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quinta-feira, 14 de abril de 2022

X Jornadas Galaico Portuguesas 2022 de Pitões das Júnias

 


     Sábado 7 de Maio
  • 1º Painel de manhã: (Apresenta Maria Dovigo)

  • 09:30 Apresentação

  • 10:00: O celtismo que vem: Alguns exemplos da Galécia do século XXI. Joam Paredes

  • 10:40: Quem é a velha? Trás as pegadas da Grande Deusa primigénia Lídia Marinho

  • 11:20 Permanências culturais celtas no nordeste do Brasil. Eduardo Henrique. On Line

  • 12:00: Debate

  • 13:30 Comida

    2º Painel de Tarde (Apresenta Maria Dovigo)

  • 16:00: Aplicação das novas tecnologias na divulgação histórica e patrimonial no século XXI. Carlos Paz e Anxo Miján (Centro Infográfico Avançado da Galiza)

  • 16:45: As viagens de Santo Amaro. Os Imramma. Xurxo Souto

  • 17:30: Descanso

    3º Painel Tarde de sábado (Apresenta Maria Dovigo)

  • 18:00: Projeto Lanobriga: Uma cidade galaica. Paco Boluda

  • 18:45: Debate

  • 19:15: Descanso

  • 19:45: Atuação de Mileth (Acústico)

  • 20:30: Ceia

    Domingo 8 de Maio

  • 10:30: Roteiro arqueológico por Bande. Guia: Elói dos Freiria


terça-feira, 23 de abril de 2019

Entrevista a Xavèrio Ballester


O Prof. Xaverio Ballester, catedrático de Filologia Latina da Universidade de Valência, estará connosco nas VIII Jornadas Galaico-Portuguesas de Pitões das Júnias (Montalegre), onde falará no sábado 11 de Maio.
Com ele, igual que com o Prof. Benozzo anteriormente, teremos a honra de contar com um dos principais investigadores do chamado Paradigma da Continuidade Paleolítica, uma autêntica revolução científica multidisciplinar que estabelece um novo modelo de interpretação e entendimento das origens das línguas e culturas europeias, com implicações diretas até dia de hoje.
Assim, agradecemos ao Prof. Ballester esta pequena entrevista que serve de avanço à sua palestra nas jornadas que, com certeza, será apaixonante.


- Que foi o primeiro que o levou a se interessar pelo estudo das origens das línguas e culturas ancestrais e como acabou por tratar com temas célticos
Não sei exatamente de onde é que vem o meu interesse pelo estudo da origem das línguas, ou da língua sem mais, mas reconheço que é o tema do que mais gosto e no que estou mais especializado.
As minhas primeiras lembranças infantis são ilustrações de livros e figurinhas sobre os nossos ancestrais: celtas e iberos. Depois interessei-me muito pela coisa indo-europeia, mas já de estudante resultou-me impossível aceitar a doutrina tradicional vinda do século dezanove.
O meu primeiro contacto a sério com o mundo céltico foi no curso 1991-2, em Teruel [Aragão] onde se fazia investigação, principalmente arqueológica, sobre o mundo celtibérico. Lembro que em uma semana revisei tudo o que se conhecia sobre a língua celtibérica; hoje isso já não seria possível por causa da eclosão de textos e autores disponíveis. Eu vinha de uma bolsa pós-doutoral em Munique, onde tirei proveito para fazer uns cursos de literatura polaca e de lituano. Neste último tive por único companheiro ao grande celtista Kim McCone, quem se ofereceu a dar um seminário sobre as línguas célticas e naturalmente fui convidado. Muito lamentei depois ter perdido aquela oportunidade, mas naquela altura o mundo céltico parecia-me uma coisa ainda mais afastada do que o mundo báltico ou eslávico. Em Teruel eu percebi o meu erro e do perto que tínhamos o céltico, já que a só uns poucos quilómetros começavam a sair textos celtibéricos. Não podia suspeitar que o céltico fosse algo assim tão próximo.


- O seu nome é um dos grandes nomes por trás do Paradigma da Continuidade Paleolítica (PCP) que defende, entre outras coisas, uma origem local, gradual e muito mais antiga do comummente aceitado para as línguas e culturas europeias. Apesar da crescente acumulação de evidências, como é que há tantíssima reticência ao PCP nos círculos académicos convencionais? É realmente um problema estritamente científico?

