sábado, 13 de agosto de 2011

A origem do xamanismo: de "Les Trois Fréres" às origens do cristianismo. 1ª parte





"Aguarda o inesperado. Se não o aguardas não o reconhecerás quando chegue"
Heráclito

Por David Outeiro

Os ocidentais tendemos a ver os xamãs como personagens pertencentes a comunidades pre-históricas ou lonjanas, gente  misteriosa e estranha que leva a cabo transes incompreensíveis. Sobre os xamãs do nosso passado, quiçá pensemos que já não temos nada a ver com eles, que a achega desta misteriosa gente esmoreceu para sempre. Neste artigo tentarei demostrar que isto não é assim, que para além de existir indivíduos com características xamánicas até tempos recentes, estes tiveram uma incidência considerável na nossa mitologia. Para isso teremos que fazer uma longa viagem, submergir-nos no escuro dos tempos e olhar a gênese da nossa espécie. Será necessário submergir-nos nas profundidades das covas franco-cantábricas na procura dos primeiros sinais, continuar a prestar atenção às pinturas do neolítico e aos petróglifos, investigar na vida druídica e nas práticas priscilianistas. Seguindo este velho caminho perdido no tempo que nos conecta com o passado mais remoto, chegaremos às portas do nosso século á beira da terra da fim do mundo. Será necessário também submergir-nos na profundidade da nossa mente, do inconsciente, da psicanálise,a bioteologia a neurociência... e ver o que nos podem achegar para vislumbrar este mistério. Deste jeito poderemos conhecer qual é a origem da magia, dos deuses, o contato com as ánimas, do caminho que leva ao mundo da mourindade, da origem dos pastequeiros, meigas, mencinheiros....Para isso será necessário meter-nos na profundidade da mente humana, esse grande enigma do que fazemos parte.


O termo xamã provém da linguagem evenki, na Sibéria. Emprega-se para designar àquela pessoa que tem a missão de estabelecer o contato com o além, com o mundo dos espíritos e desse jeito manter a coesão da sua comunidade quando for necessário. Só se entende este fenómeno no contexto duma sociedade xamánica.



O xamã encarrega-se de sanar a sua gente por meio de práticas mágicas ou plantas, de "negociar" com os espíritos da caça, de consultar com os devanceiros, de predizer factos e inclusivamente de defender a comunidade da que forma parte de xamãs malignos. Para isto será necessário que o xamã empreenda uma viagem ao mundo espiritual, ou melhor dito a um deles, posto que é um mundo que costuma estar estratificado. Habitualmente tal estratificação apresenta-se em 3 níveis; o mundo inferior, o meio e o superior.

Para o seu fazer emprega múltiplos objetos mágico-rituais como tambores, pedras, penas de ave, etc. O seixo, é por exemplo um elemento xamánico por excelência, relacionado com o além, aparece colocado desde o interior das grutas paleolíticas, passando pelos monumentos megalíticos e até sendo usado por curandeiros galegos na atualidade. Em função da missão, o xamã deverá lidar com os seres dalgum lugar deste mundo espiritual; lutar com os espíritos malignos, obter conhecimento dos devanceiros, lidar com os espíritos ou deuses da caça, etc...


Tudo isto na nossa "mente racional" pode soar a ciência-fição mas para compreender este fenômeno teremos que compreender o que a nossa mente nos pode trazer: os estados alterados de consciência que veremos mais adiante.

Retrocedamos agora a um tempo indeterminado no passado, esse momento em que o homem se fez homem como é atualmente. Nesse momento, deu-se um salto sem precedentes que nos levou a uma maior capacidade cognoscitiva. Quiçá subitamente, esse novo homem se deu conta da sua própria mortalidade. Para ele o mundo era um lugar caótico e a sua vida dependia da estreita relação com a natureza e os seus fenómenos. O vínculo com os animais de caça era inegável mas também dependia dos ciclos solares e lunares para poder caçá-los

Era imprescindível conhecer o curso das estações para a sobrevivência assim como ter em conta os fenômenos meteorológicos. Deveu ser dramático. Aquele homem antigo olhou em torno de si, á imensidade do céu ateigado de estrelas, começou a fazer-se perguntas. Quê é o que sou eu?, Quê é a vida, e que sentido tem? e sobre tudo: Que é o que há para além da morte e quê rege tudo isso?. Então o homem também começaria a cavilar se poderia intervir no seu mundo, controlar os fenómenos climáticos, viajar ao mundo dos espíritos, lidar com os seres que controlam a caça. Começou-se a dar um fenômeno que chamarei de seleção espiritual, quer dizer, aqueles indivíduos que acreditassem poder controlar o seu cosmos, que após a morte poderia aguarda-los uma nova vida, tiveram maiores possibilidades de sobrevivência. Isto contribuiu a reduzir a sua ansiedade e os indivíduos que tinham este planeamento em relação ao seu mundo tinham mais probabilidades de sobreviver.

Mostra de que existiu este fenômeno evolutivo é um gene descoberto pelo genetista Dean Hamer denominado VMAT2  que mantém que há certas pessoas com maior sentido da espiritualidade do que outras, pondo em marcha processos mentais que desembocam numa experiência espiritual (transcendência, dissolução do ego e união com o tudo, euforia, bem-estar, sensação de contato com o sobrenatural). Estamos a falar de que podemos afirmar a existência de Deus no nosso cérebro, que a nossa estrutura cerebral conta com regiões e mecanismos que têm relação com o fenómeno religioso.

Estudos recentes mostram aliás, que aquelas pessoas espirituais e religiosas têm uma melhor saúde tanto física como mental derivada dos benefícios das crenças sobrenaturais e a transcendência, o que supõe a diminuição dos medos e a ansiedade. Foi neste quadro do fenômeno evolutivo quando surgem os chamãs, aquelas pessoas especializadas em lidar com o mundo sobrenatural; os favorecidos pela seleção natural e os encarregados fazer a coesão da tribo, de equilibrar o mundo físico e o mundo espiritual, ou além.

Cumpre salientar, que no longo caminho da evolução humana, o cérebro não foi selecionado para atender a realidade e reproduzi-la com precisão. Ao cérebro simplesmente lhe interessou a sobrevivência. Essa é a sua meta evolutiva, e para isso cria todo tipo de elucubrações e discriminações com o fim de criar uma determinada realidade. Estamos a falar de que não existe uma única realidade posto que todo o que percebemos como exterior não é mais do que uma criação mental. Tudo surge do interior do cérebro, as cores, as sensações, as formas, as dimensões, as percepções...e tudo isto quer dizer que a realidade racional que procuramos é incerta.

