quarta-feira, 16 de junho de 2021

As bandeiras das CCAA espanholas. Catalunha: Capitulo 2:

 

A seguir, continuamos com a descrição das bandeiras das CCAA do Reino da Espanha e a história das mesmas. Trataremos as bandeiras de Catalunha, Ceuta, Canárias e Cantábria:

Catalunha: A bandeira histórica de Catalunha é a tradicional da Coroa Catalano-Aragonesa com fundo amarelo e quatro faixas de cor vermelho atravessando o campo de maneira horizontal. A sua origem está no escudo das linhagens dos Condes de Barcelona. O primeiro testemunho histórico do sinal das quatro faixas aparece em um selo de cera que valida um documento datado de 2 de setembro de 1150, e no qual Ramon Berenguer IV é representado carregando essa simbologia no seu escudo. De qualquer maneira há representações pré-heraldicas da simbologia do vexilo das quatro faixas, como por exemplo as pinturas dos túmulos condais da catedral de Girona de Raimon Berenguer II (1053-1082) e Ermessenda de Carcassonne (972-1058).

Há também que lhe dá uma origem carolíngia, relacionada com a auriflama que servia de pendão imperial, com as suas cores e com um certa estética, mas a lenda que lhe dá origem à Senyera Reial, é de origem valenciano, narrada por Pere Antoni Beuter em uma Chronica General de España, na sua segunda parte, feita em castelhano no século XVI. 

Auriflama carolíngia

Nela fala dos factos acontecidos, precisamente, na Catalunha Carolíngia do século IX, quando o país fazia parte da Marca Hispânica e o Conde de Barcelona, Guifré el Pilós, último conde que recebe o condado dos reis carolíngios e o primeiro em dá-los em herança aos seus filhos, portanto, base da Casa Condal de Barcelona e base da soberania política do que posteriormente seria Catalunha, marca com quatro dedos da sua mão, pintados com o seu sangue, o escudo dourado que portava na batalha contra os normandos. A presença do rei carolíngio de nome Luís, embora não identificado com o seu ordinal, é fundamental nesta narração lendária, pois, após ser abatido o Conde pelos normandos e ferido na batalha, Guifré pede ao seu Imperador Luís que lhe forneça um escudo de armas. O rei aproximou-se dele e molhando os dedos da mão direita do nobre catalão na ferida sangrante levou -os de arriba a abaixo do escudo dourado do Guifré dizendo-lhe: Estas vão ser as vossas armas, Conde.

Senyera Reial

Em tempos modernos e localizada a sua origem em 1918, é conhecida a chamada estelada, bandeira independentista catalã que acrescenta às quatro barras vermelhas sobre fundo amarelo, um triângulo azul e uma estrela branca de cinco pontas dentro do triângulo, seguindo o modelo cubano. O seu criador foi Vicenç Albert Ballester, presidente do Comité pro-Catalunha que dava apoio ao Comité Nacional Catalão que visava uma representação de Catalunha dentro da Sociedade das Nações (antecessora da ONU) que se estava a criar em Suíça criou a bandeira no contexto histórico do final da I Guerra Mundial, a popularidade das independências dos novos países europeus saídos do afundamento do Império Austro-húngaro, do Império Russo e a política internacional levada a cabo pelo presidente dos EUA Woodrow Wilson com os seus 14 pontos que punham na moda o princípio de autodeterminação dos povos.

Estelada Blava, bandeira do movimento independentista catalão

Esta bandeira tem vários modelos segundo os partidos e as diferentes ideologias políticas, variando na sua estética as cores do triângulo e da estrela. Nao incluímos essas variantes por ser a chamada Estelada Blava a que vai triunfando sobre o resto de esteladas.

