inquisidor António de Guevara e recolhe a cita André Pena (Pena Granha 1991:398-399):



“Nos constó por la visita que el Día de Todos los Santos y al día siguiente de difuntos andan todos los mozos de la feligresía a pedir por las puertas y les dan pan y carne y vino y freixós y pixóns y otras cosas, y que piden así los hijos de los ricos que los pobres; y por ser más este rito gentil que cristiano, ordenamos y mandamos que, de aquí en adelante, ningún mozo vaya aquellos dos días de puerta en puerta a pedir sinó que el beneficiado, el rector, el primiclero y otro que nombrare la feligresía pidan aquel pan y todo lo demás que les dieren lo repartan en la iglesia el día de los finados entre los pobres y necesitados, so pena que el padre o la madre que enviaran a su hijo a pedir aquellos días pague mil maravedís”


  1. O Solstício de Inverno


Nas culturas agrárias a celebração das estações era o normal, recebendo e santificando os ciclos naturais, a produtividade da terra e a mudança de atividades segundo a época. Igualmente o agradecimento à terra mãe e produtora fazia parte da vida quotidiana como uma forma de estar em harmonia com a que fornecia de alimentos e prosperidade à comunidade. Esta festividade conhecida por alguns povos da Europa como “Yule” não era alheia ao mundo celta e por consequente à Galiza. O celebração do nascimento da principal figura do cristianismo liga diretamente com a tradição proto-europeia de nascimento do Sol e com toda uma série de rituais que tanto no tempo antigo como no atual reconhecemos com uma identidade comum que transcende os tempos. Assim, tanto a árvore de Natal, como as “Estreias” ou “Aguinaldo” (assim chamado em outros lugares da península), a recolha do visco ou do azevinho, como da figura paternal dum homem generoso e barrigudo que vem para fazer presentes aos nenos são heranças dum passado nunca esquecido.


A árvore de Natal é uma tradição relativamente moderna na Galiza mas em algumas comarcas da região desde a que escrevemos –Ourense-, existia o chamado “Tição de Natal” do qual existe memória na tradição familiar de quem vos escreve, consistente num madeiro que se deixava aceso do 24 de Dezembro, desde a Missa do Galo em adiante, até o dia 6 de Janeiro, simbolizando o calor que o sol mantinha em momentos em que a obscuridade tinha avançado até o máximo e o Astro Rei nascia novamente representado no madeiro como se este fosse uma autêntica criança recém nascida que chegaria à sua plenitude nos momentos centrais do verão. Passadas as datas solsticiais a cinza guardava-se para botar-lhe à terra como fertilizante ou bem deixava-se para completar a sua queima em momentos de trovoada, tentando com isso espantar aquilo que de assustador tinha a mesma, com o fim de se livrar dos perigosos raios. A crença popular de que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar ainda existe na atualidade entre a gente do rural galego e se os antigos queimavam o tição percebiam que uma vez ardido o madeiro por mão humana as forças da natureza não tinham razão para fazê-lo arder de novo por causa dum lôstrego (VVAA: 1979)



O tempo foi modificando o costume dentro da Europa e do originário tição, mais ou menos grande, da tradição primigénia evoluiu até dar com uma árvore típica da época, de folha perene, à qual enchiam com candeias e maçãs, símbolos de luz e de prosperidade em origem, cristianizados como símbolos igualmente da luz de Cristo e do pecado, respetivamente, mas com uma marcada tradição céltica. O tempo foi modificando essas candeias e essas maçãs pelos posteriores adornos por todos conhecidos, sendo o processo de mundialização da cultura nos últimos tempos quem trouxe a árvore de Natal aos nossos fogares atuais.


Do mesmo jeito esta figura da árvore traz-nos à memória o mítico Hy-Brasil céltico, árvore da vida correspondente com o Yggdrasyl germânico. Essa árvore sagrada será protagonista de muitas das celebrações e tradições da roda das estações dentro da cultura europeia em geral e céltica em especial. É a árvore que roda segundo rodam as estações, correspondendo-se na etapa invernal com uma imagem sem folhas. Na imaginação mítica céltica seriam as raízes que estavam para a cima, enquanto a copa estava para abaixo. O fim é apanhar a força da terra necessária para no verão dar os seus frutos ao se pôr novamente de pé, com as raízes na terra e a copa para a cima. A memória desta ideia subsiste ainda hoje em alguma localidade galega, como é o caso de Rodeiro, na Comarca do Deça e ainda em algumas localidades da Comarca do Arenteiro, já na região ourensana.


Outra tradição interessante ainda conservada até muito pouco tempo na Galiza rural é o das “Estreias”, nome que em outros lugares da península muda pelo de “aguinaldo”. A sua origem pode ser comum com o famoso “ Trick or Treat” da tradição samânica, pelo facto de ir pedindo pelas portas um presente. De forma parecida à do rito anteriormente citado, a pessoa que recebe a visita dos que vêm pedir a Estreia pode dar ou não dar, mas se não dá, os visitantes põem-se a cantar autênticas cantigas de Maldizer contra o avarento vizinho.


Conta-nos Vicente Risco que essa tradição é que se fazia com uma cabeça de touro, uso proibido posteriormente num Concilio de Lugo de discutida existência em época sueva. Risco recolhe um texto no que se fala da condição não lícita destas práticas (VVAA:1979):



“Non liceat iniquas observationes agere Kalendarum neque lauro aut viriditate cingere domos”



Comenta-nos que estes usos nunca foram desterrados, sobrevivendo em algumas práticas atuais embora não relacionadas com a época do solstício de inverno, mas com o entrudo, ou em rituais igualmente atuais e igualmente célticos como o Beltane celebrado na Escócia. Há que dizer que podemos reconhecer que a presença de máscaras feitas como crânios de animais têm a sua origem com probabilidade em épocas muito longínquas, que enterram as suas raízes no xamanismo paleolítico e nas práticas das religiões ancestrais. Só há que ver os primitivos atuais...