A minha resposta aqui será necessariamente muito subjetiva, mas sincera. Direi o que realmente acredito: porque os principais defensores do novo paradigma somos espanhóis, franceses, italianos, portugueses… Creio sinceramente que se a nova proposta tiver emergido em inglês nos Estados Unidos ou no Reino Unido a situação seria bem diferente.
Infelizmente os problemas científicos, quando menos nas ciências humanas, não são quase nunca
estritamente científicos. Há interesses das grandes corporações académicas e de poderosas editoriais. A disciplina da História da Ciência fornece inúmeros exemplos de teorias que foram mesmo ridicularizadas inicialmente porque se opunham à doutrina oficialmente estabelecida, e que posteriormente resultaram corretas. Mas como cientista devo ser otimista, acreditar que mais tarde ou mais cedo há triunfar a razão.
Isto é especialmente verdade para a ciência humanística (ou como quer que se lhe quiser chamar) onde a diferença da física, medicina, química ou tantas outras, não dispomos do método experimental. Nós só podemos tentar explicar muito mais e melhor. Uma boa teoria deve ser preditiva e produtiva e, em verdade, em trinta anos crescemos espetacularmente nesse sentido, sem mais ajuda do que a razão e a argumentação.


- O Prof. Benozzo, seguindo também a linha do PCP, afirma que a Gallaecia, o noroeste peninsular, é a origem primeira do todo o celta. De onde é que vem então o prejuízo em relação à celticidade da Galiza?

O meu bom amigo Francesco, extraordinária personalidade no científico e no artístico, é único. Ora bem, eu agora não seria tão preciso.
Não há dúvida de que geneticamente a Península Ibérica constitui um dos principais refúgios de população humana na fase mais dura da época glacial. Daqui saiu uma grande quantidade de gente que, graças à pegada genética, sabemos que repovoou grande parte da Europa.
A posição atual do PCP, e por isso é um
paradigma flexível e não uma teoria rígida e dogmática nos seus detalhes, é que aquelas pessoas depois serão essencialmente os celtas, isto é, os falantes históricos de línguas célticas. Mas se foi a zona galaica exatamente ou mais bem a cantábrica ou toda a região setentrional é algo que, acho, não estamos ainda em condições de precisar. O que sim defendemos com múltiplos e variados argumentos é que, se a nossa proposta for certa, ainda que as falas célticas foram aqui absorvidas pelo latim, a Galiza não teria uma celticidade emprestada, mas genuína, milenar, e obviamente ainda presente em muitos outros aspetos da tradição e da cultura.


- Seria necessário ou teria sentido a criação de uma cátedra de estudos célticos na Galiza?

Cátedra universitária? Em princípio parece uma boa ideia mas… O primeiro é colocarmos em ordem a instituição. Se para uns poucos lugares do mais modesto trabalho encontras com um monte de gente em concurso público desde há anos e, em troca, o acesso a funcionário universitário faz-se sem competência e por um sistema onde se valoram cotas, cargos e outros méritos que pouco ou nada têm a ver com o científico… Na universidade uma cátedra de “Estudos Célticos” não garante que vaia haver estudos célticos.
Por exemplo, em Valência criara-se uma muito restritiva cátedra de “Línguas Pré-Romanas da Península Ibérica”, cátedra
ad hominem para certo e influente sujeito, muito mais conhecido pelos seus pedantes versos que pelas suas investigações, e depois jamais lecionou nem a primeira aula na matéria. Só em 1998, após a minha incorporação a essa mesma universidade, pudemos ministrar um par de cursos. Depois de eu ganhar a cátedra de Filologia Latina em 1994 por concurso público, a universidade atendeu a reclamação do candidato local e, seguido de um longo litígio, voltou a oferecer a mesma cátedra, mas esta vez com o mais restritivo perfil de “Latim dos Cristãos”, pois o candidato que o impugnara era sacerdote. Ganhei novamente mas, como nunca existira tal matéria, levo 20 anos sem poder dar essas aulas.
Assim, temo muito que qualquer um com os contactos ajeitados pudera obter facilmente uma cátedra de “Estudos Célticos” para depois usar o seu tempo noutros assuntos. Na atual situação acho que criar tal cátedra comportaria um grande risco.


- Na sua iminente visita a Pitões vai-nos falar de mitologia… Sem desvelar muito, que podemos aguardar da sua palestra?

