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quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Ferreiro e Pimentel na denúncia do sadismo falangista




Por Fátima Figueiredo

Em termos de crise política, social e económica, é vulgar ouvir cidadãos que, com a memória curta ou/ e parcial e com muita falta de informação, se relembram do passado com nostalgia, como uma época em que se era pobre, andava descalço, não se tinha acesso à educação, se passava fome, se sofria torturas ou se era morto por ser contra o regime ditatorial, mas em que tudo, mesmo assim, parecia estar no seu lugar. Tal facto é absolutamente abominável em países que sofreram ditaduras e mais ainda de longa duração, tenham sido elas de direita ou de esquerda.
O esquecimento das atrocidades e crimes cometidos comprova-se então com a publicação de muitas obras sobre os ditadores e na atitude de fanáticos que surgem devido à frustração doentia por saberem inconscientemente que são criaturas que só através do Mal poderão obter alguma relevância. Em Portugal, têm surgido inúmeros livros sobre Salazar e grupos neofascistas no Facebook; em relação a Espanha, existem ainda fascistas que usam t--shirts e pulseiras com as cores do fascismo franquista, como constatámos numa praça em Oviedo.
Neste contexto e porque há que acordar e avivar a memória de muitos, importa-nos aqui apresentar alguns autores galegos e uma obra de cada um em que se denuncia o horror da ditadura de Franco. Esperamos assim contribuir para que nomes menos conhecidos e menos salientados do que Rosalía e Castelao sejam relembrados, pois a literatura tem a obrigação de revelar a verdade e é isso que acontece nas obras dos escritores a seguir apresentados.
Começamos por Xosé Fernández Ferreiro (n.1931), membro do grupo literário nacionalista Brais Pinto1, que apresentou e denunciou o início do mundo repressivo da ditadura fascista. Começando por publicar poemas, na década de 1950, dedicou-se depois à narrativa, a par da sua atividade jornalística nos jornais Faro de Vigo, La Noche, El Correo Gallego e La Voz de Galicia.
Da sua obra narrativa, destacamos Agosto do 36 (publicado em 1991 e que mereceu o Prémio Xerais) pelo quadro de horror que apresenta da realidade que se viveu durante os terríveis anos da Guerra Civil Espanhola, de que são exemplo o martírio e fuzilamento das personagens Sara e Gregorio, na Touça, símbolo espacial e microcosmos do terror vivido em todas as nações que integram a atual Espanha.
Refere o narrador que tudo começou quando Gregorio, republicano, soube que os falanxistas o tiñan na lista para “darlle o paseo” (Ferreiro: 1991, 15), agravado pelo facto de Sara o ter preferido a Manuel, que aderira às tropas nacionalistas. Tudo isto obrigou-o a ter de fugir para escapar à morte, uma vez que aquelas, procurando descobri-lo, montaram sistematicamente guarda à sua casa: empezaron a presentarse de improviso na aldea polas noites, ás altas horas, e rexistraban non só o seu fogar senón outros onde supuñan ou sospeitaban que podía estar escondido (Ferreiro: 1991, 17). Os que engrossavam estas tropas eram naturalmente homens sem valores e com uma desmedida ânsia e desejo de poder, ambicionando um cargo que os fizesse ultrapassar obstáculos sociais e o sentimento de inferioridade que sentiam, na aldeia em que viviam, símbolo de pobreza material e de falta de importância e ascensão social, e colmatar igualmente frustrações pessoais persistentes. Perseguindo, controlando, matando, vían “naquilo” unha oportunidade para deixa-lo traballo da aldea e ser alguén. Desertores do arado. Homes que non lle tiñan apego á terra. Soamente tiñan odio (...) a forza das armas, e aqueles uniformes que os convertían en seres poderosos contra os que nada se podía (Ferreiro: 1991, 18).
Do ponto de vista material, eles conseguiam enriquecer, apoiados por um regime ditatorial que recompensava largamente os que o ajudavam a espalhar o terror e os informasse de forma conveniente acerca dos seus inimigos. Foi o que aconteceu com a personagem Manuel, quen despois dunha prolongada ausencia, cando volveu, construíu unha casa (Ferreiro: 1991, 18), o que auxiliou a população a ter a certeza da sua adesão à fação falangista.
Gregorio, pelo contrário, simboliza a resistência republicana, defensora dos direitos do povo, controlado não só pelos militares como também pelos seus aliados representantes da Igreja Católica. Por isso, aquela personagem critica o clérigo Xenaro, representante da aliança daquela com os falangistas, supostos defensores da moral e da nação contra a ameaça comunista: vostedes os cregos (...) non fan máis ca enganar á xente contándolle mentiras desde os altares e púlpitos, en lugar de lle dici-las verdades e abrirlle os ollos (...) interésalles máis que o pobo siga cego e analfabeto,pois así, coma os bois capados, é máis manexable (Ferreiro: 1991, 31).
