sábado, 18 de junho de 2011

O centrismo oscilante.


Por José Manuel Barbosa.
 


Tenho dous amigos com os que partilho o gosto pela política. Um deles procede ideologicamente duma família de centro-direita  e o outro recebeu uma educação e uma tradição socialdemocrata  de esquerdas. Até há pouco tempo quando nos juntávamos os três as discrepâncias se faziam muito manifestas e as discussões  nunca tinham fim.


Deve haver uns dez anos aproximadamente em que os posicionamentos dos meus dous amigos se vêm achegando, se moderam o um com o outro, e chegam a pontos em comum muito interessantes e difíceis de prever por mim em tempos passados, pois já levo com eles mais de trinta anos e nunca pôde imaginar tal achegamento. Agora vejo neles o afã de concordar para solucionar os problemas da vida diária. Antes, contrariamente, o dogma estava sempre presente e primava mais “a priori” o posicionamento ideológico de cada um do que arranjar a vida dos cidadãos. Ultimamente o assunto já não é tão ideológico como era até uns anos. Agora é mais prático mas também é certo que o que faz que cheguem a pontos de encontro é que os dous têm a ideia acertada de acreditarem que é na Galiza onde se deve e se pode desenvolver a ação do seu ideário.
Estou a ver com surpresa que eles acham que o que faz falta é solucionar os problemas dos administrados e não impor um pensamento ideológico por cima das realidades e dos contextos globais nos que estamos inseridos. Assim às vezes será necessário –dizem eles- aplicar soluções liberais para criar riqueza e outras vezes soluções mais socializantes para repartir essa riqueza.
Como eles são galegos e vivem na Galiza, ambos os amigos chegaram à conclusão de que os seus projetos e ideários tinham de ser aplicados na Galiza, não na Polónia, na Guatemala, ou na Austrália onde já há gente inteligente que pode e deve trabalhar pela humanidade. Acham igualmente que os interesses dos andaluzes, ou dos madrilenos, ou dos catalães ou dos murcianos não são os nossos interesses porque as fontes de riqueza, os meios de produção, as pessoas com as suas diferentes formas de fazer e de perceber as cousas e as vias de expansão económica não são as mesmas nem geograficamente, nem historicamente, nem também os amigos ou parceiros com quem possamos partilhar interesses são os mesmos, ainda que sim possamos fazer negócios com todos e cada um deles forem donde forem, que essa é a finalidade: trocarmos riquezas materiais, culturais, linguísticas, espirituais ou de outros tipos, e portanto, enriquecer-nos todos como conjunto.
Estes amigos meus deixam-me surpreso muitas vezes quando falam de soluções viáveis que não se levam a cabo pela mediocridade dos políticos que temos ou por falta de imaginação ou iniciativa. Eles falam de cousas como estas:
·                                 Para eles solucionar problemas é adatar o horário galego ao fuso horário que lhe é natural. O mesmo da Irlanda, de Portugal, das Ilhas Canárias..., pois como comentávamos anteriormente em outro artigo (ver “Por uma hora galega”) a poupança passava-se dum 1% de como está agora até um 10% de mudarmos para a hora que nos é natural, como nos informava a CNRHE (Comissão Nacional para a Racionalização dos Horários Espanhóis).
·                                 Para eles solucionar problemas seria criar uma Bolsa de Valores na Galiza. Ideia esta que já se debatia na época do Fraga mas que ainda ninguém foi capaz de levar a fim por veto madrileno. Mesmo é uma aposta positiva para o próprio Estado Espanhol que vê com muita menos inteligência as cousas do que, por exemplo a França, a qual pode virar os seus interesses do Mediterrâneo para o Atlântico se lhe convier. Contrariamente, a Espanha só está centrada nos seus interesses mediterrâneos sem tomar consciência de que a faixa atlântica abre portas económicas que teimosamente Madrid se empenha em fechar tornando em absurdos os políticos galegos que se posicionam ideologicamente próximos dos interesses do Estado. Este posicionamento negativista da Espanha em relação à Galiza abre em troca caminho a futuros (quando não já presentes) problemas de adequação e adatação do nosso País com respeito ao Estado mas não há que dizer muito sobre os benefícios que esta iniciativa económica teria para a Galiza.
·                                 Os meus amigos ainda sendo de posicionamentos sociais bem diferentes apoiariam a eliminação das administrações intermédias como as deputações, a divisão provincial, o elevado número de Concelhos na Galiza ainda que também apoiariam  a recuperação da minguada e decrescente população galega dando-lhe às freguesias ou paróquias rurais a entidade jurídica própria dentro de Concelhos de tamanho comarcal com serviços adequados para a população se manter servida.
·                                 Solucionar problemas deste País para os meus amigos passa pela recuperação da população galega por meio da organização territorial histórica paroquial e comarcal que  ajudaria a que esta tivesse um maior peso dentro do Estado e por tanto pudesse ter mais poder de decisão para poder defender o que ninguém defende por nós, chefiando a Galiza a reivindicação dos interesses atlânticos de forma que viessem connosco os apoios de outros territórios com as mesmas necessidades.
·                                 Também arranjar necessidades galegas para os meus amigos seria o reconhecimento da unidade linguística galego-portuguesa com todos os benefícios que isto traz, e não só culturais e de identidade, mas também políticos e  económicos (ver “Há muita fome no mundo”)
·                                 Eles concordam em que para que tudo isto fosse avante seria necessária uma organização partidária galega completa, própria de qualquer país normal, com partidos de direita, de centro, de esquerda, de todo tipo de organizações de defesa do país independentemente dos seus vínculos ideológicos conservadores, liberais, democrata-cristãos, socialdemocratas, socialistas, comunistas, anarquistas, ambientalistas, verdes ecologistas, etc... pois na sociedade é que se dão todas estas possibilidades e a dia de hoje a oferta partidária na Galiza é muito limitada para defender o País fora doutros posicionamentos que não sejam socialistas ou comunistas.
·                                 Segundo eles, a Galiza como País necessita relacionamento com o exterior, não só com outros territórios da Espanha e para isso comentam de virar os nossos interesses de cara a três direções: a) o mundo atlântico europeu, céltico e britânico por proximidade, vínculos históricos e comunidade de interesses económicos; b) o mundo lusófono por outro, por proximidade cultural e identidade linguística, que abre portas económicas de grande poder tanto mais desde o momento em que a lusofonia começa a ter peso no mundo e c) o mundo hispano-americano com o qual temos séculos de relacionamento por ter sido destino da nossa histórica emigração a qual pode ser um importante suporte para uma Galiza forte.
·                                 Ainda, comentam os meus amigos, haveria um quarto ponto de relacionamento exterior e é este o apoio a uma Europa realmente unida posicionando-nos pouco a pouco com as potências emergentes, e nomeadamente com o Brasil para evitar cair no grande abismo que estão a construir os Estados Unidos que teimam em produzir dólares sem limite inflando a bolha que criou a crise presente e agravando-a mais cada dia que passa até que acabe por fundir aos próprios norte-americanos e com eles a esta servil Europa que não sabe dar-lhe uso à sua união.
·                                 Mas também, como último elemento que transcende e une o pensamento polar dos meus amigos é o facto de podermos ter na Galiza políticos com mente clara de estadistas, que pense em grande e não tenha medo a jogar com força e inteligência, não politiquinhos cosmopaletos aderidos a Madrid por fidelidades servis ou falsa alternativa a eles. Não nos seriam de utilidade galeguismos que nem têm consciência da globalidade onde estamos inseridos, nem sabem safar do poder centrípeto que nos envolve numa inércia pasmona que nos anula e que nem dão jogo a outras alternativas galeguistas que não sejam as suas.
Como os meus amigos provêm, um do centro-direita e o outro da esquerda e chegaram a conclusão de que às vezes era necessário apoiar o elemento privado e outras o assunto público segundo convier, um que isto escreve também chegou a um ponto que graças à curiosidade que criou em mim tal processo evolutivo, quis pôr-lhe um nome a este caminho central e centrado. Central por ser esse o ponto do espetro político ao que tendem. Um lugar, uma localização igualmente distante dos dous extremos, querendo e vendo necessária essa oscilação da balança como fórmula que achega a um ou ao outro ponto, segundo convier, com um equilíbrio em movimento que visa evolução. Igualmente é centrado porque a ponta do compasso está sempre posta na Galiza. A isto, deu-se-me por chamar-lhe o “Centrismo Oscilante”.


