quinta-feira, 27 de março de 2014

Crónica do Roteiro por Chaves



Por Sandra Pinho
No dia 15 de março, a entrada do Forte de São Francisco – Chaves, com os seus canhões imponentes e a estátua do General Silveira, serviu de ponto de encontro para mais um roteiro do Desperta do Teu Sono (DTS).
Pela mão de Luís Carvalho, professor de história numa das escolas da cidade, um grupo de “Despertos” percorreu as ruas da cidade viajando no tempo em fraterno e alegre convívio.
A aventura começou no interior do Forte que hoje alberga um hotel mas em tempos idos foi Convento Franciscano. Ao longo da história serviu, durante as invasões francesas, de quartel-general das tropas invasoras, abrigou o 10º batalhão de caçadores e os “retornados” das ex-colónias portuguesas em África. Dentro deste monumento encontra-se a Igreja de N. a S. do Rosário, inicialmente capela, construída no século XVII pelos frades da Ordem de São Francisco.
Esta Igreja é constituída por uma só nave com capela-mor e para além da sua beleza ainda guarda dois mistérios. Um, descobre-se entrando por uma pequena porta disfarçada no altar-mor que nos faz recuar no tempo e perceber como esta preciosidade foi construída.
Um emaranhado de pedaços de madeira de vários formatos sustenta a estrutura do altar e uma escada estreita e muito inclinada leva o visitante até ao topo onde uma portinhola permite vislumbrar o interior da igreja. O outro, descobre-se levantando um alçapão que esconde a entrada do misterioso túnel que, dizem os entendidos, liga vários monumentos em Chaves e serviria de rota de fuga em caso de ataque.
O Largo General Silveira, antigo Jardim das Freiras, foi local de paragem do grupo para poderem apreciar a beleza arquitetónica de alguns edifícios, nomeadamente a Biblioteca Municipal, os Correios e a Escola Secundária Fernão de Magalhães, antigo convento.
A Rua da Trindade ou Ladeira da Trindade, como é mais conhecida, levou-os até à Praça da República. No nº17 desta rua está situado o edifício Polis, que em tempos foi a cadeia de Chaves, e onde actualmente funciona o gabinete de apoio técnico da Eurocidade Chaves-Verín. Na Praça da República, que terá sido cemitério em tempos que já lá vão, está hoje um pelourinho do século XX constituído por cinco escadas, um pedestal e, no cimo, um capitel que exibe a esfera armilar e o brasão do município. 

Nestas andanças a manhã passou e o estômago anunciou a hora do almoço, jantar por estas bandas que almoço é a primeira refeição do dia. O retemperar de energias e a partilha de saberes realizou-se na companhia de vitela assada no forno regada com vinho tinto nacional e para alguns água, também nacional.
As varandas em madeira, avançadas sobre as ruas para rentabilizar o espaço das habitações e pintadas com tons garridos são típicas das casas desta cidade. Na Idade Média, Chaves estava rodeada de muralhas, no interior das quais a população vivia em ruas estreitas e em pequenas casas de vários pisos. A Rua Direita ilustra muito bem esta época da história da cidade. O grupo de “despertos” foi surpreendido ao longo desta rua com pormenores nas varandas, nas janelas, nos brasões e mesmo no interior de algumas casas (uma sapataria com o tecto original da capela que ali existiu).
De estômago em paz era hora de visitar a Torre de Menagem, os seus jardins e o museu militar. A Torre e a muralha que envolve os jardins são o que resta do antigo castelo de Chaves, destruído no século XIII, e reconstruído no século seguinte por D. Dinis. O castelo, situado no ponto mais alto da cidadela medieval, evoluiu, possivelmente, de uma edificação romana.
A Torre apresenta seteiras estreitas nas suas paredes, ameias no topo e nela está instalado desde 1978 o museu militar. Este museu contém, ao longo de quatro pisos, uma exposição de armas, uniformes, plantas militares, bandeiras e troféus desde a Idade Média até à actualidade. No topo da Torre, o visitante saboreia uma vista magnífica da cidade aos pés da Serra do Brunheiro e rendilhada pelo brilho do Rio Tâmega.
Os “Despertos”, já em ritmo mais lento, seguem para o Museu da Região Flaviense (Núcleo de Arqueologia e de Pré-História).
Este museu fica situado na Praça de Camões tal como os Paços do Concelho, a Igreja Matriz, a Igreja da Misericórdia e a estátua de bronze de D. Afonso, conde de Barcelos. O edifício onde estão instalados os Paços do Concelho foi construído em meados do século XIX, o seu interior foi remodelado em 1980 com o objectivo de aumentar a sua funcionalidade. O Museu da Região Flaviense situa-se no Paço dos Duques de Bragança. Este edifício foi construído no século XV como residência de D. Afonso I, duque de Bragança. O seu aspeto atual data do século XVIII, época em que serviu como quartel do batalhão de Caçadores.
O acervo arqueológico do museu vai desde o IIIº milénio a. C. e o período correspondente à Romanização, nomeadamente, o que se refere à metalurgia pré-romana, estatuária da idade do bronze e vestígios da pré-história até à proto-história. Entre as peças de origem romana destaca-se o Padrão dos Povos, uma pedra com uma inscrição descoberta em 1980 no leito do rio Tâmega. A réplica deste padrão encontra-se na ponte de Trajano.

