Mostrar mensagens com a etiqueta Carlos Solla. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Carlos Solla. Mostrar todas as mensagens

sábado, 25 de julho de 2015

Cerdedo: 80 anos triunfais



Por Calros Solla

Fotos tiradas dos blogues:
(O embigo do becho)
(Capitán Gosende) 

Abriu-se a veda do voto e, em Cerdedo, aqueles aos que lhes vai a vida nisto andam um bocado abelhoados. Há uns dias, porta a porta e com diligência, foram distribuídos os exemplares dum panfleto intitulado “2005-2015. 10 anos de governo”, outro alarde propagandístico que, encarregado pelos estrategas locais do partido da Gürtel, pagou-se, mádia leva!, com os dinheiros de todos. Com pólvora alheia qualquer faz festa.
É uma mágoa que tanto a primeira foto-novela (de 2014) como a segunda (mais carregada de bombo) não registem o nome do obradoiro de artes gráficas onde foram editadas, já que, em prol da transparência, muito conviria uma consulta para saber a quanto ascendeu a boda e a re-boda. Supõe-se que o custo há de figurar no livro de contas do Concelho (provavelmente, no apartado “Otros gastos”); infelizmente, em Cerdedo não há oposição que, embora seja por dignidade, bote as mãos á cabeça.
Bandeira de Cerdedo
Estamos às portas de que se cumpra o octogésimo aniversário do triunfo da direita em Cerdedo. O último alcaide de esquerdas, o socialista Luciano García Ventim, foi despossuído do seu cargo, perseguido, encarcerado, ultrajado e extorquido, após o golpe de Estado fascista de Julho de 1936. O seu sobrinho, Ramiro Lois Ventim, ao mesmo tempo do que outros quatros membros da mesma família, todos socialistas, foram fuzilados em dezembro do ano fatídico. Com uma moreia de mortos clamando justiça, a deriva ideológica do PSOE, aqui e acolá, é cousa inadmissível. A paróquia nacionalista também viveu épocas melhores.
Depois de anos de reiteradas e amplas maiorias, o Sogro, que foi um dos mandatários mais longevos do mundo mundial (1974-2004), despedia-se nos jornais afirmando com ufania que a sua melhor obra tinha sido a remodelação da Casa do Concelho.1 Tempo teve de reformar o castelo. Aplicando a consigna “Todo atado y bien atado”, aconteceu em Cerdedo o nepótico relevo no poder. Desde as municipais de 2007, o salão dos plenos, presidido pelo  Genro, vem sendo cenário de malheiras do tipo 10-0. Bem, sejamos justos, 10-1, pois, as boas tundas ainda são melhores se é que se adornam com o golo da honra. Contam os que o viram que é todo um espetáculo de ensaiada coreografia ver os dez bracinhos se erguerem ao uníssono.
Segundo o censo de população de 1940 (fonte: INE), o número de habitantes de Cerdedo ascendia a 5.211 (2.101 varões e 3.110 mulheres). Consoante o censo de população de 2014 (fonte: INE), a otimista cifra de cerdedenses chegava aos 1.860 (784 têm mais de 64 anos de idade (fonte: IGE)). A aplicação, durante décadas, da mesma política (“piche e pontos de luz”), auspiciada por uma intrincada aranheira de clientes, deu como resultado uma catástrofe demográfica explicitada na perda de 3.351 habitantes. Não se deixem enganar, Cerdedo não é um concelho pequeno, é um concelho despovoado.
Suspeita-se que nas próximas eleições, o panorama seja suscetível de piorar, porque, ao parecer, não há em Cerdedo quem dê um passo à frente e ofereça uma alternativa (por não haver, não há nem quem ouse erguer a voz). Outra impúdica goleada, e semanas atrás, dias ao cabo.
Ora bem, com todo o peixe vendido, como se explica a onerosa necessidade de auto-afirmação mostrada pela autoridade na sua arroutada editorial?
Capitão Gosende
A nova entrega da série “Vida e milagres” semelha um álbum Panini de 86 páginas a toda cor (e mais capa e contra-capa). Escusam andar na procura dos cromos ou perder o tempo em trocar os repetidos, porque a coleção já vem completa. Ainda assim, melhor seria que o caderno fosse mudo, porque, no tocante ao estilo (ressesso) e à ortografia (deficiente), o autor é digno candidato, já não à convocatória de maio, mas à de setembro. Mais de 100 erros ortográficos em 5 páginas de texto!!!
Na página 2, a duas colunas, começa o que, comummente, se denomina “Saudação”. Comove-nos o excesso de sentimentalismo dos primeiros parágrafos, confesso-lhes que a mim também se me humedeceram os olhos; mas, cumpre ler entre linhas. Quando a autoridade diz, de maneira redundante: “Lembro-me claramente do apoio de cada um dos vizinhos que naquele dia quisestes mostrar-me o vosso apoio...”, quer dizer, como se comprovará, que também se lembra de cada um dos vizinhos que não lhe manifestaram obediência.
Chegados ao final da página 3, se lhes solicitasse aos meus alunos de literatura que escrevessem o tema do relato, dar-se-iam conta em verdade, por “Excusatio non petita, accusatio manifesta”.
Painel indicativo  vandalizado na aldeia de Pedre, recuperada pelo Capitão Gonsende. Quem o vandalizou?
Concordo plenamente com o expressado pela autoridade no começo da página 4: 

