No dia 15 de março, a entrada do
Forte de São Francisco – Chaves, com os seus canhões imponentes e
a estátua do General Silveira, serviu de ponto de encontro para mais
um roteiro do Desperta do Teu Sono (DTS).
Pela mão de Luís Carvalho, professor
de história numa das escolas da cidade, um grupo de “Despertos”
percorreu as ruas da cidade viajando no tempo em fraterno e alegre
convívio.
A aventura começou no interior do
Forte que hoje alberga um hotel mas em tempos idos foi Convento
Franciscano. Ao longo da história serviu, durante as invasões
francesas, de quartel-general das tropas invasoras, abrigou o 10º
batalhão de caçadores e os “retornados” das ex-colónias
portuguesas em África. Dentro deste monumento encontra-se a Igreja
de N. a S. do Rosário, inicialmente capela, construída no século
XVII pelos frades da Ordem de São Francisco.
Esta Igreja é
constituída por uma só nave com capela-mor e para além da sua
beleza ainda guarda dois mistérios. Um, descobre-se entrando por uma
pequena porta disfarçada no altar-mor que nos faz recuar no tempo e
perceber como esta preciosidade foi construída.
Um emaranhado de
pedaços de madeira de vários formatos sustenta a estrutura do altar
e uma escada estreita e muito inclinada leva o visitante até ao topo
onde uma portinhola permite vislumbrar o interior da igreja. O outro,
descobre-se levantando um alçapão que esconde a entrada do
misterioso túnel que, dizem os entendidos, liga vários monumentos
em Chaves e serviria de rota de fuga em caso de ataque.
O Largo General Silveira, antigo
Jardim das Freiras, foi local de paragem do grupo para poderem
apreciar a beleza arquitetónica de alguns edifícios, nomeadamente a
Biblioteca Municipal, os Correios e a Escola Secundária Fernão de
Magalhães, antigo convento.
A Rua da Trindade ou Ladeira da
Trindade, como é mais conhecida, levou-os até à Praça da
República. No nº17 desta rua está situado o edifício Polis, que
em tempos foi a cadeia de Chaves, e onde actualmente funciona o
gabinete de apoio técnico da Eurocidade Chaves-Verín. Na Praça da República, que terá
sido cemitério em tempos que já lá vão, está hoje um pelourinho
do século XX constituído por cinco escadas, um pedestal e, no cimo,
um capitel que exibe a esfera armilar e o brasão do município.
Nestas andanças a manhã passou e o
estômago anunciou a hora do almoço, jantar por estas bandas que
almoço é a primeira refeição do dia. O retemperar de energias e
a partilha de saberes realizou-se na companhia de vitela assada no
forno regada com vinho tinto nacional e para alguns água, também
nacional.
As varandas em madeira, avançadas
sobre as ruas para rentabilizar o espaço das habitações e pintadas
com tons garridos são típicas das casas desta cidade. Na Idade
Média, Chaves estava rodeada de muralhas, no interior das quais a
população vivia em ruas estreitas e em pequenas casas de vários
pisos. A Rua Direita ilustra muito bem esta época da história da
cidade. O grupo de “despertos” foi surpreendido ao longo desta
rua com pormenores nas varandas, nas janelas, nos brasões e mesmo no
interior de algumas casas (uma sapataria com o tecto original da
capela que ali existiu).
De estômago em paz era hora de
visitar a Torre de Menagem, os seus jardins e o museu militar. A Torre e a muralha que envolve os
jardins são o que resta do antigo castelo de Chaves, destruído no
século XIII, e reconstruído no século seguinte por D. Dinis. O
castelo, situado no ponto mais alto da cidadela medieval, evoluiu,
possivelmente, de uma edificação romana.
A Torre apresenta seteiras
estreitas nas suas paredes, ameias no topo e nela está instalado
desde 1978 o museu militar. Este museu contém, ao longo de quatro
pisos, uma exposição de armas, uniformes, plantas militares,
bandeiras e troféus desde a Idade Média até à actualidade. No
topo da Torre, o visitante saboreia uma vista magnífica da cidade
aos pés da Serra do Brunheiro e rendilhada pelo brilho do Rio
Tâmega.
Os “Despertos”, já em ritmo mais
lento, seguem para o Museu da Região Flaviense (Núcleo de
Arqueologia e de Pré-História).
Este museu fica situado na Praça
de Camões tal como os Paços do Concelho, a Igreja Matriz, a Igreja
da Misericórdia e a estátua de bronze de D. Afonso, conde de
Barcelos. O edifício onde estão instalados os Paços do Concelho
foi construído em meados do século XIX, o seu interior foi
remodelado em 1980 com o objectivo de aumentar a sua funcionalidade.
O Museu da Região Flaviense situa-se no Paço dos Duques de
Bragança. Este edifício foi construído no século XV como
residência de D. Afonso I, duque de Bragança. O seu aspeto atual
data do século XVIII, época em que serviu como quartel do batalhão
de Caçadores.
