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quarta-feira, 12 de abril de 2017

Uma atitude razoável



Por Paulo Soriano


Há um conto que começa assim:
Eu tenho um animal curioso: metade gatinho, metade cordeiro. É parte da herança de meu pai. Em meu poder, ele se desenvolveu completamente. Antes, era mais cordeiro do que gato. Agora é meio a meio. Ele tem do gato a cabeça e as garras; do cordeiro, o tamanho e a forma. E, de ambos, os olhos, mas agitados e selvagens, assim como os pelos, macios e rentes ao corpo. Os seus movimentos são saltitantes e sorrateiros. Ao sol, no peitoril da janela, enovela-se e ronrona. No campo, corre como um louco e ninguém o alcança. Ele foge dos gatos e procura atacar os cordeiros. Nas noites de luar, apraz-lhe passear sobre as canaletas dos telhados. Não sabe miar e abomina os ratos. Ele passa longas horas espreitando o galinheiro, mas jamais aproveitou uma oportunidade para matar...
O conto foi escrito, em 1917, pelo escritor morávio, de expressão alemã, Franz Kafka. Nele, o brilhante contista retrata a angustiante condição de quem padece do hibridismo, mescla que leva à absurda situação em que qualquer tentativa de identidade é impossível e, ao final — veremos — imensamente destrutiva. Mas, não nos antecipemos. Juntos, voltaremos ao conto de Kafka mais tarde.
Soube por meio de meu amigo José Manuel Barbosa, de uma entrevista ao sociolinguista espanhol Henrique Monteagudo  — que é profesor de Filoloxía Galega na Universidade de Santiago de Compostela e Secretário da Real Academia Galega — publicada no sítio Quilombo Noroeste. Leia aqui. Cá, falo algo sobre o que, como brasileiro e lusófono, penso acerca do que disse o súdito de sua Majestade.
Não hei de resumir a entrevista concedida pelo escudeiro de El-Rei. O leitor pode lê-la na íntegra no sítio acima indicado. Digo, apenas, que o senhor espanhol parece muito pouco fiel à sua língua de nascença (sim, o senhor Monteagudo nasceu não em Madri ou em Sória, mas na Galiza!), quando, tomando por castiços, emprega termos canhestros como a respecto ou por suposto, utiliza uma conjugação verbal de causar arrepios (aínda que parece estar), troca — e sem trocadilhos, leitor! — “trocar” por “cambiar” (as cousas cambien), e ainda se digna a debuxar (o filólogo conhece com certeza o verbo desenhar, mas, como bom feudatário espanhol, prefere o galicismo tão comum e caro ao seu suserano franco-castelão) os caminhos nos quais o galego deve seguir doravante...
A um valete assim tão fiel, a um funcionário tão sensível, seria possível imaginar o galego como uma língua internacional? Já lhe não basta e sacia um galego que, para a alegria de Castela, não é carne e nem é peixe? Nem gato, nem cordeiro, mas, ao mesmo tempo — e tragicamente — gato e cordeiro? A quem interessa o insulamento da Galiza? A quem interessa um galego castrapo? A quem interessa a normativa castelã, que tanto estorva e empeça a comunicação escrita da Galiza com as demais nações lusófonas?
O real acadêmico assegura que, falando galego em suas palestras a ouvintes brasileiros, a intercomprensión mutua é moi doada e esixe pouco esforzo. Concordo com ele. E vou além. Digo, por experiência própria, e bem fecunda, que o mesmo acontece quando um brasileiro palestra na Galiza (de Oeste a Leste da Galiza, e vice-versa, em verdade). Mas ele alega que a comprensión espontánea do discurso en galego tamén me ten acontecido ante públicos hispanófonos. E por que não? Por que seria diferente, se a fala vem de um filólogo que se esmera em escrever galego na ortografia espanhola; substitui, e sem necessidade, os termos castiços por vocábulos e expressões profundamente castelãos; viola — e rudemente — do galego elementares vozes de conjugação verbal?
A reação do sociolinguista espanhol ao reintegracionismo era-me bem esperada. Nada a dizer. Não vou malhar em ferro frio. Neste sentido, devolvo — e bem devolvido, já que não sou espanhol, mas brasileiro — a ele, coa mesma moeda, o sexo dos anxos.
Quanto a nós, brasileiros, estamos bem (e muito bem, obrigado!) na companhia de Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Castilho, Fernando Pessoa, António Vieira, Florbela Espanca, Gil Vicente, José Eduardo Agualusa, Bocage, Antero de Quental, Miguel Torga, Mia Couto, Eça de Queiroz, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Hélder, Almada Negreiros, Almeida Garret, Sá-Carneiro, Camões...
Não, amigos, os brasileiros não precisamos de secessão alguma. Nem de norma brasileira autônoma qualquer, o primeiro e decisivo passo àquela ruptura indesejada. Amamos a nossa língua como ela é, com todas as suas variedades, cores, sabores e gradações. E ela é a língua portuguesa. Esteja ela onde estiver, mesmo que — e talvez por melhor motivo — acima do Minho, nós a amamos.
Ela, e somente ela, é a nossa Soberana.
Mas, será que não concordo em nada com Monteagudo? Concordo sim! Já o esbocei um pouquinho lá em cima. E, um bocadinho mais abaixo, devo concordar plenamente com que o que disse o sociolinguista espanhol:
Polo camiño que imos, o galego corre un serio risco de retroceso catastrófico e irreversible.
Com certeza! O camiño que ele apregoa, aqui no Brasil e alhures, não leva senão a uma triste e autodestrutiva conclusão. Ele — este tenebroso sendeiro, este caliginoso caminho — não é nada menos que aquele que nos diz o desfecho do conto de Franz Kafka:
...Acredito seriamente nisto. Ele tem em si tanto a inquietude do gato quanto a do cordeiro, embora estas sejam diferentes. Por isso, ele sente-se tão incomodado na própria pele. Às vezes, ele salta à cadeira de balanço, apoia as patas dianteiras em meu ombro, e toca-me o ouvido com o focinho. É como se falasse comigo. De fato, ele vira a cabeça para mim e me olha, observando o efeito que a sua comunicação produziu em mim. Para comprazê-lo, ajo como se o compreendesse, balançando a cabeça. Então, ele salta ao chão para brincar.
Talvez a faca do açougueiro seja um alívio para esse animal, mas ele é uma herança de família e, por isso, eu tenho que lhe negar o favor. Por isso, ele deve esperar até que deixe de respirar por si próprio, malgrado às vezes ele me olhe com os olhos da razão humana, exigindo de mim uma atitude razoável.
Sim... Uma atitude razoável...


terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Ignorância e Poder.


Por José Manuel Barbosa

A história do ser humano é uma constante luta contra o desconhecimento na procura do saber e da ciência, o que converte a ignorância no elemento negativo a vencer mais importante de todos. O conhecimento e o saber dão poder, mas quem tem conhecimento e está à contra do poder político converte-se num herege, num apóstata e num subversivo. O autêntico poder sempre está na sombra e à vista estão pessoas na maioria das vezes medíocres e pusilânimes que mais do que nada estão para cobrir um vazio necessário e passar o tempo histórico que há que exprimir ao vulgo, mas quando realmente a lucidez e o poder se aliam é quando a história dá personagens que são autênticos pontos de referência para a humanidade; no entanto, aqui do que vou falar é de todo o contrário; vou falar da ignorância com poder, que é o mais comum e o que está mais presente no dia a dia, como no caso do primeiro presidente do Panamá, Amador Guerrero quem organizou um acto político de importância internacional o dia que o Canal de Panamá se abriu ao trânsito marítimo.
 O Senhor Guerrero convidou todas as delegações das armadas europeias à apertura do Canal em 1914, mas comprovou como alguns países não assistiam nem deixaram nada dito no que diz respeito da sua assistência, como foi o caso da Confederação Helvética. Incomodado, o Senhor Guerrero, e ofendido porque nenhum barco da Suíça tivera assistido a tão importante inauguração, deu ordem aos seus ministros para prepararem com toda a formalidade, uma declaração de guerra contra tão impertinente país. A final e não sem pouco esforço, conseguiram fazer-lhe entender que a Suíça não tinha frota, e muito menos militar.
            Outro caso absurdo de ignorância com poder foi o do primeiro delegado dos EEUU (não podia ser de qualquer outro país!) no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, Warren Austin, quem em 1948, quando se estabeleceu o novo Estado de Israel, a tensão política chegou a tal ponto que acabou em uma guerra aberta entre os hebreus e os palestinianos. O Senhor Austin pediu publicamente desde a ONU aos dous países que arranjassem o conflito “como bons cristãos”.

            Lembro também o caso que aconteceu em 1890 na Abissínia. O Negus, quer dizer, o monarca do país, Menelik II, teve conhecimento da invenção da cadeira eléctrica três anos antes por Harold Brown, um empregado da empresa que era gerida polo famoso Thomas Alba Edison. O macabro invento chegou ao conhecimento do Menelik que pensou que aquilo ia ser um autêntico símbolo do seu poder naquele pobre país, mas não se deu conta, nem sabia o bom do homem, que aquele instrumento de morte funcionava com electricidade, cousa que na Abissínia dos finais do século XIX ainda nem se sabia o que era. O Negus comprovou como aquela cadeira virava totalmente inútil para aos seus fins quando teve a oportunidade de tê-la presente. Por fim e para sair do assunto com certa elegância decidiu utilizá-la como trono.

