segunda-feira, 1 de junho de 2015

A quem assobiamos nós?



Por José Manuel Barbosa

O passado 30 de maio do presente ano de 2015, na final da Taça do Rei espanhola entre o Barcelona e o Athletic de Bilbau aconteceu o que temiam alguns. A torcida basca e catalã arrancou num assobio conjunto que apagou as músicas do hino espanhol no estádio cheio de seareiros perante um monarca muito śerio e um presidente da Generalitat nada surpreso. Os avisos e ameaças por parte do governo contra quem se atrevesse a exercer a sua liberdade de expressão ou dito de outro jeito, contra os que se atrevessem a desprezar o hino, estavam nos média desde havia uns dias mas os prognósticos cumpriram-se.
 Tenho que reconhecer que não gosto dos desrespeitos nem dos sentimentos "anti" que os afeiçoados manifestaram, mas também por isso tenho que reconhecer que nunca gostei da falta de inteligência política dos dirigentes espanhóis, já forem estes atuais ou de épocas históricas. Essa falta de inteligência favorece a reação e acrescenta aquilo que se quer reprimir. No Reino Unido no que se permitiu o referendum da Escócia e no que se permite a queima da Union Jack no meio de Picadilly Circus perante a fleumática olhada dos democráticos ingleses, que mesmo toleram os desrespeitos dos contrários aos Windsor pelas suas felonias ou dos governos de Londres, nada tem a ver com a paixão, a visceralidade, a falta de grandeza e pouco raciocínio dos herdeiros duma tradição política de golpistas, imperialistas fracassados e inquisidores anti-islâmicos, anti-judeus e anti-protestastes. 

Tudo "anti" e só "pró" quando se diz da hispanidade mal percebida ou percebida como uma imposição da Castela "über alles". É isso que causa rechaço em muitos cidadãos oficialmente espanhóis mas com vontade de se afastarem dessa realidade político-nacionalitária que não sabem gerir desde Madrid, nem demostra uma elegância necessária das instituições que deveriam ser mais indiferentes, insensíveis e pacientes perante a expressão da gente farta do carácter "flamenco" dos dirigentes madrilenos.
Essa falta de estética tem a ver também com os complexos de inferioridade espanhóis que sucumbem moralmente perante qualquer contrariedade que vai frontalmente contra a sua forma de perceber a vida: Catolicismo râncio, castelhanismo linguístico e administrativo, histórico, estético, folclórico, cheio de racismo contra tudo o que não percebem, valorização da ignorância, intolerância, monolinguismo, sadismo festivo, "chuleria", soberba, falta de humildade e corrução institucional e cultural histórica que contagiam como vírus ali por onde passam e ali onde tocam... Desse jeito nao caberiam situações como esta. É por isso que consideramos importante dar-lhe uma volta crítica ao que eles dizem ser, que não se nos corresponde com uma realidade histórica autêntica. 
Vamos ver qual é a origem daquilo tão sagrado que não admite crítica...
O etno-musicólogo Ruben Lopez Cano demonstrou que o hino do Reino não é de origem prussiano mas um tema andaluzi do século XI composto pelo inteletual muçulmano de Saraqusta (Saragoça) Ibn Bajjah (ابن باجة) embora posteriormente e por influência e atração do supremacismo germanista dos séculos XIX e XX se fez passar por um hino prussiano. Os tradicionais complexos espanhóis afastados da europeidade e os seus sentimentos de culpa no que diz respeito das suas origens islâmicas fez com que fosse ocultada ou ignorada a sua autêntica origem.