Mas perguntamos: Como é que viajam os xamãs a esses mundos do além?. Quais as ferramentas ou vias que empregam? Ou mesmo são os xamãs pessoas fraudulentas?. É agora quando chega a procura imprescindível para conhecer a base que empregam os xamãs para se mexerem em outros mundos: os estados alterados de consciência. Começando pela compreensão da mente devemos ter em conta a mente consciente e a inconsciente. A mente consciente processa 50 bits por segundo, é a mente que cremos que rege a nossa vida e que pelo tanto nos faz "conscientes". No que diz respeito à mente inconsciente, que opera sem que a tenhamos em conta, processa 11.000.000 milhões de bits. Quer dizer, a maioria das nossas vivências, das nossas percepções, da nossa memória e dos mecanismos que incidem na mente consciente estão na mente inconsciente.

Carl Jung achou neste tipo de mente algo surpreendente: os arquétipos do inconsciente colectivo. Após estudar fontes de distintas culturas e distintos tempos ao longo do mundo observou que certos arquétipos como a serpe, o dragão, a morte, os "diabos", os círculos e os triângulos, a ave como símbolo de libertação e transcendência, o mito do herói e as peregrinações surgem do inconsciente sem saber o porquê. É no inconsciente onde se acha o mundo com o que o xamã terá que lidar e onde terá portanto o encontro com os seres espirituais. Mas para aceder ao inconsciente o xamã terá que desencadear um estado alterado de consciência. Para desencadear este estado existem distintos métodos: praticas extáticas, determinadas danças, técnicas de respiração, jejum, dor, cansaço, ritmos musicais ou enteógenos. Em relação ao tamborileio, podemos dizer que existem estudos que demostram que os hertz cerebrais podem ser modificados empregando um determinado ritmo durante certo tempo.

Sobre os enteógenos (manifestar a divindade em ti) ou psicodélicos (manifestar a mente/alma) consistem em distintas sustâncias naturais de plantas ou fungos principalmente que derivam num estado alterado de conciência. Entre elas podemos citar ao pejote, aiauasca, amanita muscária, psylocibes, datura e um amplo etcétera. Estas plantas ou preparados permitem ao xamã aceder ao inconsciente num estado alterado de consciência e portanto aos mundos do além. Provocam visões, dissolução do ego, sensação de unidade com o cosmos, experiências extracorpóreas, fortes emoções ...Apesar desta descrição dum estado alterado de consciência, aqueles que o viveram coincidem em que só o que os experimentou  sabe o que significam já que é inconcebível que seja imaginado num estado ordinário de consciência.
Algumas experiências são tão marcantes como a experiência extracorpórea ou viagem astral que consiste em que o indivíduo que a experimente se vê fora do corpo podendo ver-se desde fora de si próprio e tendo a possibilidade de ver que voa a outros mundos. Uma experiência muito conhecida é a das experiências próximas á morte (ECM) na que se descreve a visão extracorpórea, o túnel, a luz e finalmente o encontro com os "seres espirituais".
As ECM interpretam-se desde a neurociência como o resultado do bloqueio dos receptores cerebrais do glutamato, afirma-se também que se deve a atividade das últimas sinapses e que em tais momentos o cérebro liberta uma grande quantidade de endorfinas que propicia a sensação de grande bem-estar. No entanto, ainda ficam muitos enigmas por resolver com respeito a esta temática. Agora que temos em conta a origem neurobiológica das experiências místicas favorecidas pela seleção natural e os estados alterados de consciência como meio de acesso ao inconsciente podemos continuar com o nosso objeto de estudo.

Imaginemos uma cena acontecida no paleolítico superior; alguém se introduz nas entranhas da terra, dirige-se à profundidade duma cova na que não vive ninguém. Com uma pequena lâmpada de graxa vai profundando na escuridão, no silencio mais absoluto até chegar a um determinado espaço no que refletidas as suas visões...é um xamã. A cova representa o vórtice, esse túnel que se acha no nosso sistema neurológico e que manifesta o inconsciente num estado alterado de consciência. Após ter a visão do túnel chega-se a última fase do estado alterado de consciência no que começam as visões de seres e na que o xamã as vezes se transforma para controlar a caça. Às vezes, a privação sensorial que produzem as covas pode desencadear estes estados. É quando ao aceder ao mundo do além o xamã pode transformar-se num ser teriantrópico (características humanas e animais) e realizar algum rito mágico que influa nas peças de caça. 


O chamado bruxo ou feiticeiro de Les Trois Freres pode ser um exemplo desta transformação, do homem que intenta controlar os rebanhos de caça mediante técnicas mágicas. Alguns têm características aviformes, representando quiçá o voo do xamã ao mundo espiritual.  
Num longo período do paleolítico superior pintaram-se as más variadas cenas nas que aparecem diversas espécies animais que parecem flutuar, as vezes com pontos ao seu redor ou mãos impregnadas sobre elas. Os pontos bem puderam ser os fosfenos que se manifestam na fase 1º dum transe extático (estado alterado de consciência). Os animais aparecem aparentemente desligados do mundo sobrenatural ou flutuando, tal e como se manifestam num estado alterado de consciência. As mãos puderam ser uma representação da posse do animal por parte do xama. O cérebro desta gente era o mesmo que o nosso pelo que não é de estranhar que a pesar do tempo transcorrido pudessem desencadear visões semelhantes.

Milénios depois, já no neolítico, o homem começaria a construir monumentos megalíticos. Nalgumas ocasiões, estes monumentos semelham a representação artificial duma cova, um esqueuomorfo, reflexo novamente do vórtice que o xamã se passa numa das fases dos estados alterados de consciência dos que me pergunto se experimentariam no interior dalguns monumentos megalíticos. No interior das antas, aparecem em ocasiões certas pinturas como espirais, representações em ziguezagues, linhas etc que novamente nos lembram as visões que certas fases dum transe extático manifestam. 



Estas representações não carecem de sentido nem são meras representações das visões. O xamã dar-lhe-ia um sentido as suas visões em função do seu contexto. Um xamã Tucano em ziguezague denomina as representações como o pensamento do pai-sol.

Por volta da idade do bronze (ultimamente aponta-se a um período bastante mais amplo), os petróglifos galegos de estilo esquemático atlântico ou estilo atlântico poderiam representar novamente as experiências chamánicas. Espirais, círculos, estranhos antropomorfos e de novo animais, cérvidas em muitos casos. Os círculos e as espirais são comumente visíveis ao longo das distintas fases dum estado alterado de consciência. No entanto, em relação zoomorfos, provavelmente estejamos em muitas ocasiões perante representações mágicas, como nas que no paleolítico superior tentavam representar a influencia do xamã sobre as peças de caça. 