Posteriormente, já em épocas recentes, o genealogista catalão Armand de Fulvià i Escorsa, presidente da Instituició Catalana de Genealogia i Heràldica e assessor da Generalitat em materia heráldica e vexilológica, diz que a autêntica bandeira dos Países Catalães é a das quatro barras vermelhas, arguindo que todos os países catalães têm uma representação particular da bandeira comum e sendo o Principado o único território que não tem um particular. É assim que diz que ao Principado poderia-lhe ser reconhecida a sua própria bandeira identificando-a com a simbologia do Condado de Barcelona que inclui a Cruz de São Jorge. Mas é finalmente a estelada a que vai ocupando um espaço comum a todos os Países Catalães como bandeira de conjunto.

Bandeira do Principado com a Cruz de São Jorge ou Creu de Sant Jordi.

sexta-feira, 28 de maio de 2021

As bandeiras das CCAA espanholas. Origens e oportunidade dum ponto de vista nacional galego. (Capitulo 1)

 

Em textos anteriores temos manifestado a nossa opinião relativamente à adoção da bandeira da faixa azul como bandeira galega representativa do nosso país. A minha argumentação vai baseada na sua origem como distintivo militar da armada espanhola, facto que partilhamos com a bandeira de Cantábria, mas que a diferença desta última, a galega foi modificada na sua feição original, branca com uma aspa de Santo André azul, pelo governo de Isabel II de Bourbon por pedido do Império Russo para não ser confundida com a bandeira da armada russa.

A seguir acrescento umas nótulas relativamente às origens das distintas bandeiras das restantes Comunidades Autónomas do Reino da Espanha para podermos comparar com o nosso caso e vermos a oportunidade do caso galego de sermos representados por uma bandeira cuja origem não radica no povo galego, nem na tradição simbólica galega ou qualquer instituição favorável à nossa consideração como nação.

Iremos vendo cada uma das Comunidades por ordem alfabético:

 
Andaluzia: A Arbonaida ou لبُلَيْدة , pronunciado /al-bulaida/, que  significa país pequeno em árabe andalusi. A primeira referência de um vexilo andaluz de cor verde é de 1051 em um poema do Vizir da Taifa de Almeria Abu Asbag ibn Al-Arqâm que a faz aparecer na Alcaçaba da cidade de Almeria mas a sua origem parece estar no turbante verde de Abderramão I, que o tinha como o símbolo dos Omíadas e converteu em pendão na batalha de Al-Musara em 751. 
(Bandeira içada na Taifa de Almeria em 1051)
 
Esta referência seria uma das primeiras que existem de uma bandeira ou pendão na Europa e portanto, não seria excessivo acreditar no facto de ser a bandeira andaluza uma das mais antigas do nosso continente, quando não a mais antiga.
(imagem: www.paginasarabes.com)
Uns anos depois, na Batalha de Alarcos (1195), os almóadas do Sultão Abu Iúçufe Iacube, após a vitória das suas tropas contra os castelhanos de Afonso I de Castela (VIII, segundo o cômputo historiográfico espanhol) penduram do minarete da Mesquita de Sevilha dous estandartes: o verde como representativa de Al-Andalus e outro branco, símbolo e cor do Império almóada. 
(Bandeira da Batalha de Alarcos em 1191)
 
É na conquista de Granada em 1492 quando a maior parte da vexilologia incautada aos exércitos do Reino Nacérida de Granada contêm o branco e o verde, atualmente exposta em lugares públicos de Córdova ou de Sevilha.
Posteriormente, em 1521, aconteceu em Sevilha o chamado Motim do Pendão Verde que ergueu em armas a população mourisca contra a autoridade castelhana pela situação de falência da cidade e o preço dos alimentos ao que tinha levado a política da Coroa de Castela.
 