“Também não podemos obviar que estes últimos anos, tocou-nos viver a que está considerada como a maior crise da democracia deste país”. Pode-se dizer mais alto, mas não mais claro: os anos de governo do todo-poderoso partido da Gürtel minaram de tal maneira os fundamentos democráticos que, após a pérfida reforma laboral, a sectária reforma educativa, a privatização da sanidade, o desmantelamento dos serviços sociais, a lei "mordaça" a vaga de corrução e latrocínio, um já não sabe se mora num país do primeiro mundo ou numa república bananeira (talvez, eucalipteira). Desconheço as consequências que, para as aspirações políticas da autoridade cerdedense, possa ocasionar este lapso de sinceridade subversiva.
No que diz respeita á estrita austeridade imposta desde fora, à vista das publicações que pagamos todos para enaltecimento da sua majestade, desseguida se conclui que sempre há dinheiro para o que convém.
Muito se lamenta a autoridade da desaparecida “comedela do javali”, esquecendo a pioneira “Festa da Vincha”, louvável iniciativa vizinhar, que foi raposeiramente asfixiada porque não lhe produzia rendimentos eleitorais. Se a tolerância fosse uma das suas virtudes, a Festa da Vincha, celebraria este ano a sua XV edição. A ajuda económica que recebia do Concelho (quando a recebia) era duns 600 euros, ridícula, se a comparamos com os 70.000 euros destinados a financiar cada lupanda do porco bravo. Ambas as duas, ao seu jeito, ajudavam a situar este canto da Terra de Montes. A Festa do Javali, a maiores, solicitava o voto a câmbio dum prato de comida.
Os Gosende trabalharam na recuperação de Vichocuntim por desleixo do Concelho.
Respeito dos agradecimentos pelos conselhos e pela crítica construtiva, não há de que.
O 2015 é ano profusamente eleitoreiro, portanto, faríamos bem em blindar-nos da legião de "falabaratos" que, sem deixarem de olhar-se para o umbigo, porão a prova a nossa paciência, prometendo como nunca para deixar de cumprir como sempre. Assistimos espantados à macabra constatação da sistémica corrução institucional. Dói presenciar a impunidade com a que manobram as redes gangsterís vinculadas às maiorias absolutas. Pouca justiça se pode aguardar dum dinamitado Estado de Direito. Urge regeneração, mas, quem lhe vai pór o ajôujere ao gato?
Neste tempo de justificada indignação social, os servidores públicos, os que sustemos economicamente (a alguns por cima das suas possibilidades2) para que giram assisadamente o que é de todos, deveram reger-se pelo comedimento e a humildade; deveram deixar de dar tantos conselhos e escutarem, de quando em quando, algum.
A situação terminal de Cerdedo é muito similar à relatada na lenda “A cidade submersa”, recolhida por Leandro Carré Alvarellos (As lendas galegas tradizonaes, 1969). No relato, a Virgem vagabunda pergunta-lhe a uma paisana pela decadência moral na que se some a cidade de Béria. A mulher responde-lhe: "Porque ninguém quer se pôr a mal com os que regem e mandam na vila; e uns porque se enriquecem, e outros porque vivem alegremente sem grandes trabalhos, vão-se deixando ir. E os pobres ainda menos, que nada podemos fazer contra os mais podentes... E todos os bons vão-se indo para outras terras; e assim a perdição é maior a cada día. Após escutar as explicações da velha, a Virgem toma a decisão de assolagar a cidade de Béria. Aguardemos que a Nossa Senhora de Fenosa não se lhe dê por recuar na ideia de alagar a valinha.
A tropa do Capitão Gosende
E passando nas folhas do catálogo hagiográfico, atingimos a pagina 6, remate duma longa introdução enchoupada de recorrente auto-bombo. O melhor aguardava por nós ao final, já que o panegírico deriva em libelo.
Reitero o dito, os políticos deveram fazer mais e falar menos (e escrever, a ser possível, nada). No penúltimo parágrafo, antecedendo os agradecimentos e os abraços, fruto duma inopinada transformação jekyllhydeana (desculpem o palavrão), aquela “boa pessoa”, aquele “homem responsável", aquele que pedia “mil desculpas” e que fazia “propósito cada dia para não cometer erros nem causar-lhe prejuízo a ninguém”, atacam descontroladamente contra os vizinhos que, segundo a sua opinião, “põem paus nas rodas da evolução”, qualificando-os, aliás, de “irrelevantes”, “insolidários”, “apenas dous ou três", e "Quase sempre os mesmos”, “gente que nem sequer está censada em Cerdedo”. Vindo dum alcaide, que aspira a seguir exercendo e cuja obriga é garantir a convivência, esta grosseria é absolutamente intolerável e a vontade de publicá-lo, duma infantil irresponsabilidade.
Quem é o Capitão Gosende?
Lembro-lhe á autoridade que, ainda que o incomode, seguimos vivendo em democracia e que, apesar os recortes consumados pelo seu partido, segue amparando-nos a liberdade de expressão. É evidente que a autoridade digere mal a crítica e esta doença é consequência da falta de oposição. Vc. está habituado a fazer o que lhe peta, sem atrancos, animado por uma legião de interessados aduladores. Administrar a divergência e o descontento também vai no salário. Quando se governa com mão de ferro, fazer boa política é assunto desprezível. Semear discórdia não está entre as suas competências.
Invista toda a sua energia em tirar Cerdedo do buraco no que o meteu e agradeça que haja alguém que, rara vez, lhe ponha os pés na terra. A grandeza do bom governante reside na prudência, na capacidade de consenso e em aceitar como positivo que não todo o mundo tenha por costume ou necessidade fazer-lhe as beiras.
Age Vc. enroupado por uma maioria absoluta que, se ninguém o remedia, vai revalidar nas próximas eleições; que mais é o que quer Vc.?, quebrar um recorde de permanência? Mau é não saber perder e péssimo é não saber ganhar. É consciente a autoridade de que os vizinhos, assinalados como turbulentos e proscritos, ajudam a pagar-lhe o seu salário e, aliás, queiram ou não, o seu leque eleitoral? Perante todo, não percamos a calma.
Gaba-seVc. na imprensa ponte-vedresa das pelejas que há em Cerdedo porfigurar na listagem eleitoral do partido da Gürtel. Se assim fosse, todos, sem escrúpulos, a cavalo ganhador. Mas, de aqui a pouco, como não faça por estimular a demografia, a restra dos seus candidatos e o padrão municipal hão ser a mesma cousa. Por enquanto, Cerdedo perde dous concelheiros.
Acredite quando lhe digo que, por saúde democrática, a existência do contraponto, do debate, da confrontação de ideias é imprescindível para o progresso dos povos. Portanto, evite vangloriar-se de que não tem rivais e lamente-se de governar em solidão. Não há nada mais perigoso do que o auto-deificação e Vc. já manifesta algum sintoma.