As duas ideias principais que desejo transmitir é que acreditamos saber agora com certeza que muitos dos nossos mitos remontam ao Paleolítico Superior e que, precisamente a Gallaecia, entendida como o quadrante noroeste da antiga Hispânia, conservou notáveis arcaísmos por toda uma série de razões.
Uma grande contribuição linguística do chorado mestre Mario Alinei foi mostrar o valor dos dialetos, do rural, humilde e periférico, pois pelo seu carácter conservador podiam preservar componentes paleolíticos por exemplos nas suas motivações semânticas. Até Alinei acreditava que nestes casos podia-se chegar até época medieval.
Já intuímos que a
mitologia, entendida genericamente como um conjunto de crenças, contos, superstições, etc, podia remontar igualmente a época paleolítica. Contudo, não podíamos suspeitar (isto é preditividade) que haveria uma evidência tão clara e maciça (isto é produtividade) e que indiretamente isto tudo constituiria um apoio ao PCP. Quer dizer, os mitos se atualizam e, além disso, misturam-se mais do que as línguas e as línguas mais do que as raças. Assim, se o continuum mitológico, apesar da sua maior contaminação, pode se remontar ao Paleolítico, como não iam poder fazê-lo os continua linguísticos?


- Então, especificamente, como pode contribuir a antiga Gallaecia a esta nova argumentação e endossar as posições do PCP?

Muitíssimo. Na Gallaecia, temos um amplo observatório de antiquíssimos mitos e crenças, uma reserva extraordinária, com a particularidade de esta tradição estar perfeitamente viva para grande parte da população. É um valor 10 no quantitativo e outro 10 no qualitativo.
Resulta que, por causa das suas vicissitudes históricas e da sua localização no “cabo do mundo” do grande continente euro-asiático, a Gallaecia preservou em boas condições estádios mais primitivos de muitos mitos primordiais, como esse mesmo que acabo de nomear de “fim do mundo”, e muitos outros.
Disto tudo aguardo poder falar em mais detalhe com os amigos de Pitões.

sábado, 23 de junho de 2018

O olhar revelador de promontórios remotos







Francesco Benozzo
Limiar para as II Actas das Jornadas Galego-Portuguesas (2015-2017)
Tradução desde o inglês: Joam Paredes


Na sua palestra plenária, dada quando recebeu o Prémio Nobel de Literatura em 1995, o poeta irlandês Séamus Heaney falou da existência de lugares pequenos que podem ser frequentemente considerados como janelas insubstituíveis abertas ao nosso passado e ao nosso futuro. Há de facto poucas aldeias e partes miúdas do território que por umha parte preservem intimamente algo que pertence às raízes perdidas das culturas, que seica andam desaparecidas, e que por outra nos deam a possibilidade de encontrarmos imagens e visons autênticas e inesperadas de nós mesmos, das nossas vidas tal e como poderiam ter sido e como ainda poderiam ser. Reconheço esta mesma característica e senti precisamente esta consciência as duas vezes que fiquei em Pitões das Júnias para as Jornadas Galego-Portuguesas.

Esta aldeia é um umbral único entre diferentes mundos e diferentes percepçons da realidade, umha espécie de fronteira flutuante entre as origens celtas pré-históricas da Europa e o zumbido post-neolítico, moderno (e post-moderno) das cidades contemporâneas. Aqui um pode decatar-se de que a Galiza e Norte de Portugal representam ainda a dia de hoje umha paisagem cultural unitária, apesar do Tratado de Alcanizes que em 1297 deu a Portugal o status de reino independente. Além disso, Pitões pode ser tomado como umha hipóstase viva da unidade da cultura atlântica como um todo, das Ilhas Shetland e possivelmente as Féroe até os vales do Tejo e Sado. Esta coesom cultural, natural e antropológica, e os possíveis vieiros e regatos que conduzem até a sua evidência, emerge muito bem dos artigos meritoriamente recolhidos neste diverso e precioso volume.

Umha das principais qualidades dos artigos aqui reunidos é representada polo fato de que, como em todos os melhores exemplos de investigaçons notáveis, o método rigoroso está aqui misturado com umha abordagem conscientemente nom neutral, emocional e dalgumha forma política. Como resultado, este livro é ao mesmo tempo um tesouro de dados científicos e um baú de visons imprevisíveis e de imagens poderosas. Umha pesquisa séria, verossímil e nom seriada provavelmente precisa de ser simultaneamente meticulosa e poética; deve ser capaz, em última análise, de criar e expandir a imaginaçom. Nesse sentido, estas actas constituem um exemplo excelente e possivelmente incomparável do que chamo Etno-filologia: um experimento notável de cartografia cultural capaz de superar supostos e falsas certezas que normalmente som aceitadas sem mais.





[ENGLISH]
Foreword for the II Proceedings of the Galician-Portuguese Symposium (2015-2017)

Francesco Benozzo
The revealing gaze from remote promontories

In his plenary lecture given when he received the Nobel Prize in Literature in 1995, Irish poet Séamus Heaney spoke about the existence of small places which can be often considered as irreplaceable windows opened to our past and to our future. There are in fact few villages and minor parts of the territory which, on the one hand, deeply preserve something belonging to the lost roots of cultures which seem now to be disappeared and, on the other hand, give us the possibility to find out true and unexpected images and visions of ourselves, of our lives as they could have been and could still be. I recognized this exact feature and felt this precise awareness the two times that I stayed in Pitões das Júnias for the Jornadas Galego-Portuguesas.

