sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

A Sobrervivência da deusa céltica Morrigan na mitologia galega


Por David Outeiro

Lembro a primeira vez que me falaram dum encontro com ela...

Era uma das primeiras tardes do outono do ano 2011. Tive a ideia de ir ver o castro de Pena Rubia, onde aparecera uma ara à deusa Navia. Apanhei o meu Terrano como fazia habitualmente porque poderia ser que aquele dia, como muitos outros, tivesse de ir até algum lugar onde só chegassem os veículos com tração às quatro rodas e cheguei até as proximidades do Rio Minho, que naqueles dias tinha pouca água. Fui por uma estrada que atravessava uma formosa carvalheira, cruzei para a outra beira e em pouco tempo vi claramente o Castro, mesmo ainda antes de ver o cartaz que indicava que estava entrando nele. Na entrada da antiga cidade célta havia um espigueiro com uma cruz céltica e um galo ao pé. Acarão do hórreo havia um homem idoso sentado, que estava a olhar para mim; a minha intuiçao fez com que eu fizesse uma paragem e arrumasse o meu carro. Sentei-me no banco onde ele estava e começamos a falar; falou-me duma preocupação que eu compartilhava, a de tantas semanas sem chuva, situação que tinha deixado tudo seco. Continuamos a conversa e falou-me de que naquela altura ele era o dono do castro mas parecia não saber nada da ara de Návia... ou de qualquer pedra com letras gravadas, já que com essas palavras eu lhe fiz a pergunta. O senhor falou-me duma mamoa que estava a procurar e sinalou-me o cimo duma montanha. Quando chegou o momento de me ir, ja era um bocado tarde e tinha de subir até o alto assim que me despedi dizendo-lhe que voltaria vê-lo.
Não demorei muito em voltar por lá com tão boa sorte que achei de novo ao homem em aquele lugar subindo a encosta que dá ao castro. Baixei para falar com ele novamente, para saudá-lo e a conversa prolongou-se bem tempo. Perguntei-lhe por lendas da zona, mas dissera não conheçer nenhuma. Ainda assim houve um momento em que ele me disse: “mas....sim há alguns contos”. Ouvi com atenção e falou-me da gente de Pena Rubia que tinha escutado ao trasno; falou-me também dalguma “maldição” que tinha um homem que fora a tirar pedras do castro sem “prenda da igreja”; falou-me daqueles que foram na procura de tesouros às mamoas da zona. Eu tinha a perceção de que o que aquele senhor me estava a contar não eram lendas para ele, eram uma realidade que se contava para ser transmitida diante do fogo da lareira... Quando a conversa foi derivando em mais cousas mercê à confiança acabou falando-me dum encontro com uma misteriosa e poderosa mulher. Contava -dizia ele-, a historia dum homem apoutado do lugar que ia transitando um dos vieiros daqueles montes. Por uma vez presenciou algo estranho: uma mulher apareceu no meio do caminho sentada enquanto estava a fiar. O homem não podia passar pelo que lhe disse-lhe á mulher dum jeito algo rude: “Afasta-te ou afasto-te!?”. A mulher negou-se a sair do caminho, ergueuse e começou a lutar com o homem. Enquanto pelejavam rodavam pela encosta abaixo até onde estava o rio. Como parecia que o homem tinha as de perder ele percebeu que aquela era uma mulher sobrenatural e portanto começou a “fazer cruzes”. Ao fazer as cruzes, o homem conseguiu libertarse dela, que zangada chegou a manifestar: “Se não chegas a fazer as cruzes, mato-te”. Aquela era uma mulher que fiava (o destino dos homens), uma poderosa e guerreira que levava os homens ao além ao atravessar o rio!... Uma mulher pagã que só o cristianismo (as cruzes) puderam frear... ainda que lá continuava!. Era Návia Corona! Morrigan!, a deusa guerreira e agoireira da morte!. Aquele homem não conhecia a ara, mas parece ser que alguém, no mesmo lugar onde apareceu o jazigo, deu com a mesma deusa!.