As tensões acumuladas e as discórdias políticas culminaram com o rebentar da guerra e com o horror dos fuzilamentos, os paseos e encarceramentos, arrancando a vida aos que se opunham ao regime que se revelava monstruoso. Os falangistas chegavam a revelar o seu orgulho pela crueldade que cometiam e disto também o narrador nos dá conta, nesta obra, quando refere a atitude de Manuel, numa das vezes em que regressa pomposamente a Abades e expressa bem a ideologia já fermentada pelo falangismo, mostrando-se máis empoleirado ca nunca, coa súa pistola ó cinto e o fusil ó ombro. Logo, ó marcharen, soltou (...):
-Imos limpar España de herexes e comunistas (Ferreiro: 1991, 34).
Do lado oposto, deparamo-nos não só com Gregorio como também com Sara, a trágica heroína representante das mulheres do povo que tudo faziam para defender o seu homem da perseguição, símbolo da poderosa proteção feminina que, determinada, não se importa de dar a própria vida por Amor. Ela aqui simboliza igualmente a Justiça, não apenas política como também a moral e ética, contra a falta de valores e de preservação da vida humana: ben sabía que de caer nas súas mans mataríano sen piedade (...) estaba disposta a atura-lo que fose. A facer todo o que tivese que facer, con tal de que a Gregorio non lle pasase nada malo. Sobre todo que non o maten (Ferreiro: 1991, 37).
Para se esconder e sobreviver, Gregorio refugia-se na serra, limitado nos seus movimentos e condições de sobrevivência e ajudado por Sara, que lhe prestava um apoio incondicional, levando-lhe o que precisava e informando-o acerca do que se passava na aldeia, à semelhança de muitas outras mulheres que eram o elo de ligação entre os homens que encontravam refúgio no monte e o contacto com a realidade, mantendo-os ao corrente do que acontecia e levando-lhes mantimentos.
Devido ao perigo que tais incursões na serra acarretavam, o pai de Sara, na povoação, trancava bem a casa com medo dos falangistas. Sabía que andaban agachados polos camiños, as hortas e as eiras, para coller ó mestre se baixaba dos seus tobos da serra para verse con Sara (Ferreiro: 1991, 40), havendo o perigo acrescido dos outros habitantes serem falangistas ou seus informadores, sendo uns conhecidos e outros suspeitos, o que criava um ambiente de tensão e desconfiança que prejudicava e alterava a vida diária e o relacionamento entre os aldeãos.
Tal situação evoluiu de tal modo negativamente que se pressentia um acontecimento nefasto, trágico, no zunir do vento contra as follas do millo (...) ou no cheiro a rastrollo que viña das leiras recén segadas. De noite os cans semellaban nerviosos, e ladraban dun xeiro desacostumado. (...) Unha madrugada, o branco luar que prateaba as chairas do val de Abades e Santos e mailos cumes da serra, escureceu por uns minutos. “Foi entón cando vímo-la cara da lúa tinxida de sangue. (...) Non só era a lúa: o ceo todo aparecía vermelho, coma se fose de lume” (Ferreiro: 1991, 42).
Os falangistas Manuel, Luís, Leonardo e Xan levaram Sara para a Touça, no dia 13 de agosto, dizendo aos habitantes da aldeia que avisassem Gregorio: a tragédia evolui a passos largos. Procurando ajudar Sara, aqueles recorreram ao padre Xenaro, que, assumindo a posição da Igreja, defendeu que os falanxistas queren limpar España de herexes e de comunistas (Ferreiro: 1991, 44) e que deveriam avisá-los da localização do noivo de Sara, escondido na serra.
Na diversidade humana apresentada e respetiva motivação para aderir ao Falangismo, encontramos Lázaro, taberneiro de Abades, que abastece os carcereiros de Sara de provisões e os informa do que se passa na aldeia, ajudando-os assim a delinearem estratégias para atraírem Gregorio à Touza, com Sara como chamariz: no forno da Piedade parece que onte algunhas mulleres murmuraron de ti (Ferreiro: 1991, 118) e dixo com mellor ânimo:
-Hoxe tráiovos un bo xantar (Ferreiro: 1991, 118).
Uma forma que os falangistas encontraram de tentar acabar com essa articulação foi a intimidação incutida com os disparos noturnos: de cando en vez oíanse disparos, de noite e de día, nos camiños próximos a Abades, Santos, Xestosa e Fondodevila. (...) Os falanxistas facían prácticas de tiro contra as árbores e contra os outeiros para amedoñar á xente mediante o terror que isso orixinaba (Ferreiro: 1991, 37). Tal como aos restantes habitantes de locais em que se ouviam tais disparos, a Sara batíalle com forza o corazón no peito cando chegaban ata ela aquelas detonacións. Sempre lle parecía que disparaban contra Gregorio (Ferreiro: 1991, 37), pois os disparos desde logo que tiñan o seu efecto sicolóxico, pois que enchían os camiños, as aldeas e mailas mentes de impotencia. Era coma se a guerra se fose achegando a nós pouco a pouco, inevitavelmente (Ferreiro: 1991, 37), guerra na qual o povo, impotente, era um inimigo fácil de dominar, preso pelo medo às suas casas: moito medo había, e moita confusión, entre as xentes de Abades. Cerrada a noite metíanse nas súas casas e asexaban polas fiestras de cara á serra (Ferreiro: 1991, 89).
