terça-feira, 27 de julho de 2021

As Bandeiras ibéricas. Ceuta, Canárias e Cantábria. Capítulo 3

 


Ceuta: Em origem, o território ceutense pertenceu à Diocese da Hispânia romana com capital em Emérita Augusta, para posteriormente existirem dúvidas a respeito da sua pertença o reino visigodo de Toledo ou não. Há algum historiador que defende essa realidade pelo facto de ser nessa cidade onde se originaram as circunstâncias, basicamente lendárias da entrada dos muçulmanos na Península e ser desde aí que os barcos de Tárique e Muça enviaram as suas tropas para a conquista do que posteriormente foi denominado Al-Andalus.

Séculos mais tarde, já no século XV e no contexto do final da reconquista cristã da Península, ficando configurada a mesma com cinco entidades monárquicas, a saber: Portugal, Coroa de Castela, Navarra, Coroa de Aragão e Reino Nacérida de Granada, é que o Reino de Portugal, decide lançar-se às descobertas perante o obstáculo da Coroa Castelhana ocupar todo o seu território fronteiriço e precisar uma saída ao mar para viabilizar económica e politicamente o país. É assim que os portugueses começam a sua expansão ultramarina pelo norte de África, onde está situada a próspera cidade de Ceuta que junto com Gibraltar abrem as portas do Mediterrâneo e obstaculizam a entrada de possíveis piratas provenientes das regiões otomanas, árabes e do sul da Europa à vez que abrem caminhos comerciais com todos os países mediterrânicos. A cidade tinha tradição de pertença a diferentes poderes políticos peninsulares, pois pertenceu ao domínio andalusi durante muito tempo, para passar a depender da Taifa de Múrcia no século XIII e ao da Granada Nacérida desde 1305.

Os grupos economicamente dominantes em Portugal procuravam novas vias de expansão económica e roteiros comerciais que favorecessem o seu progresso à vez que a ideologia religiosa da época percebesse como um valor supremo a expansão do cristianismo por regiões onde não se praticava a obediência a Roma. A política obrigava, igualmente, a antecipar-se a qualquer ação castelhana que tentasse olhar para Ceuta com ambições territoriais de controlo do Estreito e da passagem ao Mediterrâneo. Assim, um contingente militar conformado por um exército de aproximadamente 20.000 soldados de origem português, galego, inglês e basco saiu de Lisboa em Julho de 1415 com destino a Ceuta que foi conquistada entre 21 e 22 de agosto desse ano sem muita resistência por parte dos problema. Como os barcos tinham saído de Lisboa, a bandeira que tinham consigo era a bandeira da capital portuguesa, que foi içada no alto das muralhas de Ceuta pelo lisboeta João Vasques de Almada que posteriormente ficaria como governador da cidade. Foi desde Ceuta que os portugueses progrediram na conquista dos territórios costeiros africanos e continuaram até as grandes descobertas do século XV e XVI.

Fez parte de Portugal, posteriormente, mesmo durante a época filipina, que foi administrada desde Lisboa. Durante os acontecimentos que precederam a revolta contra os Filipes em 1640, a cidade não proclamou como o seu soberano o Duque de Bragança, como o resto de Portugal. Foi em 1668 quando foi reconhecida a independência de Portugal por meio do Tratado de Lisboa, quando definitivamente Ceuta continuou sob a soberania castelhana, até hoje que é pertencente ao Reino da Espanha.

A bandeira ceutense está gironada de oito peças, alternando as suas cores em branco e preto, exatamente igual do que a bandeira de Lisboa, da que difere porque o vexilo da cidade africana contém no centro do seu campo o escudo das armas do Reino de Portugal tal e qual se usavam na época da conquista rematado com a coroa marquesal. É conhecida como Bandeira de São Vicente ou Bandeira de Lisboa por ser similar a da Capital de Portugal.

 
Bandeira de Ceuta

Canárias: Como colónia espanhola que foi desde a sua conquista pelos castelhanos finalizada em 1496, Canárias teve inicialmente uma bandeira que tem a sua origem no estandarte real criado pela administração conquistadora em 1561. Esta bandeira estava composta por três faixas verticais branca, azul e amarela com uma cruz latina em vermelho.  

Esta bandeira seria substituída ano mais tarde pela bandeira azul com cruz de Santo André similar a escocesa em 1845, criada igual do que a atual bandeira galega a partir das contrassenhas portuárias da Marina espanhola. Foi oficial desde 30 de julho de 1845 elaborada em Madrid e confirmada, igual do que a bandeira galega atual pelo Capitão General da Armada Ramón Romay. A sua feição estava feita sobre fundo azul com uma cruz de Santo André ou Cruz de Borgonha em branco. Só posteriormente, a partir de 1867, quando a província marítima das Canárias é dividida em duas províncias, nomeadamente, Santa Cruz de Tenerife e Gran Canária, é quando esta bandeira passa a representar unicamente a primeira delas e finalmente é em 1989 quando passa a identificar a ilha de Tenerife, deixando outras representações diferentes para cada uma das outras ilhas do arquipélago.