Vamos continuar a recompor o nosso quebra-cabeças...
Há um fermoso romance recolhido em Cerdedo no ano 1904 por Vítor Said Armesto duma velha esmoleira chamada Luzia Domingues. O romance musicado por “Fuxan os ventos” fala duma figura mitológica, a Lavandeira...diz assim:
Na mitología galega, a Lavandeira é um espírito feminino, uma mulher sobrenatural que pertence ao outro lado, ao outro mundo. A aparição manifesta-se na beira dos rios ou também nos lavadoiros. É uma mulher de aspecto temível, velha e enrugada segundo dizem alguns. Emite horríveis vozes, laios e berros...enquanto lava a roupa cheia de sangue. Essa é a roupa dos que vão morrer, por isso a Lavandeira é agoireira da morte e o seu aviso é temido. Esta aparição pode fazer uma petiçao àqueles que dão com ela; a de ajudar a lavar a súa roupa. No caso de aceitar a petição os infelizes deverão escorrer as peças torcendo-as no sentido contrario a ella, já que se o fazemos no mesmo sentido a nossa morte será segura e acabará levando-nos com ella ao Além.

Na Ilha de Ons, nas costas de Ogrobe, conta-se a história dum homem que ousou achegar-se à Lavandeira. Neste caso lavandeiras, porque são três mulheres que ele achou lavando uma noite. Achegou-se por curiosidade e perguntou-lhes que era o que faziam lavando a roupa àquelas horas da noite. Uma delas ergueu-se e colhendo o homem pelas suas roupas lançou-o sem esforço até uma silveira. O medo paralisou-o de tal jeito que ficou na silveira toda a noite até que pela manhã os vizinhos que por ali passaram tiveram que tirá-lo dali.

Na Irlanda existe “the Washer-Woman at the ford” (Lavandeira do vão) ou as Banshee (As mulheres do Sidh). As Banshee ao igual que as nossas Lavandeiras são um agoiro de morte. Lavam também as roupas cheias de sangue emitindo os mesmos berros e laios do que as nossas. Pode aparecer como mulher jovem e fermosa, como uma dama ou como uma temível velha -curioso triplo aspecto da deusa ao igual que na aparição da Ilha de Ons-. Pode aparecer também com a forma de corvo viaraz, arminho, donicela ou lebre. As banshee têm a particularidade de estarem vinculadas àlgumas familias importantes. Quando alguém da familia vai a morrer, a Banshee associada ao clã começa a chorar. A apariçao de varias banshee à vez indica a morte de alguêm importante ou sagrado.

Na Escocia é conhecida pelo nome de Bean Nighe ou Nigheadaireachd. Aparece igualmente lavando as roupas de aqueles que vão morrer em rios ou lagos mas têm alguma curiosa particularidade como é a de às vezes aparecerem com os pés palmeados como as aves aquáticas. Nas crenças célticas, este tipo de aves têm a ver com as mensageiras do Além. Talvez por causa da natureça das aves e que ao morarem em meios aquáticos estejam no limiar do além. Se uma pessoa consegue mamar do seu peito, pode transformar-se no seu filho adoptivo e pedir um desejo,como por exemplo saber o nome daqueles que vão morrer. O escritor Dorothy K. Haynes narra uma história dum encontro com uma destas mulheres protagonizado por uma menina chamada Mary. Um dia a menina voltava à sua casa quando escutou um ruido no rio. Ela foi pensando que acharia a sua mãe lavando a roupa mas achou uma mulher com má cara que tinha pequenos pés palmeados como os patos. Mary achegou-se com cuidado mas a mulher bateu nela. Por causa disto, as pernas de Mary paralisaram-se e não pôde caminhar ficando no caminho. A sua mãe conseguiu achá-la após uma angustiosa procura e levou-a para a casa. A história tem um final trágico com a morte de Mary. A Bean Nighe...estava a lavar a roupa da própria menina.
 
Em Gales é conhecida com o nome de Cyhyraeth (fantasma ou esqueleto). É um agoiro de morte que emite uma voz que soa três vezes, um triple aviso que cada vez pronuncia com menos intensidade. Também aqui se fala do facto de ter que lavar a roupa no sentido contrario aquela pessoa que consegue dar com ella. De fazê-lo assim concederá 3 desejos.