As partituras originais conservam-se ainda e estão datadas nos finais do século XI. Por outra parte, Ibn Bajjah (ابن باجة) cujo nome completo era Abu Bakr Muhammad ibn Yahya ibn al-Sa'ig ibn Bajjah (أبو بكر محمد بن يحيى بن الصايغ), conhecido como Avempace foi um filósofo hispano-muçulmano que trabalhou múltiplas disciplinas científicas e artísticas como a Medicina, a Poesia, a Física, a Botânica, a Musica e a Astronomia das quais tinha profundos conhecimentos. Um autêntico génio da época. 
A sua filosofia, base para autores cristãos como Alberto Magno ou São Tomás de Aquino mas também outros árabo-muçulmanos, constituiu o primeiro exemplo de filósofo andaluzi propriamente dito, embora tinha sido precedido por outros inteletuais de importância sem que qualquer deles tivesse entrado dentro do pensamento filosófico de forma rigorosa. Aristotelista convencido, foi o primeiro em optar por esse posicionamento filosófico na Europa que unido à sua crença na mística muçulmana gera um racionalismo místico islâmico fonte de outros autores posteriores como o de Averróis. 
Seguiu também carreira política, tendo sido vizir em época almorávida mas emigrado posteriormente perante a conquista da sua Taifa por parte dos aragoneses em 1118 da mão do Afonso o Batalhador.

A época que lhe tocou viver é uma época de esplendor da Taifa de Saraqusta do ponto de vista cultural mas também vital e difícil do ponto de vista político, pois é o momento histórico em que os seus territórios são acossados pelo Reino de Aragão perante o que acaba sucumbindo.
Curioso é nomear a inestimável ajuda que a Taifa de Saraqusta recebeu do mercenário castelhano Rodrigo Diaz de Vivar, conhecido como o Cid, contra o seu legítimo Rei Afonso VI (Rex Galletie et legionensium) do qual o Cid era súbdito e vassalo.
A capacidade de Avempace ou Ibn Bajjah para a música, o canto e a composição musical foram reconhecidas e admiradas por todos. Quer-se salientar a sua excelsa figura de inteletual e músico por parte da comunidade de conversos espanhóis ao Islão reconhecendo a autoria da partitura da chamada "Nuba al-Istihlal" com arranjos por parte de Omar Metiou e Eduardo Paniaga como a origem da "Marcha Granadera", atual hino espanhol oficial. 
Ele parece ser o autor da partitura do atual hino espanhol o qual ainda não sentindo-nos identificado com ele merece o nosso respeito quer pelas suas origens mais nobres do que eles acreditam quer pela realidade simbólica que representa para muitos. Quem não merece o nosso respeito são as atitudes, as formas e as ideias repressoras, acomplexadas, intolerantes e à defensiva próprias do mais criticável islamismo radical existente nas organizações partidárias espanholas que pervertem os poderes teoricamente públicos. Essas sim merecem o nosso assobio.

Vejamos e escutemos com atenção o vídeo seguinte:
Avempace ou Ibn Bajjah morreu aos cinquenta e oito anos com muita informação sem publicar, desordenada ou incompleta em Fez, atual Marrocos, após ter fugido da conquista cristã da sua Saraqusta natal percorrendo como exilado as cidades de Xátiva, Al-Marijja (Almeria), Medinat Garanat (Granada) e Orão. Uma grande figura que não se estuda como um personagem importante da Espanha por causa dos complexos dos poderes administrativos e nomeadamente educativos do Estado que não aceitam a tradição nacional andaluzi muçulmana como uma antecessora válida da atual realidade nacionalitária espanhola.

Queremos pensar nessa falta de inteligência ao implementarem uma injunção simbólica como é esta, porque se estivermos equivocados e não fosse falta de inteligência, não nos ficaria outra conclusão do que acreditarmos na vontade de provocarem situações como a do passado 30 de maio por alguma razão....Talvez para criarem uma situação que obrigasse a legislarem segundo as suas preferências nacionalitárias visando mais uma imposição histórica? Achamos que nestes casos se na sociedade existir uma animaversão contra o hino do Reino, o mais inteligente seria optarmos por apresentarem as equipas com os seus respetivos hinos desportivos ou no melhor dos casos -mas achamos impensável pelo carater "flamenco" do que falamos anteriormente- os hinos basco e catalão. 
Alguém ficaria ofendido?

Nota:
Obrigado a Patrícia Barreiro e a José Goris pela informação de utilidade.


terça-feira, 26 de maio de 2015

As Atas das Jornadas estão connosco

 


Por Rafael Quintia:

Para a "Sociedade Antropológica Galega" (SAGA) publicar as Atas das Jornadas das Letras Galego Portuguesas que cada ano, desde 2012, se celebram em Pitões das Júnias supõe uma oportunidade para cumprir e profundar no nosso objetivo da divulgação dos diferentes aspectos vinculados à Antropologia e à História da Galiza. Este labor editorial, oferece-nos, portanto, a possibilidade de apoiar e respaldar o trabalho que "Desperta do teu sono" (DTS) vem realizando, nos últimos anos, com tanta vontade e entrega, para o fomento das relações galaico-portuguesas e do conhecimento do nosso passado e cultura comuns. É por isso justo reconhecer e apoiar com esta publicação o trabalho dum coletivo como o DTS.


