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sábado, 6 de fevereiro de 2016

3ª GUERRA MUNDIAL OU ACORDO GLOBAL?




Por Artur Alonso Novelhe:

Como bem vínhamos observando, em contradição com aqueles que agoiram sempre a pronta queda do Império Ocidental, Ocidente que segue a controlar os três tabuleiros principais, onde se joga a partida pela supremacia (a saber: Militar, Econômico e Social – Cultural), comanda e toma a iniciativa, em todos os campos de jogo. Depois de um pequeno período em que parecia a China poder desafiar o gigante Norte-Americano, dentro do tabuleiro económico, de novo o comando imperial anglo-saxão, volta reconduzir a situação em seu favor...

A Rússia, que muitos acreditam possa desafiar o poder militar do Ocidente, está claramente à defensiva em este jogo, a pesar de seus esforços bem encaminhados tanto na Crimeia, como na Ucrânia ou na Síria (exercícios combinados de bom fazer militar, diplomático e político)... Vimos advertido duma prolongada guerra encoberta entre Emergentes (com direta implicação do binómio Rússia – China) e Ocidente, que a cada dia se torna mais visível. Realmente o confronto direto é sem duvida com China – única potencia capaz de desafiar economicamente Ocidente. Mas a Rússia, ao ser a única potencia com capacidade real de defrontar Ocidente – alem de sua situação geo-estratégica e seu gigantesco tamanho, bem como suas riquezas energéticas – deve ser dominada; pois controlando Rússia, não é possível grande mobilidade ao expansionismo chinês... A tentativa de deteriorar a economia russa através da combinação de sanções exteriores e declínio dos preços do petróleo; obrigando, paulatinamente, a um aumento do défice orçamental e do défice da balança de pagamentos... 

Não tem funcionado de tudo, mas tem minorado consideravelmente as capacidades da economia russa e sua angariação de fundos de reserva. As sanções exteriores, pela contra não tem sido muito haveis a hora de aumentar a pressão sobre a sua económica, na tentativa de obrigar a seu governo a privatizar em favor de investidores internacionais. Na Rússia atual, desenvolve-se um poder bicéfalo, onde neoliberais mais achegados ao Primeiro Ministro Medvedev e os nacionalistas mais estatistas mais achegados ao Presidente Putin, convivem em relativa harmonia. A contração da economia não tem ajudado a criar um clima favorável a privatizações, dado a baixa cotação agora dos ativos russos. O qual impede um plano que seria de interesse do ocidente, de transformar a economia russa numa economia rendista, que num prazo mais alargado – vencera as leis aprovadas por Putin, que impedem o acesso maciço do capital estrangeiro a Federação – permitindo na pratica o domínio exterior, por meio da retirada continua de lucros em benefícios de proprietários estrangeiros (com a desculpa duma maior industrialização)... Algo que de momento o governo russo tem evitado. Mas uma tentativa de privatização, embora seja com intuito de voltar os capitais dos oligarcas russos no estrangeiro, poderia abrir essa porta, se o poder russo não manter um vigoroso tecido publico industrial, em contrapeso do privatizado... 

E este jogo ainda está andamento, variante que faz possíveis acordos mais globais entre a Rússia e os EUA– que mesmo possam concluir no reverter das sanções a Moscovo. A sua vez Ocidente tem melhorado suas posições por todo o planeta, com a criação na Ásia, de acordos de Livre Comercio que tem debilitado a posição anterior dominante da China, regredindo para uma posição de participante ativo e sócio muito importante. A criação dum banco de investimento Emergente, e alça da Bolsa de Valores de Xangai – obrigava a um movimento rápido do Ocidente, na corrida pelo poder económico global. Na América do Sul, a tentativa brasileira de criação dum marco geográfico de interação e poder, que possibilitasse uma independência econômica do Continente – por meio de reforçar Mercosul e fundamentar Unasul – tem sido bem contrapesada, com a criação da Aliança do Pacifico, e a queda da presidência da Argentina, com laços muitos fores com Brasília; assim como a grave crise gerada na Venezuela. Brasil tem reagido com habilidade, tacto e sutilidade; mas as pressões dentro da sua própria casa – onde o sector neoliberal, aliado do Ocidente, está a aumentar seu poder, impedem grandes contra-ataques. 