Ainda assim, os petróglifos galegos podem ter distintos significados mas penso que os xamãs tiveram um papel essencial em muitos casos na sua realização. Como podemos ver, no transcurso da historia, os xamãs e os estados alterados de consciência foram um contínuo. A pesar disto, com o transcorrer do tempo e ao se desenvolverem as sociedades mais complexas, o xamanismo seria parcialmente transformado e institucionalizado dando lugar ao sacerdócio. Nas sociedades célticas dito fenómeno é o druidismo; aqueles indivíduos que tinham um saber religioso, filosófico e incidência política mas que também conheciam as plantas enteógenas e experimentavam transes extáticos. Seja exemplo disto a localização em jazigos centroeuropeos de Canabis nas tumbas célticas. Cumpre nomear as pedras formosas, saunas que segundo alguns autores puderam ser empregadas para desencadear transes extáticos. O emprego de saunas é também comum nos ritos da Igreja Nativa Americana que emprega o pejote no seu culto sincrético atual.

Lembremos também, dentro do mundo céltico, as representações do caldeiro de Gundestrup. No caldeiro aparece o deus Cernnunos, um deus hasteado e da natureza, rodeado de animais numa cena que salvando as distancias faz-nos lembrar ao "bruxo" de Les Trois Fréres. 


De novo aparece um teriantrópico, um deus neste caso, que pode simbolizar a tentativa por parte do homem de controlar os animais. Neste caso está rodeado dum interessante contido simbólico. Outro exemplo é o diadema de Moñes, onde se representa uma cena relacionada com o além, onde estranhos seres portam caldeiros da regeneração. A cena desenvolve-se num âmbito aquático, outro dos lugares que podem visitar os xamãs num estado de transe extático, neste caso é necessário apontar a estreita relação que estabelecem os celtas entre o além e o mar. É interessante apontar, tal e como fizeram muitos autores, a importância que puderam ter os estados alterados de consciência na criação de arte de estilo céltico. 



É interessante apontar também que o xamã, por aceder ao inconsciente é uma pessoa que carga com certo "sofrimento" em favor da sua comunidade. O feito de entrar em transe extático ou xamanizar não sempre é uma experiência agradável. Este prezo que há que pagar por aceder ao conhecimento do além está representado no transcurso da historia e no planeta em múltiplas culturas. Todos aqueles que acederam a essa outra dimensão da mente humana, do inconsciente, sabem que ditas experiências nunca se esquecem. Quiçá seja por isso que Odín apareça na mitologia nórdica carente do olho direito mas conserva o esquerdo relacionado com a visão do além.

A respeito do lado esquerdo, aparece sempre vinculado a visão do além. Tal é o caso de aqueles que acompanhados de alguém que está vendo a Santa Companha só a poderão ver se o "vedoiro" lhe pisar o pé esquerdo. Alguns povos  celtas tinham por costume pintarem o lado esquerdo da cara durante o samhain para evitar visões aterradoras. 


Uma crença celta que cumpre apontar é a de que os guerreiros que "ressuscitavam" e voltavam do além ficariam mudos, quiçá precisamente por ter acedido a essa outra realidade. Quiçá seja por isto também, que no dia de santos ou samhain, quem ultrapassasse Portalém (no Monte do Seixo na Comarca de Terra de Montes) e fizera uma consulta as ánimas, ficaria com a voz rouca no caso de revelar os segredos do além. 


Era habitual que os povos Célticos representassem os crânios dos guerreiros vencidos sem boca, como sinal de que não voltariam e por pertencerem ao mundo do além. Nalgumas ocasiões têm-se achado crânios pertencentes a esta época de inimigos que se enterraram sen mandíbula, pelo mesmo facto anteriormente apontado.

Em relação aos deuses, nalgumas ocasiões representam-se com duas cabeças que olham opostamente, como sinal de influência no mundo dos vivos e no dos mortos.              
Por outra parte no mundo greco-latino empregavam-se as covas como meio de curação por parte dos pholarchos que permaneciam imóveis durante períodos prolongados á espera da chegada dos deuses. A chegada percebia-se como um zumbido relacionado com a serpe, símbolo iniciático e arquétipo do inconsciente colectivo mas esta curação, supunha a adquisição do conhecimento. Novamente entra em cena o estado alterado de consciência. Seria também neste âmbito cultural onde se realizariam os Mistérios de Eleusis. 
Inumeros estudos apontam ao emprego da cravagem do centeio a qual contém a dietilamida do ácido lisérgico(LSD). Com a chegada do cristianismo continuariam empregando-se enteógenos como sacramento, sendo substituídos pela hóstia e o vinho atuais na missa. Cumpre destacar que os priscilianistas foram acusados na sua época do emprego de psicotrópicos durante os ritos que realizavam nas arvoredas. Se é que Prisciliano bebeu de fontes druídicas, pode que os enteógenos empregados supusessem uma continuidade com respeito ao período anterior. A pesar da proibição por parte da igreja do emprego de enteógenos, assim como a perseguição do seu uso ritual, as práticas perpetuaram-se até hoje. Também o paganismo foi perseguido, como é obvio. Foi por isto quiçá, que o sacerdócio pagão ou druídico foi substituído pelo sacerdócio eclesiástico, mas isso não impediria que certas pessoas continuassem a praticar em certo sentido o xamanismo na Galiza. Como veremos no seguinte capítulo este fenômeno chegou até os nossos dias. Certas pessoas continuaram "xamanizando" em certo sentido até hoje e mesmo a visão xamánica deixou uma funda pegada nas crenças galegas...
 


Bibliografia:
"Los chamanismos a revisión" e "El hongo y la génesis de las culturas" de Josep M Fericgla
"Los chamanes" Piers Vitebsky
"El mundo de los druidas" Miranda J. Green
"Dios está en el cerebro" Matthew Alper
"El gen de dios"  Dean Hamer
"Los chamanes de la prehistoria" Jean Clottes e Lewis-Williams
"Dentro de la mente neolítica" David Pearce e Lewis-williams
"La mente en la caverna" David Lewis-Williams
"Arquetipos e inconsciente colectivo" Carl Jung
"Deuses,mitos e ritos do Monte do Seixo;unha interpretación en clave céltica" Rafa Quintía
"Petroglifos y paisaje social en la historia reciente del NO de la P.Ibérica" Manuel santos Estévez
Documentários de interesse;
Shamanism;Other worlds http://www.youtube.com/watch?v=wE0sDm5ba-4
DMT;La molécula espiritual http://www.youtube.com/watch?v=mOxhIGFj_gk
Del peyote al LSD;una odisea psicodélica http://www.youtube.com/watch?v=H0KDzTTz9zc
Piscotrópicos-Manifestando la mente http://www.youtube.com/watch?v=G2UoX8_ma7Y
Reportagens;
Carl Jung (sobre o inconsciente) http://www.youtube.com/watch?v=CtCI7VrlNuc

sábado, 16 de julho de 2011

A referência mais antiga da mítica Atlântida.



