segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Entrevista ao Professor Doutor Anselmo Lopez Carreira




Equipa do DTS
Câmara: José Goris
Apresentação: José Manuel Barbosa

Entrevistado



Bibliografia de Anselmo Lopez Carreira

Ensaio

Edicións

  • Libro de notas de Álvaro Afonso: Ourense, 1434, 2001, Consello da Cultura Galega. 2ª edición en 2005.

Obras colectivas

  • Historia de Galicia, 1979, AN-PG.
  • Historia de Galicia, 1992, A Nosa Terra.
  • Historia Xeral de Galicia. 1997, A Nosa Terra.
  • Da terra de Lemos ao Reino de Galicia, en colaboración con Sabela López Pato (2009), Xunta de Galicia.
  • Marcos Valcárcel. O valor da xenerosidade (2009), Difusora.









segunda-feira, 28 de julho de 2014

A história de Anibal Milhais, o Soldado Milhões, herói português da Grande Guerra.


Rui Vaz no Lago de Genebra, Suíça. Cidade onde foram assinados tratados importantes sobre os direitos humanos e regras da guerra (Convenções de Genebra)
Por Rui Vaz

Faz hoje 100 anos desde que começou a Primeira Guerra Mundial. Esta data marca o inicio da "Guerra Total", com o belicismo e perda de vida inerente a este conceito. Embora o "click" tenha sido o assassinato de Franz Ferdinand, esta foi sobretudo uma guerra entre impérios. Uma disputa por território e recursos no Médio Oriente e em África.
Apesar de se ter iniciado em 1914, Portugal apenas entrou em 1916 após uma declaração de guerra por parte do Império Alemão. A jovem República Portuguesa decidiu que Portugal deveria tomar uma posição de cooperação com o Império Britânico, sendo que esta declaração foi o resultado de confrontos em África e surgiu quando Portugal apreendeu navios alemães estacionados nas colónias portuguesas. As principais colónias portuguesas, Angola e Moçambique, eram bastante cobiçadas e, o Império Alemão e Britânico, chegaram a sentar-se à mesa para discutir a divisão destas colónias entre os dois impérios antes da guerra ter começado. Precisamente por este motivo é que Portugal quis marcar a sua posição de defesa das suas colónias.
Portugal era um país pobre e não-industrializado, sem capacidade de competir a nível bélico ou tecnológico com o império britânico ou alemão. Portugal decidiu então alinhar com os ingleses contra os alemães. Esta posição de cooperação com os ingleses acabou por ser um paradoxo. Para aqueles que não sabem, a República Portuguesa nasceu num período de crise de regime e de disputas coloniais entre o Império português e Britânico (Mapa Cor-de-Rosa). Os ingleses fizeram um ultimato e o Rei D. Carlos cedeu, sendo que os republicanos acusavam o rei, entre outras coisas, de ser anti-patriota e subserviente aos interesses dos ingleses. Foi com a República que surgiu uma vaga de patriotismo e se começou a festejar o 10 de Junho - Dia de Portugal e de Camões. Em 1908, o rei e o seu filho mais velho acabaram mortos no Regicídio e a República foi implantada a 5 de Outubro de 1910.
Portugal tinha instruções dos ingleses para não entrar na guerra e, após a declaração de guerra da Alemanha, Portugal teve então que treinar soldados para o conflito à pressa, num processo que ficou conhecido como "milagre de Tancos". Foram enviadas tropas para África e para França. Em África, Portugal gozava de mais autonomia, sendo que morreram muitos mais em África do que na Europa. Entre outros erros de Portugal, um foi com a comida levada para África, nomeadamente o bacalhau que, como se sabe, era preciso ser lavado, demolhado e no final ainda dava sede. Ora, sendo a água escassa em África, muitos morreram desidratados, à fome e doentes.
Na Europa era tudo fornecido pelos ingleses, desde o transporte de barco para França, material de guerra e comida. Não houve tanta fome mas, as condições nas trincheiras eram péssimas, a comida sabia mal e era em pouca quantidade, as doenças devido à falta de higiene, a guerra química com utilização de gases, etc. A moral do exército era muito baixa e houve situações de insubordinação e deserção. Na batalha de La Lys os alemães atacaram com superioridade e o CEP (Corpo Expedicionário Português) perdeu mais de 7000 homens entre mortos e prisioneiros. Portugal teve a sorte de estar do lado dos vencedores apesar de ter perdido a maioria das batalhas em que participou.
 
