sábado, 16 de julho de 2011

A referência mais antiga da mítica Atlântida.



Por David Outeiro Fernández 

Segundo o paradigma atual, a escrita mais antiga  é a cuneiforme achada em tabelas e vasilhas de argila de Sumer que foram  datadas por C-14 num período compreendido entre o  3400 e o 3200 A.C. No entanto, há uma série de achados que precedem mesmo milénios a cronologia adjudicada as tabelas sumérias e que parecem mostrar signos de escrita. Estamos a falar de evidências da existência duma escrita na Europa que podemos remontar ao 7000.A.C. Mas o férreo dogma do paradigma dominante é reticente a aceitar a existência duma escrita anterior a estabelecida por ele. Isto provocou que as escritas anteriores às reconhecidas oficialmente permanecessem relegadas ao esquecimento. Além disto, segundo o paradigma atual, foram os fenícios quem introduziram a escrita na península ibérica, em troca, há evidências de que quiçá fossem os fenícios quem apreendessem a escrever na península. Tal hipótese é sustida pela Dr. Ana Maria Vázquez Hoys, á luz de inscrições achadas em sepulcros megalíticos de Huelva. Mesmo, investigações ainda mais polémicas falam na existência duma proto-escrita no paleolítico superior achado no contexto franco-cantábrico denominado ELA (Escritura Lineal Atlântica) por Georgeos Diaz-Montexano.

No que diz respeito à Galiza, há pouco tempo, pudemos ler a notícia duma serie de formidáveis descobertas no castro de Formigueiros. Entre os achados, encontrou-se uma possível inscrição da que se dava conta em alguns meios de informação afirmando que poderíamos estar perante a primeira escritura pré-romana achada na Nossa Terra. A escritura em questão foi achada num peça de lousa na que também se representava um peixe, aparentemente um salmão. Segundo Gonzalo Meijide, o diretor do projecto de escavação do castro, os carateres lembram os alfabetos ibéricos.



Voltemos agora ate começos do S XIX, data na que apareceu o misterioso e impressionante achado que apresento neste artigo. Parece ser que foi neste século, quando, nalgum lugar da Crunha que aparece registado como "Bancal" foi encontrado um osso datado em mais de 6000 anos que apresenta signos de escritura. O osso está na atualidade no Instituto de Paleografia e Filologia Histórica da Academia de Ciências e Letras de Noruega, em Oslo. Apesar da exclusividade deste achado, permaneceu todo este tempo esquecido e passando por coleções privadas até chegar finalmente ao seu destino atual. Não foi até o ano 2003 quando se produziu a sua maior divulgação por causa da obra de Michel Bouvier "L'Art de L'Écriture". Seguidamente, a peça foi objeto de estudo por parte de grandes especialistas já que a inscrição ainda não se tinha identificado. 



Foi em 2005 quando um investigador chamado Georgeos Diaz-Montexano susteve que a inscrição consistia em carateres íbero-tartéssicos. Mas, para além do surpreendente que resulta por si mesmo este achado, temos que acrescentar a maior surpresa que causou a sua transliteração. A hipótese actualmente aceitada pela instituição norueguesa foi a  achegada pelo Professor Diaz-Montexano relativamente à transliteração dos carateres. O resultado foi como "ATal Tarte" pondo-a em relação com a Atlántida-Tartessos. Estaríamos a falar de que há mais de 6000 anos alguém, na atual Galiza, escreveu num osso uns carateres relacionados com a mítica Atlântida que aparece nos textos de Platão, no Timeu e no Crítias. Segundo conta Platão na história da Atlântida, os habitantes deste lugar conheciam a escritura. Estrabo afirmaria posteriormente que os Turdetanos, descendentes dos Tartessos, conservavam a sua história e leis escritas numa gramática que se remonta a 6000 anos antes do seu tempo.



Também, segundo a hipótese defendida por Diaz-Montexano teríamos que pôr em relação a Tartessos com a Atlântida da que fala Platão. Uma hipótese similar, assim como a de que a Atlântida se situaria  na actual Doñana, foi proposta pelo National Geographic junto com a emissão dum documentário sobre o tema neste mês.

No que diz respeito à misteriosa inscrição, comenta Díaz-Montexano o seguinte; "...É impossível negar que esta palavra (ATal) é similar de mais á raiz indo-europeia “*At-l” que aparece no nome de Atlantis, que é uma forma adjetival de Atlas, enquanto que “Tarte” ajusta-se á raiz reconstruída pelos especialistas espanhóis sobre o antigo nome de Tartessos, que seria Tarte-, posto que o sufixo -ssos é de origem egeu ou greco-lídio e acrescentar-se-ia aos nomes de lugares, países ou cidades com o significado de "região", "comarca", "cidade" ou "país", como em Kno-ssos. A terminação em vogal -e da voz Tart-e, poderia corresponder a alguma desinência. É muito difícil assumir que isto seja somente uma simples casualidade. Esta inscrição, confirmaria a antiguidade das escrituras Íbero-Tartéssicas e Atlante (segundo Estrabo e Platão) por um lado, e por outro, confirmaria a identificação da Ilha/Península Atlantis ou "pais de Atlas" com a própria Ilha/Península de Ibéria, como afirma Platão ao dizer que uma região, comarca, distrito ou parte da mesma Ilha/Península Atlantis era chamada Gadeira (Cádiz, Espanha) e que esta mesma região se localizava nas Colunas de Hércules. Em qualquer caso, estamos perante a primeira e única evidência epigráfica achada no mundo, com uma inscrição cuja transcrição fonética se aproxima muito aos nomes de Atlas/Atla-ntis e Tarte-ssos, e que tem mais de 6000 anos de antiguidade..".

Estamos a falar, por tanto, e  possivelmente, da inscrição mais antiga do mundo em relação à Atlântida e que foi descoberta na Galiza, num osso de mais de 6000 anos de antiguidade. Fascinante, não é?

