sexta-feira, 12 de junho de 2015

Crónica das IV Jornadas das Letras galego-portuguesas em Pitoes das Júnias





Por Vitor Garabana

Foi no dia 29, de caminho, quando comecei a estabelecer contacto com o campo verde e amarelo da primavera galego-portuguesa. Com uma breve passagem pela aldeia de Ninho d’Águia, prelúdio para entrar na atmosfera da comarca; a seguir pelas aldeias do Couto Misto – Rubiães e Santiago de Rubiães - e percorrer o caminho privilegiado até às terras de Tourém.
 
Tourém
A partir dai, a ganhar e ganhar altitude: paisagem de giestas, urzeiras, queirogas, piornos... Paisagem de montanha, terras duras só aptas para a vida de pessoas fora do comum. Por fim, Pitões das Júnias! À noite, ceia (jantar, para os do sul) na Casa do Preto, o prazer de fazermos novos amigos e de reatarmos velhas amizades. Falamos dos diferentes caminhos de chegada, de norte e de sul, também da receção que nos tinha dado a fauna local: vacas, raposas, teixugos e paspalhãos que saíram ao nosso encontro nas estradas...
 
O Monte do Pisco de caminho entre Tourém e Pitões

Dia 30 de maio. Sábado

De manhã: A presidente da Junta de Freguesia, Lúcia Jorge, e o da Câmara Municipal, Orlando Alves, deram-nos as boas-vindas e inauguraram as jornadas.

No primeiro painel, moderado pelo José Manuel Barbosa, a Mónica O’Reilly falou-nos da sobrevivência e a validade atual dos mitos. De terem sido outrora a principal fonte para o relato histórico, nos dias de hoje passaram a ser desprezados por muitos historiadores. Mas entre interpretar os relatos míticos à risca e considerá-los completamente infundados há um largo espaço de interpretação útil. Para questões como os argumentos de legitimidade para a ocupação dos territórios, sobre a narrativa de amizade ou guerra com outros povos, sobre viagens e comércio, etc.

A modo de exemplo, a coincidência dos topónimos como Brigântia -Bragança, Braga, Bergantinhos, Brigantium (Crunha-Betanços) no espaço galaico com os relatos do Livro das Invasões de Irlanda acerca da fundação de povoações na península ibérica pelo herói Brigh. Embora essas coincidências não devam ser interpretadas como feitos literais, poderão sê-lo no âmbito das realidades culturais dos países do espaço atlântico, de relação milenar já demonstrada.
A seguir, o João Paredes relembrou-nos na sua palestra as provas e as pegadas da religião céltica e o Druidismo na antiga Gallaecia.

Cronistas gregos e romanos denominaram os habitantes destas terras como celtas e descreveram os seus costumes, como também doutros povos célticos, o qual permite a análise comparativa. Para além disso, as próprias gentes habitantes destas terras nomeavam-se celtas em inscrições epigráficas, inclusive Druídas e Druidesas (DUR-BEDES).
Mesmo o principal ideólogo cristianizador destas terras, São Martinho de Dume, ao descrever os costumes que segundo ele tinham que ser erradicados, fez uma evidente descrição da religiosidade céltica.
Sabemos que muitos desses costumes são ainda vivos, disfarçados de religiosidade cristã ou de costumes folclóricos.

O Marcial Tenreiro falou-nos dos antigos ritos de delimitação de espaços ou de bênção de construções, em que os animais tinham um papel principal. Falou-nos de delimitações de pastos comunais para vezeiras entre diferentes freguesias, feitas por médio de animais que se deixam vadiar à toa até pararem num ponto que é então considerado o linde dos territórios. Ou bem mediante enfrentamento de animais bravos, como bois, pertencentes às comunidades vizinhas, com o mesmo propósito.
Também nos falou dos velhos sacrifícios e enterramentos de animais ao pé dos muros dos castros e séculos mais tarde nas vivendas para a bênção ou proteção desses prédios, pelo influxo mágico das habilidades naturais dos animais sacrificados.
Pois destes ritos que nos levam à antiguidade é provável que provenham costumes ainda atuais nestas terras, como as chegas de bois: não serão rememorações anuais e festivas dos velhos acordos de marcação de lindes das freguesias?
E contou-nos o surpreendente caso documentado por um notário na Idade Moderna na Galiza: a “bênção” duma ferraria com maço de pisão, não com o rito cristão e a presença dum padre, mas sim com o sacrifício dum boi e a marcação do quintal pertencente à ferraria com o sangue da cabeça, para ao final ser esta enterrada no linde.
No jantar (almoço para os do sul) tive a honra de compartirlhar mesa com o professor de audiovisuais João Bieites e com o José Lamela, ex-alcaide do Concelho de Lóvios e colaborador no programa “Sempre em Galiza” da Rádio Cornellà de Barcelona; a conversa com ambos foi para mim um grande prazer.