Uma futura Privatização do Banco Central do Brasil – com a subida ao poder de partidos de corte neoliberal, converteria sua economia numa plataforma rendista, onde o poder inversor estrangeiro se faria com o controlo total de seu património, ao privatizar o poder creditício real, comutando para bancos privados (dependentes do poder financeiro ocidental) o planeamento económico, que deveria permanecer na posse do governo, se quisermos seguir avançando na agenda de emancipação continental. África anda está para desenvolver em próxima agenda – ainda que as tensões provocadas no Centro do Continente – os desequilíbrios imensos no Norte (nomeadamente no Magrebe) e a baixa do petróleo, comodities, controlo do monopólio dos diamantes pelas companhias internacionais (a pesar da concorrência chinesa, que tem aberto alternativas novas), não permite ainda criar nem sequer uma ilusão de independência económica, mesmo nem no Sul continental. Lastres como a corrupção, em países dum poder geo-estratégico tão imenso como Sul África, complicam mais a situação, em favor duma agenda de unidade regional (já de por si muito complexa, pela difícil relação da Angola com Pretoria). 

No Oriente Meio surgem as maiores incógnitas. Eis aqui onde o poder Ocidental, tem de evitar ambições de outras potencias regionais, como Rússia e China ou a Índia, dado serem esta região a ponte de transição dos três mercados mais rentáveis no nível global: energia, armas, drogas. Drogas e armas que normalmente vão associadas ao trafico de seres humanos. Segundo um relatório da Oficina de Crime e Droga, da ONU de 2012 – as máfias ilegais (que derivam dos três mercados) movem perto do 1,5% do PIB mundial, afirmando que o 70% destes ingressos são lavados através do sistema financeiro global. Para consolidar o controlo desta região, o poder Norte Americano, tem trabalhado em vários relatórios sobre a necessidade de criação dum novo Oriente alargado – com supremacia relativa sunita, dos aliados do Ocidente. Mas sua implementação tem chocado com os interesses regionais de potencias menores como Turquia, Arábia Saudita, e potencias maiores como a Rússia, que tem intervido militarmente em defesa de seu aliado Bachar Al Assad, com um relativo sucesso. Devido a esta situação tão poliédrica, os Estados Unidos, tem chegado a um acomodo razoável, sobre a situação Síria, dentro dum acordo global mais amplo que inclui ao Irão e Israel. Mas que não deve ter convencido muito aos sauditas e turcos... O Ministro de Assuntos Exteriores da Arábia Saudita, Al-Jubeir, bem de ameaçar a Bashar Al-Assad com uma intervenção militar direta na Síria, em caso este não abandone voluntariamente o poder (que se levaria a cabo desde território turco, onde já estão a ser concentradas tropas)... Turquia pela sua parte, bombardeia posições do exercito sírio, mas sobre tudo enfrenta diretamente às YPG curdas, pois a pesar da aliança curdo – norte-americana, os turcos não se fiam por causa dos estreitos laços entre YPG sírio e o PKK, turco... 