A Igreja de Santa Maria Maior, Igreja Matriz, foi, provavelmente, construída no século XII sobre escombros de edificações anteriores. Foi ali, como figura no indicativo, onde os suevos prenderam ao historiador Hidácio Lémico e o levaram ao cárcere.
A torre sineira, o pórtico e imagens de Cristo e de Santa Maria são do estilo românico, o restante conjunto é renascentista. Esta igreja tem três naves separadas por colunas de granito cilíndricas unidas por arcos de volta inteira. A Igreja da Misericórdia é considerada por muitos como a mais bela da cidade de Chaves.
Esta igreja é do estilo barroco, foi construída no século XVII. A sua fachada está decorada com pilastras e janelas, o interior, de uma só nave, tem as paredes inteiramente revestidas de azulejos do séc. XVIII, ilustrando cenas bíblicas. O tecto é de madeira pintada tendo representada a cena da Visitação e o altar é de talha dourada. Não foi possível visitar o interior desta Igreja porque estava a decorrer uma cerimónia litúrgica.
Os visitantes e o seu guia continuaram este périplo em direcção às Termas ou Caldas mas fizeram uma breve paragem no “João Padeiro” para comparem pastéis de Chaves e folar. Nas termas brotam águas a 73ºC, de composição química bicarbonatada, sódica e gasocarbónicas. Estas águas têm tradição milenar na cura de afecções músculo-esqueléticas, do aparelho digestivo e respiratórias. Aproveitando esta tradição houve alguns dos “Despertos” que saborearam estas águas na Fonte do Povo com a esperança de irem destas terras mais saudáveis. Outros houve que preferiram deleitar-se com uns “panaches” e tremoços numa esplanada, aproveitando para descansar.
Após o descanso dos “guerreiros” a batalha pela cultura continua na outra margem do Rio Tâmega. Aqui encontra-se o Jardim Público, o mais antigo espaço verde da cidade. Antes de ser transformado em jardim público, no princípio do século XX, era propriedade privada, tendo sido doado à população pelo banqueiro Cândido Sotto Mayor.
A Ponte de Trajano, conhecida como ponte romana, foi edificada sobre o rio Tâmega, entre finais do séc. I princípios do séc. II DC e concluída no tempo do imperador Trajano. Esta Ponte, em granito, tem cerca de 150 metros de comprimento e assenta sobre arcos de volta perfeita. Doze arcos são visíveis e há mais seis soterrados de um e de outro lado. A meio da ponte erguem-se duas colunas, a montante e a jusante, com inscrições que invocam os nomes dos imperadores Trajano, Vespasiano Augusto e Tito Vespasiano, e as populações que contribuíram para a sua construção.
A noite já estava instalada e a lua brilhava por cima do belo e exuberante zimbório da Igreja de São João de Deus. Chegara a hora das despedidas para alguns e para outros a hora do jantar, ceia por estas terras.
Algum cansaço, muito boa disposição, partilha de ideias e uma bela posta de bacalhau com batata a murro fizeram as delícias dos resistentes deste dia em que se tentaram edificar pontes de cultura entre pessoas que querem despertar do seu sono.
 

segunda-feira, 3 de março de 2014

As Etimologias



Por José Manuel Barbosa


Não vos assusteis. A minha intenção não é plagiar ao Isidorus Hispalensis, nem também não é fazer um livro do tamanho dum incunábulo onde apareça todo o conhecimento existente. Tenho de reconhecer as minhas limitações no que diz respeito de tamanha façanha... Simplesmente quero com este artigo fazer chegar ao leitor ou pelo menos ajudá-lo a que tenha uma certa intuição a respeito da importância da etimologia no estudo da língua e no reconhecimento das formas que compõem o corpo léxical da mesma.... essa que chamamos galego mas que pelo mundo é conhecida e reconhecida com o nome de português.


Muito tenho ouvido por aí a frase tão sovada de que “o galego, como o castelhano, são escritos como se falam”. Não sei se muita gente tem consciência de que a língua é fundamentalmente oral e representarmos algo que entra pelos ouvidos de forma que também entre pelos olhos é total e absolutamente convencional. Lembremos que a escritura cuneiforme dos assírios, os hieróglifos dos antigos egípcios e os logogramas chineses também representam de forma visual a fala das pessoas e nada tem a ver a imagem sonora com a visual... Com os logogramas chineses podem se comunicarem muitos utentes que pela fala nunca seriam capazes de se entenderem por causa da diversidade do que chamamos chinês, que em realidade são uns treze idiomas diferentes. Todos eles compreensíveis entre si pela escrita mas em muitos casos ininteligíveis pela fala.
Dentro do nosso mundo de grafia latina também há diferenças entre as diversas línguas da Europa. Em inglês o “Whom” reproduziriam-no os castelhanos como “Jum” e nós poderíamos grafá-lo “Ghum”... Um ocitano que escreve “Chu” vê essa palavra deformada se a reproduzirmos como fazem os francofonos em “Tchou” e a forma castelhana “cincuenta” seria grafada por um anglo-parlante como “thinkwenta”...