À tarde teve lugar o 2º Painel.

Recebeu-nos a moderadora da tarde, Kátia Pereira, representante do Eco-Museu do Barroso-Pitões das Júnias. Convidou-nos a visitá-lo e anunciou-nos que podíamos contemplar lá, para além da interessante coleção permanente, a reprodução da roupagem e a panóplia dum guerreiro galaico, segundo a documentação iconológica obtida por membros do grupo Oinaikos Brakaron em diversas escavações arqueológicas ao qual representava o nosso amigo Xavier Bobillo.
Xavier Bobillo representante do Oinaikos Brakaron, ao lado da panóplia guerreira dum soldado galaico.
A seguir foi projetado o filme: “Cemraiost’abram!” de Mónica Baptista.
Filme que, segundo o Padre Fontes, também se podia ter intitulado “Má/Mau ar te tolha!”, “Fachas te rachem!” ou “Lobos te comam!”, pois todas são expressões enfadonhas mas derivadas das duras condições de sobrevivência nestas terras de montanha. Dureza que é apreciável nas imagens do próprio filme, rodado nas fragas altas e com invernia, neves incluídas. Belo trabalho da Mónica Baptista, em que se aprecia a pequeneza dos seres humanos diante desta natureza imensa.
Kátia Pereira e Mónica Baptista
 Para acabar a primeira jornada, Rafael Quintia, João Bieites e José Manuel Barbosa apresentaram-nos as Atas destas mesmas Jornadas das Letras Galego-Portuguesas nos anos passados, 2012-2014, que sem dúvida darão para boas e gozosas leituras!
Kátia Pereira representante do Eco-Museu introduz à palavra ao Rafa Quintia e ao José Manuel Barbosa para apresentarem as Atas das três Jornadas anteriores.
No tempo livre posterior, visitamos a igreja de Vilar de Perdizes onde pudemos observar uma pedra com a reprodução do deus Larouco: a versão local, dos arredores da serra homónima, do deus céltico conhecido nas terras gaulesas como Sucellus e nas irlandesas como Dagda.
Reve Larouco/Sucellus/Dagda
 Também pudemos visitar um penedo com vários petróglifos, perto da mesma igreja.
Pedra Escrita de Vilar de Perdizes
À noitinha, os Gaiteiros de Pitões das Júnias animaram o ambiente na praça da eiró.

Dia 31 de maio. Domingo
Após as boas-vindas do Vice-Presidente da Câmara Municipal, David Teixeira, a professora Maria Dovigo trouxe-nos, mediante um discurso sensível e poderoso, a profundidade da poesia de Joana Torres, com as lembranças da presença da avó: mulher aferrada à terra e às vinhas que pelos acasos da vida foi parar a uma cidade industrial como Ferrol. Não posso imaginar nada mais céltico que as saudades e o amor pela natureza, transmitidas a modo de tradição pelas nossas avós.
A seguir o Hugo da Nóbrega, com uma tese bem exposta e desenvolvida, mostra a aparente carência de nome deste território. Embora seja conhecido hoje oficialmente como “Norte”, esse é nome dum ponto cardeal e não um nome territorial.
De esquerda a direita: David Teixeira, Vice-Presidente da Câmara Municipal de Montalegre, Maria Dovigo, acadêmica da AGLP e Hugo da Nóbrega, investigador e designer portuense.
Após ser este o território histórico onde nasceram os nomes de Callaecia (Galiza) e Portucale (Portugal), vai ser que afinal fica sem nome?
O Hugo mostrou-nos a existência doutros territórios europeus que tinham passado por situações similares -perda do seu nome originário em benefício doutras entidades políticas vizinhas ou mais abrangentes- e qual foi a solução adotada em cada caso.
Pediu aos presentes opiniões e propostas possíveis para a restituição do nome a esta região histórica que abrange Minho, Douro e Trás-os-Montes, a qual, do meu modesto ponto de vista, é a que com mais direito pode reivindicar os nomes de Galiza e de Portugal.
No jantar (almoço, para os do sul), pude gozar duma agradável cavaqueira com o Marcial Tenreiro e com a responsável pelo Polo-EcoMuseu de Pitões, a Kátia Pereira.
A última atividade foi a visita ao Eco-Museu, com que finalizamos as jornadas.
Entrada ao Eco-Museu
Foram dias aprendizagem, intercâmbio de opiniões e, sobretudo, de amizade. Ficamos com vontade de voltar mais uma vez e sempre a Pitões das Júnias!