O acervo arqueológico do museu vai desde o IIIº
milénio a. C. e o período correspondente à Romanização,
nomeadamente, o que se refere à metalurgia pré-romana, estatuária
da idade do bronze e vestígios da pré-história até à
proto-história. Entre as peças de origem romana destaca-se o Padrão
dos Povos, uma pedra com uma inscrição descoberta em 1980 no leito
do rio Tâmega. A réplica deste padrão encontra-se na ponte de
Trajano.
A Igreja de Santa Maria Maior, Igreja
Matriz, foi, provavelmente, construída no século XII sobre
escombros de edificações anteriores. Foi ali, como figura no indicativo, onde os suevos prenderam ao historiador Hidácio Lémico e o levaram ao cárcere.
A torre sineira, o pórtico e
imagens de Cristo e de Santa Maria são do estilo românico, o
restante conjunto é renascentista. Esta igreja tem três naves
separadas por colunas de granito cilíndricas unidas por arcos de
volta inteira. A Igreja da Misericórdia é
considerada por muitos como a mais bela da cidade de Chaves.
Esta
igreja é do estilo barroco, foi construída no século XVII. A sua
fachada está decorada com pilastras e janelas, o interior, de uma só
nave, tem as paredes inteiramente revestidas de azulejos do séc.
XVIII, ilustrando cenas bíblicas. O tecto é de madeira pintada
tendo representada a cena da Visitação e o altar é de talha
dourada. Não foi possível visitar o interior desta Igreja porque
estava a decorrer uma cerimónia litúrgica.
Os visitantes e o seu guia continuaram
este périplo em direcção às Termas ou Caldas mas fizeram uma
breve paragem no “João Padeiro” para comparem pastéis de Chaves
e folar. Nas termas brotam águas a 73ºC, de
composição química bicarbonatada, sódica e gasocarbónicas. Estas
águas têm tradição milenar na cura de afecções
músculo-esqueléticas, do aparelho digestivo e respiratórias.
Aproveitando esta tradição houve alguns dos “Despertos” que
saborearam estas águas na Fonte do Povo com a esperança de irem
destas terras mais saudáveis. Outros houve que preferiram
deleitar-se com uns “panaches” e tremoços numa esplanada,
aproveitando para descansar.
Após o descanso dos “guerreiros”
a batalha pela cultura continua na outra margem do Rio Tâmega. Aqui
encontra-se o Jardim Público, o mais antigo espaço verde da cidade.
Antes de ser transformado em jardim público, no princípio do século
XX, era propriedade privada, tendo sido doado à população pelo
banqueiro Cândido Sotto Mayor.
A Ponte de Trajano, conhecida como
ponte romana, foi edificada sobre o rio Tâmega, entre finais do séc.
I princípios do séc. II DC e concluída no tempo do imperador
Trajano. Esta Ponte, em granito, tem cerca de 150 metros de
comprimento e assenta sobre arcos de volta perfeita. Doze arcos são
visíveis e há mais seis soterrados de um e de outro lado. A meio da
ponte erguem-se duas colunas, a montante e a jusante, com inscrições
que invocam os nomes dos imperadores Trajano, Vespasiano Augusto e
Tito Vespasiano, e as populações que contribuíram para a sua
construção.
A noite já estava instalada e a lua
brilhava por cima do belo e exuberante zimbório da Igreja de São
João de Deus. Chegara a hora das despedidas para alguns e para
outros a hora do jantar, ceia por estas terras.
Algum cansaço, muito boa disposição,
partilha de ideias e uma bela posta de bacalhau com batata a murro
fizeram as delícias dos resistentes deste dia em que se tentaram
edificar pontes de cultura entre pessoas que querem despertar do seu
sono.
Não vos assusteis. A
minha intenção não é plagiar ao Isidorus Hispalensis, nem também
não é fazer um livro do tamanho dum incunábulo onde apareça todo
o conhecimento existente. Tenho de reconhecer as minhas limitações no que diz respeito de tamanha
façanha... Simplesmente quero com este artigo fazer chegar ao leitor
ou pelo menos ajudá-lo a que tenha uma certa intuição a respeito
da importância da etimologia no estudo da língua e no
reconhecimento das formas que compõem o corpo léxical da mesma....
essa que chamamos galego mas que pelo mundo é conhecida e
reconhecida com o nome de português.
Muito tenho ouvido por aí
a frase tão sovada de que “o galego, como o castelhano, são
escritos como se falam”. Não sei se muita gente tem consciência de
que a língua é fundamentalmente oral e representarmos algo que entra
pelos ouvidos de forma que também entre pelos olhos é total e absolutamente
convencional. Lembremos que a escritura cuneiforme dos assírios, os hieróglifos dos antigos egípcios e os logogramas chineses também
representam de forma visual a fala das pessoas e nada tem a ver a
imagem sonora com a visual... Com os logogramas chineses podem se
comunicarem muitos utentes que pela fala nunca seriam capazes de se
entenderem por causa da diversidade do que chamamos chinês, que em
realidade são uns treze idiomas diferentes. Todos eles
compreensíveis entre si pela escrita mas em muitos casos
ininteligíveis pela fala.
Dentro do nosso mundo de
grafia latina também há diferenças entre as diversas línguas da
Europa. Em inglês o “Whom” reproduziriam-no os castelhanos como
“Jum” e nós poderíamos grafá-lo “Ghum”... Um ocitano que
escreve “Chu” vê essa palavra deformada se a reproduzirmos como
fazem os francofonos em “Tchou” e a forma castelhana “cincuenta”
seria grafada por um anglo-parlante como “thinkwenta”...