Referências:  
The Shoyen collection: 
http://www.schoyencollection.com/firstalpha2.html#5237-2
Artigos;
http://sicoplastica.blogspot.com/2008/04/la-atlntida-y-tartessos.html

http://www.phistoria.net/noticias-de-historia/La-Atlantida-y-Tartessos-Instituciones-cientificas-de-Noruega-reconocen-hipotesis-Iberica_96.html
http://www.abc.es/20110314/ciencia/abci-national-geographic-situa-atlantida-201103141731.html
http://my.opera.com/Georgeos-Diaz-Montexano/blog/?id=310801
http://www.youtube.com/watch?v=FyDEOuAO2OU
http://www.youtube.com/watch?v=7ThDZqJS4ZA

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Tipical Spanish e outras lindezas


Por José Manuel Barbosa.

Dentro de uns dias vai fazer um ano da proibição das touradas em Catalunha. As votações foram um exemplo democrático para essa histórica mentalidade hispânica intolerante com todo o que não seja “cañí” e que na maioria dos casos cria leis "ad hoc" para proibir aquilo que não partilha ou não percebe. Nesta altura só cabe parabenizar mais uma vez a Catalunha e lembrar que vai ser o 1 de janeiro de 2012 quando entre em vigor a proibição.

Os argumentos que se trabalharam naquela altura, como ainda se poderiam tratar agora foram fundamentalmente dous: o argumento humanitário e o argumento identitário. Do primeiro há pouco a dizer, porque todo o mundo sabe o que uma morte cruel com fins lúdicos supõe numa sociedade que se diz europeia e civilizada. Da segunda é comentar que bem sabemos o valor dos elementos identitários nos povos, mesmo aqueles elementos de crueldade como é neste. Na Espanha faz-se prioritária a identificação nacional sobre o humanitário e inclusivamente os inteletuais que noutros casos defenderiam a vida dum animal indefenso, neste caso defendem o simbolismo da tortura e a humilhação dum touro porque isso é sentido como muito espanhol.

Esse sentimento inclusivista  do nacionalismo espanhol de signo centralista e castelhano age procurando vínculos com aqueles outros povos ou nações que ainda dentro da Espanha lutam ou lutamos por outra identificação nacionalitária. É o caso de argumentar a origem mediterrânea da tauromaquia para defender o facto de ser tão catalã como espanhola com o fim de que a Catalunha não apresente traças nacionais diferentes do resto da Espanha. Suponho que quando se der o debate na Galiza, povo atlântico vinculado ao mundo céltico, não poderão defender essa mediterraneidade. Ou é que quiçá recorram à mentira como quando dizem que a cultura castreja tem a ver com o “Mare Nostrum” (para nós “Mare Suum”)?.

Lembro quando há um ano por estas datas havia debates em todas as TVs públicas e privadas sobre o assunto. Essa luta identitária de Catalunha versus Espanha era muito mais importante do que a problemática gerada pela crise económica que de forma natural nos faria estar pouco atentos a essa “fiesta” à qual se lhe põe o alcunho de “nacional” no Centro e no Sul peninsular incluindo-nos àqueles que nem somos mediterrâneos nem sentimos como tradicional esse tipo de atividade pseudo-desportiva .

Ainda nunca vi em qualquer meio de comunicação que se defendam com tanto ânimo e tanta força as chegas de bois da Baixa Lima as quais foram proibidas “pela sua crueldade” por um Poder Político galego que imediatamente trouxe “plazas” portáteis para passar-nos pelos narizes a prepotência suicida do seu complexado nacionalismo espanhol no que todos devemos estar incluídos queiramos ou não.

Se nos apurarmos mais, podemos falar também de elementos tradicionais que nos eliminam como é o caso do “modus operandi” na matança do porco. O galego matava por necessidade, para comer e duma forma determinada para poder sangrar o animal de jeito que a sua carne tivesse o sabor e a sanidade adequadas, o sangue fosse aproveitado para a cozinha e pudesse estar limpo e livre de toxinas, já que o seu movimento no momento em que se levava a cabo o corte na jugular favorecia a sua limpeza. Com a forma tradicional o sangue corria e era recolhido num caldeiro preparado para o caso sem ficar parado no corpo. No caso da matança ao modo agora obrigatório, o sangue parado nas veias e artérias absorve quantidade de elementos tóxicos hormonais provocados pela sua morte sem sangrado.

Eu não sei se é mais ou menos humanitária uma forma do que outra, mas se isso é o importante para a administração, porque não é que matam os touros com uma pistola no mesmo momento em que entra no “ruedo”? Será que o morbo e a crueldade que necessita o que vai a este tipo de espetáculos não estaria garantido? Quiçá o que quer o público espanhol é ver sofrer um animal indefenso, acosado e cheio de medo?

Outro elemento identitário galego que estão a destruir sem qualquer pudor  é a tradição do cozimento do polvo. Até agora fazia-se num caldeiro de cobre, mas uma legislação europeia que a Espanha não discutiu nem discute -como discute a legislação sobre o maltrato animal referida aos touros-, faz que o caldeiro seja agora doutro metal diferente “por razões de salubridade”. Depois de milénios cozendo o polvo em cobre vão-nos ensinar agora como é mais são e como é que o polvo tem mais sabor. Acrescentamos a isto, o tradicional prato de madeira, sei-que também “insalubre”, que vai deixar de ser legal para deixar passagem ao prato de plástico à venda nos hipermercados. Não se fala da falta de sensibilidade ecológica e ambientalista do novo material em relação à madeira pois o que realmente importa é o benefício que o fabricante de pratos de plástico vá ter.

Continuando com os touros, dizer que os filotaurinos arguiam em favor da sua “fiesta” que há um sector empresarial comprometido com ela, mas parece ser que não se lembra ninguém, nem galegos nem forasteiros, que aqui havia um sector ganadeiro tradicional e importante, que levava milénios em uso e também de grande futuro se o Estado Espanhol tivesse vontade de nos administrar e os votantes tivessem mais do que dous neurónios a trabalhar, que acabou quase totalmente eliminado por umas quotas lácteas impossíveis de suster pelos ganadeiros; também havia um sector pesqueiro que fazia da Espanha a terceira potência mundial em matéria de pesca e que foi também quase eliminado; há também na Galiza outros sectores empresariais pouco desenvolvidos, mal desenvolvidos ou sem desenvolver como a madeira ou o energético que não são atendidos ou são secundários para os interesses do Estado e parece que também para o próprio administrado que vota com ínfima seriedade. Vem-me também à cabeça o sector cultural e nomeadamente a língua que poderia ser um importante dinamizador da economia galega e tudo faz ver que não só o esquecem, mas que desejam que não se desenvolva para que não concorra com o seu castelhano. Como se fossem incompatíveis.