A través desta nova publicação pomos ao dispor do leitor interessado, os trabalhos expostos nas diferentes e sempre ilustrativas palestras que durante as edições dos anos 2012, 2013 e 2014 se desenvolveram neste encontro internacional, já obrigatoriamente referencial para quem quiser achegar-se e conhecer esse maravilhoso universo cultural compartilhado entre galegos e portugueses.


Dados técnicos desta Publicação:


Editorial: Sociedade Antropológica Galega


Impressão: branco e preto


Tamanho: 24×16 cm


268 páginas


I.S.B.N. 978-84-16121-28-1


Depósito legal: OU 128-2015


PVP: 15 €

sexta-feira, 17 de abril de 2015

IV Jornadas das Letras galego-portuguesas em Pitões das Júnias.


Programa (Hora portuguesa. Uma hora mais na Galiza)

Dia 30 de maio. Sábado

10:00: Abertura das IV Jornadas das Letras galego-portuguesas em Pitões
  • Lúcia Jorge. Presidente da Junta de Freguesia de Pitões das Júnias
  • Orlando Alves. Presidente da Câmara Municipal de Montalegre
  • José Manuel Barbosa. Desperta do teu sono.
  • Maria Dovigo (AGLP: Academia Galega da Língua Portuguesa)
10:30: 1º Painel. Moderador: José Manuel Barbosa: Desperta do teu sono.
  • 10:30: Mónica O'Reilly: "Myth and identity: Leabhar Gabhála Éireann: Construction and de-construction of irish, Galician and Portuguese Gaelic narrative" (Tradução simultânea: João Paredes).
  • 11:30: João Paredes: "Sobrevivências da antiga religião galaica e concomitâncias na Europa atlântica".
  • 12:30: Marcial Tenreiro: "Mito, realidade e território; Para uma etno-árqueologia jurídica na céltica peninsular".
13:30: Almoço


16:00: 2º Painel. Moderadora: Kátia Pereira representante do Polo Eco-Museu do Barroso-Pitões das Júnias
  • 16:00: Filme: "Cemraiost'abram" de Mónica Baptista.
  • 17:00: Rafael Quintia, João Bieites e José Manuel Barbosa: Apresentação das Atas das Jornadas das Letras galego-portuguesas dos anos passados.
18:00: Livre

Dia 31 de maio. Domingo.



10:00: 3º Painel. Moderador: David Teixeira Vice-Presidente da Câmara Municipal de Montalegre.
  • 10:00: Maria Dovigo: "Lei estranha do herdo. Presença da avó na poesia galega contemporânea: As elegias de Joana Torres".
  • 11:00: Hugo da Nóbrega: "Identidade toponímica do Norte de Portugal e localização do nome da Gallaecia".
  • 12:00: Conclusões e propostas em comum.
13:00: Almoço.

16:00: Visita turística por Pitões das Júnias
  • Visita ao Mosteiro de Pitões das Júnias
  • Visita à Cascata
  • Visita ao Eco-Museu onde se vai expor a panóplia guerreira dos soldados galaicos por parte do grupo Oinaikos Brakaron.
 
Colaboram:  
AGLP (Academia Galega da Língua Portuguesa)
Associação Pró-AGLP
Câmara Municipal de Montalegre 
Junta da Freguesia de Pitões das Júnias 
AGAL: (Portal galego da Língua) e AGAL (Associação Galega da Língua) 
SAGA: http://www.antropoloxiagalega.org/
IDG: https://durvate.wordpress.com/
Polo Eco-Museu do Barroso: 
Oinaikos Brakaron:
Gaiteiros de Pitões das Júnias:

Link da Junta de Freguesia de Pitões das Júnias:
http://jf-pitoesdasjunias.org
Link do Concelho de Montalegre:
 http://www.cm-montalegre.pt/

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Portugal e o Reino dos Suevos (409 a 585 AD)




Por João Casaca. 
(Engenheiro Geógrafo, Membro Conselheiro da O.E.)