O tempo e a consciência nacional canária criam a necessidade de uma bandeira nacional, que é elaborada pela primeira vez em 1927 e confecionada pelo Ateneu de la Laguna. Seria adotada pelo PNC (Partido Nacionalista Canário) fundado em Cuba. Esta bandeira estaria feita sobre fundo azul, com sete estrelas brancas de cinco pontas, representativas, cada uma delas de cada uma das sete ilhas que conformam o arquipélago. 

Mas é a partir dos inícios dos anos 60 quando o Movimento de Canárias Livre decide recriar a bandeira tricolor, branco, azul e amarelo, fundindo as cores das bandeiras das províncias de Tenerife e Las Palmas, recordando a primeira bandeira de 1561. Inicialmente a faixa do meio, de cor azul tinha o duplo de largo do que as outras duas faixas.

Mas em 1964, o MPAIAC (Movimento pela Autodeterminação e Independência do Arquipélago Canário) reforma a bandeira, convertendo o azul obscuro da faixa central da bandeira do MCL em azul celeste e as três faixas do mesmo tamanho. No centro do corpo da bandeira, coincidente com a faixa azul celeste, sete estrelas verdes em círculo, que representam a cada uma das ilhas. A autoria, deve-se a Antonio Cubillo, líder do MPAIAC. A dia de hoje é uma bandeira assumida pela população canária como própria. Atualmente, a bandeira oficial do arquipélago inclui o escudo de Canárias.

 Finalmente, com a conquista da autonomia, a bandeira canária torna-se oficial, mas as cores sao ligeiramente diferentes, diferenciando-se especialmente a faixa centra, que fica com o azul obscuro dos inícios mais o escudo das ilhas no centro do corpo vexilar.

Parece um caso de colonialismo não resolvido por parte do nacionalismo canário pela adoção da bandeira da colonização, com a diferença de que a gestão política das ilhas tem estado sempre nas mãos dos crioulos descendentes de Europeu, pelo que parece que alguém poderia justificar a assunção da bandeira colonial por esse facto.

Cantábria: O caso cântabro é paralelo ao caso galego no que diz respeita da assunção da bandeira proveniente da Província Marítima de Santander como bandeira da Região autónoma. Apesar de que houvesse quem tenha defendido a anterioridade da origem dessa bandeira branca e vermelha disposta em duas faixas exatamente igual a de Polónia, acabou demonstrando-se que, como no caso da bandeira autonómica galega, a bandeira de Cantábria nasceu em 1845, para identificar os barcos matriculados no porto da sua capital. 

Mas neste caso também há uma diferença que dignifica o caso cântabro e diferencia do caso galego, pois existe uma outra bandeira que representa o estandarte militar conhecido pelos romanos como Cantabrum de historicidade bem documentada e popularizado na própria Cantábria durante os últimos anos, ate o ponto de ser reconhecido oficialmente como uma segunda bandeira pelo Boletim Oficial do Parlamento Cântabro em 7 de marco de 2016.

A cor da mesma e magenta ou fúcsia figurando no meio o lábaro cântabro que resulta duma decoração geométrica áurea, isto é, de cor ouro, com um circulo rodeado de quatro meias luas enfrentadas duas a duas.

Há ainda uma variante alternativa mais ancestral, elaborada com duas cenefas e uma circunferência rodeando as crescentes do lábaro, simulando o famoso lábaro de Barros. Nas partes superior e inferior do corpo da bandeira conjuntos de vinte cruzes em forma de X, simulando o cosido dum vexilo de coiro pré-romano.

Mas ainda há mais propostas vexilológicas dentro de Cantábria: A associação cantabrista ADIC (Associação de Defesa dos Interesses de Cantábria) autentica inteligentzia cantabrista e da qual saíram vários partidos políticos, fundada em 1976 pelo próprio Miguel Angel Revilla, atual Presidente de Cantábria propôs no seu dia uma bandeira diferente a "polaca" e esta era com três faixas verticais à moda francesa com as cores dispostos verde, grisalho e azul dispostos de esquerda a direita. Foi proposta durante os anos 70 mas foi preterida em favor da bandeira oficial atual.




quarta-feira, 16 de junho de 2021

As Bandeiras ibéricas. Catalunha: Capítulo 2:

 