No meio disto tudo, nem tudo foi para esquecer. Houve um soldado que se destacou pela positiva - Aníbal Augusto Milhais. Nascido e morrido nas terras galaicas de Murça, Vila Real, a sua bravura ficou registada na história pelas suas acções na Batalha de La Lys. Após o sucesso da ofensiva alemã contra as tropas portuguesas, Aníbal Milhais ficou sozinho a vaguear pela frente de batalha e conseguiu aguentar várias ofensivas alemãs com a ajuda de uma metralhadora Lewis.
Foto feita em 1961 na Rua do Tabolado de Chaves. O autor da foto é o famoso José Correia "Lombudo". Esta foto foi-nos cedida por Humberto Serra que à sua vez lhe foi cedida pelo neto do Fotógrafo, José Lopes, que é o miúdo que está à esquerda do nosso protagonista e à nossa direita. Obrigado a Humberto Serra e José Correia. Abençoes.
Enquanto esteve sozinho na frente, resgatou um oficial escocês (solidariedade celta?) e conseguiu voltar com vida para território aliado. Foi condecorado com a Torre e Espada e ficou conhecido como o "soldado milhões" pois o seu comandante a dada altura lhe disse: "Tu és Milhais mas vales milhões".

domingo, 27 de julho de 2014

Sobre o Natalício de Jesus de Nazaré




Por José Manuel Barbosa

As datas do Natal são as festas nas que o Cristianismo comemora o nascimento do seu fundador. Jesus de Nazaré, nascido segundo a oficialidade católica a noite do 24 para o 25 de Dezembro, 2015 anos atrás.
Mas a data do nascimento de Jesus é discutida por muitos historiadores e mesmo dentro do próprio cristianismo há posicionamentos diferentes entre os que salientamos a ortodoxia oriental e o cristianismo arménio que mantêm o dia 6 de Janeiro como data em questão.
Para chegarem os cristãos à uma conclusão como esta houve que passar-se por muitas investigações, sobre tudo por aquelas nas que o dogma ainda não estava consolidado tendo em conta que antes do século IV não era este tema o mais importante de todos nos que se debatia a igreja.

Pela terceira centúria da nossa era, momento em que o cristianismo começava a adquirir certo poder social no Império Romano, chegaram-se a propor diferentes datas, todas elas tendo por base os Evangelhos: O 6 de maio, o 10 de maio, o 20 de maio, 25 de maio, proposto este com alguns razoamentos lógicos por Clemente de Alexandria, o 25 de março, o 15 de abril, o 20 de abril, o 25 de abril, outubro, dezembro, janeiro.... Mesmo, uma vez consolidadas as igrejas orientais, os arménios adaptaram sincreticamente costumes autótones e decidiram que a data devia ser o 8 de janeiro.
A proliferação de datas fez com que os Papas se cansassem de tantas elucubrações inúteis até que finalmente o Papa São Fabiano proibiu continuar especulando no que diz respeito, tanto mais quanto que a maioria dos investigadores cristãos optavam por datas de começo do inverno por razões políticas, enquanto São Lucas no seu Evangelho (Lc. 2,8) afirmava:

“Havia uns pastores por aquela mesma região que passavam a noite ao ar, vigiando por turno o seu rebanho...”

Nesta citação na que se narra a anunciação do nascimento de Jesus aos pastores fala-se de que dormiam baixo o céu, o que não poderiam fazer nos meses do começo do inverno, justo quando mais frio faz na Palestina, país mediterrâneo mas que não se livra do inverno que pode moderar-se a finais de fevereiro e começos de março.
A Palestina nos tempos dos Herodes
Ao final, havia mais de 130 datas diferentes e todas elas mais ou menos válidas. Isto fez com que no Concílio de Niceia propõe-se o que mais tarde aceitariam os Papas Júlio I e Libério, que foi a consideração da data do 24 e 25 de dezembro como data chave, justo quando os romanos celebravam o Natalis Solis Invictis e os cristãos não puderam sincretizar. Alguns autores afirmam que anos atrás, quando as perseguições de Diocleciano, Décio e Valério Valente os cristãos faziam as suas festas nessas datas porque passavam mais desapercebidas no meio da festa pagã enquanto se a celebrarem em qualquer outro momento com certeza chamariam a atenção das autoridades romanas que não veriam o momento para prenderem e prepararem os alimentos dosleões e outras feras ou os objetos de lazer dum povo que além de pão também queria circo, sangrento, se pudesse ser.

A data do 24-25 de dezembro foi considerada como arbitrária por muitos mas perante a desinformação sobre tal evento, os Papas decidiram também esta data, além de por razoes estratégias, por ser esse dia, o 25 de dezembro, três dias depois do Solstício que marca, segundo as mitologias da época, o renascimento da Luz entre as trevas, o dia no que nasceram os deuses da maioria dos deuses das diferentes religiões europeias e asiáticas: Nasciam nestas datas os deuses solares mais importantes de todas as crenças da época: caldeus, egípcios, sírios, fenícios, celtas... Eram as festas Dionisíacas para os gregos, as Saturnálias romanas, dentro das quais estava a celebração do nascimento do Sol da que falamos acima do Natalis Solis Invictis mas também Horus, Mitra, Krishna, etc... A maior parte dos povos celebravam o mesmo evento festivo de nascimento dum grande e importante Deus...mesmo foi que os espanhóis quando chegaram a América muitos séculos depois acharam com que os aztecas celebravam também nessas datas o nascimento do deus Huitzilopochtil com o qual a sincretização foi possível e relativamente fácil para os sacerdotes castelhanos.