Comendador Armando de Almeida Fernandes (nascido em Britiandes, em 1917, e falecido em Tarouca, em 2002), sendo licenciado em Ciências Geográficas, distinguiu-se pelo estudo da História dos antecedentes e primórdios de Portugal. Das várias dezenas de trabalhos que publicou, avultam teses tais como a do nascimento de D. Afonso Henriques em Viseu ou a da  origem de Portugal no reino suevo (409 a  585 AD. A argumentação de Almeida Fernandez, especialista em toponímia e antroponímia-onomástica, tem em geral uma base geográfico muito convincente. No primeiro capítulo do livro "Viseu, Agosto de 1109, nasce D. Afonso Henriques" (2007), Almeida Fernandez lembra que um topónimo (nome de lugar) passa frequentemente a corónimo (nome de região) por efeitos administrativos, e sustenta que o topónimo romano-céltico "Portucale" (Porto) passou a designar o condado de Portugal (corónimo) porque o Porto terá sido capital (residência real, centro administrativo e sede de diocese) no final do reino suevo.
Os suevos (quados e alguns marcomanos), juntamente com os vândalos e com os alanos, entraram na Hispânia em 409 AD, a convite do "governador" romano Gerôncio, em rebelião contra o imperador.
Em 411 AD (tendo liquidado Gerôncio), Honório instalou os suevos e os vândalos asdingos na Galiza, os vândalos silingos na Bética, os alanos na Lusitânia e manteve o controlo da província Tarraconense a leste da Galiza. Os suevos ficaram com o território da Galiza entre o Douro e o Minho, prolongado a Leste até Astorga. Até meados do século V, o reino suevo expandiu-se para norte (toda a Galiza) e para sul e leste (chegou a ocupar metade da Hispânia). Posteriormente, por ação dos visigodos, o reino suevo recuou para oeste e para norte do Tejo (Mérida e Lisboa foram perdidas em 466). Em 585, o reino suevo abrangia a Galiza e estendia-se para sul até ao Tejo, a norte do paralelo da foz do Zêzere. O corónimo Portugal, que atravessou incólume a dominação visigótica e muçulmana, abrangia aproximadamente o território entre o Douro e o Minho, mas a leste não ia tão longe como o território original do reino suevo (não incluía o atual distrito de Bragança). É no território condal, onde existe a maior concentração de topónimos germânicos de toda a Península, que a assimilação entre os suevos e os celto-romanos  teve maior sucesso: as terras do Bouro são as terras dos búrios (pequena tribo aliada dos quados). A aristocracia sueva apropriou-se das melhores terras, expropriando os grandes proprietários rurais, mas aliviando a população, em geral, dos pesadíssimos impostos romanos. Por outro lado, o reino suevo procurou manter a estrutura administrativa e judicial romana e praticou uma grande tolerância religiosa. A extinção da dinastia sueva em 585 não acabou com o reino suevo: Leovigildo, rei dos visigodos, passou a ser também o rei dos suevos, como aconteceu em França com os francos e os burgúndios.  

