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quinta-feira, 2 de maio de 2013

De delinquentes linguísticos e a logopédia necessária.





Por José Manuel Barbosa

Quando a dia de hoje uma pessoa de qualquer país da Lusofonia oficial e um galego têm de se comunicarem entre sí, podem acontecer várias cousas:

a)      Que o paleofalante galego sinta que percebe e pode ser percebido pelo seu interlocutor. Neste caso, o galego reproduz a sua fala dialetal local oferecendo uma margem de distância mínima que a dia de hoje pode não ajudar a total fluidez comunicativa entre as partes. Isto, até o século XX não acontecia, justo até o século em que a Galiza contou com uma versão normativizada da sua língua e uma política linguística que promocionou sempre uma língua “ausbau” diferente da de Portugal. Este relacionamento a duas partes, galego por um lado e português por outro, é o caso habitual que acontece no dia-a-dia nas regiões da raia galego-portuguesa onde nunca houve problemas de relacionamento nem nunca se sentiram “estrangeiros” os uns a respeito dos outros. A distância viria dada porque o português está formado numa língua padrão saída dum determinado centralismo lisboeta e o galego (mal)formado tanto em castelhano como em “galego”. Este caso está em vias de extinção, como indicou a UNESCO a princípios dos século, por serem cada vez menos os paleofalantes os que sentem o português como uma continuação das suas falas e por ser mais os portugueses (e outros lusófonos) os que sentem os galegos como mais uns “españoles” de fala castelhana, nos quais não há que confiar desconhecendo a nossa identidade comum.

b)      Que o galego, duma maioria cada vez menos minoritária, fale em castelhano. Nesse caso pode acontecer que o lusófono faça esforço por se adaptar ao outro parceiro, embora há de ser difícil que este último, se adapte ao primeiro, quer por um sentir xenófobo e supremacista incutido pelo castelhanismo, quer pela educação deficiente que na Espanha se ministra em relação às línguas, forem estas de dentro como de fora do Reino. Algo assim acontece nos países anglófonos por terem a ideia de que todo o mundo tem o dever de saber inglês...No Reino, considera-se uma cousa normal que os demais têm o dever de os perceberem em castelhano embora não à inversa sob pena de ser considerado um ignorante. A maior parte das vezes, o espanhol em questão está capacitado para perceber pela pouca distância linguística que há entre a deles e a outra mas finalmente acontece que é um problema de vontade. O espanhol não quer perceber...e o galego-espanhol como subproduto deforme e acomplexado que reproduz ridiculamente os hábitos “cañís” e por um elemento de mimetismo primate copia os comportamentos mesquinhos do modelo espanholista à moda, de caráter intolerante e impositor, fornecido pelos média embora com menos força do que os originários.
 c) Que o galego, quer paleo, quer neofalante, adopte a variante RAG na sua conversa com o lusoparlante. Neste caso o resultado final vai ser que este  perceba a fala do galego como um péssimo português ou que é um espanhol que tenta fazer esforços por falar português. Nesse caso para favorecer o relacionamento acaba por tentar ele falar em castelhano. Ainda assim....o galego-RAG pode insistir na proximidade linguística galego-portuguesa o que resulta absurdo para o lusófono que percebe a fala do galego como uma trapalhada que não há por onde apanhá-la.