A madeixa enreda-se cada vez mais... E tudo faz pensar que a tentativa de Serguei Lavrov e John Kerry (responsáveis de exteriores dos Estados Unidos e Rússia), de uma cessação de hostilidades, na Síria, pode ficar em águas de bacalhau... Arábia Saudita, que está a ver como na pratica seus aliados rebeldes estão sendo banidos do mapa pelo exercito sírio, graças ao poder da aviação russa, está a ficar muito nervoso, pela possibilidade de ficar fora do grande tabuleiro de xadrez, em que se converteu o Oriente Meio... No entanto o primeiro ministro russo em entrevista ao jornal alemão  “Handelsblatt”, advertiu: “Os norte-americanos e nossos parceiros (referindo-se ironicamente aos árabes) devem pensar bem: querem mesmo guerra permanente?” O problema duma guerra permanente, com implicação direta de protagonistas que antes estavam por trás do cenário – cada um ajudando a seu aliado – é, que nunca se sabe quando o confronto indireto, pode derivar em um confronto direto das potencias implicadas. Sabendo que Turquia pertence a NATO, não da muita confiança que uma frição de exércitos turcos, árabes e russo possa derivar em algo que ninguém, sendo sensato, desejar... Mas o ser humano tem demonstrado – por ativa e passiva – que em situação de medo, custa-lhe muito manter-se saudável mentalmente...
Pelo lado positivo, de momento Washington não se deixa pressionar pela Turquia, para que escolha entre os turcos e os curdos; a pesares de Erdogan ter conseguido excluir as YPG das negociações de Genebra. A nomeação de Brett McGurk, como encarregue de lutar contra o Daesh (Califado Islâmico) pelo presidente Obama é uma boa noticia. O apaziguamento com o Irão, trás a queda de Ahmadinejad e a subida ao poder dum grupo menos anti-ocidental, tem facilitado uma reviravolta na Administração Obama, que agora mesmo tenta deitar fora da agenda o confronto regional xiita – sunita. Mesmo no Iraque, a colaboração dos EUA e os iranianos, fez-se cada vez mais evidente... Esse acomodo também poderia possibilitar uma paz entre as diversas facões curdas, que mesmo ameaçava com a cisão em dous da YPG Síria. Pelo lado negativo, isso alimenta o medo saudita, a ficar marginalizado. Um acordo mais amplo, que incluía Irão, Turquia e Arábia Saudita, baixo supervisão de EUA e Rússia, tem de ser alcançado, para evitar o confronto... Mas ele será possível?

domingo, 26 de julho de 2015

A Des-Grécia


Por Artur Alonso Novelhe
Vivemos num mundo interdependente. As velhas noções de territorialidade, independência nacional e domínio particular do Estado Naçao, foram, aos poucos, chumbadas. A soberania regional substitui à velha soberania.
Dentro do Império Ocidental e no atual marco de guerra encoberta pela hegemonia global (entre este império e nomeadamente a China) qualquer dissidência deve ser castigada. Eis um apontamento sobre o que está realmente acontecendo em Grécia.
O construtor do Império Ocidental e governador real, por trás da falácia da "governabilidade política", é a Elite Financeira. Esta elite tem criado o seu corpo atual através da metamorfose da velha Elite Mercantil, própria do anterior período mercantilista (superador do Sistema Feudal e das Monarquias Absolutas), ate a nova Elite das Finanças, própria dum período de mudança desde O Capitalismo Financeiro ate o Novo Capitalismo das Rendas (Sistema que como bem definiu Michael Hudson é sem dúvida de caráter, paradoxalmente, Neo-Feudal).
Temos de reconhecer a este poder uma capacidade muito grande de adaptação as continuas mudanças intrínsecas à história e fazem parte das leis naturais de Impermanência e Desenvolvimento continuo o que provoca renovação constante.
A União Europeia já levou à frente o trabalho para o qual fora programada por estas mesmas elites, a pesar da resistência inicial de líderes como Degaulle. O velho sistema de Estado Providência ou Estado do Bem-Estar ficou sem sentido uma vez obtida a vitoria sobre a União Soviética no período chamado de “Guerra Fria”.
Em este momento e uma vez assinado o Tratado de Livre Comércio com os EUA, o velho Continente faz-se sem hesitação, uma parte integrante do Império Ocidental, agora em processo de construção. As Elites Centro Europeias, que detêm o poder baseado na vassalagem das Elites do Sul da Europa, estabelecendo relações de vassalagem e submissão à sua vez a respeito das Elites Anglo-Saxónicas. Mas esta rede de poder e seu labiríntico e eficaz organograma deve ser, entendo de maneira alegórica, circular e transversal e não linear ou piramida.

Esta rede de poder tem sua base em um núcleo principal: famílias de origem germânica e protestante, judeu-germânicas e irlandesas católicas que dominam o anel de poder das finanças globais cujo centro principal está nos EUA, Europa central germânica, Escandinavia e Inglaterra. Estas tecem redes de vassalagem entre si e com outros poderes regionais por meio das finanças, onde os Estados, bancos, e outras entidades ficam amarrados a elas, através das dívidas e empréstimos.