Os gosende limpando o Cruzeiro do Pego
Longe fica aquela aspiração de converter Cerdedo num Concelho-dormitório, o paraíso da segunda vivenda. Algo tem este território que afugente à gente de fora e também a de dentro. Não havendo solução, conformemo-nos portanto com a figura, meritória ou merecida, de Concelho-tanatório. Morrer há que morrer.
Retorno à sua excessiva falta de modéstia e resumo, finalmente, o balanço da sua década prodigiosa: 20 páginas de piche, 5 de concreto, 3 páginas de pontos de luz, 37 fontes, 17 lavadoiros e um lote de churrasqueiras. Sabendo que o uso da lavadora elétrica se popularizou nos anos 60, sabendo que a água da torneira é também uma conquista do passado, sabendo que a vaca se considera, em Cerdedo, fauna em extinção, sabendo que não há nem gente, nem humor, nem dinheiro, nem licença para a queima, para fazer grelhadas, os seus investimentos são, pelo menos, anacrónicos e reiteradamente inadequados. Assim mesmo, as comunidades de montes deveriam reflexionar sobre a pertinência das obras que se executam com o seu dinheiro.
A comissaria de Política Regional da União Europeia e a secretaria de Estado de Orçamentos e Despesas (a sua correlegionária) exigem “Menos concreto e mais conhecimento”; em Cerdedo, malham em ferro frio.
Calros Solla na entrada da Cova do Dragão no Pico Sacro.
Do embuste do Sangal já falei avondo. Onde estão os postos de trabalho? Onde está a parcela de monte comunal? No que diz respeito da Escola Infantil e os parques de randeeiras, é triste realidade que em Cerdedo só apareçam censados 32 nenos menores de 10 anos (fonte: IGE). Segundo vamos comprovando, a redação do catálogo dos bens culturais do recentemente aprovado PGOM (que demorou uma década) não parece feita por humanos. Na seleção dos “Ecos da imprensa” aplicou-se a censura. No capítulo “Promessas”, salientamos mais piche e, entre outras arrogâncias, a da “área recreativa” que, em ausência de projeto, anuncia-se recorrendo aos equipamentos de não sabemos onde. O papel tem conta do que lhe põem.
O Concelho de Cerdedo arrasta um problema que requer urgente solução: a perda de população (a força vital, a razão da sua existência). Chateia-nos comprovar como, alheia à realidade, a gestão municipal, muito virada para a megalomania, ofusca-se no alargamento das estradas (subutilizadas), na construção de largos, rotundas, viadutos, desvios... A burro morto cevada ao rabo. A campanha informativa “Mais em Cerdedo” de fomento do empadroamento é, evidentemente, ineficaz, porque não persegue os fins que enuncia, mas manter o status duma autoridade que não predica com o exemplo.
Ninguém lhe discute o apoio popular, e também não vamos negar o mérito de levar colado na á poltrona dez anos. A maioria é capaz de vislumbrar os seus méritos, seja como for, todos concordamos em que o nível herdado estava a rente do chão.
Calros Solla lendo o Alva de Glória de Castelão no Pico Sacro o passado 24 de Julho
No campo do Turismo, muito nos alegramos de que finalmente, tomasse consciência, no entanto, para implantar em Cerdedo um modelo de exploração turística sustentável, não chega com manter limpos os caminhos. O plano exige salvaguardar a integridade dos nossos valores paisagísticos e patrimoniais (lembre o ímpeto carvalhicida, não esqueça o AVE que nos vem acima), encher de conteúdo os roteiros de caminhada e dignificar todo aquilo que desejamos mostrar aos nossos visitantes.
Infelizmente, não somos um prodígio de hospitalidade. As aldeias esmorecem sem “horizontes”. Pedre é uma sombra do que foi. A Eira da Pena dá, literalmente, pena. As nossas florestas são couto florestal da Celulose. Os nossos rios, tragadeira das hidroeléctricas. O Museu da Pedra pouco mais tem do que a sua ambiciosa denominação. Como é possível que não se apresentasse qualquer alegação á desfeita que a linha do TAV vai causar na Freguesia de Pedre? É o primeiro caso de abuso institucional no que os vizinhos afectados respondem com o silêncio. Por algo será. Desde o Concelho concede-se-lhe mais relevância a um “passeio bio-saudável” do que ao bem-estar do povo e á integridade das aldeias.
Apresentação do livro de Calros Solla "A Conxura dos Gosende".
Conseguir que Cerdedo se converta em destino turístico implica discernir a nossa singularidade, criar uma mínima infraestrutura, dotar-se duma equipa humana solvente e implicar os vizinhos, fundamentalmente, a hotelaria local (em franca decadência). Devemos, o antes possível, limparmos o vitupério de que em Cerdedo “nada vai adiante” (serve-nos de exemplo a arruinada escola de parapente). Por outra parte, constatada a sua habilidade negociadora, um plano de industrialização que, verdadeiramente, achegue prosperidade e postos de trabalho, vai continuar sendo uma quimera.
O coletivo Capitão Gosende leva anos trabalhando a prol da investigação e promoção cultural de Cerdedo e, sendo conscientes das muitas limitações, demonstrou que o sistema funciona. Os frutos da experiência oferecem-se debalde para quem os queira pôr em prática. Lembro-lhe, com orgulho, uma pequena mostra do labor realizado: mais de 2.600 pessoas guiadas pelo monte do Seixo, a Montanha Mágica, e perto de 600 pelo “Pedre milenário”. Estas actividades, desenvolvidas com humildade e sem ânimo de lucro, deixaram riqueza em Cerdedo.
O espaço arqueomítico do Seixo, convertido com esforço e graças á Internet num referente, segue sendo para Vc. um interessado e patético parque eólico. A montanha do Seixo abrange cinco concelhos (clônicos), contudo, Capitão Gosende sempre fez por priorizar os interesses de Cerdedo.
No que diz respeito das descobertas, sumamos 10 gravados rupestres e a localização de sete depósitos castrejos em Cerdedo. Muito mais não se lhe pode pedir a um entusiasta voluntariado. Esta “pandillita” faz honra da sua independência. Poder-se-á conseguir mais ou menos objetivos, mas, pelo menos, nós não chuchamos da teta do erário. Pela contra, a sua Concelhalia de Cultura, valendo-se dum mausoléu subutilizado, não programa outra cousa do que cultura enlatada.
A ponte do Santo António data de época medieval, quer dizer, um bocado anterior da sua chegada ao poder. Os recursos naturais e paisagísticos, dos que tanto se vangloria (e ao mesmo tempo desvirtua), antes de figurar no seu programa, já constavam no primeiro livro da Bíblia.
Em conclusión (2005-2015): 10 anos máis, uns 500 cerdedenses menos.
1 La Voz de Galicia, 18-9-2004.
2 En Cerdedo: soldo, dietas e gastos de representación, uns 60.000 euros anuais (Faro de Vigo, 25-4-2015).
3 Faro de Vigo, 30-1-2014.