terça-feira, 7 de junho de 2011

O nome do Brasil e o mundo céltico


Por José Manuel Barbosa


Artigo dedicado a minha amiga brasileira Vanessa Nega e a sua turma de bretões estudantes de português. Com carinho.
A mitologia céltica está presente ainda hoje nos países de tradição atlântica e entre eles, a Galiza e o Portugal originariamente galaico, ainda que dous dos países popularmente mais conhecidos e reconhecidos pelo seu caráter céltico são a Irlanda e a Bretanha. Nestes países as mitologias referidas a heróis guerreiros ou as hagiografias referidas a santos assimilados a partir de lendas pré-cristãs estão presentes ainda neste século XXI.
Neste artigo que começo, quero resgatar o relacionamento que há entre uma velha lenda irlandesa, mas também bretã, com o étimo do Brasil que nos chega muito pertinho aos galegos, tanto pelo que de celta tem o tema, quanto de lusófono. Assim é do nosso ponto de vista, a etimologia do grande e irmão país sudamericano que muitos galegos vemos verde não só pela cor das suas matas, mas pela esperança que em nós alimenta. Vamos ver algo sobre a etimologia do Brasil:
 Assim, contam-nos as lendas atlânticas que foi Breasail o grande Rei do mundo que vivia numa ilha do Atlântico para além do ocidente da atual Irlanda. O seu país era chamado Hy-Breasail e só podia ser visto um dia cada sete anos porque a brétema perpétua só permitia isso para que os olhos da gente pudessem admirar a beleza daquela terra perdida no oceano.
Ele e os seus chegaram a velha Irlanda chefiando as tropas dum exército que lutaria contra os habitantes da ilha cujo Rei daria em doação terras aos invasores, O lugar: ali onde segundo também conta a lenda foi fundada a cidade de Gaillimh, conhecida com a grafia inglesa como Galway, nome da filha do Rei Breasail -Gaillim inion Breasail-, mais tarde afogada no rio Corrib que discorre por essa cidade.
Os descendentes de Breasail seriam os O’Breasail de Irlanda, nome familiar ainda existente hoje e a ilha da qual procediam foi assimilada com a Ilha de Ávalon, Tir na nOg e mesmo a perdida Atlântida com a qual partilha muitas similitudes.

A palavra “Breasail” acolhe grande variedade de formas em gaélico: Brasil, Berzil, Brazir, Breasil... e tem sido bastante comum como nome de pessoa graças a que o mito foi cristianizado e daí deu o nome do santo irlandês Brecan (Breogam ?????).

