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sábado, 2 de novembro de 2024

O Magusto (e não "Samaín"): a autêntica tradição celto-galaica

 

A tradição Celta apresenta quatro festas que coincidem com o ponto central de cada estação, cujos nomes são: Samhain, Imbolc, Beltaine e Lughnasadh, mas esses nomes são gaelicos e não têm qualquer tradição galega, nem sequer são nomes de tradição britónica (galesa, córnica ou bretã) cujos nomes são outros e não por isso são menos celtas. O que têm tradição são as festas por si próprias cujos nomes galegos são:

Magusto (11 de novembro),

Entrudo ou Entroido (festa de fevereiro)

Maios ou Maias (festa de Maio)

Seitura ou Centeada (esta última corresponde com a festa do verão do 15 de agosto que se celebra em todas as paróquias galegas, portuguesas, asturianas e leonesas).

Nas diferentes tradições célticas britónicas os nomes são os seguintes:

(Festa de novembro) Calan Gaeaf (C), Kalan Gwav (Ker) y Kalan Goañv (B).

(Festa de fevereiro) Gŵyl Fair y Canhwyllau (C), Gong Puja (Ker), Emwalc'h (B).

(Festa de maio) Calan Haf/Cyntefin (C), Kallan-Mae/Obby Oss (Ker), Kala-Mae (B).

(Festa de agosto) Gŵyl Awst (C), Golowan (Ker), Gouel Eost (B).


(C=Cymru, Walles, Gales; Ker=Kernow, Cornwall, Cornualha e B=Breizh, Bretagne/Brittany, Bretanha)

A roda do ano céltico em britónico galês

A evidência da correspondência nos dias só há que comprová-lo observando um calendário de outubro de 1582, quando se fez a mudança do Calendário Juliano, para o Gregoriano. Assim do 4 de outubro, passou-se ao 15 de outubro. Com um pequeno exercício contável observaremos que o 1 de novembro juliano corresponde ao 11 de novembro gregoriano atual, com o qual relacionamos imediatamente a data tradicional da festa em questão, que na tradição galaica e portanto galego-portuguesa, recebe o nome de Magusto e variantes, na gaélica Samhain e variantes e na britónica Calan Gaeaf e variantes

Se pomos um nome irlandês (nem sequer gaélico escocês ou manx) é porque Irlanda é um país independente e tem um relato próprio, referência do mundo celta internacional. Se nós tivéssemos relato chamaríamos a estas festas com o nosso nome, não "Samaín", que é uma péssima cópia do original "Samhain"... (aliás a pronúncia é "xouim", não samaín). E, infelizmente , isto vai às escolas para criar galegos que nem vão saber no futuro que era o Magusto (vão pensar que os seus avós celebravam uma festa gastronómica com produtos de temporada), nem vão saber que o português era o nosso galego quando este desaparecer da Galiza. 

 




segunda-feira, 24 de novembro de 2014

O Magusto Celta de Pitões das Júnias














Por José Manuel Barbosa.

Sabido é que o mês de novembro é o mês no que os galegos celebramos o Magusto. Desta vez tivemos a oportunidade de recriar como poderia ser uma celebração desta festividade num passado mais ou menos longínquo e tentamos fazer. Com certeza que há de haver alguma falta ou algum erro mas esses vamos procurar ir limando isso pouco a pouco segundo vamos organizando mais. Queremos deixar com isto muito claro que tudo o que em Pitões fizemos nada tem a ver com qualquer ritual religioso legalmente constituído. Nem somos sacerdotes de nenhuma religião nem queremos sê-lo. Tentamos simplesmente reconstruir seguindo critérios de investigação mas nunca levarmos a cabo atos prescriptivos nem preceptivos.