A minha ideia, proposta, portanto, é que reconvertam o sector taurino por ser economicamente de pouca importância para Espanha (ainda que lhes seja importante identitariamente). Para os galegos era muito mais importante economicamente o sector lácteo, o sector pesqueiro, o sector naval, o sector agrícola, o sector linguístico-cultural, o sector energético, e foram eliminados ou são obviados sem qualquer pudor por parte dos políticos com a conivência dos votantes absurdos e ignorantes; dos suicidas da Nossa Terra. Deixem livres os touros de lídia em parques naturais ou nacionais da geografia castelhano-andaluza e que o turismo se aproveite disso organizando safaris guiados por pessoal treinado para mostrar o “tipical spanish”. Que vivam, cresçam se reproduzam e morram em liberdade esses lindos espécimes de bovídeos ibéricos que diz que existem só para que o espanhol do comum desfrute ao ver como lhe metem um espeto pelas costas, ou no pior dos casos como um complexado macho humano recebe uma cornada de morte ali onde lhe doe só por reafirmar e demonstrar a sua virilidade com falso valor e com umas calças de talha muito menor das que usaria para andar pela rua com o fim de fazer ostensíveis aqueles signos de masculinidade que não se veriam doutro jeito.

domingo, 3 de julho de 2011

Pedagogia linguística inversa


Por Joám Evans Pim

(Academia Galega da Língua Portuguesa)

A psicologia inversa (ou reversa) é uma técnica paradoxal pela qual se encoraja uma crença ou comportamento oposta à desejada com o intuito de alcançar esta última. Este tipo de intervenção apoia-se no princípio da “reactância”, que prevê uma resposta negativa às imposições percebidas, resultando na adoção da conduta ou posição contrária. Trata-se de uma estratégia cognitiva muito recorrente com crianças, onde a reactância irreflexiva é maior. Ora bem, nem sempre funciona.

A história recente da língua portuguesa na Galiza pode ser vista como uma tentativa experimental de “pedagogia linguística inversa”, onde se assumiu aprioristicamente a condição infantiloide dos falantes da nossa língua na Galiza e da população do território em geral. Esta reflexão parte, claro está, da “pressuposição de inocência” dos artífices do grande campo de experimentação galego de pedagogia linguística inversa (desenvolvida sob as etiquetas de “normativización” e “normalización”), a quem não atribuiremos, de início, uma intencionalidade linguicida e etnicida oculta que, no entanto, é resultado patente do experimento iniciado faz já 30 anos.

Lembremos que em 1979 o governo pré-autonómico da Galiza estabelece uma Comissão Linguística sob a presidência do Professor Carvalho Calero. Esta Comissão elabora e apresenta em 1980 umas “Normas Ortográficas” que, sem rachar com boa parte da tradição gráfica anterior, deixam aberto caminho para uma progressiva aproximação ao sistema do ibero-românico ocidental no qual a língua da Galiza se insere. Em um verdadeiro golpe de estado interno, a Real Academia Gallega realiza, sob a pressão do seu presidente, o então Delegado do Governo espanhol García Sabell, e do Instituto de la Lengua Gallega, impulsionado sob os auspícios do novo governo autonómico, realiza uma reunião anti-estatutária em 3 de julho de 1982 na qual são aprovadas umas novas “Normas”. Estas pautas ortográficas foram elaboradas de forma secreta pelo Instituto de la Lengua Gallega estabelecendo uma linha claramente oposta à marcada dois anos antes pelos membros da Comissão presidida por Carvalho Calero.

As “Normas” isolacionistas ILG-RAG, que forçam uma separação artificiosa frente ao português através da aproximação com o espanhol, são impostas administrativamente por meio de um decreto ilegal do então Conselheiro de Cultura, o Sr. Filgueira, promulgado em 20 de abril de 1983 e impugnado no Parlamento pelo deputado Lopes Garrido. A lógica expressa desta manobra, em palavras de um dos seus promotores, Ramón Lorenzo, é: “No nos interesa una normativa para que nos entiendan en Angola, Mozambique o Brasil” (La Voz de Galicia, 4 de julho de 1982).

A justificação oficial dos “cientistas” da pedagogia linguística inversa (entre eles destacados membros do atual “establishment” universitário como Antón Santamarina ou o citado Ramón Lorenzo) foi a de que a melhor forma de consolidar a língua da Galiza frente à pressão aguda do espanhol era... assumir a ortografia do espanhol! Assim, as crianças (e galegos em geral) familiarizados com a ortografia espanhola não teriam capacidade cefálica suficiente para assimilar novas convenções (nh, lh, j, g, ç, ...) pelo que qualquer tentativa de aproximar a escrita emergente à de uma língua internacional de ciência, cultura e negócios seria “un esforzo antieconómico, diferencialista, abocado a non ter éxito nas condicións obxectivas -e non negativas- en que estamos” (palavras de Juan José Moralejo). Isto contrasta com a visão defendida publicamente antes da sua conversão ao “paradigma inverso” por pessoas como o próprio Lorenzo, que propunha que na Galiza se adotassem grafias como o nh, lh, g e j: “En Galicia somos moitos os que queremos esta xuntanza [das letras galegas às portuguesas]” (Vieiros, n.º 2, 1962). Esta coerência e “defensa del idioma gallego” foi reconhecida recentemente (26 de junho de 2011) com o Prémio Trasalba da Fundação Otero Pedrayo.

A lógica paradoxal da pedagogia linguística inversa assumia (e ainda assume) que para obter um resultado positivo (recuperar e dignificar a língua da Galiza após séculos de silenciamento, supostamente) a intervenção mais apropriada seria aplicar uma sugestão negativa (i.e., distanciar todo o possível o padrão oral e escrito da variedade internacional da língua, cultivada e bem implantada no estado nacional limítrofe, adotando, contrariamente, os critérios gráficos e fonéticos da língua de contato que vem erodindo a própria). Segundo as pretensões científicas dos laboratórios de experimentação inversos, em poucos anos a língua da Galiza teria recuperado o seu vigor social como língua isolada em feliz bilinguismo harmónico.