Em 863, Vímara Peres tomou o Porto aos mouros e foi nomeado conde de Portugal pelo rei Afonso III de Leão. A dinastia condal de Portugal extinguiu-se quando o conde Nuno Mendes foi morto, em 1071, pelo rei  Garcia da Galiza, na batalha de Pedroso (perto de Braga). O rei Garcia passou a intitular-se rei de Portugal e da Galiza. O rei Afonso VI de Leão, irmão do rei Garcia, apoderou-se do reino de Portugal e da Galiza e concedeu o condado portucalense ao seu genro D. Henrique, pai de D. Afonso Henriques. A expansão do território portucalense sob a égide do rei de Portugal levou a nova generalização do corónimo Portugal, que passou a designar as terras do senhor de Portugal, até à fronteira do Algarve. No livro “Paróquias Suevas e Dioceses Visigóticas” (1968), Almeida Fernandes leva a cabo uma análise toponímica de dois documentos coevos: o “Paroquial Suévico” e o “Provincial Visigótico”. O “Paroquial Suévico”, escrito c. 580 AD, no reinado de Teodemiro, apresenta uma relação de 134 paróquias agrupadas em 13 dioceses e indica a existência de uma diocese étnica (não geográfica) para os cristãos de origem bretã, emigrados da Grã-Bretanha, na sequência das invasões anglo-saxónicas. O Paroquial refere ainda a existência de vários “pagus”, que seriam paróquias de cristãos arianos, constituídas por sue vos não convertidos ao catolicismo. As dioceses mencionadas em território português (entre o Minho e o Tejo, no paralelo da foz do Zêzere) são Bracara, Portucale, Lameco, Viseu, Conimbria e Egitânia (Idanha). O “Provincial Visigótico”, escrito em meados do séc. VII AD, enumera e descreve os limites geográficos das dioceses visigóticas que, no nosso atual território, coincidem com as suevas, a norte do Tejo (paralelo da foz do Zêzere), e incluem Olissipona, Elbora, Pace (Beja) e Ossonoba (Faro). Tudo isto mostra que a génese de Portugal nada tem a ver com a antiga província romana da Lusitânia (com capital em Mérida) e que a História de Portugal não começa com D. Afonso Henriques.

sábado, 28 de março de 2015

Brasil: Novamente um alvo geoestratégico




 Por Artur Alonso Novelhe

A velha guerra encoberta entre Emergentes e Império Ocidental, agora – como já tínhamos comentado – se tornou nova guerra aberta. O Brasil joga em esse nó geoestratégico um papel de relevo na América Latina. Na tentativa de derrubar o Brasil – e com ele terminar com o sonho breve de independência econômica continental – estão depositadas parte das necessidades Imperiais anglo-saxônicas de manter o controlo hegemônico global.
Tomar o Banco do Brasil, entregá-lo a uma pequena elite de banqueiros vassalos do anel de poder londrino e de Wall Street com o fim de derrubar a Petrobras, transformá-la numa empresa menos dinâmica, privatizando-a ao serviço das grandes transnacionais petrolíferas Ocidentais; faz parte duma necessária estratégia de sobrevivência imperial, que passa inevitavelmente pela recolonização do jardim traseiro, que para os EUA foi sempre desde o século passado, a América do Sul.
A recentes manifestações em várias cidades do Brasil, nas que pudemos observar em várias das faixas reivindicativas, chamamentos ao exército para tomar o controle do país, não deixam de ser paradoxais, dado que em estes momentos é o atual governo brasileiro o único que manifestou sua disposição a garantir a soberania real do território. Os rivais mais próximos nas ultimas eleições, levavam em seus programas de governo a conversão do Banco Central, em um banco privado ao serviço do capital financeiro transnacional seguindo o modelo da Reserva Federal Americana ou do Banco Central Europeu o qual na pratica significa a entrega do fluxo monetário, sua expansão e contração, ao sector bancário privado. Este sector não conta com um anel de poder regional nem global limitando a sua ação para integrar-se no marco dos mercados mundiais geridos pelo anel de poder imperial anglo-saxão, nem tem hipótese, no curto prazo, de qualquer tipo de controlo sobre seus próprios recursos e patrimônio.
Nenhum militar entregaria a soberania do seu pais, a um poder econômico estrangeiro, pelo que podemos afirmar que se de algo pode estar preocupada a cúpula militar do país é sem dúvida, de que a situação de descontentamento brasileira, possa deteriorar-se ao extremo de o país ficar dividido em duas realidades irreconciliáveis. Esta divisão provocaria uma tensão semelhante a que hoje vive a Venezuela e não é de estranhar que todos os país da América de Sul, que estão a fazer hoje grandes esforços pela integração regional, dentro do Mercosul, Unasul ou Celac, etc, estejam sendo almejados pelos ataques econômico–financeiros, mediáticos e sociais, sendo utilizados nos protestos a corrupção como arma política muito eficaz, visando como alvo a destruição da convergência regional.