Contamos-vos: A organização levou-nos semanas... mesmo meses e com a ajuda dos nossos amigos de Pitões e do grupo reconstrucionista Oinaikos Brakaroi onde os nossos também amigos Francisco Boluda e o Xavier Bobillo foram fundamentais no arranjo do evento. O primeiro que fizemos foi reunir à gente no Salão de Atos da Junta de Freguesia para dar-lhes um explicação do que é e significa o Magusto para nós, galegos e portugueses. Com um simples PDF demos uma visão do que para nós é a festa que nos outros países celtas recebe o nome de Samhain na Irlanda, Samhuinn, na Escócia, Hop tu Naa na Ilha de Man, Calan Gaeaf no Gales, Kalan Gwav na Cornualha, e Kalan Goañv na Bretanha) e os vínculos existentes entre todas as variantes atlânticas da festividade.
O positivo do assunto foi que mesmo a gente da aldeia quis recuperar nomes perdidos há milénios sentindo a chamada dos ancestrais e dum passado remoto que vive ainda no nosso subconsciente coletivo.
Acabados de explicar sobre o assunto e torcendo pela denominação de Magusto em vez de pelo nome incorreto mas muito popularizado na Galiza por causa do sistema de ensino "Samaín" procedemos a oferecer ao todos os participantes uma lista de nomes galaicos recolhidos nas aras achadas em época galaico-romana onde aparecem nomes de pessoas, tanto de género masculino como feminino, nomes como: Nicer, Klutamo, Kaitia, Maturo, Loucia, Atlos, Katueno Fronto, Avia, Boutio, Kaila, Klutamo, Ammia, etc... (comentar-vos que de agora em adiante eu sou Katuro).
 Finalizamos o batizado por volta das 14:00 horas que foi quando na Taberna Terra Celta da Margarida e o Bruno pudemos desfrutar dum jantar (segundo a moda transmontana e galega mas pequeno almoço segundo o padrão) onde não faltou o presunto barrosão, os cogumelos, queijinho, alheira, caldo transmontano e picadinho de carne de vitela. Os participantes pudemos desfrutar das conversas e das não mesmos engraçadas tormentas de ideias próprias destes casos que nos levaram a acrescentar atividades para enriquecer e melhorar o evento.De tarde já e preparados os elementos com os que íamos trabalhar vimos aparecer o espetacular Sol de palha e cana que íamos queimar queimar essa noite.
O simbolismo é a queima do Velho Sol, quer dizer, do ano velho. Ao lado dous crânios de vacas barrosãs que simbolizavam a prosperidade duma sociedade que vive entre outras cousas da ganadaria.  Fizemos colares com castanhas e landras (bolotas) e fitas vermelhas para identificar no tempo o primeiro Magusto Celta de Pitões.
Uma vez chegada a noite desfilamos pela aldeia com o estandarte solar e os crânios de vaca pedindo "longa vida aos nossos mortos" e pedindo prosperidade futura.
Chegados ao Largo do Eiró e já com o lume acesso chantamos o estandarte solar no meio da praça e preparamos a churrascada com febras, pão do Barroso, vinho, jeropiga e doces feitos pela nossa amiga Marta Delgado. A música do grupo de gaiteiros fez que a gente bailasse ao redor do Sol Velho ainda com algo de chuva sobre as nossas cabeças. Tivemos o temor de que a palha ficasse húmida impedindo que o Sol pudesse ser queimado. Foi por volta da meia-noite quando queimamos o Sol Velho (o Ano Velho). Ardeu dificilmente por causa da chuva mas ardeu. Posteriormente pudemos desfrutar do Celti-Rock de Pitões, com música de grupos de música celta.Contamos com o seguimento informativo da TV Barroso quem por meio do nosso caro João Xavier e da sua equipa teremos informação pontual para toda a região. Igualmente e por obra e graça da net também vamos poder estar informados em qualquer outro lugar do mundo,... evidentemente, também na Galiza onde com total probabilidade vamos estamos atentos já que este tipo de festividades têm por finalidade recuperar na medida do possível aquelas tradições galego-portuguesas que nos vinculam à natureza, ao nosso passado histórico comum e nos unem mais uma vez neste nos
so espírito céltico e atlântico ao qual nunca deixamos de pertencer por direito.
O resultado final foi ótimo mas serviu também para que outros anos possamos adequar ritualmente e temporariamente o nosso evento com intuito de perdurar no tempo.





quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Vida despois da morte


Por David Outeiro

Evidencias científicas e a sua realidade no mundo celta


E se tivesses estado dormindo? E se, enquanto dormias, tivesses sonhado? ¿E se nos teus sonhos, tivesses ido ao céu e ali tivesses apanhado uma estranha flor? E se, ao acordar, tivesses a flor nas tuas maos? Ah!, e que é o que aconteceria, portanto?