(Bandeira do Motim do Pendão Verde de 1521)

Estas cores, verde e branca, foram também usadas na rebelião que o Duque de Medina Sidónia levou a cabo contra os Áustrias pela independência de Andaluzia em 1642 mas a referência que temos é que foi um dos seus aliados quem a portou, o líder dos mouriscos, Tahir Al-Horr, nas regiões orientais andaluzas, obrigados poucos anos antes ao exílio ou à conversão ao catolicismo. Como sabemos, a rebelião foi sufocada por Filipe IV mas a simbologia perdurou na imaginaria andaluza.
Finalmente, é Blas Infante, pai do nacionalismo andaluz apresenta em 1918, em assembleia celebrada em Ronda o projeto de bandeira de Andaluzia com a feição que hoje conhecemos. O projeto é aprovado e assim adotado desde esse momento. Blas Infante recorreu à memória histórica para elaborar a arbonaida que é reconhecida como bandeira da nação andaluza desde essa altura, e oficialmente a partir do Estatuto de Autonomia de 1981 e posteriormente reafirmado pelo segundo Estatuto de Autonomia de 2007.
 
(Bandeira de Andaluzia com escudo)
 
Aragão:  O primeiro símbolo aragonês é o pendão do Eneko Aritza (Íñigo Arista para a historiografia espanhola), quem criou o primeiro reino vascão medieval cujo centro político estava ao redor de Pamplona mas que com o tempo ocuparia desde a atual CAV (Comunidade Autónoma Basca) e o atual norte de Aragão até Sobrarbe e Ribagorça. A sua base territorial foi a Marca Hispânica carolíngia donde agiu como ponte entre os cristãos francos e os muçulmanos dos Banu Qasi nas regiões do Ebro. O seu primeiro símbolo foi o pendão da Cruz de Eneko Aritza, de fundo em azur com uma cruz patada em branco e apontada no seu extremo inferior por estar vinculado o território à influência pamplonesa. Estamos a falar do século IX em que o Condado de Aragão surge como território fronteiriço com os muçulmanos criado pelos próprios reis carolíngios com fins defensivos, ocupando os vales dos rios Ansó, Echo, Aragão e Canfranc, que é o que lhe dá nome ao país. Aureolo ou Oriol foi o seu primeiro lider nomeado pelo próprio Carlos Magno. 
 
 (Bandeira com a Cruz de Eneko Aritza)
 
A união do Condado de Aragão com os Condados de Sobrarbe e Ribagorça criou em 1035 o Reino de Aragão que foi independente de Navarra. 
Durante os séculos XI e XII, Aragão aumentou em território e população a custo da Taifa de Saragoça embora os vínculos com Navarra levasse a uniões pontuais e a uma comunidade política de interesses comuns.
Foi em 1091 quando o rei Pedro I na batalha de Alcoraz derrota, com a oposição de Castela, aliada com a Taifa de Saragoça, a quatro reis muçulmanos na luta por Huesca. A lenda conta que a intervenção de São Jorge foi fundamental para a vitória cristã e foi a consequência desta batalha que mais de um século depois, um descendente do rei que conseguiu aquela vitória, neste caso, Pedro III, começou a usar a representação armorial que se considera privativa e propriamente aragonesa tendente ao espírito de Cruzada, típica da altura. Nela a cruz de São Jorge divide o corpo do escudo em quatro quartéis, cada um dos quais ocupado pela representação de uma cabeça de cada um dos reis muçulmanos vencidos nessa batalha por Huesca. Como os pendões ou vexilos têm a sua origem nas representações armoriais, consideramos que a bandeira originária de Aragão poderia ser esta, embora não tenhamos fontes que no-lo confirmem.
Anos mais tarde, a finais do século XV, quando Sardenha fazia parte da Coroa Catalano-Aragonesa, foi esta a bandeira adotada pela ilha até a atualidade.
 
(Bandeira da Cruz de Alcoraz)
 
Foi, finalmente em 1137, quando a herdeira do trono de Aragão, Petronila, casou com o Conde de Barcelona, Raimon Berenguer IV, configurando-se assim o que de agora em adiante vai ser considerado com o nome de Casal d'Aragó, Regno, dominio et corona Aragonum et Catalonie, Regnes d'Aragó, València i comtat de Barcelona ou a partir do século XVIII, já com os Bourbons, Corona de Aragón. A simbologia adotada há de ser a tradicional catalã da bandeira das quatro faixas em gules (vermelhas) sobre fundo ouro (amarelo). É o que se vai chamar Senyal Reial da Casa Condal de Catalunha.
É a partir do século XX e da constituição de Aragão como Comunidade Autónoma do Reino da Espanha que no Estatuto de Autonomia da região com categoria de nacionalidade é aceite a bandeira de Aragão seguindo a tradição simbólica catalano-aragonesa coincidente com a Catalunha. A distinção radica no escudo de cada uma das CCAA.
 