Fora da analise de modelos partidários ou da polarização esquerda–direita, o certo é que se um país tem o objetivo de ser o centro referencial dum novo poder emergente, ele precisa desenvolver um anel de poder abrangente que se consolide internamente e no âmbito regional que tenciona influenciar. Sendo no caso do Brasil, ele é o único ator com capacidade real, para impulsionar uma independência certa do continente Sul-Americano. Deve pois criar um modelo referencial exportável e compatível com o resto dos seus parceiros políticos e vizinhos continentais.

No cultural, o modelo está claro: um modelo de unidade na diversidade. Isto é relativamente fácil, num país que abrange dentro de si próprio todas as culturas, raças e tradições do planeta e que durante decênios tem colaborado na sua integração e miscigenação em contraste com o encerramento dentro dos seus próprios limites de estas próprias comunidades em outros territórios americanos.

No nível sócio–político e econômico, o Brasil precisa criar modelos flexíveis que sejam facilmente adaptáveis às realidades do seu contorno. Esse processo é secular, lento e paciente. Paciência e diplomacia têm sido duas das ferramentas que melhor sabe utilizar o poder brasileiro.

No entanto, na nova conjuntura internacional de guerra direta entre Emergentes e Anglo-saxões, é inevitável, que o Brasil ao mesmo tempo que define sua estratégia regional, resista as tentativas dos poderes exteriores de dominação.

Se por uma parte a chegada cada vez mais maciça do capital chinês tem sido importante para livrar a região duma vassalagem real ao capital transnacional ocidental, também por outra parte põe em evidência os medos do Império Norte-americano de ver-se ultrapassado como parceiro comercial e que isso signifique uma aliança Sul-americana em favor da hegemonia global chinesa. Nada mais absurdo para o futuro desenvolvimento potencial do Brasil, como trasladar o eixo do mundo do Atlântico Norte ao Pacífico... Assim que o Brasil, terá de saber movimentar-se com melhor subtilidade em este difícil contexto, exigindo de Washington novos modos de fazer política ao tempo que utiliza os amortecedores chinês e russo para evitar ser engolido pelo gigante Ocidental.

É pois em esta tessitura que Brasília precisa urgentemente criar um modelo inclusivo, a nível interno, que leve aos diferentes atores políticos do país a pactuar, precisa também um rascunho de acordo que permita pôr em marcha um anel flexível de poder propriamente brasileiro baseado na intocabilidade do Banco Central que é quem garante da independência econômica mas também precisa a manutenção das empresas estratégicas como Petrobras, garante de Independência energética, nas mãos do governo brasileiro. Terá igualmente que acordar-se um modelo econômico próprio que do nosso ponto de vista deve ser derivado do antigo modelo europeu do Estado Providência, onde o Estado faz ponte entre a força do trabalho e o capital, mantendo o equilibro entre ambos, permitindo a livre inovação, iniciativa e criatividade privada mas ao mesmo tempo desenvolvendo um modelo de redistribuição social justo e equitativo que permita às classes sociais mais humildes viver dignamente e crescer continuamente como seres humanos, com capacidade para desenvolver suas potencialidades e nobres valores. 
 

sábado, 21 de março de 2015

Carlos Peregrin Otero e o paradigma galaico da formação das línguas ibéricas




Por José Manuel Barbosa

Carlos Peregrin Otero foi um linguista e gramático galego nascido em 1930, pensamos depois de várias pesquisas que em  Vila Nova da Lourençã. Estudou em Madrid Ciências Político-económicas e Direito para posteriormente completar a sua formação na Universidade de Berkeley onde fez Linguística e Literatura Românica. A partir de 1959 trabalhou como Professor na Universidade de Califórnia em Los Ángeles para exercer de professor de linguística e literatura espanhola desde 1969 gerando uma grande revolução nos estudos relativos à língua castelhana. Grande seguidor de Noah Chomsky a quem lhe fez traduções de alguns dos seus livros. Foi autor de livros de grande peso científico de tema linguístico como "Disputaciones (lengua, cultura y política)", "Introducción a la linguística transformacional" publicado em México em 1970 e de um livro de grande interesse para nós que leva o título de "Evolución y Revolución en romance. Mínima introducción a la fonologia" publicado em 1971 em Barcelona.
Este é um estudo diacrónico da língua castelhana onde bota abaixo todos os velhos conceitos que a velha linguística manteve sobre o castelhano durante muito tempo e manifesta a sua ideia de que o castelhano é uma derivação da língua galego-portuguesa.
A censura franquista proibiu este último livro, obrigando-o a mudar parte do seu texto para adequá-lo aos paradigmas nacional-católicos dos anos da ditadura. Uma desses atos de censura foi o facto de ele afirmar que o galego é um passo anterior ao castelhano criticando que os hispanistas concluíssem com grande convencimento uma origem do castelhano independente e com vocação imperial. Segundo nos diz ele: 