Outra das práticas das que queremos fazer referência têm a ver com o visco (Viscum Album), e o azevinho (Ilex Canariensis). O primeiro é uma planta sagrada dos druidas que representa a imortalidade, enquanto o segundo serve para ser guardado na casa em lugar quente para ser oferecido como refúgio às mouras que atendem o chamado do calor do fogar, fugindo do frio do inverno. Elas agradecem correspondendo com felicidade e prosperidade a quem lhe abre as portas da sua morada. O azevinho utiliza-se igualmente e de forma tradicional como remédio contra a esterilidade das pessoas, dos animais e dos campos.



Mas não podemos esquecer uma outra tradição que é a figura dum personagem que tradicionalmente vive na floresta e que por essas datas é que se achega às aldeias para trazer presentes às crianças. Esta figura parece ser comum a toda a cultura europeia conhecido como São Nicolau, Santa Klaus e mais hodiernamente como Pai Natal, popularizado pela influência norte-americana. Na Galiza esta personagem aparece com o nome de Apalpador ou Pandigueiro. Ele é um carvoeiro ou lenhador que habita na espessura da floresta ao lado dos seus perelhos, seres feéricos que o ajudam no seu labor. Um destes perelhos sempre é o que se adianta para levar conta dos nenos que merecem o presente para quando vier o velho e barbudo personagem poder acertar à hora de presentear. Quando ele chegar sempre o faz quando as crianças dormem para poder apalpar as suas barriguinhas e saber se comeram ou não. No caso de estarem mal alimentados ele deixa uma presa de castanhas ao lado.



Como podemos ver, as formas são comuns a todos os personagens acima citados, seguindo uma pauta parecida a todos eles. Na Espanha aparecem as figuras dos Reis Magos que são três e um não só, devido à catolização (já não cristianização) do personagem que com toda probabilidade existiria na maior parte da península Ibérica de tradição indo-europeia (2). Foi provavelmente uma imposição desta tríade como substituto do velho barbudo em épocas passadas dentro do contexto espanhol substituindo à figura tradicional que na Galiza e sobre tudo nas comarcas orientais do nosso País, incluídas as comarcas do oriente ourensano, ainda subsiste. A dia de hoje o galeguismo mais comprometido está a recuperar a figura com certo sucesso. A imagem tradicional dos Reis Magos foi adaptada a uma mentalidade católica cingida a um contexto hispânico.


A data de chegada do Apalpador é o 24 ou o 31 de Dezembro. A primeira é data solsticial polar à do 24 de Junho (3) e portanto fim de estação. O 31 é fim de ano no calendário atual.



  1. A festividade de Inverno


A festividade invernal por excelência no mundo céltico é o Imbolc a celebrar durante o meio da estação, concretamente o primeiro de fevereiro. No calendário cristão relacionamos esta festividade com o ciclo que vai desde a Candelária até o Carnaval ou Entrudo, de grande popularidade e muito tradicional tanto no País como na região ourensana onde conta com pontos importantes de celebração como é o triângulo Ginzo-Verim-Laça. A capital da região, a cidade de Ourense sofreu muitos altos e baixos no transcurso da história recente, tendo-se exercido a censura durante a época franquista pelo uso e prática da liberdade e da crítica. A dia de hoje conta com grande popularidade.


Como todas as festas que estamos a descrever, tem as suas raízes na roda das festividades estacionais das sociedades agrárias como é a celta em geral e a galaica em particular. Reconhecemos o seu caráter ritual em festividades e celebrações ancestrais do nosso contorno etno-cultural atlântico . É, no entanto, a sua etimologia latina. Ou assim nos parece dando uma olhadela por cima. Entrudo ou Entroido, diz-se ser proveniente do INTROITUS latino, que significa “entrada”...no bom tempo, na primavera que se visualiza no horizonte. A outra palavra que define esta época festiva é a de “carnaval” provavelmente originada em “CARRUS NAVALIS”, quer dizer, “carro (de batalha) naval”. Aparentemente não parece muito acaído, pois a festividade não é exatamente uma guerra de barcos, mas se achamos que poderia ter a sua origem numa velha prática de construir carros ou barcos de madeira com rodas, fazendo que se confrontassem entre si de forma festiva, simulando batalhas navais e jogando-se ramalhos, paus e material vegetal, poderia ter mais lógica. Seria o conhecido como o “Carro do Entroido” que às vezes viajava dumas localidades a outras num ritual de fertilidade vegetal que servia como pedido à natureza, não isento de caráter mágico com o fim de fazer produzir à terra. Faz-nos lembrar a festividade típica em Ourense da “Batalha de flores”, típica da festa da cidade embora em outra época do ano.


Dentro desta tradição há o costume de se disfarçar escondendo-se atrás duma vestimenta que oculta a verdadeira personalidade. Talvez atende mais a uma adatação ao mundo cristão do ritual ancestral no afã de livrar a cabo ações nem sempre bem consideradas do ponto de vista social ou religioso. Estas ações poderiam perceber-se como psicologicamente necessárias por ser uma catarse anterior à etapa sacrificial da Quaresma. Por outra parte, se investigarmos nos vegetarianos atuais e algumas outras crenças que convivem connosco fora do dogma católico, a não ingestão de produtos animais parece ter como objetivo o refinamento do espírito e a sutilização da energia do próprio corpo permitindo a elevação da alma. Se a isto acrescentamos que era uma prática predicada e observada por algumas filosofias religiosas arreigadas na Galiza, como é o caso do priscilianismo, que tentava harmonizar ou sincretizar o culto ancestral, autótone e tradicional galaico com o recém chegado cristianismo, podemos chegar a pensar que essas supostas origens paleo-cristãs podem ser retrotraídas a épocas bem anteriores, envolvendo a festividade mesmo num contexto temporário e ritual céltico cujo conhecimento nos é ainda em parte desconhecido. Se uma sorte de Quaresma pré-cristã existia, deduzimos que a catarse anterior poderia igualmente ter existido. O que sim podemos deduzir é a função de ritual de fertilidade encarnado nas figuras dos mecos que se queimam como símbolo do rechaço ao velho. Consequentemente, é também um recebimento da iminente primavera na que o novo parto e florescimento da terra vai trazer novas colheitas e renovada prosperidade.



Tudo aquilo que para o Carnaval representa uma inversão dos valores é uma preparação para que no seguinte mês e meio a gente possa aguentar a introspeção e a vida interior prévia ao acordar da natureza..



