quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Santarém: A confluência cultural






Maria de Fátima Santos Duarte Figueiredo *

Poucas terras como Santarém terão uma história tão dramática. (…) A posição estratégica, o sítio quase inexpugnável, a fertilidade das terras da região, a posição entre Lisboa e Coimbra, tudo explica que Santarém fosse rijamente disputada por cristãos e mouros, logo que os primeiros iniciaram a reconquista.(…) No gigantesco duelo entre duas raças e duas religiões que se prolongou por quatro séculos, Santarém foi terra mártir, disputada a ferro e fogo, ora a bandeira de Cristo, ora a bandeira da meia-lua vitoriosas nas ameias do seu castelo roqueiro. (In “Entre a cruz e o crescente”, O Correio do Ribatejo, 24 de dezembro de 1948)
preciso lugar onde acabava o al-Andaluz, para dar lugar à terra dos “galegos”, dos cristãos do Norte”, depois que, havia muito pouco, estes haviam conquistado Coimbra. (…) é o local onde o Islão se separa- e se encontra- com a Cristandade. (Em torno de Santarin: posições e funções”, de Hermenegildo Fernandes, in De Scallabis a Santarém, 48)


A antiquíssima Scallabis1 não é uma cidade que atraía o visitante, à primeira vista. Ao chegar do norte, ele depara-se com entradas pouco atrativas: hipermercados e bairros urbanos; vindo do sul, pela ponte D. Luís I, o panorama é muito mais agradável, pois avista-se o monte da Alcáçova com as muralhas das Portas do Sol, olhando imponente a lezíria e o rio Tejo. À beira deste encontram-se, tristes e escuros, a Ribeira de Santarém e Alfange; no entanto, das Portas do Sol, o turista pode deliciar-se com a belíssima paisagem da lezíria que se alonga, cheia de força pletórica.
A Ribeira e Alfange, outrora portos fluviais de grande importância, revelam os efeitos de longos anos de um poder autárquico de costas voltadas para as suas potencialidades turísticas e económicas que levaram à região povos de muitas origens, devido à sua localização, aos produtivos campos e à existência do Tejo. De facto, a cidade, entre o norte e o sul, o Atlântico e o Mediterrâneo, situa-se numa posição estratégica única que lhe valeu uma História antiquíssima, cuja origem remonta à mitologia grega2 e regista um interessante cruzamento étnico: fenícios, gregos, romanos, focenses, cartagineses, massiliotas, judeus, árabes, sírios, berberes, normandos, ingleses, suevos, visigodos, alanos, cruzados do norte, incluindo francos, homens do norte da Península Ibérica (norte de Portugal, Galiza e Astúrias) e ingleses. 
A exploração agrícola das terras junto ao Tejo começou no neolítico, com o estabelecimento populacional em Alcácova, cuja prova é o “Vaso de Santarém”, tendo sido encontrado também o linho chamado Linum humile, da Ásia Menor, que chegou entre 2.500 e 1.200 a.C., por via fluvial. Esta facilitou o comércio da mineração e metalurgia do cobre e estanho que teve início no Calcolítico, o que revela o caráter mercantil único desta urbe desde o início.
Os primeiros sinais de ocupação humana da cidade foram descobertos nas Portas do Sol, num oppidum pré-romano habitado entre os séculos X- IX a.C. e I d. C., localizado, como o resto do Ribatejo, na antiga Lusitânia3, sendo díspares os estudos e opiniões apresentados pelos diversos autores no que respeita à origem dos lusitanos4. Inequívocos, no entanto, são os registos da sua valentia e ousadia, personificados em Viriato. Diodoro da Sicília, por exemplo, considerava-os os mais fortes de entre os iberos5 e, segundo Estrabão, eram hábeis em emboscadas e perseguições (….) usam um pequeno escudo que tem dois pés de diâmetro e é côncavo è frente, e é manejado com correias, e que não tem, ao que parece, nem presilhas nem alças.6, usando a guerrilha como forma de combate. Os guerreiros lusitanos eram um grupo social muito importante e respeitado, por isso, ficaram imortalizados em estátuas que, pelo facto de serem consideradas galaico-lusitanas revelam, na nossa opinião, a dificuldade em distinguir as respetivas tribos, mais aparentadas e próximas, a nível étnico, geográfico e cultural do que as fronteiras artificialmente estabelecidas fazem crer7.
No Ribatejo e na Estremadura portuguesa, surgiu a denominada “cultura de Apiarça”, que caracteriza a Idade do Ferro no centro de Portugal, região povoada pelos túrdulos e em que existiam cidades tão importantes como Olissipo (Lisboa). Outros locais de relevo eram Sellium (talvez Tomar), onde há um povoamento pré-romano, um castro (celta) em Torres Novas, em Mação (o de Caratão), em Abrantes e na Cova Nascente do Almonda, ocupado desde o fim da Idade do Bronze e durante toda a Idade do Ferro. Contudo, Chões de Alpompé (próximo de Santarém) destaca-se por ser provavelmente a Morón referida por Estrabão, onde Décimo Júnio Bruto, em 138 a.C. estabeleceu o seu acampamento militar contra os lusitanos. Aqui, o achado mais antigo foi um fragmento de um machado de talão unifacial, com uma única argola, enquadrável no chamado “tipo lusitânico”, datável dos inícios do I Milénio a.C.8, tendo sido encontrada também cerâmica decorada com os característicos S da cultura castreja do noroeste da Península Ibérica. Também da Idade do Bronze foram encontrados, na capital ribatejana, um machado em S. Bento e esporões na Alcáçova, onde a presença humana data da Idade do Ferro, portanto, da ocupação fenícia, havendo vestígios orientais num conjunto artefactual muito característico e em técnicas de construção específicas do mundo oriental.9, o que comprova o intercâmbio interregional na época pré-romana que se registou também na época do conventos scallabitanus e na fase islâmica. Além destes objetos, destacamos também os torques que foram achados em Almoster e as arrecadas descobertas na Golegã, que sugerem uma ligação à ourivesaria nortenha e, portanto, a um substrato cultural comum entre este território e o norte.