            Vem-me à memória mais outro episódio não menos engraçado, e é que nos anos anteriores à primeira guerra mundial, o Sultão da Turquia Mehmet V deu ordem de capturar um grupo de mercadores austrohúngaros que penetraram no país legalmente para favorecerem as revoluções no Império Otomano comunicando com total liberdade e impunidade pelo país mensagens em clave para subverter o ordem político estabelecido. Quando o governo autrohúngaro por meio dos seus legados investigou o assunto, descobriu que os pobres mercadores vendiam bicicletas cujas dínamos eram capazes de realizarem um alto número de revoluções por minuto e as mensagens secretas não eram mais do que fórmulas químicas de farmácia para curarem pequenas feridas da pele.

            Pois bem, tudo o que acabamos de contar parece próprio de épocas obscuras nas que as culturas e as civilizações estavam ainda com os cueiros postos, mas é que o que vos vou contar agora aconteceu na Galiza “autoanémica” -como é que diria o nosso José Manuel Beiras-, do século XXI e é a notícia saída no jornal “La Región” de Ourense o passado dia 20 de Janeiro de 2006 na página 23. Nesse pequeninho artigo situado na margem da folha diz-se-nos que uma organização chamada FUNDEU (Fundación del Español Urgente) acentua o apelido FEIJÓO no primeiro “O” segundo a sua análise diária do uso da língua espanhola nos meios de comunicação e faz uma advertência de que o segundo apelido do político dos Peares do PP Alberte Nunes Feijó (Alberto Nuñez Feijóo) leva “tilde” -como se lhe chama em castelhano ao acento gráfico-. As razões são fundamentalmente de uso por parte da sua família pelo que anima a respeitar a grafia escolhida por eles.

            A nossa opinião é que a palavra “Feijó” é uma palavra galego-portuguesa, não castelhana, e que nós grafaríamos com um só “O” e com “J” proveniente da forma greco-latina PHASEOLU que teria por significado o mesmo do que Feijão de cujas formas é variante; seria o nome vulgar e extensivo que se lhe dá a umas plantas da família das leguminosas, com espécies, variedades e formas muito cultivadas e apreçadas na alimentação. Tem por sinónimo Fava e o seu correspondente castelhano seria “Frijol”, termo muito utilizado em alguns lugares de América.

            Não sei se essa fundação linguística defensora do idioma espanhol tem qualquer publicação onde nos aconselhar a utilização de formas tão espanholas como “Guáxinton” para a capital dos Estados Unidos; Yan Yaques Custó para o conhecido oceanografo francês; Roberto Xúman e Güilian Xespir para o famoso músico germano e para o literato inglês; Margarita Zaxer para a ex-primeira ministra britânica (ou Margarita Colmenero!! Que também poderia ser) ou Fransuá Miteján para o também ex-presidente francês. O que sim sabemos com segurança é que o Senhor Feijó não protestou nem contestou à Fundeu, mas nós desde a nossa modéstia, reivindicaríamos, desde o respeito à opção pró-castelhanista do chefe do PP galego e presidente da “Xunta de Galicia” a forma ALBERTO NÚÑEZ FRIJOL, para sermos justos e exactos e ajudarmos à coerência ideológica de tão preclaro e digno personagem.




sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

A vontade reintegradora dos clássicos





Por José Manuel Barbosa


O facto de reintegrar a língua dos galegos manifestava-se como uma urgente necessidade entre a maioria dos clássicos galeguistas por motivos de utilidade prática e dignidade, isto é arrancar a nossa língua das garras depredadoras dos políticos de Madrid de vinculação castelhanista; outras vezes é um desejo de unificação do nosso território quebrado, passando-se do linguístico ao político e falando inclusivamente de temas tão à moda hoje como a incorporação do Berzo e outros territórios ao território originário.

 

"Eu entendo que os nazonalistas galegos temos que chegar axiña a maor unificación posible sin mágoa do enxebre, entre o noso idioma i o portugués. Así o portugués lerase en Galizia doadamente acabando coa vergoña de que se nos ofreza polo intermedio do castelán o seu xenio."
 
António Vilar Ponte

Pensamento e Sementeira

Op. Cit. Pag. 257





"...no hay palabra netamente portuguesa que no sea netamente gallega y viceversa y que cuando en el portugués suena a extraño, para nosotros resulta extranjerismo o exótismo colonial. Quea opso facto trazado el camino que conduce a la anhelada unificación de las dos ramas de idéntico idioma"
 
António Vilar Ponte.

