segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Por uma hora galega

Por José Manuel Barbosa
São as 7:00 da manhã e o relógio começa a soar com força indicando-me que o prazer de estar nos braços de Morfeu (que não do “mais feio”) acabou. Com muita vontade de continuar a dormir tiro a roupa da cama e tento como posso pôr os pés no chão sem poder evitar que me abalem as pernas que não me respondem. O esforço que faço para começar o novo dia (dia?) é titânico. Posteriormente e após ajeitar o meu rosto perante o espelho a algo parecido a um sorriso caminho rumo do chuveiro onde vou despertando, mas algo me diz no meu interior que isto que faço todos os dias é um contra natura. O meu coração late a uma velocidade maior do normal, os meus olhos pedem obscuridade, as minhas pálpebras pesam e quando apanho o carro para deslocar-me ao meu centro de trabalho ainda é noite fecha. Só quando estou a chegar ao meu destino é que sai o sol.

O meu relógio biológico comunica-me por meio duma grande sensação de cansaço, por umas amplas olheiras e por uma tensão arterial que não é a que deveria ter, que estou a fazer algo incorreto, e não tenho forma de evitá-lo a não ser que mande o trabalho ao c......., por aquilo de que “se o trabalho é saúde, que trabalhem os doentes”. Em fim, não tenho muita vontade de ficar no desemprego, e comer há que comer todos os dias (grande ditadura essa de comer!!).
Por isso o meu pensamento racional me leva a acreditar na ideia de que em qualquer momento a minha saúde vai dar sinais de advertência nestes meses de outono-inverno e com isso necessite dous ou três dias de recuperação com uma terapia de sono que vai provocar um gasto à administração que somado a outros tantos casos como o meu façam com que a mudança horária à qual os galegos estamos submetidos sirva para perder milhões de Euros por absentismo no trabalho.

Bem pouco inteligente, por anti-ecológico e anti-natural esta forma de ordenar as cousas, tudo isto num Estado ocidental como é o espanhol que se apresenta ao mundo como adiantado, ordenado e avançado.
O INEGA (Instituto Energético da Galiza) organismo vinculado à administração, indica que a mudança horária no nosso país só nos permite poupar um 1% do consumo elétrico no setor dos serviços e no doméstico, muitíssimo menos do que poupa, por exemplo, Catalunha, país onde sai o sol quase ¾ de hora antes do que na Galiza. Em troca se os galegos tivermos uma hora oficial igual do que a República Portuguesa, Canárias ou a República de Irlanda, a poupança seria de quase um 10%, segundo diz a Comissão Nacional para a Racionalização dos Horários Espanhóis (CNRHR). Os inconvenientes desta adequação horária dentro da Espanha viriam por razões de operatividade nos transportes, nas telecomunicações e nos mercados, mas esses mesmos problemas existem em países de territorialidade ampla como é o caso do Canadá, os EUA, o Brasil, a Austrália ou a própria Rússia, sem nomearmos o exemplo próximo das Ilhas Canárias que estão dentro do Estado Espanhol... e não se passa absolutamente nada.
Voltando a uma argumentação ambientalista e naturista, temos que dizer que a sincronização dos relógios solar, oficial e biológico só traz vantagens dum ponto de vista da saúde e portanto da economia relacionada com o gasto no setor sanitário. Os ritmos biológicos humanos, a segregação hormonal segundo -e seguindo- a luminosidade natural do ciclo diário faria com que as nossas jornadas laborais ganhassem em rendimento e com isso evitarmos o dano que causa a má adequação dos ciclos da melatonina e outras hormonas que seguem um ritmo harmónico com o giro do planeta. A correta harmonia das funções orgânicas como são a respiração, a vigília, a tensão arterial faria com que a nossa qualidade de vida se visse acrescentada muitos pontos, o nosso bom humor polas manhãs se visse favorecido –também por isso o resto do dia- e portanto a produtividade atingisse mais altas quotas em benefício não só dos nossos chefes e superiores laborais –é o capitalismo!!!-, mas também em benefício do nosso país.
Se a Galiza se adequar ao ritmo horário natural concorde com a sua posição dentro do planeta, o nosso país ganharia em saúde, em riqueza económica e em alegria mas para isso seria necessária uma pequena dose de independência moral e um pouco menos de bobagem centralista que nos levaria a uma maior e melhor racionalidade, melhor qualidade de vida com melhores relações sociais, laborais, familiares, associativas e um melhor rendimento da nossa produtividade. Lembremos que no verão temos uma diferença a respeito do sol de 2h e meia e no inverno de 1h e meia. É o Horário Central Europeu fazendo que a Galiza tenha a mesma hora do que a Polónia, a Eslováquia, Hungria, Sérvia ou a Macedónia... Quando nesses países saí o sol ainda faltam quase duas para que saia aqui. Demais.
A ansiedade provocada pela adaptação ao horário oficial espanhol (HCE), a fadiga, os problemas cardiovasculares e um absurdo acréscimo do gasto farmacêutico não nos leva por um bom caminho. O nosso corpo seria agradecido connosco tanto do ponto de vista físico como psicológico e voltaríamos, por exemplo, à tradicional “comida das 12:00” como se dizia na época dos nossos avós e bisavós, aos almoços em família, com tranquilidade e com tertúlia prévia à saída para o trabalho pela manhã cedo, como antes, e as ceias a umas horas que nos permitissem ter o corpo preparado para quando nos deitarmos (lembremos aquilo que diz o meu pai ainda hoje: “de boas ceias estão as sepulturas cheias”).
Mesmo há pessoas que devido ao começo da jornada de trabalho muito cedo dum ponto de vista biológico, às vezes antes da saída do sol, não ingerem absolutamente nada de manhã ao não estarem preparados os seus corpos para qualquer refeição, o qual faz com que se chegue ao trabalho falto de energias e seja necessário perder um tempo adicional para fazer um pequeno almoço que em nenhum caso é o mais acaído em qualidade nem em quantidade para jornadas de oito horas ou mais nas que o rendimento deve ser mais e melhor do que na realidade é.
Quem isto escreve pode falar em muitos casos deste tipo como exemplos ao comprovar como os meus alunos de Educação Física não rendem adequadamente quando à primeira hora da manhã é de exigência cumprir um programa de trabalho físico e ginástica que não pode ser cumprido ao 100% (às vezes nem ao 50%) por causa da falta de alimento por parte de muitos deles, cujo corpo não aceita a ingestão de nada sólido a horas excessivamente temporãs.

Adequando-nos aos ritmos naturais, as cousas ajudariam à manutenção do corpo duma forma muito mais em harmonia com o ciclo vital diário. Os benefícios seriam visíveis se adoptarmos a hora galega à qual se adequavam estes nossos velhos ainda não há muito tempo fazendo caso omisso da ditadura da hora oficial que já desde há quase um século é hora oficial espanhola que nada nos traz de bom.
Mal costume é esse de olharmos um umbigo que neste caso nem sequer é o nosso, mas um que está em Madrid, e ao qual estamos obrigados a olhar por imperativo legal.

3 comentários:

Galvam Wilde disse...

Um post mui bom! parabéns! concordo contigo totalmente.

PS: Diz-se EUA e não EEUU. He he he! :D

Hosamis disse...

Nós temos também aqui no Brasil o tal horário de verão, aliás, estamos nele, com o relógio adiantado em 1h. É um transtorno José, um transtorno. Homem, você escreve muito bem!!! Estou passeando pelo seu blog.

Abraço, Hosamis.

José Manuel Barbosa disse...

Bem vinda Hosamis :-))

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