A consciência entre lusófonos da importância da Galiza na conformação da identidade de cada um dos povos que conformam a chamada "Lusofonia" começa a ser maior mas o desconhecimento ainda é grande.
O Professor Marcos Bagno apresenta-nos o seguinte trabalho que posteriormente comentaremos.
Compreendemos o desconhecimento que se possa ter desde o Brasil da longínqua Galiza, um povo com pouca autonomia para defender os seus interesses legítimos internacionalmente e governada por gente dirigida desde a Madrid pouco interessada em estreitar laços com um mundo para eles alheio. Por isso procedemos a corrigir alguns erros:
1- O reino de Galiza não existiu entre os séculos VIII e XI diz-nos o autor do texto mas o Reino da
Galiza nasceu em 411 da mão do seu primeiro Rei de dinastia suevica
Hermerico e deixou de existir por lei em 30 de novembro de 1833 em época da Rainha Isabel II.
2- O
Reino da Galiza não era um reino vassalo do reino de Leão. O reino da
Galiza era o território que ocupava todo o NW peninsular e a sua capital
política, quer dizer, a corte, estava em Leão enquanto o poder religioso
estava em Santiago de Compostela seguindo o modelo do Sacro Império
Romano Germânico onde o poder civil e o religioso tinham duas capitais
(Aachen e Roma no caso do SIRG). Galegos e Galiza, yallaliqa e Yalliqija
era como os andaluzis denominavam a todo o território coincidente com a
velha província romana de Gallaecia até bem entrada a Idade Média.
O reconhecimento da Galiza é testemunhado pelas fontes de toda Europa e também de Al-Andalus. Neste mapa do século XIX o autor da História de Espanha Modesto Lafuente traduz o nome árabe de "Jalikiah" por "Reino de León".
3- O conceito de "Reconquista" está em desuso por inexato e porque leva
parelho outro conceito errado: o de "Repovoação". Não houve
descontinuidade populacional nem organizativa nas regiões do Norte e
Noroeste, enquanto no Sul o que houve foi uma autêntica conquista.
4- Em
1230 Galiza não passou a depender da Coroa de Castela e Leão. Foi em
1230 a primeira vez com que a Galiza (com Leão) se unificou com Castela,
mas houve durante esse século e o seguinte períodos nos que ainda foi
independente e outros períodos nos que se unificou novamente com Castela.
Finalmente a princípios do Século XIV a unificação foi definitiva mas o
poder político galego, a sua nobreza e a sua sociedade ainda eram
soberanos e defensores dos seus interesses, só a partir de finais do
século XV, após as revoltas Irmandinhas e a eliminação da nobreza galega
por parte dos chamados Reis Católicos é quando a Galiza perde a sua
soberania política. Daí em adiante a margem de autonomia era menor mas
não nula e a categoria de Reino continuou até Século XIX. Não é certo,
como diz o autor do texto que a Galiza esteve 750 anos dependente de
Castela... Foi Castela a dependente até que com Sancho, filho de
Fernando e Sancha e irmão de Afonso VI, teve o seu primeiro Rei
independente em 1065... Até esse momento Castela era um território
periférico da velha Gallaecia. No cômputo seguido pela historiografia
castelhana figura como Sancho II mas na realidade é o primeiro Sancho de
Castela, portanto Sancho I.
Os reinos hispânicos durante o século XIII: Portugal, Galiza-Leão, Castela-Toledo, Navarra, Catalunha-Aragão e reinos andaluzis.
5- Também não é certo que a Galiza
nunca tivesse exército nem marina... Os exércitos galegos participaram
de todos os confrontos desde o seu nascimento até a sua abolição como
reino: contra Roma, contra os vândalos, alanos e visigodos, contra o
poder andaluzi onde podemos salientar episódios como a conquista e
entrada em Sevilha em 1248 da mão do ponte vedrês Paio Gomes Charinho Almirante
das tropas galegas... as fontes dizem que a sua entrada foi com som de
gaita...;
Tumba do Almirante Paio Gomes Charinho na Igreja de São Francisco em Ponte Vedra
Exércitos galegos também houve defendendo os direitos
dinásticos de alguns Reis (Pedro de Trastâmara, Joana de Trastâmara...),
defendendo tendências sociais (Irmandinhos ou exércitos nobiliários),
fazendo parte dos terços galegos em América, guerras de Europa... o
exército galego que lutou contra Napoleão organizado pela Junta Geral do
Reino de facto independente por falta de monarca e sendo o primeiro
País da Europa livre de franceses... Lembramos com isso figuras
sobranceiras como o grande Bernardo Gonçalves do Vale "o Cachamoinha", libertador de Vigo e chamado assim por ser natural da aldeia do mesmo nome das aforas de Ourense e pertente ao Concelho do Pereiro de Aguiar ...,
Bernardo Gonçalves do Vale "Cachamoinha" Coronel do Exército galego libertador da parte sul-ocidental da atual Galiza dos franceses.
6- Não há uma família de línguas derivadas
do galego... há uma língua histórica nascida na Gallaecia romana e
medieval com variantes nacionais e regionais e cujo mapa se apresenta abaixo. Língua só há uma, origem só há um e variantes há umas quantas... Diversidade e unidade harmonizando-se entre si.
7- Finalmente concordar com o Marcos Bagno com que a obriga de
estreitar vínculos é uma necessidade geo-estratégica, económica e
identitária tanto para galegos como para o resto dos falantes da nossa
língua.
A
velha guerra encoberta entre Emergentes e Império Ocidental, agora –
como já tínhamos comentado – se tornou nova guerra aberta. O
Brasil joga em esse nó geoestratégico um papel de relevo na América
Latina. Na tentativa de derrubar o Brasil – e com ele terminar com
o sonho breve de independência econômica continental – estão
depositadas parte das necessidades Imperiais anglo-saxônicas de
manter o controlo hegemônico global.
Tomar
o Banco do Brasil, entregá-lo a uma pequena elite de banqueiros
vassalos do anel de poder londrino e de Wall Street com o fim de
derrubar a Petrobras, transformá-la numa empresa menos dinâmica,
privatizando-a ao serviço das grandes transnacionais petrolíferas
Ocidentais; faz parte duma necessária estratégia de sobrevivência
imperial, que passa inevitavelmente pela recolonização do jardim
traseiro, que para os EUA foi sempre desde o século passado, a
América do Sul.
A
recentes manifestações em várias cidades do Brasil, nas que
pudemos observar em várias das faixas reivindicativas, chamamentos
ao exército para tomar o controle do país, não deixam de ser
paradoxais, dado que em estes momentos é o atual governo brasileiro
o único que manifestou sua disposição a garantir a soberania real
do território. Os rivais mais próximos nas ultimas eleições,
levavam em seus programas de governo a conversão do Banco Central,
em um banco privado ao serviço do capital financeiro transnacional
seguindo o modelo da Reserva Federal Americana ou do Banco Central
Europeu o qual na pratica significa a entrega do fluxo monetário,
sua expansão e contração, ao sector bancário privado. Este sector
não conta com um anel de poder regional nem global limitando a sua
ação para integrar-se no marco dos mercados mundiais geridos
pelo anel de poder imperial anglo-saxão, nem tem hipótese, no curto
prazo, de qualquer tipo de controlo sobre seus próprios recursos e
patrimônio.