De quando a cidade era Scallabis Praesidium Iulium (fim do século I a.C.), foram descobertas, por exemplo, ânforas em Alfange, havendo então dezanove villae no Conventus Scalabitanus e importantes estradas romanas perto da urbe que, partindo de Olisipo (Lisboa), davam acesso ao norte (Bracara Augusta) e a Espanha (Mérida), havendo igualmente uma para Ebora. Assim, estas estradas ligavam, pelo interior, o Sul Mediterrânico ao Norte Atlântico. A antiga via romana que começava em al- Ushbûna (Lisboa) rumava a partir de Shantarîn para norte, atravessava al-Shârât (as Serras) pelo estreito corredor natural que seguia do norte de Tomar até às proximidades de Qulumriya (Coimbra), continuando depois por Burtuqâl (Portucale) para terminar na Gallîsiya (Galiza)10.
Em 460, Suenerico, servindo o rei godo Teodorico, conquistou Scallabis, mas os romanos continuaram a revelar uma forte posição no porto fluvial da cidade, onde a comunidade judaico-síria se mostrou contra as crenças visigodas11, influenciando o respetivo povo a participar e a assimilar a religião cristã bizantina, fazendo assim com que se mantivessem os laços ao Mediterrâneo oriental. Durante o domínio visigodo, a urbe aumentou, surgindo Sesirigo, nome de origem germânica, depois denominada Sanctae Eirenae (Santa Iria ou Santa Irene) aquando do reinado de Recesvinto (653-672), para designar a povoação junto ao rio onde se venerava aquela santa, e depois, em árabe, Sanctaren ou Xantarin12. Curiosamente, também existia, na região de Santiago de Compostela, o local de Iria (…) como elemento de atração dos povoadores (…) para um lugar sagrado13. Sede de bispado, Santarém tinha vários outros cultos cristãos e várias igrejas que perduraram durante o período islâmico.