Por David Outeiro Fernández 

Segundo o paradigma atual, a escrita mais antiga  é a cuneiforme achada em tabelas e vasilhas de argila de Sumer que foram  datadas por C-14 num período compreendido entre o  3400 e o 3200 A.C. No entanto, há uma série de achados que precedem mesmo milénios a cronologia adjudicada as tabelas sumérias e que parecem mostrar signos de escrita. Estamos a falar de evidências da existência duma escrita na Europa que podemos remontar ao 7000.A.C. Mas o férreo dogma do paradigma dominante é reticente a aceitar a existência duma escrita anterior a estabelecida por ele. Isto provocou que as escritas anteriores às reconhecidas oficialmente permanecessem relegadas ao esquecimento. Além disto, segundo o paradigma atual, foram os fenícios quem introduziram a escrita na península ibérica, em troca, há evidências de que quiçá fossem os fenícios quem apreendessem a escrever na península. Tal hipótese é sustida pela Dr. Ana Maria Vázquez Hoys, á luz de inscrições achadas em sepulcros megalíticos de Huelva. Mesmo, investigações ainda mais polémicas falam na existência duma proto-escrita no paleolítico superior achado no contexto franco-cantábrico denominado ELA (Escritura Lineal Atlântica) por Georgeos Diaz-Montexano.

No que diz respeito à Galiza, há pouco tempo, pudemos ler a notícia duma serie de formidáveis descobertas no castro de Formigueiros. Entre os achados, encontrou-se uma possível inscrição da que se dava conta em alguns meios de informação afirmando que poderíamos estar perante a primeira escritura pré-romana achada na Nossa Terra. A escritura em questão foi achada num peça de lousa na que também se representava um peixe, aparentemente um salmão. Segundo Gonzalo Meijide, o diretor do projecto de escavação do castro, os carateres lembram os alfabetos ibéricos.



Voltemos agora ate começos do S XIX, data na que apareceu o misterioso e impressionante achado que apresento neste artigo. Parece ser que foi neste século, quando, nalgum lugar da Crunha que aparece registado como "Bancal" foi encontrado um osso datado em mais de 6000 anos que apresenta signos de escritura. O osso está na atualidade no Instituto de Paleografia e Filologia Histórica da Academia de Ciências e Letras de Noruega, em Oslo. Apesar da exclusividade deste achado, permaneceu todo este tempo esquecido e passando por coleções privadas até chegar finalmente ao seu destino atual. Não foi até o ano 2003 quando se produziu a sua maior divulgação por causa da obra de Michel Bouvier "L'Art de L'Écriture". Seguidamente, a peça foi objeto de estudo por parte de grandes especialistas já que a inscrição ainda não se tinha identificado. 



Foi em 2005 quando um investigador chamado Georgeos Diaz-Montexano susteve que a inscrição consistia em carateres íbero-tartéssicos. Mas, para além do surpreendente que resulta por si mesmo este achado, temos que acrescentar a maior surpresa que causou a sua transliteração. A hipótese actualmente aceitada pela instituição norueguesa foi a  achegada pelo Professor Diaz-Montexano relativamente à transliteração dos carateres. O resultado foi como "ATal Tarte" pondo-a em relação com a Atlántida-Tartessos. Estaríamos a falar de que há mais de 6000 anos alguém, na atual Galiza, escreveu num osso uns carateres relacionados com a mítica Atlântida que aparece nos textos de Platão, no Timeu e no Crítias. Segundo conta Platão na história da Atlântida, os habitantes deste lugar conheciam a escritura. Estrabo afirmaria posteriormente que os Turdetanos, descendentes dos Tartessos, conservavam a sua história e leis escritas numa gramática que se remonta a 6000 anos antes do seu tempo.



Também, segundo a hipótese defendida por Diaz-Montexano teríamos que pôr em relação a Tartessos com a Atlântida da que fala Platão. Uma hipótese similar, assim como a de que a Atlântida se situaria  na actual Doñana, foi proposta pelo National Geographic junto com a emissão dum documentário sobre o tema neste mês.

No que diz respeito à misteriosa inscrição, comenta Díaz-Montexano o seguinte; "...É impossível negar que esta palavra (ATal) é similar de mais á raiz indo-europeia “*At-l” que aparece no nome de Atlantis, que é uma forma adjetival de Atlas, enquanto que “Tarte” ajusta-se á raiz reconstruída pelos especialistas espanhóis sobre o antigo nome de Tartessos, que seria Tarte-, posto que o sufixo -ssos é de origem egeu ou greco-lídio e acrescentar-se-ia aos nomes de lugares, países ou cidades com o significado de "região", "comarca", "cidade" ou "país", como em Kno-ssos. A terminação em vogal -e da voz Tart-e, poderia corresponder a alguma desinência. É muito difícil assumir que isto seja somente uma simples casualidade. Esta inscrição, confirmaria a antiguidade das escrituras Íbero-Tartéssicas e Atlante (segundo Estrabo e Platão) por um lado, e por outro, confirmaria a identificação da Ilha/Península Atlantis ou "pais de Atlas" com a própria Ilha/Península de Ibéria, como afirma Platão ao dizer que uma região, comarca, distrito ou parte da mesma Ilha/Península Atlantis era chamada Gadeira (Cádiz, Espanha) e que esta mesma região se localizava nas Colunas de Hércules. Em qualquer caso, estamos perante a primeira e única evidência epigráfica achada no mundo, com uma inscrição cuja transcrição fonética se aproxima muito aos nomes de Atlas/Atla-ntis e Tarte-ssos, e que tem mais de 6000 anos de antiguidade..".

Estamos a falar, por tanto, e  possivelmente, da inscrição mais antiga do mundo em relação à Atlântida e que foi descoberta na Galiza, num osso de mais de 6000 anos de antiguidade. Fascinante, não é?

Referências:  
The Shoyen collection: 
http://www.schoyencollection.com/firstalpha2.html#5237-2
Artigos;
http://sicoplastica.blogspot.com/2008/04/la-atlntida-y-tartessos.html

http://www.phistoria.net/noticias-de-historia/La-Atlantida-y-Tartessos-Instituciones-cientificas-de-Noruega-reconocen-hipotesis-Iberica_96.html
http://www.abc.es/20110314/ciencia/abci-national-geographic-situa-atlantida-201103141731.html
http://my.opera.com/Georgeos-Diaz-Montexano/blog/?id=310801
http://www.youtube.com/watch?v=FyDEOuAO2OU
http://www.youtube.com/watch?v=7ThDZqJS4ZA

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Tipical Spanish e outras lindezas


Por José Manuel Barbosa.