domingo, 13 de abril de 2014

...e se o Monte do Seixo fosse o Medúlio?



Por Carlos Solla
https://www.facebook.com/calros.solla


A Blanca García Fdez.-Albalat, André Pena Granha e José Manuel Barbosa, com amor



A Terra de Montes –no antigo, Montes Meta– foi a pátria dos metácios, um dos povos celtas da Gallaecia (ou Kalláikia), imortalizados no Parochiale suevum, Divisio Theodomiri ou Concilium Lucensis, ata que dimanou do Concilio de Lugo celebrado o dia de Ano novo de 569.

O topónimo Montes Meta é um oro-topónimo tautológico, quer dizer, a forma Meta também significa “montanha” “elevação”. A expressão latina Montes Meta é o resultado de identificar como “monte” uma realidade já reconhecida como tal em língua celta.
Concilio Galaico-Suevo com Martinho de Dume como guia.

As raízes *med-/*met- célticas aparecem em inúmeros oro-topónimos galegos: Meda, Medo, Medeiros, Medela, Medelo (sem irmos muito para além, no vizinho Caroi-Cotobade)..., dando testemunho da sua rendibilidade sustratística (E. Rivas Quintas, 1982).

Por outra banda, o sustantivo meta-ae latino significa “coluna cónica” ou “extremidade” “termo”. Compare-se com o irlandês metho “fito de deslinde”.

F. Cabeza Quiles (Os nomes de lugar, 1992, pág. 259) diz que o vocábulo “meta” pervive na toponímia de Galiza dando nome a elementos de topografia mais ou menos cónica que são sempre montes e montanhas.

Uma meda (metoca ou metouca), termo agrícola, (1) Conjunto cónico demolhos, principalmente de trigo e de centeio, ainda que também podeser de milho sem a maçaroca, que se coloca ao redor de um pau, com o objecto de que se sequem. Diz o refrão: Homem caçador ou truteiro, nem boa meda nem bom palheiro.
Meda

Cónica é a feição do monte do Seixo (Outeiro do Coto, 1.015 m), alviscado desde a estrada de Cerdedo a Soutelo de Montes e, parafraseando a Floro e a Orósio, a 30 km em linha reta –de cara ao NO– do rio Minho (Riba d'Ávia). O próprio Cabeza Quiles acrescenta: Topónimo notável, que pode provir da prolífica “meta” latina, é o do mítico monte Medúlio [...] que ainda que de difícil ou impossível localização há de ter forma cónica (páx. 260). Meda, medorra, medonha... são outras formas com as que se nomeia uma mamoa, sepultura neolítica, v.g.: Chão de Mamas, no alto do Seixo.

O verbo latino metor significa “fixar os lindes” “chantar fitos”. Tomando em consideração ambas as duas soluções, a Terra de Montes, Montes Meta, traz implícito o significado de “montanha cónica que serve de fronteira”. Mas, fronteira de que?


Voltemos ao Parochiale. Neste documento, recolhe-se a divisão paroquial –as treze cadeiras– que a “potestas” sueva arbitrou para o reino da Galiza no século VI, reconhecendo Lugo como diocese metropolitana, a semelhança de Braga. A província romana da Gallaecia segregava-se, após o sínodo, em duas sés arcebispais, Lugo e Braga, respeitando as áreas de influência destes dous antigos conventos jurídicos romanos. A sé de Lugo vai perder o seu caráter de metropolitana depois da época sueva.

Mapa físico da Comarca de Terra de Montes.
Na romanidade, as derregas do conventus lucensis e do conventus bracarensis adaptaram-se aos acidentes naturais do país (o terceiro dos conventus era o asturicensis, a Galiza do leste). Desde o oeste, os lindes seguiam o vale do rio Lérez –ou o do rio Verdugo– e as serras interiores da atual província de Ponte Vedra (a serra do Cando e a serra do Candão), fontes fluminum, atingindo de cara ao leste as ribeiras do Sil. Como se deduz, a tribo dos metácios, os indígenas da Terra de Montes, se assentavam em prédios fronteiriços.