Nenhum
militar entregaria a soberania do seu pais, a um poder econômico
estrangeiro, pelo que podemos afirmar que se de algo pode estar
preocupada a cúpula militar do país é sem dúvida, de que a
situação de descontentamento brasileira, possa deteriorar-se ao
extremo de o país ficar dividido em duas realidades
irreconciliáveis. Esta divisão provocaria uma tensão semelhante a
que hoje vive a Venezuela e não é de estranhar que todos os país
da América de Sul, que estão a fazer hoje grandes esforços pela
integração regional, dentro do Mercosul, Unasul ou Celac, etc,
estejam sendo almejados pelos ataques econômico–financeiros,
mediáticos e sociais, sendo utilizados nos protestos a corrupção
como arma política muito eficaz, visando como alvo a destruição da
convergência regional.
Fora
da analise de modelos partidários ou da polarização
esquerda–direita, o certo é que se um país tem o objetivo de ser
o centro referencial dum novo poder emergente, ele precisa
desenvolver um anel de poder abrangente que se consolide internamente
e no âmbito regional que tenciona influenciar. Sendo no caso do
Brasil, ele é o único ator com capacidade real, para impulsionar
uma independência certa do continente Sul-Americano. Deve pois criar
um modelo referencial exportável e compatível com o resto dos seus
parceiros políticos e vizinhos continentais.
No
cultural, o modelo está claro: um modelo de unidade na diversidade.
Isto é relativamente fácil, num país que abrange dentro de si
próprio todas as culturas, raças e tradições do planeta e que
durante decênios tem colaborado na sua integração e miscigenação
em contraste com o encerramento dentro dos seus próprios limites de
estas próprias comunidades em outros territórios americanos.
No
nível sócio–político e econômico, o Brasil precisa criar
modelos flexíveis que sejam facilmente adaptáveis às realidades do
seu contorno. Esse processo é secular, lento e paciente. Paciência
e diplomacia têm sido duas das ferramentas que melhor sabe utilizar
o poder brasileiro.
No
entanto, na nova conjuntura internacional de guerra direta entre
Emergentes e Anglo-saxões, é inevitável, que o Brasil ao mesmo
tempo que define sua estratégia regional, resista as tentativas dos
poderes exteriores de dominação.
Se
por uma parte a chegada cada vez mais maciça do capital chinês tem
sido importante para livrar a região duma vassalagem real ao capital
transnacional ocidental, também por outra parte põe em evidência os
medos do Império Norte-americano de ver-se ultrapassado como
parceiro comercial e que isso signifique uma aliança Sul-americana
em favor da hegemonia global chinesa. Nada mais absurdo para o futuro
desenvolvimento potencial do Brasil, como trasladar o eixo do mundo
do Atlântico Norte ao Pacífico... Assim que o Brasil, terá de
saber movimentar-se com melhor subtilidade em este difícil contexto,
exigindo de Washington novos modos de fazer política ao tempo que
utiliza os amortecedores chinês e russo para evitar ser engolido
pelo gigante Ocidental.
É
pois em esta tessitura que Brasília precisa urgentemente criar um
modelo inclusivo, a nível interno, que leve aos diferentes atores
políticos do país a pactuar, precisa também um rascunho de acordo
que permita pôr em marcha um anel flexível de poder propriamente
brasileiro baseado na intocabilidade do Banco Central que é quem
garante da independência econômica mas também precisa a manutenção
das empresas estratégicas como Petrobras, garante de Independência
energética, nas mãos do governo brasileiro. Terá igualmente que
acordar-se um modelo econômico próprio que do nosso ponto de vista
deve ser derivado do antigo modelo europeu do Estado Providência,
onde o Estado faz ponte entre a força do trabalho e o capital,
mantendo o equilibro entre ambos, permitindo a livre inovação,
iniciativa e criatividade privada mas ao mesmo tempo desenvolvendo um
modelo de redistribuição social justo e equitativo que permita às
classes sociais mais humildes viver dignamente e crescer
continuamente como seres humanos, com capacidade para desenvolver
suas potencialidades e nobres valores.
S. Tomé e Príncipe, país denominado como República Democrática de S. Tomé e Príncipe, ascendeu à independência em 12 de julho de 1975 na sequência do Golpe Militar em Portugal, que ficou conhecido na História como O25 de Abril, em cujo Programa estavam introduzidos os historicamente célebres 3 D’s: Democracia, Desenvolvimento e Descolonização.
Em 1960, no exílio e manifestando-se internamente na clandestinidade, foi fundado o CLSTP, mais tarde, em 1972, designado por MLSTP, Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe (alterou o termo Comité, pela união a outros organismos políticos), sob a responsabilidade do Dr. Manuel Pinto da Costa, que se tornaria o primeiro Presidente da Republica, logo após a independência, uma vez que este Movimento, entretanto transformado em partido, foi reconhecido como o único representante legítimo do povo são-tomense. Miguel Trovoada assumiu as funções de Primeiro-Ministro, logo após eleições que decorreram no período de transição de poderes. Em 12 de dezembro desse mesmo ano foi promulgada a Constituição do país, tendo sido definido o MLSTP como o único partido legal da nação. Entretanto, mercê de manifestações internas que corporizavam diferentes sensibilidades, o Partido, em 1989, iniciou um processo de transição para um sistema pluripartidário, depois de um debate numa sua conferência nacional. Em agosto de 1990, após referendo, foi aprovada uma nova Constituição democrática e o MLSTP passou a assumir-se como de cariz social-democrata. Em 1998, num Congresso Extraordinário do já então denominado MLSTP-PSD, foi eleito Presidente do Partido, por unanimidade, Manuel Pinto da Costa, cargo que ocupou até 2005, tendo sido substituído, em 27 de fevereiro, por Guilherme Posser da Costa, anterior Primeiro-Ministro.
Como o cargo de Presidente do Partido nem sempre foi coincidente com a função de Presidente da República, por um lado, e como se tinha aberto a possibilidade de outras formações políticas concorrerem a eleições democráticas, por outro, e ainda porque houve tomada de poder em atos de natureza militar, o quadro da sequência cronológica de ascensão ao mais alto cargo da nação apresenta-se assim formado:
- Manuel Pinto da Costa, do MLSTP, de 12 de julho de 1975 a 3 de abril de 1991;
- Miguel Trovoada, da Ação Democrática Independente, de 3 de abril de 1991 a 15 de agosto de 1995 – primeiro Presidente eleito democraticamente;
- Manuel Quintas de Almeida, Militar, de 15 a 21 de agosto de 1995;
- Miguel Trovoada, da ADI, de 21 de agosto de 1995 a 3 de setembro de 2001 (entretanto re-eleito em 1996);
- Fradique de Menezes, da ADI, de 3 de setembro de 2001 a 16 de julho de 2003;
- Fernando Pereira, Militar, de 16 a 23 de julho de 2003;
- Fradique de Menezes, do MDFM-PL, de 23 de julho de 2003 a 3 de setembro de 2011;
- Manuel Pinto da Costa, apartidário, desde 3 de setembro de 2011.