A seguir, continuamos com a descrição das bandeiras das CCAA do Reino da Espanha e a história das mesmas. Trataremos as bandeiras de Catalunha, Ceuta, Canárias e Cantábria:

Catalunha: A bandeira histórica de Catalunha é a tradicional da Coroa Catalano-Aragonesa com fundo amarelo e quatro faixas de cor vermelho atravessando o campo de maneira horizontal. A sua origem está no escudo das linhagens dos Condes de Barcelona. O primeiro testemunho histórico do sinal das quatro faixas aparece em um selo de cera que valida um documento datado de 2 de setembro de 1150, e no qual Ramon Berenguer IV é representado carregando essa simbologia no seu escudo. De qualquer maneira há representações pré-heraldicas da simbologia do vexilo das quatro faixas, como por exemplo as pinturas dos túmulos condais da catedral de Girona de Raimon Berenguer II (1053-1082) e Ermessenda de Carcassonne (972-1058).

Há também que lhe dá uma origem carolíngia, relacionada com a auriflama que servia de pendão imperial, com as suas cores e com um certa estética, mas a lenda que lhe dá origem à Senyera Reial, é de origem valenciano, narrada por Pere Antoni Beuter em uma Chronica General de España, na sua segunda parte, feita em castelhano no século XVI. 

Auriflama carolíngia

Nela fala dos factos acontecidos, precisamente, na Catalunha Carolíngia do século IX, quando o país fazia parte da Marca Hispânica e o Conde de Barcelona, Guifré el Pilós, último conde que recebe o condado dos reis carolíngios e o primeiro em dá-los em herança aos seus filhos, portanto, base da Casa Condal de Barcelona e base da soberania política do que posteriormente seria Catalunha, marca com quatro dedos da sua mão, pintados com o seu sangue, o escudo dourado que portava na batalha contra os normandos. A presença do rei carolíngio de nome Luís, embora não identificado com o seu ordinal, é fundamental nesta narração lendária, pois, após ser abatido o Conde pelos normandos e ferido na batalha, Guifré pede ao seu Imperador Luís que lhe forneça um escudo de armas. O rei aproximou-se dele e molhando os dedos da mão direita do nobre catalão na ferida sangrante levou -os de arriba a abaixo do escudo dourado do Guifré dizendo-lhe: Estas vão ser as vossas armas, Conde.

Senyera Reial

Em tempos modernos e localizada a sua origem em 1918, é conhecida a chamada estelada, bandeira independentista catalã que acrescenta às quatro barras vermelhas sobre fundo amarelo, um triângulo azul e uma estrela branca de cinco pontas dentro do triângulo, seguindo o modelo cubano. O seu criador foi Vicenç Albert Ballester, presidente do Comité pro-Catalunha que dava apoio ao Comité Nacional Catalão que visava uma representação de Catalunha dentro da Sociedade das Nações (antecessora da ONU) que se estava a criar em Suíça criou a bandeira no contexto histórico do final da I Guerra Mundial, a popularidade das independências dos novos países europeus saídos do afundamento do Império Austro-húngaro, do Império Russo e a política internacional levada a cabo pelo presidente dos EUA Woodrow Wilson com os seus 14 pontos que punham na moda o princípio de autodeterminação dos povos.

Estelada Blava, bandeira do movimento independentista catalão

Esta bandeira tem vários modelos segundo os partidos e as diferentes ideologias políticas, variando na sua estética as cores do triângulo e da estrela. Nao incluímos essas variantes por ser a chamada Estelada Blava a que vai triunfando sobre o resto de esteladas.

Posteriormente, já em épocas recentes, o genealogista catalão Armand de Fulvià i Escorsa, presidente da Instituició Catalana de Genealogia i Heràldica e assessor da Generalitat em materia heráldica e vexilológica, diz que a autêntica bandeira dos Países Catalães é a das quatro barras vermelhas, arguindo que todos os países catalães têm uma representação particular da bandeira comum e sendo o Principado o único território que não tem um particular. É assim que diz que ao Principado poderia-lhe ser reconhecida a sua própria bandeira identificando-a com a simbologia do Condado de Barcelona que inclui a Cruz de São Jorge. Mas é finalmente a estelada a que vai ocupando um espaço comum a todos os Países Catalães como bandeira de conjunto.

Bandeira do Principado com a Cruz de São Jorge ou Creu de Sant Jordi.

sexta-feira, 28 de maio de 2021

As Bandeiras ibéricas. Andaluzia, Aragão, Astúrias e Baleares. Capítulo 1

 

Em textos anteriores temos manifestado a nossa opinião relativamente à adoção da bandeira da faixa azul como bandeira galega representativa do nosso país. A minha argumentação vai baseada na sua origem como distintivo militar da armada espanhola, facto que partilhamos com a bandeira de Cantábria, mas que a diferença desta última, a galega foi modificada na sua feição original, branca com uma aspa de Santo André azul, pelo governo de Isabel II de Bourbon por pedido do Império Russo para não ser confundida com a bandeira da armada russa.