Esta coincidência aparentemente ilógica explica-se por ser a religião naturalista de culto aos fenómenos naturais a crença mais comum entre todos os povos desde o que o ser humano tem consciência da existência de algo superior que o transcende. É lógico, portanto, a coincidência entre mesopotâmicos, hindus, europeus, norte-africanos e povos americanos, como também o é com os povos da Oceânia e ainda outros povos afastados do mundo europeu.
Anos mais tarde da determinação do dia 24-25 de dezembro como data do nascimento de Jesus, o Papa João I teve a tentação de investigar mais profundamente sobre a realidade do tema que estamos a tratar, ando o trabalho de averiguar algo que pudesse suster-se com um mínimo de lógica a Dionysius Exiguus o qual reafirmou a data da noite de 24-25 de dezembro do ano 754, ano da fundação de Roma, ficando consolidada dai em adiante nestas épocas medievais caraterizadas pela aceitação cega e dogmática de toda afirmação proveniente da hierarquia eclesiástica romana.
Dionisyus Exiguus
Foi, evidentemente no Renascimento, quando as mentes humanas retomaram aquele tema tão antigo embora tao pouco tratado até aqueles momentos. Pensar não era o que aconselhavam os poderes políticos e religiosos, por isso, quando se voltou ao assunto da data do nascimento de Jesus, Joseph Justus Scaliger foi quem propus o nascimento em setembro ou outubro.
Joseph Justus Scaliger
Johannes Kepler, algo mais tarde, afirmou que Jesus de Nazaré deveu nascer no momento em que se produziu uma grande conjunção planetária, a chamada por ele “Coniunctio Magna” que se repete muito raramente e que seria o que passou à História como a “Estrela de Belém” que não era outra cousas do que um grande “Stellium” acontecido em março do ano 7 antes de Cristo (desculpando o paradoxo). A palavra “estrela” é uma má tradução da forma latina “Stellium” que designa em linguagem astronómico-astrológica própria das épocas das que estamos a tratar uma Conjunção planetária, quer dizer, a confluência no mesmo lugar do céu de vários corpos planetares que somando a sua luminosidade apareceriam sobre as cabeças terrestres como uma grande e chamativa luminescência que daria a impressão duma grande estrela a indicar um lugar especial.

Mais afirmações chegariam-nos a dizer que a estrela de Belém poderia ser um cometa embora o que parece ter passado por aquelas épocas seria o CometaHalley, no ano -11 a. C. Se nos cingirmos ao que diz São Lucas e São Mateus...:

“Depois de nascer Jesus em Belém de Judeia, e tempos do rei Herodes...” 

Vemos que Herodes o Grande governava o país quando nasceu Jesus mas também sabemos que morreu no ano -4 a. C com o que já temos um limite cronológico. O outro limite podemo-lo achar em (Lc. 2,1):

“Aconteceu, que por aqueles dias saiu um decreto de César Augusto para que se fizesse um censo do mundo inteiro. Este primeiro censo teve lugar no tempo em que Quirino era governador de Síria e todos e cada um dos súbditos do império deviam empadroar-se na sua cidade.
Também o José, por ser da casa e da família de David, subiu desde Galileia, da cidade de Nazaré até Judeia, terra de David, onde fica a cidade de Belém para se inscreverem no censo com a Maria, a sua mulher que estava grávida. Enquanto estava ali, chegou-lhe a ela o tempo do parto e teve o seu filho primogénito ao qual envolveu nuns cueiros e deitou numa manjedoura por não haver lugar para eles na pousada”.
Além de mais, poderia ser que o antes dito “Stellium” quisesse ser visto “in situ” pelos “científicos” da época, isto é, pelos astrónomos-astrólogos de Mesopotâmia, berço e paraíso da astrologia, que seriam as três figuras dos Reis.... Magos, segundo a terminologia mais conhecida e talvez mais adequada, os quais sabiam que sob o céu de Palestina ia acontecer a famosa Conjunção da que falamos.

Estrela de Belém
Anos mais tarde, já no século II d. C Santo Inácio de Antioquia na sua Epístola aos Efésios diz:

“A luz da estrela (Stellium???) superava qualquer outra cousa, o seu brilho era insuperável e a sua novidade fazia com que quem a observasse ficasse mudo pelo arroubo. O sol e a lua e outros astros formavam coro da estrela (Stellium???)”.
Morte de Santo Inácio de Antioquia
Fizemos pessoalmente o esforço de investigarmos a posição dos astros seguindo as ancestrais técnicas da astrologia e vimos que no mês de março do ano -7 a. C, justo no dia primeiro de março, salvando as adaptações do calendário que houve que fazer por causa das diferenças entre o calendário Juliano e o calendário gregoriano pelo que nos gerimos e podemos garantir com pouco margem de erro que esse dia e esse mês e esse ano havia no céu uma Conjunção no de Júpiter com Úrano (este último não visível nem, que saibamos, conhecido na altura) por um lado; Vénus e Saturno por outro ao lado da anterior; e também uma outra Conjunção da Lua e Mercúrio. Todas estas Conjunções estaria próximas as umas as outras fazendo um grande Stellium ou "Coniutio Magna". Sete planetas implicados no Stellium...  O mais provável é que o nascimento se produzisse justo pouco antes, durante e justo pouco depois da Alvorada, momento justo em que a visibilidade da luminescência provocada por esses planetas em Conjunção pudesse ser possível. Pela noite não se poderia ver por ficar baixo o horizonte, e pelo dia não se veria pela luminosidade do Sol. O Sol e a Lua veriam-se como o “coro do Stellium” e a conjunção entre ambos os luminares seria quase perfeita.

