quinta-feira, 10 de maio de 2012

Casos de reintegracionismo na Europa: O moldavo-romeno


Por José Manuel Barbosa 

Dentro da Romania (1) há dez línguas neolatinas reconhecidas pelos romanistas. São de ocidente a oriente: o galego-português, o castelhano-espanhol, o catalão, o ocitano, o francês, o reto-românico, o italiano, o sardo, o dálmata (extinto desde finais do século XIX) e o romeno. Esta última língua consta de quatro variantes dialetais: daco-romeno geralmente chamado apenas de romeno e  falado ao norte do Danúbio; o Aromeno na Grécia, na ex-república iugoslava da Macedónia e na Sérvia; o Megleno-romeno ao norte da Grécia e o Istro-romeno na península da Ístria.
Destas, o daco-romeno é base do romeno actual, língua oficial da República de Roménia com capital em Bucareste. Mas a língua romena não é falada só na república romena; uma das suas variantes, o moldavo, que pertence também ao dialecto daco-romeno é falado na actual República da Moldávia, ex-república soviética e anteriormente protagonista dum processo histórico complicado, como complicadas são as cousas em toda a região balcânica.
Vejamos:
Os territórios ao norte do Danúbio foram povoados antes da chegada dos romanos por uma etnia ligada familiarmente com os actuais albaneses ilíricos. Eram os chamados dácios, conquistados por Roma no século II d.C. governando Trajano. A Dácia foi totalmente evacuada de funcionários imperiais quase 170 anos mais tarde pela chegada dos godos mas a romanização foi tão eficaz que a língua latina permaneceu na população apesar das inúmeras e contínuas invasões que se sucederam até que no século XVI chegaram os turcos ocupando toda a região balcânica. Foi desde este século quando se começou a representar o romeno como língua, embora escrita com o alfabeto cirílico por influência eslavo-bizantina. No entanto tem-se conhecimento da existência do romeno desde o século VI, ano no que um historiador bizantino, Theofanes Confessor, nos relata a expressão dum condutor de mulas do exército imperial numa expedição contra os ávaros. Nessa circunstância e pedindo ajuda a um companheiro para que o ajude a recolher a carga caída do animal diz: “Torna, Torna, Fratre!!” (Volta, volta, irmão!!).
Nos finais do século XIX o romeno recupera a sua farda latina ao se constituir a atual Roménia independente da Turquia otomana, mas sem a região norte chamada nessa altura Bessarábia que era o nome com que o Império Russo identificava a parte oriental do principado da Moldávia que acabava de ser cedido pelo Império Otomano (do qual a Moldávia era vassalo) à Rússia, em 1812, através do Tratado de Bucareste, após a Guerra Russo-Turca entre 1806 e 1812. Sob o domínio russo, estruturou-se o governo geral da Bessarábia enquanto a parte Sul da Moldávia uniu-se à Valáquia em 1859, dando origem ao novo Reino da Roménia. É durante 1917 que a Bessarábia se independiza da Rússia em descomposição por causa da Grande Guerra e da Revolução soviética. Cria um parlamento, o  Sfatul Ţării, que um ano mais tarde, em 1918, decide por maioria incorporar-se à Grande Roménia que nesses momentos tinha o seu exército ocupando a região. A Grande Roménia unida, com a Bessarábia incorporada é reconhecida pelo Tratado de Paris de 1920. Em 1924 nos territórios bessarábicos que ainda pertenciam ao domínio moscovita cresceu a ideia por parte das autoridades soviéticas de russificar a língua dos moldavos apoiando-se nas diferenças com a língua romena estandar e aproveitando a situação de analfabetismo dos camponeses. 
No entanto a nova URSS (União de Repúblicas Socialistas Soviéticas) saída da revolução russa não aceita a situação duma Moldávia pertencente na sua maior parte a Roménia e mantém uma situação de tensão política com o vizinho de língua latina reivindicando toda a região em disputa. Foram, no entanto, por meio dos Tratados de Kellogg-Briand de 1928 e o de Londres de 1933 que a URSS e a Roménia decidiram solucionar as suas discrepâncias territoriais seguindo princípios de não-violência. Enquanto a maior parte da Bessarábia -e portanto a Moldávia-, faziam parte da Roménia, a língua romena era a língua oficial. O russo era conhecido e usado por parte da população mas em vias de desaparecimento por causa da política dirigida desde Bucareste que tentava unificar o seu território nacional também do ponto de vista linguístico. 
Por volta de 1932, para o estado soviético a anexação da Moldávia tinha um objetivo claro do ponto de vista político e linguístico: Penetrar ideologicamente na população por meio do idioma romeno ainda com a tentativa de não alertar à população contra o que ia ser o objetivo final que era o de russificar totalmente o país. Era a chamada  teoria “moldovanist”.  Os planos da URSS não saíram bem, já que a língua produzia sentimentos de unidade moldavo-romenos, totalmente opostos aos planos de Moscovo. Isto fez com que a União Soviética em 1938 optasse por uma nova tática: Criar uma nova língua moldava diferente da romena, baseando-se no alfabeto cirílico russo e nas diferenças existentes entre as falas da Moldávia e da Roménia. Recorreu-se a uma equipa de linguistas favoráveis a “normalização linguística” da variante moldava chefiados por Pavel Chior, fiel ao Partido Comunista da União Soviética e Leonid Madan.. A elaboração duma normativa filo-russa isolacionista não se fez aguardar. Criaram-se gramáticas, dicionários e trabalhos sobre dialectologia que salientavam as diferenças entre as falas dos dous territórios daco-romenos e aplicou-se sem qualquer pudor no sistema de ensino. A terminologia mais popular aceitava os empréstimos do russo ou no seu defeito decalques ou adaptações às vezes elaboradas artificialmente com o fim de incrementar as diferenças, algumas delas ininteligíveis para o povo moldavo alheio a todo este acontecer dirigido desde as alturas.