Estes são três dos quatro casos possíveis que se podem dar. O que ninguém fala é das circunstâncias que levam a estas irregularidades intercomunicativas, tendo em conta que nem os políticos nem os linguistas que fazem parte das administrações galegas ignoram que as falas galegas e luso-brasileiras fazem parte do mesmo diassistema linguístico... e quando digo que eles “sabem” isso, não estou a dizer que “acreditem” ou que “tenham uma ligeira intuição”. Digo simples e diretamente “sabem” com tudo o que isso implica e compromete.
A pesar de tudo, a princípios dos anos 80 e por decisão política, os responsáveis da administração optavam por oferecer ao administrado galego uma versão normativa para a sua língua que facilitava (e ainda facilita no presente) a distância e favorece o mais alto grau de incomunicação entre galegos e o resto dos lusófonos. Essa versão foi aplicada por decreto para ser aplicada em aqueles âmbitos da vida fulcrais para incutir a ideia de diferença, como é o caso do ensino à vez que faziam orelhas moucas à discrepância legítima de tal forma que nenhum professor pudesse fugir de tal despropósito, castigando a todos aqueles que no exercício da sua liberdade de cátedra optassem por querer transmitir aos alunos uma ideia de identidade linguística galego-portuguesa ou no mais duro dos casos uma versão útil da língua.
Os professores, mesmo não ensinando outra normativa diferente à imposta por um decreto nunca consensuado eram perseguidos, discriminados, desrespeitados como pessoas e sobre eles era exercido um subtil “mobbing” dificilmente demonstrável entre outras cousas porque o claustro de professores do centro de ensino apoiava a ação, quer porque a sua formação linguística não permitia aceder a registos mínimos de conhecimento, quer porque a sua má formação humana e/ou ética os fazia incapazes de frear a ação agressiva contra o acossado, quer por medo a que sobre eles caísse também a repressão. 
Uma outra forma de “mobbing” que não afetasse diretamente à administração era deixar que o protesto “anti-lusista” fosse levado a cabo pelos país das crianças que sentiam que um “lusista” não ministrava as suas aulas como era o convencional. Nestes casos a equipa diretiva ou o claustro lavavam-se as mão de cara ao afetado mas encirrava aos pais ocultamente para apagar a dissidência. Tudo isto sem informar a ninguém que os professores possuíam e possuem legalmente o direito à liberdade de cátedra e que ainda um artigo da Constituição espanhola garante na teoria a não discriminação por qualquer circunstância pessoal e social...e portanto por qualquer razão linguística o que faz que não exista legalidade que defenda uma discriminação por razões de normativa linguística a usar com qualquer língua oficial.
Alguns casos foram muito sonoros na Galiza dos 80 e dos 90, épocas muito obscuras de regressão linguística em Galiza. Lembro dous casos especiais por se saltarem todas as linhas vermelhas do silêncio, do ocultamento  e da censura. Foram protagonizados e sofridos pelos professores Mário Afonso Nozeda e Jesus Sanches Sobrado. Este último reformado ao pouco tempo de começar a trabalhar por causa dum ambiente laboral totalmente hostil  que o levou a uma situação de estress por “mobbing”.