No entanto, quando se cumprem 30 anos do início da aplicação da pedagogia inversa no campo de experimentação galego, é possível verificar os resultados dramáticos que apontam para um autêntico linguicídio (intencionalmente planificado ou não), uma vez que o uso real -e cada vez mais corrompido- do português da Galiza entre as gerações jovens e as camadas urbanas está-se tornando um fenómeno minoritário. O fracasso é evidente se os objetivos públicos eram honestos. O experimento deve parar.

É necessário substituir a lógica perversa e macabra da pedagogia inversa por uma pedagogia racional e de utilidade para a língua da Galiza. Não se trata já de aplicar os critérios científicos da romanística adotando uma ortografia coerente com o lugar que uma língua ocupa dentro de um sistema, mas apenas o critério do sentido comum. Este processo não precisa ser traumático. Não se pedirão as cabeças dos “mengeles” galegos.

A ortografia comum, ratificada no Acordo Ortográfico, deve ser introduzida gradualmente nos programas escolares em andamento e desde o início nas novas incorporações escolares. Professores e alunos são suficientemente inteligentes para assimilar rapidamente as diferenças. Com uma fração dos recursos de “política linguística” jogados ao lixo nas últimas décadas financiando meios de comunicação hostis à língua ou desenvolvendo campanhas publicitárias absurdas seria possível aumentar o corpo já existente de docentes bem treinados incorporando novos profissionais que poderiam atuar com uma pedagogia eficaz e inovadora no ensino, na administração, nos meios de comunicação, etc.

A Galiza seria bem acolhida e usufruiria o que o universo extenso e útil da nossa língua tem para oferecer: literatura, manuais científicos, cinema, música, televisão, rádio, ... facilmente introduzíveis em nosso território graças às novas tecnologias. Conscientizados, os falantes da língua da Galiza estariam prontos para assumir as vantagens competitivas que esta ferramenta proporciona no âmbito emergente da Lusofonia, abrindo oportunidades de trabalho e negócios com países como o Brasil, Angola, Timor ou a China.

http://www.pglingua.org/opiniom/artigos-por-data/3640-pedagogia-linguistica-inversa

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Liberdade ou Legalidade?





Por José Manuel Barbosa
Faziam uma entrevista aos candidatos à presidência da Câmara Municipal pela cidade da Crunha num programa duma TV privada. Eram perguntas simples que deviam ser respondidas em poucos segundos com agilidade e com convencimento. Nelas o público poderia ver e sentir a energia e o espírito de cada um dos candidatos ao se defenderem dialeticamente do bombardeio que se lhes apresentava.

Como o meu labor, ou pelo menos um deles, é o meu compromisso militante com a língua deste meu País, reparei especialmente  numa das perguntas que levava uma importante dose de intencionalidade, nestes últimos tempos em que o apuro por estragar a nossa língua por parte dos poderes públicos é especialmente incisivo, teimoso, malvado e regressivo. A pergunta em questão era: “A Coruña ou La Coruña?”

A resposta de cada um dos candidatos foi diretamente proporcional à capacidade de mobilização do eleitorado usando como instrumento o saber penetrar na mente dos eleitores com maior ou menor dose de demagogia e de encanto formal.

O candidato do PSOE respondeu: “Las dos”; o candidato do PP disse: “La libertad” mas o candidato do BNG (Bloco Nacionalista Galego) saiu com um...: “A Coruña, porque o di a legalidade que ......” e recorrendo a um discurso que o levou a ultrapassar os cinco segundos estipulados para cada candidato em cada resposta acabou perdendo-se na explicação.

Como podemos ver, e sempre falando desde o meu critério subjetivo, a resposta do candidato do Bloco foi a menos eficaz, já que a lei é a cousa menos popular de todas, a qual pode ser mesmo trocada amanhã. Esse critério legal que hoje se expõe, amanhã pode voltar-se à contra pois com só dous ou três movimentos legais a situação do Bloco poderia passar de “defender” essa precária legalidade a fazer que se tivesse que posicionar à contra.

Por outro lado considero muito pobre contrapor a "legalidade" à ideia de “liberdade” exposta pelos outros dous candidatos. Ideia esta, a da Liberdade, que ainda vazia de conteúdo em muitos casos, enche bocas e ouvidos de qualquer votante pouco maduro, como na realidade é qualquer eleitor do nosso País neste momento da história.

Eu quereria ter visto outra atitude mais convencida, mais poderosa e sobretudo uma atitude que soubesse ganhar o voto com uma frase que superasse a demagogia e o populismo totalmente desprovido de conteúdo dos outros dous candidatos, mas estou totalmente certo de que a debilidade desse conceito de “língua galega” defendido pelo Bloco desde há décadas se corresponde com a sua falta de imaginação para fazer que a nossa língua seja vista pela nossa sociedade como um ativo espiritual, material, inteletual, empresarial, económico, social e político de peso, impossível de apagar e anular, mesmo por aqueles que quereriam a sua total e absoluta desaparição.

Como eu sou uma pessoa convencida de que a língua é algo prioritário, importante, para mim elemento gerador de riqueza, mesmo económica, fiquei tão desiludido por essa resposta do candidato bloqueiro como se me dissesse que preferia a forma “La Coruña”.

Só vendo nessa formação política uma teima sobre um conceito do galego vazio de valor e conteúdo, seguidista da política linguística que está levando à nossa língua à desaparição podemos dar resposta a essa constante perda de apoio que o Bloco vai tendo cada vez que há eleições.

A obsessão de, realmente, introduzir a língua por que sim, porque é “progre”, em vez de expor argumentos que o façam atrativa ao votante, faz que à vontade desgaleguizadora do poder se veja ajudada pela ignorância de como mantê-la como elemento de união e de interesse para todos os galegos.

Como eu sou uma pessoa convencida do potencial da nossa língua e ouço, como ouvi, essa resposta, fico pensando que o Bloco como formação política é incapaz de fazer da nossa língua o eixo vertebrador desta nação chamada Galiza.