Vemos, portanto que as
grafias são convencionais e mesmo poderíamos usar quaisquer delas.
As línguas poderiam estar representadas em cirílico, em grafia
grega demótica, com as letras árabes.... -como se representava o
aragonês medieval que recebia o nome de Al-Khamiado-, e nunca
deixariam de ser as línguas que identificamos perfeitamente
pronunciando-se da mesma forma.
Texto em castelhano al-khamiado (com grafia árabe) do Mancebo de Arévalo. S. XVI
Centremos mais o tema.
Vamos nos centrarmos nesta nossa língua que a maior parte da gente
na Galiza denomina de galego mas que qualquer pessoa de qualquer país
do mundo que nos escute falar, imediatamente a identifica como uma forma de português.
Neste caso poderíamos
representar a nossa fala igualmente com qualquer grafia: chinesa,
arménia, hebraica ou até com o alfabeto fenício se fosse a nossa
vontade mas qualquer linguista sabe que o romanço
hespérico-ocidental é uma língua neolatina e portanto, por origem,
tradição histórica e evolução da língua deve escrever-se com
ortografia latina. Dentro do conjunto das línguas que se escrevem
com ortografia latina incluímos a maior parte das línguas da
Europa: as línguas germânicas, as latinas propriamente ditas
(durante uma época o moldavo, variante do romeno escrevia-se com o
alfabeto cirílico russo...), as bálticas, algumas línguas eslavas,
as célticas, o húngaro, finlandês, basco, etc...
Em verde países onde se usa o alfabeto latino. o verde mais claro usa-se juntamente com outros alfabetos como o árabe no caso dos países africanos e o devánagari na Índia e Paquistão.
Todas elas foram de uma
forma ou de outra herdeiras da cultura surgida do Império Romano e
todas elas participaram do cristianismo, católico ou protestante,
surgido em todo o caso dentro dos âmbitos políticos, territoriais,
legais e filosóficos da Roma imperial. Evidentemente de todas essas
famílias linguísticas, aquela da qual fazemos parte de forma direta
é a latina e dentro das línguas latinas o nosso âmbito é o
hespérico ou hispânico onde originariamente e segundo acreditamos
havia dous blocos no norte cristão medieval: Um ocidental
conformando as falas do Gallaeciense Regnum, quer dizer o galaico, em
palavras de Rodrigues Lapa, protogalaico, em palavras de Carvalho Calero ou língua galaico-asturiana segundo Eugeniu Coșeriu; e um hespérico
oriental que abrangia territórios linguísticos citeriores (de
Hispânia Citerior) em relação parental estreita com o romanço
gaulês. Das falas galaicas surgem duas polas segundo nos diz
Carvalho Calero: o galaico ocidental ou galego-português e o galaico
oriental ou asturo-leonês. Nós pertencemos ao galaico ocidental
entanto o castelhano está incluído no segundo, no galaico oriental,
sendo a variante mais extrema pelo Leste em contato com as falas
basconças. Se a identidade da nossa língua é galego-portuguesa
deve portanto incluir-se formalmente nesse contexto estético mas as
políticas linguísticas das últimas décadas manifestaram uma
forte vontade política de incluí-la, forçando a sua história, dentro do
galaico-oriental ou asturo-leonês seguindo a estética conformada
pela sua variante mais oriental: o castelhano.
Como as línguas não
podem deixar de ser quem são, igual do que as pessoas, a estética
castelhana e galaica-oriental não faz justiça com a nossa língua
do ponto de visto gráfico e etimológico como não faria justiça
vendo um oriental tocando a gaita galega ou um esquimó num contexto
africano... Vejamos alguns exemplos tirados das palestras que o nosso
amigo Carlos Garrido ministrava quando organizávamos os cursos de
língua lá pelos anos 80 e 90. Entremos naquelas matérias nas que a
etimologia é fundamental para saber, perceber o compreender a
relação entre significante e significado. Entremos no mundo da
física...por entrar em qualquer campo científico e léxico que nos
vá servir de exemplo:
Segundo os critérios de
uso da estética galaica-oriental, astur-leonesa ou castelhanizante a
palavra que designa o elemento químico de símbolo O, número
atómico 8 (por ter 8 prótons e 8 elétrons) como massa atómica 16
u. Na sua forma molecular, O2, é um gás a temperatura
ambiente, incolor (azul em estado líquido), sólido, insípido,
inodoro, comburente,, não combustível e pouco solúvel em água.