S. Tomé e Príncipe situa-se no Golfo da Guiné, é formado pelas ilhas de origem vulcânica de S. Tomé (a de maior dimensão), pela do Príncipe e por vários ilhéus, numa superfície total de cerca de 1 000 Kms 2, tem cerca de 165.000 habitantes, e a capital é a cidade de São Tomé, localizada na ilha com o mesmo nome, na latitude muito próxima de 0, uma vez que se situa mesmo em cima da linha imaginária equatorial.
Dista do continente africano cerca de 300 Km e tem como países vizinhos mais próximos o Gabão, a Nigéria, a Guiné Equatorial e os Camarões.
De clima tropical, húmido, onde a amplitude térmica é de 7º a 8º, variando entre um pouco acima dos 20º e os 30º centígrados, tem, todavia, muitos microclimas em função da altitude, do relevo e da pluviosidade, sendo que esta é influenciada por aquele.
Duas estações climáticas se sobressaem: a mais quente e chuvosa, entre outubro e maio, e a mais amena e com menor pluviosidade, entre junho e setembro, conhecida por Gravana.
Num empreendimento marítimo financiado por um rico comerciante, no reinado de D. Afonso V, de Portugal, Pêro Escobar, João de Santarém e João de Paiva, em dezembro de 1470, descobriram a Ilha de S. Tomé. No mês seguinte alcançaram uma outra ilha a que foi dado o nome de Santo António, mais tarde alterado para Príncipe em homenagem ao, ainda príncipe, D. João, futuro Rei D. João II.
Este arquipélago era, segundo comummente aceite pelos historiadores, totalmente desabitado, razão por que foi posteriormente povoado com gentes levadas da costa africana, principalmente das áreas mais próximas, de início, e de Angola, mais tarde, e também de Portugal, nomeadamente degredados, que, enquadrados por técnicos já especializados pela experiência colhida no Arquipélago da Madeira, e uma vez que o clima a isso era propício, introduziram a plantação da Cana-de-Açúcar. À época, pela sua raridade na Europa, esta cana era considerada como uma especiaria, razão pela qual a potencialidade económica se previa promissora e o investimento fortemente compensador.
Para desenvolvimento destas ilhas, à semelhança dos procedimentos já ocorridos no Arquipélago da Madeira – e mais tarde no próprio Brasil - foi entregue a responsabilidade pela sua governação, com a designação de Capitania, a um Comandante que detinha sob sua responsabilidade as Ilhas de S. Tomé, Príncipe, respetivos ilhéus, as Ilhas de Fernando Pó e Ano Bom, estas duas últimas entregues posteriormente à Coroa Espanhola no âmbito dos dois Tratados de El Pardo, o primeiro em 1761 e o segundo em 1778, pelo que não chegaram a ser exploradas por Portugal. Esses Tratados puseram fim à grande disputa entre Portugal e Espanha pelas suas possessões ultramarinas e foi negociada a troca destas duas ilhas portuguesas no Atlântico e também a então Colónia do Santíssimo Sacramento, hoje Uruguai, por algumas delimitações dentro do Brasil onde havia forte influência de jesuítas espanhóis.
Com a chegada dos portugueses a Terras de Santa Cruz e a também introdução por eles lá da cultura da cana, S. Tomé e Príncipe sofreu forte concorrência do Brasil e o arquipélago foi progressivamente decaindo nesta monocultura, razão por que houve necessidade de diversificar as suas capacidades, tornando-o um autêntico laboratório nessa área. Assim, foram-se paulatinamente introduzindo outras espécies, principalmente as que se tornavam indispensáveis para o abastecimento dos navios que aí aportavam por razões logísticas. Dessa forma emergiu a cultura do milho, mandioca, arroz, banana, inhame, algodão, gengibre, e, numa fase muito posterior, já no Séc. XIX, o café e o cacau. Daqui resultaram indústrias várias, tais como do óleo de palma, de copra, de noz de coco.
Decorrente da sua situação estratégica, foi palco de Entreposto do Comércio de Escravos entre África e as Américas, do que resultaram várias revoltas esclavagistas, donde emergiu um herói nacional de seu nome Amador, homenageado nos dias de hoje.
A Pesca, feita ainda atualmente de um modo próximo ao artesanal, está, todavia, a desenvolver-se para planos de maior dimensão, através de associação cooperativa, para o que contribui a grande riqueza piscícola das suas águas.
Entretanto, face a prospeções efetuadas recentemente em zonas marítimas específicas, concluiu-se que S. Tomé e Príncipe apresenta reservas petrolíferas estimadas na ordem dos 4 mil milhões de barris, o que potencia este país para níveis de desenvolvimento elevado, com a aplicação da fruição dos proveitos destes hidrocarbonetos, logo que a exploração se inicie.
Pelo seu impacto no desenvolvimento ultramarino português e indígeno, o historial destas ilhas é tão rico e tão vasto que proporciona até relatos apaixonados de situações verdadeiras e semificcionadas, romanceadas algumas delas por escritores consagrados, de que são exemplos o Livro Equador, do português Miguel Sousa Tavares, ou Aurélia de Vento, do são-tomense Albertino Bragança.
A flora deste arquipélago é muitíssimo rica, detendo espécies únicas, pelo que se torna um manancial de potencialidades para estudo pelos apaixonados da área.
A língua oficial é o Português, todavia é também utilizado, por alguma população, exceto na parte sul, o São-Tomense, ou Forro, língua de base crioula, isto é, por formação de vocábulos originados uns no português e outros em línguas africanas, aliás, tal qual os diversos crioulos existentes nos antigos territórios portugueses.
A expressão musical são-tomense, embora forte, está ainda numa fase de afirmação, todavia, como já citava o português Manuel de Ferreira Ribeiro, médico, teólogo e homem sensível às questões ultramarinas, que fundou “O Equador”, o primeiro jornal em S. Tomé: “De uma cana, de um coco, ou de qualquer outra coisa, fazem os rapazes um instrumento. Gostam de dança, amam as letras, mas nunca tiveram mestres, nunca puderam ver para imitar, nunca puderam trabalhar e estudar”. Os tempos mudaram, a cana e o coco foram substituídos por reais instrumentos e São Tomé detém hoje excelentes músicos que procuram difundir os valores intrinsecamente indígenas, mas que simultaneamente detêm potencialidades de expansão geográfica. Da sua dança tradicional fazem parte os estilos denominados por Ússua, um tipo de dança de salão, em que os pares são conduzidos por um mestre-de-cerimónias; Dexa, com letra de tipo humorístico ou mesmo de escárnio; Puita, de origem angolana, contém uma componente erótica; Bligá, de exibição de destreza que faz lembrar artes marciais; Danço-Congo, tipicamente africana e a mais popular, é uma dança violenta e muito ritmada.
