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quinta-feira, 27 de agosto de 2015

A Galiza: Uma identidade pouco conhecida.



Por José Manuel Barbosa

A consciência entre lusófonos da importância da Galiza na conformação da identidade de cada um dos povos que conformam a chamada "Lusofonia" começa a ser maior mas o desconhecimento ainda é grande. 
O Professor Marcos Bagno apresenta-nos o seguinte trabalho que posteriormente comentaremos. 
Compreendemos o desconhecimento que se possa ter desde o Brasil da longínqua Galiza, um povo com pouca autonomia para defender os seus interesses legítimos internacionalmente e governada por gente dirigida desde a Madrid pouco interessada em estreitar laços com um mundo para eles alheio. Por isso procedemos a corrigir alguns erros:
1- O reino de Galiza não existiu entre os séculos VIII e XI diz-nos o autor do texto mas o Reino da Galiza nasceu em 411 da mão do seu primeiro Rei de dinastia suevica Hermerico e deixou de existir por lei em 30 de novembro de 1833 em época da Rainha Isabel II.
2- O Reino da Galiza não era um reino vassalo do reino de Leão. O reino da Galiza era o território que ocupava todo o NW peninsular e a sua capital política, quer dizer, a corte, estava em Leão enquanto o poder religioso estava em Santiago de Compostela seguindo o modelo do Sacro Império Romano Germânico onde o poder civil e o religioso tinham duas capitais (Aachen e Roma no caso do SIRG). Galegos e Galiza, yallaliqa e Yalliqija era como os andaluzis denominavam a todo o território coincidente com a velha província romana de Gallaecia até bem entrada a Idade Média.
O reconhecimento da Galiza é testemunhado pelas fontes de toda Europa e também de Al-Andalus. Neste mapa do século XIX o autor da História de Espanha Modesto Lafuente traduz o nome árabe de "Jalikiah" por "Reino de León".

3- O conceito de "Reconquista" está em desuso por inexato e porque leva parelho outro conceito errado: o de "Repovoação". Não houve descontinuidade populacional nem organizativa nas regiões do Norte e Noroeste, enquanto no Sul o que houve foi uma autêntica conquista.

4- Em 1230 Galiza não passou a depender da Coroa de Castela e Leão. Foi em 1230 a primeira vez com que a Galiza (com Leão) se unificou com Castela, mas houve durante esse século e o seguinte períodos nos que ainda foi independente e outros períodos nos que se unificou novamente com Castela. Finalmente a princípios do Século XIV a unificação foi definitiva mas o poder político galego, a sua nobreza e a sua sociedade ainda eram soberanos e defensores dos seus interesses, só a partir de finais do século XV, após as revoltas Irmandinhas e a eliminação da nobreza galega por parte dos chamados Reis Católicos é quando a Galiza perde a sua soberania política. Daí em adiante a margem de autonomia era menor mas não nula e a categoria de Reino continuou até Século XIX. Não é certo, como diz o autor do texto que a Galiza esteve 750 anos dependente de Castela... Foi Castela a dependente até que com Sancho, filho de Fernando e Sancha e irmão de Afonso VI, teve o seu primeiro Rei independente em 1065... Até esse momento Castela era um território periférico da velha Gallaecia. No cômputo seguido pela historiografia castelhana figura como Sancho II mas na realidade é o primeiro Sancho de Castela, portanto Sancho I.
Os reinos hispânicos durante o século XIII: Portugal, Galiza-Leão, Castela-Toledo, Navarra, Catalunha-Aragão e reinos andaluzis.
5- Também não é certo que a Galiza nunca tivesse exército nem marina... Os exércitos galegos participaram de todos os confrontos desde o seu nascimento até a sua abolição como reino: contra Roma, contra os vândalos, alanos e visigodos, contra o poder andaluzi onde podemos salientar episódios como a conquista e entrada em Sevilha em 1248 da mão do ponte vedrês Paio Gomes Charinho Almirante das tropas galegas... as fontes dizem que a sua entrada foi com som de gaita...;
Tumba do Almirante Paio Gomes Charinho na Igreja de São Francisco em Ponte Vedra
Exércitos galegos também houve defendendo os direitos dinásticos de alguns Reis (Pedro de Trastâmara, Joana de Trastâmara...), defendendo tendências sociais (Irmandinhos ou exércitos nobiliários), fazendo parte dos terços galegos em América, guerras de Europa... o exército galego que lutou contra Napoleão organizado pela Junta Geral do Reino de facto independente por falta de monarca e sendo o primeiro País da Europa livre de franceses... Lembramos com isso figuras sobranceiras como o grande Bernardo Gonçalves do Vale "o Cachamoinha", libertador de Vigo e chamado assim por ser natural da aldeia do mesmo nome das aforas de Ourense e pertente ao Concelho do Pereiro de Aguiar ...,
Bernardo Gonçalves do Vale "Cachamoinha" Coronel do Exército galego libertador da parte sul-ocidental da atual Galiza dos franceses.
6- Não há uma família de línguas derivadas do galego... há uma língua histórica nascida na Gallaecia romana e medieval com variantes nacionais e regionais e cujo mapa se apresenta abaixo. Língua só há uma, origem só há um e variantes há umas quantas... Diversidade e unidade harmonizando-se entre si.