This village is a unique threshold between different worlds and between different perceptions of reality, a sort of fluctuating frontier between the Prehistoric Celtic origins of Europe and the post-Neolithic, modern (and post-modern) buzzing of contemporary societies. Here one can realize that Galicia and Northern Portugal represent still nowadays a unitary cultural landscape, despite the Treaty of Alcanices which in 1297 gave to Portugal the status of independent kingdom. Moreover, Pitões can be assumed as a living hypostasis of the unity of the Atlantic culture as a whole, from the Shetland and possibly the Faroe Islands to the valleys of Tagus and Sado. This cultural, natural and anthropological cohesion, and the possible paths and streams which bring to its evidence, very well emerges in the papers praiseworthily collected in this precious miscellaneous volume.

One of the foremost qualities of the articles here gathered together is represented by the fact that, as in all the best examples of remarkable investigations, the rigorous method is blended with a consciously non-neutral, emotional and somehow political approach. As a result, this book is at the same time a treasure trove of scientific data and a chest of unpredicted visions and of powerful images. A serious, believable and non-serial research probably needs to be simultaneously meticulous and poetic. It must be able, ultimately, to create and expand imagination. In this sense, these proceedings constitute an excellent, and possibly unmatched, example of what I call Ethnophilology: an outstanding experiment of cultural cartography able to overcome acquisitions and false certainties which are usually taken for granted.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

O Magusto Celta de Pitões das Júnias














Por José Manuel Barbosa.

Sabido é que o mês de novembro é o mês no que os galegos celebramos o Magusto. Desta vez tivemos a oportunidade de recriar como poderia ser uma celebração desta festividade num passado mais ou menos longínquo e tentamos fazer. Com certeza que há de haver alguma falta ou algum erro mas esses vamos procurar ir limando isso pouco a pouco segundo vamos organizando mais. Queremos deixar com isto muito claro que tudo o que em Pitões fizemos nada tem a ver com qualquer ritual religioso legalmente constituído. Nem somos sacerdotes de nenhuma religião nem queremos sê-lo. Tentamos simplesmente reconstruir seguindo critérios de investigação mas nunca levarmos a cabo atos prescriptivos nem preceptivos.