Gostaria que à pergunta: “A Coruña ou La Coruña?" tivesse uma resposta como: “A inteligência” ou “A riqueza”, ou “A razão”, ou “ A identidade”... que pudesse contrapesar o poder do demagógico de “La Libertad” ou “Las dos” manifestado por quem realmente quer que desapareça a nossa língua do mapa da Galiza.


E finalmente, que fique dito, que hoje falamos da pouca agilidade, pouca imaginação, pouca força, pouca inteligência e pouco espírito dos bloqueiros...mas amanhã falaremos de se nós preferirmos “A Coruña” ou “Crunha”. Que essa é outra.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Tem pátria o capital???

 Por José Manuel Barbosa

Atribui-se ao liberalismo o axioma que diz “o capital não tem pátria” mas há vezes em que tenho muitas dúvidas disso. O que fez crescer o mundo ocidental desde o século XV foi, com certeza, a liberdade económica e aproveitar tudo aquilo que tivesse valor para fazer prosperar os povos e as pessoas, mas...
Perguntar-se-á o leitor... e a que vem esta reflexão? 
Dir-vos-ei:

Quando uma pessoa que se diz de pensamento liberal e se acredita inteligente, tem a pouca vergonha de dizer que a existência de quatro línguas no senado é motivo de preocupação pelo gasto económico e porque estamos numa crise importante que nos pode levar à falência, acabo perguntando-me se o pessoal está neste mundo por ver passar as horas o é que acredita na quadratura do círculo.

Conta-se-nos que o galeguismo é ideologia. O estado neutro e ideal por desprovido de carga ideológica é viver em castelhano. O galeguismo é de pailães ou de “bloqueiros” ou no melhor dos casos de “culturetas” que professam o “freakismo” militante. Isso é como nos educam os poderes neste nosso País. Há gente “inteligente” que assume esse pensamento com toda a inchação de peito e com toda a vaidade de quem se pensa na posse da verdade absoluta revelada pelas mais altas instâncias celestiais. A essa gente parece não poder-se-lhe levar a contrária porque acabam qualificando a um de qualquer cousa menos de bonito. Isto não ajuda muito ao debate porque acabamos o assunto de tal jeito que é um que contradiz o que é o radical ou anormal e não ao invés.

O mais surpreendente para mim é que esse estúpido pensamento é defendido muitas vezes, não por pessoal humilde e iletrado (que também! dito seja de passagem) mas por gente que passou pela universidade, tem uma boa cultura aparente e se mexe pelo mundo com certa agilidade. É essa gente que diz que lhe impõem o galego cantando como ararás o mantra repetido até o cansaço pelo cavernarismo filomadrileno.

Como é que não temos consciência de que qualquer língua é mais um recurso económico? Uma língua é em muitos casos uma variável das diferenças salariais e sociais, pode ser base para o comércio e a transação dentro duma região pequena ou mesmo entre países afastados por oceanos. A língua, toda língua, é uma industria e como tal contribui ao PIB dum país por muito pouco que seja e por muito pequena que seja a língua, mas sempre gera riqueza.

As línguas geram milhões de euros e milhões de postos de trabalho. Se essas línguas são línguas francas ou usadas em vários países, esses milhões podem se multiplicar, como também os seus  PIBs e o número de postos de trabalho gerado por elas.

Se nos dermos uma volta pelas utilidades duma língua veremos que as possibilidades são infinitas porque desde o ensino que é um traspasso de informação, em princípio básica, mas com o tempo acaba tornando-se científica, técnica, económica, jurídica, política, psicológica, jornalística, etc... passando pela utilidade para as empresas de correios, telecomunicações com o seu mundo informático tão presente na vida do ser humano hoje, a publicidade, recursos de empresa, finanças, matérias primas, espírito empreendedor, turismo (gente que vem para apreender o idioma...), cultura e património, negócios, peso político internacional... Tudo isto são só algumas das muitas possibilidades que se me ocorrem para uma língua.

Algumas línguas são transmissoras mesmo de cultura ideológica, como o russo (Lenine, Bakunin, Kropotkin...), ou o castelhano (autores cubanos, nicaraguanos ou venezuelanos ...), língua da ciência (os matemáticos russos dão aulas aos chineses porque a língua chinesa tem limitações ao respeito...), língua franca (dos países ex-soviéticos entre eles), língua de negócios como o português (Petrobrás...), inglês (Ford...), castelhano (Repsol...), francês (Citröen...), alemão (Volkswagen...), etc...

Repare o leitor que qualquer língua pode gerar riqueza em todo o caso. Qualquer uma. Grande ou pequena, cada uma em função do seu valor nacional e/ou internacional sempre ela terá um forte conteúdo económico. A comunicação linguística é um mercado e ainda um formador de mercados de bens e serviços salientando no mundo de hoje a publicidade, tanto a informativa como a persuasiva. As línguas influem nos custos de produção das empresas gerando custos de informação e influindo de forma determinante na demanda dos produtos de consumo e nos próprios preços dum produto.


Tudo partindo da ideia de que  uma língua não tem custos de produção já que ela é criada através dos séculos e durante a história pelo povo que não investe dinheiro na sua conformação; os seus recursos são inesgotáveis como o mar, o oxigénio e não pertence a nenhum magnate poderoso nem a grupos de pressão ou de contestação. A língua valoriza-se mais quantos mais utentes tem, daí o bom investimento que supõe qualquer processo de normalização e multiplicação dos seus falantes. Aliás é um bem que não se pode nacionalizar porque já está nacionalizada e é impossível privatizá-la pois a sua função é permitir a comunicação entre as pessoas e reduzir por isso os custos de qualquer transação, daí também a bondade do plurilinguísmo contrário à ideia monolinguísta da Espanha castelhana, tanto interiormente como exteriormente.