Os árabes chegaram no século VIII d. C., época bastante conturbada: em 714, Abd al´Aziz conquistou a cidade aos hispano-godos e, cerca de 760, terá havido uma conquista da cidade por parte dos normandos. Em 784, houve uma visita do emir Abd al Rahman I, que ordenou a construção de uma mesquita; dois anos depois, o seu filho incentivou uma insurreição na cidade que os reis asturianos aproveitaram, apoiando as populações que se revoltavam contra o invasor, tendo Afonso II das Astúrias, o Casto, alcançado Lisboa em 798. Durante o domínio islâmico, o rio Tejo e os seus campos férteis mantiveram-se preciosos na economia da urbe e despertaram tanto a admiração de autores árabes que estes compararam as lezírias (al-jarirà) aos terrenos produtivos do rio Nilo. Essa terá sido certamente uma das razões pelas quais Shantarin adquiriu fama nas artes e letras, quando integrou o reino de taifas de Badajoz.
Aquando do califado de al-Hakam II, os alcaides mandados pelo califa para combater os majus (bandos vikings que atacavam as costas cristãs e as muçulmanas) estavam na cidade, onde souberam que aqueles tinham ido embora, o que foi confirmado por espiões que tinham sido incumbidos de ir a Santiago de Compostela. Este facto comprova a circulação de pessoas e informações entre o norte e o sul, favorecida pela existência de vias rodoviárias herdadas dos romanos.

Cerca de 936, o governador da cidade era Umayya ibn Is hâq al-Qurashî al- Marwâni (fundador de Badajoz e sobrinho do califa ´Abd-al- Rahmân al-Nâsir, de Córdoba), que teve, na sua briga com o tio, o apoio e proteção de Ramiro II de Leão, que fora senhor do condado Portucalense. Após sair derrotado, em janeiro de 939, passou a estar ao serviço do rei cristão. Estes tempos conturbados não ficaram por aqui: Lisboa foi saqueada, em 956, pelo rei leonês Ordonho III e, em 30 de abril de 1093, as tropas de Afonso VI de Leão e Castela entraram em Santarém14. Então, o rei de Badajoz e do Gharb al-Andalus, al-Mutawakkil ´Umar ibn al-Aftas, negociou com ele, solicitando a troca de Santarém, Lisboa e Sintra pelo apoio cristão contra os almorávidas, que ambicionavam conquistar os reinos taifas15. Tomando as rédeas do governo da cidade, o rei cristão concedeu-lhe um foral para fixar cavaleiros vilãos para garantirem a defesa da cidade e do Tejo e assim, reforçar a presença cristã, que prevaleceu entre 1093 e 111116. As fontes árabes referem, até, grandes obras de fortificação as quais tornariam Santarém- no dizer de Ibn ´Abdûn de Évora-no melhor protegido das praças-fortes (qa l´a) cristãs.17, o que a impediu, durante algum tempo, de ser conquistada pelos almorávidas e ajudou na reconquista de Lisboa e Sintra até ao domínio daqueles.
Os berberes saarianos tomaram a cidade e dominaram-na ainda durante 36 anos, entre 1111 e 1147, mas os cristãos persistiram na sua reconquista e a urbe voltaria a ter um importante papel defensivo nas mãos destes, após a sua conquista por Afonso Henriques, que contou com o apoio dos moçárabes locais. A cidade continuou a revelar grande desenvolvimento comercial ligado à atividade fluvial, com o grande poder económico dos judeus e árabes. Tal valeu-lhe o primeiro lugar na predileção árabe, sendo Coimbra referida em segundo lugar, para o espaço entre Tejo e Mondego, sem mencionarem Lisboa. (…) E quando a cidade do Mondego deixa de integrar o Dâr al-Islâm, Lisboa toma o seu lugar, mas sempre em posição subalterna18. A conquista definitiva de Santarém ocorreu no dia 15 de março de 1147.

