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domingo, 7 de abril de 2013

De macrolínguas e microlínguas




 Por José Manuel Barbosa

Fala-se que o chinês é a língua mais falada do mundo porque conta com mais de 1.300 milhões de habitantes. Mas isso é falaz. O Chinês diz-que é uma "macrolíngua" dividida em treze (13) sublínguas com uma distância importante entre elas e de difícil intercomprensão. É como se nós disséssemos que entre a Península Ibérica e a Roménia falamos todos uma única língua chamada LATIM dividida em nove sublinguas maiores (galego-português, castelhano, catalão, ocitano, francês, retoromânico, italiano, sardo e romeno...) e mais outras tantas menores (astur-leonês, aragonês, arpitão. vêneto, siciliano ... )


A sublíngua mais falada de entre as variantes do chinês é a chamada "mandarim" -uns 836 milhões de falantes-, nome que os portugueses lhe deram à que falavam os funcionários que comerciavam com eles nas suas viagens em épocas das descobertas ("mantri" significa em malaio "funcionário" e daí deu "mandarim"). Quer dizer é a língua dos funcionários de Pequim porque o povo não tinha licença para tratar com os visitantes europeus. Mas é que o "mandarim" também está dividido em aproximadamente uns oito (8) dialetos, algumas vezes também ininteligíveis entre si... Que é o chinês, então? O Chinês é um código escrito que conhecem e percebem todos os falantes da "macrolíngua" que por serem LOGOGRAMAS todos reconhecem, desde os falantes dos diferentes dialetos do mandarim, até os falantes do min ou do cantonês, do gan ou do hui...
Desde os anos em que governava o "brilhante camarada" Mao Tse Tung, o mandarim de pequim é a língua oficial de toda a China, nem sequer é o mandarim Ji Lu, nem o mandarim Zhongyuan nem o mandarim Jianhuai...Esse mandarim Beijing ou de Pequim também chamado Min-Nam, que não chega nem por proximidade aos 100 milhões de falantes (em verde no mapa do fundo), é aquilo que nós incorretamente chamamos chinês. Complica-se mais o assunto se quisermos apreender chinês ao nos vermos com a existência de duas normativas, vamos chamar-lhe...oficiais: a tradicional na que escreviam os grandes ilustrados chineses das grandes dinastias históricas e nas que elaboraram e construíram a poderosa civilização do passado; e a simplificada, esta última criada pelas autoridades da República Popular Chinesa ainda que estas lhe botam a culpa "às massas populares" que tiveram a vontade "luminosa" de unificarem toda a China e as suas diferentes sublínguas... Bom, da mesma forma como uniformaram a todos com o mesmo fato e um livro vermelho que havia que apreender como o "catecismo" na Espanha franquista.

E digo eu...Que fariam os do ILG e os da RAG num caso como este? O dialeto Jiao Liao já não seria mandarim....O cantonês já não seria chinês é a normativa haveria que cumpri-la porque foi igualmente elaborada pelas autoridades da "Xunta" botando-lhe a culpa "ao povo galego". Evidentemente a versão "tradicional-reintegracionista" estaria proibida.... sob pena de tortura chinesa. Olha cá, que os chineses, com todo o enredo que têm dão-lhe mil voltas no que diz respeito da flexibilidade linguística aos diferentes governos da "Xunta"... 
Outra diferença é que as autoridades maoístas criaram o chinês simplificado para todos se entenderem... no entanto as autoridades político-linguísticas galegas elaboraram o “galego normativo” (como se a forma reintegrada da língua ou o Acordo Ortigráfico não fossem também um "galego normativo”) com o fim de não percebermos o português... e assim complicarem mais as cousas aos galegos que são muito populares e muito pouco burgueses. Com todo essa leia de conceitos que quereríamos extrapolar para a nossa língua, temos: a) o de "macrolíngua" que nos dão os linguistas para o chinês e nos fica um bocado grande demais para o que nos ocupa... b) O de "sublíngua" que também não nos dá jeito, porque de termos uma "sublíngua" esta seria todo o diassistema galego-português, como seria o castelhano, o francês ou o romeno a respeito do latim, o qual seria em realidade a macrolíngua... O que sim daria finalmente, se olharmos para o que nos deixam nas mãos, nos ensinam nas escolas e nos incutem nas Universidades é muito pior do que tudo isso...é um galego autoidentificado como uma "microlíngua". E isso que o partido que nos dirige desde a dinastia Franco é o Partido POPULAR....como a China!

