segunda-feira, 1 de junho de 2015

A quem assobiamos nós?



Por José Manuel Barbosa

O passado 30 de maio do presente ano de 2015, na final da Taça do Rei espanhola entre o Barcelona e o Athletic de Bilbau aconteceu o que temiam alguns. A torcida basca e catalã arrancou num assobio conjunto que apagou as músicas do hino espanhol no estádio cheio de seareiros perante um monarca muito śerio e um presidente da Generalitat nada surpreso. Os avisos e ameaças por parte do governo contra quem se atrevesse a exercer a sua liberdade de expressão ou dito de outro jeito, contra os que se atrevessem a desprezar o hino, estavam nos média desde havia uns dias mas os prognósticos cumpriram-se.
 Tenho que reconhecer que não gosto dos desrespeitos nem dos sentimentos "anti" que os afeiçoados manifestaram, mas também por isso tenho que reconhecer que nunca gostei da falta de inteligência política dos dirigentes espanhóis, já forem estes atuais ou de épocas históricas. Essa falta de inteligência favorece a reação e acrescenta aquilo que se quer reprimir. No Reino Unido no que se permitiu o referendum da Escócia e no que se permite a queima da Union Jack no meio de Picadilly Circus perante a fleumática olhada dos democráticos ingleses, que mesmo toleram os desrespeitos dos contrários aos Windsor pelas suas felonias ou dos governos de Londres, nada tem a ver com a paixão, a visceralidade, a falta de grandeza e pouco raciocínio dos herdeiros duma tradição política de golpistas, imperialistas fracassados e inquisidores anti-islâmicos, anti-judeus e anti-protestastes. 

Tudo "anti" e só "pró" quando se diz da hispanidade mal percebida ou percebida como uma imposição da Castela "über alles". É isso que causa rechaço em muitos cidadãos oficialmente espanhóis mas com vontade de se afastarem dessa realidade político-nacionalitária que não sabem gerir desde Madrid, nem demostra uma elegância necessária das instituições que deveriam ser mais indiferentes, insensíveis e pacientes perante a expressão da gente farta do carácter "flamenco" dos dirigentes madrilenos.
Essa falta de estética tem a ver também com os complexos de inferioridade espanhóis que sucumbem moralmente perante qualquer contrariedade que vai frontalmente contra a sua forma de perceber a vida: Catolicismo râncio, castelhanismo linguístico e administrativo, histórico, estético, folclórico, cheio de racismo contra tudo o que não percebem, valorização da ignorância, intolerância, monolinguismo, sadismo festivo, "chuleria", soberba, falta de humildade e corrução institucional e cultural histórica que contagiam como vírus ali por onde passam e ali onde tocam... Desse jeito nao caberiam situações como esta. É por isso que consideramos importante dar-lhe uma volta crítica ao que eles dizem ser, que não se nos corresponde com uma realidade histórica autêntica. 
Vamos ver qual é a origem daquilo tão sagrado que não admite crítica...
O etno-musicólogo Ruben Lopez Cano demonstrou que o hino do Reino não é de origem prussiano mas um tema andaluzi do século XI composto pelo inteletual muçulmano de Saraqusta (Saragoça) Ibn Bajjah (ابن باجة) embora posteriormente e por influência e atração do supremacismo germanista dos séculos XIX e XX se fez passar por um hino prussiano. Os tradicionais complexos espanhóis afastados da europeidade e os seus sentimentos de culpa no que diz respeito das suas origens islâmicas fez com que fosse ocultada ou ignorada a sua autêntica origem.