À população local, fruto de uma miscelânea significativa de culturas, foram também acrescentadas, ao longo dos tempos, gentes de do norte trazidas pelas batalhas da chamada Reconquista Cristã (a sua presença já se faria certamente sentir aquando do domínio de Ordonho III, D. Raimundo e de D. Henrique), uma vez que a guerra era um significativo veículo migratório, além das necessidades económicas e comerciais. Como prova desta mobilidade, encontrámos referências a indivíduos da Galiza e Alto Minho, no século XIII: João Mendes de Tui, João Moniz Galego (…), Domingos Moniz Galego e Maria Joanes, dita Galega,19 e João Peres, vizinho de Valença20, e o topónimo “Val dos Gallegos”21.
Há igualmente registos do século XV de indivíduos cuja alcunha faz adivinhar a sua origem, sendo notável a frequência do apelido Galego nos documentos desta época, prova incontestável das migrações sucessivas de gente do Norte, após a reconquista cristã e durante os séculos XII-XIII. Residem de preferência na Alcáçova e na freguesia de Sto. Estevão e alguns são grandes proprietários rurais, como un João Domingues Galego que, em 1348, tinha o seu domicílio na freguesia de sto. Estevão e era proprietário na lezíria do Galego22. O apelido Galego foi comum até ao início do século XX, de que é exemplo o nosso caso pessoal: na árvore genealógica, temos os antepassados do século XIX João Ferreira Gallego, Manuel Ferreira Gallego e António Ferreira Gallego, tendo a nossa aldeia o nome Anteporta, existindouma Anteportas no concelho de Padrão.

Dos (inúmeros) acontecimentos marcantes ao longo dos séculos, podemos ainda referir que foi nos paços da antiga Scallabis (onde atualmente se encontram o Seminário e a Sé) que ocorreu a morte de dois dos assassinos de Inês de Castro (Pêro Coelho e Álvaro Gonçalves), em fevereiro de 1360. Nos séculos XIV e XV, o hospital de Jesus Cristo, de João Afonso (nobre, proprietário de terras e benemérito), quer na perspectiva organizacional, quer no enfoque estritamente médico-assistencial (…) denota um (quase certo) contacto ou conhecimento com a nova realidade hospital de (…) Santiago de Compostela23.
Santarém foi residência de reis e nela tiveram lugar cortes de D. Afonso III, D. Afonso IV, D. João I, D. Afonso V e D. João II; no Convento de S. Francisco, existe um alpendre onde, segundo Rui de Pina, foi jurado rei D. João II24; no claustro quadrangular, há escudos dispostos alternadamente com as armas dos Menezes e Castros; a Igreja de S. João de Alporão (fins do século XII ou início do século XIII), segundo José Anastácio de Figueiredo, foi cabeça da ordem de Malta25; na Igreja da Graça, foi sepultado Pedro Álvares Cabral, depois trasladado para a sua terra natal, Belmonte; em 1640, o 1º conde de Unhão, Fernão Telles da Silveira, foi o primeiro a proclamar a independência, num edifício na Praça Visconde Serra do Pilar; a urbe combateu os franceses, aquando das invasões napoleónicas, que a despojaram de grande riqueza, do que é exemplo a Igreja da Graça e, no período entre 1833 a 1834, defendeu a causa dos liberais, após o que o general Sá da Bandeira a elevou a cidade. Na madrugada de 24 de abril de 1974, o capitão Salgueiro Maia partiu da Escola Prática de Cavalaria para rumar a Lisboa e contribuir heroicamente para derrubar a ditadura fascista.
Após tantas influências culturais e tantos acontecimentos marcantes inclusive para a História nacional, a velha Scalabicastrum esconde, pois, as riquíssimas memórias por detrás dos velhos e escuros edifícios, becos e lugares pouco conhecidos e visitados. Neste planalto e lezírias onde muito se esconde, as lendas e a História atestam a sua milenar existência, na qual o norte e o sul confluíram intensamente.