A modo de conclusão teremos que dizer que ao final não importa tanto o dia do nascimento do Jesus de Nazaré como também não importa o de Buda, Maomé, Mitra, Moisés, Zoroastro, ou outros... O que realmente importa é a mensagem deste grande personagem da História da humanidade que achegou ao ser humano as suas ideias de paz, de amor e de fraternidade base para uma convivência humana em harmonia. Não importa o facto de ser o 24-25 de dezembro uma data posta a conveniência por umas hierarquias poderosas; o importante é o espírito das datas. Os presentes, as refeições familiares, os convites, a solidariedade com os mais desfavorecidos, os dias feriados, etc... todo isso já era costume entre os povos da antiguidade, quer fossem romanos com as suas Saturnálias, os gregos com a chegada do vinho novo em honra a Baco, os nosso antepassados celtas com o nascimento de Lugh nos que os rituais druídicos vivem ainda hoje em uma Europa que tem como costume o visco de ano novo.... Simplesmente o cristianismo adaptou o que já existia com o fim de penetrar e expansionar-se nas sociedades tardo-romanas para impor uns parâmetros morais e políticos que ainda estão presentes....ainda que não se pratiquem.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Roteiros de Verão em apoio à AGLP: 1º Roteiro às Pedras de Anumão



Equipa do DTS:

1- Roteiro a Anumão
2- Roteiro pela Baixa Lima.
3-Roteiro pelo Ourense Histórico.
4- Roteiro por Ponte Vedra (dúvidoso e em estudo)

Organização do primeiro Roteiro a Anumão: 19 de Julho, Sábado.

11:00 (10:00 Hora Portuguesa): Concentração na Terra Chã, capital do Concelho de Entrimo ao pé da Igreja de Santa Maria Mãe. Ali há onde aguardar pelos demais com o carro bem arrumado. Alguns carros deverão ficar ali. Outros vão-nos servir para levar à gente até Quéguas.
Igreja de Santa Maria Mãe. Justo frente ao Colégio da Vila.
11:15 (10:15 HP): Saída de carro até Quéguas.
Quéguas
11:30 (10:30 HP): Chegada a Quéguas. Saída a pé até a Anta de Anumão passando pelas palhoças das Cortes da Carvalheira.
Palhoças das Cortes da Carvalheira.
12:30 (11:30 HP): Chegada a Anta. Ali assistimos à conversa por parte de Joam Evans Pim, antropólogo e (Pedro Teixeira ???)
A casa da Moura ou Anta de Anumão
13:30 (12:30 HP): Voltamos a Quéguas para apanharmos os carros e partirmos para a localidade de Numão em Castro Leboreiro onde deixamos novamente os carros.
Ponte Medieval do Castro Leboreiro
14:00 (13:00 HP): Saímos a pé para a capela de Numão. Chegados ali podemos sentar-nos nas mesas de pedra que há ali para comer. Ouvimos a explicação de Joam Evans Pim, Antropólogo e (Pedro Teixeira ???) sobre a pedra ritual que há ao lado da capela e da escada com as rosáceas esculpidas na pedra das escadas.
Pedra Ritual com escada e rosácea ao pé do peito de Anu. Ao fundo as mesas para os visitantes descansarem. A foto está feita aproximadamente desde as dependências da Capela.

16:00 (15:00 HP): Voltamos para apanhar novamente os carros e voltarmos para a Terra Chã de Entrimo.

17:00 (16:00 HP) Paramos num bar da localidade para tomarmos algo. Há a possibilidade de irmos até o Rio Pacim, pertinho dali para tomarmos um pequeno banho.
No Rio Pacim de Entrimo.
Os roteiros deste verão terão a particularidade de que se fazem em apoio da AGLP (Academia Galega da Língua Portuguesa) portanto todos eles terão preço. Os dinheiro será depositado na íntegra nas contas da Fundação da Academia Galega da Língua Portuguesa.

Preços:
Um roteiro: 10 Euros
Dous roteiros: 18 Euros pelos dous
Três roteiros: 20 Euros pelos três
Quatro roteiros: 22 Euros pelos quatro.