Pensamento e Sementeira

Op.Cit 152



“Pela gravitación inevitábel dum pasado grorioso, por desbordantes semellanzas que non son casi que sempre ao estudialas identitás, pola contextura interna que non acerta a diferenciarse sinón pola acentuación do matiz, e, porque anque no nos entendamos nas verbas, comprenderíamonos sempre escoitando o próprio peito n’haberá quem teña a potestade d’impedir que por cima de  todas as fronteiras s’abracen a língoa galega e a língua portuguesa”



Manuel Portela Valladares

En col da Língua Galega

Revista Nós 1-Marzo-1923



“Os galegos non aspiramos a confundir politicamente a Nosa Terra co Portugal rexido dende Lisboa (...). Pero dentro de Portugal quedounos a mitade da nosa Terra, do nosso espírito, da nosa língoa, da nosa cultura, da nosa vida, do nosso ser nacional”.



Afonso Daniel R. Castelão.

Sempre en Galiza

Pag 343



“A potencia era galega; a impotencia provén da desintegración galaico-portuguesa”



A.Daniel R. Castelão

Sempre en Galiza

Pág. 336



“ Calquer día afundese a inxenieiria política e os portugueses e galegos volvemos a falar e cantar no mesmo idioma; pero tamén se podem restaurar fronteiras que foron demoidas...”



Castelão

Sempre en Galiza

Pág. 335



“...pero ainda é doado creer que, pol-as mudanzas do mundo, se restaure a unidade galega, se non na sua integridade da província romana ou no reino suevo, pol-o menos na do periódo cultural eu na esfera da crítica literária se vem a chamar “galaico-portuguésa”.



Castelão

Sempre en Galiza

Pág. 227



“O território galego sigue dividido politicamente pol-a fronteira que separa a Portugal da Hespaña...”



Castelão

Sempre en Galiza

Pág 225



“As tres nacionalidades –Cataluña, Euzkadi e Galiza- están tronzadas por fronteiras políticas, que dificultan a restauración da sua unidade, e soio por un feito iolento sobre de Franza e Portugal, ou por mudanzas de lindeiro (...) lograrian xuntarse os anacos dislocados das tres nacionalidades”



Castelão
Sempre en Galiza 
Pag.223



“A terra galega é, ao mesmo tempo unha entidade étnica pero de dificultosa reconstrucción política, porque a fronteira portuguesa róubanos a esperanza de anovar en breve a comunidade nacional dos tempos suevos e visigóticos –com todo é doado esperar que o Bierzo e demais comarcas limítrofes de Ourense e Lugo se incorporen ao seo da sua nación natural; e o tempo –gran curandeiro dos erros hestóricos- posibilite a reconstrucción total da nosa unidade. Non se pode creer que o río Miño, vello pai de Galiza –representado na franxa azul da nosa bandeira- siga sendo un lindeiro perdurable de dous Estados”



Castelão

Sempre en Galiza

Pag. 44-45



OUTROS EXEMPLOS DE REINTEGRACIONISMO



A defesa do reintegracionismo tem como sustento, para além do seu argumentário filosófico-linguístico, outro que tem a ver com os exemplos anteriores. Na época dos clássicos botava-se mão do exemplo neerlandês, quer dizer, do reintegracionismo entre o flamengo e o holandês do qual também botou mão o nosso lembrado e saudoso Professor Ricardo Carvalho Calero. A dia de hoje na Europa podemos constatar mais exemplos, como é o caso do moldavo-romeno, do norueguês-dinamarquês, do albanês-cosovar, etc...

Eis o que diziam no século XX os galeguistas:



“...y su unificación (do galego e do português) es tan fácil, sinó más que la realizada por flamencos y holandeses en el idioma común, que sólo se diferenciaba en la ortografia y en algunos giros prosódicos”



António Vilar Ponte

Pensamento e Sementeira

Pag. 346



“Os flamengos usaban unha ortografia diferente da  d’os holandeses, as suas línguas se4ran entre si tan semellantes como o galego e o portugués. Un día chegou en que os partidarios do idioma flamenco tiveron que abandonar a sua ortografia e admitir a holandesa para fazer mais eficaz a sua fala.

(...) Cato mais tempo pase mais difícil será facelo pois a ortografia irase arraigando coa gran riqueza de produción literaria galega”.



Johan Vicente Viqueira
Pol-a Reforma ortográfica
A Nosa Terra. Nº 43. Pág. 1



O ISOLACIONISMO NAQUELA ALTURA



O chamado isolacionismo também existia nos começos do galeguismo nacionalista; não é novo hoje. No que se diferenciam os de aquela época dos de hoje, para além da ortografia que eles empregam e ainda empregam hoje, é na filosofia de fundo. Aqueles isolacionistas dos anos vinte e trinta, conseqüentes com o seu galeguismo, não eram seguidistas das normas do castelhano. Eles escreviam com uma ortografia fonética que poderia ser válida para a nossa língua se esta fosse uma ilha no mundo das línguas, como é o basco, por exemplo, mas hoje escrevem com a ortografia que Viqueira denomina de “Vulgar”.