Breasail parece significar “Vermelho” em gaélico, que é o nome que recebe igualmente o cinábrio ou sulfureto de mercúrio, mineral de cor vermelha e brilhante utilizado para pôr cor nos cabelos e no corpo das pessoas. Este nome gaélico dá na nossa língua “varzino”, em castelhano “bracino” e mesmo em catalão “barcino” donde poderia derivar a palavra Barcelona (BARKINONAN>Barcelona em acusativo céltico segundo Higino Martins língua franca na península e na Gália em época pré-romana). Talvez tivesse a ver com a cor dos cabelos do herói do que estamos a falar como do cinábrio com que comerciariam os próprios povos célticos com os mediterrânicos latinos, fenícios e gregos (lembremos que o nome de “fenícios” vem do grego “Phoenikés” que significa “púrpura” ou vermelho, cor com que tingiam os tecidos com os que comerciavam graças a uma fórmula especial que só eles conheciam)
É de todos sabido que a Idade Média não é época de conhecimentos científicos contrastados e empíricos tal como os percebemos hoje, mas todo o contrário. É época de mitos e de lendas transmitidas de forma oral e poucas vezes escrita. Essas lendas seriam crenças populares cuja veracidade não tinha discussão na altura, sendo pelo contato cultural e comercial de tradição milenar como se difundiriam entre os povos atlânticos. Por isso era totalmente real para a gente do medievo a existência de ilhas como a Antilia, a Ilha de São Brandão, a Ilha das Sete Cidades, as Ilhas Afortunadas e a Ilha de Hy Brasil, Ibrasil, Brasil ou Breasail. Essa visão do cosmos era representada sem qualquer dúvida nos cartulários anteriores ao chamado “descobrimento” de América como podemos comprovar nos mapas de Dalorto (1325), Dulcert (1339), Laurazziano-Gaddiano (1351), Piziganni (1367), Giraldi (1426), Giovanni di Napoli (1430), Beccario (1426 e 1435) Valsequa (1439), Bianco (1448), Pareto (1455), o anónimo de Weimar (1481), Benicassa (1482), Juan de la Cosa (1500)... representando-se em todos eles como uma ilha com um lago interior e com forma anelar. O próprio Cristóvão Colombo teve que estar em contato com esses mapas, pois como se nos informa em textos conservados hoje, ele foi cartógrafo durante muitos anos em Lisboa.
Segundo a informação que tiramos do Atlas de Oliveira Marques e Alves Dias “Atlas Histórico de Portugal e do Ultramar português”, o navegador Duarte Pacheco Pereira chegou à terra dos tupis em 1498, dous anos antes da chegada do descobridor oficial do Brasil Pedro Álvares Cabral e cinco depois de alguma outra expedição da qual não temos ainda toda a informação mas da que algo sabemos. A região aonde estes navegadores chegaram recebe o nome de “Ilha de Santa Cruz”; posteriormente há de ser “Terra de Santa Cruz” e só poucos anos depois é que vai receber o seu nome definitivo de “Brasil” por acreditavam os coevos que aquela era um ilha afastada do resto do continente americano pelos rios Orinoco, Paraguai e Rio da Prata. Era a terra que identificavam com a mítica ilha registada em todas as cartografias e em todas as informações textuais desde a “Insulae Purpuraricae” (Ilha Vermelha ou de cor Púrpura) do romano Plínio o Velho.

A tradição mais recente faz derivar “Brasil” do pau-brasil que tem um dos seus extremos vermelhos como as brasas, sendo esta uma planta muito importante para o comércio português, mas também é o nome das madeiras de cor avermelhada para tintura que foi denominada de Brisilicum pelo Duarte Pacheco em 1505, ou “Tinta do Brasil”.

Todos estes enganos favoreceram a confusão na altura da etimologia do Brasil como sinónimo da ilha do Além atlântico com o nome duma ou várias madeiras e mesmo de “brasa”.
Diz-nos Frei Vicente do Salvador que o nome do Brasil foi inspirado pelo diabo, pois Santa Cruz (o primeiro nome que recebeu o país) era referido à madeira da cruz onde fora crucificado Jesus Cristo e em troca “Brasil” era madeira mundana.
De qualquer jeito parece-nos que o nome originário céltico pode dever-se não unicamente à tradição cartográfica medieval mas também aos contatos entre a Irlanda, a Bretanha com a Galiza e Portugal, como prolongações do mundo céltico e atlântico em contato milenar com as Ilhas Britânicas e a própria Armórica. Tantos na Irlanda como na Bretanha registamos a lenda de Ilha do Além com o mesmo nome do que estamos a falar, Hy-Brasil, que tinha como destino receber os guerreiros que tiveram uma morte honrosa no campo de batalha. Eis o vínculo entre esse mundo atlântico europeu com o grande Brasil...e acreditamos que pelo meio está o elo da Galiza, ponto de conexão entre ambos mundos: o céltico e o lusófono.
Bibliografia:




sexta-feira, 3 de junho de 2011

Um misterio de interesse para o mundo Céltico e Atlântico






Por José Manuel Barbosa
Para a maior parte da gente falar na Atlântida é como tratar um tema baseado na irrealidade, afastado do concreto e de pouca utilidade historiográfica, mas uma narração que nos surge lendo os “comentários” de Platão, que ele próprio qualifica de “verídico e longe do mithos” deixa caminho aberto à curiosidade e evidentemente à investigação. Isto vem acrescentado por ser motivo de possível investigação no que diz respeito do mundo atlântico e os vínculos, que como galegos temos ou deveríamos ter, históricos, económicos, culturais e étnicos com ele.
A Atlântida foi uma terra insular situada para além das Colunas de Hércules (o estreito de Gibraltar), no Oceano que leva o seu nome: Atlântico, sendo submergida ha 11.600 anos (9.000 na época de Platão) por um grande terramoto e um posterior tsunámi.
Platão fala dela no seu “Timeu ou a Natureza” e no “Crítias ou a Atlântida” assegurando que existiu realmente e cujo conhecimento veio dado pelos sacerdotes da cidade egícia de Sais a Solon e este ao avô do próprio Platão quem à sua vez lho narrou ao seu neto, o escritor e filósofo de quem estamos a falar.
A sua capital era Atlântis, fundada pelo Atlas, filho de Clito e o deus Poseidon o qual para proteger à sua amada rodeou a cidade de dez anéis circulares de água e fossos aquíferos. A ilha era rica em ouro e minerais e chegou a construir um império que ocupou grandes partes da Europa, África e América, mas a sua corrução fez com que os deuses provocassem uma grande catástrofe natural que acabou afundindo-a sob as águas do oceano ficando dela só a memória que o tempo transformou em lenda.
Esta ideia foi mantida como real por muitos autores da antiguidade como Estrabo, os dous Plínios, Teopompo, Diodoro Sículo, Cláudio Eliano, Eustácio ou outros que não nomeio por ser a lista grande. Eles diziam possuir informação textual e documentos históricos dos que se falava da ilha, o problema é que a maior parte da informação pôde ter sido perdida com a biblioteca de Alexandria.
Também os humanistas do quatrocento italiano recuperaram a ideia, esquecida na Idade Média, apanhada posteriormente pelo espanhol López de Gomera que impulsionou de maneira importante a procura de terras no ocidente atlântico em épocas de descobrimentos ou mais hodiernamente por Ignatius Donnelly, inteletual e político liberal norteamericano do século XIX que pela sua defesa do voto feminino, o seu posicionamento contrário à escravatura, favorável a um incipiente ambientalismo ecologista mas também pela sua curiosidade e apertura de mente em temas científicos foi qualificado de radical perigoso.
Todos estes autores procuraram uma ubiquação mais ou menos central dentro do oceano Atlântico embora em 1950 com o surgimento da teoria da deriva continental por causa das placas tetónicas a ideia vem-se abaixo invalidando a existência duma massa continental entre a Europa e a América.
Esta lenda ou suposta história é familiar para muitos povos e etnias do mundo que falam em cidades submergidas por um grande cataclismo marino. Alguns povos ameríndios falam disso: aztecas, máias, mapuches...mas sem irmos muito longe temos aqui na Galiza as lendas da cidade de Antioquia na Lagoa de Antela, antes chamada Lago Béliu ou Beão; a cidade de Valverde de Lucerna na Lagoa da Seabra; a cidade de Doninhos perto de Ferrol; a cidade de Béria sob a Lagoa de Cospeito; a cidade submersa da Lagoa de Macide, perto do Carvalhinho; outra na Lagoa de Traba; na Lagoa de Lucença, etc...
Mas também para mais ao Norte do nosso País, na Bretanha armoricana temos a lenda da cidade de Ys ou Is a qual também foi assolagada por ser uma cidade por baixo da linha costeira e afastada por diques que não puderam conter o mar um malfadado dia. Acrescentariamos a cidade assolagada da Baia de Cardigan, em Gales; a cidade submersa do lago de Lough Neagh em Irlanda; a do Reino perdido baixo as águas de Lyonesse em Cornualha...
Na maior parte destas lendas a protagonista feminina acaba convertendo-se em sereia. Ela é a que causa o mal à cidade pelo seu comportamento incorreto alheio a toda norma moral que traz a desgraça perante as tentativas do seu pai, o Rei.
Também em todas elas há uma história similar de castigo divino aplicado contra a ilha porque esta usava no seu governo a corrução ou como falavamos antes a corrução nos comportamentos morais de algum ou alguma das protagonistas, o que gera uma ação divina de limpeza perante esse pecado ou a falta de retidão dos seus governantes.
Todos estes elementos cristianizados com o tempo são os que chegam aos nossos dias, ocultando elementos pré-cristãos que nos fornecem duma informação de muito interesse para o tema que nos ocupa e nos dá a conhecer um denominador comum que estimula a nossa curiosidade e nós leva a conclusão de que algo deveria de ter acontecido porque não seria lógica tanta coincidência se não tivesse existido algo realmente. O problema é a falta de dados suficientes que nos levem ao conhecimento da realidade.
Quero lembrar, falando nestas cousas, a conferência do nosso amigo Manuel Díaz Regueiro em Março do passado 2010 em Ourense falando sobre o “Labirinto Atlântico”. Nele falava como tema central nos petróglifos na Europa e a sua expansão desde a Galiza para o resto do continente.