Da sua rica gastronomia, destacam-se as Papas de Farinha de Mandioca, o Arroz Doce, O Polvo à S. Tomé, o Angu e os Sonhos de Banana, a Canjica, Sooa de Camarão, o Peixe Refogado, o Calulu de Peixe, o Inhame Frito.
Visitar S. Tomé e Príncipe é desfrutar de um contacto com gente sã e acolhedora, é vivenciar uma experiência africana positivamente diferente, é contemplar maravilhas da natureza únicas e usufruir de águas cristalinas e quentes, de um azul e verde inigualáveis, é saborear uma riqueza gastronómica que jamais se esquecerá.
Aprendemos na História e na Literatura que a Língua Portuguesa é o resultado duma lenta e gradual evolução do galaico-portucalense, língua falada em terra galaica e no Condado Portucalense. Mas houve dois Condados Portucalenses, ou Condados de Portucale: o primeiro, fundado em 868 por Vimara Peres, após a Presúria de Portucale (Porto), e cujo território se situava entre Minho e Douro, incorporado depois, em 1071, no Reino da Galiza, cujo soberano era simultaneamente detentor dos Reinos de Leão e das Astúrias; e o segundo, constituído em 1095, em feudo de Afonso VI, Rei de Galiza-Leão e Castela, e oferecido ao burguinhês Henrique (de Borgonha) que recebeu também a mão de sua filha D. Teresa de Leão. Era constituído também por territórios mais a sul, abrangendo já as áreas de Viseu, de Lamego, de Coimbra e de Idanha.
Os Suevos, povos de origem germânica, chegados à Península Ibérica aquando das Invasões Bárbaras, encabeçados por Hermerico, através dum Pacto de ajuda recíproca (foedus) com os Romanos, formam, no ano de 409, o Reino da Galiza (Gallaecia) cuja capital era Bracara Augusta, a atual Braga. Entretanto, chegados os Alanos, tentam eliminar o Reino Suevo, nomeadamente em lutas na atual cidade do Porto, mas infrutiferamente. Todavia, em 585, os suevos não conseguem resistir aos Visigodos e o seu reino é anexado por estes, que tinham a sua capital em Toledo. A designação de Reino da Galiza cessa só no Séc. XIX, com a dissolução da Junta Superior, por Maria Cristina de Bourbon, entretanto formada para defesa mais eficaz das invasões dos exércitos napoleónicos.
Com estes pressupostos, historicamente comprovados, é legítimo nos questionarmos sobre qual a língua antigamente falada no território que hoje constitui Portugal. Óbvio que teria que ser o galego – considerando a Gallaecia de então e não a Galiza atual. Consequentemente, o Português não será mais do que um derivado da língua galega.
E os galegos que língua falam? Bom, aqui a questão não é tão linear como as aparências nos sugerem, pela proximidade temporal da época franquista durante a qual, e apesar de Francisco Franco ter nascido em Ferrol, na Galiza, só se admitia a escolaridade da língua oficial espanhola – o castelhano.
Com efeito, considerando o forte fervor de nação galega que perdura desde há muitos, muitíssimos, anos, os galegos assumem-se como faladores do galego de antanho, e não do galego oficial instituído em 1979, que a capital, Madrid, foi obrigada a autorizar, ao ser incorporada na Constituição Espanhola de 1978 a autonomia de Regiões, algumas das quais com o ensinamento da sua língua nativa. Só que esse galego oficial não corresponde ao galego genuíno das gentes galegas. O argumento utilizado foi subtil … supostamente é para mais fácil aprendizagem dessa língua pelos não autóctones, daí a maioria dos termos serem acastelhanizados, logo, aculturados. A política a isso obriga e as verdadeiras razões são facilmente entendíveis.
Só que muitos galegos – e não será um número nada despiciendo -, principalmente os mais ligados às elites culturais, não aceitam passivamente essa situação e reivindicam, por meios legais que consideram legítimos, a necessária correção para a genuína origem da língua e lutam pela não permissão do seu abastardamento.
Daí, porque consideram ser uma via eficaz, terem requerido o Estatuto de Observador junto da CPLP – Comunidade de Países de Língua Portuguesa. Entretanto, adentro da própria Galiza, constituíram, em 6 de outubro de 2008, a Academia Galega de Língua Portuguesa, e, em 2011, uma Fundação da AGLP. Na cerimónia da constituição da AGLP, em Santiago de Compostela, estiveram presentes na mesa, e fizeram a respetiva intervenção alusiva ao ato, o Prof. José-Martinho Montero Santalha, como anfitrião; José Craveirinha, escritor moçambicano, que aludiu ao facto de, na sua infância em Moçambique, sendo ele filho de português continental, da zona de Abrantes, a sua mãe dizer, com frequência, que ele era um galego como o pai; o Prof. Artur Anselmo, do Instituto de Lexicologia e Lexicografia da Academia de Ciências de Lisboa; o Prof. João Malaca Casteleiro, da ACL; o Prof. Doutor Carlos Reis, da Universidade Aberta de Lisboa; o Professor Evanildo Bechara, da Academia Brasileira de Letras.
No fim da cerimónia, foi tocado e cantado o Hino Galego em cuja letra não se refere Galiza, mas sim Nação de Breogán, figura celta mitológica a quem é atribuída a afirmação da nação galega. A ele, Breogán, também se atribui a fundação da cidade transmontana de Bragança.
Em 5 de outubro de 2009, também em Santiago de Compostela, realizou-se o I Seminário de Lexicologia da AGLP, durante o qual foi assinado um Protocolo com a Universidade Aberta de Lisboa e em que intervieram figuras proeminentes da lusofonia, nomeadamente, por parte da AGLP, o seu Presidente, Prof. José-Martinho Montero Santalha, o Vice-Presidente, Prof. Isaac Alonso Estraviz, e, por parte da Universidade Aberta de Lisboa, o seu Reitor, Prof. Doutor Carlos Reis, e o Pró-Reitor, Prof. Doutor Domingos Alves Caeiro. Intervieram também o Prof. Artur Anselmo, do Instituto de Lexicologia e Lexicografia da Academia de Ciências de Lisboa, o Prof. João Malaca Casteleiro, da ACL, a Professora Maria Francisca Xavier, da Universidade Nova de Lisboa, o Prof. Álvaro Iriarte Sanromán, da Universidade do Minho, o Professor Evanildo Bechara, da Academia Brasileira de Letras, o Prof. Adriano Moreira, Vice-Presidente da ACL.
Em 25 de setembro de 2010 realizou-se o II Seminário onde foi figura destacada o Professor Carlos Amaral, Administrador da Priberam Informática SA, que falou sobre a inclusão do Léxico da Galiza nas ferramentas relativas ao uso da língua portuguesa.