Samuel Taylor Coleridge

A morte é um dos grandes misterios, uma das maiores preocupações do homem desde que é homem. Um processo pelo qual todos passaremos mas no que muitos não querem pensar. Para todos os povos do mundo,até a chegada das crenças materialistas da ciência, a morte era “simplesmente” um trânsito, não um final. Mas não só isso, havia pessoas especializadas em contatar com os espíritos dos devanceiros e inclusivamente viajar até o Além, em vida; xamãs e druidas. Mas o que muitos não sabem é que em algumas disciplinas científicas estão a investigar elementos que poderiam mudar completamente a nossa perceção da morte. As EQM, as chamadas Experiencias de Quase Morte, chegaram a causar comoção em boa parte da comunidade científica,as cada vez maiores evidências fizeram cair os posicionamentos do materialismo. Psiquiatras, neurocientistas, físicos quánticos, cardiólogistas e cientistas de muitas outras disciplinas estão sinalando que a morte não é o fim, é a consciência que sobrevive à morte física do corpo e pode transcender os limites do espaço-tempo.

Como alguns sabeis, percorro a nossa terra na procura das pegadas do legado ancestral céltico. As pervivências de crenças, rituais e mitos que provêm do passado mais longínquo. Faz uns dous anos comecei a ter notícias dos estudos relacionados com as EQM. Na minha viagem comecei a identificar fases destas experiências nas crenças galegas sobre a morte, que verdadeiramente integram todas as crenças das religiões desde os primordios. Com o tempo achei pessoas que me contaram as suas próprias experiências de quase morte. Experiências que observava com curiosidade mas sem me sair do meu reducionismo biológico, da minha afinidade à ciência materialista com a que sempre estive vinculado como atéu que na maior parte da minha vida fui. Mas no meu caminho apareceu uma pessoa admirável que mudou a minha vida por completo fazendo cair a minha afinidade com a ciência materialista como um castelo de naipes. Esta pessoa, provem duma longa linha herdada de pessoas que têm umas capacidades muito especiais: a de contatar com as ânimas dos devanceiros. O meu ceticismo ofereceu resistência a pesar da confiança que tinha e tenho nesta pessoa. As evidências e as mensagens foram demoledoras. Hoje, não tenho medo em dizê-lo, porque não tenho dúvidas, penso que temos de mudar o paradigma porque...a consciência, a alma sobrevive à morte física do corpo. E sobre isto e a relação com a ciência, falaremos neste artigo.

Foi em 1975 quando o psiquiatra e filósofo norteamericano Raymond Moody publicou o seu primeiro livro; “Life after life”(Vida depois da vida). Nele recolhia centos de testemunhas sobre as EQM, experiências que os livros de medicina não tiveram em conta nunca antes. A publicação teve um amplo sucesso e resultou um grande impato. As experiências, embora muitas seguiam um padrão determinado mudavam em função da experiência. Quanto mais grave fosse o acidente ou enfermidade que causaba a EQM do ponto de vista convencional, mais profundidade e amplitude tinham as fases. Por vezes, alguma fase não se manifestava. As obras publicadas com posterioridade assim como os resultados de estudos realizados por distintos expertos tambem apresentavam o mesmo padrão. As fases que precedem a fronteira da morte são as seguintes:

  • Sensação de bem-estar e paz
  • Experiência extracorpórea na que se percebe como a consciência ou alma deixa o corpo físico. Neste caso, a pessoa que o vivencia poder ver o seu contorno ainda que as constantes vitais sejam ausentes. Após a EQM confirma-se que o que se percebeu foi real.
  • Aparição dum túnel com uma luz no seu final.
  • Encontro com familiares ou pessoas mortas. Por vezes ajudam a transitar até a luz. Têm-se registrado casos de pessoas que visualizam familiares ou pessoas sem saber que estavam falecidas até o contrastarem após a recuperação e o retorno ao corpo físico.
  • Visão dum espaço sobrenatural e paradisíaco com uma natureza de imensa formosura. Por vezes também se audível uma música celestial.
  • Visão duma entidade ou ser de “luz” manifestando-se quer como luminosidade quer como uma entidade antropomórfica. Sentimento de amor e sabidoría.
  • Retrospeçao vital ou resumo da vida da pessoa em segundos, trascendendo os limites espaço-temporais ordinários.
  • Flash forward, quer dizer, visão de acontecimentos futuros na vida da pessoa.
  • Visão duma fronteira. A pessoa têm a perceçao de que no caso de trespassa-la não poderá voltar ao corpo físico.
  • Regresso ao corpo. Muitas vezes as pessoas sentem uma grande deceção por voltarem à vida após passarem um processo de paz e bem-estar tão intenso.