Representa aproximadamente 20% da composição da atmosfera
terrestre. É um dos elementos mais importantes da química orgânica,
participando de maneira relevante no ciclo energético dos seres
vivos, sendo essencial na respiração celular dos organismos
aeróbicos. Esse é o que no português padrão é denominado com o
nome de OXIGÊNIO. A sua etimologia cunhada em 1778 por A.Lavoisier leva-nos a observar como está escrito, composto por “OXI-”
(sufixo relacionado com os ácidos) e “-GÊNIO” (de GENOS:
origem) e pelo qual deduzimos o seu significado: “Aquilo que produz
ácidos”.[oxy- ὀξύς gr. 'ácido' + gen- γεν-
gr. cient. 'que origina' ]
Vejamos por outra parte o
que aconteceria se usamos a terminologia que nos propõe a RAG:
OSIXENO. Vemos igualmente que está composto por “OSI-” (não
OXI-) e por “XENOS” (não GENOS). O prefixo OSI usa-se para
nomear os açúcares e XENOS é uma palavra de origem grego que
significa “estrangeiro”, “de fora”... Portanto OSIXENO
significa “Açúcar de fora” ou “Açúcar estrangeiro”. Como
vemos, nada a ver com o que quer significar numa linguagem científica
e técnica inutilizando o uso da nossa língua para usos de alto
nível científico.
O que em português
padrão denominamos EXOGENO, quer dizer, EXO+ GENOS (originado no
exterior). [éxo ἔξω gr. 'por fora' + -gen(e)- -γενής gr.
'originado em' + -o/-a], na norma RAG passa-se a ser ESÓXENO, de
ESO+XENO (Estrangeiro de dentro). Isto é um significado que não tem
sentido.. Simplesmente a esta palavra escrita é um conjunto de letras que
reproduzem um som sem significado real
Contrariamente a forma
“ENDOGENO” que etimologicamente significa “nascido na casa”
ou “originado dentro” do grego ἐνδογενής [endo- ἐνδο-
gr. 'dentro' + -gen(e)- -γενής gr. 'originado em' + -o/a]
passa-se a ENDOXENO. Os gregos denominavam ἐνδογενής
(endoguenés) os escravos nascidos dentro do âmbito familiar mas De Candolle em 1813 deu-lhe um significado que tinha a ver com a
botânica referido ao crescimento do tronco duma planta. Se a palavra
a transcrevemos segundo a moda RAG dá-nos ENDOXENO com um
significado absurdo: “estrangeiro da casa” ou “forasteiro de
dentro” [endo- ἐνδο- gr. 'dentro' + -xeno- gr.ξένος gr.
'estranho, forasteiro' + -o/-a']
Mais cousas:
A dependência do
galaico-oriental na sua versão castelhana é tão cega que mesmo se
incluem formas léxicas que resultariam quase palavrões de péssimo
gosto se fossem escolhidas para outra língua que cuidasse a sua
dignidade. Tais são os casos de “EMOTICONA”, “ICONA”,
“SILICONA”, ou “CONO”. Evidentemente em castelhano não são
mal soantes: “EMOTICONO”, “ICONO”, “SILICONA” ou “CONO”
nem também não são no padrão português: “EMOTICON”, “ÍCONE”,
“SILICONE” ou “CONE”
Como muitas vezes nos tem
comentado o Professor Doutor Carlos Garrido, formas como COBRA também estão tocadas pelo absurdo e a incoerência linguística.
Originariamente esta palavra é galego-portuguesa designando todo
tipo de ofídios, proveniente da palavra latina “COLUBRA” que em
castelhano origina a forma “Culebra”. Foram os portugueses nas
suas navegações que chegaram a África e ao Sul da Ásia onde
conheceram um grupo especial de serpentes com um capuz na cabeça o qual
abrem quando estão irritadas ou em perigo. A esse grupo de répteis
denominaram-nos de “Cobra-de-Capelo”* (Capelo é o capuz que usam
os frades) devido à prolongação das suas costelas por baixo da
cabeça que lhes dá um aspeto mais ameaçador. O nome que foi dado
pelos portugueses a estas serpes serviu de empréstimo para um
importante número de línguas, entre elas o castelhano... Neste caso
os responsáveis de lhe darem um nome desde um escritório a este
grupo de répteis optaram por rechaçar a solução portuguesa, que
seria perfeitamente válida por ser COBRA e CAPELO formas lexicais
existentes na Galiza e optaram pela forma “COBRA DA ÍNDIA... mas
o mau dos inventos de laboratório é que nunca acertam, por isso
quem quiser falar das cobras da índia em Zimbabué teria dificuldade
para clarificar se estes foram serpes de origem indiano deslocados até
o Sul da África ou é que esse país africano é uma colónia da
União Indiana onde colonizaram com fauna alótona....
...e poderíamos continuar....
* A solução indo-ariana existente nas
línguas indianas é o de Naja ou Naga, cognato do Snake inglês ou
do Germânico antigo Sneka originado no proto-indoeuropeu Snego.
Segundo a mitologia
celta, o Ostara é o seguinte passo dos oito no que se representa a
energia em constante mudança da natureza. É a festa do começo da
primavera.
A Quaresma é a etapa
prévia e “interim” entre o Carnaval e a Páscoa. Esta última o
ponto de inflexão no que a natureza dá flor e fruto. Em total são
sete semanas de sete dias cada uma menos a primeira que tem cinco,
pois os dous primeiros dias da primeira semana são a segunda-feira e
a terça-feira de Entrudo. Estas sete semanas são, segundo a
tradição galega sete irmãs cujos nomes são: Ana, Rabana, Rebeca,
Susana.....ainda que aqui a informação que recolhemos nos leva a
dous nomes masculinos na quinta e sexta "irmã"...Lázaro e Ramos... A última irmã é a
Páscoa. O cristianismo fez o seu trabalho...