Por outra parte, e deixando o acosso favorecido pela administração ao que sempre estivemos submetidos os defendores da língua na Galiza, temos que acrescentar que a forma em que as aulas de “galego” se dão ainda nos dias de hoje é própria duma administração que não se importa em deformar às crianças e aos adolescentes, contrariamente ao cometido último que tem o ensino, que é formar e informar (não deformar).
Existiu sempre uma ampla percentagem de professores que não consideraram como opção válida a de começar o ensino da lecto-escritura das crianças na sua língua raiz. Cousa nunca combatida pela administração galega e mesmo impulsionada desde a “Xunta”. Nenos e nenas galaico-parlantes apreenderam e apreendem a ler e a escrever em castelhano, vendo o seu idioma relegado aos usos mais coloquiais ou simplesmente deixando-o para assuntos menores. Muitos professores são mal formados linguisticamente, com índices de conhecimento da realidade socio-linguística deficientes, com prejuízos anti-galegos ou que consideram a língua do País como um elemento de menor importância na formação dos alunos. A causa provém da sua formação universitária originada nos planos de estudo que incutem esses defetos aos futuros professores. Da administração galega parte a permissividade a considerar normal atentar contra a integridade moral e psicológica de um companheiro se este mostra sinais de “lusismo patológico” ou qualquer outro desvio legítimo em qualquer país democrático, à vez que se defende hipocritamente a liberdade do professor a saltar-se toda regra pedagógica de educar a um aluno na sua língua e de negar ao aluno o seu direito de ser formado na sua língua. 
 Na Galiza, como comentava há uns dias no PGL Fernão Portas estão-se a incumprir os dous princípios básicos do ensino quando neste há duas línguas presentes (português e espanhol....ou galego e castelhano se quisermos): “misturar e não marcar fronteira” favorecendo nos alunos o atrapalhamento linguístico podendo levar à necessidade da logopédia em alguns casos que optarem por usar a língua em público. Curiosamente aqueles que optam pelo logopeda para poderem sair num meio de comunicação público são “re-educados” para poderem falar corretamente o castelhano....nunca a língua dos galegos.
É a vontade da administração fomentar a bablização nos galegos em vez da competência nas duas línguas, cometendo um grave delito, talvez não só moral, pois demonstrada a sua intencionalidade de atrapalhar à sociedade investindo grandíssimas sumas de dinheiro público em “normalizar” o galego se obtenha como resultado final a mais alta deserção da língua nos últimos trinta anos dos últimos cinco séculos. Dito de outra forma: houve mais desgaleguizados e castelhanizados desde 1980 até hoje do que entre 1480 e 1980. A perda foi de mais dum 30% desde que chegou o PP à “Xunta” autonómica. Não são os meus dados, são dados das Universidades Galegas, das Instituições (a)normalizadoras dependentes da “Xunta” e da UNESCO.
Esta sociedade leva já muitos anos seguidos sob um regime de ignomínia, abuso, desnacionalização e corrução de todo tipo que afeta a todos os aspectos da vida dos galegos, nomeadamente a parte linguística que é da que estamos a falar, e nunca ninguém denunciou perante a justiça galega, espanhola, europeia ou internacional  a situação que vivemos de genocídio cultural, económico, evidentemente linguístico...e com a emigração favorecida pelo poder, também me atrevo a dizer que genocídio étnico. Este genocídio é subtil e em parte consentido pela ignorância e a estupidez de muitos mas também pelo colaboracionismo de outros que bem mereceriam que a justiça também caísse sobre eles. Por isso os políticos no poder desde os aos 80, momento em que se constituiu a infelizmente denominada “Comunidad autónoma Gallega”, são uns delinquentes só um ponto por baixo dos grandes genocidas da história. O único que os diferencia é que estes últimos recorreram ao sangue, à guerra e ao fogo...os nossos não precisam disso porque há muitos galegos que os votam e que favorecem a bastardia moral e política de quem leva a cabo o processo.
Falávamos acima de três dos casos nos que um galego e um lusófono poderíam interagir comunicativamente. Há um quarto caso...:
  d) O galego tem consciência de falar a mesma língua do que o outro lusófono. Nesse caso a comunicação é fluída porque a inteligência desse galego faz com que a sua fala seja mais próxima, compreensível e universal sem deixar de ser galego. Em vez de usar “irmán” usa “irmão”; em vez de usar “oir” usa “ouvir”; em vez de usar “caer” usa “cair”, em vez de usar “dicir” usa “dizer” em vez de acabar certas palavras em “-ble/bles” acaba em “-vel/veis”; em vez de usar a terminação “-ción/cións” usa a “-ção/ções” comum a todo o universo galego-português que não por perdida na fala diária é menos galega. Também provavelmente recupere a sua fonética com o uso do sesseio tão legítimo como qualquer outra forma absolutamente galega e limpando um elemento fónico de origem castelhana como é o denominado “cetacismo”... Um galego reintegracionista pode andar com o seu galego pelo mundo, pelos organismos internacionais sem sair da sua fala matriz. A sua fala é reconhecida como uma das mais importantes e sucedidas da humanidade, é respeitado e dignificado por distinguir corretamente o seu galego(-português) do castelhano e não seguir o fomento da mistura ensinado nas escolas e liceus galegos...e o que é melhor de tudo é que esse galego reintegracionista nunca deixa de falar galego quando usa a versão internacional da língua. Com essa forma de apresentar as cousas saberá falar corretamente a sua língua sem castelhanizá-la e se quiser falar castelhano poderá falá-lo também sem interferências. Os logopedas não serão necessários mas sim talvez um tribunal de justiça, não sei se nacional ou internacional que julgue os mafiosos da língua por crimes contra a dignidade deste povo pelo qual nem deixaremos de lutar nem renunciaremos de pertencer a ele.


terça-feira, 26 de junho de 2012

Eu falarei.