7- Finalmente concordar com o Marcos Bagno com que a obriga de estreitar vínculos é uma necessidade geo-estratégica, económica e identitária tanto para galegos como para o resto dos falantes da nossa língua.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

A Galiza e a Lusofonia


Por Carlos Jorge Mota

Aprendemos na História e na Literatura que a Língua Portuguesa é o resultado duma lenta e gradual evolução do galaico-portucalense, língua falada em terra galaica e no Condado Portucalense. Mas houve dois Condados Portucalenses, ou Condados de Portucale: o primeiro, fundado em 868 por Vimara Peres, após a Presúria de Portucale (Porto), e cujo território se situava entre Minho e Douro, incorporado depois, em 1071, no Reino da Galiza, cujo soberano era simultaneamente detentor dos Reinos de Leão e das Astúrias; e o segundo, constituído em 1095, em feudo de Afonso VI, Rei de Galiza-Leão e Castela, e oferecido ao burguinhês Henrique (de Borgonha) que recebeu também a mão de sua filha D. Teresa de Leão. Era constituído também por territórios mais a sul, abrangendo já as áreas de Viseu, de Lamego, de Coimbra e de Idanha.
Os Suevos, povos de origem germânica, chegados à Península Ibérica aquando das Invasões Bárbaras, encabeçados por Hermerico, através dum Pacto de ajuda recíproca (foedus) com os Romanos, formam, no ano de 409, o Reino da Galiza (Gallaecia) cuja capital era Bracara Augusta, a atual Braga. Entretanto, chegados os Alanos, tentam eliminar o Reino Suevo, nomeadamente em lutas na atual cidade do Porto, mas infrutiferamente. Todavia, em 585, os suevos não conseguem resistir aos Visigodos e o seu reino é anexado por estes, que tinham a sua capital em Toledo. A designação de Reino da Galiza cessa só no Séc. XIX, com a dissolução da Junta Superior, por Maria Cristina de Bourbon, entretanto formada para defesa mais eficaz das invasões dos exércitos napoleónicos.
 Com estes pressupostos, historicamente comprovados, é legítimo nos questionarmos sobre qual a língua antigamente falada no território que hoje constitui Portugal. Óbvio que teria que ser o galego – considerando a Gallaecia de então e não a Galiza atual. Consequentemente, o Português não será mais do que um derivado da língua galega.