Na Bretanha armoricana é conhecida com o nome de Tunnerez noz. Ao igual que as outras apariçoes análogas lava no rio as roupas dos que vão morrer aguardando até que alguêm caia na sua armadilha e possa levá-lo ao além.

Como podemos ver é uma aparição com características idénticas ou muito similares nas terras célticas da Galiza, Escocia, Gales, Irlanda e a Bretanha.

Mas agora chega o momento de desvendar a antiga identidade das Lavandeiras. Segundo contam as sagas do herói guerreiro céltico Cúchulainn, Badb apresentouse antes da última batalha do combatente como um agoiro de morte. Cúchulainn vai cara a sua ultima batalha, quando se conta;

Não foram muito longe do castro (de Emain Macha) quando acharam uma bela donzela, bem proporcionada, diante de Áth na Foraire na chaira de Emain, que estaba gemendo e queixando-se à vez que esmagava e lavava restos vermelhos de troços de carnes de feridas feitas nacos nas beiras dum vão”

O druida Cathbad interpretou isto como um agoiro e disse-lhe a Cúchulain que a mulher é Ingin Baidbhi, filha de Badb, que o lavar e o berrar presagia a sua morte:

-Pequeno cão-diz Cathbad-. Sabes o que está a fazer a jovem? O que está lavando são as tuas roupas. Os seus choros e berros ao lavá-las é a sua forma de exprimir a tua próxima morte quando te enfrentes ao exército de Medb. Segue o meu conselho e dá a volta.
-Caro mestre... agradeço muito o teu conselho, mas tu sabes, como eu sei, que o meu fim está próximo e que vou cair lutando. Não tentes que o evite, porque tanto se vou a essa batalha como se fico lá, a minha morte combatendo está próxima.”

Há outra saga na que se fala do rei Cormac onde também aparece Badb como agoireira. A seguinte cita é da saga “Togail Bruidne Da Choca”:

...Cormac Connloingeas, filho de Conchobar mac Nessa, rei do Ulster, vai de caminho desde Connacht até Ulster para ser coroado após a morte do seu pai e ao igual que Cúchulainn, o destino obriga-o quebrar durante a viagem várias geissa (tabus) que o druida Cathbad lhe tinha dito ao nascer. Quando ele e os seus 300 seguidores chegam ao a Rio Shannon, acham uma mulher vermelha à beira dum vão lavando o seu carro de guerra, os assentos e os arneses. Quando ela baixava a mão, a água do rio volta-se vermelha. Mas quando erguia a mão sobre a parte superior das augas, nãoo ficava nem uma gota de água no rio, já que toda era levantada também no alto; e desse jeito cruzaram o rio sem se molharem os pés.”.

Há uma história bélica muito posterior, acontecida na Escocia. No “Cáithréim Thoirdhealbhsigh” fala-se da Batalha de Dystert O'Dea que teve lugar em 3 de Maio de 1318 onde aparece Badb:

Richard de Clare, o chefe dos normandos, dirigir-se-ia até o que acreditava ia ser uma fácil vitória sobre os O'Deas Dystert. Quando ele e o seu exército estavam prontos a cruzar o Rio Fergus, viram no vão uma horríbel Badb lavando as armaduras e luxosas capas até que delas caia sangue vermelha que tingia as águas do río dessa cor. De Clare pediu a um intérprete irlandês que lhe perguntasse á mulher de quem eram essas armaduras e roupas. Ela respondeu “que eram as armaduras, vestiduras e outras vestes do próprio De Clare, seus filhos e o resto dos seus seguidores, muitos dos que não demorariam muito em morrer.” A mulher identificou-na como “In Dodárbrónach- A escura das augas”. De Clare ordenou então que a ignorassem, dizendo que ela viera beneficiar ao Clan Turlough para evitar a expedição contra eles. Finalmente a profecia cumprir-se-ia e De Clare e os seus foram derrotados e mortos...”
No “Cáithréim Thoirdhealbhsigh” também se fala da aparição de Badb na batalha de Corcomroe Abbey, North Clare, em 15 de agosto de 1317.