Este holograma de relacionamento ao ser tridimensional exprime melhor o poliédrico que o poder anglo-saxônico é, onde as diversas sensibilidades e mesmo interesses contraditórios agem num mesmo nível, tecendo com autonomia redes diversas, que finalmente, confluem em um mesmo sistema, governado pelo capital financeiro internacional.
O anel de poder energético que permite o controlo e coexão de todo o sistema é o da Dívida Permanente. Assim é como se efetuam realmente as relações de domínio e dominação. Dominador possuidor dos títulos de dívida, dominado, pagador eterno. A capacidade de respirar depende da abertura ou fechadura do anel mencionado. Uma vez entregado o Banco Central dum país ou região às mãos dos senhores das finanças – já toda a população dessa região fica refém da política a ditar pelos novos donos: os supostos representantes legais dos cidadãos (ainda eleitos por sufrágio universal) só podem gerir a aplicação dos ditados económicos, transmitidos por quem realmente possui o controlo da moeda. Grécia ao eleger Tsipras, dalgum modo, virou esta lógica.
Enquanto mais avançar pela supressão da moeda em papel e deixar mais quota de mercado para moeda virtual e o cartão eletrónico, menos possibilidade terá a cidadania de revoltar-se (pois com um simples apagado bancário uma pessoa fica núa).
Pôr em dúvida este esquema, que na realidade envolve a entrega de todo o património público ou coletivo ao senhores do anel – devagarinho, segundo as necessidades dadas, no tempo preciso – é pôr em risco todo o tecido sistémico. Isso mesmo foi, em alguma medida, que tentou fazer a Grécia: dentro do sistema, modificar o sistema (democratizar algo o sistema, repartir melhor o peso do sistema, dado o inferior da pirâmide já não aguentar seu peso).
Esta ousadia é tomada imediatamente como um ação de guerra. Resposta militar. Não devemos esquecer que o anel energético de poder tem a capacidade de derrubar, mediante a asfixia financeira qualquer território desobediente, com os mesmos efeitos nocivos que um exército invasor. Eis as primeiras manobras da armada financeira contra a Grécia:
Agências de Qualificação (braços ativos do poder financeiro global) Fitch e SP cortaram ratings dos principais bancos gregos. As Agências Moody´s e DBRS reduziram a classificação soberana da dívida grega. Banco Central Europeu cortou o crédito a Grécia, obrigando ao governo na pratica a realizar um “corralito” bancário. Meter medo foi a forma de alocução dos representantes da Europa, nas suas referencias a crise grega. Os meios de comunicação as ordens do grande capital financeiro debruçaram sobre o medo, a sua única esperança de reverter o “Nao” no passado referendo.
Em esta situação é pois de admirar a dignidade e valentia do executivo de Alexis Tsipras. Mas a batalha era muito complexa e Grécia sabia também ter suas cartas marcadas: sair do euro ia trazer muita inquietação, algo que não gostava sobre tudo a Washington. Quando a Europa insistia em apertar a gorja, a Tsipras só lhe restaria jogar a carta Russa. No nível geo-estratégico uma bomba: Putin poderia vingar-se do golpe realizado pelo Império Ocidental na Ucrânia. Mas não deixava de ser uma carta de muito risco, tendo em conta a posição privilegiada da Grécia no Mediterrâneo. China ofereceu a ajuda do BRICS ao país mas dias depois o próprio governo chinês teve de tomar medidas para modificar a queda brutal da bolsa Xangai por causa da bolha de activos que inchou o país. Brasil reiterou estar em favor da solução negociada dentro da União Europeia e a Índia nem se pronunciou...
Portanto, nesta conjuntura, Obama poderia pressionar para tirar no futuro parte da dívida à Grécia: algo simbólico. Nada que possa pôr em causa todo o edifício da austeridade que as próprias elites anglo-saxônicas impulsaram para evitar uma concorrência Euro–Dólar, como moedas de reserva internacional, em tempos de forte contração e surgimento de rivais monetários à nivel global como o Renminbi chinês.
O mais fatível seria negociar a queda de Tsipras mas por enquanto ele se mantém ao frente apesar do abandono do sector mais beligerante do seu partido. No entanto que ninguém tenha esperanças, mesmo se outros partidos da esquerda ganharem no sul da Europa. A situação dentro do Império Ocidental vai ser cada vez menos compatível com a democracia. Reformar a estrutura de poder ocidental, dentro ou fora do sistema, só parece possível com uma queda do plano global delineado pelo poder europeu.
A dia de hoje derrubar o poder das finanças na Europa significaria demolir o edifício europeu, algo só possível com a licença ou abandono da aliança com os EUA. Não parece viável. No entanto se é que der o caso, antes de construir um novo modelo, a Europa ficaria na ruína com a demolição do sistema bancário europeu que atingiria a todo o orbe.
E isso também comportaria a emanação dum poder alternativo chinês no nível Mundial e Russo, a nível Continental, de marcado controlo estatal sobre o cidadão que nada tem a ver com democracia. Em esse cenário a Europa seria um paria global que desenvolveria um papel similar ao que hoje ocupa a África mais pobre. Quer dizer, um período muito prolongado de queda sistémica, de transformação das antigas estruturas e relações de poder, de construção de novas alianças, incerteza e grandes dificuldades para além de trazer um imenso sofrimento às populações da Europa e passando-se da dependência dos EUA a outra.
Como bem sabemos ninguém quer esse cenário pelo que os devaneios de Tsipras com Putin não são mais que movimentos acertados para criar pressão na contra.
O caminho do meio terá de ser por força o guião deste novo filme, no que aparentemente Tsipras ceda em todo, para consumo da Alemanha, Espanha, Itália e Portugal, e Europa, no fundo permita uma reestruturação mais coerente da dívida grega com um inevitável perdão, total ou parcial, da dívida grega incluída. Com isto, Tsipras poderá ter mais margem de manobra para tentar elaborar um política que alivie na medida do possível, a entrega de todo o património do país aos banqueiros do Norte. Acordo único possível sem lume de arder, por enquanto.
Enquanto a ilusão de realizar desde Ocidente um revolução que ajude a evolução para um novo ser humano mais consciente, ecológico e justo, esqueçam amigos. Isso não poderá ser feito nem desde aqui nem desde Rússia ou China. Teremos que aguardar pacientes, no melhor dos casos, a que estes extremos cedam por desgaste mútuo, e aturarmos o seu cetro planetário.
Será pois o Hemisfério Sul, que hoje tanto desprezamos desde o Norte, aquele que possa realmente abrolhar uma nova Era para humanidade. E dentro deste hemisfério o continente mais preparado é, sem dúvida, a América do Sul cujo foco central é o Brasil, país irmão de língua, da língua mais falada em este hemisfério. Mas para isso paciência, muito terá ainda que mudar o mundo, muito terá ainda que mudar o Brasil e toda a América do Sul. Enquanto estes países mantenham seus bancos centrais, e seu poder energético em suas mãos estatais, todo será possível se continuam a realizar políticas de maior justiça social, modelos económicos que possam iniciar uma viragem real, no continente mais desigual do mundo.
Desde a Galiza, se formos mais estratégicos do que estamos sendo, gastaríamos menos recursos em alianças na Europa e faríamos melhor trabalho em alianças lusófonas e americanas para facilitarmos o desloque paulatino e pacífico desde o Atlântico Norte ao Atlântico Sul. Assim é que evitaríamos a verdadeira desgraça.
Não devemos esquecer que no trânsito de modelo político–económico, e de desloque hegemónico do Atlântico Norte ao Sul o tempo há de lhe dar à CPLP, muito protagonismo e terá muito a dizer e fazer. Os tempo são chegados, devagar. Desta vez aguardemos galegos e galegas saber criar os relacionamentos certos que devem sempre começar pela aliança cultural.