E os galegos que língua falam? Bom, aqui a questão não é tão linear como as aparências nos sugerem, pela proximidade temporal da época franquista durante a qual, e apesar de Francisco Franco ter nascido em Ferrol, na Galiza, só se admitia a escolaridade da língua oficial espanhola – o castelhano.
Com efeito, considerando o forte fervor de nação galega que perdura desde há muitos, muitíssimos, anos, os galegos assumem-se como faladores do galego de antanho, e não do galego oficial instituído em 1979, que a capital, Madrid, foi obrigada a autorizar, ao ser incorporada na Constituição Espanhola de 1978 a autonomia de Regiões, algumas das quais com o ensinamento da sua língua nativa. Só que esse galego oficial não corresponde ao galego genuíno das gentes galegas. O argumento utilizado foi subtil … supostamente é para mais fácil aprendizagem dessa língua pelos não autóctones, daí a maioria dos termos serem acastelhanizados, logo, aculturados. A política a isso obriga e as verdadeiras razões são facilmente entendíveis.
Só que muitos galegos – e não será um número nada despiciendo -, principalmente os mais ligados às elites culturais, não aceitam passivamente essa situação e reivindicam, por meios legais que consideram legítimos, a necessária correção para a genuína origem da língua e lutam pela não permissão do seu abastardamento.
Daí, porque consideram ser uma via eficaz, terem requerido o Estatuto de Observador junto da CPLP – Comunidade de Países de Língua Portuguesa. Entretanto, adentro da própria Galiza, constituíram, em 6 de outubro de 2008, a Academia Galega de Língua Portuguesa, e, em 2011, uma Fundação da AGLP. Na cerimónia da constituição da AGLP, em Santiago de Compostela, estiveram presentes na mesa, e fizeram a respetiva intervenção alusiva ao ato, o Prof. José-Martinho Montero Santalha, como anfitrião; José Craveirinha, escritor moçambicano, que aludiu ao facto de, na sua infância em Moçambique, sendo ele filho de português continental, da zona de Abrantes, a sua mãe dizer, com frequência, que ele era um galego como o pai; o Prof. Artur Anselmo, do Instituto de Lexicologia e Lexicografia da Academia de Ciências de Lisboa; o Prof. João Malaca Casteleiro, da ACL; o Prof. Doutor Carlos Reis, da Universidade Aberta de Lisboa; o Professor Evanildo Bechara, da Academia Brasileira de Letras.
No fim da cerimónia, foi tocado e cantado o Hino Galego em cuja letra não se refere Galiza, mas sim Nação de Breogán, figura celta mitológica a quem é atribuída a afirmação da nação galega. A ele, Breogán, também se atribui a fundação da cidade transmontana de Bragança.
Em 5 de outubro de 2009, também em Santiago de Compostela, realizou-se o I Seminário de Lexicologia da AGLP, durante o qual foi assinado um Protocolo com a Universidade Aberta de Lisboa e em que intervieram figuras proeminentes da lusofonia, nomeadamente, por parte da AGLP, o seu Presidente, Prof. José-Martinho Montero Santalha, o Vice-Presidente, Prof. Isaac Alonso Estraviz, e, por parte da Universidade Aberta de Lisboa, o seu Reitor, Prof. Doutor Carlos Reis, e o Pró-Reitor, Prof. Doutor Domingos Alves Caeiro. Intervieram também o Prof. Artur Anselmo, do Instituto de Lexicologia e Lexicografia da Academia de Ciências de Lisboa, o Prof. João Malaca Casteleiro, da ACL, a Professora Maria Francisca Xavier, da Universidade Nova de Lisboa, o Prof. Álvaro Iriarte Sanromán, da Universidade do Minho, o Professor Evanildo Bechara, da Academia Brasileira de Letras, o Prof. Adriano Moreira, Vice-Presidente da ACL.
Em 25 de setembro de 2010 realizou-se o II Seminário onde foi figura destacada o Professor Carlos Amaral, Administrador da Priberam Informática SA, que falou sobre a inclusão do Léxico da Galiza nas ferramentas relativas ao uso da língua portuguesa.
Tive já pessoalmente o privilégio de fazer uma intervenção oral, em janeiro deste ano, na Inauguração duma Exposição de lindos painéis alusivos ao Cinquentenário da Fundação de Brasília, capital do Brasil, na Corunha, na Associação Cultural Alexandre Bóveda, figura heróica que pagou com a vida o seu forte galeguismo, “crime” pelo qual foi fuzilado pelas tropas insurretas de Franco.
Em junho último tive também o privilégio de, no acompanhamento dum grupo de escritores brasileiros, ser conduzido por amiguirmãos galegos a Padrón, terra de Rosalia de Castro, e a Rianxo, terra de Castelão, e sermos recebidos pelo respetivo Presidente da Câmara, por coincidência no seu primeiro dia de funções autárquicas.
Fazendo nós uma reflexão sobre as verdadeiras origens da nossa língua, constatamos que a dita pronúncia do norte de Portugal não será mais do que uma maior aproximação às suas origens, de que se destaca algumas trocas de vês por bês (e vice-versa) e a acentuação de om em vez de ão. Mas uma curiosidade ressalta nesta apreciação do om. No Brasil, terra para onde foi transportado o português (algum dele agora arcaico), perduram palavras terminadas em om em vez de ão, de que serve exemplo o termo cupom em vez de cupão (cupom fiscal), tal qual na Galiza de hoje. A letra k pronuncia-se no Brasil cá, exatamente como os galegos a dizem, enquanto que no resto da lusofonia se fala capa.
Esta diversidade na unidade será, porventura, a maior riqueza duma língua. E não adianta os sulistas procurarem brindar os nortenhos com as brincadeiras da pronúncia do norte, até porque lá, principalmente em Lisboa, há também as suas caraterísticas muito específicas. Serve de exemplo a pronunciação de ô em vez de ou: touro, ouro, mouro; á em vez de ai: baixa, caixa, faixa; ai em vez de ei: feira, tinteiro, madeira; ié em vez de é: fera, chapéu; e no grave erro gramatical de transformar palavras dissilábicas em monossilábicas: rio, tio, desafio.
Face ao que precede sobre a Galiza e o galego, não estará o título deste artigo invertido? Não seria melhor escrever A Lusofonia e a Galiza?

