quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O nosso idioma na Oceânia

Por José Manuel Barbosa

Castelão conta-nos no seu "Sempre em Galiza" que a nossa língua é extensa e útil porque com pequenas variantes se fala em Portugal, Brasil e nas (ex-) colónias portuguesas. Algo sabemos sobre ela na América, na África e algo menos, mas algo, na Ásia....mas a história da língua na Oceânia e muito desconhecida. 
Há uma teoria defendida ultimamente pelo nosso amigo e professor luso-australiano Chrys Chystelo que nos diz que os primeiros europeus em chegar a Austrália foram os portugueses. Esta teoria bem conhecida em outras partes do planeta abre novas portas ao conhecimento do nosso passado e nos dá lógica à necessidade do português em terras do longínquo Sul...das antípodes. Vamos ver algo disso:


Timor

Os portugueses chegaram a esta região da Oceânia em 1514 com o fim de explorar as suas riquezas naturais e com o fim encomendado pelos papas de levar missionários para propalar a religião católica.
A primeira organização da Ilha foi no ano de 1702 para dar uma administração colonial criando um território denominado Timor Português mas criando um conflito de fronteiras com a Holanda que se solucionou em 1914 e fixando as fronteiras que ficam reproduzidas hoje.
Na Segunda Guerra Mundial os Aliados, nomeadamente australianos e holandeses lutaram contra o Japão nesta ilha violando a neutralidade de Portugal que recuperou o seu domínio em 1945 quando foram expulsos. Após estes acontecimentos e dada a passividade de Portugal perante esta guerra na defesa do Timor e os muitos sofrimentos e sangue investido contra os japoneses por parte do povo timorense, o sentimento independentista colhe força.
De qualquer jeito as guerras nas colónias africanas não têm qualquer correlato na Ilha que ficava unida na sua multiplicidade étnica, cultural e política de mão dos portugueses
Com a data de 28 de Novembro de 1975 e após uma guerra civil de duração curta ocasionada pela mudança de regime na República Portuguesa é proclamada a República Democrática de Timor-Leste ou Timor Lorosae, mas em 7 de Dezembro é invadida pela Indonésia. Durou 24 anos a ocupação do território português que nunca aceitou nem reconheceu nem a independência nem a ocupação.

 A violência e o etnocídio deixaram um Timor numa situação muito complicada. A luta contra o comunismo por parte da Indonésia justificou a olhos das grandes potências ocidentais a ocupação mas não impediu a condenação por parte da ONU. Quase 200.000 vítimas por parte da Indonésia fazem desta carnificina histórica um dos mais grandes etnocídios do século XX, com torturas, combates, guerrilhas, esterilizações forçadas...
Para além disso, a proibição do português e a islamização obrigou o governo indonésio a trazer pessoal humano desde a Ilha de Java com o fim de diluir a identidade timorense e levar a cabo a  exploração dos recursos petrolíferos do Mar do Timor com a cumplicidade da Austrália. Isto fez com que a economia da Ilha se sentisse de forma muito especialmente importante.
Tudo isto provocou com que o sentimento de independência se acrescentasse sendo chefiado por figuras como Nicolau Lobato ou Xanana Gusmão.

A internacionalização do conflito e a luta diplomática junto com a ajuda do Vaticano fizeram com que em 30 de agosto do 1999 os timorenses votaram a independência por meio dum referendo promovido pela ONU para que em 20 de maio do 2002 se viesse a concretizar a tomada do poder livre da Indonésia e a entrada nos Organismos Internacionais.

Segundo a Constituição democrática do país, o Tétum é a língua oficial e nacional da República Democrática de Timor-Lorosae ao lado da língua portuguesa acompanhadas de mais quinze línguas de origem malaio-polinésio. Aliás a língua indonésia e o inglês têm reconhecido o estatudo de línguas de trabalho da administração. Ainda o chinês tanto mandarim como cantonês são faladas na ilha por causa das migrações favorecidas pelos aconteceres históricos da Ilha.