"Si tuviésemos testimonios escritos de una época muy antigua, a finales del primer milenio, comprobaríamos que ambos idiomas diferían muy poco. La sintaxis actual del gallego es más arcaica, no sólo tiene propiedades del castellano de hace mil años, sino que parece plausible que estas propiedades fueran comunes. La similitud, se debe a que el gallego evoluciona más lentamente que el castellano aunque, durante siglos, da pasos similares. Es como si las lenguas románicas estuvieran canalizadas para seguir un mismo curso y que las diferencias sean de rapidez en hacerlo"

O esquema genealógico das línguas hispânicas para Peregrin Otero é um muito similar ao que um dia nós elaboramos na velha página da AGAL, lá por 2003 e que posteriormente acrescentamos e melhoramos no nosso Atlas Histórico da Galiza. Tudo, sem conhecermos a figura deste galego do qual, talvez por ser anti-franquista e relacionado com o anarquismo, não tenhamos muitas notícias.
Curioso é o facto de ser ele o que distinga duas variantes dialetais romances na península Ibérica: uma galaica no norte e outra moçarábica no sul à que lhe dá o nome de "Yudió" por serem os judeus sefarditas os que segundo ele melhor conservam os restos dessa variante linguística.

Posteriormente autores como Rodrigues Lapa no ano 1981:

 “A unidade linguística sob forma galego-portuguesa, que os mapas de Pidal demonstram para vastas regiões do centro e do sul de Espanha e os estudos recentes de Carlos Peregrin Otero acabam de confirmar, declarando que o pré-castelhano e o pré-galego foram uma e a mesma língua, a que conviria chamar romance galaico (Evolución y revolución romance, 135), seria a chave desse mistério. Já em 1929-1930 o procuramos esclarecer à luz dos elementos fornecidos por Julian Ribera e Menendez Pidal. Explica-se com isto a razão por que nos séculos XII e XIII se empregava o português como língua do lirismo. É que eles não era uma língua estranha, vivia ainda, mais ou menos alterado por influências várias nas camadas inferiores da antiga população muçulmana e moçárabe. Só assim se compreende o fenómeno realmente estranho de o vulgo castelhano o usar para a poesia lírica e satírica (...). É que havia em Espanha um lirismo que devia ser contado em português, língua falada em Castela e em outras regiões penínsulares no século XII.

 
Genealogia linguística da Península Ibérica segundo Peregrin Otero
Carvalho Calero em 1983:

 “Recorrendo à necessária abstraçom e coas cautelas e reservas que toda abstracçom implica, podemos falar em consequência dum latim gallaeco do que se derivou um proto-romanço galaico que se estendia, diversificado em distintas realizaçons do Atlântico à cordilheira Ibérica. Este pré-romanço tivo que apresentar primitivamente duas variantes: a atlântica e a mesetenha; é dizer, o fundamento do galego e o fundamento do leonês. E ambos romanços em contacto com formas idiomáticas exteriores produziram duas inflexões ou dialectos que estavam chamados a eclipsar culturalmente como consequência da sua fortuna política, às respectivas polas nas que agromaram.
Implantado sobre o substrato moçarábico lusitano, o galego deu origem ao português. Projetado sobre o adstrato eusquera, convertido às vezes em substrato pela penetração política leonesa, ou em superestrato pelas vicissitudes de repovoação, o leonês deu origem ao castelhano. Português e castelhano seriam, pois, originariamente dialetos fronteiriços do galego e do leonês, respetivamente. A Gallaecia seria um viveiro de romanços. Quando os nossos eruditos ou afeiçoados do século XIX incidiam teimosamente no erro de considerarem o castelhano como um derivado do galego, não faziam senão confundir, segundo a exposição anterior, o galego com o galaico ou galaico. Deste sim se derivaria o castelhano, mas não através do galego -galaico ocidental- senão através do leonês -galaico oriental- e Eugen Coseriu em 1989:
Genealogia das línguas da Península elaborado por nós para o trabalho "Alguns aspectos da Pré-história da Lingua"