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O nosso idioma na Oceânia

Por José Manuel Barbosa

Castelão conta-nos no seu "Sempre em Galiza" que a nossa língua é extensa e útil porque com pequenas variantes se fala em Portugal, Brasil e nas (ex-) colónias portuguesas. Algo sabemos sobre ela na América, na África e algo menos, mas algo, na Ásia....mas a história da língua na Oceânia e muito desconhecida. 
Há uma teoria defendida ultimamente pelo nosso amigo e professor luso-australiano Chrys Chystelo que nos diz que os primeiros europeus em chegar a Austrália foram os portugueses. Esta teoria bem conhecida em outras partes do planeta abre novas portas ao conhecimento do nosso passado e nos dá lógica à necessidade do português em terras do longínquo Sul...das antípodes. Vamos ver algo disso:


Timor

Os portugueses chegaram a esta região da Oceânia em 1514 com o fim de explorar as suas riquezas naturais e com o fim encomendado pelos papas de levar missionários para propalar a religião católica.
A primeira organização da Ilha foi no ano de 1702 para dar uma administração colonial criando um território denominado Timor Português mas criando um conflito de fronteiras com a Holanda que se solucionou em 1914 e fixando as fronteiras que ficam reproduzidas hoje.
Na Segunda Guerra Mundial os Aliados, nomeadamente australianos e holandeses lutaram contra o Japão nesta ilha violando a neutralidade de Portugal que recuperou o seu domínio em 1945 quando foram expulsos. Após estes acontecimentos e dada a passividade de Portugal perante esta guerra na defesa do Timor e os muitos sofrimentos e sangue investido contra os japoneses por parte do povo timorense, o sentimento independentista colhe força.
De qualquer jeito as guerras nas colónias africanas não têm qualquer correlato na Ilha que ficava unida na sua multiplicidade étnica, cultural e política de mão dos portugueses
Com a data de 28 de Novembro de 1975 e após uma guerra civil de duração curta ocasionada pela mudança de regime na República Portuguesa é proclamada a República Democrática de Timor-Leste ou Timor Lorosae, mas em 7 de Dezembro é invadida pela Indonésia. Durou 24 anos a ocupação do território português que nunca aceitou nem reconheceu nem a independência nem a ocupação.

 A violência e o etnocídio deixaram um Timor numa situação muito complicada. A luta contra o comunismo por parte da Indonésia justificou a olhos das grandes potências ocidentais a ocupação mas não impediu a condenação por parte da ONU. Quase 200.000 vítimas por parte da Indonésia fazem desta carnificina histórica um dos mais grandes etnocídios do século XX, com torturas, combates, guerrilhas, esterilizações forçadas...
Para além disso, a proibição do português e a islamização obrigou o governo indonésio a trazer pessoal humano desde a Ilha de Java com o fim de diluir a identidade timorense e levar a cabo a  exploração dos recursos petrolíferos do Mar do Timor com a cumplicidade da Austrália. Isto fez com que a economia da Ilha se sentisse de forma muito especialmente importante.
Tudo isto provocou com que o sentimento de independência se acrescentasse sendo chefiado por figuras como Nicolau Lobato ou Xanana Gusmão.

A internacionalização do conflito e a luta diplomática junto com a ajuda do Vaticano fizeram com que em 30 de agosto do 1999 os timorenses votaram a independência por meio dum referendo promovido pela ONU para que em 20 de maio do 2002 se viesse a concretizar a tomada do poder livre da Indonésia e a entrada nos Organismos Internacionais.

Segundo a Constituição democrática do país, o Tétum é a língua oficial e nacional da República Democrática de Timor-Lorosae ao lado da língua portuguesa acompanhadas de mais quinze línguas de origem malaio-polinésio. Aliás a língua indonésia e o inglês têm reconhecido o estatudo de línguas de trabalho da administração. Ainda o chinês tanto mandarim como cantonês são faladas na ilha por causa das migrações favorecidas pelos aconteceres históricos da Ilha.

Durante a época colonial o português era a língua da administração e do ensino convivindo com as outras línguas nativas. Ao ser proibido  pelos indonésios e dar-se a situação de imposição da língua dos invasores a afetividade popular faz com que se considerasse a nossa língua  símbolo de resistência usada e promovida pelo FRETILIN (Frente de Timor para a Libertação Nacional). Dessa forma conseguida a Independência o Português torna-se  língua oficial.
Portugal e Brasil têm colaborado ativamente no progresso da Ilha fazendo com que a nossa língua tenha nesta altura uma percentagem de falantes de cerca de 25% o que lhe dá um lugar de importância mais do que simbólica na região.