sexta-feira, 22 de junho de 2012

O caso luxemburguês

Por José Manuel Barbosa
A região do atual Ducado de Luxemburgo pertenceu na época pré-romana e romana à Gália Belga povoada pelos Tréveros. Posteriormente com a queda do Império chegaram os povos germânicos e com eles ficaramm assentes na zona os Francos Salienos e os Ripuários criadores do que posteriormente foi o reino da França e falantes duma variante dialectal alemã chamada Francico Moselão ou Moselfränkisch inserida dentro do alto-alemão ou Hochdeutsche, base do padrão alemám. Este Moselfränkische foi a fala dos imperadores francos Clovis e Carlos Magno e falado aliás em todo o País de Arlon, situado nas estremas romano-germânicas.
Após a morte de Carlos Magno foi dividido o seu império em três ficando a região da que falamos dentro da Alta Lotaríngia com o nome de País de Longwy e posteriormente País de Arlon pertencente anos mais tarde ao Sacro Império Romano Germânico e à casa do Senhor de Luxemboug-Ardenne fundada pelo Conde Sigfrid. Durante o século XIII o Condado de Luxemburgo estende o seu território apresentando-se como um verdadeiro principado com território estável e bem organizado, com uma administração ordenada e bem dirigida sempre dentro do Império Germânico, mas é no 1354 quando se torna Ducado e passa-se poucos anos mais tarde, no 1461 a fazer parte dos territórios dos Borgonhões e do Imperador Carlos V com o que fica para os seus herdeiros dentro dos Países Baixos espanhóis. O século XVII vai ser de hegemonia francesa na zona fazendo com que parte do país se passe ao reino da França em 1659 e fique anexado totalmente entre o 1684-1697. Posteriormente a guerra de Sucessão espanhola permite aos Habsburgs da Áustria entrar na posse do Ducado que reajusta as suas fronteiras. A revolução francesa e a chegada de Napoleão ao poder na França faz com que o Ducado volte mais outra vez à influência francesa como parte da nova república como o Departamento “des Forêts” na sua maior parte e do Departamento do “Moselle” a parte que fica. No Congresso de Viena o regime francês é substituído por um outro holandês mas agora como Grande Ducado, com o rei Guilherme I da Holanda como soberano, embora, e juntamente com a Bélgica, se rebelem contra ele até se independizarem da Holanda levando-se a própria Bélgica uma grande parte do Luxemburgo francófono fazendo parte da Valónia, enquanto a parte de fala germânica fica com os limites que hoje conhecemos mas fazendo parte da Confederaçom Germânica, do Reino da Prússia e do Zöllverein. É após este desencontro com a Bélgica no 1839, quando o Luxemburgo se torna independente e mesmo com Duques privativos.
A guerra franco-prussiana favorece e consolida essa situação de independência não entrando na nova e recém nascida Alemanha unida ficando como um estado tampão do que se beneficia do ponto de vista industrial e económico até que as duas guerras mundiais nas que mais do que participar, sofre como vítima, provocam uma destruição e um sentimento anti-germânico que favorece e reafirma o seu nacionalismo que também se manifesta na sua conceição da língua. A maior parte da população é germanófona na sua variante franco-moselá falada não apenas no Ducado mas em parte da região do Luxemburgo belga, no departamento do Mosela francês e no Länder alemão do Sarre.
O território do Ducado tem o intuito e a vontade desde os começos do século XIX de diferenciar a sua variante linguística alemã do resto do domínio linguístico num processo de elaboração e isolacionismo que considera a sua fala luxemburguesa ou Lëtzebuergesch como língua diferente da alemã. Conta portanto com muito pouco tradição escrita que vem desde o 1825, momento histórico no que um certo sentimento anti-prussiano se deixa sentir, mas é desde o 1850 quando se cria uma primeira normativa autótone que incluía galicismos registados nas falas populares, dialetalismos próprios e mesmo neologismos insolidários com o resto do domínio linguístico alemão. Em 1849 é publicado o primeiro dicionário luxemburguês em pleno processo emancipador e de nacionalismo romântico valorizando em alto grau o particular em detrimento do mais comum ao mundo teutão, mas é com o passo do tempo e a reivindicação linguística como o luxemburguês se abre caminho, assim, Casper Mathias Spoo “ousa” falar no parlamento do país, onde o francês, língua de cultura do Ducado é valorizada por acima do alemão e do dialecto, em Lëtzebuergesch numa ação reivindicativa da língua “falada pelo povo” que vai passar à história. Foi isto em Dezembro do 1896, e em 1912 a lei do 10 de Agosto decide introduzir essa “fala do povo” no ensino sendo Primeiro Ministro Paul Eyschen ordenando ao professor René Engelmann a elaboração duma ortografia comum. É assim, como durante todo o século XIX e XX se leva a cabo a ação de elaboração da língua luxemburguesa até que em 1984 se faz língua oficial do Grande Ducado juntamente com o Francês e o Alemão.