Os mesmos autores isolacionistas se decatam que a ortografia empregada hoje nos documentos oficiais é a do castelhano. Isso leva-nos a podermos definir esse isolacionismo de inconseqüente ou mesmo seguidista do castelhano perante o qual se submete. O pior do assunto é que nesta altura histórica não quer nem se ocultar para quem tem olhos na cara, obscurecendo-se com um argumentário capaz de convencer à gente menos preparada do ponto de vista linguístico contando mesmo com o poder de estar presente no ensino e nos média.



“Por desgracia a ortografia portuguesa non é nada recomendabre. Como se be, a ortografia portuguesa esta moi lonxe de merecere os onores da adoucêóm polos gallegos”
 Aurelio Ribalta
A Nossa Terra nº 93
Pág 2



“Dixen en no número 93 de ANT qe a ortografia portuguesa non e centifica nin sistemática  e qe por ende, non bal a pena d´imitala.



Esta proposición miña leba impricita esta outra: fai falla crerare unha ortografia gallega. A esto tendia eu; a qe se fagan estudios serios para creala, pra que sallamos dunha bez da rebolta morea de pedantes qe nos afoga”.


Aurelio Ribalta
A Nosa Terra Nº 96

Pag 3


“E perciso pensar en un-a ortografia galega. Estamos nun periódo de rreboluzión, enke kada un eskirbe a sua maneira e iso nin pode segir, si se llá dar forza o noso idioma ¿Ken se mete adeprender un-a lingua ke pola sua anarkia ortografika bolbe parbo o ke a eskirbe?
Ortografia fonétika.
Xosé Palazios
A Nosa terra nº 100 Pág 2




Contrariamente a isto, os que poderíamos chamar reintegracionistas (e estou empregando uma terminologia atualizada) que são maior número, argumentam em favor da unificação galego-portuguesa que isolar-se é morrer e é não viver no mundo.

“Teño unha razon fundamental contra a ortografia fonética: Admitindoa apartaria-mo-nos do mundo lingüístico inteiro. !E isolar-se é morrer! Sobre todo isolariamo-nos do portugues. O galego non sendo unha língua irmá do portugués senon un portugués, unha forma do portugues (como o andaluz do castelán), ten-se que escribir pois como portugués. Vivir no seu seo é vivir no mundo; !é vivir sendo nos mesmos!Escribindo c´a nosa ortografia etimológica (admitida po-la nosa Academia) escribimos cuase como en portugués.

 Po-a reforma ortográfica
Johan Vicente Viqueira

A Nosa Terra Nº 102 Pag 2



Veja-se que a Real Academia Galega admitia a Ortografia etimilogica, cousa que nom fai hoje; veja-se assin mesmo que Viqueira utiliza o traço em palavras como “isolariamo-nos” “isolar-se”, etc.



“A ortografia etimológica debe se-la nosa. Nos é preciso estudala. ¿Como?. Aprendendo a escribir en portugués”.




Da renascenza linguística
J. V. Viqueira

A Nosa Terra Nº 77 Pag 5



“Prencipalmente no que se refire a ortografia foetica, con ista ortografia ninguan estranxeiro poderá traducire as cousas galegas”.


Iglesia Roma.
A Nosa Terra Nº 94

Pag 3



“A ortografia galega de hoxe é a ortografia castelán aplicada por corrución á nosa língua. Teria, pois de se modificare”.




Florencio Vaamonde.
A Nosa Terra Nº 94 Pag 3



“E derradeiramente temos forzosamente que reformar a ortografia. Unha delas é a fonética: ésta ten o inconveñente de que en Galicia hay moitas fonéticas, algunhas ainda descoñecidas, e que nos ailla do resto do mundo, sobre todo, do portugués, pois nen este nen ningunha outra lingua escribese hoje foneticamente. Deixando a un lado ésta, temos ainda duas ortografias: a vulgar, usada por Rosalia de Castro, Curros, Carvajal e hoje usualmente, e a academica ou etimológica, admitida sabiamente pol-a Academia Galega, emprega por Pondal e en gêral, pol-os eruditos.



Nosos problemas educativos.

J.V. Viqueira

A Nosa Terra. Nº 62 pag 4



 DIFICULTADE DO GALEGO CORRECTO



Os isolacionistas dizem contra a versão reintegrada da nossa língua que é dificultosa, pois muito diferente da utilizada pelos média, pelo ensino e pelos documentos oficiais.



A isto atualmente responde-lhe-íamos dizendo...