Os que vierem a só um dos quatro roteiros paga 10 euros
Quem vier a dous dos quatro roteiros paga 10 pelo primeiro e 8 pelo segundo (total 18)
Quem vier a três dos quatro roteiros paga 10 pelo primeiro, 8 pelo segundo e 2 pelo terceiro (total 20 euros)
Quem vier aos quatro paga 10 pelo primeiro, 8 pelo segundo, 2 pelo terceiro e 2 pelo quarto. (total 22 euros)

COMO A ATIVIDADE É EM APOIO DA ACADEMIA GALEGA DA LÍNGUA PORTUGUESA, O DTS VAI SER O PRIMEIRO EM PAGAR OS 22 EUROS POR PESSOA QUE JUNTO COM OS OUTROS DINHEIROS QUE SE ARRECADEM SERÃO INGRESSADOS NAS CONTAS DA FUNDAÇÃO DA AGLP.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

O que foi das jãs? (jã, antarujã, antarujaira, jaira, jarela, *jairo, -a)



Por Higino Martins Estêvez
Sabe-se que Diana deu o vulgar Jana, do que vêm muitas formas românicas. Nisso passou de grã deusa da natureza virgem e animais selvagens a “fada noturna” (Du Cange), “fada das fontes” (NO ibéri­co), “fada que fia de noite” (Algarve), etc. Um pouco por todas as partes cobrou valor de “bruxa”, na típica am­bi­valência dos fenómenos da psique profunda. Na Galiza algures che­­gou a confundir-se com a companha ou estantiga 1. O nome (não o mitologema) entrou aí na penumbra, subs­tituído por dona, senhora, moura, etc. O declínio de , de breve corpo, a par viu a con­fu­são com a companha, a favor do plural. 
As jãs foram a turba feérica, coro das ninfas ou pequenas fadas vege­tais, constelação de luzinhas vistas ou alucinadas na noite. A com­panha primitiva foi também uma turma de luzes aé­re­­as, à margem da interpretação consciente que das visões coleti­vas se fazia já no séc. XVII I 2. Ao cabo luzes na noite, quer terríveis, quer fas­ci­nantes. O que presta é dis­cer­nir os sentimentos que fizeram a passagem de “luzes das fa­das noturnas” a “luzes da hoste diabó­lica”, e depois “fan­tas­mas dos defuntos”. A história cultural aproveitará os dados, para cuja análise ainda não forjou o ins­tru­mento da psicologia pro­funda coletiva.
Fortuna diversa levam os derivados. Antarujã (e antarujaira) “bruxa” 3 junta a uma palavra enigmática que Coromines crê deturpação de untura, com oportunos apoios semânticos. A opacidade do primeiro membro fez altera­ções pareti­mo­ló­gicas, ao cabo tão caducas qual antarujã. Não é clara a composição e a figura que oculta: untura de jã?, jã de untura? Mais importa jaira, no composto antaru­jaira (antaruxaira no P. Sarm.), que isolada é “es­tan­­ti­ga noturna” (Sarm., CaG, 182r). É o lat.-vulg. *janaria (lat. dianāria), através de *jãaira (não de *jãeira, que dera *jeira. O jeira real é de diā­ria), qual chaira ou avelaira de planāria e abellānāria. O adjetivo é aí coletivo, e cumpre pôr (turma) dianāria. Voz e mito são antigos, mas no outro milénio não era “estantiga” mas “turma de Diana”, depois “turma feérica”. 
Dianāria podia modificar nomes não coletivos, como se deduz do jaira que chegou vivo: “mulher aloucada, coquete, garrida” (em Padrão, segundo Crespo Po­zo). A entender me-lhor o sentido deste jaira serve um seu derivado: jarela e jarelo, -a. Mais frequente que o posi­tivo, já aparece em F. X. Rodríguez, donde o toma Cuveiro Pi­nhol: “la mujer respondo-na, descarada y al­bo­ro­ta­dora”. Eládio R. Gonçález define xarelo “pessoa descarada, pou­co formal no falar, de pouco critério” e aclara dar-se mais amiúde às mulheres. Por fim, Isaac Estravis define jaira: 1º) diz-se da mulher que anda trás os homens, 2º) mulher des­ca­rada, atre­vida, 3º) borra­cheira, bebedeira (tomar uma jaira). Jarelo é em geral “pessoa que fala ou obra com desver­gonha”. É claro o nexo fóni­co de jarela com jaira. O diton­go átono re-duz-se. Em data românica in­corpo­ra-se a desinên­cia diminutiva com des­locar do tom. 
Interessa das palavras o perfil que surge da integração das várias definições. Docu­menta a no­ção pela qual a pessoa – nomeadamente uma mulher – parti­cipa da natureza do nume “Diana”. A pessoa pos­suí­da mostra-se “ligeira de casco; coque­te, garrida” e, na definição de jarelo, “sem vergonha”. Desenvolvida­mente, “que está isento da pegada moral judeu-cristã, parti­cu­lar­mente no que diz respeito à conduta sexual” ou “que está livre das ataduras da condição social comum”. Jairo, -a “feérico” é adjetivo bonito, digno de restaurar-se, mas é jaira e jarela o que cor­re com saibo a transgressão subterrânea, às tradi­ções pagãs do feminismo vegetal e resistente de sempre.