segunda-feira, 1 de junho de 2015

A quem assobiamos nós?



Por José Manuel Barbosa

O passado 30 de maio do presente ano de 2015, na final da Taça do Rei espanhola entre o Barcelona e o Athletic de Bilbau aconteceu o que temiam alguns. A torcida basca e catalã arrancou num assobio conjunto que apagou as músicas do hino espanhol no estádio cheio de seareiros perante um monarca muito śerio e um presidente da Generalitat nada surpreso. Os avisos e ameaças por parte do governo contra quem se atrevesse a exercer a sua liberdade de expressão ou dito de outro jeito, contra os que se atrevessem a desprezar o hino, estavam nos média desde havia uns dias mas os prognósticos cumpriram-se.
 Tenho que reconhecer que não gosto dos desrespeitos nem dos sentimentos "anti" que os afeiçoados manifestaram, mas também por isso tenho que reconhecer que nunca gostei da falta de inteligência política dos dirigentes espanhóis, já forem estes atuais ou de épocas históricas. Essa falta de inteligência favorece a reação e acrescenta aquilo que se quer reprimir. No Reino Unido no que se permitiu o referendum da Escócia e no que se permite a queima da Union Jack no meio de Picadilly Circus perante a fleumática olhada dos democráticos ingleses, que mesmo toleram os desrespeitos dos contrários aos Windsor pelas suas felonias ou dos governos de Londres, nada tem a ver com a paixão, a visceralidade, a falta de grandeza e pouco raciocínio dos herdeiros duma tradição política de golpistas, imperialistas fracassados e inquisidores anti-islâmicos, anti-judeus e anti-protestastes. 

Tudo "anti" e só "pró" quando se diz da hispanidade mal percebida ou percebida como uma imposição da Castela "über alles". É isso que causa rechaço em muitos cidadãos oficialmente espanhóis mas com vontade de se afastarem dessa realidade político-nacionalitária que não sabem gerir desde Madrid, nem demostra uma elegância necessária das instituições que deveriam ser mais indiferentes, insensíveis e pacientes perante a expressão da gente farta do carácter "flamenco" dos dirigentes madrilenos.
Essa falta de estética tem a ver também com os complexos de inferioridade espanhóis que sucumbem moralmente perante qualquer contrariedade que vai frontalmente contra a sua forma de perceber a vida: Catolicismo râncio, castelhanismo linguístico e administrativo, histórico, estético, folclórico, cheio de racismo contra tudo o que não percebem, valorização da ignorância, intolerância, monolinguismo, sadismo festivo, "chuleria", soberba, falta de humildade e corrução institucional e cultural histórica que contagiam como vírus ali por onde passam e ali onde tocam... Desse jeito nao caberiam situações como esta. É por isso que consideramos importante dar-lhe uma volta crítica ao que eles dizem ser, que não se nos corresponde com uma realidade histórica autêntica. 
Vamos ver qual é a origem daquilo tão sagrado que não admite crítica...
O etno-musicólogo Ruben Lopez Cano demonstrou que o hino do Reino não é de origem prussiano mas um tema andaluzi do século XI composto pelo inteletual muçulmano de Saraqusta (Saragoça) Ibn Bajjah (ابن باجة) embora posteriormente e por influência e atração do supremacismo germanista dos séculos XIX e XX se fez passar por um hino prussiano. Os tradicionais complexos espanhóis afastados da europeidade e os seus sentimentos de culpa no que diz respeito das suas origens islâmicas fez com que fosse ocultada ou ignorada a sua autêntica origem.