E o melhor de tudo isto do que falamos é que os galegos temos uma variante linguística reconhecida por todos os linguistas -menos os pagados pela “Xunta”-, como uma variante duma das línguas mais sucedidas da humanidade. A quinta em número de falantes, a terceira europeia e a segunda latina, com um país de referência como o Brasil como potência emergente e de futuro. Essa língua nasceu no nosso País e foi levada pelo mundo nas descobertas portuguesas. Rechaçar, odiar ou simplesmente não querê-la é tão absurdo como rechaçar o pão em horas de fome ou a água no deserto. Simplesmente absurdo. Esta nossa língua que nós conhecemos com o nome de galego e no mundo é conhecida como português gera o 17 ou o 18% do PIB de Portugal, entre o 13 e o 17% do PIB do Brasil em alça e o 3% do PIB mundial.

É essa “Xunta de Galicia” governada quase eternamente por um mesmo poder político desde há mais de 30 anos a que leva à morte a língua dos galegos com uma política linguística "elaboracionista" e quase monolítica desde os anos 80, que tem como resultado a progressiva extinção da nossa língua seguindo uma metodologia etapista e letal cada vez que o povo galego introduz um papel de voto favorável  ao "statu quo". Esse poder político retroalimentado com a ignorância e a ignomínia faz que se perpetue o problema e a necrose “ad eternum” para completar a solução final por eles desejada.

Se eu acreditasse que o poder galego existente desde 1981 fosse bem intencionado e com um perfil liberal como é o que vende, pensaria que como o capital não tem pátria existiria a possibilidade de ver como a nossa língua teria futuro e o nosso povo também, beneficiado pela condição de língua extensa e útil. Mas o facto de que estejam dispostos a tratar a língua dos galegos como a tratam, dá-me a pensar que estão a deitar pela janela milhões e milhões de euros, muitíssimos postos de trabalho e muitíssimas hipóteses de criação de empresas e de negócios; dá-me que pensar que o seu intervencionismo e a sua irresponsabilidade não fazem esse poder galego um poder liberal que pense na criação de riqueza, por isso ou é que não são muito inteligentes, hipótese na que não acredito, ou é que a perfídia malvada com a que nos tiram a vida, a dignidade, a prosperidade e nos fazem passar por parvos no-los revela como autênticos lobos com pele de ovelha e depredadores que sim têm claro qual a sua pátria e qual a nossa. Em todo caso pátrias diferentes ainda que nos façam pensar que é a mesma. Porque...vamo-nos parar a pensar: Só a um ignorante se lhe ocorreria dizer que investir dinheiro na nossa língua é um gasto; só a um férrido e duro se lhe ocorreria desvalorizá-la; só a um imbecil e obscuro se lhe ocorreria levar uma política linguística que derivasse na desaparição duma fonte de riqueza tão absoluta e só se lhe ocorreria queixar-se de que lhe impõem o galego a um que não entende, não.

Por todo isto e por muito mais acredito em que para eles o capital sim tem pátria...e essa pátria parece não ser a nossa.



sábado, 18 de junho de 2011

O centrismo oscilante.


Por José Manuel Barbosa.
 


Tenho dous amigos com os que partilho o gosto pela política. Um deles procede ideologicamente duma família de centro-direita  e o outro recebeu uma educação e uma tradição socialdemocrata  de esquerdas. Até há pouco tempo quando nos juntávamos os três as discrepâncias se faziam muito manifestas e as discussões  nunca tinham fim.