Por IES de Chapela (Redondela) 



Impresionante trabalho da comunidade educativa do IES de Chapela. Os nossos parabéns para os alunos, professores, Equipa de Dinamização linguística do centro, pessoal laboral e demais pessoas implicadas. Dito seja de passagem que não chega com boas intenções e esforços heróicos, faz falta identificar bem o galego como o que é: como uma variante, a variante matriz, dessa língua que no mundo é conhecida e reconhecida com o nome de Portugues.
Que saibam os nossos irmãos lusófonos que brigamos e trabalhamos por esta língua. Não é só trabalho de galegos, mas de todos os lusófonos que amem a sua língua.
Parabéns a todos e obrigado aos nenos de Chapela. Lembrai que um liptub é um instrumento de consciencialização muito eficaz, mas há que animar-se a usar aquilo que se diz defender, nao é só fazermos uma canção linda...é sobre tudo ter vontade e valentia e para isso há que apanhar o caminho certo, o mais acaído, o mais viável e esse caminho está com o mundo de fala galego-portuguesa.

MIL PRIMAVERAS MAIS....ou melhor MAIS MIL PRIMAVERAS PARA A NOSSA LÍNGUA!!!

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Língua materna e Aprendizagem.


Por Mabel Pérez

Embora não seja fácil definir "língua materna", podemos considerar linguagem materna àquela que uma perssoa tem diretamente ligada à sua cultura de origem, a que representa a realidade que há ao redor, a que nomeia a realidade na que vive, independentemente de quem tenha sido a pessoa ou grupo que a tenha transmitido.
Devemos conhecer, falar, compreender e respeitar a língua mãe, porque se não respeitamos e fortalecemos a nossa língua, ela corre o risco de que se deixe de falar e mesmo chegue a desaparecer. 
 No artigo 23 da Declaração Universal dos Direitos Linguísticos indica-se que "todas as comunidades linguísticas têm direito a usar a sua língua, manter e promover em todas as expressões culturais", por isso temos de defender o direito de falá-la e aprendê-la. Por isso neste artigo vamos tentar mostrar que a língua mãe serve para nos comunicarmos e para conhecermos a realidade do nosso contorno com uma panorâmica que atinge as nossas origens com as palavras que representam essa realidade. Mas não esqueçamos que a nossa língua, a nossa língua materna, também serve como um veículo para a expressão de ideias, preocupações e sentimentos que fazem parte duma realidade diferente às outras. A nossa realidade  que nomeia o mundo duma maneira diferente.
 A língua galega, língua materna dos Galegos e Galegas é o resultado da derivação da língua latina que os romanos trouxeram ao Noroeste da Península mas a contribuição das línguas anteriores à colonização romana (línguas de substrato, isto é  um estrato chamado "Antigo Europeu, pré-céltico ou para-céltico ") e depois (línguas de superstrato, línguas que se superpuseram após a fragmentação do Imperio Romano). Aliás no galego entraram também palavras de empréstimo de outras línguas românicas e não românicas, muitas vezes  através do castelhano, devido á colonização linguística á que é submetida a Galiza desde o Medioevo.
A nossa língua tem um substrato indo-europeu que se remonta á Idade de Pedra, isto sabémo-lo por  palavras de origem indo-europeu que são ainda são conservadas hoje e permanecem também no ocidente europeu e no Norte de África, vozes como "caracol","cosco"" gabanceira”,"queiruga” ou como as que têm a raíz "carr "(carrasco, carroucho).
Há outro grupo de palavras de origem hispano-caucásica, coincidentes em todo o sul europeu, de Galiza ao Cáucaso, como “coto”, “sobaco”, “morodo” ... e Tirrénica, com palavras comúns para a Península Ibérica, Gália e Itália: “touza”, “morea”, “barro”, “abarca”, “esquerdo”, “veiga” ...
Sabemos que as  nossas origens se remontam aos Oestrímnios, povo que deixou as antas e os dólmens preservados na Galiza de tempos pré-romanos e que foram expulsos ou assimilados pelos para-celtas que chegaram no ano 600 aC e que nos deixaram palavras como “cabana”, “pá”, cabaço”, “páramo”, palavras que designan a vida quotidiana das familias, ou nomes de localidades como: “Beasque”, “Viascão”, “Tarascão... ,até que os Celtas, no 800 aC. Instalaram-se no nosso território, empurrados de centro-europa pelos germanos. Esse povo celta foi o que os romanos chamaron "Gallaeci" (Galegos).
Já no léxico comum do galego são palavras celtas os nomes das árvores: “vidoeiro”, “amieiro”..., de plantas: “brusca”..., da agricultura: “colmo”, “embelga”..., as “chedas” e as “cambas” do carro..., nomes de animais: “rodabalho”, “careija”, “beiço”..., acidentes topográficos: “lama”, “lousa”, “laje”, “burato”.. da vida doméstica: billha, berço, tona, boroa..., os topónimos acabados em –obre que vem de –brix ( fortaleza): Baralhobre, outros como Crunha, ou nomes de ríos: “Límia”, “Deva”, “Sar”... 