O Carnaval é a época posterior á festa da Candelária datada em 2 de Fevereiro. O dia anterior é o da Santa Brígida, representação católica da Brigit céltica ou o que é o mesmo, a Lua, a luminária feminina a quem se lhe rende culto no ponto polar do calendário do Sol-Lugh.



Na tradição cristã, este culto feminino de fertilidade da terra tem o seu correlato na apresentação por parte da Virgem Maria do seu filho Jesus ao templo. É uma festividade de marcado signo feminino e na tradição céltica do Imbolc, Oimelc ou Imbowolka era época de grandes comelhadas, grandes festas e excessos herdados na tradição carnavalesca galega.

(Continuará) 

Comentários


(1). O nome do qual se apanhou esta má adaptação é o de Samhain, palavra irlandesa que designa o mês de Novembro. A nossa pergunta é: Porque adoptar o nome de Samain e não um derivado do Hop-tu-naa da Ilha de Man, do Calan Gaeaf galês, do Kalan Gwav córnico... Na Galiza existe um nome e esse é o de Magusto. Porque não dar-lhe o seu valor ao lado de todos os anteriores e não adoptarmos um não tradicional do País? Talvez não seja o suficientemente digno, conhecido ou corretamente relacionado com o mundo celta? Porque é tão facilmente acolhido pelos neo-galeguistas de maioria absoluta dos colégios de primária? De existir um nome na Galiza derivado do nome primordial Sâmanos/Sâmonios/Sâmonis seria algo parecido ao nome da formosa vila galega de Samos cuja origem etimológica provém justamente dum Sâmanos medieval



(2) Há que salientar a figura do Olantzero no País Basco que ainda o considerarmos um País fora do contexto indo-europeu pela sua filiação linguística há que salientar a sua origem céltica anterior à sua basconização como nos tem informado não poucas vezes o celtólogo André Pena.
  
(3) O São João, também festa solsticial embora astronomicamente não o seja já que seguindo critérios científicos esta é o 21 de Junho (ou 21 de Dezembro no caso do inverno). O 24 de Junho é dia no que começa o debalar ou queda do sol, como o 24 de Dezembro é o momento em que o dia começa o seu avanço sobre a noite.

Por outra parte, comparando o calendário Juliano com o Gregoriano calculamos que o fim de estação, 21 de Dezembro seria o primeiro dia do começo do ano segundo o cômputo romano herdado pela igreja e pelo calendário juliano, correspondente ao atual 31 de Dezembro no calendário gregoriano a partir do 1582 em diante.


 
Bibliografia:



  • VVAA. Dirigidos por Otero Pedrayo, Ramón: História de Galiza. III Tomos. Tomo I. Etnografia. Cultura espiritual de Vicente Risco. Akal Editor. Madrid.1979
  • Henry Swinburne: Travels through Spain in the year 1775 and 1776.
  • Pena Granha, André: Narón, un Concello con historia de seu. Tomo I. Ed. Concello de Narón. Narón.1991
  • González Pérez, Clodio: As festas cíclicas do ano. Museo do pobo galego. Samtiago de Compostela. 1991
  • Green, Miranda: Simbol and Image in Celtic Religious Art. Edit.Routledge. London and New York. 1989
  • Green, Miranda: Mitos celtas. El Pasado legendario. Akal. Madrid. 199

     O Apalpador, uma figura tradicional do Natal galego:http://www.agal-gz.org/modules.php?name=Downloads&d_op=getit&lid=152

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

O desastre do Castelo de Monte Rei.




Por Eduardo Castro

Por onde começar quando de desfeitas patrimoniais se tenta falar? A comarca de Verim não é uma excepção. Desde os corta-fogos ou aceiros que destroem castros, mamoas e petróglifos, à autoestrada que arrasou um jazigo possivelmente único em Galiza e os incontáveis estragos da obra do AVE.
Todo isto, unido ao desleixo das administrações locais, provinciais, autonómicas e estatais, mais preocupadas por ganhar eleições e manterem-se nos postos de poder, do que de se preocuparem do bem-estar dos seus governados, e muito menos no seu património. Não posso deixar de fazer certa reflexão ou analogia entre um assunto e o outro. Por exemplo, lembrando o acondicionamento da estrada de Verim para Vilar de Bárrio há uns anos, justo antes das eleições... O mesmo quando falamos da estrada Verim – Campo Bezerros, que se fez a consciência, ficando claro o porquê, pois já se sabia que ia ser necessária para o trânsito de camiões e maquinaria pesada. Se nos pomos a falar do Castelo, pensemos que quando se arranjou o acesso e se destrói a calçada é já com a intencionalidade de utilizá-la para transportar o material da obra que hoje se está a levar a cabo.



Quero dizer com isto que o Património, tanto cultural como histórico ou natural, não lhes interessa às administrações, excepto como fonte de ingressos privados, camuflando centos e milhares de milhões de euros no processo. Monte Rei é um castelo muito visitado todo o ano. Gosta. Gentes de muitos lugares vêm vê-lo e escutamos os comentários que fazem os visitantes sobre o deplorável estado da Fortaleza, do seu contorno, do abandono e da falta de uma adequada conservação. O vandalismo e as inclemências do tempo, chuvas e vento, afetam também gravemente às muralhas e os edifícios. Quando se decide, por parte da administração qualquer projeto de restauro ou de conservação fez-se sempre pouco e nem sempre bem. Lembramos um muro de tijolo que se fez naquele primeiro restauro, que felizmente se chegou a tempo de retificar para fazê-lo em pedra. Aquelas máquinas desfizeram a calçada, ao Sul, na Porta do Sol, quando puseram o sistema de esgotos. As obras desfizeram o empedrado que ficou de cimento armado ou terra com uma moreia de tampas de esgoto de fundições, redondas (quarenta em menos de 300 metros), e muitos sumidoiros, pelo menos uns quinze.

O caminho real também sofreu um restauro, para mim pouco afortunado. No interior do Palácio dos Condes eliminaram-se o lagar e a adega do Castelo. Quando eu era rapaz levaram treze canhões para a Crunha ainda que posteriormente devolveram quatro. Ali, no passeio marítimo hai canhões de Monte Rei sem qualquer referência de que são regiomontanos; e no Castelo de Santo Antão, está, ou deveria estar ainda o canhão chamado de “Golondrina”, que levaram para lá a finais do século XIX com o fim de avisar com um canhonaço a chegada do correio de Cuba. 
Dizia o Professor Xesus Taboada Chivite que pelos anos 30, havia em Monte Rei mais de trinta c canhões. Hoje só ficam quatro e meio...