Contamos-vos: A organização levou-nos semanas... mesmo meses e com a ajuda dos nossos amigos de Pitões e do grupo reconstrucionista Oinaikos Brakaroi onde os nossos também amigos Francisco Boluda e o Xavier Bobillo foram fundamentais no arranjo do evento. O primeiro que fizemos foi reunir à gente no Salão de Atos da Junta de Freguesia para dar-lhes um explicação do que é e significa o Magusto para nós, galegos e portugueses. Com um simples PDF demos uma visão do que para nós é a festa que nos outros países celtas recebe o nome de Samhain na Irlanda, Samhuinn, na Escócia, Hop tu Naa na Ilha de Man, Calan Gaeaf no Gales, Kalan Gwav na Cornualha, e Kalan Goañv na Bretanha) e os vínculos existentes entre todas as variantes atlânticas da festividade.
O positivo do assunto foi que mesmo a gente da aldeia quis recuperar nomes perdidos há milénios sentindo a chamada dos ancestrais e dum passado remoto que vive ainda no nosso subconsciente coletivo.
Acabados de explicar sobre o assunto e torcendo pela denominação de Magusto em vez de pelo nome incorreto mas muito popularizado na Galiza por causa do sistema de ensino "Samaín" procedemos a oferecer ao todos os participantes uma lista de nomes galaicos recolhidos nas aras achadas em época galaico-romana onde aparecem nomes de pessoas, tanto de género masculino como feminino, nomes como: Nicer, Klutamo, Kaitia, Maturo, Loucia, Atlos, Katueno Fronto, Avia, Boutio, Kaila, Klutamo, Ammia, etc... (comentar-vos que de agora em adiante eu sou Katuro).
 Finalizamos o batizado por volta das 14:00 horas que foi quando na Taberna Terra Celta da Margarida e o Bruno pudemos desfrutar dum jantar (segundo a moda transmontana e galega mas pequeno almoço segundo o padrão) onde não faltou o presunto barrosão, os cogumelos, queijinho, alheira, caldo transmontano e picadinho de carne de vitela. Os participantes pudemos desfrutar das conversas e das não mesmos engraçadas tormentas de ideias próprias destes casos que nos levaram a acrescentar atividades para enriquecer e melhorar o evento.De tarde já e preparados os elementos com os que íamos trabalhar vimos aparecer o espetacular Sol de palha e cana que íamos queimar queimar essa noite.
O simbolismo é a queima do Velho Sol, quer dizer, do ano velho. Ao lado dous crânios de vacas barrosãs que simbolizavam a prosperidade duma sociedade que vive entre outras cousas da ganadaria.  Fizemos colares com castanhas e landras (bolotas) e fitas vermelhas para identificar no tempo o primeiro Magusto Celta de Pitões.
Uma vez chegada a noite desfilamos pela aldeia com o estandarte solar e os crânios de vaca pedindo "longa vida aos nossos mortos" e pedindo prosperidade futura.
Chegados ao Largo do Eiró e já com o lume acesso chantamos o estandarte solar no meio da praça e preparamos a churrascada com febras, pão do Barroso, vinho, jeropiga e doces feitos pela nossa amiga Marta Delgado. A música do grupo de gaiteiros fez que a gente bailasse ao redor do Sol Velho ainda com algo de chuva sobre as nossas cabeças. Tivemos o temor de que a palha ficasse húmida impedindo que o Sol pudesse ser queimado. Foi por volta da meia-noite quando queimamos o Sol Velho (o Ano Velho). Ardeu dificilmente por causa da chuva mas ardeu. Posteriormente pudemos desfrutar do Celti-Rock de Pitões, com música de grupos de música celta.Contamos com o seguimento informativo da TV Barroso quem por meio do nosso caro João Xavier e da sua equipa teremos informação pontual para toda a região. Igualmente e por obra e graça da net também vamos poder estar informados em qualquer outro lugar do mundo,... evidentemente, também na Galiza onde com total probabilidade vamos estamos atentos já que este tipo de festividades têm por finalidade recuperar na medida do possível aquelas tradições galego-portuguesas que nos vinculam à natureza, ao nosso passado histórico comum e nos unem mais uma vez neste nos
so espírito céltico e atlântico ao qual nunca deixamos de pertencer por direito.
O resultado final foi ótimo mas serviu também para que outros anos possamos adequar ritualmente e temporariamente o nosso evento com intuito de perdurar no tempo.





sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

HISTÓRIA DA LÍNGUA: Antes do Latim


 Por José Manuel Barbosa

Dedico este artigo à boa gentinha de Pitões das Júnias e à gente do Barroso

Parece ser que o território galaico-lusitano anterior à conquista romana estava ocupado por diferentes povos de raiz indo-europeia e de fala provavelmente proto-celta.

Se repararmos na configuração étnica desses territórios teríamos de norte para sul os seguintes: os povos ártabros (Martins, Higino 2008) ou posteriormente chamados pelos romanos de galaicos lucences que ocupariam a atual Galiza norte (províncias da Corunha, Lugo e norte de Ponte Vedra); os povos gróvios (Martins, Higino 2008) ou galaicos bracarenses (atuais províncias galegas de Ourense e sul de Ponte Vedra junto com todo o norte de Portugal até o Douro); e os povos asturos (atuais Astúrias, Leão, a Zamora do norte do Douro e a parte oriental de Trás-os-Montes).

Ao sul do Douro habitariam os lusitanos até o Tejo incluindo no seu espaço territorial a Estremadura espanhola atual ao norte desse rio. Para sul um conjunto de povos de nome genérico célticos por todo o Alentejo e ficando para o extremo Sul os cônios ou cinetes no Algarve de estirpe celta segundo os autores clássicos.

Segundo os estudos recentes baseados nos achados litográficos de Lamas de Moledo (Évora), Cabeço das Fráguas (A Guarda) e Arroyo del Puerco (Cáceres), a língua falada pelos lusitanos mas também pelos galaicos incluindo neles os asturos e provavelmente também os cântabros, tendo como fronteira oriental com os vascons o rio Asón, era uma língua com capacidade para poder ser compreendida e reconstruída a partir das línguas célticas modernas por linguistas e arqueólogos.

O espaço que poderia ocupar haveria que reconstruí-lo a partir, não só pela localização destas inscrições conhecidas, mas também pela onomástica, a toponímia e a teonímia. Corresponder-se-ia com os velhos conventos romanos da Scallabientense, Asturicense, a Bracarense, a Lucense e parte da Emeritense, bem como parte da atual Cantábria.

Essa parte norte-ocidental da península falaria o que os cientístas denominaram com o nome de lusitano ou como diz Ulrich Schmoll (Schmoll 1959) galaico-lusitano por serem a Gallaecia romana e a Lusitânia originária (entendida como o berço do povo lusitano, não da província romana) a sua zona.