domingo, 25 de agosto de 2013

Nova Realidade – Novos Paradigmas...


Por Artur Alonso Novelhe

«Intrinsecamente, todos os seres vivos são completos e perfeitos, dotados de virtude e sabedoria, apenas pensamentos ilusórios impedem que percebam isso». (Buda)

A essência da vida é mudança. E nós vivemos escravos de sensações, ilusões, medos, aversões... E ânsias de possuir um pó que o vento arrasta ainda mesmo fechando nossos punhos, ainda mesmo habitando essa casa sem janelas (que continuamente tentamos construir sonhado criar a nosso redor uma imaginaria fortaleza). Esse pó tem diferentes formas segundo os apegos de cada ser: uma ideia politica materializada em forma de verdade suprema, uma ideia religiosa veiculada através da única salvação possível, uma ideia fixada de imunidade bondosa... Assim como a falsa crença do apego ao mito familiar, a tribo, a raça, ou ideal superior duma nação impossível, como essência daquilo que achamos ser certamente nossa origem. Outros vivem suas cadeias mais apegadas ao mundo material: dinheiro, riqueza, poder terrenal.... Ambos esperançados – na visão idealizada – acabam por ensonar que podem impedir, em certo modo, à mudança: que o vento arraste o pó que eles dentro de seus olhos acumularam.