"Poco despuesde la invasión árabe, interrumpe tambien este desarrollo, mucho antes de que las innovaciones partidas desde el centro pudiesen imponerse, tambien como norma de conservación a los centros innosvadores de Gallaecia, o la Tarraconense. De suerte que ahora puede hablarse ya del perfilarse de una unidad gallega (o quizá galaico-asturiana) sobre todo con la creación del reino de Astúrias, que muy pronto engloba a Galicia (...). Por outra parte, sin embargo, las conservaciones que oponen esta lengua (fala do galego), al castellano, al catalán o a ambos dialectos, son propias tambien del asturiano, por lo menos del asturiano occidental y -lo que otra vez, es más importante- tambíen algunas de sus innovaciones se extienden a ese mismo asturiano occidental. De acuerdo con el criterio adoptado con respecto a las lenguas que se están delineando, deveriamos, por lo tanto, decir que -como en la época anterior- se está perfilando una lengua "galaico-asturiana" con centro en Galicia; tanto más en cuanto una unidad política "Portugal" todavia no existe".

manifestam algo parecido ou igual.
Se a isto acrescentamos o manifestado pelo Professor Roger Wright em 1991:
"Antes do milénio e talvez antes do século XIII desterremos também os conceitos distópicos, pouco úteis e anacrónicos tais como galego, leonês, castelhano (...); todos esses conceitos modernos estorvam à vista clara. A península (aparte dos que falavam basco, árabe, hebreu, etc) formavam uma grande comunidade de fala complexa mas monolingue"

Igualmente já o temos manifestado em outras ocasiões que em épocas do Rei Afonso VI, morto em 1109 a língua usada pelo próprio Rei era esta na que estamos a escrever como nos conta o historiador castelhano Prudencio de Sandoval: 

".... y en la lengua que se usaba, dijo con dolor y lágrimas que quebraban el corazón:
Ay meu filho! meu filho! Alegria do meu coraçom et lume dos meus olhos, solaz da minha velhece! Ay espelho em que me soya veer, et com que tomava muy grand prazer! Ay meu herdeyro mor! Cavaleiros, hu me lo leixastes? Dade-me o meu filho, Condes!"

Por outra parte, que o Rei denominado de "Sábio", numerado como X pela historiografia castelhana mas IX segundo o nosso cômputo, escrevesse as cantigas de tema religioso mais famosas da nossa língua na Idade Média não tem nada de estranho. Era a sua língua.

Como também não é nada estranho comprovar mais personagens que aderiram a esta forma de ver a genealogia das línguas peninsulares comentando o dito pelo Marquês de Santillana no século XV  sobre uma História da Espanha escrita no Século XIII em castelhano, mas como para ele era um castelhano tão popular e tao puro, reconhecia que estava escrita numa "lengua castellana, tan cerrada que parece portuguesa".

Nada disto é partilhado pelo ensinado nas Universidades espanholas. Para elas o castelhano ou espanhol não é derivado mais do que do latim, herdeiro direto dele e língua orgulhosa falada por todos os seres inteligentes do planeta. É por isso que não faz falta conhecer mais línguas do que o espanhol. Para que?



Notas linkográficas:

(Neste web há um link que leva a um foro nazista onde se reproduzem uns mapas sobre a evolução das línguas na península ibérica. Esses mapas foram feitos pelo autor deste artigo em 2003 para a página web da AGAL (Portal Galego da Língua) e nunca foram cedidos a ninguém e muito menos a uma página dessa ideologia que traduz para o castelhano o texto e ainda não põe referências donde foram apanhadas. Os mapas originários estão aqui neste outro link:
http://www.agal-gz.org/modules.php?op=modload&name=My_eGallery&file=index&do=showpic&pid=332&orderby=titleA)
Finalmente agradecemos ao responsável pelo web "Geografias de España" Oscar Pazos a aclaração sobre a origem dos mapas.


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...