Dentro de uns dias vai fazer um ano da proibição das touradas em Catalunha. As votações foram um exemplo democrático para essa histórica mentalidade hispânica intolerante com todo o que não seja “cañí” e que na maioria dos casos cria leis "ad hoc" para proibir aquilo que não partilha ou não percebe. Nesta altura só cabe parabenizar mais uma vez a Catalunha e lembrar que vai ser o 1 de janeiro de 2012 quando entre em vigor a proibição.

Os argumentos que se trabalharam naquela altura, como ainda se poderiam tratar agora foram fundamentalmente dous: o argumento humanitário e o argumento identitário. Do primeiro há pouco a dizer, porque todo o mundo sabe o que uma morte cruel com fins lúdicos supõe numa sociedade que se diz europeia e civilizada. Da segunda é comentar que bem sabemos o valor dos elementos identitários nos povos, mesmo aqueles elementos de crueldade como é neste. Na Espanha faz-se prioritária a identificação nacional sobre o humanitário e inclusivamente os inteletuais que noutros casos defenderiam a vida dum animal indefenso, neste caso defendem o simbolismo da tortura e a humilhação dum touro porque isso é sentido como muito espanhol.

Esse sentimento inclusivista  do nacionalismo espanhol de signo centralista e castelhano age procurando vínculos com aqueles outros povos ou nações que ainda dentro da Espanha lutam ou lutamos por outra identificação nacionalitária. É o caso de argumentar a origem mediterrânea da tauromaquia para defender o facto de ser tão catalã como espanhola com o fim de que a Catalunha não apresente traças nacionais diferentes do resto da Espanha. Suponho que quando se der o debate na Galiza, povo atlântico vinculado ao mundo céltico, não poderão defender essa mediterraneidade. Ou é que quiçá recorram à mentira como quando dizem que a cultura castreja tem a ver com o “Mare Nostrum” (para nós “Mare Suum”)?.

Lembro quando há um ano por estas datas havia debates em todas as TVs públicas e privadas sobre o assunto. Essa luta identitária de Catalunha versus Espanha era muito mais importante do que a problemática gerada pela crise económica que de forma natural nos faria estar pouco atentos a essa “fiesta” à qual se lhe põe o alcunho de “nacional” no Centro e no Sul peninsular incluindo-nos àqueles que nem somos mediterrâneos nem sentimos como tradicional esse tipo de atividade pseudo-desportiva .

Ainda nunca vi em qualquer meio de comunicação que se defendam com tanto ânimo e tanta força as chegas de bois da Baixa Lima as quais foram proibidas “pela sua crueldade” por um Poder Político galego que imediatamente trouxe “plazas” portáteis para passar-nos pelos narizes a prepotência suicida do seu complexado nacionalismo espanhol no que todos devemos estar incluídos queiramos ou não.

Se nos apurarmos mais, podemos falar também de elementos tradicionais que nos eliminam como é o caso do “modus operandi” na matança do porco. O galego matava por necessidade, para comer e duma forma determinada para poder sangrar o animal de jeito que a sua carne tivesse o sabor e a sanidade adequadas, o sangue fosse aproveitado para a cozinha e pudesse estar limpo e livre de toxinas, já que o seu movimento no momento em que se levava a cabo o corte na jugular favorecia a sua limpeza. Com a forma tradicional o sangue corria e era recolhido num caldeiro preparado para o caso sem ficar parado no corpo. No caso da matança ao modo agora obrigatório, o sangue parado nas veias e artérias absorve quantidade de elementos tóxicos hormonais provocados pela sua morte sem sangrado.

Eu não sei se é mais ou menos humanitária uma forma do que outra, mas se isso é o importante para a administração, porque não é que matam os touros com uma pistola no mesmo momento em que entra no “ruedo”? Será que o morbo e a crueldade que necessita o que vai a este tipo de espetáculos não estaria garantido? Quiçá o que quer o público espanhol é ver sofrer um animal indefenso, acosado e cheio de medo?

Outro elemento identitário galego que estão a destruir sem qualquer pudor  é a tradição do cozimento do polvo. Até agora fazia-se num caldeiro de cobre, mas uma legislação europeia que a Espanha não discutiu nem discute -como discute a legislação sobre o maltrato animal referida aos touros-, faz que o caldeiro seja agora doutro metal diferente “por razões de salubridade”. Depois de milénios cozendo o polvo em cobre vão-nos ensinar agora como é mais são e como é que o polvo tem mais sabor. Acrescentamos a isto, o tradicional prato de madeira, sei-que também “insalubre”, que vai deixar de ser legal para deixar passagem ao prato de plástico à venda nos hipermercados. Não se fala da falta de sensibilidade ecológica e ambientalista do novo material em relação à madeira pois o que realmente importa é o benefício que o fabricante de pratos de plástico vá ter.

Continuando com os touros, dizer que os filotaurinos arguiam em favor da sua “fiesta” que há um sector empresarial comprometido com ela, mas parece ser que não se lembra ninguém, nem galegos nem forasteiros, que aqui havia um sector ganadeiro tradicional e importante, que levava milénios em uso e também de grande futuro se o Estado Espanhol tivesse vontade de nos administrar e os votantes tivessem mais do que dous neurónios a trabalhar, que acabou quase totalmente eliminado por umas quotas lácteas impossíveis de suster pelos ganadeiros; também havia um sector pesqueiro que fazia da Espanha a terceira potência mundial em matéria de pesca e que foi também quase eliminado; há também na Galiza outros sectores empresariais pouco desenvolvidos, mal desenvolvidos ou sem desenvolver como a madeira ou o energético que não são atendidos ou são secundários para os interesses do Estado e parece que também para o próprio administrado que vota com ínfima seriedade. Vem-me também à cabeça o sector cultural e nomeadamente a língua que poderia ser um importante dinamizador da economia galega e tudo faz ver que não só o esquecem, mas que desejam que não se desenvolva para que não concorra com o seu castelhano. Como se fossem incompatíveis.