No acesso norte, pela porta de São Francisco, uma calçada -calculamos que pelo menos é de época medieval- foi tapada há pouco tempo, em boa parte do seu percurso com “adoquins” (paralelepípedos de pedra). Debaixo está a calçada coberta com cimento armado, com vareado de ferro, terra e “adoquins”. Subiu o caminho pelo menos uns 40 cm, que para além de tapar o empedrado antigo tira-lhe estética a portas e muros. No interior da “garita” que está para levar controlo da porta ao lado do Cárcere, só poderia estar um soldado anão, muito pequeno. A obra não foi terminada, pois deveu de dar-lhes vergonha. Disseram que se tinha feito com conhecimento e a autorização de Património. Se isto se fez sem autorização, está mal, mas se se fez com autorização, está pior.

Hoje, não se pode visitar boa parte do Castelo porque está cheio de andaimes e de valados que proíbem a passagem.

Brigadas de operários estão desfazendo por dentro do Palácio dos Condes, “tabiques”, escadas.... Deixam só as paredes mestras. Não sei se eles sabem bem o que vão fazer.... Dizem-me que um negócio hoteleiro. Quartos, cozinhas, taberna, restaurante e lojas parece que também lhe porão um elevador.
 

A ideia é genial pois ao pé do Castelo onde noutro tempo houve uma escola de Jesuítas, a primeira em Galiza, está o Parador de Turismo a menos de 500 metros. Este fecha quatro meses no ano e esteve quase por desaparecer por falta de clientes e por má gestão. Monte Rei é referente histórico, cultural e turístico da bisbarra mas lamentamos a má vida lhe dão aos que deveriam cuidá-lo, conservá-lo, restaurá-lo e difundir a sua imagem como reclamo turístico-cultural.

Muitos aldrajes se levam fazendo neste monumento no transcurso do tempo. Uma mágoa.


quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Ferreiro e Pimentel na denúncia do sadismo falangista