Com o Pacto germano-soviético Molotov-Ribbentrop em 1939 a Alemanha e a Rússia decidem se repartirem Europa secretamente. A Rússia tem o intuito de recuperar toda a Bessarábia, cousa que consegue quando a URSS entra em guerra em 1940 anexando e criando a República Socialista Soviética de Moldávia unindo a Bessarábia, parte da Ucrânia oriental e a Transnístria. A partir de 1940 com a ocupação, anexação e criação da RSS de Moldávia, a ideia de Staline era a russificação total e sem qualquer tipo de contemplações, as purgações e uma política contrária à teoria “moldovanist” que agora se vai chamar “chovinismo moldavo” considerado pelas autoridades como um desvio “burguês-capitalista”. O que antes era uma estratégia pró-russa de fazer do moldavo uma língua diferente da romena, agora é uma heresia pela que os defensores desta opção serão deportados ou purgados. Anteriormente víamos como em 1932 quis-se recuperar a operação de influenciar na Roménia com, mais uma vez, o alfabeto latino recuperado para a variante moldava para poder penetrar ideologicamente contra o poder de Bucareste independente de Moscovo, mas de novo os moldavos se viam identificados linguisticamente com as falas do Sul. A URSS teve de voltar atrás e com Staline se resolve de novo recuperar o cirílico e limpar de “inimigos do povo operando em Moldávia com uma política hostil, poluindo a língua moldava com palavras e termos romenos de salão burguês e introduzindo o alfabeto latino ininteligível para os trabalhadores moldavos”. Os intelectuais pró-romenos foram também purgados e acusados de “nacionalistas burgueses”, “inimigos do povo” e “agentes do capitalismo”. Sibéria acolhia-os a todos nos seus campos de trabalho. A segunda guerra mundial vai trazer uma anexação de mais território romeno para a URSS, após grande quantidade de mortos, repressão e deportações. 
Roménia ficava calada perante todo isto e perante uma URSS que emergia como potência mundial, mas desde os 60 Bucareste tentou afastar-se de Moscovo. Isso criou disputas entre ambos os países comunistas a respeito da Moldávia. A política soviética após a morte do ditador Staline vai ser mais moderada embora siga sendo de vontade russificadora e anti-moldovanist, mas com a chegada da perestroika e a glastost de Mikhail Gorvachov nos anos 80 vai-se favorecer-se um “bilinguismo nacional” que toleraria o posicionamento pró-romeno, embora os mais conservadores seguiam na sua teima pró-russa e contrários a qualquer bilinguismo e grafia latina. Para estes últimos, o romeno e o moldavo são línguas do mesmo grupo romance, mas são reconhecidas umas diferenças sócio-linguisticas que impediriam o acercamento. Em 1989 declara-se o moldavo língua oficial da república moldava optando-se pela transição para o alfabeto latino e por um processo de normalizaçom real. Surge com isto um movimento nacional moldavo que propugna a independência conseguida quando em 1991 rebenta a gastada União Soviética. O novo país se vai ver numa situação de hesitação entre a sua integração na Roménia ou seguir independente. Aliás, tantos anos governada por Moscovo trouxe consigo uma importante minoria eslava com certo poder e uma outra minoria, a gagaúze turcófona de religião ortodoxa que reclamava pelos seus direitos. Perante este panorama, a dia de hoje, a Moldávia tem perdido interesse pela integração na Roménia, uma vez tem criado estruturas de Estado independentes. A Roménia também não quer a integração por não se ter que ver com problemas de minorias étnicas alheias fortemente reafirmadas. Por outra parte a própria Moldávia nestes últimos anos tem cedido democraticamente às demandas gagauzes reconhecendo-lhes a autonomia e o direito de autodeterminação, permitindo aliás a ajuda da Turquia a este povo. Isto é-lhes de utilidade para equilibrar a atração da Rússia e os eslavos em parte chegados na época estalinista que se vem na necessidade de voltar à sua pátria de origem ou adaptarem-se a uma nova situação nacional onde não têm os velhos privilégios nem o poder político que tiveram nos tempos dos comunismo. Hoje a Moldávia regida desde Chisinau reconhece-se romeno-parlante seguindo critérios gloto-históricos ainda usando esta língua segundo as características próprias do Norte do rio Prut que a separa da Roménia, vivem em paz, com afã de progresso e os olhos postos na UE.

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