As partituras originais conservam-se ainda e estão datadas nos finais do século XI. Por outra parte, Ibn Bajjah (ابن باجة) cujo nome completo era Abu Bakr Muhammad ibn Yahya ibn al-Sa'ig ibn Bajjah (أبو بكر محمد بن يحيى بن الصايغ), conhecido como Avempace foi um filósofo hispano-muçulmano que trabalhou múltiplas disciplinas científicas e artísticas como a Medicina, a Poesia, a Física, a Botânica, a Musica e a Astronomia das quais tinha profundos conhecimentos. Um autêntico génio da época. 
A sua filosofia, base para autores cristãos como Alberto Magno ou São Tomás de Aquino mas também outros árabo-muçulmanos, constituiu o primeiro exemplo de filósofo andaluzi propriamente dito, embora tinha sido precedido por outros inteletuais de importância sem que qualquer deles tivesse entrado dentro do pensamento filosófico de forma rigorosa. Aristotelista convencido, foi o primeiro em optar por esse posicionamento filosófico na Europa que unido à sua crença na mística muçulmana gera um racionalismo místico islâmico fonte de outros autores posteriores como o de Averróis. 
Seguiu também carreira política, tendo sido vizir em época almorávida mas emigrado posteriormente perante a conquista da sua Taifa por parte dos aragoneses em 1118 da mão do Afonso o Batalhador.

A época que lhe tocou viver é uma época de esplendor da Taifa de Saraqusta do ponto de vista cultural mas também vital e difícil do ponto de vista político, pois é o momento histórico em que os seus territórios são acossados pelo Reino de Aragão perante o que acaba sucumbindo.
Curioso é nomear a inestimável ajuda que a Taifa de Saraqusta recebeu do mercenário castelhano Rodrigo Diaz de Vivar, conhecido como o Cid, contra o seu legítimo Rei Afonso VI (Rex Galletie et legionensium) do qual o Cid era súbdito e vassalo.
A capacidade de Avempace ou Ibn Bajjah para a música, o canto e a composição musical foram reconhecidas e admiradas por todos. Quer-se salientar a sua excelsa figura de inteletual e músico por parte da comunidade de conversos espanhóis ao Islão reconhecendo a autoria da partitura da chamada "Nuba al-Istihlal" com arranjos por parte de Omar Metiou e Eduardo Paniaga como a origem da "Marcha Granadera", atual hino espanhol oficial. 
Ele parece ser o autor da partitura do atual hino espanhol o qual ainda não sentindo-nos identificado com ele merece o nosso respeito quer pelas suas origens mais nobres do que eles acreditam quer pela realidade simbólica que representa para muitos. Quem não merece o nosso respeito são as atitudes, as formas e as ideias repressoras, acomplexadas, intolerantes e à defensiva próprias do mais criticável islamismo radical existente nas organizações partidárias espanholas que pervertem os poderes teoricamente públicos. Essas sim merecem o nosso assobio.

Vejamos e escutemos com atenção o vídeo seguinte:
Avempace ou Ibn Bajjah morreu aos cinquenta e oito anos com muita informação sem publicar, desordenada ou incompleta em Fez, atual Marrocos, após ter fugido da conquista cristã da sua Saraqusta natal percorrendo como exilado as cidades de Xátiva, Al-Marijja (Almeria), Medinat Garanat (Granada) e Orão. Uma grande figura que não se estuda como um personagem importante da Espanha por causa dos complexos dos poderes administrativos e nomeadamente educativos do Estado que não aceitam a tradição nacional andaluzi muçulmana como uma antecessora válida da atual realidade nacionalitária espanhola.