De entre essas irmãs,
a primeira é coxa. Essa eiva faz-nos
lembrar a lenda da Ana Manana da mitologia ourensana (4). A quarta e
a quinta representam dous nomes masculinos embora sejam “irmãs”.
Talvez a figura de Lázaro (amigo de Jesus de Nazaré...) nos possa
dar uma pista pensando que ele tinha duas irmãs: Marta e Maria. Esta
última é a Maria de Betânia que segundo alguns textos apócrifos
se corresponde com a Maria de Magdala, ou a Madalena.... A figura das
sete irmãs é uma constante mitológica europeia e nomeadamente
céltica que as identifica com as Plêiadas mas também com as lendas
galegas da galinha com os sete pintinhos.
Essa quinta semana após
o Entrudo e duas antes do domingo de ressurreição, a do São Lázaro
é uma festa grande em Ourense. O ritual tradicional leva à queima
dos “madamitos”, duas figuras de cartão ou papel atados a uma
roda igualmente combustível que representa a roda da vida com o
ritmo acelerado das estações. Representam a renovação da natureza
e a entrada da primavera. Não é casual que o 25 de Março seja o
dia da anunciação, dia no que o arcanjo Gabriel diz a Maria, mãe
de Jesus, que ela vai ficar grávida do Espírito Santo. É o anuncio
do nascimento de Jesus nove meses antes de este acontecer o 25 de Dezembro.
A Semana Santa é a
parte final do Ostara no que o objetivo é a renovação da natureza.
A morte e a ressurreição.
Quando chegou o
cristianismo a Europa, este adoptou as datas do Ostara como o nome de
Páscoa nos países católicos relacionando igualmente essa tradição
regeneradora da natureza com a figura de Jesus de Nazaré. Conta-nos
André Pena (Pena Granha: 1991) que os nossos antepassados celtas
acreditavam no mito de Esus, deus com caraterísticas solares que com
o seu machado cortou o madeiro da Árvore da Vida (o Hy-Brasil ou
Yggdrasyl) no que sofreria o seu próprio tormento voluntário e
posterior morte, sendo alanceado no coração com o fim de fazer
prosperar a terra e fazer com que a vida florescesse ao ressuscitar e
se proclamar rei, retornando ao mundo dos vivos proveniente do Além
como vencedor da morte.
Não há que fazer
muito esforço para reconhecer nessa lenda céltica ao Jesus cristão,
numa morte igualmente voluntária em forma e fundo e um renascer se
calhar com mais força da figura solar em questão.
5. Os Maios
O começo do verão
para os celtas é o 1 de maio, data do Beltane ou Beltaine (o bom
lume). Nesta data é quando a estação muda para dar passo ao tempo
do calor, da luz, das atividades exteriores. Quando os nossos
antepassados celebravam a presença do fruto da terra, da limpeza e
da purificação da mesma com fogueiras nos outeiros. Para os celtas,
segundo alguns autores (Pena Granha 1991: 384), o lume é um agente
de limpeza (Cf. Green, M 1999, 1995:52), daí o “Ignis/Agnis dei
tollis pecata mundi” que faz do fogo um elemento dador de vida,
de saúde, purificador e regenerador.
O costume era acender
uns fachicos de lume e passeá-los durante a noite pelos campos de
cereal para purificar as colheitas e livrar-se das parasitas.
Em muitos lugares da
Europa existe a tradição da árvore de maio que consiste em chantar
uma árvore no meio da vila adornada de motivos vegetais e alimentos.
Na Galiza igualmente se adorna de flores, bolos, roscas, chouriços e
outros elementos naturais e alimentícios. Isto acontecia até há
pouco tempo em alguns lugares da região de Ourense como nas Comarcas
da Quarquérnia ou Baixa Lima e a do Tâmega ou Monte Rei-Verim.
Pendurava-se igualmente um homem de palha ao que chamavam “Maio”
e ali ficava todo o mês. Ao final queimava-se.
No filme “The mists
of Avalon” podemos comprovar como era o ritual do Beltaine. Uma
festa de fertilidade da terra e também dos humanos nos que entre os
membros da comunidade se escolhiam um rapaz e uma rapariga jovens aos
quais se lhe propiciava um encontro sexual para favorecer a
prosperidade da comunidade. Deles dependia a felicidade do povo que
por meio desse ritual mágico pedia à terra fartura para os seus.
Nas últimas décadas e após quase séculos de cristianismo, a
ritualização não era assim mas sim é que se escolhiam um rapaz ou
uma rapariga aos que se cobria de flores ou motivos vegetais.
No
entanto, podemos achar um par, rapaz e rapariga em Laça, Comarca do
Tâmega-Verim numa festividade celebrada o dia 3 de maio e a quem se
lhes dava o nome de Adão e Eva. O ritual não era propiciar,
evidentemente um encontro sexual, embora descubramos uma similitude
com a feição originária. O nascer aos sentidos, ao mundo da
fecundidade é evidente, como também o é o costume de os moços
porem giestas ou codessos nas portas das casas das raparigas com uma
intencionalidade amorosa e portanto procriadora.