A seguir acrescento umas nótulas relativamente às origens das distintas bandeiras das restantes Comunidades Autónomas do Reino da Espanha para podermos comparar com o nosso caso e vermos a oportunidade do caso galego de sermos representados por uma bandeira cuja origem não radica no povo galego, nem na tradição simbólica galega ou qualquer instituição favorável à nossa consideração como nação.

Iremos vendo cada uma das Comunidades por ordem alfabético:

 
Andaluzia: A Arbonaida ou لبُلَيْدة , pronunciado /al-bulaida/, que  significa país pequeno em árabe andalusi. A primeira referência de um vexilo andaluz de cor verde é de 1051 em um poema do Vizir da Taifa de Almeria Abu Asbag ibn Al-Arqâm que a faz aparecer na Alcaçaba da cidade de Almeria mas a sua origem parece estar no turbante verde de Abderramão I, que o tinha como o símbolo dos Omíadas e converteu em pendão na batalha de Al-Musara em 751. 
(Bandeira içada na Taifa de Almeria em 1051)
 
Esta referência seria uma das primeiras que existem de uma bandeira ou pendão na Europa e portanto, não seria excessivo acreditar no facto de ser a bandeira andaluza uma das mais antigas do nosso continente, quando não a mais antiga.
(imagem: www.paginasarabes.com)
Uns anos depois, na Batalha de Alarcos (1195), os almóadas do Sultão Abu Iúçufe Iacube, após a vitória das suas tropas contra os castelhanos de Afonso I de Castela (VIII, segundo o cômputo historiográfico espanhol) penduram do minarete da Mesquita de Sevilha dous estandartes: o verde como representativa de Al-Andalus e outro branco, símbolo e cor do Império almóada. 
(Bandeira da Batalha de Alarcos em 1191)
 
É na conquista de Granada em 1492 quando a maior parte da vexilologia incautada aos exércitos do Reino Nacérida de Granada contêm o branco e o verde, atualmente exposta em lugares públicos de Córdova ou de Sevilha.
Posteriormente, em 1521, aconteceu em Sevilha o chamado Motim do Pendão Verde que ergueu em armas a população mourisca contra a autoridade castelhana pela situação de falência da cidade e o preço dos alimentos ao que tinha levado a política da Coroa de Castela.
 
(Bandeira do Motim do Pendão Verde de 1521)

Estas cores, verde e branca, foram também usadas na rebelião que o Duque de Medina Sidónia levou a cabo contra os Áustrias pela independência de Andaluzia em 1642 mas a referência que temos é que foi um dos seus aliados quem a portou, o líder dos mouriscos, Tahir Al-Horr, nas regiões orientais andaluzas, obrigados poucos anos antes ao exílio ou à conversão ao catolicismo. Como sabemos, a rebelião foi sufocada por Filipe IV mas a simbologia perdurou na imaginaria andaluza.
Finalmente, é Blas Infante, pai do nacionalismo andaluz apresenta em 1918, em assembleia celebrada em Ronda o projeto de bandeira de Andaluzia com a feição que hoje conhecemos. O projeto é aprovado e assim adotado desde esse momento. Blas Infante recorreu à memória histórica para elaborar a arbonaida que é reconhecida como bandeira da nação andaluza desde essa altura, e oficialmente a partir do Estatuto de Autonomia de 1981 e posteriormente reafirmado pelo segundo Estatuto de Autonomia de 2007.
 
(Bandeira de Andaluzia com escudo)
 
Aragão:  O primeiro símbolo aragonês é o pendão do Eneko Aritza (Íñigo Arista para a historiografia espanhola), quem criou o primeiro reino vascão medieval cujo centro político estava ao redor de Pamplona mas que com o tempo ocuparia desde a atual CAV (Comunidade Autónoma Basca) e o atual norte de Aragão até Sobrarbe e Ribagorça. A sua base territorial foi a Marca Hispânica carolíngia donde agiu como ponte entre os cristãos francos e os muçulmanos dos Banu Qasi nas regiões do Ebro. O seu primeiro símbolo foi o pendão da Cruz de Eneko Aritza, de fundo em azur com uma cruz patada em branco e apontada no seu extremo inferior por estar vinculado o território à influência pamplonesa. Estamos a falar do século IX em que o Condado de Aragão surge como território fronteiriço com os muçulmanos criado pelos próprios reis carolíngios com fins defensivos, ocupando os vales dos rios Ansó, Echo, Aragão e Canfranc, que é o que lhe dá nome ao país. Aureolo ou Oriol foi o seu primeiro lider nomeado pelo próprio Carlos Magno. 
 