As provas que falam da existência deste galaico-lusitano estão nesses achados litográficos de época imperial romana, cuja época ajustamos e deduzimos por estarem escritos com a ortografia latina.
 
 São os exemplos dos textos litográficos os seguintes:

- Texto de Lamas de Moledo

rufinus et tiro scripserunt: veaminicori doenti angom lamatigom crougeai magareaigoi petranioi radom porgom ioveat caeliobrigo

Este texto datado já em época romana (no século I d.C.) com introdução em latim viria significar o seguinte segundo a tradução de André Pena Granha, arqueólogo e historiador galego:

Rufino e Tiro escreveram: Os Veaminicori (cojunto de jovens solteiros em idade militar) dão um anho lamático (de Lamas de Moledo) para o altar de Petranio (o oficiante), um grosso porco para o Júpiter do Castro de Caelio.

Segundo Higino Martins (2008:87) Veamini Cori ou Wegamenoi korioi significaria “os que viajam em carros”, quer dizer, “os chefes”, ou “senhores”.

- Texto da Pedra de Cabeço das Fráguas:

 oilam trebopala indi porcom laebo commaiam iccona loiminna oilam usseam trebarune indi taurom ifadem(...) reve tre(barune)

Texto também de finais do Império com latinismos como porcom (com p- inicial aparentemente não céltico) e redigido na pedra para um ritual de tipo suovetaurília com o fim de proteger a Treba (território político sob a influência do povo que oferece o ritual). A tradução que o professor André Pena Granha fez a finais do século passado apoiando-se noutras línguas célticas vem sendo a seguinte

...uma ovelha para trebopala (protetora da Treba) e um porco para Laebo (divindade feminina), uma égua para a luminosa Iccona (deusa dos cavalos), uma ovelha dum ano para trebarune (a deusa protetora do País) e um touro dum ano para Reva, senhora da Treba.

 A dia de hoje o professor Pena Granha defende que este texto é uma forma de latim baixo-imperial. Uma forma de castrapo celtico-latino.

- Texto de Arroyo del Puerco ou Arroyo de la Luz (Cáceres)

ambatus scripsi carlae praisom secias erba muitie as arimo praeso ndo singeieto ini ava indi veam indi vedagarom teucaecom indi nurim indi udevecom rurseaico ampilva indi loemina indi enu petanim indi arimom sintamom indi teucom sintamo...

isaiccid rueti puppid carlae enetom indi na(.) (...)ce iom.m

Interpretação de Witczak-Wozniak:

“(Eu), Ambatus escrevo: Em Carla, o pacto de amizade ou de reciprocidade por um (parente) que deve ser enviado (ali), que seja contraído (jurado) sem participação de avó e mulheres de irmãos e noivas de filhos e dona da casa (quer dizer, esposa do chefe da família) e sem (participação de) Rursenco Ampilua e servidão, e sem (participação de) Petanim, e (sem) o maior dignatário, e (sem) o filho maior...”

Possíveis interpretações de Blanca María Prosper da linha final que é conhecida como Texto de Arroyo de la Luz III:

“Deste jeito fica dito o que em Carla (está) estabelecido e não (??)...”
“Por aqui fica o que corresponde ao término de Carla...”
“Aqui limita/começa o que está incluído em Carla...”
....................

Ao sul do Tejo dos diferentes povos de filiação céltica segundo os clássicos mas com importante influência tartéssica e fenícia pouco sabemos, mas quiçá não nos sejam de muito interesse por não serem a base, nem as suas línguas, o substrato da futura língua galego-portuguesa.

A língua galaico-lusitana poderia ser identificada como uma língua celta ou proto-celta como nos comenta Armada Pita (1999:260-263) mais ainda nos fornece a ideia de ser a partir do conhecimento das línguas celtas que pode ser possível a tradução dos textos conservados. A compreensão dos mesmos reafirma o parentesco entre esta língua da que estamos a falar com o celta antigo.

A identificação como língua celta é discutida, no entanto, por alguns autores argumentando que algumas palavras possuem um /p/ inicial inexistente neste grupo de línguas, tanto nas atuais como nas antigas.

Mas é o professor valenciano Xaverio Ballester (1998:65-82) da Universidade de Valência quem nos diz:

"O problema na realidade não é a presença linguisticamente incorreta do /p/, mas, dir-se-ia, a posição geograficamente incorreta do lusitano. Se essa mesma documentação que possuímos para o lusitano aparecesse, por exemplo nalguma zona próxima aos Alpes, previsivelmente a linguística indo-europeia tradicional consideraria tal documentação uma testemunha da primeira pola separada da árvore céltica, dessa fase ainda com /p/ que por ser língua indo-europeia, reconstruímos como célticas."