Vemos, portanto que as grafias são convencionais e mesmo poderíamos usar quaisquer delas. As línguas poderiam estar representadas em cirílico, em grafia grega demótica, com as letras árabes.... -como se representava o aragonês medieval que recebia o nome de Al-Khamiado-, e nunca deixariam de ser as línguas que identificamos perfeitamente pronunciando-se da mesma forma.

Texto em castelhano al-khamiado (com grafia árabe) do Mancebo de Arévalo. S. XVI


Centremos mais o tema. Vamos nos centrarmos nesta nossa língua que a maior parte da gente na Galiza denomina de galego mas que qualquer pessoa de qualquer país do mundo que nos escute falar, imediatamente a identifica como uma forma de português.



Neste caso poderíamos representar a nossa fala igualmente com qualquer grafia: chinesa, arménia, hebraica ou até com o alfabeto fenício se fosse a nossa vontade mas qualquer linguista sabe que o romanço hespérico-ocidental é uma língua neolatina e portanto, por origem, tradição histórica e evolução da língua deve escrever-se com ortografia latina. Dentro do conjunto das línguas que se escrevem com ortografia latina incluímos a maior parte das línguas da Europa: as línguas germânicas, as latinas propriamente ditas (durante uma época o moldavo, variante do romeno escrevia-se com o alfabeto cirílico russo...), as bálticas, algumas línguas eslavas, as célticas, o húngaro, finlandês, basco, etc...
Em verde países onde se usa o alfabeto latino. o verde mais claro usa-se juntamente com outros alfabetos como o árabe no caso dos países africanos e o devánagari na Índia e Paquistão.
Todas elas foram de uma forma ou de outra herdeiras da cultura surgida do Império Romano e todas elas participaram do cristianismo, católico ou protestante, surgido em todo o caso dentro dos âmbitos políticos, territoriais, legais e filosóficos da Roma imperial. Evidentemente de todas essas famílias linguísticas, aquela da qual fazemos parte de forma direta é a latina e dentro das línguas latinas o nosso âmbito é o hespérico ou hispânico onde originariamente e segundo acreditamos havia dous blocos no norte cristão medieval: Um ocidental conformando as falas do Gallaeciense Regnum, quer dizer o galaico, em palavras de Rodrigues Lapa, protogalaico, em palavras de Carvalho Calero ou língua galaico-asturiana segundo Eugeniu Coșeriu; e um hespérico oriental que abrangia territórios linguísticos citeriores (de Hispânia Citerior) em relação parental estreita com o romanço gaulês. Das falas galaicas surgem duas polas segundo nos diz Carvalho Calero: o galaico ocidental ou galego-português e o galaico oriental ou asturo-leonês. Nós pertencemos ao galaico ocidental entanto o castelhano está incluído no segundo, no galaico oriental, sendo a variante mais extrema pelo Leste em contato com as falas basconças. Se a identidade da nossa língua é galego-portuguesa deve portanto incluir-se formalmente nesse contexto estético mas as políticas linguísticas das últimas décadas manifestaram uma forte vontade política de incluí-la, forçando a sua história, dentro do galaico-oriental ou asturo-leonês seguindo a estética conformada pela sua variante mais oriental: o castelhano.
Mapa linguístico da Península Ibérica no século X


Como as línguas não podem deixar de ser quem são, igual do que as pessoas, a estética castelhana e galaica-oriental não faz justiça com a nossa língua do ponto de visto gráfico e etimológico como não faria justiça vendo um oriental tocando a gaita galega ou um esquimó num contexto africano... Vejamos alguns exemplos tirados das palestras que o nosso amigo Carlos Garrido ministrava quando organizávamos os cursos de língua lá pelos anos 80 e 90. 
Entremos naquelas matérias nas que a etimologia é fundamental para saber, perceber o compreender a relação entre significante e significado. Entremos no mundo da física...por entrar em qualquer campo científico e léxico que nos vá servir de exemplo:


Segundo os critérios de uso da estética galaica-oriental, astur-leonesa ou castelhanizante a palavra que designa o elemento químico de símbolo O, número atómico 8 (por ter 8 prótons e 8 elétrons) como massa atómica 16 u. Na sua forma molecular, O2, é um gás a temperatura ambiente, incolor (azul em estado líquido), sólido, insípido, inodoro, comburente,, não combustível e pouco solúvel em água. Representa aproximadamente 20% da composição da atmosfera terrestre. É um dos elementos mais importantes da química orgânica, participando de maneira relevante no ciclo energético dos seres vivos, sendo essencial na respiração celular dos organismos aeróbicos. Esse é o que no português padrão é denominado com o nome de OXIGÊNIO. A sua etimologia cunhada em 1778 por A.Lavoisier leva-nos a observar como está escrito, composto por “OXI-” (sufixo relacionado com os ácidos) e “-GÊNIO” (de GENOS: origem) e pelo qual deduzimos o seu significado: “Aquilo que produz ácidos”.[oxy- ὀξύς gr. 'ácido' + gen- γεν- gr. cient. 'que origina' ]