Tive já pessoalmente o privilégio de fazer uma intervenção oral, em janeiro deste ano, na Inauguração duma Exposição de lindos painéis alusivos ao Cinquentenário da Fundação de Brasília, capital do Brasil, na Corunha, na Associação Cultural Alexandre Bóveda, figura heróica que pagou com a vida o seu forte galeguismo, “crime” pelo qual foi fuzilado pelas tropas insurretas de Franco.
Em junho último tive também o privilégio de, no acompanhamento dum grupo de escritores brasileiros, ser conduzido por amiguirmãos galegos a Padrón, terra de Rosalia de Castro, e a Rianxo, terra de Castelão, e sermos recebidos pelo respetivo Presidente da Câmara, por coincidência no seu primeiro dia de funções autárquicas.
Fazendo nós uma reflexão sobre as verdadeiras origens da nossa língua, constatamos que a dita pronúncia do norte de Portugal não será mais do que uma maior aproximação às suas origens, de que se destaca algumas trocas de vês por bês (e vice-versa) e a acentuação de om em vez de ão. Mas uma curiosidade ressalta nesta apreciação do om. No Brasil, terra para onde foi transportado o português (algum dele agora arcaico), perduram palavras terminadas em om em vez de ão, de que serve exemplo o termo cupom em vez de cupão (cupom fiscal), tal qual na Galiza de hoje. A letra k pronuncia-se no Brasil cá, exatamente como os galegos a dizem, enquanto que no resto da lusofonia se fala capa.
Esta diversidade na unidade será, porventura, a maior riqueza duma língua. E não adianta os sulistas procurarem brindar os nortenhos com as brincadeiras da pronúncia do norte, até porque lá, principalmente em Lisboa, há também as suas caraterísticas muito específicas. Serve de exemplo a pronunciação de ô em vez de ou: touro, ouro, mouro; á em vez de ai: baixa, caixa, faixa; ai em vez de ei: feira, tinteiro, madeira; ié em vez de é: fera, chapéu; e no grave erro gramatical de transformar palavras dissilábicas em monossilábicas: rio, tio, desafio.
Face ao que precede sobre a Galiza e o galego, não estará o título deste artigo invertido? Não seria melhor escrever A Lusofonia e a Galiza?
Já há mais de dezaoito anos, em 1994, algumas pessoas da AGAL tivemos possibilidade de conhecer o funcionamento do parlamento europeu e experimentarmos “in situ” a situação das diferentes línguas comunitárias graças ao convite à nossa Associação feito pela Coligação Galega(CG) liderada na altura pelo que foi europarlamentar José Posada.
Foi no mês de Março e na semana imediatamente anterior à Semana Santa quando um pequeno grupo de representantes da AGAL entre os que figuravam os amigos Jesus Miguel Conde, Carlos Garrido, atual Secretário da Comissão Linguística, Xavier Paz, José Manuel Aldeia, Laureano Carvalho, Rosário Fernandes Velho e um que isto vos escreve.
Visitamos Bruxelas e com isto também as instituições europeias, e não vimos surpresa no facto de nos podermos defender no dia-a-dia na nossa língua. Não pelo facto tópico e folclórico de acharmos galegos por toda a parte -facto que nalgum caso se deu- mas porque o galego é conhecido dum ponto de vista académico como uma forma ou variante da língua que a romanística denomina “galego-português” e que internacionalmente se reconhece como “português”
Não são duas línguas, mas uma. Isso foi-nos útil para não nos deixarmos levar por complexos de nenhum jeito e entendermo-nos na nossa língua com a rapariga responsável do hotel no que moramos aqueles dias, sendo ela belga mas casada com um brasileiro. Também não foi surpresa o sermos atendidos por alguns funcionários do parlamento europeu na língua de Rosália na que se nos dirigiram quando nos ouviram falar entre nós, pensando que éramos portugueses (estou seguro que se souberem que éramos cidadaos do Estado Espanhol e galegos provavelmente dirigir-se-iam a nós em castelhano).
A alguém lhe poderia parecer uma surpresa que um companheiro de expedição e representante dum grupo ambientalista da Límia, o nosso amigo Manuel Garcia, apresentasse publicamente e no seu galego limego (ou limião) uma informação sobre a concentração parcelar na sua comarca perante o pleno do grupo parlamentar europeu do "Arco Íris", grupo dentro do qual estava o Eurodeputado Posada. Como bem se sabe, havia, e há umas cabinas de tradução simultânea que transpunham a fala do amigo Manuel Garcia aos diferentes idiomas dos distintos europarlamentares dos diferentes países que integravam aquele grupo. Quiçá ninguém se deu conta de que se isto fosse feito por um catalão ou um basco, ou um escocês...não poderia ter sido feito pelos tradutores porque essas línguas não pertencem ao grupo de línguas oficiais da União...infelizmente....mas é assim, cousa que não acontece com a nossa língua que sim é oficial. Por isso pode ser traduzido às outras línguas comunitárias.
Lembro que havia uma porta-voz escocesa, lembro um corso que interveio e algum flamengo... e todos percebiam perfeitamente o que o nosso companheiro expunha porque os funcionários de tradução reconheciam aquilo como uma das línguas oficiais dum Estado membro..., neste caso, reconheciam-no como português e faziam o seu labor transladando para inglês, francês, neerlandês, etc...
Tanto na altura como ainda hoje a informação que se verte sobre a situação da nossa língua na Galiza não chega a todos os galegos, pelo que é fácil acreditar que ninguém tivesse nem, ainda hoje, tenha muito conhecimento, nem consciência do que é o Informe Killilea, nem das cartas cruzadas entre o europarlamentar Posada e o presidente do Parlamento Egon Klepsch, nas quais se reconhecia o galego implicitamente como língua oficial por sê-lo o português, língua oficial dum dos Estados membros: Portugal.
Egon Klepsch
Essas cartas estão publicadas nas AGÁLIAS dos anos 1993 e 1994 e nelas se toma o assunto por causa da dúvida que alguns funcionários tinham em relação à língua do eurodeputado. Eles diziam que era português com um sotaque que eles não conheciam mas o Senhor Posada clarificou com argumentos históricos e linguísticos que aquilo era a mesma língua de Portugal embora com o sotaque galego das Rias Baixas donde ele é originário. Posteriormente e com a intervenção do europarlamentar irlandês Mark Killilea que reconheceu as variedades linguísticas da U.E. e do próprio presidente do Parlamento reconheceu-se que todas as intervenções do eurodeputado galego foram feitas numa variante da língua conhecida internacionalmente como “português” e portanto recolhidas no diário de sessões da Câmara.
Mark Kilillea
Há um tempo, quando governava o bipartido, víamos nos meios de informação galegos a notícia de a Espanha pedir para o galego o “status” de língua oficial dentro da U.E. e não pôde mais do que olhar a notícia franzindo as sobrancelhas. Veremos no futuro a mesma petição para o alsaciano ou o para o andaluz?? Veremos isso para o valão, o francês da Bélgica, ou o alemão da Áustria? Veremos também na ONU essa petição para a língua dos norteamericanos diferenciada da dos britânicos?. Evidentemente a proposta não foi aceite porque dum ponto de vista internacional as falas galegas sempre foram reconhecidas como uma das variantes dessa língua ibero-românica ocidental conhecida historicamente como “galego” ou “galego-português” mas dum ponto de vista político conhecida com o nome de “português”.