Queremos pensar nessa falta de inteligência ao implementarem uma injunção simbólica como é esta, porque se estivermos equivocados e não fosse falta de inteligência, não nos ficaria outra conclusão do que acreditarmos na vontade de provocarem situações como a do passado 30 de maio por alguma razão....Talvez para criarem uma situação que obrigasse a legislarem segundo as suas preferências nacionalitárias visando mais uma imposição histórica? Achamos que nestes casos se na sociedade existir uma animaversão contra o hino do Reino, o mais inteligente seria optarmos por apresentarem as equipas com os seus respetivos hinos desportivos ou no melhor dos casos -mas achamos impensável pelo carater "flamenco" do que falamos anteriormente- os hinos basco e catalão. 
Alguém ficaria ofendido?

Nota:
Obrigado a Patrícia Barreiro e a José Goris pela informação de utilidade.


terça-feira, 26 de maio de 2015

As Atas das Jornadas estão connosco

 


Por Rafael Quintia:

Para a "Sociedade Antropológica Galega" (SAGA) publicar as Atas das Jornadas das Letras Galego Portuguesas que cada ano, desde 2012, se celebram em Pitões das Júnias supõe uma oportunidade para cumprir e profundar no nosso objetivo da divulgação dos diferentes aspectos vinculados à Antropologia e à História da Galiza. Este labor editorial, oferece-nos, portanto, a possibilidade de apoiar e respaldar o trabalho que "Desperta do teu sono" (DTS) vem realizando, nos últimos anos, com tanta vontade e entrega, para o fomento das relações galaico-portuguesas e do conhecimento do nosso passado e cultura comuns. É por isso justo reconhecer e apoiar com esta publicação o trabalho dum coletivo como o DTS.


A través desta nova publicação pomos ao dispor do leitor interessado, os trabalhos expostos nas diferentes e sempre ilustrativas palestras que durante as edições dos anos 2012, 2013 e 2014 se desenvolveram neste encontro internacional, já obrigatoriamente referencial para quem quiser achegar-se e conhecer esse maravilhoso universo cultural compartilhado entre galegos e portugueses.


Dados técnicos desta Publicação:


Editorial: Sociedade Antropológica Galega


Impressão: branco e preto


Tamanho: 24×16 cm


268 páginas


I.S.B.N. 978-84-16121-28-1


Depósito legal: OU 128-2015


PVP: 15 €

sexta-feira, 17 de abril de 2015

IV Jornadas das Letras galego-portuguesas em Pitões das Júnias.


Programa (Hora portuguesa. Uma hora mais na Galiza)

Dia 30 de maio. Sábado

10:00: Abertura das IV Jornadas das Letras galego-portuguesas em Pitões
  • Lúcia Jorge. Presidente da Junta de Freguesia de Pitões das Júnias
  • Orlando Alves. Presidente da Câmara Municipal de Montalegre
  • José Manuel Barbosa. Desperta do teu sono.
  • Maria Dovigo (AGLP: Academia Galega da Língua Portuguesa)
10:30: 1º Painel. Moderador: José Manuel Barbosa: Desperta do teu sono.
  • 10:30: Mónica O'Reilly: "Myth and identity: Leabhar Gabhála Éireann: Construction and de-construction of irish, Galician and Portuguese Gaelic narrative" (Tradução simultânea: João Paredes).
  • 11:30: João Paredes: "Sobrevivências da antiga religião galaica e concomitâncias na Europa atlântica".
  • 12:30: Marcial Tenreiro: "Mito, realidade e território; Para uma etno-árqueologia jurídica na céltica peninsular".
13:30: Almoço


16:00: 2º Painel. Moderadora: Kátia Pereira representante do Polo Eco-Museu do Barroso-Pitões das Júnias
  • 16:00: Filme: "Cemraiost'abram" de Mónica Baptista.
  • 17:00: Rafael Quintia, João Bieites e José Manuel Barbosa: Apresentação das Atas das Jornadas das Letras galego-portuguesas dos anos passados.
18:00: Livre

Dia 31 de maio. Domingo.



10:00: 3º Painel. Moderador: David Teixeira Vice-Presidente da Câmara Municipal de Montalegre.
  • 10:00: Maria Dovigo: "Lei estranha do herdo. Presença da avó na poesia galega contemporânea: As elegias de Joana Torres".
  • 11:00: Hugo da Nóbrega: "Identidade toponímica do Norte de Portugal e localização do nome da Gallaecia".
  • 12:00: Conclusões e propostas em comum.
13:00: Almoço.