Vejamos por outra parte o que aconteceria se usamos a terminologia que nos propõe a RAG: OSIXENO. Vemos igualmente que está composto por “OSI-” (não OXI-) e por “XENOS” (não GENOS). O prefixo OSI usa-se para nomear os açúcares e XENOS é uma palavra de origem grego que significa “estrangeiro”, “de fora”... Portanto OSIXENO significa “Açúcar de fora” ou “Açúcar estrangeiro”. Como vemos, nada a ver com o que quer significar numa linguagem científica e técnica inutilizando o uso da nossa língua para usos de alto nível científico.

O que em português padrão denominamos EXOGENO, quer dizer, EXO+ GENOS (originado no exterior). [éxo ἔξω gr. 'por fora' + -gen(e)- -γενής gr. 'originado em' + -o/-a], na norma RAG passa-se a ser ESÓXENO, de ESO+XENO (Estrangeiro de dentro). Isto é um significado que não tem sentido.. Simplesmente a esta palavra escrita é um conjunto de letras que reproduzem um som sem significado real



Contrariamente a forma “ENDOGENO” que etimologicamente significa “nascido na casa” ou “originado dentro” do grego ἐνδογενής [endo- ἐνδο- gr. 'dentro' + -gen(e)- -γενής gr. 'originado em' + -o/a] passa-se a ENDOXENO. Os gregos denominavam ἐνδογενής (endoguenés) os escravos nascidos dentro do âmbito familiar mas De Candolle em 1813 deu-lhe um significado que tinha a ver com a botânica referido ao crescimento do tronco duma planta. Se a palavra a transcrevemos segundo a moda RAG dá-nos ENDOXENO com um significado absurdo: “estrangeiro da casa” ou “forasteiro de dentro” [endo- ἐνδο- gr. 'dentro' + -xeno- gr.ξένος gr. 'estranho, forasteiro' + -o/-a']



Mais cousas:

A dependência do galaico-oriental na sua versão castelhana é tão cega que mesmo se incluem formas léxicas que resultariam quase palavrões de péssimo gosto se fossem escolhidas para outra língua que cuidasse a sua dignidade. Tais são os casos de “EMOTICONA”, “ICONA”, “SILICONA”, ou “CONO”. Evidentemente em castelhano não são mal soantes: “EMOTICONO”, “ICONO”, “SILICONA” ou “CONO” nem também não são no padrão português: “EMOTICON”, “ÍCONE”, “SILICONE” ou “CONE



Como muitas vezes nos tem comentado o Professor Doutor Carlos Garrido, formas como COBRA também estão tocadas pelo absurdo e a incoerência linguística. Originariamente esta palavra é galego-portuguesa designando todo tipo de ofídios, proveniente da palavra latina “COLUBRA” que em castelhano origina a forma “Culebra”. Foram os portugueses nas suas navegações que chegaram a África e ao Sul da Ásia onde conheceram um grupo especial de serpentes com um capuz na cabeça o qual abrem quando estão irritadas ou em perigo. A esse grupo de répteis denominaram-nos de “Cobra-de-Capelo”* (Capelo é o capuz que usam os frades) devido à prolongação das suas costelas por baixo da cabeça que lhes dá um aspeto mais ameaçador. O nome que foi dado pelos portugueses a estas serpes serviu de empréstimo para um importante número de línguas, entre elas o castelhano... Neste caso os responsáveis de lhe darem um nome desde um escritório a este grupo de répteis optaram por rechaçar a solução portuguesa, que seria perfeitamente válida por ser COBRA e CAPELO formas lexicais existentes na Galiza e optaram pela forma “COBRA DA ÍNDIA... mas o mau dos inventos de laboratório é que nunca acertam, por isso quem quiser falar das cobras da índia em Zimbabué teria dificuldade para clarificar se estes foram serpes de origem indiano deslocados até o Sul da África ou é que esse país africano é uma colónia da União Indiana onde colonizaram com fauna alótona....



...e poderíamos continuar....



* A solução indo-ariana existente nas línguas indianas é o de Naja ou Naga, cognato do Snake inglês ou do Germânico antigo Sneka originado no proto-indoeuropeu Snego.




segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Sobrevivência da roda das festividades pagãs na Galiza (2ª Parte)



Por José Manuel Barbosa  

 4. O Equinócio de Primavera



Segundo a mitologia celta, o Ostara é o seguinte passo dos oito no que se representa a energia em constante mudança da natureza. É a festa do começo da primavera.