Ora bem, estou certo que o flamengos da Bélgica não vão pedir algo assim para o flamengo porque já é oficial o neerlandês, língua comum a holandeses e flamengos, nem a haverão de pedir aos moldavos no momento em que entrarem na União a oficialidade do moldavo quando já dentro achem o romeno como língua oficial por ser a República de Roménia sócia de pleno direito desde 2007.
Já o eurodeputado Posada em 1994 e em 1999, e posteriormente o Camilo Nogueira desde o 1999 até 2004 fizeram o seu trabalho na nossa língua, gerando mesmo reações à contra de conhecidos políticos antigalegos que mesmo chegaram ao insulto. Dentro esses políticos salientamos o ex-alcaide da Crunha, Francisco Vázquez que denominou Camilo Nogueira de Nazi por falar "português" no parlamento europeu e com isso deixar de falar espanhol...
Isto faz que tenhamos a necessidade de dizer por se a nossa gente não se tem inteirado, que a Nossa Língua, a língua que Pondal denominou "Língua do grã Camões, fala de Breogão", a língua das Cantigas do único Império peninsular com Afonso VII e que assim se podia considerar na Idade Média, a língua de Castelão, de Risco, de Carvalho Calero...é já oficial tanto na sua versão lusitana como na sua versão galega, facto este reconhecido pelas instituições comunitárias. Com ela se trabalhou na Europa desde 1986, data na que os países da península Ibérica entraram de pleno direito na U.E., e com ela trabalham os deputados galegos bons e generosos que têm a Galiza na sua mente e no seu coração.
Ultimamente a deputada Ana Miranda em 2012 também está a usar a nossa língua no parlamento mesmo com dificuldades por parte dos tradutores de espanhol que desrespeitosamente não traduzem o que ela diz quando fala no seu galego natural, embora os funcionários que transladam para o inglês, francês, etc... não tenham qualquer problema. Se a nossa fosse uma língua extra-oficial a possibilidade de tradução seria nula...
Sabemos que o BNG tradicionalmente não se manifesta claramente em favor dum reintegracionismo prático e consequente, sabemos mesmo que apoiaram a ideia do bipartido de levar a cabo a “oficialização" do galego (RAG, entenda-se) obviando a realidade comunitária de reconhecimento do galego (português, entenda-se também) como língua oficial desde a passagem do eurodeputado Posada pelo parlamento. Aproveitando a presença do BNG no parlamento europeu, este é um bom momento para fazer pedagogia institucional e ensinar aos seus militantes, seguidores e votantes (e também os que não o são) que galego é português e português é galego com todas as consequências possíveis, mesmo normativas e geo-estratégias, e nao para seguir a política linguística do PP e do PSOE que querem "oficializar" o que eles denominam de "galego" para consumar a ruptura entre as falas galegas e portuguesas convertindo a nossa língua em carniça para o uniformismo castelhanófilo que rege o Reino da Espanha desde que este existe como tal.
Se a ideia é dar a conhecer a realidade linguística comum galego-portuguesa, parabéns, mas se a ideia do BNG é fazer coerente uma ideia de galego “de seu”, como parece que faz em boca da Ana quando quer meter a nossa língua na mesma saca do que o catalão, basco e outras ao querer "oficializá-lo"... e conceitualizá-lo implicitamente como diferente do português, acabará fazendo evidente a ideia que muitas pessoas têm de que o reintegracionismo bloqueiro, até agora, platónico é só uma via para conseguir votos dum eleitorado galeguista cada vez mais virado para o sentimento de unidade linguística galego-portuguesa e fará ver o BNG como mais um partido que joga contra a língua dos galegos.
Uma rapariga adolescente fez-me um comentário de sobremesa o outro dia num jantar: “Não haverá cousas mais importantes nas que empregar esforços e dinheiro do que fazê-lo pelo galego? Há gente que passa fome no mundo!!
A rapariga, adolescente lúcida e inteligente tapou a minha boca com uma manifestação rotunda e categórica para além de verídica e real perante a minha paixão galeguizadora acrescentada com uns quantos anos de compromisso linguístico. A sua lógica feita com a visão realista das cousas duma nena de 16 anos que começa a ver o mundo tal qual é trouxe-me à realidade.
A sua ideia simples mas impecável levou-me a cavilar toda a tarde e não pôde mais do que dar-lhe a razão finalmente. Pensei que países como Uganda ou Tanzânia, Zimbabué ou Namíbia têm prioridades mais importantes do que desterrarem o inglês dos seus territórios para fazerem das suas múltiplas línguas nativas instrumentos de cultura, comunicação ou criação literária.
É assim como neste caso o inglês se faz a língua mais poderosa do planeta; porque os pobres orçamentos desses países não vão destinados para a normalização do swahili ou o hotentote mas para erradicar a fome, vacinar as populações contra enfermidades que não conhecemos na Europa pelas nossas condições higiénicas e de salubridade ou ensinar a ler às crianças para elas poderem ver um futuro de maior qualidade de vida nos seus países.
Já o dizia Jordi Pujol a respeito do catalão: “O catalão custa dinheiro”. Tinha razão o velho dirigente catalão, como razão tem a rapariga, mas evidentemente Catalunha não é Uganda e a fome como mal social endémico não existe, como também podemos dizer que o seu sistema de saúde é dos melhores da Europa que é como dizer que está entre os melhores do mundo.
Catalunha pode portanto permitir-se o luxo de investir na sua língua milhões de Euros e fazer com que o catalão seja uma língua de cultura, arte, comunicação e seja aliás elemento gerador de riqueza material ao existir com isso a possibilidade de que haja um mercado linguístico que crie e agilize o movimento económico e enriqueça os catalães.
Por outra parte o Reino da Espanha ingressa aproximadamente um 15% do seu P.I.B. graças ao castelhano por ser esta a língua oficial de 22 países do mundo e um total de mais de 400 milhões de utentes. A política linguística da Espanha a respeito do espanhol é por isso geradora de riqueza material fazendo da língua de Cervantes uma das mais prósperas do mundo do ponto de vista criativo, cultural, artístico e literário mercê a um mercado amplo que lhe dá umas possibilidades importantes a respeito doutras línguas de países com mais poder político e económico.
No que diz respeito da Galiza podemos dizer com total tranquilidade que também não somos Namíbia; também não passamos fomes, nem andaços embora não sejamos tão desenvolvidos como a Catalunha, pois vivemos numa conjuntura económica europeia que nos faz ricos com referência ao contexto mundial embora pobres dentro do contexto europeu.
Para além de todo isto a Galiza tem uma política linguística que pelo menos na teoria -e digo na teoria, porque é isso o que se diz, não entro no que se faz- vai destinada para fazer do galego essa língua de cultura, arte e comunicação que sonharam os nossos grandes galeguistas e que não só fosse usada por razões de voluntarismo patriótico ou fervor nacionalista mas também por gerar riqueza material com o qual a nossa gente se sentisse achegada a ela por algo mais do que por sentimentalismo neo-romântico.