AstúriasA bandeira usada pelos primeiros reis que tinham a sua Corte no atual território asturiano é desconhecida documentalmente mas o arqueólogo da Universidade de Oviedo, Elias Carrocera, mantém que o primeiro vexilo ou estandarte que poderiam ter sido usado pelos primeiros reis cristãos após a ocupação muçulmana da Península, foi em ouro (amarelo) com uma cruz bizantina no centro em gules (vermelho) com a alfa e a ómega também em gules, segundo ele, as cores que representavam a igreja na altura e ainda as cores da auriflama imperial carolíngia.
 
Mais alguma informação temos, sobre a suposta bandeira usada pelo rei Ordonho I na Batalha de Albelda, a qual foi mitificada por Rodrigo Ximenes de Rada, gerando a lenda da Batalha de Clavijo na que supostamente, e segundo a narração fantástica do Bispo de Toledo, Ramiro I, pai de Ordonho I, venceu os muçulmanos na Rioja com a ajuda do Apóstolo Santiago. Há uma bandeirola no Museu do Exército, em Madrid, que se identifica como o vexilo em questão mas também podemos achar uma representação no Tombo A da Catedral de Santiago de Compostela. A imagem da bandeirola é a seguinte:
(Bandeirola da Batalha de Albelda mitificada como a Batalha de Clavijo)

As bandeiras recolhidas nos diferentes armoriais europeus durante a Idade Moderna apresentam uma estética na que o corpo está quartelado, onde no quartel superior esquerdo aparece a bandeira tradicional de Castela em gules e ouro, no inferior direito a bandeira tradicional de Leão e nos quartéis superior direito e inferior esquerda aparece sobre fundo em azur um graal galego em em gules com as cruzes também em gules.

Daí em diante as representações s
ão diferentes, fugindo da estética galega ou castelhano-leonesa. É durante a invasão napoleónica que Junta Geral do Principado organiza a resistência contra o francês e considerando que não tem bandeira, cria uma que modificada ligeiramente por Jovellanos deriva na atual bandeira azul com a Cruz da Vitoria em amarelo no meio. Em origem era com fundo em gules (vermelho) e a cruz da vitória em ouro (amarelo) com a legenda, também em ouro Hoc signo tuetur pius. Hoc signo vincitur enemicus cujo significado é Com este signo os pios são defendidos. Com este signo os inimigos são vencidos.


(Bandeira de Gaspar Melchor de Jovellanos)
 
Já posteriormente a bandeira de Jovellanos tomaria a cor azur com a mesma cruz da vitória em ouro (amarelo) e seria assim que se popularizou durante o século XX para ser reconhecida pelo Estatuto de Autonomia de dezembro de 1981.
 
 

BalearesAs referências que temos das bandeiras da Taifa de Maiorca ou de Dénia-Maiorca são desconhecidas para quem isto escreve. São conhecidas as ilhas com o nome de Al-Jazira al-Sharqiya li-l-Andalus mas uma vez aconteceu a conquista por parte de Jaume I el Conqueridor, o Papa designou um vexilo dividido horizontalmente em duas metades, vermelha a superior e branca a inferior:
 

Ainda que poucos anos depois, no Libro del conoscimiento de finais do XIV se nos descreve uma representação armorial ou vexilar composta de faixas verdes e pretas de difícil reconstrução a partir da narração.

O reino foi repovoado por catalães durante a sua pertença à Coroa Catalano-Aragonesa e portanto adotou a simbologia da monarquia regentes. Assim, a sua bandeira adquiriu as formas das barras vermelhas e amarelas mas com o elemento identitário insular do Castelo de Maiorca. Esta bandeira, em início estava quartelada, sendo dous dos quadrados representativos do senyal reial barrat e os outros dous representando o castelo em branco sobre fundo azul.