16:00: Visita turística por Pitões das Júnias
  • Visita ao Mosteiro de Pitões das Júnias
  • Visita à Cascata
  • Visita ao Eco-Museu onde se vai expor a panóplia guerreira dos soldados galaicos por parte do grupo Oinaikos Brakaron.
 
Colaboram:  
AGLP (Academia Galega da Língua Portuguesa)
Associação Pró-AGLP
Câmara Municipal de Montalegre 
Junta da Freguesia de Pitões das Júnias 
AGAL: (Portal galego da Língua) e AGAL (Associação Galega da Língua) 
SAGA: http://www.antropoloxiagalega.org/
IDG: https://durvate.wordpress.com/
Polo Eco-Museu do Barroso: 
Oinaikos Brakaron:
Gaiteiros de Pitões das Júnias:

Link da Junta de Freguesia de Pitões das Júnias:
http://jf-pitoesdasjunias.org
Link do Concelho de Montalegre:
 http://www.cm-montalegre.pt/

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Portugal e o Reino dos Suevos (409 a 585 AD)




Por João Casaca. 
(Engenheiro Geógrafo, Membro Conselheiro da O.E.)


Comendador Armando de Almeida Fernandes (nascido em Britiandes, em 1917, e falecido em Tarouca, em 2002), sendo licenciado em Ciências Geográficas, distinguiu-se pelo estudo da História dos antecedentes e primórdios de Portugal. Das várias dezenas de trabalhos que publicou, avultam teses tais como a do nascimento de D. Afonso Henriques em Viseu ou a da  origem de Portugal no reino suevo (409 a  585 AD. A argumentação de Almeida Fernandez, especialista em toponímia e antroponímia-onomástica, tem em geral uma base geográfico muito convincente. No primeiro capítulo do livro "Viseu, Agosto de 1109, nasce D. Afonso Henriques" (2007), Almeida Fernandez lembra que um topónimo (nome de lugar) passa frequentemente a corónimo (nome de região) por efeitos administrativos, e sustenta que o topónimo romano-céltico "Portucale" (Porto) passou a designar o condado de Portugal (corónimo) porque o Porto terá sido capital (residência real, centro administrativo e sede de diocese) no final do reino suevo.
Os suevos (quados e alguns marcomanos), juntamente com os vândalos e com os alanos, entraram na Hispânia em 409 AD, a convite do "governador" romano Gerôncio, em rebelião contra o imperador.
Em 411 AD (tendo liquidado Gerôncio), Honório instalou os suevos e os vândalos asdingos na Galiza, os vândalos silingos na Bética, os alanos na Lusitânia e manteve o controlo da província Tarraconense a leste da Galiza. Os suevos ficaram com o território da Galiza entre o Douro e o Minho, prolongado a Leste até Astorga. Até meados do século V, o reino suevo expandiu-se para norte (toda a Galiza) e para sul e leste (chegou a ocupar metade da Hispânia). Posteriormente, por ação dos visigodos, o reino suevo recuou para oeste e para norte do Tejo (Mérida e Lisboa foram perdidas em 466). Em 585, o reino suevo abrangia a Galiza e estendia-se para sul até ao Tejo, a norte do paralelo da foz do Zêzere. O corónimo Portugal, que atravessou incólume a dominação visigótica e muçulmana, abrangia aproximadamente o território entre o Douro e o Minho, mas a leste não ia tão longe como o território original do reino suevo (não incluía o atual distrito de Bragança). É no território condal, onde existe a maior concentração de topónimos germânicos de toda a Península, que a assimilação entre os suevos e os celto-romanos  teve maior sucesso: as terras do Bouro são as terras dos búrios (pequena tribo aliada dos quados). A aristocracia sueva apropriou-se das melhores terras, expropriando os grandes proprietários rurais, mas aliviando a população, em geral, dos pesadíssimos impostos romanos. Por outro lado, o reino suevo procurou manter a estrutura administrativa e judicial romana e praticou uma grande tolerância religiosa. A extinção da dinastia sueva em 585 não acabou com o reino suevo: Leovigildo, rei dos visigodos, passou a ser também o rei dos suevos, como aconteceu em França com os francos e os burgúndios.  