* Licenciada em Português e Inglês (via ensino) e Mestre em Estudos Ibéricos com a dissertação O Nacionalismo Galego (o percurso político e literário do século XIX à década de 1950).
1Scala pode ser a palavra latina para escada, mas também pode ser um elemento pré-latino e explicar-se quer pela raiz “Kal”-pedra” (…) quer pela raiz “Sk”-altura” (…) Como o derivado é Scalabitanum, o que tem de se explicar é o radical
bit”; penso numa raiz pré-indo-europeia bet-bi҃t (Santarém e Scalabis, uma tese revolucionária, José H. Barata, Vida Ribatejana, 1955).
2Abidis é uma divindade da mitologia dos celtiberos e o nome de um rei mitológico ligado a Santarém. Durante a sua odisseia, Ulisses de Ítaca teria passado por esta região, onde se apaixonou por Calipso, filha do celtibero Gorgoris, rei dos Cunetas, relação de que nasceu Abidis, que o avô abandonou, colocando-o numa cesta atirada ao Tejo. Esta subiu o rio e foi recolhida por uma loba ou cerva na praia de Santarém, que cuidou dele. Mais tarde, Calipso reconheceu-o e tornou-o o legítimo herdeiro do trono, escolhendo aquela cidade para capital do reino, dando-lhe o nome Esca Abidis (o manjar de Abidis).