A minha ideia, proposta, portanto, é que reconvertam o sector taurino por ser economicamente de pouca importância para Espanha (ainda que lhes seja importante identitariamente). Para os galegos era muito mais importante economicamente o sector lácteo, o sector pesqueiro, o sector naval, o sector agrícola, o sector linguístico-cultural, o sector energético, e foram eliminados ou são obviados sem qualquer pudor por parte dos políticos com a conivência dos votantes absurdos e ignorantes; dos suicidas da Nossa Terra. Deixem livres os touros de lídia em parques naturais ou nacionais da geografia castelhano-andaluza e que o turismo se aproveite disso organizando safaris guiados por pessoal treinado para mostrar o “tipical spanish”. Que vivam, cresçam se reproduzam e morram em liberdade esses lindos espécimes de bovídeos ibéricos que diz que existem só para que o espanhol do comum desfrute ao ver como lhe metem um espeto pelas costas, ou no pior dos casos como um complexado macho humano recebe uma cornada de morte ali onde lhe doe só por reafirmar e demonstrar a sua virilidade com falso valor e com umas calças de talha muito menor das que usaria para andar pela rua com o fim de fazer ostensíveis aqueles signos de masculinidade que não se veriam doutro jeito.

domingo, 3 de julho de 2011

Pedagogia linguística inversa


Por Joám Evans Pim

(Academia Galega da Língua Portuguesa)

A psicologia inversa (ou reversa) é uma técnica paradoxal pela qual se encoraja uma crença ou comportamento oposta à desejada com o intuito de alcançar esta última. Este tipo de intervenção apoia-se no princípio da “reactância”, que prevê uma resposta negativa às imposições percebidas, resultando na adoção da conduta ou posição contrária. Trata-se de uma estratégia cognitiva muito recorrente com crianças, onde a reactância irreflexiva é maior. Ora bem, nem sempre funciona.

A história recente da língua portuguesa na Galiza pode ser vista como uma tentativa experimental de “pedagogia linguística inversa”, onde se assumiu aprioristicamente a condição infantiloide dos falantes da nossa língua na Galiza e da população do território em geral. Esta reflexão parte, claro está, da “pressuposição de inocência” dos artífices do grande campo de experimentação galego de pedagogia linguística inversa (desenvolvida sob as etiquetas de “normativización” e “normalización”), a quem não atribuiremos, de início, uma intencionalidade linguicida e etnicida oculta que, no entanto, é resultado patente do experimento iniciado faz já 30 anos.

Lembremos que em 1979 o governo pré-autonómico da Galiza estabelece uma Comissão Linguística sob a presidência do Professor Carvalho Calero. Esta Comissão elabora e apresenta em 1980 umas “Normas Ortográficas” que, sem rachar com boa parte da tradição gráfica anterior, deixam aberto caminho para uma progressiva aproximação ao sistema do ibero-românico ocidental no qual a língua da Galiza se insere. Em um verdadeiro golpe de estado interno, a Real Academia Gallega realiza, sob a pressão do seu presidente, o então Delegado do Governo espanhol García Sabell, e do Instituto de la Lengua Gallega, impulsionado sob os auspícios do novo governo autonómico, realiza uma reunião anti-estatutária em 3 de julho de 1982 na qual são aprovadas umas novas “Normas”. Estas pautas ortográficas foram elaboradas de forma secreta pelo Instituto de la Lengua Gallega estabelecendo uma linha claramente oposta à marcada dois anos antes pelos membros da Comissão presidida por Carvalho Calero.

As “Normas” isolacionistas ILG-RAG, que forçam uma separação artificiosa frente ao português através da aproximação com o espanhol, são impostas administrativamente por meio de um decreto ilegal do então Conselheiro de Cultura, o Sr. Filgueira, promulgado em 20 de abril de 1983 e impugnado no Parlamento pelo deputado Lopes Garrido. A lógica expressa desta manobra, em palavras de um dos seus promotores, Ramón Lorenzo, é: “No nos interesa una normativa para que nos entiendan en Angola, Mozambique o Brasil” (La Voz de Galicia, 4 de julho de 1982).

A justificação oficial dos “cientistas” da pedagogia linguística inversa (entre eles destacados membros do atual “establishment” universitário como Antón Santamarina ou o citado Ramón Lorenzo) foi a de que a melhor forma de consolidar a língua da Galiza frente à pressão aguda do espanhol era... assumir a ortografia do espanhol! Assim, as crianças (e galegos em geral) familiarizados com a ortografia espanhola não teriam capacidade cefálica suficiente para assimilar novas convenções (nh, lh, j, g, ç, ...) pelo que qualquer tentativa de aproximar a escrita emergente à de uma língua internacional de ciência, cultura e negócios seria “un esforzo antieconómico, diferencialista, abocado a non ter éxito nas condicións obxectivas -e non negativas- en que estamos” (palavras de Juan José Moralejo). Isto contrasta com a visão defendida publicamente antes da sua conversão ao “paradigma inverso” por pessoas como o próprio Lorenzo, que propunha que na Galiza se adotassem grafias como o nh, lh, g e j: “En Galicia somos moitos os que queremos esta xuntanza [das letras galegas às portuguesas]” (Vieiros, n.º 2, 1962). Esta coerência e “defensa del idioma gallego” foi reconhecida recentemente (26 de junho de 2011) com o Prémio Trasalba da Fundação Otero Pedrayo.

A lógica paradoxal da pedagogia linguística inversa assumia (e ainda assume) que para obter um resultado positivo (recuperar e dignificar a língua da Galiza após séculos de silenciamento, supostamente) a intervenção mais apropriada seria aplicar uma sugestão negativa (i.e., distanciar todo o possível o padrão oral e escrito da variedade internacional da língua, cultivada e bem implantada no estado nacional limítrofe, adotando, contrariamente, os critérios gráficos e fonéticos da língua de contato que vem erodindo a própria). Segundo as pretensões científicas dos laboratórios de experimentação inversos, em poucos anos a língua da Galiza teria recuperado o seu vigor social como língua isolada em feliz bilinguismo harmónico.

No entanto, quando se cumprem 30 anos do início da aplicação da pedagogia inversa no campo de experimentação galego, é possível verificar os resultados dramáticos que apontam para um autêntico linguicídio (intencionalmente planificado ou não), uma vez que o uso real -e cada vez mais corrompido- do português da Galiza entre as gerações jovens e as camadas urbanas está-se tornando um fenómeno minoritário. O fracasso é evidente se os objetivos públicos eram honestos. O experimento deve parar.

É necessário substituir a lógica perversa e macabra da pedagogia inversa por uma pedagogia racional e de utilidade para a língua da Galiza. Não se trata já de aplicar os critérios científicos da romanística adotando uma ortografia coerente com o lugar que uma língua ocupa dentro de um sistema, mas apenas o critério do sentido comum. Este processo não precisa ser traumático. Não se pedirão as cabeças dos “mengeles” galegos.

A ortografia comum, ratificada no Acordo Ortográfico, deve ser introduzida gradualmente nos programas escolares em andamento e desde o início nas novas incorporações escolares. Professores e alunos são suficientemente inteligentes para assimilar rapidamente as diferenças. Com uma fração dos recursos de “política linguística” jogados ao lixo nas últimas décadas financiando meios de comunicação hostis à língua ou desenvolvendo campanhas publicitárias absurdas seria possível aumentar o corpo já existente de docentes bem treinados incorporando novos profissionais que poderiam atuar com uma pedagogia eficaz e inovadora no ensino, na administração, nos meios de comunicação, etc.