Na capital da Região
ourensana existe ainda em pleno século XXI a tradição da
construção do Maio, uma figura de madeira, de forma cónica ou
piramidal coberta de musgo e carraboujos (5) que representam
igualmente o florescer da natureza e talvez memória da árvore de
maio espalhada por toda a Europa. Após concorrência entre elas
acabam sendo queimadas no ritual de lume típico destas datas. É
muito típico também cantar as Coplas dos Maios, versos satíricos e
mesmo de Maldizer que criticam a vida política local. Existe
memória, seguindo um “modus operandi” similar a épocas
Samânicas, de irem os jovens de porta em porta pedindo os “maios”
ou “maiolas” que são castanhas secas ou nozes (VVAA: 1979).
Igualmente se estas não se recebem como se aguarda, as coplas de
crítica acabam aplicando-se como em outra festividades do ano.
6. O Solstício de
Verão
Corresponde-se no
calendário cristão com as festas do São João, prévio Córpus
Christi. Na festividade anterior ao solstício salientamos as figuras
dos dragões, imagens míticas próprias da mitologia indo-europeia e
céltica, que sobrevivem em algumas localidades galegas e portuguesas
ligando estas datas juninas com um paganismo reconhecível. São a
Coca de Ponte Areias e a Tarasca de Monção no Córpus Christi que a
dia de hoje é festa local em Ourense transladada durante o século
XX para este 10 de Junho proveniente do originário 16 de Agosto, dia
de São Roque.
No que diz respeito do
São João, em 24 de Junho e polar do Natal, temos a festa da luz,
que traz consigo uma serie de tradições acrescentadas, como a da
recolha de determinadas plantas que baseiam a sua utilidade em favor
da saúde, da beleza e da juventude. Estas ervas são a Erva de São
João, a Calêndula, a Arruda, o Alecrim, a Malva e outras que se
deixam no exterior da casa durante a noite e que têm origens em
épocas ancestrais em que a curação das pessoas dependia dos
remédios que a natureza fornecia no seu máximo ponto de expansão e
florescimento. As plantas medicinais seriam mergulhadas em água,
seguindo a tradição, devendo se lavar a gente nessa mescla para
favorecer o equilíbrio psico-físico e ainda a fertilidade.
As fogueiras são outro
dos elementos desta época, dando-lhe ao lume mais uma vez a
importância de elemento regenerador, fornecedor de pureza, de
limpeza e de proteção contra os elementos nocivos que impedem a
prosperidade da terra e dos seres humanos. O mal afasta-se dançando
ao redor das labaredas e queimando velhos tarecos para proteger dos
maus espíritos do passado e das más artes da bruxaria. O lume faz
fugir os dragões ocultos nas entranhas da terra e a roda de São
João ao redor das fogueiras representa o rodar do Sol pelo
firmamento. De manhã quando o Sol faz a sua aparição no horizonte
também dança marcando o seu ponto máximo de presença durante as
horas do dia.
Quando a festa estão
no seu ponto mais alto, a gente salta acima do lume três vezes para
limpar-se a si próprios e também para limpar os seus animais que
sendo levados pelos seus donos purificam os seus corpos para se
livrarem de todo meigalho ou bruxedo que os possa fazer adoecer ou
impedir o seu aproveitamento pelo ser humano.
Típica também é a
queimada feita com aguardente, açúcar e pedaços de fruta, símil
das beberagens que os antigos magos de antanho elaboravam para
ritualizarem a sua magia, tão perseguida e condenada pela igreja no
transcurso da história. Como contrapartida, a própria igreja usava
também o fogo para se livrar dos malfadados bruxos em autos de fé
nos que não só ardiam pessoas mas também interessantes
conhecimentos e saber ancestral.
Estes rituais ainda conservados na
atualidade sem muita variação foram cristianizados na honra da
figura de São João, mas nunca perdendo o seu sentido de festa
solsticial. A sua ancestralidade está fora de toda dúvida e do
nosso ponto de vista não nos cabe dúvida da sua vinculação a
festividades célticas pré-cristãs.
7. O Ciclo do
Verão
É a celebrada nos começos de Agosto. Festa de Lugh,
o deus Sol. Para os antigos celtas época de festas, tempo de
trabalho agrário mas também de felicidade, começo da época da
colheita, de maturação dos produtos agrícolas, de reuniões
familiares, competições, feiras, época para legislar, para
impartir justiça e sobre tudo de bodas. Na Galiza tradicional tem
sido assim tradicionalmente.
Nas datas atuais do 25
de Julho celebra-se uma festa solar, a do São Tiago, figura cristã
que veio substituir provavelmente à imagem do Lugh galaico. São
datas que servem para honrar à terra, neste caso à Nossa Terra que
em Ourense tem a sua manifestação nas festas da Ponte. Do mesmo
jeito, o São Roque, festa histórica da cidade até o século XX, é
datada em 16 de Agosto, dia seguinte dum 15 de agosto festivo em
todas as localidades galegas no que se rende culto à terra. A velha
Cailleach céltica, a mãe, a que dá sustento, a que protege aparece
ao redor do antigo Lughnasad ou Lugunástada, a época das bodas de
Lugh celebrada em 1 de Agosto, momento de agradecer aos espíritos,
aos deuses e aos santos com oferendas e celebrações. A fartura e a
prosperidade estão presentes porque a natureza, a terra, a velha
Cailleach nos fornece dela.