Existe uma reação dum certo ceticismo desde o reducionismo biológico para negar a veracidade ou trascendência destas experiências. Tenta-se explicar o bem-estar por meio da libertação de endorfinas, a visão do túnel pela redução da atividade das sinapses (conexões neuronais) que o projetam, a retrospeçao por meio de memória inconsciente e valoriza-se o demais como simples elucubrações da mente. Reduze-se tudo a simples alucinações causadas pela falta de osigênio ainda que na verdade não se pode explicar o fundamental. Porquê a conciência é mais lúcida do que nunca? Porquê o relato das visões extracorpóreas (inclusivamente em pessoas cegas!) coincidem com os acontecimentos reais? Porquê o dito por alguns familiares mortos se cumpre? Aliás, como é possível que a consciência exista fora do corpo?.

Citando ao filósofo e neurologista Alva Nöe; “ A investigação neurocientista da conciência sustenta-se atualmente sobre umas bases não questionadas, mas muito questionáveis,(...). A consciência não acontece no cérebro.(...). Portanto, não é a atividade neural associada à que determina e controla o carácter da experiência consciente.(...). Seria absurdo procurar correlatos neurais na consciência.(...). Não existem ditas estruturas(...). Esta é a razão pela quealnão fomos capazes de dar uma explicação válida à sua base neural(...). A ideia de que somos o nosso cérebro não é algo que os cientistas apreendessem, mas um prejuizo que os cientistas levaram ao lugar de trabalho desde casa.”

Reconhecidos neurocientistas como Charles S. Sherrington e John C. Eccles, ganhadores do Premio Nobel e o neurocirurgião Wilder Penfield acham que o cérebro é mais um organismo complexo que regista e transmite a conciência do que um ente que a produza.

A consciência é para muitos estudiosos um fenómeno que tem a ver com as realidades investigadas pela física quántica. Não é por tanto um fenómeno material tal e como o percebemos, nem o resultado de reações físico-químicas.

Partilho o meu modo de ver com os cientistas que afirmam que o cerebro é um recetor de consciência, um “aparelho” recetor como pode ser uma rádio ou uma televisão. Acho que a consciência tem a ver com um espaço não-local que transcende os limites do espaço-tempo. Citando ao cardiologista e investigador das EQM, Pim Van Lommel: “O espaço não-local constitui algo mais do que uma descrição matemática. É um espaço metafísico no que a consciência pode exercer o seu influxo porque possui propriedades subjetivas de consciência. Segundo esta hipótese, a consciência é não-local e funciona como origem ou base de todo, incluído o mundo material. Desenvolvi uma hipótese que segue como resposta aos episódios de consciência expandida experimentados durante um ataque cardíaco. Esta consciência expandida supõe aspectos de interconexão não local(...). Oferece a possibilidade de comunicar-se com os pensamentos das pessoas envolvidas em vivências passadas ou com a consciência de amigos e parentes falecidos. Aliás, pode ver-se acompanhada dum sentimento de amor incondicional e aceitação, assim como de um contato com uma forma de conhecimento e sabedoría definitiva e universal(...), a consciência completa e infinita com lembranças acessíveis tem as suas origens no espaço não local, em forma de funções de onda indestrutíveis e não observáveis de forma direto(...). O cérebro e o coração funcionam simplesmente como uma estação de transmissores que recebe parte da nossa consciência global e parte das nossas lembranças na nossa consciência de vigília baixo a forma de campos eletromagnéticos mensuráveis e em constante câmbio. Os campos eletromagnéticos do cérebro não são a causa, mas o efeito da consequência da consciência infinita”.