Atualmente a bandeira o balear está baseada na tradicional senyera cujo corpo está composto das tradicionais quatro barras vermelhas horizontais sobre fundo amarelo com um quartel na parte superior esquerda representando o Castelo de Maiorca em branco com cinco torres sobre fundo roxo.
 
(Continuará)
 
Bibliografia e linkografia
Turbante verde de Abderramão: https://paginasarabes.com/2018/03/23/el-turbante-arabe-simbolo-de-poder-y-religion/

domingo, 17 de novembro de 2019

Uma questão de simbologia nacional


 
Bandeira do Reino de Galiza legal ate 1833

 Por: José Manuel Barbosa

Em 1607 foram criadas as Províncias Marítimas da Monarquia Hispânica por Real Cédula de Filipe III de Habsburg, as quais ainda existem atualmente dependentes do Mistério de Fomento mas baixo cujo governo esta um Capitão dependente, como funcionário, da Direção Geral da Marina Mercante espanhola.
Cada uma destas províncias tem uma, chamada, Contrassenha, quer dizer, uma bandeira com a que se reconhece a Província Marítima em questão. Estas bandeiras ou Contrassenhas foram criadas por Real Ordem de Isabel II o 30 de Julho de 1845 assinada pelo Capital Geral da Armada Espanhola e Ministro de Marina, Ramon Romay y Jimenez de Cisneros, nascido em Betanços e publicada pela Direção Geral da Armada em 4 de Agosto de 1845 na Gazeta de Madrid, antecessora do atual BOE. Nesse texto dizia que ao lado do "Pabellon Nacional" deveria figurar a bandeira ou Contrassenha indicativa da província marítima espanhola a que pertencia. Estas bandeiras seguiram o código de sinais marítimas internacional, aleatório e SEM QUALQUER SIGNIFICADO TERRITORIAL, segundo o texto originário, usando quatro cores: Vermelho, Azul, Amarelo e Branco. Esse código foi elaborado pelo na altura, Tenente da Armada Jose de Mazarredo Salazar em 1791.
Bandeira Galega do Graal atualizada
Se repararmos na inicial bandeira da Crunha veremos que esta é uma bandeira branca com uma aspa azul. Essa foi a bandeira ate 1891, ano em que se viu obrigado o governo espanhol a modificar a Contrassenha da Crunha por causa do pedido do governo russo ao governo de Isabel II, que considerava que a insígnia da Crunha era um decalque da bandeira da Marina Russa com o consequente incomodo que poderia ter para ambos Estados uma suposta confusão simbolológica. O governo espanhol aceitou entendendo que os barcos espanhóis provenientes do porto da Crunha e que navegavam por todos os mares onde tinha possessões territoriais (América, Filipinas, o Pacífico…) poderia ser confundidos com barcos russos, o que poderia ser um perigo potencial para o Reino da Espanha já que o Império Russo estava implicado em guerras tanto na Europa contra Turquia, os Balcãs, o Cáucaso (Mar Negro, Mediterrâneo, Atlântico) quanto na Ásia (Índico e Pacífico) com conflitos como o de Crimeia ou contra a China, ou o Japão no Estremo Oriente num projeto de expansao territorial que lhe desse saída aos mares cálidos.
Contrassenha da Província da Crunha a partir de 1845