No momento de organizar a província da Gallaecia, a autoridade romana valeu-se duma mais antiga divisão política (oinaikoi) de época celta. A federação de territórios políticos (trebas, mais tarde civitates, populi) na que se adscreviam os metácios era o oináikos Growion, localizado ao sudoeste da Kalláikia, tendo como capital a Bracara (Braga). Ainda pertencendo á dita federação, os metácios (uma das tribos dos artódioi) habitavam a carão da marca do oináikos Ártabron, a federação céltica do norte, com capital em Lucus (Lugo). Já naquela altura, a estrema estava debuxada pela ria de Ponte Vedra, o rio Lérez e as serras do Cando e Candão. A treba metácia viveu, portanto, desde a mais remota antiguidade, no limes, no cabo dum território e no começo do outro. (Consulte-se: Atlas histórico da Galiza, Barbosa-Gonçales Ribeira, 2008).

Assumido o cristianismo pelo povo suevo –muitos galaicos já eram priscilianistas desde o século IV–, o rei Miro (570-583) fez realidade o projeto de seu pai, Teodomiro, de organizar a Igreja nacional sueva. O plano reestruturador contou com o apoio do influente bispo Martinho de Dúmio (515c-580c), flagelo do arianismo de Ájax –“o inimigo da fé católica e da Divina Trindade”, segundo o cronista Hidácio–, impulsor, que foi o dumiense, da conversão religiosa dos bárbaros do Noroeste.

O reino suevo da Galiza ficou dividido em treze “sedes” (hoje, dioceses). Cada uma das “sedes” dividia-se à vez em “dioceses” (hoje, na Galiza Compostelana, comarcas ou arciprestádegos).
As treze Sés galaicas em época sueva.

Segundo se lê no Parochiale, à diocese de Íria, inserida no arcebispado de Lugo, correspondia-lhe a gestão do seu próprio território e o das paróquias (antigas trebas celtas) dos Morracio, Salinense, Contenos, Celenos, Metacios, Mercienses, Postamaricos (Coporos, Celticos, Bregantinos, Prutenos, Prucios, Besancos, Trasancos, Lapaciencos e Arros); todos eles etnónimos.

No Chronicón Iriense, composto em época posterior (sécs. XI-XII), corroboramos a atribuição da Terra de Montes à diocese de Íria por parte do rei Miro: Mirus Rex Sedi suae Iriensi contulit Dioeceses, scil. Moracium, Salines, Moraniam, Celinos, Montes (Terra de Montes), Mertiam, Taberiolos (A Estrada), Velegiam, Loutum, et Pistomarcos, Amercam, Coronatum, Dermianam, Gentines, Celtagos, Barchalam, Nemancos, Vimiantium, Salagiam, Bregantinos, Farum, Scutarios (Cotobade), Dubriam, Montanos, Nemiros, Prucios, Visancos, Trasancos, Lavacengos, et Arras, et alias, quae in Canonibus resonant.

Baixo o reinado de Afonso II o Casto (760c-842), acha-se em Íria Flávia (ano 813), capital da diocese, o suposto sepulcro do apóstolo Santiago. As constantes razzias viquingues vão propiciar, posteriormente, o traslado da sé iriense –e dos veneráveis despojos (com certeza, de Prisciliano)– a Compostela, que se vai converter em metropolitana no transcurso do século XII, em tempos de Gelmírez, e até os nosso dias.
Porta Nigra em Trier onde decapitaram Prisciliano.

Recuemos de novo no tempo. Durante as campanhas militares que o Imperador romano Octávio Augusto (63 a. C.-14 d. C.) levou a cabo no norte da Península, aconteceu, num lugar impreciso, mas montuoso, do interior da Galiza, a célebre batalha do monte Medúlio, decisiva na conquista do território galego.

Por volta do ano 20 a. C., os superviventes daquele feroz combate resistiram afoitamente o delongado assédio ao que os someteram as legiões romanas de Caio Fúrnio e Públio Carísio. Os celtas da citânia do Mons Medulius preferiram o suicídio –depois da ingesta de bagas de teixo–, antes de se entregarem com vida ao inimigo: “Denantes mortos que escravos”, escreveria Castelão. Lembremos que o episódio de Trentinão, a mítica vila assolagada do Seixo, amenta os romanos no alto da montanha. Na mesma, ergue-se majestosa a peneda fortificada do Castro Grande.

Se atendemos a uma das etimologias propostas para Medulius (Mediolanum), este viria significar “a chaira do medio” “lugar central”. A profesora Blanca García Fdez.-Albalat descreve o mediolanum, por causa das suas características, como lugar assembleário, cenário ritual, santuário, feira, foro, oenach, onfálica encruzilhada...
Blanca Garcia Fernández-Albalat

Chegados a este ponto, a vista volve-se de novo, sem esforço, para ao alto do Seixo, para ao cruzamento de Portalém (a porta do Outro Mundo), cara o Marco do Vento, descomunal pedra-fita (a trebopala), ali, na Feira Velha, onde como diz a lenda, todos os ventos dão a volta.

Desde tempos imemoriais, os 30 m3 de pedra de granito do Marco do Vento (ou Marco do Seixo) –6 m de altura– e as cruzes de termo gravadas nas suas faces vêm exercendo de chanta divisória. A chaira onde se ergue, relanço sacro, terra de ninguém e de todos, confluência de caminhos, foi senlheiro cenário do ciclo festivo celta. Os metácios, o populus que morou na redonda da montanha, condensam no seu nome o caráter singular dos que habitaram ao pé do outeiro da marca, na fronteira final.
Portalém, na Montanha Sagrada do Monte do Seixo (Cerdedo)

Muitas são as candidaturas apresentadas para acolher o nemeton meduliano, mas nenhuma tão ricamente adubada como a proposta pelo monte do Seixo. Quem dá mais?