Antes da chegada dos romanos, o nosso território era habitado por esses povos que falavam distintas línguas. Após a conquista romana, esses povos passaram, pouco a pouco, a falar latim, da mesma forma que também adoptaram a cultura e o tipo de sociedade romanas. Mas estas línguas anteriores ao latim, também achegaram algo ao galego, especialmente no campo léxical, em vozes que são referidas a conceitos concretos, tais como nomes de animais, plantas, topografía, etc. e que seguem a representar a nossa realidade quotidiana, tanto no rural como no urbano. Depois do desaparecimento da Império Romano do Ocidente, outros povos, como os germânicos e os árabes também se instalaram na Gallaecia, mais não apagaram o latim galaico, aínda que deixaram alguma pegada da súa presença, sobre tudo no léxico comum e na toponimia. De origem germánica são palavras como : “roubar”, “branco”, “guardar”, “Allariz”, “Guitiriz” , etc.
A influência árabe foi pequena e, ás vezes, a incorporação duma palavra árabe ao galego não foi diretamente, mas por meio do castelhano. São arabismos: “açucar”, “azeite”, “acelga”, “alfinete” “alfombra”, ou a  interjeição “oxalá”. O que não se sabe com certeza é quando acaba o latim e começa o galegoportuguês, mas sim que nos séculos X e XI já é uma língua bastante bem estruturada e com umas caraterísticas de seu, aínda que o latim continuou a ser usado como única língua na escrita ainda durante muitos anos. Vai ser a partir do século XII quando a nossa língua  passe a ser usada na escrita, como também o fizeram as outras línguas românicas e se converta assim na nossa LÍNGUA MATERNA, berço da nossa cultura e representação da nossa realidade.
A língua materna é muito importante para a aprendizagem d@s estudantes, condiciona as  aprendizagens dos alunos, já que este é o fundamento do pensamento e define uma forma especial de olhar a realidade, organizar, ver e sentir a vida e o mundo que nos rodeia. Por isso é muito importante que professores e família sejan conscientes do papel tão importante que a língua galega tem na aprendizagem da criança e torná-lo visível. Aliás pode melhorar a sua utilização na escola e na vida diariamente.
Se promover e incentivar o uso do galego em alguns contextos, o fato de ter de escolher entre diferentes idiomas, dependendo das diferentes situações, desenvolverá mecanismos cognitivos que podem ser aplicados para resolver problemas em outros contextos. Além disso, o uso na aula da língua galega pode ser, em determinados momentos o fío condutor das relações inter-pessoais, inter-sociais e inter-disciplinares, já que como vimos acima , a realidade do nosso país nomeia-se com palavras próprias da nossa língua, diferente da realidade que mostra o espanhol.
A língua espanhola é uma imposição, que como o latim, é uma realidade estranha, embora seja verdade que a coexistência de ambas as línguas gera uma série de interferências linguísticas interferindo-se mutuamente. Assim é que existem realidades galegas que não podem ser suplantadas pelo castelhano: quem leva a criança no "regazo" e não no “ colo” ? quem em áreas rurais  usam formas de espanhol para representar o seu trabalho diário?, que alun@s da nossa escola vivem com a realidade espanhola e a súa  esfera de influência para além da súa realidade? e daquelas palavras que empregan os seus maiores? Conhecem a realidade doutro modo que não seja a través de palavras galegas?
A língua da Galiza é o galego, e representa a própria Galiza, a Galiza de sempre, dos antergos, o mundo que nos rodeia. Como professor@s, devemos compreender que educar na realidade, ser educado no mundo que nos rodeia, é sentar as bases para a aprendizagem posterior, que o enriquecemento cultural, social, linguístico, passa-se por ensinar a partir das raízes, a partir da língua materna. A partir daí, podemos extender esse conhecimento a outras línguas e outras culturas. De não fazermos assim, veremos a nossa língua condenada ao ostracismo no que já esta em parte, graças a governos galegos como o actual. Não apenas mataremos uma língua e uma cultura, mas cairão gerações de galeg@s na pobreza cultural. Dum ponto de vista da aprendizagem veremos maior dificuldade com aquilo que é estranho para nós do que com aquilo que para nós tem uma base sentimental.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Uma experiência de ensino da Língua cumprindo objetivos legais.