A Galiza seria bem acolhida e usufruiria o que o universo extenso e útil da nossa língua tem para oferecer: literatura, manuais científicos, cinema, música, televisão, rádio, ... facilmente introduzíveis em nosso território graças às novas tecnologias. Conscientizados, os falantes da língua da Galiza estariam prontos para assumir as vantagens competitivas que esta ferramenta proporciona no âmbito emergente da Lusofonia, abrindo oportunidades de trabalho e negócios com países como o Brasil, Angola, Timor ou a China.

http://www.pglingua.org/opiniom/artigos-por-data/3640-pedagogia-linguistica-inversa

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Liberdade ou Legalidade?





Por José Manuel Barbosa
Faziam uma entrevista aos candidatos à presidência da Câmara Municipal pela cidade da Crunha num programa duma TV privada. Eram perguntas simples que deviam ser respondidas em poucos segundos com agilidade e com convencimento. Nelas o público poderia ver e sentir a energia e o espírito de cada um dos candidatos ao se defenderem dialeticamente do bombardeio que se lhes apresentava.

Como o meu labor, ou pelo menos um deles, é o meu compromisso militante com a língua deste meu País, reparei especialmente  numa das perguntas que levava uma importante dose de intencionalidade, nestes últimos tempos em que o apuro por estragar a nossa língua por parte dos poderes públicos é especialmente incisivo, teimoso, malvado e regressivo. A pergunta em questão era: “A Coruña ou La Coruña?”

A resposta de cada um dos candidatos foi diretamente proporcional à capacidade de mobilização do eleitorado usando como instrumento o saber penetrar na mente dos eleitores com maior ou menor dose de demagogia e de encanto formal.

O candidato do PSOE respondeu: “Las dos”; o candidato do PP disse: “La libertad” mas o candidato do BNG (Bloco Nacionalista Galego) saiu com um...: “A Coruña, porque o di a legalidade que ......” e recorrendo a um discurso que o levou a ultrapassar os cinco segundos estipulados para cada candidato em cada resposta acabou perdendo-se na explicação.

Como podemos ver, e sempre falando desde o meu critério subjetivo, a resposta do candidato do Bloco foi a menos eficaz, já que a lei é a cousa menos popular de todas, a qual pode ser mesmo trocada amanhã. Esse critério legal que hoje se expõe, amanhã pode voltar-se à contra pois com só dous ou três movimentos legais a situação do Bloco poderia passar de “defender” essa precária legalidade a fazer que se tivesse que posicionar à contra.

Por outro lado considero muito pobre contrapor a "legalidade" à ideia de “liberdade” exposta pelos outros dous candidatos. Ideia esta, a da Liberdade, que ainda vazia de conteúdo em muitos casos, enche bocas e ouvidos de qualquer votante pouco maduro, como na realidade é qualquer eleitor do nosso País neste momento da história.

Eu quereria ter visto outra atitude mais convencida, mais poderosa e sobretudo uma atitude que soubesse ganhar o voto com uma frase que superasse a demagogia e o populismo totalmente desprovido de conteúdo dos outros dous candidatos, mas estou totalmente certo de que a debilidade desse conceito de “língua galega” defendido pelo Bloco desde há décadas se corresponde com a sua falta de imaginação para fazer que a nossa língua seja vista pela nossa sociedade como um ativo espiritual, material, inteletual, empresarial, económico, social e político de peso, impossível de apagar e anular, mesmo por aqueles que quereriam a sua total e absoluta desaparição.

Como eu sou uma pessoa convencida de que a língua é algo prioritário, importante, para mim elemento gerador de riqueza, mesmo económica, fiquei tão desiludido por essa resposta do candidato bloqueiro como se me dissesse que preferia a forma “La Coruña”.

Só vendo nessa formação política uma teima sobre um conceito do galego vazio de valor e conteúdo, seguidista da política linguística que está levando à nossa língua à desaparição podemos dar resposta a essa constante perda de apoio que o Bloco vai tendo cada vez que há eleições.

A obsessão de, realmente, introduzir a língua por que sim, porque é “progre”, em vez de expor argumentos que o façam atrativa ao votante, faz que à vontade desgaleguizadora do poder se veja ajudada pela ignorância de como mantê-la como elemento de união e de interesse para todos os galegos.

Como eu sou uma pessoa convencida do potencial da nossa língua e ouço, como ouvi, essa resposta, fico pensando que o Bloco como formação política é incapaz de fazer da nossa língua o eixo vertebrador desta nação chamada Galiza.

Gostaria que à pergunta: “A Coruña ou La Coruña?" tivesse uma resposta como: “A inteligência” ou “A riqueza”, ou “A razão”, ou “ A identidade”... que pudesse contrapesar o poder do demagógico de “La Libertad” ou “Las dos” manifestado por quem realmente quer que desapareça a nossa língua do mapa da Galiza.


E finalmente, que fique dito, que hoje falamos da pouca agilidade, pouca imaginação, pouca força, pouca inteligência e pouco espírito dos bloqueiros...mas amanhã falaremos de se nós preferirmos “A Coruña” ou “Crunha”. Que essa é outra.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Tem pátria o capital???

 Por José Manuel Barbosa

Atribui-se ao liberalismo o axioma que diz “o capital não tem pátria” mas há vezes em que tenho muitas dúvidas disso. O que fez crescer o mundo ocidental desde o século XV foi, com certeza, a liberdade económica e aproveitar tudo aquilo que tivesse valor para fazer prosperar os povos e as pessoas, mas...
Perguntar-se-á o leitor... e a que vem esta reflexão? 
Dir-vos-ei:

Quando uma pessoa que se diz de pensamento liberal e se acredita inteligente, tem a pouca vergonha de dizer que a existência de quatro línguas no senado é motivo de preocupação pelo gasto económico e porque estamos numa crise importante que nos pode levar à falência, acabo perguntando-me se o pessoal está neste mundo por ver passar as horas o é que acredita na quadratura do círculo.

Conta-se-nos que o galeguismo é ideologia. O estado neutro e ideal por desprovido de carga ideológica é viver em castelhano. O galeguismo é de pailães ou de “bloqueiros” ou no melhor dos casos de “culturetas” que professam o “freakismo” militante. Isso é como nos educam os poderes neste nosso País. Há gente “inteligente” que assume esse pensamento com toda a inchação de peito e com toda a vaidade de quem se pensa na posse da verdade absoluta revelada pelas mais altas instâncias celestiais. A essa gente parece não poder-se-lhe levar a contrária porque acabam qualificando a um de qualquer cousa menos de bonito. Isto não ajuda muito ao debate porque acabamos o assunto de tal jeito que é um que contradiz o que é o radical ou anormal e não ao invés.