Publicado n’O código da vincha. Retrincos da intra-historia de Cerdedo,

2012, páxs. 159-63.



* *




terça-feira, 23 de abril de 2013

O culto às Deusas Mães Galegas


Por Carlos Solha

Aproveitando o relanço da Semana Santa -Luceira Túrvia, como a nomeiam os canteiros da cerna, pois “túrvios” somos os pecadores-, espremendo-lhe, digo, todo o sumo ao lazer, fiz repouso em Cerdedo e ali partilhei um gostoso jantar adubado com sobremesa paroleira. Muito dão de si os latriques cafeinados.
Quase ainda não tinha engolido duas xícaras e um sorvo dum Porto, quando uma das comensais, bem aproximada aos setenta, soltou uma expressão que fez esticar as minhas orelhas do etnógrafo lupário e as daquele neno que fui.
A informante involuntária andava na porfia de apaziguar um pequeno malandro, uma miga consentido. Esgotado o repertório da “supernanny”, a avó, revirando a criança, espetou-lhe: “Se não te aquietas, ponho-te fora para que te leve tua mãe galega!”.
As primeiras são as "Matres" de Bibracte, cidade do povo celta dos Aedui da Gália
Olhem, eu não lhes fui um santo e meu irmão pequeno, também não. Na aldeia, andávamos, entre outros apelidos, pelos Zipi-Zape... Escuso portanto, oferecer ao leitor muitas mais explicações.
Sendo como éramos afilhados do demo, muito sabíamos de ameaças. Que eu lembre, minha mãe tinha foro com o homem do saco, com a bruxa do moinho dos Montinos, com as aranhas, com o lobo, com o tio Gardunho, com os bichos peludos, com a Sisocorda, com o homem das barbas, com o cocão, com a Ramuda, com o Sacauntos... e, na casa, escutávamos chamar por eles a cada pouco.
O ritual da invocação sempre se acompanhava do brandir duma chinela, duma escumadeira ou duma vassoura. Costumes que a moderna sociedade foi extinguindo, pelo medo ao que dirão. Hogano, leva-se mais o do “colegueio” e a negociação inter pares. Intuo que os enxebres assusta-nenos, a poder de reclui-los no ostracismo, já devem ter procurado outras ocupações, ou outras latitudes.
Mais, amentar a “mãe galega” para amedrontar um menino era-che uma circunstância novedia, daí que a minha má consciência de pilhabão optasse, de primeiras, pela alerta “Defcon 1”.
Uma vez racionalizada a situação, sobreveio-me a impressão de ter escutado uma das muitas expressões ofensivas com as que os de fora, batujando no estereótipo, nos presenteiam cada pouco. Recomendo para o particular a leitura da coleção de ensaios intitulada “El gallego, Galicia y los gallegos a través de los tiempos (1985), da autoria de José Luís Pensado.
Era inconcebível que aquela avó reconviesse o seu neto chantando-lhe que, de não mudar a conduta, o ia botar à rua para que a sua verdadeira mãe –de nacionalidade galega- o aturasse. Mulher da vida?, filho de trás da silveira?...
Não me contendo, perguntei. Com o riso nos lábios, a mulher respondeu-me que o que acabava de ouvir era um dito velho e que sua mãe e a mãe de sua mãe também o empregaram nas retesias domésticas. Assim, mesmo, acrescentou que desconhecia o significado da locução e que, inconscientemente, fazia uso dela com o objetivo –infrutuoso- de endireitar os cativos que deixavam ao seu cuidado. Quando lhe enumerei a restra de assusta-nenos que empregava minha mãe comigo, disse-me que habitualmente eram requeridos também por ela, que toda ajuda era pouca para encarreirar as novas gerações: “Estes já não se assustam com nada, estão afeitos a ver de todo na televisão”.
Já na casa, procurei informação sobre a “mãe galega” e, suspeitando a demonização dum antigo númen indígena, após muito remexer, fui dar com o nº 3 de El Eco de Galicia (Revista Semanal de Ciencias, Arte y Literatura), editado na Havana em 16 de julho de 1882.
Na página 2 da nomeada publicação, reparei no titular “Las Madres Gallegas” e, assim que comecei a leitura do artigo, assinado por M. Esmorís, fiquei atordoado:
En casi todo el territorio de Galicia puede decirse sin temor que no hay madre alguna que no haya intimidado alguna vez a sus inocentes hijos con la legendaria frase de “Busca a tu madre gallega”. Cuando sucede esto, es que el niño ha cometido alguna falta reprensible y después de regañarle fuertemente, si aún no se muestra arrepentido, entonces se le lleva a la calle, se le cierra la puerta de la casa y entre otras amenazas, aún hoy se usa la de “Busca a tu madre gallega”.
Aufanian Matrónae do templo romano de Görresburg, Nettersheim (Rheinisches Landesmuseum Bonn).