1º) Outros povos utilizam a norma própia da sua língua sem decalques nem submissões embora tenha existido um idioma mais poderoso como língua A durante muitos séculos. (Catalunha, Euzkadi, Irlanda, etc)



2º) A utilização da norma castelhanista em galego é síntoma do submissão línguistica e de aceitação duma diglóssia que marca uma tendência substitutiva.



3º) Nenhuma norma é difícil se esta se aprender convenientemente. Não são mais inteligentes os nenos irlandeses, bascos ou catalães do que os galegos por apreenderem líinguas e normas diferentes do inglês ou do castelhano.



Poremos o exemplo do ocitano. A maior parte da gente nesse país, não estuda ocitano mas francês. Ali têm o francês como língua de poder e o idioma pátrio está na categoria já de “patois”. Se uma pessoa do povo quer escrever a palavra que em occitano significa “Cão” não escreveria como corresponde à sua língua, mas com à francesa, isto é: “Tchou” que lhe há de parecer mais viável, do que “Chu” que seria o correcto. Em qualquer caso essa palavra pronunciar-se-ia (t∫ W).



Isto já se discutia entre os clássicos galeguistas.



“Mais esta ortografia é dificil ja que o galego non se ensina na escola”.



Pol-a reforma ortográfica

Johan V. Viqueira

A Nosa Terra. Nº 102 pag 2



“Certo, non podemos d´un golpe introducir unha ortografia â que non estamos habituados. Pol-o momento debemos aceptar a ortografia erudita, etimológica, o que será un gran paso.



Mais conseguido esto, precisamos continuar a nosa obra e camiñar pra a total unificación da ortografia galega e potuguesa. Asin introduciremos a NH pol-a Ñ, a LH pol-a LL e outras modificacions que o leitor poda adiviñar fácilmente. Fara-se isto primeiramente n`as publicacións eruditas, científicas, depois, n´os populares”.



Pol-a reforma ortografia

Johan V. Viqueira

A Nosa Terra. Nº 43

Pag 1




A MODO DE CONCLUSSOM



Há que salientar que todos os autores que escrevem as citas expostas neste trabalho não são lingüístas, mas afirmam umas cousas às que se chega não o sendo precisamente. Chega com ter os ouvidos salutáveis. Os lingüístas por outra parte também chegaram à mesma conclussão mas dando a argumentação válida que o tema precisa e confirmando a intuição de todos os nossos grandes personagens.



O facto de os nossos galeguistas utilizarem a versão castelhanizada explica-se por estarem eles alfabetizados na língua oficial do Estado por uma parte, por não terem conhecimentos científicos de língua e por um  salientável interesse pedagógico ao saberem que se utilizarem a norma válida não poderiam ser facilmente acessíveis ao povo que os lê. De qualquer forma, vê-se também que os mais cultos e eruditos como é o caso de Viqueira, chegam a  aproximar-se mais do que outros ao desejado por eles próprios,  muito adiantados para aquela época, empregando G, J, e X de forma etimológica e até escreve com Ç.



“Nom pode supôr canto ll`agradezco a sua atención, agás do meu persoal sentimento de gratitude, tamém, pol-o qu´eu admiro a sua produçom poética...”



Borrador da carta de Viqueira a Teixeira de Pascoães agradecendo-lhe o envio de livros por meio de Cebreiro.

             

Depois da morte de Viqueira publica-se o seguinte texto...





“Johan Viqueira, Noso Grande Morto”



“Paresce como si a Galiza tivera a mala fada de perder seus filhos melhores. No pequeno cimiterio de Ouces, nas doces e tenras marinhas de Betanzos, repousa ja para sempre endejamais o gran poeta Johan Viqueira, cando a sua vida escomenzaba a florire. (...)



Revista Ronsel. Pag 14

Do Nº 2 do Mês de Junho de

1924

 Está muito presente entre o comum adia de hoje e também naquela altura de que o elemento que marca a diferença básica entre galego e português é a ortografia. Segundo nos tem comunicado muitas vezes o nosso prezado lexicógrafo galego Isaac Alonso Estraviz, o 95% das formas léxicas galegas são comuns e ainda outras não registadas até agora em qualquer dicionário português são formas dialectais ou formas populares existentes em Portugal. Algumas são por exemplo a segunda forma do artigo, comparativo com ”mais ca”, S final nos perfeitos de indicativo, formas em CA envez de QUA, etc... o que não é motivo para considerar como diferentes línguas falas ao Norte e ao Sul do Minho.



Há autores que falam de língua galega e de língua portuguesa e poderia parecer desde o ponto de vista atual que ao falarmos assim poderíamos considerá-las línguas diferentes; o que acontece é que nos anos do surgimento do galeguismo, as ciências da linguagem não tinham muito claro o conceito de língua e por outro, a pouca ou nula preparação lingüística dos nossos galeguistas que empregam a sua terminologia de forma inexata muitas vezes.