O parentesco com o celta comum parece maior do que se aguardava, portanto.

Diz-nos ainda a professora Fdez-Albalat (1996:39):

"Segundo a minha opinião, estamos perante uma rama celta possivelmente anterior à divisão entre goidels e britons ou bem uma terceira rama de tipo arcaico"

Atendendo para o trabalho de Robert Omnès (1998:247-268) professor da Universidade de Brest, o galego-português tem uns importantes elementos substráticos celtas que determinariam a nossa língua como um “patois” celto-latino. Alguns (e só alguns) desses elementos seriam os seguintes:

1-     Léxico (ver o apêndice n.º 1 da Gramática elemental del gallego común de Carvalho Calero)

2-     Semântica:
  • Preferência pelo verbo ser em vez de ter em frases possessivas do tipo:
O jardim é meu (galego-português)
Y mae gardd gennuf i (galês)
  • Uso da forma levantar (sevel em bretão) com o sentido de “construir”
Levantei uma casa (galego-português)
Sevel eun ti (bretão)
Por exemplo em francês seria construir une maison ou no espanhol construir una casa

3-     Fonética e Fonologia
  • O /k/ implosivo devém num iode ante /t/ explosivo como em irlandês
noctem>noite; octo>oito
  • Em galego-português os ditongos descendentes são os mais numerosos, o que se explica pelo modelo silábico céltico
  • Evolução dos grupos cl-, pl-, fl- iniciais: clamare>chamar; plorare>chorar; flagrare>cheirar
  • A metafonia que Rafael Lapesa (1991:44) identifica como celta:
tenebat>tinha                         Mestr (sg.)/Mistri (pl.): “mestre” em bretão
molinum>moinho                     Bran/Brini: “corvo” em bretão

4-     Morfossintaxe
  • A repartição dos géneros: os nomes das árvores som femininas em galego-português e em bretão
  • O cal, o labor, o nariz, o sal, o mel, o leite, o sangue, o cume... como em bretão (por exemplo em outras línguas latinas como o espanhol são palavras femininas)
  • A mesma forma pode ser utilizada pelo adjectivo qualificativo e o advérbio tanto em bretão como em galego-português
Henned a labour mad (bretão). Traduc: Ele trabalha bem
Tem bem anos (galego-português)
  • O durativo no infinitivo:
Estou a trabalhar (galego-português)
Rydw i’n gweithio (galês)
Emaonn o labourad (bretão)
Taim a(g) dul Traduc: Estou a ir (irlandês)
O galego-português é a única língua romance que partilha esta característica com as línguas célticas
  • Perguntas e respostas: em galego-português as respostas não são “sim” ou “não”. Exemplo em gaélico escocês:
- Rapaz, tens fome?            - Ydy’r bwyd yn barod? Traduc: Está o jantar pronto?
         - Tenho!                              - Ydy! (Está!)
  • etc

Conectando, portanto com a Teoria da Continuidade Paleolítica formulada pelos professores M. Alinei e F. Benozzo, o galaico-lusitano viria ser a língua da qual derivariam as outras línguas célticas e o ocidente da Península Ibérica o seu berço.

Para o professor Higino Martins Estêvez, em entrevista concedida ao Portal Galego da Língua em 13 de Dezembro de 2008 com motivo da apresentação do seu livro As Tribos Calaicas. Proto-História da Galiza à Luz dos Dados Linguísticos, a velha língua céltica da Galiza pôde ter ressistido viva até aproximadamente o ano 1000 momento no que começou o seu declínio real. Também no-lo diz neste seu livro (2008:151) quando falando de Ogrobe onde nos comenta:

OKOBRIXS “Castro da Ponta” pode nascer antes ou trás a conquista (romana), pois a língua céltica subsistiu, sem registos fora da toponímia, em todo o primeiro milénio cristão.

Ainda o nosso professor diz no seu livro quando fala da etimologia do antropónimo Urraca (2008:529):

 b) os montanheses iletrados da cornija cantábrica ainda falavam céltico. Somente ficarom rastos toponímicos (só se escrevia latim); o que não era latim era invisível, mesmos os romances. Da Orracas de reis surge a língua estar viva nos sécs. IX e X
c) O Reino de Leão (sequela da Gallaecia para os cristãos e muçulmanos) era âmbito rude e iletrado. Os montanheses que só falavam céltico –arcaico e próximo do gaélico- nessa língua residual chamavam Esposa por excelência à do rei. Até o século XII só era dado a rainhas por casamento. Então aparecem desse nome duas rainhas per se. Petronila-Orraca é dúbia: ementam a mudança de nome e a seguir o matrimónio com o conde de Barcelona. A castelhana, rainha de 1109 a 1126, a meu ver já demonstraria a opacidade: em céltico chamariam *RIGANI, não *WRAKKA”
d) não se vê diferença entre cântabro e calaico: a voz é compartilhada pela cornija cantábrica (369)

e diz a pé de página:

369 Nem entre calaico e lusitano, cf. Promontorium Artabrum (Plinio IV 113), Cabo da Roca. Norte da foz do Tejo

e continua na página 543:

Os anos 944 e 1097 notam justo o ponto final do sistema linguístico céltico na cornija cantábrica.