Por Mabel Pérez Rivas

À hora de extender um modelo educativo baseado no desenvolvimento de competências básicas, são as instituições encarregadas de elaborar os currícula que vão ser precetivos, as que deven dar o primeiro passo. Neste sentido, a competência em Língua Galega, aparece integrada nos demais elementos do currículum: objetivos, conteúdos e criterios de avaliação, como finalidades a conseguir por parte do alunado e o professorado com o intuito de que ajudem na adquisição da competência linguística na nossa língua. No entanto no nosso País achamos um problema acrescentado por parte da Administração Educativa. Este é o estabelecimento de uma norma comum de ensino que não tem em conta o conceito de “intercomunicação ”, nem reconhece nem respeita as variedades linguísticas da língua objeto de estudo.
 Partindo deste preceito, o ensino da língua galega por parte da Administração converte-se assim nun curriculum precetivo e obrigatório que extende o uso de uma língua “artificial” afastada tanto da fala como da escrita e próxima à Língua Castelhana que tanto @s falantes nativ@s como @s neo-falantes não percebem, nem identifican como própria e que moit@s docentes pensamos que não devería ser o referente, já que não estimula a aprendizagem. Contrariamente  reforça o bilinguismo e a diglossia, sendo sempre a língua de imposição a que prevalece, afastando assim a consecução dos objetivos propostos no curriculum de referência que tem como finalidade primeira o conhecimento e uso da língua galega. Daí que o trabalho que @s docentes realizamos nas aulas seja um trabalho de pouca ou nula utilidade na consecução de finalidades e objetivos e cheio de transmissão de conteúdos que não levam ao fin: adquirir as competências básicas necessárias para o desenvolvimento da fala e a escrita na nossa língua, e ainda, o gosto pelo seu uso. 

O referente histórico da nossa língua acha-se na raiz da mesma: o velho galego-português. Do mesmo jeito, o futuro e projeção da mesma na lusofonia. Só com que os alunos tomasem consciência de que a sua língua é uma lingua com projeção social e internacional, rica em recursos, útil na sociedade e com um amplo leque de possibilidades de futruro, não só na Galiza, mas no mundo inteiro, já teriamos conseguido alguma das finalidades acrescentadas no currículo. Mas, indo para além, fazer-lhes ver como a través do conhecimento duma ou duas variedades duma familia linguística poden chegar ao conhecimento passivo das outras (nomeadamente da família românica: catalão, francês, italiano...), e assim chegar a abranger o conhecimento destas a través duma serie de estatégias surgidas a partir do estudo da própria língua. Com isso teríamos conseguido a finalidade última.

De todos é sabido que não é certo que para que duas persoas se entendam têm que falar a mesma língua ou a mesma variedade lingüística “pondo cada um dos interlocutores um pouco de esforço e interesse em chegar á compreensão é possível a comunicação entre variedades da mesma língua ou entre línguas diferentes mas próximas geograficamente" (Moreno Cabrera, 2006). A intercompreensão  procura uma troca comunicativa mais justa e procura uma sociedade multilíngue que a Conselharia de Educação não tem em conta á hora de estabelecer os critérios de ensino da nossa língua e “ordenar” a consecução de objetivos, finalidades e critérios de avaliação.  Para isso não habilita as estratégias adequadas e ainda limita a capacidade de trabalho do professorado.
 De termos em conta os critérios que nos falam do uso e gosto pela língua por parte dos alunos e tentando cumprir o estabelecido pela Administração, o professorado, empregando estratégias com as que não concordamos, repetidas infrutuosamente por imperativo legal curso após curso e afastadas da dinâmica de transmissão de conhecimentos, poderia realizar atividades que estimulassem e desenvolvessem atitudes de tolerância e apertura de cara a diversidade linguística e cultural, reforçando o interesse pelas línguas e desenvolvendo atitudes suscetíveis de facilitar a aprendizagem duma língua estrangeira, como diz querer a Administração.