Acrescentamos que a aceitação da imortalidade da consciência implica outra das crenças mais antigas e universais que existia entre os druídas: a reencarnação. Há muitos casos de pessoas que apos uma regressão visualizam a sua vida passada e depois de investigar certos acontecimentos históricos locais, confirmam a veracidade da sua visão. Também há grande quantidade de casos de meninos que lembram com exatitude a sua vida passada, realidade que demostraram identificando com exatitude as suas anteriores pertenças e lembranças de certos lugares.

Com a minha própria experiência e as minhas pesquisas (nada novo) cheguei a conclusão de que o padrão comum das religiões está na interação com o espaço não-local, tendo a ver a existência de muitos mitos com as chamadas realidades não-ordinárias (Stan. Grof). Desde os primórdios, os xamãs tiveram acesso a outras realidades por meio do emprego de técnicas extáticas, quer dizer, induzindo estados alterados de consciência. Este tipo de estados mentais induzidos de forma exógena ou endogenamente, permitem a ativação ou contato de certas áreas do cérebro, o qual podemos verificar cientificamente e que ao meu ver permitem “sintonizar” como uma rádio, outras realidades que a maioria das pessoas não podemos perceber. Entre outras cousas, o contato com as ânimas foi e é uma realidade testemunhada no transcurso do tempo. Os estados alterados de consciência têm também muito a ver com a realidade que apresentam as EQM. A través do tempo, este tipo de experiências foram a cosmogonia das realidades religiosas ou espirituais, realidades que foram exprimidas na linguagem das múltiplas crenças ao largo do planeta.

Nas crenças célticas e galegas existem muitas similitudes com as fases das EQM e evidências da irruçao das realidades transpessoais. Alguns exemplos são os seguintes

  • Entidades psycopompas(condutoras de ânimas ao Além): Há uns meses foi publicada uma entrevista neste blogue, feita a um homem que têm a capacidade de percebir essas outras realidades. O meu amigo “Lobo de Lugh” contava deste jeito uma experiência própria que têm muito a ver com uma EQM: Poucos dias após a chegada, caí doente e o médico de Santarém que foi chamado para me ver, disse não perceber o porquê da minha febre e conversou com os familiares, dizendo que não havia mais nada a fazer senão esperar. Como mais tarde me contou a minha criada Clementina, a que nos criou a todos e estava particularmente ligada a mim, eu falava que estava ali no quarto o meu Pai e uma Senhora vestida de branco. Dizia-lhe que tivesse cuidado ao andar pela habitação para não embarrar neles. Decidiram então que a Senhora era a Virgem de Fátima, muito em “moda” naquela época, 1950, e foi um carro buscar um garrafão de água bendita à Cova de Iria. Com essa água, a Clementina deu-me um banho e, a partir desse momento, comecei a arribar e fiquei bom. Logo foram feitas promessas, rezadas missas, benzeduras pelo cura da terra. Mas a Clementina sempre me disse que quem me tinha curado tinha sido a Senhora da Fonte, e que eu devia, um dia, ir à fonte agradecer-lhe. Fi-lo muitos anos depois”. Esta é ao meu ver a descrição dum “arquétipo”, o da deusa branca e psycopompa do Além. A fermosa Moura que chegada do Além pentea os seus cabelos com um pente de ouro. A mesma deusa céltica relacionada com as plêiades a que os guerreiros lhe levavam um pente de agasalho tal e como nos aparecem em algumas tumbas. Deusa que aliás é tripla como As Tres Marias, brancas, relacionadas com o Cinturão de Orióm e que segundo as crenças galegas se aparecem aos moribundos. A mesma que mais tarde se pôde associar à virgem. Porque finalmente, são distintas nomenclaturas para descreiber uma mesma realidade. Também não me esqueço de Bândua, outro importante ajudante na última viagem.

  • Experiencias extracorpóreas: Na Galiza existe a crença nas ânimas de vivos: A sociedade do Osso. Este tipo de ânimas são uma nomenclatura do corpo astral ou ânima, que é capaz de deixar o corpo em vida para voltar depois. Tal e como acontece numa EQM ou como capacidade que algumas pessoas afirmam ter.