Entre 1882 e 1895, chega ao Ministério de Assuntos Estrangeiros de Rússia o Diplomata Nicolai Girs que leva a cabo ações de concórdia e paz com as diferentes potencias internacionais. Com ele é que se faz o pedido de mudança de bandeira do porto da Crunha ao governo espanhol e é por meio do Decreto de 22 de Junho de 1891 publicado na Gazeta de Madrid (antecessor do BOE) quando o governo espanhol decide tirar uma das duas faixas dessa bandeira ou Contrassenha da Crunha. O texto diz:
"...para evitar las dificultades que puedan suscitarse, confundiendo la bandera del imperio ruso con la de la provincia marítima de La Coruña, se modifique esta última suprimiéndole una de las aspas, quedando por tanto reducida a una bandera blanca con faja diagonal azul (...) para evitar la confusión que se pueda dar entre la enseña del Imperio de Rusia y la de la provincia marítima de La Coruña".
A partir desse momento é que os galegos emigrados em América começaram a reconhecer os barcos provenientes do porto da Crunha pela bandeira branca com uma única faixa azul e foi assim que finalmente os galeguistas adotaram essa bandeira como a sua bandeira a pesar de que Manuel Murguia tivesse insistido na feição real da bandeira galega histórica.
Contrassenha da Crunha a partir de 1891
Chegados ao século XXI e a um grau de consciência nacional determinada, caberia pensar que uma bandeira criada por um governo de Madrid e reformada também pelo mesmo poder madrileno por pedido duma potencia estrangeira e no que os galegos não tiveram o menor protagonismo na sua criação, poderia ser aceite pelos galegos amantes da sua Nação? Caberia aceitar uma simbologia vexilológica surgida dum contexto político, 1845, em que a Galiza era identificada como uma "Colónia da Corte" em palavras de Antolim Faraldo uns meses depois, nas vésperas da Revolução de Abril de 1846? Caberia aceitar uma realidade simbólica surgida durante ao Reinado de Isabel II e por obra e graça do seu governo durante o processo de criacao do, até o momento inexistente Reino da Espanha, uma vez eliminado o histórico, primordial, veterano e matricial Reino da Galiza? Caberia aceitar um pavilhão para a Galiza que favorecia, afirmava e reafirmava uma Espanha de vocação nacional castelhana como Estado-Nação, negadora das realidades nacionais peninsulares, entre elas a Galiza? Caberia aceitar uma representação emblemática da Galiza nascida quando se começava a elaborar uma Historia da Espanha que hoje tanto criticamos e negadora do protagonismo da Galiza na Historia da Península e da Europa? Caberia assumir uma bandeira galega proveniente da época em que se começa a desligar a identidade da língua dos galegos ao resto do domínio galego-português?
Tínhamos bandeira e esta foi ilegalizada quando se ilegalizou o Reino da Galiza…. Agora há uma bandeira criada por quem ilegalizou a nossa bandeira histórica e originária do nosso Reino. Quantas das bandeiras "autonómicas" foram criadas pelo governo de Madrid? Quantas regiões ou nações do Estado conservam as suas bandeiras históricas? Pense-se e diga-se.
Outras Contrassenhas dos portos galegos: 
Contrassenha de Ferrol
Contrassenha de Lugo-Burela
Contrassenha de Vigo
Contrassenha de Vila Garcia de Arouça