Despois estão os que querem salvar o mundo – e a miúde nem sequer são capazes de salvar-se a eles próprios – fato que uma vez experimentado não se pode realizar, traz consigo o surgimento da frustração e o apego ao capricho “do quero e não consigo”, iniciador dor corporal criada por nosso menino insatisfeito. Pois o pó, gostemos ou não, será barrido pelo vento.

Temos um grave problema de percepção, que afeta todo o sistema: desde a concepção do pensamento às conseguintes ações logo a realizar, e que ao final criam nossa realidade palpável. Como bem analisou Fritjof Capra no seu livro “O ponto de Mudança”, o racionalismo cartesiano e o mecanicismo de Newton (que significaram uma enorme dávida na sua época) assim como visão, deles derivada, entorno do corpo humano, a natureza e o cosmos como uma maquina precisa: um grande mecanismo – um relógio imenso, onde cada peça podia ser estudada por separado e onde cada problema podia, de algum jeito, obter solução isoladamente; estão a dia de hoje em questão e mesmo já, na pratica, ultrapassados. A própria tecnologia já os tem contornado, caminhado devagar rumo a um novo paradigma. No entanto esta visão foi fulcral para estabelecer as bases e alicerces sobre os quais girou toda a Idade Moderna, como bem afirma Danah Zohar, no seu magnifico livro “O Ser Quântico”: “As imutáveis leis da História descritas por Marx, a luta desesperada pela sobrevivência de Darwin e as tempestuosas forças da sombria psique de Freud devem, em alguma medida, sua inspiração à teoria física de Newton”.

Mostremo-nos calmos. Reconheçamos a simples vista a mudança. Lembremos o rio de Heráclito, aquele no qual não podemos banhar-nos duas vezes e pretender que o rio e nós segamos sendo mesmos.
Reconheçamos a interdependência entre todos os seres e elementos que podemos observar na mais próxima natureza. Precisamos abrir não só a nossa mente senão também as nossas praticas e com elas sossegar nosso coração flamejante. Fujamos dos extremos, como afirmava Buda: O sofrimento físico traz perturbação à mente. O conforto físico apego as paixões.

Iniciar o caminho do meio longe das perturbações e dos desejos que geram paixões é um principio. Com esse atuar paulatino poderemos melhor enxergar os novos paradigmas, através dos quais, sem nós saber, a humanidade está evoluindo em procura de acomodar-se as iminentes provações derivadas das novas e continuas mudanças.
Novo Paradigma
Desde uma visão mais aberta, tendente a não deitar mais pré-conceitos sobre o significado mesmo da vida, poderíamos almejar a ideia nova e revolucionaria – e não entanto já contemplada quase desde quase as primeiras culturas humanas - de o espirito ter presencia no seio da matéria. A física quântica pode ajudar a tomar consciência de essa “nova realidade”. Perguntas como: O que a realidade, como se forma? Há alguma inteligência superior que subjaze a essa realidade? Podem ter melhor acomodo graças às ultimas investigações no campo da física subatômica.

Se da o caso que a nível subatômico o ser pode ser descrito como partículas solidas ou como ondas. É a denominada dualidade “onda-partícula”, sendo o mais sobressaliente deste realidade que nenhuma das duas percepções “partícula” ou “onda” tem real precisão analisada isoladamente, e que tanto um aspecto como o outro devem ser considerados a hora de analisar a natureza do ser. Esta complementariedade de onda e partícula intrinsecamente nos achega a um principio etéreo da matéria...
O Sutra do Coração nos diz:...”vazio não é mais do que forma; assim forma é vazio, vazio é forma”, coincidido plenamente com a visão quântica.