A Quaresma é a etapa prévia e “interim” entre o Carnaval e a Páscoa. Esta última o ponto de inflexão no que a natureza dá flor e fruto. Em total são sete semanas de sete dias cada uma menos a primeira que tem cinco, pois os dous primeiros dias da primeira semana são a segunda-feira e a terça-feira de Entrudo. Estas sete semanas são, segundo a tradição galega sete irmãs cujos nomes são: Ana, Rabana, Rebeca, Susana.....ainda que aqui a informação que recolhemos nos leva a dous nomes masculinos na quinta e sexta "irmã"...Lázaro e Ramos... A última irmã é a Páscoa. O cristianismo fez o seu trabalho...



De entre essas irmãs, a primeira é coxa. Essa eiva faz-nos lembrar a lenda da Ana Manana da mitologia ourensana (4). A quarta e a quinta representam dous nomes masculinos embora sejam “irmãs”. Talvez a figura de Lázaro (amigo de Jesus de Nazaré...) nos possa dar uma pista pensando que ele tinha duas irmãs: Marta e Maria. Esta última é a Maria de Betânia que segundo alguns textos apócrifos se corresponde com a Maria de Magdala, ou a Madalena.... A figura das sete irmãs é uma constante mitológica europeia e nomeadamente céltica que as identifica com as Plêiadas mas também com as lendas galegas da galinha com os sete pintinhos.


Essa quinta semana após o Entrudo e duas antes do domingo de ressurreição, a do São Lázaro é uma festa grande em Ourense. O ritual tradicional leva à queima dos “madamitos”, duas figuras de cartão ou papel atados a uma roda igualmente combustível que representa a roda da vida com o ritmo acelerado das estações. Representam a renovação da natureza e a entrada da primavera. Não é casual que o 25 de Março seja o dia da anunciação, dia no que o arcanjo Gabriel diz a Maria, mãe de Jesus, que ela vai ficar grávida do Espírito Santo. É o anuncio do nascimento de Jesus nove meses antes de este acontecer o 25 de Dezembro.



A Semana Santa é a parte final do Ostara no que o objetivo é a renovação da natureza. A morte e a ressurreição.



Quando chegou o cristianismo a Europa, este adoptou as datas do Ostara como o nome de Páscoa nos países católicos relacionando igualmente essa tradição regeneradora da natureza com a figura de Jesus de Nazaré. Conta-nos André Pena (Pena Granha: 1991) que os nossos antepassados celtas acreditavam no mito de Esus, deus com caraterísticas solares que com o seu machado cortou o madeiro da Árvore da Vida (o Hy-Brasil ou Yggdrasyl) no que sofreria o seu próprio tormento voluntário e posterior morte, sendo alanceado no coração com o fim de fazer prosperar a terra e fazer com que a vida florescesse ao ressuscitar e se proclamar rei, retornando ao mundo dos vivos proveniente do Além como vencedor da morte.



Não há que fazer muito esforço para reconhecer nessa lenda céltica ao Jesus cristão, numa morte igualmente voluntária em forma e fundo e um renascer se calhar com mais força da figura solar em questão.


5. Os Maios 

O começo do verão para os celtas é o 1 de maio, data do Beltane ou Beltaine (o bom lume). Nesta data é quando a estação muda para dar passo ao tempo do calor, da luz, das atividades exteriores. Quando os nossos antepassados celebravam a presença do fruto da terra, da limpeza e da purificação da mesma com fogueiras nos outeiros. Para os celtas, segundo alguns autores (Pena Granha 1991: 384), o lume é um agente de limpeza (Cf. Green, M 1999, 1995:52), daí o “Ignis/Agnis dei tollis pecata mundi” que faz do fogo um elemento dador de vida, de saúde, purificador e regenerador.



O costume era acender uns fachicos de lume e passeá-los durante a noite pelos campos de cereal para purificar as colheitas e livrar-se das parasitas.



Em muitos lugares da Europa existe a tradição da árvore de maio que consiste em chantar uma árvore no meio da vila adornada de motivos vegetais e alimentos. Na Galiza igualmente se adorna de flores, bolos, roscas, chouriços e outros elementos naturais e alimentícios. Isto acontecia até há pouco tempo em alguns lugares da região de Ourense como nas Comarcas da Quarquérnia ou Baixa Lima e a do Tâmega ou Monte Rei-Verim. Pendurava-se igualmente um homem de palha ao que chamavam “Maio” e ali ficava todo o mês. Ao final queimava-se.



No filme “The mists of Avalon” podemos comprovar como era o ritual do Beltaine. Uma festa de fertilidade da terra e também dos humanos nos que entre os membros da comunidade se escolhiam um rapaz e uma rapariga jovens aos quais se lhe propiciava um encontro sexual para favorecer a prosperidade da comunidade. Deles dependia a felicidade do povo que por meio desse ritual mágico pedia à terra fartura para os seus. Nas últimas décadas e após quase séculos de cristianismo, a ritualização não era assim mas sim é que se escolhiam um rapaz ou uma rapariga aos que se cobria de flores ou motivos vegetais. 

No entanto, podemos achar um par, rapaz e rapariga em Laça, Comarca do Tâmega-Verim numa festividade celebrada o dia 3 de maio e a quem se lhes dava o nome de Adão e Eva. O ritual não era propiciar, evidentemente um encontro sexual, embora descubramos uma similitude com a feição originária. O nascer aos sentidos, ao mundo da fecundidade é evidente, como também o é o costume de os moços porem giestas ou codessos nas portas das casas das raparigas com uma intencionalidade amorosa e portanto procriadora.