1 Sarmento, CaG, 163r: “Jâns, as jans. Dícese hacia Orense: fulano vio as jans, lo mismo que ver la compaña o hueste”.

2 A companha, hoste, estantiga, primeiro sem dúvida bando diabó­lico e aéreo de longa tradição, como acusam os próprios nomes, foi inter­pre­tada no contexto cristão recente como procissão de de­funtos. Mas a especu­lação cristã popular ocupava um lugar similar ao da racionalização ma­terialista posterior, e o fenómeno alucinatório era indepen-dente. Em The Bible in Spain de Borrow, temos testemunho tão importante ou mais do que os do P. Sarmento. O mais explícito é o do cap. 29, no que o guia lhe descreve a Borrow a Estadea e depois lha explica. Cumpre separar descri-ção de explicação. “Levantou-se uma névoa muito espessa. De pronto começaram a brilhar por riba de nós, entre a névoa, muitas luzes; havia ao menos mil. Ouviu-se um chio tremendo, e as mulheres caíram de bruços gri­tan­­do: Esta-dea! Estadea! Eu também caía e gritava: Estadinha! Estadinha!” A seguir o guia crê-se obrigado a explicar: “A Estadea são as almas dos mortos que andam por riba da névoa com luzes nas mãos.” A separação é clara e a meu ver a autenti-cidade da experiência alu­cinatória coletiva está assegurada por esse chio tremendo, característico de certas imagens arquetípicas aparentadas (V. o Wotan de C.G. Jung). Além da racionalização, a visão da cavalgada do bando aéreo diabólico em for­ma pura vê-se no testemunho do cap. 27, in fine: “De crermos aos galegos, os demos das nuvens per-segui­ram os ingleses na sua fuga e atacaram-nos com trovões e golpes de água quando pugnavam por remontar as re-viradas e empinadas vereias de Foncevadão.”


3 Sarm., CaG, 182r. “Antaruxá y antaruxairas. Creo llaman allí [Ourense] a las bruxas” Diz ser nome de Monte-rei.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Anumão, a velha moura da Montanha.




Por José Manuel Barbosa

Chegamos a Quéguas passadas as 11:00 da manhã. O dia era claro e fazia calor. Isso permitia a caminhada pela monte. Deixamos o carro num pequeno aparcamento natural adequado para este tipo de cousas e começamos a andar por um caminho que nos levou a uma subida cheia de tojos, urzes, carquejas e monte baixo. Em breves minutos pudemos visualizar o amplo planalto de Anumão onde rebanhos de vacas do País pastavam tranquilas ao sol. Igualmente, ao longe pudemos visualizar várias manadas de garranos com os seus poldrinhos recém nascidos que nos contemplavam entre medrosos e curiosos, respeitando o sempre imprevisível ser humano e cuidadosos de não se afastarem muito das suas mães.

Rebanhos de vacas e manadas de garranos observavam cautelosos as nossas andanças

Os nossos amigos: Marta e Cristian abriam o caminho como guias nativos que eram. A companhia era perfeita. A sua amabilidade e afeto fez-se sentir sempre e em todo momento, mesmo quando chegamos à Anta conhecida como a Casinha da Moura ou Anta de Anumão onde nos ofereceram um delicioso leite frito elaborado pela própria Marta e um copinho de aguardente de bagaço que ajudou a recompor-nos, à vez que descansávamos após uns quilómetros de caminho. Sentamos-nos. Comemos algo de fruta e gravamos algo no nosso telemóvel sobre o lugar no que estávamos. 


A poucos metros de nós, duas grandes aflorações de seixo da altura duma mesa de cozinha chamaram a nossa atenção. Sempre é, que perto de monumentos megalíticos que temos visitado, há uma grande quantidade de quartzo, mas nunca tínhamos visto rochas deste material tão grandes como aquelas... A vários quilómetros em direção Norte pudemos ver no horizonte a construção natural e granítica conhecida com o nome de Pedras de Anumão, Anamão ou simplesmente Numão como é que aparece escrito na estrada que vai entre a fronteira da Ameixoeira e Castro Leboreiro.

A Casinha da Moura, uma anta conservada muito bem. Ao fundo a deusa deitada e fazendo-se ver.

Estas pedras são umas construções rochosas que desde a anta semelham uma mulher deitada na que podemos distinguir os seus peitos, a sua barriga de mulher grávida e se nos achegarmos, mesmo poderíamos imaginar o resto do corpo deitado...



O nosso objetivo era chegarmos até essa figura de moura deitada, a velha moura de nome Anumão, cuja casinha, a Casinha da Moura, era a anta desde a que gravamos umas palavras nos nossos telemóveis para fazermos a ligação necessária com outro construto similar em Duhallow, no Sul da Ilha de Irlanda. É este o chamado “The Paps of Anu” ou “The tits of Anu”, quer dizer, As Tetas de Anu (ou Ana, ou Dana), a Deusa Terra que nos acolhe, nos nutre e nos dá vida. A Anu Geresiana era aquela que estávamos a contemplar nesse momento desde o planalto raioto próximo à aldeia entrimenha de Quéguas. A Mãe Ana/Anu/Danu/Dana que constrói os nomes de Anumão/Anamão/Numão, todos eles registados por nós, nos lugares de Entrimo, Guginde, Bouça d'Agro (ou Bouzadrago que é como figura deturpado nos indicativos), A Ameixoeira, O Ribeiro e Castro Leboreiro, sendo os três primeiros da região de Ourense dentro do Concelho querquerno de Entrimo e os três últimos dependentes do Concelho Minhoto de Melgaço.
Nós com a nossa amiga Marta que nos fez de guia na nossa expedição. Ao fundo o peito de Anu onde há um ponto alto de observação desde onde se visualiza todo o nosso trajeto e onde em tempos se refugiavam os fugidos do franquismo. Foram 10 km...