Até agora, e antes do Acordo Ortográfico, a norma ortográfica usada pela República Democrática de Timo-Lorosae é a brasileira. Isto é por ser os contactos com o Brasil muito mais intensos do que com a República Portuguesa centrada em assuntos europeus e penínsulares mais do que em desviar fundos económicos e humanos na recuperação das suas ex-colónias ultramarinas.

Os vínculos entre o novo Estado de Timor-Lorosae e a ex-metrópole são fortes ainda hoje. As razões históricas para além das linguísticas unem fortemente os dois países mas a influência e o apoio material, económico, cultural, linguístico e empresarial do Brasil nesta ilha ex-portuguesa fazem com que as hipóteses de sobrevivência linguística do galego-português se acrescentem muito numa região do planeta onde anteriormente fora língua franca hegemónica sobre outras línguas europeias. Nessa região a afetividade em favor da nossa língua é grande e isso é muito interessante para projetos futuros e muito mais se o Brasil atender estas necessidades.


Austrália

A região dos Kimberley onde von Brandenstein coloca os territórios de colonização portuguesa na Austrália e onde se falou um crioulo de base portuguesa pelos Yawuji Barra e os Yawyji Baía até meados do século XX, mescla de aborígenes e escravos pretos africanos.

Chegados aqui, há que dizer, ou melhor, desvendar o facto de os portugueses terem chegado às costas norte-ocidentais da Austrália muito antes do que quaisquer outros europeus. É esta teoria mantida e desenvolvida por Kenneth Gordon McIntire, advogado e estudioso australiano de origem escocesa, no seu livro “The secret discovery of Australia” e ocultado até aos nossos dias pelo xenofobismo inglês que ainda hoje mantém falsamente ao Capitão James Cook como o autêntico descobridor do vasto continente dos mares do Sul, mas apenas o Capitão Cook chegou a Austrália no 1770 enquanto que o escocês McIntire diz que os portugueses atingiram Botany Bay e Sydney Heads entre os anos 1516 e 1524.

Isto não parece muito despropositado se considerada a proximidade entre as colónias portuguesas do Sueste asiático e a Austrália (416 quilómetros  por mar desde a Ilha do Timor) e pela possibilidade técnica e material de podê-lo fazer numa altura histórica na que o Reino de Portugal era uma grande potência marítima, capaz de atingir esses 416 quilómetros com muita facilidade.

Um antepassado do Professor McIntire descobriu no século XIX um mapa chamado “O Delfim” e elaborado no 1536 para o príncipe herdeiro da Coroa de França (daí o nome d’O Delfim), no que aparece ao Sul da Indonésia uma grande massa continental chamada de Java a Grande que segundo as provas que McIntire expõe deveria ser a Austrália pelas formas.

Existem, aliás, umas ruínas em Nova Gales do Sul nas que aparece uma pedra com uma inscrição com uma data. Nessa data aparece apagado o terceiro dígito de tal forma que se fosse um 2 poderia ser o ano de 1524, ano no que segundo a documentação histórica por ele consultado faria com que o protagonista dessa expedição e descoberta poderia ser Cristovão de Mendonça. Sabe-se, ainda, que James Cook na sua famosa expedição se valeu de Manuel Pereira, um marinheiro português embarcado no Brasil para entender-se com os aborígenes o que leva a acreditar na possibilidade de os portugueses conhecerem essas terras e a forma de se entenderem com os nativos.

Também o historiador e linguista Carl Georg von Brandestein mantém que o Noroeste australiano foi colonizado por portugueses e escravos africanos pretos levados pelos esclavagistas lusos à região de Kimberley. Esses descendentes de escravos africanos miscigenados com aborígenes mantiveram um dialeto mistura da língua autóctone aborígene e crioulo português do qual mais de 260 palavras de uso comum são do nosso idioma e mais de 80 topónimos têm a sua origem no galego-português.

 Esta variedade linguística permaneceu viva até o ano 1930 numa zona que ocupa a região de Pilbara, nos montes Kimberley e entre o arquipélago Buccaneer até ao Vale do Fitzroy. Foram colonizadas as terras de Dampier, a Angra do Rei desde Derby até à foz do rio Fitzroy em Yeeda, sendo habitadas essas regiões pelos Yawidji Barra (antepassados dos Barra) e os Yawidji Baía (antepassados dos Baía. Literalmente Yadwidji significa avôs). Estes grupos humanos seriam os descendentes dos Yawuji, os que tomaram contacto directo com os primeiros portugueses que ali chegaram a começos do século XVI.