Mais são a condizer, com outras tradições espirituais, muitas das múltiplas visões que a nova física introduz na nossa percepção limitada da realidade através de uma minuciosa e cuidadosa metodologia cientifica. Estas propostas cientificas estão plenamente acomodas com aquelas que a traves do método introspectivo de procura da verdade tem encontrado, ao longo de séculos, a mística.

O mestre vietnamita Thich Nhat Hanh nos adverte nos seus preceitos da Interexistência: “Não pense que o conhecimento que agora detém é a verdade imutável e absoluta. Evite a tacanhez de espírito e ficar preso aos pontos de vista atuais... A verdade encontra-se na vida e não no mero conhecimento conceptual.” Renovação, ar fresco ou a asfixia condicionada atual, na qual o único poder emana da matéria – guiada pela única energia construtora (agora destrutora) do capital financeiro – criado no ventre da perpetua cadeia da divida: escravidão.

Por outro lado a mudança face ao paradigma quântico nos permite continuamente assumir como próprias e da nossa responsabilidade as situações que acontecem ao longo da nossa existência, pois elas formam parte das nossas escolhas, dado nossa consciência ser a criadora da nossa circundante realidade. Como bem diz o físico quântico indiano Amit Goswami: 
 
... A consciência é que é o fundamento de tudo o que vemos e percebemos e, portanto, nós podemos decidir as nossas próprias escolhas... Escolha e responsabilidade são as palavras chave desta nova ciência”

Dai essa responsabilidade ganha nos liberta profundamente das ataduras percebidas naquele velho paradigma para o que unicamente eram importantes as circunstancias externas. O homem em ele era alvo e, não ator, dos aconteceres. Mudando, pois do mundo das obviedades para o mundo das probabilidades, dado que na mecânica quântica ao invés da mecânica clássica a posição inicial e o movimento não podem ser determinados matematicamente: pois o estado inicial duma partícula subatômica não pode ser estabelecido com precisão. Isto revela que a incerteza forma parte também da maravilha de viver. Esta incerteza criadora de preocupação provocadora de medo no antigo paradigma (onde nós éramos dependentes das circunstancias) se torna em incentivadora, dentro dum novo paradigma onde nós somos os criadores das nossas circunstancias, navegando através dum cenário determinado por múltiplas probabilidades tornadas em possibilidades reais, criadas pela consciência, tanto individual como coletiva.

Essa consciência que vive no momento presente, desapegada do fumo do passado e das especulações do futuro, forma parte da inteligência universal que rege todo o cosmos, desde as nossos mínimos átomos e células, ate o mais complexo sistema solar. Para poder acessar ao poder de essa inteligência e permitir que sua energia flua por todo nosso corpo é preciso libertar-se das algemas e correntes que nos atam ao fumo do passado, a projeção que este insere sobre o futuro e a sensação de nosso momento estar sempre fora de lugar.

Com este novo marco referencial, continuamente nascido no agora, podemos encarar o sofrimento, tal como afirma o mestre Eckhart Tolle, no seu revelador livro “O Poder do Agora”:

O sofrimento que sentimos neste exato momento é sempre alguma forma de não aceitação, uma forma de resistência inconsciente ao que é. No nível do pensamento, a resistência é uma forma de julgamento. No nível emocional, ela é uma forma de negatividade. O sofrimento varia de intensidade de acordo com o nosso grau de resistência ao momento atual, e isso, por sua vez, depende da intensidade com que nos identificamos com as nossas mentes. A mente procura sempre negar e escapar do Agora. A mente não consegue funcionar e permanecer no controle sem que esteja associada ao tempo, tanto passado quanto futuro, e assim ela vê o atemporal Agora como algo ameaçador. Na verdade, o tempo e a mente são inseparáveis. Imagine a Terra sem a vida humana, habitada apenas por plantas e animais. Será que ainda haveria passado e futuro? Será que as perguntas “que horas são?” ou “que dia é hoje?” teriam algum sentido para um carvalho ou uma águia? Acho que eles ficariam intrigados e responderiam: “Claro que é agora. A hora é agora. O que mais existe?

Os pés e as mãos conhecem o desejo da alma,
fechemos pois a boca e conversemos através da alma.
Só a alma conhece o destino de tudo, passo a passo.

Vem, se te interessas, posso mostrar-te”
(Jalal al-Din Rumi)


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