Comentava Manuel entre outra cousas que durante a última era glacial o mapa da Europa incluía umas Ilhas Britânicas unidas ao continente do mesmo jeito do que o Rio Reno se prolongava pelo canal da Mancha paralelo às atuais costas de Inglaterra e França. Os rios Sena, Escalda e o Tâmisa, eram afluentes desse Reno que teria a sua foz em algum lugar entre a atual Cornualha e a Bretanha num imenso delta tão grande como o do Amazonas ou o do Nilo.
Manuel Regueiro insinuava que os petróglifos espirais tinham uma forma muito parecida à Atlântida rodeada de vários anéis de água e terra e fossos aquíferos. Comentava o nosso amigo que mesmo poderiam ser uma representação mitológica, idealizada dum evento de lenda que poderia estar na cabeça dos europeus daquela altura histórica e ainda de alguns povos americanos que herdaram essa tradição hagiográfica que perdurou em pedra até os nossos dias.
Do nosso humilde ponto de vista, se em algum lugar pôde ter estado a Atlântida, esse lugar teria sido a parte da Europa submersa pela subida das águas após a última glaciação. O lugar é para além das Colunas de Hércules como tinha dito Platão embora pensemos que não é rumo ocidente, mas rumo Norte.
O tamanho desse território seria continental e as terras seriam o suficientemente baixas como para se irem submergindo segundo os gelos se derreterem. É fácil pensar que alguns lugares supostamente habitados dessas regiões se protegeriam com grandes diques adequados à época histórica e à tenologia do momento, mais ou menos como hoje se protegem os chamados Países Baixos, mas qualquer problema natural poderia facilmente provocar uma catástrofe e isso ficar na memória da humanidade como algo digno de ser lembrado de muitas formas.
Se analisarmos a palavra Atlântis e desde o nosso pouco conhecimento que podemos ter destas cousas, vem-se-nos à cabeça uma união de três desinências: Art, Land e Is ou Ys. Todas elas explicáveis desde as línguas celtas:
  • “Art” está presente na palavra “ARTOS” que quer dizer “Urso” e que designaria a Ursa Maior, o lugar onde os antigos situavam o Norte. Daí “ártico” ou “ártabro” (*).
  • Land” é uma palavra também celta que originariamente significa “país de tojos, giestas e monte baixo” mas por extensão e ampliação de significado “país, região, território”. Da língua celta se passou, por exemplo, ao francês donde vem “Les Landes”. Mesmo tem o correlato germânico em “Land” que significa “país” (“Eng-Land” ou País dos anglos).
  • Is ou Ys é outra palavra celta que significa “terreno baixo ou sob o nível do mar”. A lenda da cidade de Ys nomeia-a de Ker-Is o Ker-Ys, isto é “cidade baixa”. Em atual bretão a palavra é Izel. Daí Breizh Izel, quer dizer, “Baixa Bretanha”.
Portanto a forma Atlântis seria uma forma helenizante de Art-Land-Ys que viria a significar algo assim como “As terras baixas do Norte”.
 Os bretães localizam estas terras por causa da sua lenda nas costas da Bretanha, concretamente na baia de Douarnnenez mas tendo em conta vários elementos, acho que tanto bretães como galegos, como outros povos celtas conservamos essa ideia muito vinculada com invasões vindas de ocidente, de Ilhas misteriosas de Poente (veja-se a história da Ilha de Ibrasil), de guerreiros que povoam países celtas porque as suas terras deixam de existir levadas pelo mar, de ilhas da eterna mocidade onde iam as almas dos mortos, etc...
Aliás as terras baixas foram todas aquelas que puderam ver-se submergidas pelas deglaciações, terras coincidentes com a plataforma continental europeia. Se a isto acrescentamos que ficavam ao Norte poderemos imaginar ainda territórios para Oeste da Irlanda, próximas à sua altitude e muito para Sul de Islândia e Gronelândia que bem puderam ter uma situação por acima do nível do mar e mesmo não estarem geladas por causa do Gulf Stream, corrente quente que ajudou muito a que as terras dessas regiões se vissem livres dos gelos, muito antes do que outras mais ao Sul, em épocas em que estavam em retirada.
Em 2001 o russo N. Zhirov após examinar a geologia, climatologia e a oceanografia desta zona da que falamos quis demonstrar que poderia ter existido um arquipélago no planalto de Rockall, atualmente submarino, tendo em conta que o mar há 12.000 anos aproximadamente estaria na zona a mais de 130 metros por baixo do nível atual.
A dia de hoje há um penedo isolado no meio do mar nessa zona. Esta rocha situada para Oeste de Grã-Bretanha, aproximadamente a quase 350 km da costa de Gearraidh Hogh, aldeia escocesa do N.W. do País e a 420 km de Donnegal em Irlanda. Este penedo é bem conhecido pelos marinheiros, tem origem vulcânico e a sua posse está discutida entre a Islândia, Irlanda, Reino Unido e Dinamarca.
Muito perto estão os Montes Darwin, cordilheira submarina coralina a perto de 185 km (100 milhas náuticas) do Cabo Wrath (Am Parbh ou An Carbh em gaélico escocês) em Escócia.
 http://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-2167731/Britains-Atlantis-North-sea--huge-undersea-kingdom-swamped-tsunami-5-500-years-ago.html
(*) Lido, por exemplo, desde o bretão “Art Vro” significaria “Pais do Urso” quer dizer, “Pais do Norte” onde “Vro” é país e “Art” é urso.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Desperta do teu sono que já che vão sendo horas...