Mas também Galiza não ingressa o 15% do seu P.I.B. pela sua língua, mais bem neste caso tem um índice negativo. A Junta da Galiza perde dinheiro por causa do galego de tal jeito que se as nossas instituições deixassem de investir na língua -ou quiçá fosse melhor dito contra ela- o nosso P.I.B. subiria 2 ou 3 pontos. Essa situação dá asas e argumentos a pequenos coletivos kukuxklánicos que se organizam para atacarem o galego, reivindicarem o direito de ignorá-lo e agirem para que este desapareça do nosso país. Hábil política linguística que não mata mas dá para que morra.
Curiosamente, ou por acaso, o galego é reconhecido por linguistas, filólogos e cientistas como uma das três variantes do sistema linguístico galego-português (galego, português lusitano e brasileiro), falado por quase 320 milhões de pessoas por todo o mundo e os cinco continentes; é oficial em 10 países, co-oficial desde o 2007 na antiga Guiné-Equatorial espanhola, segunda língua de Uruguai e oficial lá desde 2008; segunda língua latina em número de utentes depois do espanhol, por acima do francês, do alemám e do italiano em extensão territorial e humana; terceira língua europeia depois do inglês e do espanhol, quinta do mundo depois do chinês, hindi, inglês e espanhol; língua oficial da ONU, da EU, Mercosul, Unidade Africana... Com um futuro importante por ser o Brasil uma nova potência emergente que faz da CPLP uma organização lusófona atrativa para países, mesmo anglo-saxônicos como a Austrália, que quer entrar nela quebrando com ideias quase racistas surgidas no carpeto-vetonismo histórico no que vivemos.
Com uma política linguística acertada e focada não só para a sua sobrevivência mas também para o seu florescimento, com um bom tratamento filológico e linguístico, adaptando a norma a esta realidade científica, política e geoestratégica tão favorável quiçá não chegaríamos a ingressar o 15% do P.I.B., (ou sim?) mas sim o 8% ou o 10% ou o 6%... com o qual a nossa língua geraria riqueza material para além da cultural.
E digo eu: Não haverá cousas mais importantes nas que empregar esforços e dinheiro que em eliminar a nossa língua? Em vez de gerar gastos e perdas por causa dum modelo de normalização que mata e inutiliza a língua dos galegos, fornecendo de argumentos a pequenos grupos muito ideologizados e ultras que trabalham para bani-lo da Galiza, não seria melhor fazermos da língua um autêntico setor económico com um mercado prospero que lhe desse o prestígio que teve em épocas medievais? Porque queremos um galego pequeninho e de aldeia em vez de um grande, internacional e concorrente com as grandes línguas do mundo? Não estamos para deitarmos a casa pola janela. Há muita fome no mundo!!!
Castelão conta-nos no seu "Sempre em Galiza" que a nossa língua é extensa e útil porque com pequenas variantes se fala em Portugal, Brasil e nas (ex-) colónias portuguesas. Algo sabemos sobre ela na América, na África e algo menos, mas algo, na Ásia....mas a história da língua na Oceânia e muito desconhecida. Há uma teoria defendida ultimamente pelo nosso amigo e professor luso-australiano Chrys Chystelo que nos diz que os primeiros europeus em chegar a Austrália foram os portugueses. Esta teoria bem conhecida em outras partes do planeta abre novas portas ao conhecimento do nosso passado e nos dá lógica à necessidade do português em terras do longínquo Sul...das antípodes. Vamos ver algo disso:
Timor
Os portugueses chegaram a esta região da Oceânia em 1514 com o fim de explorar as suas riquezas naturais e com o fim encomendado pelos papas de levar missionários para propalar a religião católica.
A primeira organização da Ilha foi no ano de 1702 para dar uma administração colonial criando um território denominado Timor Português mas criando um conflito de fronteiras com a Holanda que se solucionou em 1914 e fixando as fronteiras que ficam reproduzidas hoje.
Na Segunda Guerra Mundial os Aliados, nomeadamente australianos e holandeses lutaram contra o Japão nesta ilha violando a neutralidade de Portugal que recuperou o seu domínio em 1945 quando foram expulsos. Após estes acontecimentos e dada a passividade de Portugal perante esta guerra na defesa do Timor e os muitos sofrimentos e sangue investido contra os japoneses por parte do povo timorense, o sentimento independentista colhe força.
De qualquer jeito as guerras nas colónias africanas não têm qualquer correlato na Ilha que ficava unida na sua multiplicidade étnica, cultural e política de mão dos portugueses
Com a data de 28 de Novembro de 1975 e após uma guerra civil de duração curta ocasionada pela mudança de regime na República Portuguesa é proclamada a República Democrática de Timor-Leste ou Timor Lorosae, mas em 7 de Dezembro é invadida pela Indonésia. Durou 24 anos a ocupação do território português que nunca aceitou nem reconheceu nem a independência nem a ocupação.
A violência e o etnocídio deixaram um Timor numa situação muito complicada. A luta contra o comunismo por parte da Indonésia justificou a olhos das grandes potências ocidentais a ocupação mas não impediu a condenação por parte da ONU. Quase 200.000 vítimas por parte da Indonésia fazem desta carnificina histórica um dos mais grandes etnocídios do século XX, com torturas, combates, guerrilhas, esterilizações forçadas...
Para além disso, a proibição do português e a islamização obrigou o governo indonésio a trazer pessoal humano desde a Ilha de Java com o fim de diluir a identidade timorense e levar a cabo a exploração dos recursos petrolíferos do Mar do Timor com a cumplicidade da Austrália. Isto fez com que a economia da Ilha se sentisse de forma muito especialmente importante.
Tudo isto provocou com que o sentimento de independência se acrescentasse sendo chefiado por figuras como Nicolau Lobato ou Xanana Gusmão.
A internacionalização do conflito e a luta diplomática junto com a ajuda do Vaticano fizeram com que em 30 de agosto do 1999 os timorenses votaram a independência por meio dum referendo promovido pela ONU para que em 20 de maio do 2002 se viesse a concretizar a tomada do poder livre da Indonésia e a entrada nos Organismos Internacionais.
Segundo a Constituição democrática do país, o Tétum é a língua oficial e nacional da República Democrática de Timor-Lorosae ao lado da língua portuguesa acompanhadas de mais quinze línguas de origem malaio-polinésio. Aliás a língua indonésia e o inglês têm reconhecido o estatudo de línguas de trabalho da administração. Ainda o chinês tanto mandarim como cantonês são faladas na ilha por causa das migrações favorecidas pelos aconteceres históricos da Ilha.
Durante a época colonial o português era a língua da administração e do ensino convivindo com as outras línguas nativas. Ao ser proibido pelos indonésios e dar-se a situação de imposição da língua dos invasores a afetividade popular faz com que se considerasse a nossa língua símbolo de resistência usada e promovida pelo FRETILIN (Frente de Timor para a Libertação Nacional). Dessa forma conseguida a Independência o Português torna-se língua oficial.