Comentamos com o nosso amigo galego-argentino, o Doutor Higino Martins o significado do nome Anumão/Anamão/Numão e disse-nos o seguinte:
“DANU foi explicada, bem a meu ver, como fruto do céltico *DEWA ANU "a deusa Anu" (E, primeiro A e U longos) ao passar ao gaélico. Por sua vez, o ant. ANU, g. ANONOS (U longo), segundo os textos mais antigos, era a mãe dos deuses (Túatha Dé Danann "povos da Deusa Danu", com novo acréscimo de DEWA-DÉ. 
É mais que a Terra Mãe que é a Deusa única polivalente. Talvez abstração da teologia druídica, o princípio mesmo. Portanto equivalente da védica Áditi, cujo nome significa "infinita". Seguindo o fio, quadra propor que ANU, ANONOS se analisa AN- prefixo negativo e ON- um dos temas indo-europeus para "ano", id est, "ciclo temporal"; logo "sem fim, eterna".
Numão é mais interessante, pelo enigma, mas não adianto. Se a pronúncia de Entrimo é boa, deveria grafar-se (A)NAMÃ. Está perto das Rias Baixas, que confundem irmão e irmã na pronúncia de vogal nasalada sem ditongo. A prótese do A- iria no mesmo sentido, se é o artigo feminino apegado. Supondo o rumo ser certo, teríamos "A NAMÃ" deste lado da raia. Numão logo seria topo-onomástica oficial portuguesa alterada por funcionários centrais. Continuemos nas trevas; se não imos também não temos nada. Fica o enigma da primeira vogal: U ou A? Só podem acordar num O: NOMÃ, que seria híbrido celto-romano, *NOMANA, híbrido pela desinência latina -ANA. Não posso ver mais. NOM- pudera ser da raiz *nem-, que envolve noções relativas à hospitalidade.
Bom, agora vejo que a raiz envolvida será *nei- "brilhar" (Pokorny 760), que no céltico dera *NEMA "brilho; beleza" (E e A longos), donde gaél. niam "id.", e *NEMIS "brilhante, belo" (E longo), donde néim e o nosso monte Neme, de Bergantinhos (lembra a pág 103 d'As Tribos Calaicas). Nesta luz parece-me mais provável o étimo ser *NEMANA (E e primeiro A longos), híbrido sim, de NEMA subst., aqui adjetivado com a desinência latina, logo nos mil anos de bilinguismo, e significando "brilhante, bela" com referencia à Mãe Terra, cujo corpo nutris e gerador tem teofania nas pedras que me fizeste conhecer. Isso parece quadrar.
E também não atinei ao dizer que A e U acordavam só num O. Vou por partes, está provado que as vogais longas célticas eram mais abertas do que as breves, ao invés do latim. Logo o E longo de NEMA era aberto. Além disso, no tempo diglóssico a metafonia do A final operaria mais forte. A forma de Entrimo tem toda a probabilidade de ser mais conservadora. Quanto à de Melgaço, o A pretónico terá sido Comlabializado pelo M, como é usual na língua popular. Por que não labializou a forma de Entrimo? Pela ajuda do artigo apegado, que reforça a harmonia vocálica”.


A nós, já desde o princípio veio-nos à ideia uma divindade comum a todos os povos indo-europeus que tem a forma léxica para os celtas de Dana/Ana/Danu/Anu. Esse nome que deixou rastos por toda a Europa em hidrónimos do tipo “Danúbio”, “Don”, “Dniester”... ou topónimos como Donets (agora que a Ucrânia está infelizmente na moda nos informativos...) ou Dinamarca. Achamos essa divindade no Devana eslavo, na Diana latina, na Danae ou Démeter grega...

Do seu nome originário gerasse provavelmente o termo “Xana” que é o nome que nas Astúrias têm as nossas Mouras, o “Anjana” ou “Anxana” cântabro, cujo “An” inicial poderia ser ao artigo determinado das línguas gaélicas...

Cristian em primeiro termo. O nosso guia levando-nos por paisagens tolkianas.

No âmbito linguístico galego-português também temos as nossas “Jãs” (Diana>Djana>Jana>Ja(n)a>Jã) como também nos explica tão brilhantemente o nosso caro Doutor Higino Martins.

Por outra parte e depois de dar-lhe voltas à palavra Anumão/Anamão/Numão, nós desde a nossa humildade quisemos ver uma dupla construção. Por uma lado o nome da Deusa Mãe Danu ou Anu e por outro a forma -mão. A primeira para nós não tem muita dúvida. É a deusa indo-europeia que para os celtas irlandeses é mãe dos Tuatha Dé Danann, quer dizer, “O Povo dos Filhos de Dana”. É Deusa associada à agricultura, aos ciclos da natureza e guardiã do gado, da saúde, das granjas, das terras de cultivo e provisora de alimentos e sustento...