Essa festa, conhecida e
atendida por alguns seguidores atuais da religião primigénia,
representa a abertura do Portal do Leão, que abre as portas da
elevação espiritual, do crescimento, do progresso, do aparecimento
de Sírio no céu do hemisfério Norte. A coerência das datas dá-nos
para descobrirmos que a festividade correspondente de Novembro, o
nosso Magusto, é a abertura do Portal do Além ou do Sidh, que
datamos em 11 de Novembro do calendário gregoriano, mas no 1 de Novembro do calendário juliano. O 11 de Novembro atual e o 1 de Novembro anterior a 1582 estão no mesmo ponto do trânsito solar
visto astronomicamente. Igualmente, podemos afirmar que o 11 de Agosto gregoriano, data em que podemos ver as chamadas lágrimas de
São Lourenço se corresponde com o velho 1 de Agosto juliano.
Tradicionalmente o Sol é denominado de Lourenço pela cultura
popular galaica o que nos leva a deduzir que há um Lugh oculto
detrás destas datas e deste nome. Evidenciamos portanto uma
cristianização duma tradição céltica, ancestral e pagã.
8. A Colheita
Não é um festival
como os anteriormente relatados, percebido como uma grande
manifestação festiva na que participam multidão de pessoas mas uma
festa a celebrar em família. O nome com a que se a conhece
ultimamente é o de Mabon embora esse nome não seja tradicional mas
um neologismo criado pelo reconstrucionismo celta de épocas
contemporâneas. É uma das festas pagãs mais antigas e comuns de
toda a humanidade que no mundo celta se celebrava na lua cheia mais
próxima ao equinócio de outono. Tem correlatos por todo o mundo e
em diversas culturas e civilizações sendo a do mundo anglo-saxônico
a que sobrevive com o nome de “Thaksgiving”.
Contava-nos há muitos
anos o velho galeguista e quarquerno (6), antigo professor nosso no
ensino secundário, o Professor Joaquim Lourenço “Xocas”, que na
Idade Média os camponeses acreditavam na existência do espírito
nos produtos agrícolas e nomeadamente nos cereais. Nestas datas após
a colheita faziam um pequeno boneco com o último feixe de trigo ou
centeio o qual teoricamente guardava o espírito do produto. Este
boneco era levado à comida onde permanecia sentado ao lado de todos
até o final da mesma, momento em que era guardado até o ano
seguinte que era quando se queimava e se fazia um novo.
Estas crenças não
eram muito queridas pela igreja, por isso não se mantiveram até a
atualidade mas na memória de quem isto escreve está a festividade
da vindima no Ourense dos anos 70 do século XX, época de festa
familiar, de comida em conjunto entre todos os que festejávamos a
recolhida da uva nos começos do outono. O vinho e a vindima foram
desde há séculos motivo de festas na velha Áuria mas provavelmente
antes de que o vinho estivesse presente nesta cidade, desde a que
escrevemos, haveria celebrações relacionadas com a colheita
correspondente e tradicional dos produtos que naquela altura eram os
comuns. Talvez a maçã que se recolhe em datas outoniças para fazer
aquela tradicional cidra que cedeu à pressão do vinho que a dia de
hoje dá personalidade às terras de Ourense...???
É esta a última
celebração da roda das estações, a festa da Colheita, da
recolhida dos frutos e da ação de graças à natureza pelos bens
fornecidos pela terra para assegurar os futuros meses de inverno.
Coincide com o começo do outono e o costume histórico de celebrar
um jantar familiar para agradecer a fartura, abençoar a casa e
arranjar aquelas cousas necessárias para se proteger no inverno. É
época de preparação para a vida no interior da morada. O frio está
próximo e o calor do fogar há de ser o lugar central ao redor do
qual se vai desenvolver a vida familiar. O Sol decai e a roda fica
preparada para começar de novo quando o ano acabe a final de
Outubro. A lua cheia que dá passagem à abertura do Portal do Além
marca o final do velho ano e o começo do ano novo. Feliz ano novo.
Lá em tempos remotos,
um dos muitos galegos que iam à sega de Castela, ao vir de volta
para a sua casa, achou no caminho um senhor muito bem vestido que lhe
perguntou donde era. O segador respondeu-lhe que era de Ourense.
E diga-me, Sr.,
Vc sabe algo ou conhece onde está o Poço Meimão?
Se, sim Sr;
sempre que vou a Ourense para pagar a renda ou levar alguma cousa
para vender passo-lhe por ali. É um poço do Rio Minho...
Então o Sr
entregou-lhe ao aldeão um queijo que tinha quatro cantos e
disse-lhe:
O Sr quer ser
rico?
Eu como querer,
quero, sim; mas que hei de fazer para consegui-lo?