Tendo em conta que até ao 1832 o Reino Unido não reconheceu como suas as possessões da Austrália Ocidental aguardando que Portugal as reclamasse e se fizessem valer os seus direitos históricos para assegurarem-nas como pertencentes ao Reino de Portugal, e tendo em conta que a evidência humana e linguística esteve presente durante muitos anos –mais de três séculos-, só se entende que esta história não se ministrasse nos programas universitários e se chegasse ao ponto de se distorcer a história por várias razões.


Acha o professor  J. Chrys Chrystello da University of Technology of Sydney (2005: 61-96), em quem nos baseamos para escrevermos este texto, que isto atende para duas razões fundamentais. Estas são: a) Por ser o Reino Unido uma potência colonial, militar e económica muito mais poderosa do que Portugal durante os séculos que nos ocupam nesta narração dos factos e portanto potência cultural que conta a história segundo os seus critérios e interesses políticos e históricos, e b) por estarem essas regiões de Austrália zonas fora da demarcação do Tratado de Tordesilhas (ou pelo menos duvidosas segundo critérios da  época), e portanto legalmente não pertencentes às regiões determinadas como áreas de influência e colonização portuguesas, mas espanholas, o que a final fez com que não fosse reconhecido claramente o protagonismo português nessas regiões por prudência e temor ao sempre inimigo espanhol. 
A dia de hoje a Austrália, pertencente à Commonwealth descobre e reconhece os seus vínculos com a língua nascida na velha Gallaecia. É por isso que o seu interesse de se integrar no mundo da Lusofonia é claro, conhecido e desejado pelos próprios australianos.


Bibliografia:

Baxter, A. 1990. “Notes on the Creole Portuguese of Bidau, Timor”. Journal of Pidgin and Creole Languages 5.1:1-38
Chrys Chrystello, J. “The Yawuji Barra and the Yawuji Baia (Os Avôs de Barra e os Avôs de Baía)”. Revista AGÁLIA. Revista de Ciências Sociais e Humanidades. Nº 81/82, 1º Semestre do ano 2005. Ed. AGAL (Associaçom Galega da Língua). Santiago de Compostela. 2005

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Uma experiência docente pró-reintegracionista



Por José Manuel Barbosa 

Nas nossas práticas docentes (*) procuramos sempre dar uma visão global da teoria do reintegracionismo, recorrendo a todos aqueles autores que pela sua autoridade científica ou moral, por ativa ou por passiva -que também os há- vêm abalizar os nossos pressupostos.
Quando damos cursos da nossa língua, começamos sempre por ensinar os pensamentos daqueles vultos da galeguistica e mesmo da anti-galeguistica -se esse nome fosse válido para aqueles que quereriam ver-nos sem língua- que podem ser clarificadores para os nossos alunos. Por isso recorremos a diversas personalidades que nos podem ser de utilidade. Começamos por duas autoridades científicas assépticas. A sua objetividade vem dada por não serem galegas nem implicadas na problemática nacionalitária na que estamos mergulhados e aliás reconhecidas internacionalmente de todos os pontos de vista. Eles são: O romeno (moldavo) Eugen Coşeriu  e o catalão Joan Coromines.
Do primeiro temos: 
          “En lo que concierne a este problema, los romanistas e hispanistas están en general de acuerdo en que el gallego es una forma particular del conjunto dialectal gallego-portugués, [...]
[...] si se separase el portugués del gallego, habría que separarlo tambien  del  brasileño.
Con todo, o sea,  a pesar de que durante siglos no ha habido contactos efectivos, el  gallego y el portugués siguen perteneciendo al mismo Continuum lingüístico. La separación puede, sin duda, establecerse en el plano de la lengua común (que para el gallego, en parte, se está todavía elaborando), pero no a nivel popular y dialectal, de suerte que, para la lingüística histórica, sigue teniendo plena vigencia la denominación compuesta “gallego-portugués” creada, según parece, por lingüístas alemanes.
Claro, que esto no significa que el gallego sea “portugués”, sino más bien lo contrario: es el portugués el que es “gallego”.  Históricamente, el portugués es el gallego de la Reconquista y es hasta hoy, en todas sus formas, la continuación de ese gallego [...].  Se trata, por tanto, del caso, bastante raro en la historia de las lenguas, de una lengua que, precisamente en la forma que se difunde y se constituye en lengua común y gran lengua de cultura, se llama con otro nombre: ya no gallego, sino portugués.
E.COSERIU.: El gallego en la historia y en la actualidad. Actas II Congresso Internacional de Língua Galego-Portuguesa na Galiza. Ed. AGAL. Crunha 1989

Por outra parte temos a Joan Coromines:

“Vaia ante todo a miña felicitazón ao autor do artigo en prol da unificazón ortográfica galego-portuguesa, publicado no número 51 de “Grial”. Felicitazón entusiasta: eis a voz da razón, eis o que eu sempre penséi.
Aos meus amigos galegos e portugueses dixen sempre o mesmo, e é precisamente o que se diz nese artigo: o principal adianto a facer na direzón da unificazón lingüística galego-portuguesa é no campo de unidade ortográfica. Dixen sempre isto aos amigos R. Piñeiro, Rodrigues Lapa, Martínez López, Costa Clavell, Xosé L. Pensado, e outros, que poden prestar testemuño. E este adianto é non só eminentemente desexável, mas libre de toda obxeción seria; non só posível mas aínda fácil se existir boa vontade, habilidade e pericia na conduzón do problema.
         Nas outras cousas o movimento de freo, de entrave, marcado polo amigo Piñeiro, paréceme moito razoável, verdadeiramente motivado, profundamente respetável e digno de simpatía.
         [...]
         Aliás, o exemplo do catalán e do basco pode e debe guiar ós galegos e portugueses no esforzo de unificazón. Os casteláns traballaron sempre no fomento das pequenas discrepanzas entre o uso literario do catalán de Valencia e de Mallorca e do catalán do Principado; entre os dialectos navarro, guipuscoano e bizcaíno do basco literario. Foron sempre os partidarios mais ou menos secretos (ou faceiros) da míngua de vitalidade desas línguas os que pretenderon ser os defensores das singularidades locáis, cando se trataba de Valencia, Mallorca ou Navarra, xamáis cando se trataba do catalán ou basco normáis! É sempre o medo da ameaza castelán o que actuóu de freo ante os movimentos de reacción contra as suicidas tendencias centrífugas no seo das línguas minoritarias.
         Son lingüista, son hispano; se, a tiduo de tal, algún consello meu (cheo de boa vontade!) pode resultar técnicamente útil para os galegos, sentiréime satisfeito. Se eu fose galego, tería escrito moito sobre todo iso; se fose portugués, non menos, e tería feito algunha cousa, tal vez eficaz, no mesmo sentido. É únicamente o feito de ser estranxeiro -inda que sexa un estranxeiro benévolo e simpatizante- que me privóu de esplicar as miñas ideas. Temo ser mirado con esplicável desconfianza, ser quizáis menos útil que contraproducente.
         Ainda con estes temores, permítome seguidamente algúns comentarios detallados das propostas expresadas en dito artigo. Espero que estes comentarios ao mesmo tempo demostrarán ao leitor galego cánto, cuán profundamente, me intereséi sempre por estes asuntos. E concretaréi, referíndome especialmente aos pontos que o autor aborda nas partes 5-a e 5-b,
a) PROBLEMAS MERAMENTE GRÁFICOS
1 e 2:  LH e NH
Participo absolutamente na opinión de que se deben adoptar resoltamente as grafías lh e nh.
         [...]
         Joan Coromines. Sobre a unificación ortográfica galego-portuguesa. Revista GRIAL. Nº53.Janeiro-Março 1976, pp.1-13.

      Seguidamente os nossos argumentos passariam a autoridades científico-filológicas galegas implicadas no processo de extensão e normalização da nossa língua.

CARVALHO CALERO: 
“O português é umha forma do galego, como o andaluz é umha forma do castelhano, e a descastelhanizaçom indispensável tem como correlato a reintegraçom necessária.
R. CARVALHO CALERO.: Da fala e da escrita. Galiza Editora. Ourense. 1983, Pág. 81

Também:

      “O galego nom nace cando renace a sua expressom escrita no século XIX.  Entom mais bem morre, porque ao admitir como supletório o castelhano e remodelar a sua forma interior com referência ao mesmo, estende acta escrita, e assinada polos intelectuais galegos, da consciência popular da fala residuária que desde os começos da idade moderna está latente no seu comportamento.  Claro que os seus cultivadores aspiram teóricamente a salvá-lo e fomentá-lo; mas debatendo-se numha evidente contradiçom, porque ingenuamente aceitam a imagem do galego que lhes fornecera a doutrina oficial”.(4).
CARVALHO CALERO, R.: Do galego e da Galiza. Sotelo Blanco Ed. Compostela. 1990, Pág 16

      E ainda:

“Nom podemos renunciar à vantagem que o mesmo castelhano desfruta na sua osmose nom só coas formas peninsulares do espanhol, mas coas próprias das terras ultramarinas colonizadas lingüísticamente.  A história do galego é paralela à do castelhano.  Este como espanhol ou hispano-americano, é falado, segundo ouvimos, por trescentos milhons de pessoas.  Aquel, como português ou galego-luso-africano-brasileiro, pola metade, cando menos daquela cifra.  O galego, pois, norma dentro de um sistema de grande difusom com o que ocupa o segundo lugar dentro das línguas románicas, nom tem por que xebrar-se do seu mundo natural, e se a história política violentou a sua natureza lingüística, estamos a tempo de rectificar”.
CARVALHO CALERO, R.: Do galego E da Galiza. Sotelo Blanco Ed. Compostela. 1990, Pág 17
        