Portugal e Brasil têm colaborado ativamente no progresso da Ilha fazendo com que a nossa língua tenha nesta altura uma percentagem de falantes de cerca de 25% o que lhe dá um lugar de importância mais do que simbólica na região.
Até agora, e antes do Acordo Ortográfico, a norma ortográfica usada pela República Democrática de Timo-Lorosae é a brasileira. Isto é por ser os contactos com o Brasil muito mais intensos do que com a República Portuguesa centrada em assuntos europeus e penínsulares mais do que em desviar fundos económicos e humanos na recuperação das suas ex-colónias ultramarinas.
Os vínculos entre o novo Estado de Timor-Lorosae e a ex-metrópole são fortes ainda hoje. As razões históricas para além das linguísticas unem fortemente os dois países mas a influência e o apoio material, económico, cultural, linguístico e empresarial do Brasil nesta ilha ex-portuguesa fazem com que as hipóteses de sobrevivência linguística do galego-português se acrescentem muito numa região do planeta onde anteriormente fora língua franca hegemónica sobre outras línguas europeias. Nessa região a afetividade em favor da nossa língua é grande e isso é muito interessante para projetos futuros e muito mais se o Brasil atender estas necessidades.
Austrália
A região dos Kimberley onde von Brandenstein coloca os territórios de colonização portuguesa na Austrália e onde se falou um crioulo de base portuguesa pelos Yawuji Barra e os Yawyji Baía até meados do século XX, mescla de aborígenes e escravos pretos africanos.
Chegados aqui, há que dizer, ou melhor, desvendar o facto de os portugueses terem chegado às costas norte-ocidentais da Austrália muito antes do que quaisquer outros europeus. É esta teoria mantida e desenvolvida por Kenneth Gordon McIntire, advogado e estudioso australiano de origem escocesa, no seu livro “The secret discovery of Australia” e ocultado até aos nossos dias pelo xenofobismo inglês que ainda hoje mantém falsamente ao Capitão James Cook como o autêntico descobridor do vasto continente dos mares do Sul, mas apenas o Capitão Cook chegou a Austrália no 1770 enquanto que o escocês McIntire diz que os portugueses atingiram Botany Bay e Sydney Heads entre os anos 1516 e 1524.
Isto não parece muito despropositado se considerada a proximidade entre as colónias portuguesas do Sueste asiático e a Austrália (416 quilómetros por mar desde a Ilha do Timor) e pela possibilidade técnica e material de podê-lo fazer numa altura histórica na que o Reino de Portugal era uma grande potência marítima, capaz de atingir esses 416 quilómetros com muita facilidade.
Um antepassado do Professor McIntire descobriu no século XIX um mapa chamado “O Delfim” e elaborado no 1536 para o príncipe herdeiro da Coroa de França (daí o nome d’O Delfim), no que aparece ao Sul da Indonésia uma grande massa continental chamada de Java a Grande que segundo as provas que McIntire expõe deveria ser a Austrália pelas formas.
Existem, aliás, umas ruínas em Nova Gales do Sul nas que aparece uma pedra com uma inscrição com uma data. Nessa data aparece apagado o terceiro dígito de tal forma que se fosse um 2 poderia ser o ano de 1524, ano no que segundo a documentação histórica por ele consultado faria com que o protagonista dessa expedição e descoberta poderia ser Cristovão de Mendonça. Sabe-se, ainda, que James Cook na sua famosa expedição se valeu de Manuel Pereira, um marinheiro português embarcado no Brasil para entender-se com os aborígenes o que leva a acreditar na possibilidade de os portugueses conhecerem essas terras e a forma de se entenderem com os nativos.
Também o historiador e linguista Carl Georg von Brandestein mantém que o Noroeste australiano foi colonizado por portugueses e escravos africanos pretos levados pelos esclavagistas lusos à região de Kimberley. Esses descendentes de escravos africanos miscigenados com aborígenes mantiveram um dialeto mistura da língua autóctone aborígene e crioulo português do qual mais de 260 palavras de uso comum são do nosso idioma e mais de 80 topónimos têm a sua origem no galego-português.
Esta variedade linguística permaneceu viva até o ano 1930 numa zona que ocupa a região de Pilbara, nos montes Kimberley e entre o arquipélago Buccaneer até ao Vale do Fitzroy. Foram colonizadas as terras de Dampier, a Angra do Rei desde Derby até à foz do rio Fitzroy em Yeeda, sendo habitadas essas regiões pelos Yawidji Barra (antepassados dos Barra) e os Yawidji Baía (antepassados dos Baía. Literalmente Yadwidji significa avôs). Estes grupos humanos seriam os descendentes dos Yawuji, os que tomaram contacto directo com os primeiros portugueses que ali chegaram a começos do século XVI.
Tendo em conta que até ao 1832 o Reino Unido não reconheceu como suas as possessões da Austrália Ocidental aguardando que Portugal as reclamasse e se fizessem valer os seus direitos históricos para assegurarem-nas como pertencentes ao Reino de Portugal, e tendo em conta que a evidência humana e linguística esteve presente durante muitos anos –mais de três séculos-, só se entende que esta história não se ministrasse nos programas universitários e se chegasse ao ponto de se distorcer a história por várias razões.
Acha o professor J. Chrys Chrystello da University of Technology of Sydney (2005: 61-96), em quem nos baseamos para escrevermos este texto, que isto atende para duas razões fundamentais. Estas são: a) Por ser o Reino Unido uma potência colonial, militar e económica muito mais poderosa do que Portugal durante os séculos que nos ocupam nesta narração dos factos e portanto potência cultural que conta a história segundo os seus critérios e interesses políticos e históricos, e b) por estarem essas regiões de Austrália zonas fora da demarcação do Tratado de Tordesilhas (ou pelo menos duvidosas segundo critérios da época), e portanto legalmente não pertencentes às regiões determinadas como áreas de influência e colonização portuguesas, mas espanholas, o que a final fez com que não fosse reconhecido claramente o protagonismo português nessas regiões por prudência e temor ao sempre inimigo espanhol. A dia de hoje a Austrália, pertencente à Commonwealth descobre e reconhece os seus vínculos com a língua nascida na velha Gallaecia. É por isso que o seu interesse de se integrar no mundo da Lusofonia é claro, conhecido e desejado pelos próprios australianos.
Bibliografia:
Baxter, A. 1990. “Notes on the Creole Portuguese of Bidau, Timor”. Journal of Pidgin and Creole Languages 5.1:1-38
Chrys Chrystello, J. “The Yawuji Barra and the Yawuji Baia (Os Avôs de Barra e os Avôs de Baía)”. Revista AGÁLIA. Revista de Ciências Sociais e Humanidades. Nº 81/82, 1º Semestre do ano 2005. Ed. AGAL (Associaçom Galega da Língua). Santiago de Compostela. 2005