Referencias:


 


terça-feira, 23 de abril de 2019

Entrevista a Xavèrio Ballester


O Prof. Xaverio Ballester, catedrático de Filologia Latina da Universidade de Valência, estará connosco nas VIII Jornadas Galaico-Portuguesas de Pitões das Júnias (Montalegre), onde falará no sábado 11 de Maio.
Com ele, igual que com o Prof. Benozzo anteriormente, teremos a honra de contar com um dos principais investigadores do chamado Paradigma da Continuidade Paleolítica, uma autêntica revolução científica multidisciplinar que estabelece um novo modelo de interpretação e entendimento das origens das línguas e culturas europeias, com implicações diretas até dia de hoje.
Assim, agradecemos ao Prof. Ballester esta pequena entrevista que serve de avanço à sua palestra nas jornadas que, com certeza, será apaixonante.


- Que foi o primeiro que o levou a se interessar pelo estudo das origens das línguas e culturas ancestrais e como acabou por tratar com temas célticos
Não sei exatamente de onde é que vem o meu interesse pelo estudo da origem das línguas, ou da língua sem mais, mas reconheço que é o tema do que mais gosto e no que estou mais especializado.
As minhas primeiras lembranças infantis são ilustrações de livros e figurinhas sobre os nossos ancestrais: celtas e iberos. Depois interessei-me muito pela coisa indo-europeia, mas já de estudante resultou-me impossível aceitar a doutrina tradicional vinda do século dezanove.
O meu primeiro contacto a sério com o mundo céltico foi no curso 1991-2, em Teruel [Aragão] onde se fazia investigação, principalmente arqueológica, sobre o mundo celtibérico. Lembro que em uma semana revisei tudo o que se conhecia sobre a língua celtibérica; hoje isso já não seria possível por causa da eclosão de textos e autores disponíveis. Eu vinha de uma bolsa pós-doutoral em Munique, onde tirei proveito para fazer uns cursos de literatura polaca e de lituano. Neste último tive por único companheiro ao grande celtista Kim McCone, quem se ofereceu a dar um seminário sobre as línguas célticas e naturalmente fui convidado. Muito lamentei depois ter perdido aquela oportunidade, mas naquela altura o mundo céltico parecia-me uma coisa ainda mais afastada do que o mundo báltico ou eslávico. Em Teruel eu percebi o meu erro e do perto que tínhamos o céltico, já que a só uns poucos quilómetros começavam a sair textos celtibéricos. Não podia suspeitar que o céltico fosse algo assim tão próximo.


- O seu nome é um dos grandes nomes por trás do Paradigma da Continuidade Paleolítica (PCP) que defende, entre outras coisas, uma origem local, gradual e muito mais antiga do comummente aceitado para as línguas e culturas europeias. Apesar da crescente acumulação de evidências, como é que há tantíssima reticência ao PCP nos círculos académicos convencionais? É realmente um problema estritamente científico?

A minha resposta aqui será necessariamente muito subjetiva, mas sincera. Direi o que realmente acredito: porque os principais defensores do novo paradigma somos espanhóis, franceses, italianos, portugueses… Creio sinceramente que se a nova proposta tiver emergido em inglês nos Estados Unidos ou no Reino Unido a situação seria bem diferente.
Infelizmente os problemas científicos, quando menos nas ciências humanas, não são quase nunca
estritamente científicos. Há interesses das grandes corporações académicas e de poderosas editoriais. A disciplina da História da Ciência fornece inúmeros exemplos de teorias que foram mesmo ridicularizadas inicialmente porque se opunham à doutrina oficialmente estabelecida, e que posteriormente resultaram corretas. Mas como cientista devo ser otimista, acreditar que mais tarde ou mais cedo há triunfar a razão.
Isto é especialmente verdade para a ciência humanística (ou como quer que se lhe quiser chamar) onde a diferença da física, medicina, química ou tantas outras, não dispomos do método experimental. Nós só podemos tentar explicar muito mais e melhor. Uma boa teoria deve ser preditiva e produtiva e, em verdade, em trinta anos crescemos espetacularmente nesse sentido, sem mais ajuda do que a razão e a argumentação.


- O Prof. Benozzo, seguindo também a linha do PCP, afirma que a Gallaecia, o noroeste peninsular, é a origem primeira do todo o celta. De onde é que vem então o prejuízo em relação à celticidade da Galiza?

O meu bom amigo Francesco, extraordinária personalidade no científico e no artístico, é único. Ora bem, eu agora não seria tão preciso.
Não há dúvida de que geneticamente a Península Ibérica constitui um dos principais refúgios de população humana na fase mais dura da época glacial. Daqui saiu uma grande quantidade de gente que, graças à pegada genética, sabemos que repovoou grande parte da Europa.
A posição atual do PCP, e por isso é um
paradigma flexível e não uma teoria rígida e dogmática nos seus detalhes, é que aquelas pessoas depois serão essencialmente os celtas, isto é, os falantes históricos de línguas célticas. Mas se foi a zona galaica exatamente ou mais bem a cantábrica ou toda a região setentrional é algo que, acho, não estamos ainda em condições de precisar. O que sim defendemos com múltiplos e variados argumentos é que, se a nossa proposta for certa, ainda que as falas célticas foram aqui absorvidas pelo latim, a Galiza não teria uma celticidade emprestada, mas genuína, milenar, e obviamente ainda presente em muitos outros aspetos da tradição e da cultura.