 
Por José Manuel Barbosa


O atual galeguismo tem um certo complexo de masoquista derrotado. Joga a perder e leva desde os finais dos anos 70 a querer governar a Galiza sem se dar conta que as portas é que se abrem com chaves e não com arietes.

Exprimo-me: O Bloco é uma formação política que legitimamente se define como nacionalista e de esquerda, mas o seu grande erro é pensar que todo o nacionalismo está dentro do seu seio. Acho isso um grave erro.

Para mim a Galiza deveria ter um panorama político-partidário completo, e não só uma formação de esquerdas numa situação sistémica como esta. Mas pôde ter sido diferente, pois se nos ofereceram momentos históricos importantes nos que se houve de consolidar uma conformação partidária normal como se dá em outras nações sem Estado de Europa e nomeadamente no Reino da Espanha onde com tão grande sucesso se tem desenvolvido.

Quando a primeira constituição do parlamento galego, lá pelo ano 1981 deu-se-lhe ao Bloco por não jurar a constituição. Com isso ficou afastado do Parlamento galego perdendo um tempo importantíssimo. Ali teria sido importante estar ainda que aquela situação de extraparlamentariedade fez refletir à gente do aparato até o ponto de modificarem a sua estratégia absurda e totalmente falta de pagmatismo. Aquela atidão errada facilitou a etiquetagem de “radicais” posta pelos de sempre e que leva funcionado à perfeição cumprindo objetivos de descrédito contra a única força nacional que a dia de hoje temos nas instituições.

Com a chegada da velha Coligação Galega em 1985, com os seus onze deputados, muitas pessoas chegaram a pensar que na Galiza se instalava a inteligência e se via como na última nacionalidade história, assim definida legalmente, começava a funcionar uma praxe de normalidade com um arco parlamentar próprio e completo. O incomodo dos de sempre e as suas artes de equipa italiana de futebol fez que em poucos anos aquele balão perdesse todo o oxigénio. A ideia era velha: fazer que só o Bloco jogasse como a única equipa autóctone, com uma inviabilidade política manifesta pelas suas praxes políticas quase soviéticas e pela imagem que se lhe gerava nos média de “pró-etarras” num campo de jogo estranho com umas normas que não lhe permitissem nunca ganhar.

Após uma eternidade de anos a governarem os de sempre o Bloco parecia que poderia conseguir algo, mas o campo de jogo cheio de lama e com os árbitros comprados era impossível chegar à baliza do contrário.


O problema nessa altura já não era que os outros tivessem más artes no jogo ou que os árbitros apitassem em favor da equipa italiana. Agora o problema era que o dogmatismo próprio não estava pelo labor de adequar as estratégias, as técnicas e as táticas a uma situação diferente à dos anos 80. Agora fazia falta algo mais de adaptação para apanhar votos ali onde estão, que não é justamente onde Marx dizia. O Bloco queria ser o único galeguismo possível e conseguir vitórias apanhando apoios ali onde não havia votos parecia não levar a nenhures.

Por outra parte havia quem sim tinha vontade de jogar no centro do campo e mesmo pelas bandas direitas mas o bloco insistia em atacar pela esquerda que era onde mais defensores da equipa italiana havia com um forte cattenaccio que mesmo parecia a muralha de Adriano

E assim estamos, com um galeguismo que se esgota querendo entrar pela esquerda e com um flanco direito totalmente vazio. Acho isso um erro gravíssimo que faz que a Galiza esteja como está: Governada pelos de sempre que se emborcam felizes porque os galeguistas não sabem ou não querem atacar pelo centro e/ou pela direita abrindo jogo. Justo como fazem as nações sem Estado inteligentes que prometem um sucesso imediato. É por isso pelo que eu pensei sempre que na Galiza faz falta uma força política galeguista de centro-direita. Quando houver essa força os equilíbrios entre os partidos serão outros. Não haverá maiorias absolutas do PP e o Bloco teria uma alternativa quando ele não funcionar (cousa que acontece nestes últimos anos).

Por outra parte os de sempre levam obstaculizado ao máximo a criação dessa força porque sabe o que se lhe viria acima se esta existir ainda que devemos fugir da ideia de querermos botar-lhe as culpas aos contrincantes políticos, porque... lembremos, eles acreditam numa ideia de Espanha que se passa por esvaziar de conteúdo nacional a Galiza. E isso é que o fazem sem se despentearem pelo poder que os galegos estão a ceder constantemente à contra dos seus interesses. Não lhe botemos culpas. É o seu labor: estragar tudo o que há de sagrado neste País. A responsabilidade de defendê-lo tem-na o galeguismo que o permite por não querer modificar as suas estratégias e as suas formas de fazer política. Esse galeguismo está a deixar que isto aconteça.

Acho que o Bloco está nestes momentos em fase queda livre no que diz respeito à confiança que gera no votante galego. Não é capaz de dar no alvo nem sabe criar elementos que o façam atrativo para que o projeto galego tenha um mínimo de sucesso. Joga no terreno do PP e do PSOE, está sequestrado e não há alternativa.

O PSOE nestes momentos não oferece nada à Galiza, nem bom nem mau. É totalmente plano no seu encefalograma até o ponto de que por não saber, não sabe nem sequer tornar-se "galeguista" como o PSC é catalanista em Catalunha. Nem sequer é capaz de assumir essa condição de galeguista com a “sobradez” com a que o Manuel Fraga chegava a fazê-lo conseguindo trazer para si um celeiro de votos que acabou gerando umas rendas das que a dia de hoje vive o Feijoísmo, apoiado na comodidade da ignorância que nasceu ao redor do ex-ministro de Franco.

A situação da Galiza é péssima do ponto de vista económico, social, político, cultural, linguístico, não se cria riqueza no País, volta a emigração às casas dos galegos, a sociedade está total e absolutamente subvencionada... morre mais gente da que nasce e a patetada galaica pensa que isso é algo gerado em Madrid quando na realidade Madrid pouco poderia fazer se os galegos tivéssemos governos que defendessem os nossos interesses com total normalidade e explorassem as nossas riquezas materiais, espirituais, morais, culturais com inteligência e com a sabedoria que deveria fornecer a responsabilidade de ter a Galiza nas nossas mãos. Algo pelo que muitos galeguistas morreram e sofreram nas longas noites de pedra que se sucedem e perpetuam desde os tempos de Maria Castanha.

Levamos mais de 30 anos a desaproveitar a situação de autonomia política que custou sangue, suor e lágrimas. Levamos permitido que os de sempre estraguem a Galiza num pingar contínuo de despropósitos. Nós temos a possibilidade de prosperarmos mas os de sempre estão a rebentar a saída natural do que para eles seria o terceiro território que poderia causar-lhes um problema "nacionalista". Como isto é um perigo em potência para eles, é-lhes melhor fazer uma limpeza étnica encoberta e incruenta do que agirem governando-nos só um pouquinho.