         Veja-se nos textos expostos como Carvalho não só manifesta a unidade substancial do galego-português, mas também reconhece o desvio histórico, junto com a possibilidade de recompor a unidade das duas partes separadas por razões políticas alheias à língua  e exprime com paixão de adolescente nos seus diferentes textos, que os reintegracionistas não vão  ficar parados  perante os argumentos dos elaboracionistas ou isolacionistas que falam  da  inoportunidade do momento da  reintegração.                                      
                                                                                                                              “Nom faltam entre nós os que consideram que o isolamento do ramo setentrional do galego-português com relaçom às suas formas  de expansom  é um feito consumado  de carácter irreversível, e que estamos obrigados a assumir a história.  Se isto significa que devemos aceitar a castelhanizaçom do galego, permitamo-nos formular duas observaçons:
É a primeira que, [...] o galego, conservou polo momento o seu dispositivo estrutural suficientemente firme para que nom se poda falar ainda de consumaçom da sua absorçom polo poder lingüístico central [...].
E a segunda observaçom que nos permitimos formular é que nós nom somos fatalistas, que nom professamos o islamismo lingüístico, senom mais bem o cristianismo libero-arbitrista, e cremos, em conseqüência, que a história  a fam os homes, e que o pam que uns apedrárom, outros o podem soerguer, se nom fosse assi,  nom valeria  a  pena nengumha luita política e cultural, e deveriamos retirar-nos a praticar o imobilismo
nirvânico,  deixando que as pegas ou as cochorras figessem os seus ninhos nas nossas intonsas cabeleiras de eremitas ensimesmados.”

CARVALHO CALERO, R.: Do galego e da Galiza. Sotelo Blanco.Ed. Compostela. 1990 Pág 18

         Imediatamente recorremos agora às manifestações escritas pela oposição, isto é, pelos próprios isolacionistas que à altura dos anos  90 e 91 moderam  os  seus  posicionamentos perante a impossibilidade de negar certas evidências, já começadas a  assumir  pela sociedade:
                                                                                                                                        Francisco Fernández Rei: 

“Na actualidade, desde o punto de vista estrictamente lingüístico, às duas marxes do Miño fálase o mesmo idioma, pois os dialectos miñotos e transmontanos  son unha continuación dos falares galegos, cos que comparten trazos comuns que os diferencia dos do centro e sur de Portugal; pero no plano da lingua comun, e desde unha perspectiva sociolingüísta, hai no actual occidente peninsular duas linguas modernas, con diferencias fonéticas, morfosintácticas e léxicas, que poden non impedi-la intercompresión [...].”
F. FERNÁNDEZ REI,.: Dialectoloxía da lingua galega. Ed.Xerais-2º Ed.Vigo. 1991, Pág 17

Claro que ceder perante uma situação como a que nos ocupa e dar a razão ainda que seja só em parte é custoso, pelo que manter uma imagem de aparente segurança e aparente rigor científico faz-se necessário para evitar a perda da auto-estima e de credibilidade perante os seguidores, razão pela qual  o  autor  adversativiza  as suas mafestações com o fim de fazer ver que o que se diz no começo do parágrafo não é exactamente o que se quis dizer.
         Do ponto de vista reintegracionista, joga com o possível desconhecimento do leitor, acrescentado pela paixão dos possíveis leitores isolacionistas aos que vai dirigida a mensagem ao encher o texto argumental com confusas expressões como  o de “língua comum”(veja-se o que mais acima diz Coseriu sobre a “língua comum”) e “perspectiva sociolingüística” (e veja-se o que diz Carvalho sobre a prática do “imobilismo nirvânico”).
         Nestas alturas, o aluno a quem lhe apresentamos estes pensamentos, vai apanhando uma ideia de como está o assunto, à vez que começa a mostrar interesse ao descobrir cousas que não  se  lhe comunicaram quando ele tinha estudado galego na escola, mas que acontece quando ao aluno lhe apresentamos a realidade do pensamento dos clássicos do galeguismo posicionados em favor da reintegração linguística? Vamo-lo ver no capítulo seguinte...
      
Continuará.....

(*) não dentro do ensino oficial dependente da administração, obviamente, donde somos maltratados, perseguidos e submetidos a mobbing por sermos discrepantes a respeito da normativa RAG.
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