- Seria necessário ou teria sentido a criação de uma cátedra de estudos célticos na Galiza?

Cátedra universitária? Em princípio parece uma boa ideia mas… O primeiro é colocarmos em ordem a instituição. Se para uns poucos lugares do mais modesto trabalho encontras com um monte de gente em concurso público desde há anos e, em troca, o acesso a funcionário universitário faz-se sem competência e por um sistema onde se valoram cotas, cargos e outros méritos que pouco ou nada têm a ver com o científico… Na universidade uma cátedra de “Estudos Célticos” não garante que vaia haver estudos célticos.
Por exemplo, em Valência criara-se uma muito restritiva cátedra de “Línguas Pré-Romanas da Península Ibérica”, cátedra
ad hominem para certo e influente sujeito, muito mais conhecido pelos seus pedantes versos que pelas suas investigações, e depois jamais lecionou nem a primeira aula na matéria. Só em 1998, após a minha incorporação a essa mesma universidade, pudemos ministrar um par de cursos. Depois de eu ganhar a cátedra de Filologia Latina em 1994 por concurso público, a universidade atendeu a reclamação do candidato local e, seguido de um longo litígio, voltou a oferecer a mesma cátedra, mas esta vez com o mais restritivo perfil de “Latim dos Cristãos”, pois o candidato que o impugnara era sacerdote. Ganhei novamente mas, como nunca existira tal matéria, levo 20 anos sem poder dar essas aulas.
Assim, temo muito que qualquer um com os contactos ajeitados pudera obter facilmente uma cátedra de “Estudos Célticos” para depois usar o seu tempo noutros assuntos. Na atual situação acho que criar tal cátedra comportaria um grande risco.


- Na sua iminente visita a Pitões vai-nos falar de mitologia… Sem desvelar muito, que podemos aguardar da sua palestra?

As duas ideias principais que desejo transmitir é que acreditamos saber agora com certeza que muitos dos nossos mitos remontam ao Paleolítico Superior e que, precisamente a Gallaecia, entendida como o quadrante noroeste da antiga Hispânia, conservou notáveis arcaísmos por toda uma série de razões.
Uma grande contribuição linguística do chorado mestre Mario Alinei foi mostrar o valor dos dialetos, do rural, humilde e periférico, pois pelo seu carácter conservador podiam preservar componentes paleolíticos por exemplos nas suas motivações semânticas. Até Alinei acreditava que nestes casos podia-se chegar até época medieval.
Já intuímos que a
mitologia, entendida genericamente como um conjunto de crenças, contos, superstições, etc, podia remontar igualmente a época paleolítica. Contudo, não podíamos suspeitar (isto é preditividade) que haveria uma evidência tão clara e maciça (isto é produtividade) e que indiretamente isto tudo constituiria um apoio ao PCP. Quer dizer, os mitos se atualizam e, além disso, misturam-se mais do que as línguas e as línguas mais do que as raças. Assim, se o continuum mitológico, apesar da sua maior contaminação, pode se remontar ao Paleolítico, como não iam poder fazê-lo os continua linguísticos?


- Então, especificamente, como pode contribuir a antiga Gallaecia a esta nova argumentação e endossar as posições do PCP?

Muitíssimo. Na Gallaecia, temos um amplo observatório de antiquíssimos mitos e crenças, uma reserva extraordinária, com a particularidade de esta tradição estar perfeitamente viva para grande parte da população. É um valor 10 no quantitativo e outro 10 no qualitativo.
Resulta que, por causa das suas vicissitudes históricas e da sua localização no “cabo do mundo” do grande continente euro-asiático, a Gallaecia preservou em boas condições estádios mais primitivos de muitos mitos primordiais, como esse mesmo que acabo de nomear de “fim do mundo”, e muitos outros.
Disto tudo aguardo poder falar em mais detalhe com os amigos de Pitões.
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