Vemos portanto que quando houve a necessidade de aplicar um mínimo trabalho científico surgiu o reintegracionismo na praxe. Quer dizer, acabou-se por levar à realidade escrita uma teoria que vinha de muito atrás. O que não é lógico e talvez também não seja ético é que gente que se auto-proclamam como científicos da língua façam uma norma como a ensinada hoje nos centros de estudo, a usada nos média e a utilizada nos centros administrativos. Só o explicaríamos por vinculações políticas espúreas e por necessidade de defender os seus postos de trabalho em origem. A dia de hoje, a inercia dos acontecimento e o peso de quase trinta anos de insistência faz mais amplo este leque e mesmo acreditamos na bondade de muitas pessoas que têm fe no que lhes ensinam, as suas ocupações não se encaminham para assuntos linguísticos e não têm porque entrarem nos assuntos muito ocultos e nada publicitados dos assuntos da língua.

             

Os anti-galegos (já não anti-galeguistas) quereriam que não existisse uma língua que os galegos pudessem ter como fruto do seu génio e se por qualquer circunstáncia tivessem tolerá-lo, prefeririam descafeiná-lo quanto mais melhor. O resultado é o que temos temos. Algo que se pode vender aos galegos como un producto light que não põe em perigo a hegemonia do castelhano e impõe-nos a nós a máxima da divisão.



sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

A Capela Sixtina da Pátria Galega.