Por Fátima Figueiredo

Em termos de crise política, social e económica, é vulgar ouvir cidadãos que, com a memória curta ou/ e parcial e com muita falta de informação, se relembram do passado com nostalgia, como uma época em que se era pobre, andava descalço, não se tinha acesso à educação, se passava fome, se sofria torturas ou se era morto por ser contra o regime ditatorial, mas em que tudo, mesmo assim, parecia estar no seu lugar. Tal facto é absolutamente abominável em países que sofreram ditaduras e mais ainda de longa duração, tenham sido elas de direita ou de esquerda.
O esquecimento das atrocidades e crimes cometidos comprova-se então com a publicação de muitas obras sobre os ditadores e na atitude de fanáticos que surgem devido à frustração doentia por saberem inconscientemente que são criaturas que só através do Mal poderão obter alguma relevância. Em Portugal, têm surgido inúmeros livros sobre Salazar e grupos neofascistas no Facebook; em relação a Espanha, existem ainda fascistas que usam t--shirts e pulseiras com as cores do fascismo franquista, como constatámos numa praça em Oviedo.
Neste contexto e porque há que acordar e avivar a memória de muitos, importa-nos aqui apresentar alguns autores galegos e uma obra de cada um em que se denuncia o horror da ditadura de Franco. Esperamos assim contribuir para que nomes menos conhecidos e menos salientados do que Rosalía e Castelao sejam relembrados, pois a literatura tem a obrigação de revelar a verdade e é isso que acontece nas obras dos escritores a seguir apresentados.
Começamos por Xosé Fernández Ferreiro (n.1931), membro do grupo literário nacionalista Brais Pinto1, que apresentou e denunciou o início do mundo repressivo da ditadura fascista. Começando por publicar poemas, na década de 1950, dedicou-se depois à narrativa, a par da sua atividade jornalística nos jornais Faro de Vigo, La Noche, El Correo Gallego e La Voz de Galicia.
Da sua obra narrativa, destacamos Agosto do 36 (publicado em 1991 e que mereceu o Prémio Xerais) pelo quadro de horror que apresenta da realidade que se viveu durante os terríveis anos da Guerra Civil Espanhola, de que são exemplo o martírio e fuzilamento das personagens Sara e Gregorio, na Touça, símbolo espacial e microcosmos do terror vivido em todas as nações que integram a atual Espanha.
Refere o narrador que tudo começou quando Gregorio, republicano, soube que os falanxistas o tiñan na lista para “darlle o paseo” (Ferreiro: 1991, 15), agravado pelo facto de Sara o ter preferido a Manuel, que aderira às tropas nacionalistas. Tudo isto obrigou-o a ter de fugir para escapar à morte, uma vez que aquelas, procurando descobri-lo, montaram sistematicamente guarda à sua casa: empezaron a presentarse de improviso na aldea polas noites, ás altas horas, e rexistraban non só o seu fogar senón outros onde supuñan ou sospeitaban que podía estar escondido (Ferreiro: 1991, 17). Os que engrossavam estas tropas eram naturalmente homens sem valores e com uma desmedida ânsia e desejo de poder, ambicionando um cargo que os fizesse ultrapassar obstáculos sociais e o sentimento de inferioridade que sentiam, na aldeia em que viviam, símbolo de pobreza material e de falta de importância e ascensão social, e colmatar igualmente frustrações pessoais persistentes. Perseguindo, controlando, matando, vían naquilo unha oportunidade para deixa-lo traballo da aldea e ser alguén. Desertores do arado. Homes que non lle tiñan apego á terra. Soamente tiñan odio (...) a forza das armas, e aqueles uniformes que os convertían en seres poderosos contra os que nada se podía (Ferreiro: 1991, 18).
Do ponto de vista material, eles conseguiam enriquecer, apoiados por um regime ditatorial que recompensava largamente os que o ajudavam a espalhar o terror e os informasse de forma conveniente acerca dos seus inimigos. Foi o que aconteceu com a personagem Manuel, quen despois dunha prolongada ausencia, cando volveu, construíu unha casa (Ferreiro: 1991, 18), o que auxiliou a população a ter a certeza da sua adesão à fação falangista.
Gregorio, pelo contrário, simboliza a resistência republicana, defensora dos direitos do povo, controlado não só pelos militares como também pelos seus aliados representantes da Igreja Católica. Por isso, aquela personagem critica o clérigo Xenaro, representante da aliança daquela com os falangistas, supostos defensores da moral e da nação contra a ameaça comunista: vostedes os cregos (...) non fan máis ca enganar á xente contándolle mentiras desde os altares e púlpitos, en lugar de lle dici-las verdades e abrirlle os ollos (...) interésalles máis que o pobo siga cego e analfabeto,pois así, coma os bois capados, é máis manexable (Ferreiro: 1991, 31).
As tensões acumuladas e as discórdias políticas culminaram com o rebentar da guerra e com o horror dos fuzilamentos, os paseos e encarceramentos, arrancando a vida aos que se opunham ao regime que se revelava monstruoso. Os falangistas chegavam a revelar o seu orgulho pela crueldade que cometiam e disto também o narrador nos dá conta, nesta obra, quando refere a atitude de Manuel, numa das vezes em que regressa pomposamente a Abades e expressa bem a ideologia já fermentada pelo falangismo, mostrando-se máis empoleirado ca nunca, coa súa pistola ó cinto e o fusil ó ombro. Logo, ó marcharen, soltou (...):
-Imos limpar España de herexes e comunistas (Ferreiro: 1991, 34).
Do lado oposto, deparamo-nos não só com Gregorio como também com Sara, a trágica heroína representante das mulheres do povo que tudo faziam para defender o seu homem da perseguição, símbolo da poderosa proteção feminina que, determinada, não se importa de dar a própria vida por Amor. Ela aqui simboliza igualmente a Justiça, não apenas política como também a moral e ética, contra a falta de valores e de preservação da vida humana: ben sabía que de caer nas súas mans mataríano sen piedade (...) estaba disposta a atura-lo que fose. A facer todo o que tivese que facer, con tal de que a Gregorio non lle pasase nada malo. Sobre todo que non o maten (Ferreiro: 1991, 37).
Para se esconder e sobreviver, Gregorio refugia-se na serra, limitado nos seus movimentos e condições de sobrevivência e ajudado por Sara, que lhe prestava um apoio incondicional, levando-lhe o que precisava e informando-o acerca do que se passava na aldeia, à semelhança de muitas outras mulheres que eram o elo de ligação entre os homens que encontravam refúgio no monte e o contacto com a realidade, mantendo-os ao corrente do que acontecia e levando-lhes mantimentos.
Devido ao perigo que tais incursões na serra acarretavam, o pai de Sara, na povoação, trancava bem a casa com medo dos falangistas. Sabía que andaban agachados polos camiños, as hortas e as eiras, para coller ó mestre se baixaba dos seus tobos da serra para verse con Sara (Ferreiro: 1991, 40), havendo o perigo acrescido dos outros habitantes serem falangistas ou seus informadores, sendo uns conhecidos e outros suspeitos, o que criava um ambiente de tensão e desconfiança que prejudicava e alterava a vida diária e o relacionamento entre os aldeãos.
Tal situação evoluiu de tal modo negativamente que se pressentia um acontecimento nefasto, trágico, no zunir do vento contra as follas do millo (...) ou no cheiro a rastrollo que viña das leiras recén segadas. De noite os cans semellaban nerviosos, e ladraban dun xeiro desacostumado. (...) Unha madrugada, o branco luar que prateaba as chairas do val de Abades e Santos e mailos cumes da serra, escureceu por uns minutos. “Foi entón cando vímo-la cara da lúa tinxida de sangue. (...) Non só era a lúa: o ceo todo aparecía vermelho, coma se fose de lume” (Ferreiro: 1991, 42).
Os falangistas Manuel, Luís, Leonardo e Xan levaram Sara para a Touça, no dia 13 de agosto, dizendo aos habitantes da aldeia que avisassem Gregorio: a tragédia evolui a passos largos. Procurando ajudar Sara, aqueles recorreram ao padre Xenaro, que, assumindo a posição da Igreja, defendeu que os falanxistas queren limpar España de herexes e de comunistas (Ferreiro: 1991, 44) e que deveriam avisá-los da localização do noivo de Sara, escondido na serra.
Na diversidade humana apresentada e respetiva motivação para aderir ao Falangismo, encontramos Lázaro, taberneiro de Abades, que abastece os carcereiros de Sara de provisões e os informa do que se passa na aldeia, ajudando-os assim a delinearem estratégias para atraírem Gregorio à Touza, com Sara como chamariz: no forno da Piedade parece que onte algunhas mulleres murmuraron de ti (Ferreiro: 1991, 118) e dixo com mellor ânimo:
-Hoxe tráiovos un bo xantar (Ferreiro: 1991, 118).
Uma forma que os falangistas encontraram de tentar acabar com essa articulação foi a intimidação incutida com os disparos noturnos: de cando en vez oíanse disparos, de noite e de día, nos camiños próximos a Abades, Santos, Xestosa e Fondodevila. (...) Os falanxistas facían prácticas de tiro contra as árbores e contra os outeiros para amedoñar á xente mediante o terror que isso orixinaba (Ferreiro: 1991, 37). Tal como aos restantes habitantes de locais em que se ouviam tais disparos, a Sara batíalle com forza o corazón no peito cando chegaban ata ela aquelas detonacións. Sempre lle parecía que disparaban contra Gregorio (Ferreiro: 1991, 37), pois os disparos desde logo que tiñan o seu efecto sicolóxico, pois que enchían os camiños, as aldeas e mailas mentes de impotencia. Era coma se a guerra se fose achegando a nós pouco a pouco, inevitavelmente (Ferreiro: 1991, 37), guerra na qual o povo, impotente, era um inimigo fácil de dominar, preso pelo medo às suas casas: moito medo había, e moita confusión, entre as xentes de Abades. Cerrada a noite metíanse nas súas casas e asexaban polas fiestras de cara á serra (Ferreiro: 1991, 89).