Na capital da Região ourensana existe ainda em pleno século XXI a tradição da construção do Maio, uma figura de madeira, de forma cónica ou piramidal coberta de musgo e carraboujos (5) que representam igualmente o florescer da natureza e talvez memória da árvore de maio espalhada por toda a Europa. Após concorrência entre elas acabam sendo queimadas no ritual de lume típico destas datas. É muito típico também cantar as Coplas dos Maios, versos satíricos e mesmo de Maldizer que criticam a vida política local. Existe memória, seguindo um “modus operandi” similar a épocas Samânicas, de irem os jovens de porta em porta pedindo os “maios” ou “maiolas” que são castanhas secas ou nozes (VVAA: 1979). Igualmente se estas não se recebem como se aguarda, as coplas de crítica acabam aplicando-se como em outra festividades do ano.

 6. O Solstício de Verão

Corresponde-se no calendário cristão com as festas do São João, prévio Córpus Christi. Na festividade anterior ao solstício salientamos as figuras dos dragões, imagens míticas próprias da mitologia indo-europeia e céltica, que sobrevivem em algumas localidades galegas e portuguesas ligando estas datas juninas com um paganismo reconhecível. São a Coca de Ponte Areias e a Tarasca de Monção no Córpus Christi que a dia de hoje é festa local em Ourense transladada durante o século XX para este 10 de Junho proveniente do originário 16 de Agosto, dia de São Roque.


No que diz respeito do São João, em 24 de Junho e polar do Natal, temos a festa da luz, que traz consigo uma serie de tradições acrescentadas, como a da recolha de determinadas plantas que baseiam a sua utilidade em favor da saúde, da beleza e da juventude. Estas ervas são a Erva de São João, a Calêndula, a Arruda, o Alecrim, a Malva e outras que se deixam no exterior da casa durante a noite e que têm origens em épocas ancestrais em que a curação das pessoas dependia dos remédios que a natureza fornecia no seu máximo ponto de expansão e florescimento. As plantas medicinais seriam mergulhadas em água, seguindo a tradição, devendo se lavar a gente nessa mescla para favorecer o equilíbrio psico-físico e ainda a fertilidade.



As fogueiras são outro dos elementos desta época, dando-lhe ao lume mais uma vez a importância de elemento regenerador, fornecedor de pureza, de limpeza e de proteção contra os elementos nocivos que impedem a prosperidade da terra e dos seres humanos. O mal afasta-se dançando ao redor das labaredas e queimando velhos tarecos para proteger dos maus espíritos do passado e das más artes da bruxaria. O lume faz fugir os dragões ocultos nas entranhas da terra e a roda de São João ao redor das fogueiras representa o rodar do Sol pelo firmamento. De manhã quando o Sol faz a sua aparição no horizonte também dança marcando o seu ponto máximo de presença durante as horas do dia.



Quando a festa estão no seu ponto mais alto, a gente salta acima do lume três vezes para limpar-se a si próprios e também para limpar os seus animais que sendo levados pelos seus donos purificam os seus corpos para se livrarem de todo meigalho ou bruxedo que os possa fazer adoecer ou impedir o seu aproveitamento pelo ser humano.



Típica também é a queimada feita com aguardente, açúcar e pedaços de fruta, símil das beberagens que os antigos magos de antanho elaboravam para ritualizarem a sua magia, tão perseguida e condenada pela igreja no transcurso da história. Como contrapartida, a própria igreja usava também o fogo para se livrar dos malfadados bruxos em autos de fé nos que não só ardiam pessoas mas também interessantes conhecimentos e saber ancestral.



Estes rituais ainda conservados na atualidade sem muita variação foram cristianizados na honra da figura de São João, mas nunca perdendo o seu sentido de festa solsticial. A sua ancestralidade está fora de toda dúvida e do nosso ponto de vista não nos cabe dúvida da sua vinculação a festividades célticas pré-cristãs.


7. O Ciclo do Verão



É a celebrada nos começos de Agosto. Festa de Lugh, o deus Sol. Para os antigos celtas época de festas, tempo de trabalho agrário mas também de felicidade, começo da época da colheita, de maturação dos produtos agrícolas, de reuniões familiares, competições, feiras, época para legislar, para impartir justiça e sobre tudo de bodas. Na Galiza tradicional tem sido assim tradicionalmente.

Nas datas atuais do 25 de Julho celebra-se uma festa solar, a do São Tiago, figura cristã que veio substituir provavelmente à imagem do Lugh galaico. São datas que servem para honrar à terra, neste caso à Nossa Terra que em Ourense tem a sua manifestação nas festas da Ponte. Do mesmo jeito, o São Roque, festa histórica da cidade até o século XX, é datada em 16 de Agosto, dia seguinte dum 15 de agosto festivo em todas as localidades galegas no que se rende culto à terra. A velha Cailleach céltica, a mãe, a que dá sustento, a que protege aparece ao redor do antigo Lughnasad ou Lugunástada, a época das bodas de Lugh celebrada em 1 de Agosto, momento de agradecer aos espíritos, aos deuses e aos santos com oferendas e celebrações. A fartura e a prosperidade estão presentes porque a natureza, a terra, a velha Cailleach nos fornece dela.