Deve haver uns dez anos aproximadamente em que os posicionamentos dos meus dous amigos se vêm achegando, se moderam o um com o outro, e chegam a pontos em comum muito interessantes e difíceis de prever por mim em tempos passados, pois já levo com eles mais de trinta anos e nunca pôde imaginar tal achegamento. Agora vejo neles o afã de concordar para solucionar os problemas da vida diária. Antes, contrariamente, o dogma estava sempre presente e primava mais “a priori” o posicionamento ideológico de cada um do que arranjar a vida dos cidadãos. Ultimamente o assunto já não é tão ideológico como era até uns anos. Agora é mais prático mas também é certo que o que faz que cheguem a pontos de encontro é que os dous têm a ideia acertada de acreditarem que é na Galiza onde se deve e se pode desenvolver a ação do seu ideário.
Estou a ver com surpresa que eles acham que o que faz falta é solucionar os problemas dos administrados e não impor um pensamento ideológico por cima das realidades e dos contextos globais nos que estamos inseridos. Assim às vezes será necessário –dizem eles- aplicar soluções liberais para criar riqueza e outras vezes soluções mais socializantes para repartir essa riqueza.
Como eles são galegos e vivem na Galiza, ambos os amigos chegaram à conclusão de que os seus projetos e ideários tinham de ser aplicados na Galiza, não na Polónia, na Guatemala, ou na Austrália onde já há gente inteligente que pode e deve trabalhar pela humanidade. Acham igualmente que os interesses dos andaluzes, ou dos madrilenos, ou dos catalães ou dos murcianos não são os nossos interesses porque as fontes de riqueza, os meios de produção, as pessoas com as suas diferentes formas de fazer e de perceber as cousas e as vias de expansão económica não são as mesmas nem geograficamente, nem historicamente, nem também os amigos ou parceiros com quem possamos partilhar interesses são os mesmos, ainda que sim possamos fazer negócios com todos e cada um deles forem donde forem, que essa é a finalidade: trocarmos riquezas materiais, culturais, linguísticas, espirituais ou de outros tipos, e portanto, enriquecer-nos todos como conjunto.
Estes amigos meus deixam-me surpreso muitas vezes quando falam de soluções viáveis que não se levam a cabo pela mediocridade dos políticos que temos ou por falta de imaginação ou iniciativa. Eles falam de cousas como estas:
·                                 Para eles solucionar problemas é adatar o horário galego ao fuso horário que lhe é natural. O mesmo da Irlanda, de Portugal, das Ilhas Canárias..., pois como comentávamos anteriormente em outro artigo (ver “Por uma hora galega”) a poupança passava-se dum 1% de como está agora até um 10% de mudarmos para a hora que nos é natural, como nos informava a CNRHE (Comissão Nacional para a Racionalização dos Horários Espanhóis).
·                                 Para eles solucionar problemas seria criar uma Bolsa de Valores na Galiza. Ideia esta que já se debatia na época do Fraga mas que ainda ninguém foi capaz de levar a fim por veto madrileno. Mesmo é uma aposta positiva para o próprio Estado Espanhol que vê com muita menos inteligência as cousas do que, por exemplo a França, a qual pode virar os seus interesses do Mediterrâneo para o Atlântico se lhe convier. Contrariamente, a Espanha só está centrada nos seus interesses mediterrâneos sem tomar consciência de que a faixa atlântica abre portas económicas que teimosamente Madrid se empenha em fechar tornando em absurdos os políticos galegos que se posicionam ideologicamente próximos dos interesses do Estado. Este posicionamento negativista da Espanha em relação à Galiza abre em troca caminho a futuros (quando não já presentes) problemas de adequação e adatação do nosso País com respeito ao Estado mas não há que dizer muito sobre os benefícios que esta iniciativa económica teria para a Galiza.
·                                 Os meus amigos ainda sendo de posicionamentos sociais bem diferentes apoiariam a eliminação das administrações intermédias como as deputações, a divisão provincial, o elevado número de Concelhos na Galiza ainda que também apoiariam  a recuperação da minguada e decrescente população galega dando-lhe às freguesias ou paróquias rurais a entidade jurídica própria dentro de Concelhos de tamanho comarcal com serviços adequados para a população se manter servida.
·                                 Solucionar problemas deste País para os meus amigos passa pela recuperação da população galega por meio da organização territorial histórica paroquial e comarcal que  ajudaria a que esta tivesse um maior peso dentro do Estado e por tanto pudesse ter mais poder de decisão para poder defender o que ninguém defende por nós, chefiando a Galiza a reivindicação dos interesses atlânticos de forma que viessem connosco os apoios de outros territórios com as mesmas necessidades.
·                                 Também arranjar necessidades galegas para os meus amigos seria o reconhecimento da unidade linguística galego-portuguesa com todos os benefícios que isto traz, e não só culturais e de identidade, mas também políticos e  económicos (ver “Há muita fome no mundo”)
·                                 Eles concordam em que para que tudo isto fosse avante seria necessária uma organização partidária galega completa, própria de qualquer país normal, com partidos de direita, de centro, de esquerda, de todo tipo de organizações de defesa do país independentemente dos seus vínculos ideológicos conservadores, liberais, democrata-cristãos, socialdemocratas, socialistas, comunistas, anarquistas, ambientalistas, verdes ecologistas, etc... pois na sociedade é que se dão todas estas possibilidades e a dia de hoje a oferta partidária na Galiza é muito limitada para defender o País fora doutros posicionamentos que não sejam socialistas ou comunistas.
·                                 Segundo eles, a Galiza como País necessita relacionamento com o exterior, não só com outros territórios da Espanha e para isso comentam de virar os nossos interesses de cara a três direções: a) o mundo atlântico europeu, céltico e britânico por proximidade, vínculos históricos e comunidade de interesses económicos; b) o mundo lusófono por outro, por proximidade cultural e identidade linguística, que abre portas económicas de grande poder tanto mais desde o momento em que a lusofonia começa a ter peso no mundo e c) o mundo hispano-americano com o qual temos séculos de relacionamento por ter sido destino da nossa histórica emigração a qual pode ser um importante suporte para uma Galiza forte.
·                                 Ainda, comentam os meus amigos, haveria um quarto ponto de relacionamento exterior e é este o apoio a uma Europa realmente unida posicionando-nos pouco a pouco com as potências emergentes, e nomeadamente com o Brasil para evitar cair no grande abismo que estão a construir os Estados Unidos que teimam em produzir dólares sem limite inflando a bolha que criou a crise presente e agravando-a mais cada dia que passa até que acabe por fundir aos próprios norte-americanos e com eles a esta servil Europa que não sabe dar-lhe uso à sua união.
·                                 Mas também, como último elemento que transcende e une o pensamento polar dos meus amigos é o facto de podermos ter na Galiza políticos com mente clara de estadistas, que pense em grande e não tenha medo a jogar com força e inteligência, não politiquinhos cosmopaletos aderidos a Madrid por fidelidades servis ou falsa alternativa a eles. Não nos seriam de utilidade galeguismos que nem têm consciência da globalidade onde estamos inseridos, nem sabem safar do poder centrípeto que nos envolve numa inércia pasmona que nos anula e que nem dão jogo a outras alternativas galeguistas que não sejam as suas.
Como os meus amigos provêm, um do centro-direita e o outro da esquerda e chegaram a conclusão de que às vezes era necessário apoiar o elemento privado e outras o assunto público segundo convier, um que isto escreve também chegou a um ponto que graças à curiosidade que criou em mim tal processo evolutivo, quis pôr-lhe um nome a este caminho central e centrado. Central por ser esse o ponto do espetro político ao que tendem. Um lugar, uma localização igualmente distante dos dous extremos, querendo e vendo necessária essa oscilação da balança como fórmula que achega a um ou ao outro ponto, segundo convier, com um equilíbrio em movimento que visa evolução. Igualmente é centrado porque a ponta do compasso está sempre posta na Galiza. A isto, deu-se-me por chamar-lhe o “Centrismo Oscilante”.


terça-feira, 7 de junho de 2011

O nome do Brasil e o mundo céltico


Por José Manuel Barbosa


Artigo dedicado a minha amiga brasileira Vanessa Nega e a sua turma de bretões estudantes de português. Com carinho.
A mitologia céltica está presente ainda hoje nos países de tradição atlântica e entre eles, a Galiza e o Portugal originariamente galaico, ainda que dous dos países popularmente mais conhecidos e reconhecidos pelo seu caráter céltico são a Irlanda e a Bretanha. Nestes países as mitologias referidas a heróis guerreiros ou as hagiografias referidas a santos assimilados a partir de lendas pré-cristãs estão presentes ainda neste século XXI.
Neste artigo que começo, quero resgatar o relacionamento que há entre uma velha lenda irlandesa, mas também bretã, com o étimo do Brasil que nos chega muito pertinho aos galegos, tanto pelo que de celta tem o tema, quanto de lusófono. Assim é do nosso ponto de vista, a etimologia do grande e irmão país sudamericano que muitos galegos vemos verde não só pela cor das suas matas, mas pela esperança que em nós alimenta. Vamos ver algo sobre a etimologia do Brasil:
 Assim, contam-nos as lendas atlânticas que foi Breasail o grande Rei do mundo que vivia numa ilha do Atlântico para além do ocidente da atual Irlanda. O seu país era chamado Hy-Breasail e só podia ser visto um dia cada sete anos porque a brétema perpétua só permitia isso para que os olhos da gente pudessem admirar a beleza daquela terra perdida no oceano.
Ele e os seus chegaram a velha Irlanda chefiando as tropas dum exército que lutaria contra os habitantes da ilha cujo Rei daria em doação terras aos invasores, O lugar: ali onde segundo também conta a lenda foi fundada a cidade de Gaillimh, conhecida com a grafia inglesa como Galway, nome da filha do Rei Breasail -Gaillim inion Breasail-, mais tarde afogada no rio Corrib que discorre por essa cidade.
Os descendentes de Breasail seriam os O’Breasail de Irlanda, nome familiar ainda existente hoje e a ilha da qual procediam foi assimilada com a Ilha de Ávalon, Tir na nOg e mesmo a perdida Atlântida com a qual partilha muitas similitudes.