Alguns dos “elaboradores” e autores literários luxemburgueses são Michel Lentz criador entre outras cousas do hino nacional “De Feierwon” usado como canção da resistência anti-nazi nos anos da II Guerra Mundial. Outro literato valorizado como clássico pelos luxemburgueses é Edmond de la Fontaine, conhecido como “Dicks”, poeta nacional e nacionalista; Michel Rodange, René Kartheiser, a romancista Milly Thill, Raymond Schaack, Fred Granling... Isto não quer dizer que a criação numa relativamente pobre e recém inventada língua seja o normal no Ducado, não, mas a criação em francês é muito importante por ser esta a língua A do país. Só o alemão fica reduzido a um pobre e significativo terceiro posto ou língua C, o qual não significa também que não haja compreensão entre um germanófono da República Federal, Austria ou Suiça com um luxemburguês, mas ao contrário, sim há. O que acontece é que é esta menor pela quantidade de galicismos “legais” introduzidos na fala do país que pode gerar certo sentimento de surpresa no ouvinte alemão e fazer o luxemburguês um bocado incompreensível ás vezes. O afã diferenciador dos luxemburgueses no que diz respeito da língua é por vezes estremo, até o ponto de terem feito várias modificações da ortografia e da norma para tornar a sua fala mais afastada do Hochdeutsche padrão alemão e mesmo mais fechada por razões dum anti-germanismo histórico que nesta altura da história se apresenta como pouco racional. A última modificação foi feita em 1999 e tem feito com que os luxemburgueses reconheçam o grande número de gralhas que são capazes de escrever num texto escrito na sua variante linguística.
Este processo de diferenciação linguística do Grande Ducado de Luxemburgo no que diz respeita do alemão é o que o Doutor Flamengo Yvo JD Peeters define como “estatalização linguística”, quer dizer, uma dinâmica estatal que se justifica a posteriori ao se outorgar uma identidade linguística pela via política ou legislativa. Segundo Peeters é o exemplo do Luxemburgo o típico e supremo de estatalização, no que o Ducado, neste caso, super-poderoso vê que nada pode impedir-lhe crer-se o possuidor do poder absoluto e decretar “soberanamente” qual vai ser a língua dos seus habitantes afastando-se adrede do mundo cultural e linguístico mais grande da Europa, o mundo de fala alemã.
Embora isto seja assim no que diz respeito da fala autóctone, nenhum destes movimentos linguísticos diferenciadores tem feito com que nem o francês, nem o alemão se vejam deslocados do país, já que na realidade existe um trilinguismo real no que o francês é a língua do poder e do prestígio, língua da burguesia urbana e língua da autoridade para as crianças nas escolas, enquanto o luxemburguês é na realidade a segunda língua, na que se inicia o ensino pré-escolar, mas também no que se desenvolvem as actividades mais lúdicas, privadas, íntimas, populares e incluso populistas como a política de galeria. As leis, os assuntos laborais, administrativos, os negócios e aquilo que tem de importante a vida política, assim como a edição de textos legais e jurídicos e a língua escrita são para o francês, deixando um terceito lugar para o alemão, língua, historicamente do país agressor, embora ao final do ensino público o aluno seja perfeitamente competente nas três formas linguísticas para além de sê-lo também no inglês. Os média estam em quaisquer das três tanto mais quanto que as TVs dos países vizinhos (França, Alemanha e Bélgica) são apanhadas sem qualquer problema nem limite, mas é aliás, interessante conhecer o facto de que mais do 10% da população luxemburguesa ser de luso-parlantes, portugueses emigrantes no país, os quais contam com médios de comunicação escritos na nossa língua e mesmo poderíamos considerar que é esta a quarta língua do país em número de utentes, pelo também, grande número de residentes.
 O que podemos extrair de positivo para nós é a existência de três variantes linguísticas que partilham um espaço físico, cousa impensável na Galiza, pois o português, que bem poderia estar presente dentro do nosso País, não está por um sentir de intolerância em que o Estado nos sume. O trinómio Francês/Luxemburguês/Alemão poderia traduzir-se num Castelhano/galegoRAG/Português que é impensável, como impensável é a possibilidade de podermos usufruir os média de todos os países que nos rodeiam como é no Luxemburgo. Na Galiza vimos querendo ter a possibilidade de visualizarmos as TVs portuguesas desde há uns anos com constantes negativas por parte do governo de Madrid. Porque? Provavelmente por medo à liberdade. Algo muito habitual e histórico por parte do Reino no que estamos inseridos.
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