As partituras originais conservam-se ainda e estão datadas nos finais do século XI. Por outra parte, Ibn Bajjah (ابن باجة) cujo nome completo era Abu Bakr Muhammad ibn Yahya ibn al-Sa'ig ibn Bajjah (أبو بكر محمد بن يحيى بن الصايغ), conhecido como Avempace foi um filósofo hispano-muçulmano que trabalhou múltiplas disciplinas científicas e artísticas como a Medicina, a Poesia, a Física, a Botânica, a Musica e a Astronomia das quais tinha profundos conhecimentos. Um autêntico génio da época. 
A sua filosofia, base para autores cristãos como Alberto Magno ou São Tomás de Aquino mas também outros árabo-muçulmanos, constituiu o primeiro exemplo de filósofo andaluzi propriamente dito, embora tinha sido precedido por outros inteletuais de importância sem que qualquer deles tivesse entrado dentro do pensamento filosófico de forma rigorosa. Aristotelista convencido, foi o primeiro em optar por esse posicionamento filosófico na Europa que unido à sua crença na mística muçulmana gera um racionalismo místico islâmico fonte de outros autores posteriores como o de Averróis. 
Seguiu também carreira política, tendo sido vizir em época almorávida mas emigrado posteriormente perante a conquista da sua Taifa por parte dos aragoneses em 1118 da mão do Afonso o Batalhador.

A época que lhe tocou viver é uma época de esplendor da Taifa de Saraqusta do ponto de vista cultural mas também vital e difícil do ponto de vista político, pois é o momento histórico em que os seus territórios são acossados pelo Reino de Aragão perante o que acaba sucumbindo.
Curioso é nomear a inestimável ajuda que a Taifa de Saraqusta recebeu do mercenário castelhano Rodrigo Diaz de Vivar, conhecido como o Cid, contra o seu legítimo Rei Afonso VI (Rex Galletie et legionensium) do qual o Cid era súbdito e vassalo.
A capacidade de Avempace ou Ibn Bajjah para a música, o canto e a composição musical foram reconhecidas e admiradas por todos. Quer-se salientar a sua excelsa figura de inteletual e músico por parte da comunidade de conversos espanhóis ao Islão reconhecendo a autoria da partitura da chamada "Nuba al-Istihlal" com arranjos por parte de Omar Metiou e Eduardo Paniaga como a origem da "Marcha Granadera", atual hino espanhol oficial. 
Ele parece ser o autor da partitura do atual hino espanhol o qual ainda não sentindo-nos identificado com ele merece o nosso respeito quer pelas suas origens mais nobres do que eles acreditam quer pela realidade simbólica que representa para muitos. Quem não merece o nosso respeito são as atitudes, as formas e as ideias repressoras, acomplexadas, intolerantes e à defensiva próprias do mais criticável islamismo radical existente nas organizações partidárias espanholas que pervertem os poderes teoricamente públicos. Essas sim merecem o nosso assobio.

Vejamos e escutemos com atenção o vídeo seguinte:
Avempace ou Ibn Bajjah morreu aos cinquenta e oito anos com muita informação sem publicar, desordenada ou incompleta em Fez, atual Marrocos, após ter fugido da conquista cristã da sua Saraqusta natal percorrendo como exilado as cidades de Xátiva, Al-Marijja (Almeria), Medinat Garanat (Granada) e Orão. Uma grande figura que não se estuda como um personagem importante da Espanha por causa dos complexos dos poderes administrativos e nomeadamente educativos do Estado que não aceitam a tradição nacional andaluzi muçulmana como uma antecessora válida da atual realidade nacionalitária espanhola.

Queremos pensar nessa falta de inteligência ao implementarem uma injunção simbólica como é esta, porque se estivermos equivocados e não fosse falta de inteligência, não nos ficaria outra conclusão do que acreditarmos na vontade de provocarem situações como a do passado 30 de maio por alguma razão....Talvez para criarem uma situação que obrigasse a legislarem segundo as suas preferências nacionalitárias visando mais uma imposição histórica? Achamos que nestes casos se na sociedade existir uma animaversão contra o hino do Reino, o mais inteligente seria optarmos por apresentarem as equipas com os seus respetivos hinos desportivos ou no melhor dos casos -mas achamos impensável pelo carater "flamenco" do que falamos anteriormente- os hinos basco e catalão. 
Alguém ficaria ofendido?

Nota:
Obrigado a Patrícia Barreiro e a José Goris pela informação de utilidade.


1 comentário:

Breo Abreu disse...

Parabéns pelo magnifico artigo. Suponho que a solução do reino será proibir os assobios.
Com licença, coido que ha algum erro no artigo: não e “ubber alles” -> über alles

Abraço

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