Em 863, Vímara Peres tomou o Porto aos mouros e foi nomeado conde de Portugal pelo rei Afonso III de Leão. A dinastia condal de Portugal extinguiu-se quando o conde Nuno Mendes foi morto, em 1071, pelo rei  Garcia da Galiza, na batalha de Pedroso (perto de Braga). O rei Garcia passou a intitular-se rei de Portugal e da Galiza. O rei Afonso VI de Leão, irmão do rei Garcia, apoderou-se do reino de Portugal e da Galiza e concedeu o condado portucalense ao seu genro D. Henrique, pai de D. Afonso Henriques. A expansão do território portucalense sob a égide do rei de Portugal levou a nova generalização do corónimo Portugal, que passou a designar as terras do senhor de Portugal, até à fronteira do Algarve. No livro “Paróquias Suevas e Dioceses Visigóticas” (1968), Almeida Fernandes leva a cabo uma análise toponímica de dois documentos coevos: o “Paroquial Suévico” e o “Provincial Visigótico”. O “Paroquial Suévico”, escrito c. 580 AD, no reinado de Teodemiro, apresenta uma relação de 134 paróquias agrupadas em 13 dioceses e indica a existência de uma diocese étnica (não geográfica) para os cristãos de origem bretã, emigrados da Grã-Bretanha, na sequência das invasões anglo-saxónicas. O Paroquial refere ainda a existência de vários “pagus”, que seriam paróquias de cristãos arianos, constituídas por sue vos não convertidos ao catolicismo. As dioceses mencionadas em território português (entre o Minho e o Tejo, no paralelo da foz do Zêzere) são Bracara, Portucale, Lameco, Viseu, Conimbria e Egitânia (Idanha). O “Provincial Visigótico”, escrito em meados do séc. VII AD, enumera e descreve os limites geográficos das dioceses visigóticas que, no nosso atual território, coincidem com as suevas, a norte do Tejo (paralelo da foz do Zêzere), e incluem Olissipona, Elbora, Pace (Beja) e Ossonoba (Faro). Tudo isto mostra que a génese de Portugal nada tem a ver com a antiga província romana da Lusitânia (com capital em Mérida) e que a História de Portugal não começa com D. Afonso Henriques.

sábado, 28 de março de 2015

Brasil: Novamente um alvo geoestratégico




 Por Artur Alonso Novelhe

A velha guerra encoberta entre Emergentes e Império Ocidental, agora – como já tínhamos comentado – se tornou nova guerra aberta. O Brasil joga em esse nó geoestratégico um papel de relevo na América Latina. Na tentativa de derrubar o Brasil – e com ele terminar com o sonho breve de independência econômica continental – estão depositadas parte das necessidades Imperiais anglo-saxônicas de manter o controlo hegemônico global.
Tomar o Banco do Brasil, entregá-lo a uma pequena elite de banqueiros vassalos do anel de poder londrino e de Wall Street com o fim de derrubar a Petrobras, transformá-la numa empresa menos dinâmica, privatizando-a ao serviço das grandes transnacionais petrolíferas Ocidentais; faz parte duma necessária estratégia de sobrevivência imperial, que passa inevitavelmente pela recolonização do jardim traseiro, que para os EUA foi sempre desde o século passado, a América do Sul.
A recentes manifestações em várias cidades do Brasil, nas que pudemos observar em várias das faixas reivindicativas, chamamentos ao exército para tomar o controle do país, não deixam de ser paradoxais, dado que em estes momentos é o atual governo brasileiro o único que manifestou sua disposição a garantir a soberania real do território. Os rivais mais próximos nas ultimas eleições, levavam em seus programas de governo a conversão do Banco Central, em um banco privado ao serviço do capital financeiro transnacional seguindo o modelo da Reserva Federal Americana ou do Banco Central Europeu o qual na pratica significa a entrega do fluxo monetário, sua expansão e contração, ao sector bancário privado. Este sector não conta com um anel de poder regional nem global limitando a sua ação para integrar-se no marco dos mercados mundiais geridos pelo anel de poder imperial anglo-saxão, nem tem hipótese, no curto prazo, de qualquer tipo de controlo sobre seus próprios recursos e patrimônio.
Nenhum militar entregaria a soberania do seu pais, a um poder econômico estrangeiro, pelo que podemos afirmar que se de algo pode estar preocupada a cúpula militar do país é sem dúvida, de que a situação de descontentamento brasileira, possa deteriorar-se ao extremo de o país ficar dividido em duas realidades irreconciliáveis. Esta divisão provocaria uma tensão semelhante a que hoje vive a Venezuela e não é de estranhar que todos os país da América de Sul, que estão a fazer hoje grandes esforços pela integração regional, dentro do Mercosul, Unasul ou Celac, etc, estejam sendo almejados pelos ataques econômico–financeiros, mediáticos e sociais, sendo utilizados nos protestos a corrupção como arma política muito eficaz, visando como alvo a destruição da convergência regional.