E o povo tinha muitas razões para sentir medo. Além dos fuzilamentos, pressões e prisões, outra situação está retratada nesta obra de Xosé Fernández Ferreiro: a violação de mulheres companheiras de homens foragidos, o que quase acontece com a protagonista, isco usado para atrair Gregorio: achegou-se á prisioneira e mirouna un momento. De repente, sen máis, desabotooulle o vestido á altura do peito, e arrincoulle o xustillo cun forte tirón de man (Ferreiro: 1991, 93). A ação triplica em horror e violência psicológica e física quando, incapaz de atrair Gregorio para o fuzilar, o ódio de Manuel o leva a praticar tiro em Sara, que se cobre gradualmente de sangue: deulle nun brazo. Volveu logo, e foille dar nunha coxa. O corpo da mestra, enteiramente espido, comenzou a cubrirse de sangue (Ferreiro: 1991, 152), até que finalmente clama desesperadamente pelo socorro do noivo, que não aparece, uma vez que fora já atingido pelos falangistas, que ainda não sabiam que o tinham atingido: de súpeto a mestra comenzou a berrar, coma se tolease de repente. Daba gritos horribles, como adoecida de dor. Chamaba por Gregorio, clamando pola súa axuda para que a sacase daquel inferno. Pedíalle que a matase cun dos seus certeiros disparos (Ferreiro: 1991, 152).
Este quadro de horror é um fiel exemplo da repressão fascista, sádica e brutal, e esta última passagem da obra relembra-nos os dramáticos depoimentos presentes no documentário Memória recobrada, apresentado por Manuel Rivas. Nele, deparamo-nos com a existência do terrível sadismo falangista e é bem patente a memória ainda viva de quem sofreu a repressão e teve de viver escondido para resistir e salvar a própria vida, relatando-o com uma memória ainda bastante fresca das atrocidades sofridas, assim como também se sente o terror do relato do fuzilamento de galegos, as mortes nas cunetas (valas ou bermas das estradas), sendo depois os corpos atirados aos rios para fazerem tremer de terror e intimidarem as populações que viviam nas suas margens.
As mortes nas cunetas e o horror por elas causado é denunciado no poema com aquele nome (“Cunetas”), de Luis Pimentel (1895-1958), publicado pela primeira vez na obra Galicia hoy, da Editorial Ruedo Ibérico, París-Buenos Aires, em 1966, embora esteja datado de 1937, e do qual aqui transcrevemos alguns dos versos mais significativos: outra vez, outra vez o terror!/ Un día e outro día,/ sen campás, sen protesta./ Galicia ametrallada nas cunetas/ dos seus camiños./ Chéganos outro berro./ Señor, qué fixemos?/ -Non fales en voz alta-,/ Hasta cándo durará iste gran enterro?/ -Non chores que podem escoitarte./ Hoxe non choran máis que os que aman a Galicia-,/ Os milleiros de horas, de séculos,/ que fixeron falla/ para faguer un home!/ Teñen que se encher aínda/ as cunetas/ con sangue de mestres e de obreiros./ Lama, sangue e bágoas nos sulcos/ son semente (Rodríguez Fer: 1989, 277-278).
Como facilmente se verifica, este texto é de extrema importância na denúncia da repressão, no território galego, durante a Guerra Civil Espanhola, do fuzilamento das vítimas à beira dos caminhos, deixando os corpos nas bermas ou valetas, durante os paseos a que nos referimos anteriormente, sabendo as vítimas de antemão qual seria o seu destino. Devido a estes ocorrerem em tão grande número, Pimentel usa a metonímia e também hipérbole Galicia ametrallada nas cunetas, o que causava um gran enterro, pois eram muitos os corpos encontrados de resistentes galegos.
Assim, todos os dias, as populações sentiam o terror, não sabendo quem seria o próximo a ser levado, tendo até de chorar os seus mortos em silêncio, para que ninguém ouvisse o seu choro, uma vez que, entre o povo, havia os que passavam informações aos falangistas, traindo a própria família, amigos e comunidade, em troca de favores ou bens, como já revelámos na breve análise de Agosto do 36.
Os que sofrem em silêncio são os que aman a Galicia e o sangue dos que morrem é essencialmente de mestres e de obreiros, gente simples que luta pela sua terra e pelo direito à Liberdade e que nenhum crime cometeu. Daí a invocação à entidade divina, a quem o sujeito poético lança uma pergunta retórica (Señor, qué fixemos?), tendo o povo de engolir a sua revolta e o seu sofrimento porque a sua voz podia causar ainda mais mortandade e sangue. Assim, tem de viver amordaçado (-Non fales en voz alta-), pois o ser humano ainda não está construído, produzido, acabado. Ainda faltam milleiros de horas, de séculos,/ que fixeron falla/ para faguer un home!, um ser humano com sentido de Justiça, Democracia, Liberdade e Bem, sem a sede de sangue que fazia correr os algozes falangistas, causando um enterro gigantesco que demorava a acabar (Hasta cándo durará iste gran enterro?).
O poema passa posteriormente para um sentido mais introspetivo e intimista, a partir daqueles acontecimentos, havendo uma correlação entre o exterior e o interior do sujeito poético: docemente chove./ Enviso, arrodéame unha eterna noite./ Xa non teréi palabras pra os meus versos./ Desvelado, pola mañán cedo/ baixo por un camiño./ Nos pazos onde se trama o crimen/ ondean bandeiras pingando anilina./ Hai un aire de pombas mortas./ Tremo outra vez de medo./ Señor, isto é o home./ Todas as portas están pechadas./ Con ninguén podes trocar teu sorriso./ Nos arrabás,/ bandeiras batidas i esfarrapadas./ Deixa atrás a vila./ Ti sabes que todos os días/hai un home morto na cuneta,/ que ninguén coñece aínda./ Unha muller sobre o cadáver do seu home/ chora./ Chove./ Negra sombra, negra sombra!/ Eu bem sei que hai un misterio na nosa terra, /máis alá da néboa, / máis alá do mar,/ máis alá da chuvia,/ máis alá do bosque (Rodríguez Fer: 1989, 278).
Contrastando com a amarga situação, a chuva cai serena e brandamente, como se não quisesse contribuir para um ambiente ainda mais negro e agressivo, pois a noite já chegou, eterna, como se pretendesse apagar ou tapar os atos violentos cometidos e os corpos que jazem à beira das estradas, mas a anteposição do adjetivo pode também significar que esta noite, este ambiente de terror, demora a acabar, não tem fim, causando cada vez mais vítimas.
Devido ao horror dos acontecimentos que ele próprio presencia, o sujeito lírico não encontrará, depois do que viu, mais vocábulos que expressem a violência e o terror, pois o tempo verbal usado é o futuro, expressando o sucumbir da sua inspiração perante a realidade a que assiste: non teréi palabras pra os meus versos.
Perante o que o rodeia, chega então à conclusão de que isto é o home, apresentando a Deus o resultado da sua criação: um ser que pratica o Mal, que tem prazer em praticá-lo e sente poder ao aterrorizar quem não se pode defender, matando sem qualquer motivo ou sentimento, a não ser ódio. Assim, receando a loucura inimiga insensível a qualquer bom senso ou apelo, todas as pessoas da vila fecham as portas, refugiando-se nas próprias casas, de modo que o sujeito poético, dialogando consigo mesmo, aconselha-se a afastar-se da vila, porque todos os días/ hai un home morto na cuneta,/ que ninguén coñece aínda e o próximo, no dia seguinte, poderá, quem sabe, ser ele próprio. Entretanto, observa ainda uma mulher que chora sobre o corpo do seu home, ao mesmo tempo que a chuva dela se condói e com ela se solidariza.
Profundamente abatido, desolado e carregando consigo as marcas daquilo a que assistiu, o sujeito lírico, sozinho na escuridão, sente a força do mistério sobrenatural do território galego. Por que razão o sente? Talvez porque o ambiente propicia esse sentimento: a noite, a chuva, a névoa, o mar e o bosque são elementos naturais que criam uma auréola de misticismo que contribuem inclusivamente para cristianizar as vítimas dos fuzilamentos. Estes mártires tornam-se também elementos da Natureza, confundindo-se com ela: os seus corpos jazem na terra e talvez as suas almas integrem os bosques envoltos na névoa, dando origem a lendas (não podemos esquecer que a Galiza é um manancial de misticismo, ajudado pelos elementos da natureza que Rosalía de Castro tanto exaltava). No entanto, é referido que esse mistério está além da chuva, da névoa, do mar e do bosque, sendo usada a anáfora para reforçar a ideia de que o mistério está acima de todos estes elementos, portanto, próximo ou ao nível da entidade divina. Esta é a única que poderá saber e entender os acontecimentos trágicos que então ocorriam, interpretação que consideramos pertinente, tendo em conta que, no território galego, os elementos pagão e cristão fundem-se, criando um ambiente de significativa espiritualidade.
O campo semântico predominante relaciona-se com a morte, horror e sofrimento: terror; ametrallada; berro; gran enterro; sangue de mestres e de obreiros; Lama, sangue e bágoas; eterna noite; crimen; esfarrapadas; home morto na cuneta; cadáver; chora; Negra sombra e, de todo o vocabulário usado, poucas são as palavras que têm alguma conotação positiva, como semente, indicadora de que, de tantas mortes e sangue, poderá nascer a revolta e a vitória que acabarão com tanta tragédia. No entanto, até lá, teñen que se encher aínda/ as cunetas/ con sangue de mestres e de obreiros, hipérbole que não estaria muito longe da realidade, na Galiza rural (seus camiños; baixo por un camiño.) ou urbana (Nos arrabás), sendo os assassinatos, fuzilamentos e prisões, pensados e planeados nos pazos onde se trama o crimen. Todas estas ações construíram o quotidiano dos galegos, entre julho de 1936 e março de 1937, sendo assim este poema um resumo esclarecedor da situação vivida nesse espaço de tempo e que perdurou muito além desse ano.
Os galeguistas do interior lutaram, pois, contra situações duríssimas e extremamente adversas, tentando discretamente manter contacto com outros grupos de oposição clandestina não deixando morrer o Galeguismo.