O rei irlandês recebe a visita de Aoibheall, uma Badb. Citando a Manuel Alberro em ”Diosas celtas”:
Numa descrição do S XII da Batalha de Clontarf (1014) que pus fim às guerras com os viquingues e o seu poder em Irlanda, Aoibheall aparaceu-se-lhe a Brian Ború, rei supremo da Irlanda, a noite anterior da batalha, e predisse que morreria nessa luta, que o primeiro dos seus filhos que ele visse na manhá da batalha seria o seu sucesor e próximo rei.”

Falamos de que Badb se apresenta em forma de mulher lavandeira mas como o seu nome indica, também é um corvo viaraz. Nas crenças galegas o corvo é um animal de mal agoiro, porque é um mensageiro do Além que pode anunciar a morte. Existe também a crença no “passaro da morte”, o qual se apresenta de noite laiando, falando com voz lúgubre ou cantando. A coruja também pode dar este aviso.


A Morrigan pôs-se em forma de pássaro sobre uma pedra vertical que havía em Temair Cuailnge. E falou assim (a Dom Cuailnge);
(…)
Corvos sobre os sanguentos cadáveres, chairas cheias de guerreiros mortos, heróicos guerreiros abatidos pelo pó, guerra sem fim, gado em tropel à carreira, batalhas em Cuailnge, os laios ominosos de Badb no lusco-fusco do campo de batalha, filhos mortos, maridos mortos, camaradas mortos, morte! morte!”

A deusa também se lhe aparece a Cúchulainn numa ocasião em forma de corvo, dizendo o guerreiro: -A aparição dum pássaro neste lugar é de muito mal agoiro!

Sabemos também que a morte de Cúchulainn chega (depois da aparição da lavandeira) quando um corvo se põe sobre ele.

A deusa da morte apareceu perante o herói durante o transcurso da súa vida numa ocaisão com fim positivo:

A Morrigan, na época de Cúchulainn , acostumava a interferir nos assuntos de Irlanda, instigando guerras e pelejas. Ela foi quem numa ocasião levantou Cúchulainn, quando ele era muito jovem, sobre o seu leito e quando estava a ponto de ceder ante o esconjuro mágico que estava sendo utilizado contra ele”.

Como podemos olhar Mórrigan (Grande Rainha), Badb(o corvo viaraz) e Macha (A chaira) são três manifestações “sombrías” duma mesma deusa. Uma deusa que não participa diretamente na guerra mas que interfere nos seus resultados com a sua magia na forma dum corvo viaraz. Uma agoireira de morte que costuma aparecer na forma duma Lavandeira. Uma deusa muito ligada com a morte e portanto com a transformação, o renascimento, o fim dum ciclo. A sua ligação com os cursos de água é clara, já que no mundo céltico são um limiar, uma fronteira que nos permite fazer um trânsito ao Além.

Vemos a obviedade de ser uma divindade comum nas religiões célticas. Por isso a Lavandeira aparece tambêm na Galiza, como fruto duma origem comum. Na minha opinião, esta é a identidade de Návia, que num ara vai acompanhada do epíteto Corona, quer dizer, chefa dum exército. É por isso que há também rios com o seu nome, por causa de que eram um lugar de trânsito ao Além onde se podia aparecer a deusa. De muitas más evidencias falaremos em próximos artigos.

Na Gália aparece com o nome de Cathubodva Bodua e pode ser a mesma Nantosvelta que se tem representado associada ao corvo viaraz.

E passaram milénios e passaram séculos e hoje na Galiza, a Morrigan, A Grande Rainha continua a estar presente.



Nota; Há confusão sobre a associação de Badb com os corvídeos. O corvo(Corvus corax) e o corvo viaraz (Corvus corone) não são a mesma espécie. Na minha opinião Badb está associada ao Corvus corone e Lugh ao Corvus corax, de maior tamanho.

2 comentários:

Anónimo disse...

Un relato que engancha; tanto que es necesario volver a el. Noraboa

Suso Martinez disse...

Maravilha! Suso M.

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