Pois, olha
–disse-lhe o desconhecido-. Não tem que fazer mais do que ir ao
Meimão e quando chegar lá ao lado duma pequena fonte que há
entre umas penas, ao lado do caminho, grita: “Ana Manana! Ana
Manana!”; e à terceira vez vai aparecer-se-lhe uma mulher muito
formosa. Vc tem de lhe dar este queijo e ela é que lhe vai
entregar um rico tesouro que tem lá escondido.
O labrego acariciou a
cabeça pensando. Finalmente, olhando para o Sr, perguntou-lhe:
E não tenho de
fazer mais cousa alguma?
Tem também que
guardar o segredo sem dizer a ninguém a encomenda que leva, nem
sequer à sua esposa. E deve ter muito cuidado com o queijo, porque
hás de o entregar inteiro; porque se não, pode trazer uma
desgraça.
Isso tudo não é
muito difícil de fazer.
Pois tome o
queijo e lembre bem o que acabamos de falar.
Entregou-lhe o queijo e
ainda não o tinha apanhado o aldeão, quando o Sr que lho deu
desapareceu sem saber como.
O bom do paisano
continuou o seu caminho rumo da sua morada depois de guardar o queijo
dentro dum lenço que atou pelos quatro cantos. Pensando com alegria
na possibilidade de enriquecer-se com o que a dama poderia dar-lhe do
seu tesouro do Meimão e um bocado preocupado porque o queijo não se
estragasse ou por se pudesse achar no caminho alguém que lhe
perguntasse que era aquilo que levava tão envolto sem saber que lhe
dizer. Mas antes de se acercar ao Meimão, foi à sua casa para
dizer-lhe à sua mulher que já tinha chegado de Castela e deixar o
dinheiro que ganhou lá, na sega, pois não queria andar com ele
guardado por aqueles lugares.
Mas muitas pessoas são
muito curiosas, e a sua mulher no momento em que viu o pacote que
levava o seu marido perguntou que era o que ele trazia.
É uma encomenda,
uma cousa que tenho de entregar. Não vá ser o demo que lhe
toques! –e subiu ao sobrado para guardar o dinheiro.
Mas a mulher aproveitou
aquele momento para olhar que é o que havia no lenço. Quando viu
que era um queijo, apanhou uma faca e cortou um anaco; um de aqueles
cornichos que tinha pensando que ninguém acharia em falta aquilo.
O homem baixou do
sobrado e colheu o queixo envolto no lenço sem pesar no que pôde
ter feito a sua mulher. Saiu caminho do Meimão e apurou porque já
demorava em cumprir a sua encomenda de receber o prémio do tesouro.
Ao chegar à fonte
chamou três vezes: “Ana Manana! Ana Manana! Ana Manana!”
E sentiu um calafrio
quando viu aparecer perto do si uma formosíssima mulher, coberta com
uma linda vestimenta branca que parecia uma santa saída dum altar ou
uma rainha com o rosto dum anjo.
Porque me chamas?
–Perguntou-lhe de mal humor, como se não lhe agradasse que a
tivesse feito sair da sua morada oculta.
É para lhe dar
esta encomenda que um Senhor que não sei quem é me entregou para
Vc. –disse o homem; e pus nas suas mãos o lenço com o queijo.
Ela abriu o lenço e ao
ver o queijo com um cornicho comido disse encolerizada:
Que é que me
trazes cá? Que fizeche? Não che disseram que não tocasses o
queijo? Este era o cavalo que havia de me tirar de este encerro mas
tu não cumpriche a tua encomenda como che disseram. Foche primeiro
à tua morada e a tua mulher comeu uma pata. Que faço eu agora?
E, com efeito, pus o
queijo no chão e imediatamente se converteu num magnífico cavalo
branco com asas, mas sem uma pata.
Olha! Olha!
–disse-lhe com irritação-. Agora tenho que ficar aqui para
sempre entre estes penedos e tu pediche o tesouro que havia de
dar-che. No entanto, pelo serviço que fizeche, toma este refaixo e
põe-lho à tua mulher quando esteja para parir. Não posso dar-lhe
outra cousa.
E desapareceu ela e o
cavalo coxo sem que o pobre homem pudesse ver para onde se tinha ido.
O labrego desesperou-se
cavilando no mal que a sua mulher tinha feito, tanto à Senhora como
a eles mesmos. Bem merecia um bom enfado. Mas como estava na última
parte da gravidez, tentou calmar-se pois não era cousa de se expor a
um mal maior e bufando dirigiu-se para a sua morada com resignação;
mas lembrando-se do refaixo, ocorreu-se-lhe envolvê-lo numa sobreira
que por ali havia para ver como era. Ah! Pobre da sua mulher se o
tivesse vestido! Ainda não lhe tinha dado a última volta quando a
árvore e o refaixo arderam numa rápida e violenta labareda.
E desde aquela altura a
fonte do Poço Meimão, no Rio Minho de Ourense é chamado “A Fonte
de Ana Manana”.
(5) O carraboujo é o
bugalho de carvalho, grande, redondo e com picos.
(6) Quarquerno é o
nativo da Comarca da Querquérnia ou Baixa Lima
Bibliografia:
VVAA. Dirigidos
por Otero Pedrayo, Ramón: História de Galiza.
III Tomos. Tomo I. Etnografia. Cultura espiritual de Vicente Risco.
Akal Editor. Madrid.1979