Como podem imaginar, não desapeguei os olhos do texto até a sua conclusão. Acrescentamos, portanto, umas passagens do mesmo por considerá-las de grande interesse:
As “Mães Galegas” trazem a sua origem das divindades célticas sob cuja proteção se punham os celtas, designando-as com o nome do terreno que ocupava cada tribo [...] Com o transcurso do tempo, os homens estudiosos e afeiçoados ao conhecimento das antiguidades, a força de investigações e de trabalho, chegaram a nos provarem com dados muito seguros, a existência das “Mães Galegas”, que foram representadas ordinariamente por três donzelas, levando nas suas mãos, flores, frutos e pinhas.
Murguía o ilustre historiador galego, que possui muitos e eloquentes dados em matéria de antiguidades, traz na sua obra “Historia de Galicia”, copia de uma inscrição que foi achada perto da Crunha e diz assim: T. Fraternus / Matribus / Gallaicis / v. s. l. m. “Tito Fraterno pagou de boa vontade o seu voto às “Mães Galegas”.
As “Mães Galegas” são divindades da mitologia céltica a cuja intervenção e poder nos destinos da humanidade deveram render culto das suas crenças os idólatras, nossos progenitores, avezados ao fatalismo e à heroicidade por temperamento e pela educação do povo do qual procediam...
Desde aquela altura, os celtas galegos, cedendo no entanto ao contato contínuo e preciso de outras tribos irmãs [...] legaram a sorte dos seus filhos às “Mães Galegas”, e a través daquelas gerações que variavam em costumes e em crenças, sem se darem conta elas próprias, ficou, apesar dos conquistadores, como uma reminiscência, como uma vaga lembrança de primitivos dogmas [...] quando duma forma ou de outra, fazem uso do dito vulgar “procurar a tua mãe galega”.
M. Esmorís, autor do artigo, vincula a inscrição votiva à cidade da Crunha, mas, consoante as minhas pesquisas, a vila onde se achou o epígrafe lapidário foi “Coruña del Conde”, na atual província de Burgos (prédios da antiga Gallaecia). Consultem-se no que diz respeito a Júlio Núñez Marcén e Álvaro Blanco (2002) ou o artigo de Joaquín Gómez-Pantoja titulado “Las Madres de Clunia” (1999). 
As chamadas "Mães Galegas" ou "Matribus Gallaicis" estão no Corinium Museum de Cirrencester (Inglaterra).
Em Núñez-Blanco, lemos: O mais interessante é o sobrenome que as “Matres” receberam em esta ocasião, “Gallaicis” e que parece obvio relacionar com os epítetos de caráter étnico ou de “nacionalidade” [...] Longe de se tratar de dedicatórias tópicas [...] parece mais lógico explicar este tipo de testemunhas como uma tentativa por parte de um “estrangeiro” de “atrair sobre si a benevolência das deusas protetoras do seu povo”
O lugar onde se erigiu ou achou o altar tem uma importância relativa. O substancioso do achado acouta-se ao contido da inscrição. Um galego de há 2.000 anos, longe ou não do seu lar, encomendando-se às deusas, às nossas Mães Galegas.
J. Gómez-Pantoja, no citado trabalho, enumera os atributos com os que habitualmente eram representadas as Deusas Mães: “cestas de frutos, cornucópias, pão, moedas...”, acrescentando que estas ctónicas divindades são advogosas da fertilidade, da prosperidade, dos negócios..., atingindo as virtudes salutíferas doutras deidades aquáticas (ninfas): fertilidade, fartura e saúde. As Deusas Mães vinculavam-se aos mananciais mineiro-medicinais, aos ilhós salutíferos, às burgas, muito abundantes na geografia galega, “benéfica exsudação das divindades da Terra”.
A Mãe Galega é uma deusa trinitária. A tríade divinal que, desde o alvorecer do nosso tempo, rege no tradicional panteão galego, revela-se em Cerdedo, não só na fraseologia popular, mas também no folclore petrificado, adubo conatural deste bento território.
Cumpre, daquela, lembrar a tripla manifestação da Moura já consignada para o monte do Seixo, montanha da prodigalidade: a Moura Pirocha, a Moura do Castro Grande e a Moura da Laja-Moura.
A Moura Pirocha, donzela, arquétipo da pródiga primavera; a Moura do Castro Grande, a mulher madura, adscrita ao verão, ao tempo da colheita, e a Moura da Laja-moura, venerável anciã, a Velha, sábia oraculária, identificada com o inverno: “Ainda vai vir muita chuva, que brilham as pedras do Seixo”, diz-se em Cerdedo.
A Moura Pirocha, explícita, tombada ao cumprido sobre a sua almofada de pedra; a Moura do Outeiro do Castro, núbil, casadoira, custódia de riquezas nunca inventariadas; a Velha da Laja-Moura, fazedora do arco do céu que, fincado naquela fatídica peneda do monte de Meilide, abaixa o lombo para abeberar nas aguas do poço Fumegas, góio do rio do Seixo.
A mesma Moura, humanizada baixo o antropónimo Maria: Mari Diz, a costureira afogada no tremedal da Mulher Morta, em Gestido; A Maria Diz da Serra da Mulher ou do Cordal do Testeiro (Forcarei); a Maria Miguez da Cuinha de Vidoido (Cerdedo); a Maria Amena das lombas da Cima-da-Vila (Caroi-Cotobade); a Marimanta, a Marujaina; a Maria evocada no principiar dos melhores contos: “Em tempos de Maricastanha...”, aquela pretérita idade na que a Deusa Natureza acaparava toda a nossa atenção.
A Deusa Mãe Terra, uma e trina, a semelhança das três Marias que esconjuram o enganido infantil à roda dum cachopo carvalhão, na fronde da aldeia cerdedense de São Bernabeu (advocação substitutiva), ou de redor duma mesa propiciatória.
As Três Laranjiñas do Mar, as Três Mouras, as trigémeas da fonte das Donas de Vidoído (Cerdedo); Ana, Aureana, Ana Manana... Quem sabe se a expressão “Madre!” “Minha Mãe!” ou as suas castelhanizações “Mi madrinha!” (ou “Mimá!”) não serviram para exortar o seu valimento.
O culto á Deusa não é uma religião, mas ao contrário, é a porta do auto-conhecimento, como indivíduos, como povo. O dia no que os galegos lhe viramos as costas á Mãe Galega, e optamos pelo culto aos bonecos procissionantes, trocamos, abofé, os olhos pelo rabo.