BIBLIOGRAFIA

BACHOUD, André, Franco, Lisboa, Editorial Verbo, 2003

BARREIRO MALLÓN, Baudilio e RECUERO ASTRAY, Manuel, Historia de Galiza, 1ª ed., trad. David Martelo, Lisboa, Edições Sílabo, 2008

BERAMENDI, Justo e NUÑEZ SEIXAS, Xosé Manoel, O Nacionalismo Galego, Historia de Galicia, Vigo, Edicións A Nosa Terra, 1996

FERNÁNDEZ FERREIRO, Xosé, Agosto do 36, 8ª ed., Vigo, Edicións Xerais de Galicia, 1991

PESTON, Paul, A Guerra Civil de Espanha, Col. História Narrativa, Lisboa, Edições 70, 2005

RODRIGUEZ FER, Claudio, Poesía Galega, Vigo, Edicións Xerais de Galicia, 1989.

_______________ A Literatura galega durante a Guerra Civil, Vigo, Edicións Xerais de Galicia, 1994

DVD

La memoria recobrada, RTVE/TVE, Edivisa, dirigida por Alfonso Domingo, 2006

Referências:

1 Constituído em 1958 por um grupo de jovens e estudantes de esquerda, editou uma colecção de poesia,
organizava tertúlias e outras atividade culturais e, a nível teórico, defendeu o Marxismo.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Caradawc, Caráunio, Corocota.... e outros nomes de resistentes celtas.


Foto de Tânia Costa: http://www.facebook.com/Nimphae?fref=ts

Por José Manuel Barbosa
Há uns meses comunicava connosco o Professor e Acadêmico da AGLP Doutor António Gil. Ele comentava-me que estava a ler o NIMBOS de Diaz Castro em cujo poema 22 “O berro das Pedras” diz: “Irios ou artabros, bergantinhos ou caránicos, ei!” para depois falar das Vacas de Breogão. O Professor Gil Hernandez perguntava-nos sobre esses assuntos e nós respondimos desde a nossa humildade mas sobre o tema continuei dando-lhe voltas e queria comentar qualquer cousa sobre isso, sobre tudo reparando na palavra “caráunicos” e certas cousas que conclui.