  • Música celestial: Na Galiza os encantos e as entradas ao mundo dos Mouros, isto é, ao Além, são anunciadas com uma música celestial. Por vezes mesmo de gaiteiros.
  • Espaço sobrenatural paradisiaco: Os Immrama e as Echtra célticas, assim como a entrada no mundo do Sidh, descrebem viagens ao Além. O padrão comum é similar ja que por vezes aparece uma mulher ou animal que incita a fazer a viagem, faz aparição uma música celestial ao tempo que se chega a uma terra paradisíaca que é o outro mundo (Tir na nÓg, Tir Na Ambam, Avalon etc.). Ao regressar ao nosso mundo descrebe-se uma diferença temporal, de formq que o espaço-tempo do Além não é o mesmo do que o do mundo dos vivos. Acostuma-se dizer que uns segundos no Além podem ser anos no nosso... Lembremos a inexistência da passagem do tempo no espaço não-local. Por vezes, o que chega ao paraíso do Além não pode voltar, o qual, talvez pode ser uma evidência de ter passado a última fronteira descrita nas EQM.

Temos de lembrar que na Galiza, o equivalente do mundo do Sidh é o Mundo dos Mouros (do céltico mrwos,mortos). O Além, com maiúscula.
Convido ao leitor a ler relatos das Experiências de Quase Morte e fazer uma comparação entre esses relatos e os mitológicos galaicos ou célticos para ver o que acham. Porque ao meu ver, os relatos célticos estão a nos falar de viagens a essa outra realidade numa situação limite ou durante um transe extático.

A VIAGEM DE BRAN, FILHO DE FEBAL

Um dia, quando o jovem Bran, filho de Febal, se passeia pelo jardim da casa real, escuta uma música de tanta doçura que lhe provoca o sono. Quando acorda aparece-se-lhe uma belíssima dama extranhamente vestida, que leva uma maravilhosa pola de maceira, de cor prateada nas súas maos. A mulher descrebe com melodiosos cânticos o esplendor e as delícias incomparáveis do mundo situado para além do oceano ocidental com as suas formosas ilhas, onde moram milhares de jovens e belas mulheres, a sua música celestial e uma completa ausência de perigos e traições, penas, enfermidades e a mesma morte, pois lá eram desconhecidos. Ao dia seguinte, Bran embarca-se com tes companhias de homens cada uma, e depois de dous dias e duas noites de navegação acham ao deus marinho Manannan Mac Lir (psycopompo), que viaja sobre os mares no seu carro de combate com dous cabalos e duas rodas. Conversam, e Manannán, com os seus grandes poderes mágicos transforma os mares e os peixes numa verde chaira com rebanhos de animais do país prometido. Posteriormente seguem o seu caminho para máis adiante chegarem a Ilha da Felicidade e depois a Emain, a Ilha das Mulheres, onde são recibidos por uma dama que os acomoda em camas. A cada um deles com uma bela e jovem doncela. Apetitosos manjares e bebidas, música, cantos, festas e divertimentos fazem a vida doce e pracenteira. O tempo passa assim, docemente mas a eles parecia-lhes que transcorrira um ano quando na verdade pasaram muitos mais. Um día, um deles sente-se afligido por uma grande morrinha e veementemente consegue convencer ao Bran para realizarem uma visita a Irlanda, o seu antigo país. A dama advirte-os de que lhes vai pesar enormemente e que em qualquer caso, se decidirem ir, que não ponham o pé na terra. Ao chegarem a costa da Irlanda, acham uma grande assembleia. O Bran apresenta-se desde o barco e eles dizem não conhece-lo embora tiveram ouvido falar da Viagem de Bran aos Filedda (narradores de contos orais). O homem morrinhento salta à praia mas ao tocar com o pé na areia converte-se em cinzas, como se tivesse morto lá há centos de anos. O Bran relata então as suas aventuras, depois escrebe-as em verso, em ogham, sobre umas peças de madeira que deita na praia. Despede-se e desde aquel momento nunca máis se soube dele nem das súas aventuras...

Lembre-se que nos dias do presente mês de novembro as portas do Além vão aparecer abertas, e receberemos e conviveremos com os nossos devanceiros. Aa lúa cheia há de ser o momento de máxima apertura e esta aqui.Se não os podeis ver, abri os olhos do coração e da alma. É preciso dignificar e recuperar o seu legado e a súa profunda verdade. Mantenhamos a fogueira acesa.

Bom Sámanos a todos.


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