Parece mentira que muita da nossa gente não acabe de dar-se conta disto. Prefere dormir o sono dos justos sem tomar consciência de que somos o território peninsular potencialmente mais rico e com mais hipóteses de encaixe e de sucesso no mundo do que ter a consciência de que ocupamos fisicamente a coluna vertebral do mundo civilizado, pertencendo a um mundo atlântico, céltico e lusófono que para si quiseram muitos países, mas se o pessoal está dormido -já o comentei-, não é culpa de quem o dopa, é de quem se deixa e de quem o deixa, quer dizer, é responsabilidade nossa e de quem tem o dever de nos guiar na nossa autoafirmação, na nossa identidade, na nossa defesa como povo e na nossa reafirmação e autoestima.

sábado, 14 de maio de 2011

Sobre uma possível reforma territorial




Por José Manuel Barbosa
Há uns dias, o presidente do governo espanhol disse que de entre as medidas que o seu governo ia tomar para poupar dinheiro perante a crise que o mundo ocidental está a passar e nomeadamente o Reino da Espanha, não estava o de eliminar as Deputações provinciais.
A alternativa não a disse, mas sim a têm manifestado certos lideres favoráveis à divisão provincial que a mantêm desde épocas pré e proto-democráticas quando já escreviam artigos contrários à própria Constituição e ao Título VIII da mesma. O tema era o desacordo com a existência das chamadas vulgarmente “autonomias”, entre as quais está a nossa Galiza com a categoria de “nacionalidade histórica”.
Mas o que também não se diz é que em qualquer caso há que modificar a Constituição do 78 se houver vontade real de suprimir as Deputações, como também se há vontade de eliminar as autonomias.
A proposta do galeguismo sempre foi a de converter Galiza num único território (não quatro como hoje) dentro da qual houvesse Comarcas e dentro das quais se desse entrada às nossas Paróquias rurais ou Freguesias com personalidade jurídica própria e organização legal e administrativa.
Uma organização assim pouparia muito dinheiro, pois nem as Deputações provinciais nem os 315 Concelhos reduzem as despesas nem os orçamentos. Só servem para alimentar um número excessivo de funcionários, um grande número de cargos inúteis e um caciquismo endémico e quase identitário tão daninho ou mais para o nosso País como os mesmos incêndios florestais.

Uma Galiza governada por um poder único desde Compostela, com um governo galego com autoridade sobre, só, uns cinquenta e poucos Concelhos-Comarca, cada um dos quais com um número determinado de Juntas de Paróquia ou Freguesia simplificaria muito as cousas e favoreceria a nossa sobrevivência como povo, só preterida por aqueles que não nos matam, mas também nos dão o necessário para que morramos.
Se as cousas fossem assim haveria uma redução muito importante dos representantes políticos de forma que pouparíamos grandes quantidades de dinheiro público e agilizaríamos a administração, minimizaríamos o clientelismo e o caciquismo e de passagem poderíamos solucionar muitos problemas territoriais originados na falta de respeito à organização territorial tradicional deste País, como é o caso d’Os Peares...e outros.
De tudo isto leva-se falado muito ultimamente nos média, mesmo desde partidos como o PS que também quer uma redução de Concelhos. Sem mais. Sem dizer nada das freguesias. Se isto fosse assim sem ter em conta as estruturas mais pequenas da divisão do território sem qualquer matiz não nos solucionaria absolutamente nada. Ao contrário, complicar-nos-ia ainda mais as cousas. O problema da despovoação seria muito mais grave do que já é agora se não se tiver em conta a organização paroquial, pois sem organização paroquial e com Concelhos do tamanho duma comarca as populações veriam muito mais distantes os locais das administrações e faria com que muitos núcleos habitados do tamanho de Luintra, Valdovinho, Toques, Touro, Ourol, Negueira de Monis, Cervantes, Carvalhedo, Cotobade, Vila Boa, Oia, Crecente e muitos semelhantes ficassem totalmente despovoados num prazo de poucos anos. Isso ocasionaria o abandono total das terras, o desarreigamento total dos galegos, o crescimento do mato favorecendo os incêndios e a degradação do solo, o desaparecimento do património arqueológico, cultural e artístico mais importante da península e a desvinculação dos galegos da sua terra e da sua maneira tradicional de perceber a existência.
O atual Estatuto de Autonomia tem cinco Títulos, quatro disposições adicionais e sete transitórias. O Título III está total e absolutamente em branco, sem desenvolver desde o momento em que se fala de reconhecer a Comarca e a Paróquia rural com personalidade jurídica própria. Este ponto não foi atendido por nenhum governo galego em trinta anos de autonomia. Ninguém teve vontade de articular o nosso território segundo os nossos esquemas tradicionais de povoamento comuns a toda a velha Gallaecia histórica (atual Galiza, Norte de Portugal e território astur-leonês). Isto é muito grave e cheira-me que a falta de vontade tem a mesma vontade e a mesma obscura intencionalidade do que o ataque à língua reduzindo-a à uma categoria de fala inferior para evitar uma reafirmação do ponto de vista identitário, social e legal; do desleixo a respeito do património cultural; do ocultamento da historiografia galega em contraposição à sobrevalorizada historiografia castelhanista; da eliminação de sectores económicos durante as últimas décadas provocando desemprego em massa, emigração e ruptura social; das dificuldades para criar empresas no nosso País favorecendo o deslocamento para Madrid das já existentes; a emigração brutal do melhor da Galiza; da desvinculação da Galiza do seu mundo linguístico galego-português e histórico-étnico céltico e atlântico; de aplicar soluções mediterrâneas a um País atlântico como o nosso, desrespeitando os seus legítimos interesses e vias de expansão...e assim até esgotar todo o argumentário que nos faz um País com necessidades especiais em situação de carência e necessitado de terapia social.
Ainda assim poderemos ver as soluções se optarmos por visualizar o problema com perspetiva que nos faça perceber o assunto em conjunto ajudando-nos a reconhecer a situação real e o enganados que nos têm. Isto faz-me lembrar aquela famosa frase dum valente democrata de livro como foi Abraão Lincoln que dizia: “Pode-se enganar a todo o mundo algum tempo; pode-se enganar a alguns todo o tempo, mas não se pode enganar a todo o mundo todo o tempo”.