Para nós a forma “caráunico” talvez tenha a ver com Caráunios. Este é o sobrenome que recebia um dos líderes da resistência celtíbérica contra Roma. Na épica do cerco de Numância existe a figura heróica de Rhetogenes Caráunio, um guerreiro que conseguiu salvar o cerco romano para pedir reforços com o fim de conseguir atacar os romanos na sua retaguarda.


 Ῥητογένης δέ, ἀνὴρ Νομαντῖνος, ᾧ Καραύνιος ἐπίκλησις ἦν, ἄριστος ἐς ἀρετὴν Νομαντίνων, πέντε πείσας φίλους, σὺν παισὶν ἄλλοις τοσοῖσδε καὶ ἵπποις τοσοῖσδε ἐν νυκτὶ συννεφεῖ διῆλθε λαθὼν τὸ μεταίχμιον, κλίμακα φέρων πτυκτήν, καὶ φθάσας ἐς τὸ περιτείχισμα ἀνεπήδησεν αὐτός τε καὶ οἱ φίλοι, καὶ τοὺς ἑκατέρωθεν φύλακας ἀνελόντες τοὺς μὲν θεράποντας ἀπέπεμψαν ὀπίσω, τοὺς δ' ἵππους διὰ τῆς κλίμακος ἀναγαγόντες ἐξίππευσαν ἐς τὰς Ἀρουακῶν πόλεις σὺν ἱκετηρίαις, δεόμενοι Νομαντίνοις συγγενέσιν οὖσιν ἐπικουρεῖν. 

"Rhetogenes, um numantino alcunhado Caráunio, o mais valente do seu povo, após convencer cinco amigos, cruzou sem ser descoberto, numa noite de neve, o espaço entre ambos exércitos acompanhado de outros tantos servos e cavalos. Levando uma escada dobrável e apressando-se até o muro que rodeava o cerco saltaram por acima dele e depois de matarem os guardiões de cada lado, enviaram de volta os criados e subindo aos cavalos pela escada, cavalgaram até as cidades dos arévacos com ramalhas de oliveira de suplicantes, pedindo a ajuda para os numantinos pelos laços de sangue que uniam ambos povos..." (Appianus Alexandrinus. Historia Romana. Ibérica. XCIV)

Esse sobrenome faz-me vir à cabeça o nome de dous personagens igualmente resistentes como foran Caradawc chefe duma confederaçao britana formada entre os Catavellani e dos Trinovantes e vencido por Roma na Batalha do Rio Medway. Posteriormente fugiu até a terra dos Brigantes, ao norte onde a rainha Cartimandua capturou e entregou Caradawc ao Imperador Claudio perante o que se apresentou com espírito orgulhoso e ameaçador. Claudio admirado da sua amostra de belicosidade ainda encadeado decidiu perdoar-lhe a vida.


Também o chamado de Corocota mencionado unicamente por Dion Casio como um "um certo bandido em Ibéria" que se fez dele um suposto guerreiro cântabro que resistiu Roma nas denominadas Guerras Cântabras é outro dos nomes.

Dião Cássio diz-nos dele na sua “Historia Romana”:

Κοροκότταν γοῦν τινα λῃστὴν ἐν Ἰβηρίᾳ ἀκμάσαντα τὸ μὲν πρῶτον οὕτω δι' ὀργῆς ἔσχεν ὥστε τῷ ζωγρήσαντι αὐτὸν πέντε καὶ εἴκοσι μυριάδας ἐπικηρῦξαι, ἔπειτ' ἐπειδὴ ἑκών οἱ προσῆλθεν, οὔτε τι κακὸν εἰργάσατο καὶ προσέτι καὶ τῷ ἀργυρίῳ ἐκείνῳ ἐπλούτισε.

Era um ladrão chamado Corocotta, o qual surgiu em Ibéria quem o incomodou tanto (a Augusto, entende-se) ao principio que ofereceu duzentos cinquenta mil (entendemos denários) ao homem que o conseguisse capturar vivo; mas depois quando o ladrão foi a ele pela sua própria vontade, não só não lhe fez qualquer dano, mas em realidade o fez mais rico pela quantidade da recompensa. (Dio Cassius LVI, 43, 3)

Filme: Los Cántabros

Os cântabros-santanderinos de hoje fazem-no nativo da Comunidade Autónoma de Cantábria....quando em realidade não se diz que fosse cântabro mas um bandido da Ibéria, segundo a teoria de Schulten. Na altura os que estavam contra Roma eram bandidos e por isso tirou a conclusão de ser ele um chefe militar das tribos cântabras confrontadas contra o Império. O ser nomeado de bandido, muito comumente era por razões de oposição militar e política contra o Império. Neste caso poderia significar que o Corocotta do que falamos lutasse nas guerras cântabras  contra o Imperador Augusto, mas do nosso ponto de vista, estas atingiam territórios muito mais amplos do que a atual ou a velha Cantábria, nomeadamente, os territórios das atuais Galiza, o Norte de Portugal, Astúrias com Leão e também a Cantábria histórica... Dião Cássio fala dele como consequência da morte de Augusto acontecida em 14 d.C e nessa altura os únicos territórios sem pacificar da península são os citados.

Tanto Caráunio, como Caradawc como Corocota tem a ver com o nome que recebiam os chefes político-militares célticos e nomeadamente galaico-cantrabro-astures: Corono (os velhos, os respeitáveis...) mas também pode ter a ver com o labor de guia ou chefe militar ou tribal. Achamos o nome dum Lucius Corona Severus, soldado pertencente à Legio VII Gemina, numa inscrição achada em Astúrias. Fala-se-nos dela no libro “Legio VII Gemina (Pia) Felix. Estudio de una legión romana” escrita por Juan José Palao Vicente e publicado pela Universidade e Salamanca. Curiosamente os únicos lugares onde se têm achado epigrafia com nomes com esta raiz: Coroc..., Corocuta, Corocaudius, Corocaudi ou Croci é em zona linguística galaico-lusitana (ver mapa do Atlas Histórico da Galiza do qual sou co-autor) mas concretamente em Chaves, Bragança, Valpaços, Ujo (Astúrias) e Badalhouce.

Com certeza que o nome “Corona” “Coronia” ou “Coronha” poderia ter a ver com a origem da cidade da Crunha ou Corunha proveniente talvez dessa etimologia originária.


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