 (Bandeira com a Cruz de Eneko Aritza)
 
A união do Condado de Aragão com os Condados de Sobrarbe e Ribagorça criou em 1035 o Reino de Aragão que foi independente de Navarra. 
Durante os séculos XI e XII, Aragão aumentou em território e população a custo da Taifa de Saragoça embora os vínculos com Navarra levasse a uniões pontuais e a uma comunidade política de interesses comuns.
Foi em 1091 quando o rei Pedro I na batalha de Alcoraz derrota, com a oposição de Castela, aliada com a Taifa de Saragoça, a quatro reis muçulmanos na luta por Huesca. A lenda conta que a intervenção de São Jorge foi fundamental para a vitória cristã e foi a consequência desta batalha que mais de um século depois, um descendente do rei que conseguiu aquela vitória, neste caso, Pedro III, começou a usar a representação armorial que se considera privativa e propriamente aragonesa tendente ao espírito de Cruzada, típica da altura. Nela a cruz de São Jorge divide o corpo do escudo em quatro quartéis, cada um dos quais ocupado pela representação de uma cabeça de cada um dos reis muçulmanos vencidos nessa batalha por Huesca. Como os pendões ou vexilos têm a sua origem nas representações armoriais, consideramos que a bandeira originária de Aragão poderia ser esta, embora não tenhamos fontes que no-lo confirmem.
Anos mais tarde, a finais do século XV, quando Sardenha fazia parte da Coroa Catalano-Aragonesa, foi esta a bandeira adotada pela ilha até a atualidade.
 
(Bandeira da Cruz de Alcoraz)
 
Foi, finalmente em 1137, quando a herdeira do trono de Aragão, Petronila, casou com o Conde de Barcelona, Raimon Berenguer IV, configurando-se assim o que de agora em adiante vai ser considerado com o nome de Casal d'Aragó, Regno, dominio et corona Aragonum et Catalonie, Regnes d'Aragó, València i comtat de Barcelona ou a partir do século XVIII, já com os Bourbons, Corona de Aragón. A simbologia adotada há de ser a tradicional catalã da bandeira das quatro faixas em gules (vermelhas) sobre fundo ouro (amarelo). É o que se vai chamar Senyal Reial da Casa Condal de Catalunha.
É a partir do século XX e da constituição de Aragão como Comunidade Autónoma do Reino da Espanha que no Estatuto de Autonomia da região com categoria de nacionalidade é aceite a bandeira de Aragão seguindo a tradição simbólica catalano-aragonesa coincidente com a Catalunha. A distinção radica no escudo de cada uma das CCAA.
 


AstúriasA bandeira usada pelos primeiros reis que tinham a sua Corte no atual território asturiano é desconhecida documentalmente mas o arqueólogo da Universidade de Oviedo, Elias Carrocera, mantém que o primeiro vexilo ou estandarte que poderiam ter sido usado pelos primeiros reis cristãos após a ocupação muçulmana da Península, foi em ouro (amarelo) com uma cruz bizantina no centro em gules (vermelho) com a alfa e a ómega também em gules, segundo ele, as cores que representavam a igreja na altura e ainda as cores da auriflama imperial carolíngia.
 
Mais alguma informação temos, sobre a suposta bandeira usada pelo rei Ordonho I na Batalha de Albelda, a qual foi mitificada por Rodrigo Ximenes de Rada, gerando a lenda da Batalha de Clavijo na que supostamente, e segundo a narração fantástica do Bispo de Toledo, Ramiro I, pai de Ordonho I, venceu os muçulmanos na Rioja com a ajuda do Apóstolo Santiago. Há uma bandeirola no Museu do Exército, em Madrid, que se identifica como o vexilo em questão mas também podemos achar uma representação no Tombo A da Catedral de Santiago de Compostela. A imagem da bandeirola é a seguinte:
(Bandeirola da Batalha de Albelda mitificada como a Batalha de Clavijo)

As bandeiras recolhidas nos diferentes armoriais europeus durante a Idade Moderna apresentam uma estética na que o corpo está quartelado, onde no quartel superior esquerdo aparece a bandeira tradicional de Castela em gules e ouro, no inferior direito a bandeira tradicional de Leão e nos quartéis superior direito e inferior esquerda aparece sobre fundo em azur um graal galego em em gules com as cruzes também em gules.