Essa festa, conhecida e atendida por alguns seguidores atuais da religião primigénia, representa a abertura do Portal do Leão, que abre as portas da elevação espiritual, do crescimento, do progresso, do aparecimento de Sírio no céu do hemisfério Norte. A coerência das datas dá-nos para descobrirmos que a festividade correspondente de Novembro, o nosso Magusto, é a abertura do Portal do Além ou do Sidh, que datamos em 11 de Novembro do calendário gregoriano, mas no 1 de Novembro do calendário juliano. O 11 de Novembro atual e o 1 de Novembro anterior a 1582 estão no mesmo ponto do trânsito solar visto astronomicamente. Igualmente, podemos afirmar que o 11 de Agosto gregoriano, data em que podemos ver as chamadas lágrimas de São Lourenço se corresponde com o velho 1 de Agosto juliano. Tradicionalmente o Sol é denominado de Lourenço pela cultura popular galaica o que nos leva a deduzir que há um Lugh oculto detrás destas datas e deste nome. Evidenciamos portanto uma cristianização duma tradição céltica, ancestral e pagã.



8. A Colheita 


Não é um festival como os anteriormente relatados, percebido como uma grande manifestação festiva na que participam multidão de pessoas mas uma festa a celebrar em família. O nome com a que se a conhece ultimamente é o de Mabon embora esse nome não seja tradicional mas um neologismo criado pelo reconstrucionismo celta de épocas contemporâneas. É uma das festas pagãs mais antigas e comuns de toda a humanidade que no mundo celta se celebrava na lua cheia mais próxima ao equinócio de outono. Tem correlatos por todo o mundo e em diversas culturas e civilizações sendo a do mundo anglo-saxônico a que sobrevive com o nome de “Thaksgiving”.



Contava-nos há muitos anos o velho galeguista e quarquerno (6), antigo professor nosso no ensino secundário, o Professor Joaquim Lourenço “Xocas”, que na Idade Média os camponeses acreditavam na existência do espírito nos produtos agrícolas e nomeadamente nos cereais. Nestas datas após a colheita faziam um pequeno boneco com o último feixe de trigo ou centeio o qual teoricamente guardava o espírito do produto. Este boneco era levado à comida onde permanecia sentado ao lado de todos até o final da mesma, momento em que era guardado até o ano seguinte que era quando se queimava e se fazia um novo.



Estas crenças não eram muito queridas pela igreja, por isso não se mantiveram até a atualidade mas na memória de quem isto escreve está a festividade da vindima no Ourense dos anos 70 do século XX, época de festa familiar, de comida em conjunto entre todos os que festejávamos a recolhida da uva nos começos do outono. O vinho e a vindima foram desde há séculos motivo de festas na velha Áuria mas provavelmente antes de que o vinho estivesse presente nesta cidade, desde a que escrevemos, haveria celebrações relacionadas com a colheita correspondente e tradicional dos produtos que naquela altura eram os comuns. Talvez a maçã que se recolhe em datas outoniças para fazer aquela tradicional cidra que cedeu à pressão do vinho que a dia de hoje dá personalidade às terras de Ourense...???

Cidra tradicional e ecológica galega (Texto História da cidra em Galiza)

É esta a última celebração da roda das estações, a festa da Colheita, da recolhida dos frutos e da ação de graças à natureza pelos bens fornecidos pela terra para assegurar os futuros meses de inverno. Coincide com o começo do outono e o costume histórico de celebrar um jantar familiar para agradecer a fartura, abençoar a casa e arranjar aquelas cousas necessárias para se proteger no inverno. É época de preparação para a vida no interior da morada. O frio está próximo e o calor do fogar há de ser o lugar central ao redor do qual se vai desenvolver a vida familiar. O Sol decai e a roda fica preparada para começar de novo quando o ano acabe a final de Outubro. A lua cheia que dá passagem à abertura do Portal do Além marca o final do velho ano e o começo do ano novo. Feliz ano novo.

Sol de Outono (Luar na Lubre)



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(4) A lenda da Ana Manana:

Lá em tempos remotos, um dos muitos galegos que iam à sega de Castela, ao vir de volta para a sua casa, achou no caminho um senhor muito bem vestido que lhe perguntou donde era. O segador respondeu-lhe que era de Ourense.

    • E diga-me, Sr., Vc sabe algo ou conhece onde está o Poço Meimão?
    • Se, sim Sr; sempre que vou a Ourense para pagar a renda ou levar alguma cousa para vender passo-lhe por ali. É um poço do Rio Minho...