3Ptolomeu (…) menciona Scallabis (Santarém) (Viriato, a luta pela liberdade, Mauricio Pastor Muñoz, Edições Ésquilo, 5ª ed., Lisboa, 2004, 24) e Fernandez Ochoa apresenta como uma das regiões Lusitânia o Ribatejo e Estremadura (Viriato, a luta pela liberdade, Mauricio Pastor Muñoz, Edições Ésquilo, 5ª ed., Lisboa, 2004, 45), sendo as outras a das Beiras e o oeste da província de Cáceres.
4Oriundos das montanhas helvéticas, estabeleceram-se, com certeza, nesta região, por volta do século VI a.C. (idem, 21). O investigador Lambrino defendia que os lusitanos constituíam um grupo tribal de origem celta relacionado com os lusões de Contrebia, que se haviam fixado no Leste Peninsular. (…) Os lusões ter-se-iam estabelecido na nascente do rio Tejo, enquanto os lusitanos, descendo pelo vale do rio, acabariam por se estabelecer no seu baixo curso, por volta do século VI a.C.. O vocábulo lusitani, de raiz lus- e sufixo –tanus, seria de origem celta e significaria “tribo de lusos” (ibidem).
No entanto, alguns investigadores como, por exemplo, Leite de Vasconcelos, consideram-nos autóctones que terão sido subjugados pelos celtas, sendo, portanto, uma etnia de origem pré – ibérica. Sendo ou não os lusitanos anteriores à vinda maciça de tribos celtas para a Península Ibérica, é, pois, tida como certa a sua origem céltica e a sua língua era indo-europeia e mais antiga do que, por exemplo, o celtibero.
5idem, 29
6ibidem
7Segundo Maurício Pastor Muñoz, A norte do rio Tejo e ocupando totalmente o centro e o norte de Portugal viviam os lusitanos, o povo de Viriato, cujo território ia do Douro ao Tejo (idem, 21). O seu território era delimitado a sul pelo dos célticos, a norte pelo dos galaicos e a nordeste pelo dos vetões, ou seja, ocupavam, entre os dois rios,a zona de declive da Meseta estendendo-se pela Estremadura (idem, 22).
Estrabão refere que A sul a Lusitânia é delimitada pelo Tejo; a ocidente e a norte pelo Oceano; a oriente pelos carpetanos, vetões, vaceus e galaicos (...) alguns também lhes (aos galaicos) chamam lusitanos (idem, 23). É aqui interessante a (mais do que natural e lógica) identificação dos galaicos com os lusitanos.
8“Chões de Alpompé”, de Carlos Fabião, De Scallabis a Santarém, 151
9“A Alcácova de Santarém e os fenícios no estuário do Tejo, de Ana Margarida Arruda, in De Scallabis a Santarém, 30
10Madînat Shantarîn. Uma aproximação à paisagem de Santarém muçulmana (séculos X-XII)”, de Manuel Sílvio Alves Conde, in Santarém na Idade Média, 349
11Só na época visigoda é que desapareceram as tribos, a religião indígena e as línguas pré-latinas.
12Até meados do século XII, mantiveram-se os vocábulos Scallabis para o núcleo da Alcáçova e Sanctaren para o da Ribeira de Santarém.
13Santarém e Tomar- A lenda e a posse da terra, in Santarém na Idade Média, 391
14Quatro séculos foram precisos para se saber se a terra ficaria com o nome cristão de Santa Irene, ou com o nome árabe de Chantireyn. A reconquista cristã aproximou-se do Tejo e Santarém desde que Fernando, o Magno, se apoderou definitivamente de Coimbra, nos meados do século XI. Foi, por isso, possível a Afonso VI, o Bravo, rei de Leão e Castela, avançar com as suas hostes até Santarém, onde entrou a 30 de abril de 1093. Não houve então propriamente conquista. A cidade foi-lhe entregue por um príncipe muçulmano de Badajoz, a fim de obter a ajuda do rei de Leão contra o famoso general almorávide Sir, o “rex Cyr” das crónicas cristãs. As guerras intestinas que dilaceravam o império de Córdova facilitaram assim a posse de Santarém nas mãos de Afonso VI, o Bravo que, Afonso VI reconquista Santarém pouco tempo depois, e em 1095 concede-lhe o seu primeiro foral, em paga dos bons serviços que lhe prestaram os santarenos (In “Entre a cruz e o crescente”, O Correio do Ribatejo, 24 de dezembro de 1948).
15Duas décadas após a conquista de Coimbra por Fernando, O Magno (1064), Toledo passa para o domínio cristão, sob a chefia de Afonso VI (1085). Os árabes andaluzes solicitaram então o auxílio dos Almorávidas para os ajudarem mas, apercebendo-se da sua ambição desmedida , pediram ajuda ao rei cristão. Então, o último chefe de Badajoz, ´Umar al-Mutawakkil, entregou-lhe as cidades de Santarém, Lisboa e Sintra, o qual, por sua vez, as deu a Raimundo de Borgonha, nomeado governador da Galiza e Portugal em 1090 ou 1092, após casar com D. Urraca. Mais tarde, Afonso VI separou, como sabemos, o Condado Portucalense da Galiza, dando-o a D.Teresa aquando do seu casamento com D. Henrique de Borgonha, mais apto que D. Raimundo para cuidar da defesa do território, incluindo Santarém, preciosa para o norte.
16 Temendo um ataque a Santarém, o conde D. Henrique mandou em 1110 um corpo de tropas a fim de reforçar a guarnição, mas foi surpreendido em Vatalandi e dizimado. A este trágico sucesso se refere a Crónica dos Godos (…) Em 1111 (26 de maio), o famoso general Sir cerca Santarém. (…) Santarém cede e a fome obriga a guarnição cristã a abrir as portas à torrente muçulmana. (…) “Os cristãos, diz Abdune, preferiram a humilhação à morte, a submissão ao cativeiro.” (ibidem).
17Shantarîn/ Santarém, fronteira ambivalente islamo-cristã”, de Abel Sidarus, in Santarém na Idade Média, 323
18idem,328
19Santarém medieval, Maria Ângela V. da Rocha Beirante, 1ª ed. Lisboa,1980, 56
20idem, 72
21idem, 136
22Idem, 259
23Santarém na Idade Média, atas do colóquio 13 e 14 de março 1998, Câmara Municipal de Santarém, 2006, Santarém, 1ª Edição, 249
24Arqueologia Scalabitana, Francisco Nogueira de Brito, 18
25idem, 16


1 comentário:

AnaPalma disse...

Excelente artigo!

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