Acrescenta na sua entrevista que mesmo em algumas regiões do nosso país, nomeadamente os Ancares pudo ter durado mais quatro ou cinco séculos. A sua conclusão vem dada pola etimologia dum nome de família exclusivo dos Ancares, como é Deiros o qual só pode ser interpretado apartir dum nome céltico testemunhado na Irlanda.

Para reconfigurar e aproximar os limites desta língua galaico-lusitana da qual estamos a falar são de grande ajuda os mapas elaborados pela professora Fdez-Albalat (1990:422-427) e a opinião de Rosa Brañas (1995:211-253) e o próprio Higino Martins, pelo que também, a partir dessa informação, quisemos elaborar um mapa, o número 5, desde a nossa modéstia que poderemos achar no Atlas Histórico da Galiza na página 18.

Roma entra na Kalláikia:


No século II antes de Cristo o imperialismo romano no seu afã de alargar o domínio sobre a península toma contacto com os lusitanos. São momentos de sofrimentos e guerras nos que os povos do norte do Douro participam como se com eles fosse, razão que nos faz pensar na unidade étnica galaico-lusitana que Roma quebrou por razões políticas para o seu projeto imperial.

Decimus Junius Brutus, entre o 139 e o 137 a.C. passa-se para a ribeira direita do Douro após uma feroz batalha, como nos conta Casimiro Torres, na que morrem segundo fontes romanas mais de 60.000 soldados galaicos, fazendo que o rio se tinja de vermelho.

São os habitantes da foz do Douro, os Kaláikoi, os que lutam contra os romanos e os que a partir de agora vam dar o nome a todo o país ao norte do rio que eles chamam “Dwórios” ou “das Portas” ou “das Portelas” segundo nos traduz o linguista e celtista galego-argentino Higino Martins Esteves (2008:17).

Brutus chega até o Minho (rio “do Tesouro” ou “da Riqueza”), segundo Martins Esteves (2008:337) levando a guerra aos povos marinheiros do atual norte de Portugal, mas é sobre a sexta década do século I a.C. quando Caesar, Julius Caesar, chega por mar desde a Gália à costa galaica até Brigântia tentando submeter de forma definitiva os Kalláikoi.

Isto não vai ser fácil nem possível até que o seu sucessor Augusto desenvolva as guerras cântabras e acabe, embora não definitivamente, com o problema que lhe ocasionavam os povos do norte da península.

É no 22 d.C. segundo o professor Pedro López Barja, num trabalho feito num livro coordenado por Sanchez Palencia e Julio Mangas (2000:36) quando no monte Medúlio os galegos após intenso assédio morrem envenenados pela sua própria acção de ingerirem seiva do teixo antes de se deixarem capturar pola escravatura que Roma lhes tinha reservada.

No desenvolvimento dessas guerras chamadas Cântabras as últimas batalhas pela conquista do território do Noroeste têm lugar nas montanhas mais afastadas e mais inacessíveis. Ao tempo que se produz o desastre do Medúlio, e quase paralelamente, os astures são também vencidos pelo Império no Mons Víndius situado no cordal Cantâbrico fazendo com que finalmente a totalidade da península se passe ao domínio romano constituindo uma nova província dirigida diretamente pelo imperador Augusto com o nome de “Transduriana”, como nos diz o autor acima citado, Pedro López Barja. Esta província integrava os novos territórios conquistados e habitados por cântabros, astures, lucenses e bracarenses. Segundo ele, essa província duraria desde o 22 a.C. aproximadamente até o 13 a.C. momento no que desapareceria integrada provavelmente dentro da Lusitânia (2000:31-45).



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NOTA: A FIGURA DO GUERREIRO GALAICO QUE APARECE NESTE ARTIGO É DA AUTORIA DE CARLOS ALFONSO FEITA COM MOTIVO DA ASSESSORIA QUE O PROFESSOR ANDRÉ PENA GRANHA FEZ NA GRAVAÇÃO DO FILME "GALLAICUS".

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