Então o Sr entregou-lhe ao aldeão um queijo que tinha quatro cantos e disse-lhe:

    • O Sr quer ser rico?
    • Eu como querer, quero, sim; mas que hei de fazer para consegui-lo?
    • Pois, olha –disse-lhe o desconhecido-. Não tem que fazer mais do que ir ao Meimão e quando chegar lá ao lado duma pequena fonte que há entre umas penas, ao lado do caminho, grita: “Ana Manana! Ana Manana!”; e à terceira vez vai aparecer-se-lhe uma mulher muito formosa. Vc tem de lhe dar este queijo e ela é que lhe vai entregar um rico tesouro que tem lá escondido.

O labrego acariciou a cabeça pensando. Finalmente, olhando para o Sr, perguntou-lhe:

    • E não tenho de fazer mais cousa alguma?
    • Tem também que guardar o segredo sem dizer a ninguém a encomenda que leva, nem sequer à sua esposa. E deve ter muito cuidado com o queijo, porque hás de o entregar inteiro; porque se não, pode trazer uma desgraça.
    • Isso tudo não é muito difícil de fazer.
    • Pois tome o queijo e lembre bem o que acabamos de falar.

Entregou-lhe o queijo e ainda não o tinha apanhado o aldeão, quando o Sr que lho deu desapareceu sem saber como.

O bom do paisano continuou o seu caminho rumo da sua morada depois de guardar o queijo dentro dum lenço que atou pelos quatro cantos. Pensando com alegria na possibilidade de enriquecer-se com o que a dama poderia dar-lhe do seu tesouro do Meimão e um bocado preocupado porque o queijo não se estragasse ou por se pudesse achar no caminho alguém que lhe perguntasse que era aquilo que levava tão envolto sem saber que lhe dizer. Mas antes de se acercar ao Meimão, foi à sua casa para dizer-lhe à sua mulher que já tinha chegado de Castela e deixar o dinheiro que ganhou lá, na sega, pois não queria andar com ele guardado por aqueles lugares.

Mas muitas pessoas são muito curiosas, e a sua mulher no momento em que viu o pacote que levava o seu marido perguntou que era o que ele trazia.

    • É uma encomenda, uma cousa que tenho de entregar. Não vá ser o demo que lhe toques! –e subiu ao sobrado para guardar o dinheiro.

Mas a mulher aproveitou aquele momento para olhar que é o que havia no lenço. Quando viu que era um queijo, apanhou uma faca e cortou um anaco; um de aqueles cornichos que tinha pensando que ninguém acharia em falta aquilo.

O homem baixou do sobrado e colheu o queixo envolto no lenço sem pesar no que pôde ter feito a sua mulher. Saiu caminho do Meimão e apurou porque já demorava em cumprir a sua encomenda de receber o prémio do tesouro.

Ao chegar à fonte chamou três vezes: “Ana Manana! Ana Manana! Ana Manana!”

E sentiu um calafrio quando viu aparecer perto do si uma formosíssima mulher, coberta com uma linda vestimenta branca que parecia uma santa saída dum altar ou uma rainha com o rosto dum anjo.

    • Porque me chamas? –Perguntou-lhe de mal humor, como se não lhe agradasse que a tivesse feito sair da sua morada oculta.
    • É para lhe dar esta encomenda que um Senhor que não sei quem é me entregou para Vc. –disse o homem; e pus nas suas mãos o lenço com o queijo.

Ela abriu o lenço e ao ver o queijo com um cornicho comido disse encolerizada:

    • Que é que me trazes cá? Que fizeche? Não che disseram que não tocasses o queijo? Este era o cavalo que havia de me tirar de este encerro mas tu não cumpriche a tua encomenda como che disseram. Foche primeiro à tua morada e a tua mulher comeu uma pata. Que faço eu agora?

E, com efeito, pus o queijo no chão e imediatamente se converteu num magnífico cavalo branco com asas, mas sem uma pata.

    • Olha! Olha! –disse-lhe com irritação-. Agora tenho que ficar aqui para sempre entre estes penedos e tu pediche o tesouro que havia de dar-che. No entanto, pelo serviço que fizeche, toma este refaixo e põe-lho à tua mulher quando esteja para parir. Não posso dar-lhe outra cousa.

E desapareceu ela e o cavalo coxo sem que o pobre homem pudesse ver para onde se tinha ido.

O labrego desesperou-se cavilando no mal que a sua mulher tinha feito, tanto à Senhora como a eles mesmos. Bem merecia um bom enfado. Mas como estava na última parte da gravidez, tentou calmar-se pois não era cousa de se expor a um mal maior e bufando dirigiu-se para a sua morada com resignação; mas lembrando-se do refaixo, ocorreu-se-lhe envolvê-lo numa sobreira que por ali havia para ver como era. Ah! Pobre da sua mulher se o tivesse vestido! Ainda não lhe tinha dado a última volta quando a árvore e o refaixo arderam numa rápida e violenta labareda.

E desde aquela altura a fonte do Poço Meimão, no Rio Minho de Ourense é chamado “A Fonte de Ana Manana”.



(5) O carraboujo é o bugalho de carvalho, grande, redondo e com picos.



(6) Quarquerno é o nativo da Comarca da Querquérnia ou Baixa Lima



Bibliografia:




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