Daí em diante as representações s
ão diferentes, fugindo da estética galega ou castelhano-leonesa. É durante a invasão napoleónica que Junta Geral do Principado organiza a resistência contra o francês e considerando que não tem bandeira, cria uma que modificada ligeiramente por Jovellanos deriva na atual bandeira azul com a Cruz da Vitoria em amarelo no meio. Em origem era com fundo em gules (vermelho) e a cruz da vitória em ouro (amarelo) com a legenda, também em ouro Hoc signo tuetur pius. Hoc signo vincitur enemicus cujo significado é Com este signo os pios são defendidos. Com este signo os inimigos são vencidos.


(Bandeira de Gaspar Melchor de Jovellanos)
 
Já posteriormente a bandeira de Jovellanos tomaria a cor azur com a mesma cruz da vitória em ouro (amarelo) e seria assim que se popularizou durante o século XX para ser reconhecida pelo Estatuto de Autonomia de dezembro de 1981.
 
 

BalearesAs referências que temos das bandeiras da Taifa de Maiorca ou de Dénia-Maiorca são desconhecidas para quem isto escreve. São conhecidas as ilhas com o nome de Al-Jazira al-Sharqiya li-l-Andalus mas uma vez aconteceu a conquista por parte de Jaume I el Conqueridor, o Papa designou um vexilo dividido horizontalmente em duas metades, vermelha a superior e branca a inferior:
 
Ainda que poucos anos depois, no Libro del conoscimiento de finais do XIV se nos descreve uma representação armorial ou vexilar composta de faixas verdes e pretas de difícil reconstrução a partir da narração.

O reino foi repovoado por catalães durante a sua pertença à Coroa Catalano-Aragonesa e portanto adotou a simbologia da monarquia regentes. Assim, a sua bandeira adquiriu as formas das barras vermelhas e amarelas mas com o elemento identitário insular do Castelo de Maiorca. Esta bandeira, em início estava quartelada, sendo dous dos quadrados representativos do senyal reial barrat e os outros dous representando o castelo em branco sobre fundo azul.
 

Atualmente a bandeira o balear está baseada na tradicional senyera cujo corpo está composto das tradicionais quatro barras vermelhas horizontais sobre fundo amarelo com um quartel na parte superior esquerda representando o Castelo de Maiorca em branco com cinco torres sobre fundo roxo.

 
 
Bibliografia e linkografia
Turbante verde de Abderramão: https://paginasarabes.com/2018/03/23/el-turbante-arabe-simbolo-de-poder-y-religion/

terça-feira, 5 de maio de 2020

Origem da nossa língua e evolução das línguas na Península Ibérica

 