Fora da analise de modelos partidários ou da polarização esquerda–direita, o certo é que se um país tem o objetivo de ser o centro referencial dum novo poder emergente, ele precisa desenvolver um anel de poder abrangente que se consolide internamente e no âmbito regional que tenciona influenciar. Sendo no caso do Brasil, ele é o único ator com capacidade real, para impulsionar uma independência certa do continente Sul-Americano. Deve pois criar um modelo referencial exportável e compatível com o resto dos seus parceiros políticos e vizinhos continentais.

No cultural, o modelo está claro: um modelo de unidade na diversidade. Isto é relativamente fácil, num país que abrange dentro de si próprio todas as culturas, raças e tradições do planeta e que durante decênios tem colaborado na sua integração e miscigenação em contraste com o encerramento dentro dos seus próprios limites de estas próprias comunidades em outros territórios americanos.

No nível sócio–político e econômico, o Brasil precisa criar modelos flexíveis que sejam facilmente adaptáveis às realidades do seu contorno. Esse processo é secular, lento e paciente. Paciência e diplomacia têm sido duas das ferramentas que melhor sabe utilizar o poder brasileiro.

No entanto, na nova conjuntura internacional de guerra direta entre Emergentes e Anglo-saxões, é inevitável, que o Brasil ao mesmo tempo que define sua estratégia regional, resista as tentativas dos poderes exteriores de dominação.

Se por uma parte a chegada cada vez mais maciça do capital chinês tem sido importante para livrar a região duma vassalagem real ao capital transnacional ocidental, também por outra parte põe em evidência os medos do Império Norte-americano de ver-se ultrapassado como parceiro comercial e que isso signifique uma aliança Sul-americana em favor da hegemonia global chinesa. Nada mais absurdo para o futuro desenvolvimento potencial do Brasil, como trasladar o eixo do mundo do Atlântico Norte ao Pacífico... Assim que o Brasil, terá de saber movimentar-se com melhor subtilidade em este difícil contexto, exigindo de Washington novos modos de fazer política ao tempo que utiliza os amortecedores chinês e russo para evitar ser engolido pelo gigante Ocidental.

É pois em esta tessitura que Brasília precisa urgentemente criar um modelo inclusivo, a nível interno, que leve aos diferentes atores políticos do país a pactuar, precisa também um rascunho de acordo que permita pôr em marcha um anel flexível de poder propriamente brasileiro baseado na intocabilidade do Banco Central que é quem garante da independência econômica mas também precisa a manutenção das empresas estratégicas como Petrobras, garante de Independência energética, nas mãos do governo brasileiro. Terá igualmente que acordar-se um modelo econômico próprio que do nosso ponto de vista deve ser derivado do antigo modelo europeu do Estado Providência, onde o Estado faz ponte entre a força do trabalho e o capital, mantendo o equilibro entre ambos, permitindo a livre inovação, iniciativa e criatividade privada mas ao mesmo tempo desenvolvendo um modelo de redistribuição social justo e equitativo que permita às classes sociais mais humildes viver dignamente e crescer continuamente como seres humanos, com capacidade para desenvolver suas potencialidades e nobres valores. 
 
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...