O mais surpreendente para mim é que esse estúpido pensamento é defendido muitas vezes, não por pessoal humilde e iletrado (que também! dito seja de passagem) mas por gente que passou pela universidade, tem uma boa cultura aparente e se mexe pelo mundo com certa agilidade. É essa gente que diz que lhe impõem o galego cantando como ararás o mantra repetido até o cansaço pelo cavernarismo filomadrileno.

Como é que não temos consciência de que qualquer língua é mais um recurso económico? Uma língua é em muitos casos uma variável das diferenças salariais e sociais, pode ser base para o comércio e a transação dentro duma região pequena ou mesmo entre países afastados por oceanos. A língua, toda língua, é uma industria e como tal contribui ao PIB dum país por muito pouco que seja e por muito pequena que seja a língua, mas sempre gera riqueza.

As línguas geram milhões de euros e milhões de postos de trabalho. Se essas línguas são línguas francas ou usadas em vários países, esses milhões podem se multiplicar, como também os seus  PIBs e o número de postos de trabalho gerado por elas.

Se nos dermos uma volta pelas utilidades duma língua veremos que as possibilidades são infinitas porque desde o ensino que é um traspasso de informação, em princípio básica, mas com o tempo acaba tornando-se científica, técnica, económica, jurídica, política, psicológica, jornalística, etc... passando pela utilidade para as empresas de correios, telecomunicações com o seu mundo informático tão presente na vida do ser humano hoje, a publicidade, recursos de empresa, finanças, matérias primas, espírito empreendedor, turismo (gente que vem para apreender o idioma...), cultura e património, negócios, peso político internacional... Tudo isto são só algumas das muitas possibilidades que se me ocorrem para uma língua.

Algumas línguas são transmissoras mesmo de cultura ideológica, como o russo (Lenine, Bakunin, Kropotkin...), ou o castelhano (autores cubanos, nicaraguanos ou venezuelanos ...), língua da ciência (os matemáticos russos dão aulas aos chineses porque a língua chinesa tem limitações ao respeito...), língua franca (dos países ex-soviéticos entre eles), língua de negócios como o português (Petrobrás...), inglês (Ford...), castelhano (Repsol...), francês (Citröen...), alemão (Volkswagen...), etc...

Repare o leitor que qualquer língua pode gerar riqueza em todo o caso. Qualquer uma. Grande ou pequena, cada uma em função do seu valor nacional e/ou internacional sempre ela terá um forte conteúdo económico. A comunicação linguística é um mercado e ainda um formador de mercados de bens e serviços salientando no mundo de hoje a publicidade, tanto a informativa como a persuasiva. As línguas influem nos custos de produção das empresas gerando custos de informação e influindo de forma determinante na demanda dos produtos de consumo e nos próprios preços dum produto.


Tudo partindo da ideia de que  uma língua não tem custos de produção já que ela é criada através dos séculos e durante a história pelo povo que não investe dinheiro na sua conformação; os seus recursos são inesgotáveis como o mar, o oxigénio e não pertence a nenhum magnate poderoso nem a grupos de pressão ou de contestação. A língua valoriza-se mais quantos mais utentes tem, daí o bom investimento que supõe qualquer processo de normalização e multiplicação dos seus falantes. Aliás é um bem que não se pode nacionalizar porque já está nacionalizada e é impossível privatizá-la pois a sua função é permitir a comunicação entre as pessoas e reduzir por isso os custos de qualquer transação, daí também a bondade do plurilinguísmo contrário à ideia monolinguísta da Espanha castelhana, tanto interiormente como exteriormente.

E o melhor de tudo isto do que falamos é que os galegos temos uma variante linguística reconhecida por todos os linguistas -menos os pagados pela “Xunta”-, como uma variante duma das línguas mais sucedidas da humanidade. A quinta em número de falantes, a terceira europeia e a segunda latina, com um país de referência como o Brasil como potência emergente e de futuro. Essa língua nasceu no nosso País e foi levada pelo mundo nas descobertas portuguesas. Rechaçar, odiar ou simplesmente não querê-la é tão absurdo como rechaçar o pão em horas de fome ou a água no deserto. Simplesmente absurdo. Esta nossa língua que nós conhecemos com o nome de galego e no mundo é conhecida como português gera o 17 ou o 18% do PIB de Portugal, entre o 13 e o 17% do PIB do Brasil em alça e o 3% do PIB mundial.

É essa “Xunta de Galicia” governada quase eternamente por um mesmo poder político desde há mais de 30 anos a que leva à morte a língua dos galegos com uma política linguística "elaboracionista" e quase monolítica desde os anos 80, que tem como resultado a progressiva extinção da nossa língua seguindo uma metodologia etapista e letal cada vez que o povo galego introduz um papel de voto favorável  ao "statu quo". Esse poder político retroalimentado com a ignorância e a ignomínia faz que se perpetue o problema e a necrose “ad eternum” para completar a solução final por eles desejada.

Se eu acreditasse que o poder galego existente desde 1981 fosse bem intencionado e com um perfil liberal como é o que vende, pensaria que como o capital não tem pátria existiria a possibilidade de ver como a nossa língua teria futuro e o nosso povo também, beneficiado pela condição de língua extensa e útil. Mas o facto de que estejam dispostos a tratar a língua dos galegos como a tratam, dá-me a pensar que estão a deitar pela janela milhões e milhões de euros, muitíssimos postos de trabalho e muitíssimas hipóteses de criação de empresas e de negócios; dá-me que pensar que o seu intervencionismo e a sua irresponsabilidade não fazem esse poder galego um poder liberal que pense na criação de riqueza, por isso ou é que não são muito inteligentes, hipótese na que não acredito, ou é que a perfídia malvada com a que nos tiram a vida, a dignidade, a prosperidade e nos fazem passar por parvos no-los revela como autênticos lobos com pele de ovelha e depredadores que sim têm claro qual a sua pátria e qual a nossa. Em todo caso pátrias diferentes ainda que nos façam pensar que é a mesma. Porque...vamo-nos parar a pensar: Só a um ignorante se lhe ocorreria dizer que investir dinheiro na nossa língua é um gasto; só a um férrido e duro se lhe ocorreria desvalorizá-la; só a um imbecil e obscuro se lhe ocorreria levar uma política linguística que derivasse na desaparição duma fonte de riqueza tão absoluta e só se lhe ocorreria queixar-se de que lhe impõem o galego a um que não entende, não.

Por todo isto e por muito mais acredito em que para eles o capital sim tem pátria...e essa pátria parece não ser a nossa.



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