A Península no século II a.C


Entrada do latim na Península Ibérica


A situação linguística da Península no século X



A Península no século XI e XII


A Península no século XV


A Península no século XX




domingo, 17 de novembro de 2019

Uma questão de simbologia nacional


 
Bandeira do Reino de Galiza legal ate 1833

 Por: José Manuel Barbosa

Em 1607 foram criadas as Províncias Marítimas da Monarquia Hispânica por Real Cédula de Filipe III de Habsburg, as quais ainda existem atualmente dependentes do Mistério de Fomento mas baixo cujo governo esta um Capitão dependente, como funcionário, da Direção Geral da Marina Mercante espanhola.
Cada uma destas províncias tem uma, chamada, Contrassenha, quer dizer, uma bandeira com a que se reconhece a Província Marítima em questão. Estas bandeiras ou Contrassenhas foram criadas por Real Ordem de Isabel II o 30 de Julho de 1845 assinada pelo Capital Geral da Armada Espanhola e Ministro de Marina, Ramon Romay y Jimenez de Cisneros, nascido em Betanços e publicada pela Direção Geral da Armada em 4 de Agosto de 1845 na Gazeta de Madrid, antecessora do atual BOE. Nesse texto dizia que ao lado do "Pabellon Nacional" deveria figurar a bandeira ou Contrassenha indicativa da província marítima espanhola a que pertencia. Estas bandeiras seguiram o código de sinais marítimas internacional, aleatório e SEM QUALQUER SIGNIFICADO TERRITORIAL, segundo o texto originário, usando quatro cores: Vermelho, Azul, Amarelo e Branco. Esse código foi elaborado pelo na altura, Tenente da Armada Jose de Mazarredo Salazar em 1791.
Bandeira Galega do Graal atualizada
Se repararmos na inicial bandeira da Crunha veremos que esta é uma bandeira branca com uma aspa azul. Essa foi a bandeira ate 1891, ano em que se viu obrigado o governo espanhol a modificar a Contrassenha da Crunha por causa do pedido do governo russo ao governo de Isabel II, que considerava que a insígnia da Crunha era um decalque da bandeira da Marina Russa com o consequente incomodo que poderia ter para ambos Estados uma suposta confusão simbolológica. O governo espanhol aceitou entendendo que os barcos espanhóis provenientes do porto da Crunha e que navegavam por todos os mares onde tinha possessões territoriais (América, Filipinas, o Pacífico…) poderia ser confundidos com barcos russos, o que poderia ser um perigo potencial para o Reino da Espanha já que o Império Russo estava implicado em guerras tanto na Europa contra Turquia, os Balcãs, o Cáucaso (Mar Negro, Mediterrâneo, Atlântico) quanto na Ásia (Índico e Pacífico) com conflitos como o de Crimeia ou contra a China, ou o Japão no Estremo Oriente num projeto de expansao territorial que lhe desse saída aos mares cálidos.
Contrassenha da Província da Crunha a partir de 1845
Entre 1882 e 1895, chega ao Ministério de Assuntos Estrangeiros de Rússia o Diplomata Nicolai Girs que leva a cabo ações de concórdia e paz com as diferentes potencias internacionais. Com ele é que se faz o pedido de mudança de bandeira do porto da Crunha ao governo espanhol e é por meio do Decreto de 22 de Junho de 1891 publicado na Gazeta de Madrid (antecessor do BOE) quando o governo espanhol decide tirar uma das duas faixas dessa bandeira ou Contrassenha da Crunha. O texto diz:
"...para evitar las dificultades que puedan suscitarse, confundiendo la bandera del imperio ruso con la de la provincia marítima de La Coruña, se modifique esta última suprimiéndole una de las aspas, quedando por tanto reducida a una bandera blanca con faja diagonal azul (...) para evitar la confusión que se pueda dar entre la enseña del Imperio de Rusia y la de la provincia marítima de La Coruña".
A partir desse momento é que os galegos emigrados em América começaram a reconhecer os barcos provenientes do porto da Crunha pela bandeira branca com uma única faixa azul e foi assim que finalmente os galeguistas adotaram essa bandeira como a sua bandeira a pesar de que Manuel Murguia tivesse insistido na feição real da bandeira galega histórica.
Contrassenha da Crunha a partir de 1891
Chegados ao século XXI e a um grau de consciência nacional determinada, caberia pensar que uma bandeira criada por um governo de Madrid e reformada também pelo mesmo poder madrileno por pedido duma potencia estrangeira e no que os galegos não tiveram o menor protagonismo na sua criação, poderia ser aceite pelos galegos amantes da sua Nação? Caberia aceitar uma simbologia vexilológica surgida dum contexto político, 1845, em que a Galiza era identificada como uma "Colónia da Corte" em palavras de Antolim Faraldo uns meses depois, nas vésperas da Revolução de Abril de 1846? Caberia aceitar uma realidade simbólica surgida durante ao Reinado de Isabel II e por obra e graça do seu governo durante o processo de criacao do, até o momento inexistente Reino da Espanha, uma vez eliminado o histórico, primordial, veterano e matricial Reino da Galiza? Caberia aceitar um pavilhão para a Galiza que favorecia, afirmava e reafirmava uma Espanha de vocação nacional castelhana como Estado-Nação, negadora das realidades nacionais peninsulares, entre elas a Galiza? Caberia aceitar uma representação emblemática da Galiza nascida quando se começava a elaborar uma Historia da Espanha que hoje tanto criticamos e negadora do protagonismo da Galiza na Historia da Península e da Europa? Caberia assumir uma bandeira galega proveniente da época em que se começa a desligar a identidade da língua dos galegos ao resto do domínio galego-português?
Tínhamos bandeira e esta foi ilegalizada quando se ilegalizou o Reino da Galiza…. Agora há uma bandeira criada por quem ilegalizou a nossa bandeira histórica e originária do nosso Reino. Quantas das bandeiras "autonómicas" foram criadas pelo governo de Madrid? Quantas regiões ou nações do Estado conservam as suas bandeiras históricas? Pense-se e diga-se.
Por outra parte, acrescentamos o seguinte:
 

1- As bandeiras ou contrassenhas das províncias marítimas do Reino da Espanha foram criadas por Real Ordem de 30 de julho de 1845, assinada pelo Ministro da Marina, Capitão-General da Armada Espanhola, Ramón Romay y Jimenez de Cisneros. Foi publicada essa Real Ordem pela Direção Geral da Armada em 4 de agosto de 1845 na Gazeta de Madrid, que foi quando entrou em vigor. A contrassenha referida à Província da Crunha era branca com uma aspa de Santo André em azul. Assim é reconhecida, por exemplo, nas imagens que conservamos do Centro Galego da Havana dessa época, onde ondeia no alto do edifício funcionando como uma bandeira galega representativa da comunidade galega na ilha. Podemos comprovar a feiçao dessa bandeira no livro A. Bernal de O’Really: Prática Consular de España. Formulario de Cancillerias Consulares y Colección de Decretos, Reales Ordenes y Documentos diversos. Imprenta de Alfonso Lemane. Le Havre. 1864. Paginas: 2, 109 e 518