Por José Manuel Barbosa

Há quase quinhentos anos, Michelangelo Buonarroti completou com estéticos desenhos os teitos da Capela Sixtina, para que todo o mundo pudesse contemplar a beleza e a arte duma época que prometia ser interessante na história da humanidade. A partir daquela data, milhares....talvez milhões de pessoas puderam desfrutar com absoluto arroubo, tal magnificência e tal formosura saída da mente e da mão dum simples ser humano.
Tanta gente, tantos anos, tantas variações climáticas, tantas respirações dentro da capela, fizeram com que o cromatismo original e a beleza primigénia dos frescos que tanto escandalizaram os cristãos da época se fosse apagando pouco a pouco como se for uma aparição fantasmagórica depois da qual deveríamos esfregar os nossos olhos para comprovarmos se a visão foi real ou não.
Com muito bom critério, há somente uns anos, o Bispo de Roma, decidiu recorrer a um grupo de expertos restauradores de obras de arte para recuperarem a cor originária das pinturas à vez de limparem as impurezas de quase cinco séculos de descuido. Esta decisão provocou o posicionamento em favor ou em contra da recuperação dos frescos da capela. Por um lado estavam os que defendiam a ideia de deixarem como estava a Capela, com a consequente perda de nitidez e colorido de tão grande obra, que talvez acabaria num futuro, mais próximo do que longínquo, com a perda definitiva da criação do génio da Toscana. O argumento mais poderoso que se expunha era que a tal obra não se lhe podia tocar porque seria uma profanação do labor do mestre italiano. Seria melhor deixar que levemente e sem sentirmo-lo se fosse apagando até se perder para sempre e que ficasse como uma simples recordação duma época de harmonia estilística.
Por outra parte, estava o outro grupo de pessoas que defendiam a possibilidade da perpetuação e recuperação das pinturas por meio dum labor profissional, exato, experto, técnico e sensível. Estes julgavam que tal monumento bem valia um banho de carinho reparador e revigorizador qual se duma injeção de vitamina vital se tratasse, para que pelo menos a Capela pudesse resistir outros quinhentos anos de esplendor e que outros tantos milhões de seres humanos amantes da arte e da beleza pudessem sentir vivo o seu espírito na contemplação dos escorços buonarrotianos.
 Também há mais de mil anos, o povo galego fez, a partir da língua que os romanos trouxeram à Galiza mesclado com as falas populares dum povo celta que aqui habitava desde épocas ancestrais, um romanço formoso que servia não só para transmitir pensamentos ou sentimentos mas como instrumento criador duma cultura, duma forma de ser capaz de alimentar a alma de todos os seus utentes e igualmente manter uma identidade sólida como o granito. Posteriormente e quinhentos anos atrás, uns Reis cujos interesses eram os dum poder sediado no planalto castelhano levaram a cabo a “doma do Reino de Galiza”, ou a tentativa de castração nunca conseguida até agora, provocando nesta Capela Sixtina da nossa identidade uma contaminação e uma esclerotização que faria perder o seu colorido originário que se ia apagando lentamente, desviando-se durante vários séculos do seu caminho natural, seguido em troca, de forma perfeita e com muito sucesso no Reino de Portugal.
Como aconteceu nos frescos da bela Capela Sixtina, o nosso idioma na Galiza foi perdendo viveza por falta de cultivo, foi deturpando-se subtilmente como se duma rosa cortada da roseira mãe se tratasse, vendo-se privada do alimento que lhe fornecia a chispa vital.
Hoje, na época em que a humanidade começa um nova e longa etapa de tomada de consciência de si própria, época em que a liberdade é um bem supremo ao lado do conhecimento científico, abrindo-se passagem por todo o orbe, momento em que a mente humana começa um importante período de expansão, época no que as palavras "humanidade", "irmandade" e "consciência" se estendem por todo o planeta, também na Nossa Terra é momento de tomada de posicionamentos: Por uma parte os que querem deixar as cousas tal qual estão, sem modificar o mais mínimo, aceitando a contaminação e a deturpação provocada por séculos de maltrato dirigido por uns interesses que nada têm autótones. Este posicionamento de aceitação da língua dos galegos sem mudanças, faz que caiamos no perigo da perda e da desaparição da língua, perdendo com isso todo o benefício que traz consigo ao pertencermos a uma civilização da qual somos Matriz, renunciando à apertura de caminhos para a prosperidade e a reafirmação da identidade.
Pelo contrário, os que julgamos que a nossa língua, ao igual do que a Capela Sixtina, deve recuperar o seu colorido originário, o seu brilho, o seu esplendor e a sua beleza, não compreendemos como se pode ser tão negativo e tão desleal com o nosso pensamento desde posicionamentos institucionais, impedindo a chegada do nosso discurso, impedindo a transmissão do conhecimento científico, da livre circulação de ideias, do direito à discrepância...no mais puro estilo da Europa medieval e teimando por levar à fogueira as bruxas que defendem não só uma forma de perceber o que nós chamamos português da Galiza mas também as bruxas que mesmo defendem o direito a que um povo como o nosso possa educar os seus filhos numa língua que abre as portas de quase 300 milhões de seres humanos por todo o mundo.
O nosso idioma merece um repasse restaurador com mão amorosa para que possa sobreviver e poder-se livrar dos grandes sáurios que levam o guiador da nossa Pátria para que fiquem na obscura gaveta dos pesadelos.
Aqueles que desde estamentos oficiais –e não só- apoiam que a língua continue como está, apoiam um projeto dirigido desde Madrid que só procura a nossa eliminação como povo. A Galiza não é querida por Madrid, não é amada, nem é aceitada. Faz parte dum Estado que a possui como um marido maltratador ou como a pressa dum vampiro que quer sugar o seu sangue, que quer se aproveitar dela sem dar nada de volta. Existe uma falta de respeito constante e continuado na não aceitação da Galiza que chega ao ponto de contagiar a muitos galegos com certa debilidade inteletual, criando neles uma síndroma que faz deles uns seres desnaturalizados e enfermos que se odeiam a si próprios e os sinais identitários que nos individualizam. Acreditamos que o nosso País não seria aceitado por Madrid ainda se tornando castelhano... e inclusivamente haveria galegos que continuariam a não querer ser galegos mas uma sorte de "madrilegos" mutantes. Chegamos a pensar que ainda estando dentro da Espanha não se quer a prosperidade de Galiza embora isso suponha prosperidade para Espanha. Madrid e com ele os “madrilegos”, não estão interessados nem em fazer mais próspera e mais habitável a sua Espanha porque não querem ver próspera e auto-identificada a Galiza que poderia fornecer elementos de progresso e de crescimento -entre eles o da língua- ao próprio Estado...O que quer Madrid e os “madrilegos” é uma Galiza submissa ainda que com isso Espanha se tornar mais pobre.
Se a Espanha fosse positiva connosco, mesmo poderíamos pensar numa Espanha plurinacional, como plurinacional é a Suíça, por exemplo. Mas acreditar nisso é como acreditar na bondade do diabo. Os galegos conscientes devemos contar com estratégias inteligentes para impedir que se nos apague como povo. A língua neste processo é um elemento identitário fundamental. A língua é a nossa Capela Sixtina e não só do ponto de vista estético, mas igualmente do ponto de vista geo-estratégico e económico. Ela dá-nos força e empodera-nos. Da-nos raiz e arraigo com o qual não estaríamos nunca nem entangaranhados nem raquiticos mentais. Sem língua somos simplesmente uns ninguéns embora com língua podemos inclusivamente dar-lhe a volta ao sistema de forças da península. Se não nos querem, queiramo-nos nós e demostremos o que eles perdem por não nos aceitarem como somos. A auto-estima é contagiosa se com galegos tratamos e por se fosse pouco ela provoca respeito nos que não são galegos e sentimentos contraditórios nos "madrilegos". É uma energia poderosa que nos abre portas e nos posiciona ali onde nunca devimos deixar de estar.





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