Confio em que todos os galegos não nos deixemos enganar todo o tempo embora se realmente todos os galegos nos deixamos enganar todo o tempo faremos legitimo o racismo que durante séculos se exerceu sobre nós desde o poder do planalto. Nos últimos anos pareceu como se houvesse vontade em desenterrar esse facto mas se não formos capazes de podermos com essa lousa que temos desde há séculos por causa da comodidade, da inércia histórica, por indolência, ou pela simples e fácil estupidez de acreditarmos em aquelas forças políticas anti-galegas que nos levam afogado durante demasiado tempo, não conseguiremos mais do que nos fazermos merecedores dum futuro como o dos dinossauros.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Uma língua para dominá-los a todos


Por José Manuel Barbosa


“Excusatio non petita, acusatio manifesta” é o que me vinha à mente a mim, em Sindarim originário, quando me inteirava de que duas Smeagols políticas manifestavam no Senado da Terra Média há uns dias que amavam a língua dos hobbits e se sentiam muito orgulhosas de sê-lo à vez que falavam na língua dos Orcos.

Digo “Smeagols” políticas porque elas também são hobbits, mas hobbits passadas pelo sofrimento e a perversão da posse do anel único de poder. Já sabeis: “Uma língua para dominá-los a todos”

Estamos seguros que estas duas pobres hobbits pervertidas agiram após tortura e deveram sofrer muito. Deveram pensar nas pessoas da sua família, de entre os seus amigos, do seu trabalho...que falaram sempre a língua hobbit e à vez manifestarem publicamente que todas essas pessoas são de condição inferior ao resto da gente da Terra Média renegando da lei Número 14 da lei suprema de toda a Terra Média, desde Góndor, passando por Róhan, Árnor, a Terra dos Élfos e até a própria Mórdor.
Penso que se lhes deveu cair a cara de vergonha ao ver como em público ensinavam as suas partes mais pudendas para satisfazer os Orcos mais pervertidos perante tão humilhante manifestação.
Dali a poucos dias também tivemos notícia de que o pequeno Saruman disse publicamente que era favorável a que os distintos países da Terra Média fossem governados diretamente desde Mórdor, embora o que mais nos encheu de tristeza foi pensar que há muitos hobbits que confundidos, subornados por um prato de lentilhas da Comarca e afetados pela Síndroma de Rivendel concordavam com todo isso manifestado pelas duas pobres Smeagols e ainda pelo pequeno Saruman.
Lembremos que os hobbits são uma raça de gente tranquila que nunca se mete em problemas, não têm aventuras nem fazem nada inesperado, por isso e pela sua ingenuidade confiam em quem os governa sobre tudo nos dirigentes das suas aldeias que obedecem aos Orcos de Mórdor. Pensam que assim eles vão continuar a não ter problemas, pensam que vão deixar de emigrar aos Portos Grises ou ao País dos Élfos e pensam que deixando que as suas riquezas materiais e espirituais sejam geridas diretamente por Mórdor e pelos Orcos mais fétidos vão ser mais prósperos. É o problema desta raça ingénua.
Por outra parte quero-vos comunicar desde o meu retiro em Rivendel que sabemos que o olho de Sauron tudo o controla e que mesmo foi ele quem impulsionou a criação do P.O (Partido dos Orcos*) pouco antes de ser confinado na alta torre dos Caídos onde brilha em forma de olho desde o ano 75 da última idade para estragar as fragas de Ents e expulsar os hobbits da sua comarca pouco a pouco e sem que eles tenham muita consciência disso. Assim procuram a humilhação, a conquista e a exploração brutal das terras de todas as raças, forem estes hobbits, homens, elfos ou anões.
Quero tranquilizar também àqueles hobbits que mais conscientes são de todo isto que se avizinha. Contamos com pessoas valentes e decididas na comunidade do anel que não vão duvidar em levar o anel ao interior do Monte do Destino ou Amon Amarth na língua de Mordor, para nos desfazermos dele. Igualmente sabemos quem é o descendente dos Reis de Gondor o qual poderá recuperar o seu trono levando na sua mão a espada Andúril para finalmente os hobbits nos vermos mais outra vez felizes e livres na nossa comarca, possamos dedicar-nos às nossas comelhadas e ao estudo das genealogias familiares.
Após estas letras pensei um final para este artigo e é assim: “E viveu feliz para sempre...até o fim dos seus dias.
Assinado: Bilbosa Baggins

* Lembremos que nas línguas próximas ao Grande Mar de Belgaer as palavras que no Quenya originário tinham P inicial, ao passar ao hobbit perdem-na e exemplos temos na língua dos hobbits. Ex: PLARIA>Leira; PLABATIATA>Labaçada, etc...


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...