https://tinyurl.com/pregalicianflag

2- Por Real Decreto de 22 de Junho de 1891 publicado na Gazeta de Madrid, o Governo da Espanha decide tirar uma das faixas da aspa da contrassenha da Crunha, ficando uma bandeira branca com uma única faixa que vai do estremo superior esquerdo até o estremo inferior direito. As razões dadas no Real Decreto são aquelas que por pedido do Governo Russo pudessem causar confusão com a simbologia da Armada Russa, cuja bandeira é justamente branca com uma aspa azul, como a contrassenha da Crunha até o momento. O Real Decreto pode ser consultado na íntegra na página que o Ministério da Presidência da Espanha, dentro da página do atual BOE, dispõe para consultar a Gazeta de Madrid, antecessora do atual Boletin Oficial del Estado: https://tinyurl.com/Gazeta1891

3- Há uma referência que diz que a Bandeira galega tal e qual a conhecemos hoje, branca com uma faixa azul do canto superior esquerdo até o canto inferior direito, cruzando o campo vexilar, curiosa e exatamente igual do que a contrassenha da Crunha, legal desde junho de 1981, foi exibida pela primeira vez em maio de 1891, junto um mês antes da publicação do Real Decreto na Gazeta de Madrid, quando o corpo da nossa poetisa nacional foi transladado do cemitério de Padrão à sua localização atual, no Panteão dos Galegos Ilustres da Igreja de São Domingos de Bonaval.

4- Há várias dúvidas a respeito da criação da bandeira que para nós, são muito fáceis de responder: 1- A bandeira foi criada pelo galeguismo? 2- A bandeira foi obra de Murguia? Por que esse essa coincidência entre uma suposta criação galeguista e/ou de Murguia com a contrassenha da Província Marítima da Crunha?

Respostas:

A primeira referência no enterro de Rosália?

Da publicação da ordem de mudança nas aspas ( Junho de 1891) e o traslado do Corpo de Rosália a Bonaval, (maio de 1891) onde há referência do primeiro uso da bandeira da faixa única, não o enterro (1885), como se diz habitualmente e se confunde, vai um tempo aproximado de um mês. Antes foi o traslado, mas a iniciativa para modificar a bandeira e o aviso do Czar não deveram ser posteriores ao traslado dos restos de Rosália. Esse tipo de cousas levam tempo geri-las. São assuntos diplomáticos que com probabilidade já estavam falados, conversados, decididos e consumados, com muita probabilidade para evitar os conflitos que se poderiam derivar da confusão entre as bandeiras da Marina Russa e a bandeira espanhola da província marítima da Crunha, como também para evitar conflitos entre a Armada Russa e o Reino da Espanha. O pedido foi feito pelo Ministro do Czar, Nicolai Girs que tomou posse mesmo antes de morrer Rosália. Não nos parece que Murguia inventasse a bandeira da única faixa azul e que num prazo de quatro semanas o Ministério Espanhol da Marina decidisse copiar a bandeira desenhada por Murguia… ou no mais estranho dos casos, que fossem coincidir esteticamente de forma absoluta.

Mas, foi Murguia o autor?

Eu acho não ser um invento do Murgia. Como pode ser que independentemente de argumentos para si ou para não, não surpreenda a similitude 1° com a bandeira portuária da Crunha atual, em vigor desde 1891 e 2° A versão anterior a 1891 com a bandeira da Marina Russa da que sabemos, foi modificada para dar a atual? Não somos cegos.

Isso são provas... De ter sido Murguia o autor, nada temos que no-lo confirme, mas isso pode ser por duas razões: a- ou não foi ele ou b- não o deixou dito, no caso de ter sido ele... E porque não ia deixar claro que foi ele? Humildade? Qual foi o processo da elaboração da bandeira? Que documentação há? Pode alguém confirmá-lo? Não me parece que tivesse sido ele.

Murguia era historiador, e portanto, consciente de muitas cousas relativamente à memória coletiva... Que ia ganhar o galeguismo desconhecendo a autoria da bandeira em questão? Eu tenho a certeza de que como historiador que era, teria absoluta consciência, no caso de ter sido ele o autor, de que iria ser muito importante para os galeguistas do futuro, ter conhecimento do autor da bandeira. Não acerto a averiguar qual seria a razão pela qual Murguia quereria ocultar ou não dar a conhecer o seu suposto protagonismo.


Outras Contrassenhas dos portos galegos: 
Contrassenha de Ferrol  
Contrassenha de Lugo-Burela 
Contrassenha de Vigo
Contrassenha de Vila Garcia de Arouça


Referencias:


 


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