Durante a época colonial o português era a língua da administração e do ensino convivindo com as outras línguas nativas. Ao ser proibido  pelos indonésios e dar-se a situação de imposição da língua dos invasores a afetividade popular faz com que se considerasse a nossa língua  símbolo de resistência usada e promovida pelo FRETILIN (Frente de Timor para a Libertação Nacional). Dessa forma conseguida a Independência o Português torna-se  língua oficial.
Portugal e Brasil têm colaborado ativamente no progresso da Ilha fazendo com que a nossa língua tenha nesta altura uma percentagem de falantes de cerca de 25% o que lhe dá um lugar de importância mais do que simbólica na região.

Até agora, e antes do Acordo Ortográfico, a norma ortográfica usada pela República Democrática de Timo-Lorosae é a brasileira. Isto é por ser os contactos com o Brasil muito mais intensos do que com a República Portuguesa centrada em assuntos europeus e penínsulares mais do que em desviar fundos económicos e humanos na recuperação das suas ex-colónias ultramarinas.

Os vínculos entre o novo Estado de Timor-Lorosae e a ex-metrópole são fortes ainda hoje. As razões históricas para além das linguísticas unem fortemente os dois países mas a influência e o apoio material, económico, cultural, linguístico e empresarial do Brasil nesta ilha ex-portuguesa fazem com que as hipóteses de sobrevivência linguística do galego-português se acrescentem muito numa região do planeta onde anteriormente fora língua franca hegemónica sobre outras línguas europeias. Nessa região a afetividade em favor da nossa língua é grande e isso é muito interessante para projetos futuros e muito mais se o Brasil atender estas necessidades.


Austrália

A região dos Kimberley onde von Brandenstein coloca os territórios de colonização portuguesa na Austrália e onde se falou um crioulo de base portuguesa pelos Yawuji Barra e os Yawyji Baía até meados do século XX, mescla de aborígenes e escravos pretos africanos.

Chegados aqui, há que dizer, ou melhor, desvendar o facto de os portugueses terem chegado às costas norte-ocidentais da Austrália muito antes do que quaisquer outros europeus. É esta teoria mantida e desenvolvida por Kenneth Gordon McIntire, advogado e estudioso australiano de origem escocesa, no seu livro “The secret discovery of Australia” e ocultado até aos nossos dias pelo xenofobismo inglês que ainda hoje mantém falsamente ao Capitão James Cook como o autêntico descobridor do vasto continente dos mares do Sul, mas apenas o Capitão Cook chegou a Austrália no 1770 enquanto que o escocês McIntire diz que os portugueses atingiram Botany Bay e Sydney Heads entre os anos 1516 e 1524.

Isto não parece muito despropositado se considerada a proximidade entre as colónias portuguesas do Sueste asiático e a Austrália (416 quilómetros  por mar desde a Ilha do Timor) e pela possibilidade técnica e material de podê-lo fazer numa altura histórica na que o Reino de Portugal era uma grande potência marítima, capaz de atingir esses 416 quilómetros com muita facilidade.

Um antepassado do Professor McIntire descobriu no século XIX um mapa chamado “O Delfim” e elaborado no 1536 para o príncipe herdeiro da Coroa de França (daí o nome d’O Delfim), no que aparece ao Sul da Indonésia uma grande massa continental chamada de Java a Grande que segundo as provas que McIntire expõe deveria ser a Austrália pelas formas.

Existem, aliás, umas ruínas em Nova Gales do Sul nas que aparece uma pedra com uma inscrição com uma data. Nessa data aparece apagado o terceiro dígito de tal forma que se fosse um 2 poderia ser o ano de 1524, ano no que segundo a documentação histórica por ele consultado faria com que o protagonista dessa expedição e descoberta poderia ser Cristovão de Mendonça. Sabe-se, ainda, que James Cook na sua famosa expedição se valeu de Manuel Pereira, um marinheiro português embarcado no Brasil para entender-se com os aborígenes o que leva a acreditar na possibilidade de os portugueses conhecerem essas terras e a forma de se entenderem com os nativos.