Caminhando pelo planalto de Anumão

A segunda parte da palavra, -mão ou -mã, poderia proceder de alguma palavra equivalente em celtico-galaico ao gaélico antigo “móa”, “máo”, “máa”, “móo”, “mó”, igual do que em antigo Britónico “mwy” donde surgem o atual galês “mui”, córnico “moy” e bretão “mui” com o significado de “maior”. Igual do que em latim major”. É portanto, o comparativo de superioridade da forma “mór”, grande, mas também ancião, adulto, velho, importante, distinguido... (Muitas vezes falamos dos nossos "maiores" quando nos estamos a referir ao nossos velhos em idade, aos nossos ancestros...)

Imagem da Velha Anu.

Seria portanto “a velha Anu”, “a distinguida Anu” “Anu a grande”, "a nossa ancestral Anu"...

Acrescentemos que na freguesia de Duhallow, no Condado de Corck na Província de Munster em Irlanda temos o que se conhece com o nome de Dá Chích Anann, quer dizer, o que em inglês seria The Paps of Anu ou para nós “As duas tetas de Anu”. Curiosamente são dous outeiros com formas de peitos de mulher que se identificam com os peitos da Deusa Mãe da que estamos a falar: Anu/Danu...

 

The Paps of Anu em Duhallow, freguesia no Condado de Corck (Munster-Eire)

A refeição deu para isto e para muito mais, mas tivemos que continuar o caminho em direção às pedras que víamos no horizonte. Passamos um curro onde a gente do lugar encurrá-la os garranos na festa de rapa das bestas durante o mês de Agosto para marcá-los e identificá-los. Foi ali onde vimos pegadas de lobo...

Um curro da rapa das bestas ao nosso passo.

Passamos umas gândaras onde um regato de monte regava uma parte dum amplo lugar verde entre penedos e monte baixo. Ali os garranos iam beber habitualmente e optamos por provar aquela água fresca e pura que caia da montanha para fazermos mais levadeira aquela andaina sob um sol estranho de primavera. A altitude era o suficiente como para sentirmos a brisa fresca, que com total certeza se convertia em frio cortante nos meses de inverno, mas que agora não terminava de sentir-se cálida.

Bebendo do regato de montanha onde bebem os garranos.

Ao cabo de uns minutos de constante marcha, conseguimos chegar a um marco fronteiriço: o 47, a partir do qual começamos o trajeto por território administrativamente português. A ladeira pela que começamos o novo percurso era a base da barriga da Deusa Anu, a quem procurávamos, para posteriormente passarmos pela mama da nossa Deusa. Ali a magia que envolvia o mito da divindade desvendou-se totalmente ao vermos aquelas paredes de granito puro que ficavam à nossa direita com a forma do grande peito divino que nos levou ali. Visualizamos uma cova no alto, o qual se nos revelou acessível, pois há um caminho que leva ao alto e uma abertura na rocha que deixa ver todo o planalto que tínhamos percorrido desde a manhã. A Deusa deixava contemplar aquela paisagem imensa onde os cavalos e as vacas se perceberiam como pequenos brinquedos. A vista espetacular seria para ser admirada, mas decidimos deixá-lo para uma outra expedição. Levávamos andando desde as 11:00 da manhã e nesses momentos estavam sendo as 15:00 pelo nosso relógio, à vez que já tínhamos à vista a capela da Nossa Senhora de Anumão, ponto de cristianização do lugar, mas sem qualquer dúvida, lugar sagrado para os nossos ancestrais que adoravam à Deusa Mãe, que deitada ali mesmo, dormia desde há milénios.

A capela finalmente...
 
Chegamos à capela, que se mantinha fechada, mas ao lado havia um grande penedo, sem dúvida ritual, coberto de riscas e fendas pelos que em tempos perdidos na memória correriam os líquidos vitais dos animais sacrificados à nossa Deusa. Ao pé do penedo, uma escada que levava a uma espécie de púlpito, onde duas rosáceas ou lábaros, perfeitamente lavrados no granito, desentranhavam uma religiosidade ancestral oculta ao olhos de qualquer profano.

Marta subindo à pedra ritual. À nossa direita, a capela que cristianiza o lugar, também sagrado para os nossos ancestrais. A escada deixa-se ver...
 
Conseguidos os objetivos, decidimos comer fruta e beber água. Descansamos uns minutos e regressamos por onde viemos. De volta, as manadas de garranos e vacas apareceram-se-nos mais próximas. Um dos bois olhou para a nossa comitiva com olhos de desconfiança, de tal jeito que nos obrigou a exercer a prudência. 
 
Lugh queria dizer-nos algo...
O sol, raríssimo, apresentava um amplo círculo ao redor, que mesmo, em vez de ser o tradicional halo solar, talvez poderia ser originado pelos chemtrails que não deixavam de marcar aquele céu, falsamente limpo, daquele sagrado, intensamente lindo, surpreendentemente virgem e ainda não humanizado planalto onde mora, ainda dormida, a nossa moura de nome Ana ou Anu, aquela que segundo os nossos antepassados era a nossa Mãe ancestral: Anu Mão, Ana a Velha, Ana a Maior...
 
Escada com rosácea ou lábaro que representa o Lugh solar, ao pé da pedra ritual de Anumão
 
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