A palavra “Breasail” acolhe grande variedade de formas em gaélico: Brasil, Berzil, Brazir, Breasil... e tem sido bastante comum como nome de pessoa graças a que o mito foi cristianizado e daí deu o nome do santo irlandês Brecan (Breogam ?????).

Breasail parece significar “Vermelho” em gaélico, que é o nome que recebe igualmente o cinábrio ou sulfureto de mercúrio, mineral de cor vermelha e brilhante utilizado para pôr cor nos cabelos e no corpo das pessoas. Este nome gaélico dá na nossa língua “varzino”, em castelhano “bracino” e mesmo em catalão “barcino” donde poderia derivar a palavra Barcelona (BARKINONAN>Barcelona em acusativo céltico segundo Higino Martins língua franca na península e na Gália em época pré-romana). Talvez tivesse a ver com a cor dos cabelos do herói do que estamos a falar como do cinábrio com que comerciariam os próprios povos célticos com os mediterrânicos latinos, fenícios e gregos (lembremos que o nome de “fenícios” vem do grego “Phoenikés” que significa “púrpura” ou vermelho, cor com que tingiam os tecidos com os que comerciavam graças a uma fórmula especial que só eles conheciam)
É de todos sabido que a Idade Média não é época de conhecimentos científicos contrastados e empíricos tal como os percebemos hoje, mas todo o contrário. É época de mitos e de lendas transmitidas de forma oral e poucas vezes escrita. Essas lendas seriam crenças populares cuja veracidade não tinha discussão na altura, sendo pelo contato cultural e comercial de tradição milenar como se difundiriam entre os povos atlânticos. Por isso era totalmente real para a gente do medievo a existência de ilhas como a Antilia, a Ilha de São Brandão, a Ilha das Sete Cidades, as Ilhas Afortunadas e a Ilha de Hy Brasil, Ibrasil, Brasil ou Breasail. Essa visão do cosmos era representada sem qualquer dúvida nos cartulários anteriores ao chamado “descobrimento” de América como podemos comprovar nos mapas de Dalorto (1325), Dulcert (1339), Laurazziano-Gaddiano (1351), Piziganni (1367), Giraldi (1426), Giovanni di Napoli (1430), Beccario (1426 e 1435) Valsequa (1439), Bianco (1448), Pareto (1455), o anónimo de Weimar (1481), Benicassa (1482), Juan de la Cosa (1500)... representando-se em todos eles como uma ilha com um lago interior e com forma anelar. O próprio Cristóvão Colombo teve que estar em contato com esses mapas, pois como se nos informa em textos conservados hoje, ele foi cartógrafo durante muitos anos em Lisboa.
Segundo a informação que tiramos do Atlas de Oliveira Marques e Alves Dias “Atlas Histórico de Portugal e do Ultramar português”, o navegador Duarte Pacheco Pereira chegou à terra dos tupis em 1498, dous anos antes da chegada do descobridor oficial do Brasil Pedro Álvares Cabral e cinco depois de alguma outra expedição da qual não temos ainda toda a informação mas da que algo sabemos. A região aonde estes navegadores chegaram recebe o nome de “Ilha de Santa Cruz”; posteriormente há de ser “Terra de Santa Cruz” e só poucos anos depois é que vai receber o seu nome definitivo de “Brasil” por acreditavam os coevos que aquela era um ilha afastada do resto do continente americano pelos rios Orinoco, Paraguai e Rio da Prata. Era a terra que identificavam com a mítica ilha registada em todas as cartografias e em todas as informações textuais desde a “Insulae Purpuraricae” (Ilha Vermelha ou de cor Púrpura) do romano Plínio o Velho.

A tradição mais recente faz derivar “Brasil” do pau-brasil que tem um dos seus extremos vermelhos como as brasas, sendo esta uma planta muito importante para o comércio português, mas também é o nome das madeiras de cor avermelhada para tintura que foi denominada de Brisilicum pelo Duarte Pacheco em 1505, ou “Tinta do Brasil”.

Todos estes enganos favoreceram a confusão na altura da etimologia do Brasil como sinónimo da ilha do Além atlântico com o nome duma ou várias madeiras e mesmo de “brasa”.
Diz-nos Frei Vicente do Salvador que o nome do Brasil foi inspirado pelo diabo, pois Santa Cruz (o primeiro nome que recebeu o país) era referido à madeira da cruz onde fora crucificado Jesus Cristo e em troca “Brasil” era madeira mundana.
De qualquer jeito parece-nos que o nome originário céltico pode dever-se não unicamente à tradição cartográfica medieval mas também aos contatos entre a Irlanda, a Bretanha com a Galiza e Portugal, como prolongações do mundo céltico e atlântico em contato milenar com as Ilhas Britânicas e a própria Armórica. Tantos na Irlanda como na Bretanha registamos a lenda de Ilha do Além com o mesmo nome do que estamos a falar, Hy-Brasil, que tinha como destino receber os guerreiros que tiveram uma morte honrosa no campo de batalha. Eis o vínculo entre esse mundo atlântico europeu com o grande Brasil...e acreditamos que pelo meio está o elo da Galiza, ponto de conexão entre ambos mundos: o céltico e o lusófono.
Bibliografia:




Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...