Também o historiador e linguista Carl Georg von Brandestein mantém que o Noroeste australiano foi colonizado por portugueses e escravos africanos pretos levados pelos esclavagistas lusos à região de Kimberley. Esses descendentes de escravos africanos miscigenados com aborígenes mantiveram um dialeto mistura da língua autóctone aborígene e crioulo português do qual mais de 260 palavras de uso comum são do nosso idioma e mais de 80 topónimos têm a sua origem no galego-português.

 Esta variedade linguística permaneceu viva até o ano 1930 numa zona que ocupa a região de Pilbara, nos montes Kimberley e entre o arquipélago Buccaneer até ao Vale do Fitzroy. Foram colonizadas as terras de Dampier, a Angra do Rei desde Derby até à foz do rio Fitzroy em Yeeda, sendo habitadas essas regiões pelos Yawidji Barra (antepassados dos Barra) e os Yawidji Baía (antepassados dos Baía. Literalmente Yadwidji significa avôs). Estes grupos humanos seriam os descendentes dos Yawuji, os que tomaram contacto directo com os primeiros portugueses que ali chegaram a começos do século XVI.

Tendo em conta que até ao 1832 o Reino Unido não reconheceu como suas as possessões da Austrália Ocidental aguardando que Portugal as reclamasse e se fizessem valer os seus direitos históricos para assegurarem-nas como pertencentes ao Reino de Portugal, e tendo em conta que a evidência humana e linguística esteve presente durante muitos anos –mais de três séculos-, só se entende que esta história não se ministrasse nos programas universitários e se chegasse ao ponto de se distorcer a história por várias razões.


Acha o professor  J. Chrys Chrystello da University of Technology of Sydney (2005: 61-96), em quem nos baseamos para escrevermos este texto, que isto atende para duas razões fundamentais. Estas são: a) Por ser o Reino Unido uma potência colonial, militar e económica muito mais poderosa do que Portugal durante os séculos que nos ocupam nesta narração dos factos e portanto potência cultural que conta a história segundo os seus critérios e interesses políticos e históricos, e b) por estarem essas regiões de Austrália zonas fora da demarcação do Tratado de Tordesilhas (ou pelo menos duvidosas segundo critérios da  época), e portanto legalmente não pertencentes às regiões determinadas como áreas de influência e colonização portuguesas, mas espanholas, o que a final fez com que não fosse reconhecido claramente o protagonismo português nessas regiões por prudência e temor ao sempre inimigo espanhol. 
A dia de hoje a Austrália, pertencente à Commonwealth descobre e reconhece os seus vínculos com a língua nascida na velha Gallaecia. É por isso que o seu interesse de se integrar no mundo da Lusofonia é claro, conhecido e desejado pelos próprios australianos.


Bibliografia:

Baxter, A. 1990. “Notes on the Creole Portuguese of Bidau, Timor”. Journal of Pidgin and Creole Languages 5.1:1-38
Chrys Chrystello, J. “The Yawuji Barra and the Yawuji Baia (Os Avôs de Barra e os Avôs de Baía)”. Revista AGÁLIA. Revista de Ciências Sociais e Humanidades. Nº 81/82, 1º Semestre do ano 2005. Ed. AGAL (Associaçom Galega da Língua). Santiago de Compostela. 2005

2 comentários:

Daniel Arnelas disse...

Lí uma vez, não me lembro onde, que ainda havia uma comunidade lusófona e cristã na cidade japonesa de Nagasaki, e que foi dizimada pela bomba atômica, junto com o resto da cidade, ao fim da II Guerra Mundial...
http://pt.wikipedia.org/wiki/Nagasaki

José Manuel Barbosa disse...

Com certeza a cidade de Nagasaki foi porto comercial português durante muito tempo. Mesmo a forma gratulatória japonesa "arigató" parece ter origem na nossa "Obrigado"...

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