São muitas as estratégias que podemos empregar nas aulas, mas a mais comum nos países civilizados é a de reflexionar sobre as línguas, as suas similitudes e diferenças, sobre a base de material sonoro e escrito. Produz-se o “acordar às línguas” quando parte das atividades têm como objeto línguas ou variedades que a escola não pretende ensinar, mas estão presentes entre os alunos.

Uma experiência próxima no tempo foi levada a cabo por nós nas aulas com a canção “Ai se eu te pego” de Michel Telo, http://youtu.be/zNaUR45umSY, aproveitando a sucesso que esta canção tem entre @s adolescentes e @s cativ@s. Os alunos distinguiam a sua língua oculta detrás da língua da cantiga e  reconheciam-na como própria, identificaram as palavras, a mensagem, o registo discursivo e a aprendizagem, assim como o gosto e reconhecimento da lusofonia como parte da sua cultura. Tomaram consciência de que sabiam muito mais do que acreditavam porque podiam perceber melhor a canção do que muitas das expressões e palavras que aparecem nos livros de texto. Posteriormente fez-se um trabalho de linguística comparada, similitudes e diferenças entre as palavras, tanto em galego RAG como nas distintas variedades da língua galego-portuguesa, -isto é, segundo as variantes galega, portuguesa e brasileira-, os distintos registros empregados, as expressões diferentes: “nossa”,  ”te pego”, o emprego do “você ”, analise do texto, estudo com umas palavras dadas… e a partir daí o estímulo cara a procura doutras cantigas, com outras normativas, variedades dialetais, linguísticas e outros registros. A experiência deu como resultado um uso mais quotidiano no discurso expressivo dos alunos de língua, afastado absolutamente do estímulo do prémio da pontuação positiva por fazê-lo, um estímulo na procura de material – o que favorece o uso das TICS- e um gosto pela aula de Língua como atividade formativa duma atividade lúdica.

Esta experiência, entre outras semelhantes, favorece a consecução de uns objetivos estabelecidos pelo EOLE (l’éveil au langage/ouverture aux langues a l’ecole) para a intercompreensão de línguas em França e que são aplicáveis nas aulas galegas  para o estímulo do nosso idioma e que não quebram nem fazem incumprimento da consecução dos objetivos estabelecidos pela Administração, mas permite-nos aos docentes aproximar o aluno a outras variedades dialetais e linguísticas e ao conhecimento e aprendizagem de línguas próximas. São estas...:

-         A acolhida e a legitimação das línguas de tod@s @s alun@s, no caso de haverem estrangeir@s.
-         A tomada de consciência do papel social do galego como língua comum.
-         O desenvolvimento de uma consciencialização do multilinguismo no contorno, próximo ou longínquo.
-         A estruturação dos conhecimentos linguísticos do aluno por meio das diversas línguas presentes ou ausentes na turma.
-         O desenvolvimento da reflexão sobre a linguagem e as línguas e sobre as habilidades metalingüísticas.
-         O desenvolvimento duma perspetiva comparativa, fundada sobre “a alteridade linguística” e que nos ajuda a conhecer melhor uma língua (por exemplo, a nossa língua segundo a norma que queiramos ) a través da aprendizagem doutras línguas.
-         O desenvolvimento da curiosidade do aluno nos descobrimentos de como funcionam as outras línguas (e da sua própria), da sua capacidade para escutar e atender, para reconhecer línguas menos familiares, da sua capacidade de discriminação auditiva e visual, de comparação, etc.
-         A aprendizagem duma metodologia de investigação a respeito da compreensão do funcionamento das línguas, do seu papel, da sua evolução e da sua história.
-         O desenvolvimento de estratégias de compreensão de línguas da mesma família.
-         O desenvolvimento duma cultura plurilinguística e pluricultural.

Outro jeito de vindicação do uso das distintas normativas e registros pode ser o proposto neste vídeo que reivindica o uso da língua irlandesa dum modo um bocado mais “subversivo”.  Fíorghael (Irish Language Short)  http://youtu.be/t3Kv4fZ2SO
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