segunda-feira, 9 de julho de 2012

Sobre a Montanha Mágica de Carlos Solla


Por José Manuel Barbosa

Há muitos anos, lá pelos 70, li numa revista de divulgação a referência dum livro do cientista britânico Barry FellAmerica B.C. Times Books, New York 1976” que descobriu que a América puderam ter chegado naves e pessoas de procedência europeia, norte-africana  e do Próximo Oriente em épocas pré-romanas. Procurei o livro e pôde lê-lo. Nele dizia-se que Fenícios ou Cartagineses, Líbios, Egípcios e Celtas da Península Ibérica (Kalláikoi??) poderiam ter deixado as suas pegadas em contruções, gravações em pedra, santuários e mesmo nas línguas dos nativos. Se isto tivesse sido assim, o conceito da história mudaria radicalmente não só no que diz respeito de como se transmite o conhecimento do passado, mas também em relação ao vínculo transatlântico euro-americano (concretamente celto-americano que nos atinge) e ainda a visão do homem sobre o seu passado em geral.
Muitos anos para além, na época na que isto escrevemos, outra investigação científica levada por uma equipa do Supreme Council of Antiquities and the American Research Center in Egypt (ARCE) chefiada pelo egiptólogo de nacionalidade egípcia Zahi Hawass tivera a ousadia de estudar o ADN do faraó Tutancâmon que viveu no Egito de há 3.300 anos. Nele descobriram um vínculo genético comum com os atuais irlandeses e também com os “spanish” como diz uma notícia num jornal inglês que consultei. Mas tendo em conta que neste outro jornal digital que também consulto, o  “The European union times” (http://www.eutimes.net/2010/06/king-tuts-dna-is-western-european/), se relaciona no cabeçalho o Rei Tut com o Oeste europeu por possuir o Haplogrupo R1b ou R1b1, é evidente que quando se fala de “spanish” não nos estaremos a referir que ele terá vínculos com os valencianos ou os murcianos, sobretudo se é que o R1b tem a sua máxima concentração nas Ilhas Britânicas, na Armórica e na velha Kalláikia.
São estas as notícias que nos jornais espanhóis passam muito desapercebidas porque não é de interesse da gente que chefia este projeto nacional com o que parece que nada temos a ver os galaicos a não ser à hora de pagar impostos, fazer parte do exército e berrar “yo soy español” quando uma equipa desportiva ganha algo. Esta notícia sim deveria ser do interesse dos galegos e mesmo dos asturianos e cântabros porque algo vai com eles...connosco.
Por outra parte, conta-se que a “Liath Fàil” ou “Pedra do Destino” era a pedra sobre a qual se coroavam os reis irlandeses, escoceses e mais atualmente ingleses. Ela estava unida indefetivelmente ao poder de Deus que lhe dava legitimidade à monarquia que a possuir. O seu protagonismo na história bíblica de Jacobe, quem dormiu sobre ela e teve o seu famoso “sonho de Jacobe” é indiscutível, e conta a lenda que esteve nas mãos do povo de Israel durante a sua estadia em Egito até a fugida dos hebreus para a terra de promissão. Só foi quando os israelitas estavam a cruzar o Mar Vermelho que o general egício Haythekes conseguiu roubá-la e após diversas aventuras acabou na Galiza onde os reis brigantinos legitimavam o seu “Coronno” como o autêntico monarca. Com as invasões dos brigantinos (também conhecidos nas Ilhas com o nome de “Milésios”) na Ilha de Irlanda a Pedra chegou até lá e era em Tara onde os reis irlandeses recebiam o seu poder  no outeiro da Macha. De irlanda passou-se para a Escócia e dali a Inglaterra onde os reis ingleses se coroavam...
Curioso é o que diz a lenda. Nela diz-se que a Escócia não ia ser independente enquanto a pedra ficasse em mãos inglesas... É após quase três séculos que a pedra foi retornar a velha terra dos Pictos e dos Escotos, a velha Caledónia, quando estamos a falar novamente da independência dos nossos irmãos do Norte. Nada disto interessa a Espanha, mesmo sendo uma história que em parte se desenvolve no “seu” território. Lembremos que Galiza é “españolísima”. E é por isso pelo qual e com toda a probabilidade o livro do nosso amigo Carlos não vai interessar muito em Cuenca ou Valhadolid, mas pensastes o que é o que pode dizer-lhe a um galego inteligente e consciente que ele possa ter parentesco com o Tutancâmon? Ou que a história do nosso País esteja vinculada ao “Liath Fàil” onde se coroabam os reis brigantinos? Ou que tenha consciência de que os nossos antepassados galaicos puderam ter chegado em época pré-romana a Iowa ou a Massachusetts para construírem santuários?
A tudo isto, só dizer uma última cousa: a vida dá muitas voltas e o que hoje pode passar desapercebido e pode não ter interesse, amanhã é o centro das atenções de todo o mundo da cultura, da arte, da ciência...por isso não seria errado se vos fazeis com o livro do meu amigo Carlos Solla “O Monte do Seixo. O Santuário perdido dos celtas”. Comprai-o e procurai que é o que significa a história do “Pecheche, o boi dos três cornos”, ou informai-vos de quem era “Boucigha”; ou mesmo o que é o que se esconde em “Portalém”, quer dizer, “na porta do Além”. Fazei, e depois falamos. Quiçá possamos descobrir vínculos que vos resultem saborosos e vos façam pensar que lá pelo vosso ADN correm parentescos Reais-faraónicos e lendas perdidas no tempo mas nas que algum dos vossos antepassados foram protagonistas. Comprai, e se sonhais e se vos põe a pele de galinha é que algo haverá...

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...