E o povo tinha muitas razões para sentir medo. Além dos fuzilamentos, pressões e prisões, outra situação está retratada nesta obra de Xosé Fernández Ferreiro: a violação de mulheres companheiras de homens foragidos, o que quase acontece com a protagonista, isco usado para atrair Gregorio: achegou-se á prisioneira e mirouna un momento. De repente, sen máis, desabotooulle o vestido á altura do peito, e arrincoulle o xustillo cun forte tirón de man (Ferreiro: 1991, 93). A ação triplica em horror e violência psicológica e física quando, incapaz de atrair Gregorio para o fuzilar, o ódio de Manuel o leva a praticar tiro em Sara, que se cobre gradualmente de sangue: deulle nun brazo. Volveu logo, e foille dar nunha coxa. O corpo da mestra, enteiramente espido, comenzou a cubrirse de sangue (Ferreiro: 1991, 152), até que finalmente clama desesperadamente pelo socorro do noivo, que não aparece, uma vez que fora já atingido pelos falangistas, que ainda não sabiam que o tinham atingido: de súpeto a mestra comenzou a berrar, coma se tolease de repente. Daba gritos horribles, como adoecida de dor. Chamaba por Gregorio, clamando pola súa axuda para que a sacase daquel inferno. Pedíalle que a matase cun dos seus certeiros disparos (Ferreiro: 1991, 152).
Este quadro de horror é um fiel exemplo da repressão fascista, sádica e brutal, e esta última passagem da obra relembra-nos os dramáticos depoimentos presentes no documentário Memória recobrada, apresentado por Manuel Rivas. Nele, deparamo-nos com a existência do terrível sadismo falangista e é bem patente a memória ainda viva de quem sofreu a repressão e teve de viver escondido para resistir e salvar a própria vida, relatando-o com uma memória ainda bastante fresca das atrocidades sofridas, assim como também se sente o terror do relato do fuzilamento de galegos, as mortes nas cunetas (valas ou bermas das estradas), sendo depois os corpos atirados aos rios para fazerem tremer de terror e intimidarem as populações que viviam nas suas margens.
As mortes nas cunetas e o horror por elas causado é denunciado no poema com aquele nome (“Cunetas”), de Luis Pimentel (1895-1958), publicado pela primeira vez na obra Galicia hoy, da Editorial Ruedo Ibérico, París-Buenos Aires, em 1966, embora esteja datado de 1937, e do qual aqui transcrevemos alguns dos versos mais significativos: outra vez, outra vez o terror!/ Un día e outro día,/ sen campás, sen protesta./ Galicia ametrallada nas cunetas/ dos seus camiños./ Chéganos outro berro./ Señor, qué fixemos?/ -Non fales en voz alta-,/ Hasta cándo durará iste gran enterro?/ -Non chores que podem escoitarte./ Hoxe non choran máis que os que aman a Galicia-,/ Os milleiros de horas, de séculos,/ que fixeron falla/ para faguer un home!/ Teñen que se encher aínda/ as cunetas/ con sangue de mestres e de obreiros./ Lama, sangue e bágoas nos sulcos/ son semente (Rodríguez Fer: 1989, 277-278).
Como facilmente se verifica, este texto é de extrema importância na denúncia da repressão, no território galego, durante a Guerra Civil Espanhola, do fuzilamento das vítimas à beira dos caminhos, deixando os corpos nas bermas ou valetas, durante os paseos a que nos referimos anteriormente, sabendo as vítimas de antemão qual seria o seu destino. Devido a estes ocorrerem em tão grande número, Pimentel usa a metonímia e também hipérbole Galicia ametrallada nas cunetas, o que causava um gran enterro, pois eram muitos os corpos encontrados de resistentes galegos.
Assim, todos os dias, as populações sentiam o terror, não sabendo quem seria o próximo a ser levado, tendo até de chorar os seus mortos em silêncio, para que ninguém ouvisse o seu choro, uma vez que, entre o povo, havia os que passavam informações aos falangistas, traindo a própria família, amigos e comunidade, em troca de favores ou bens, como já revelámos na breve análise de Agosto do 36.
Os que sofrem em silêncio são os que aman a Galicia e o sangue dos que morrem é essencialmente de mestres e de obreiros, gente simples que luta pela sua terra e pelo direito à Liberdade e que nenhum crime cometeu. Daí a invocação à entidade divina, a quem o sujeito poético lança uma pergunta retórica (Señor, qué fixemos?), tendo o povo de engolir a sua revolta e o seu sofrimento porque a sua voz podia causar ainda mais mortandade e sangue. Assim, tem de viver amordaçado (-Non fales en voz alta-), pois o ser humano ainda não está construído, produzido, acabado. Ainda faltam milleiros de horas, de séculos,/ que fixeron falla/ para faguer un home!, um ser humano com sentido de Justiça, Democracia, Liberdade e Bem, sem a sede de sangue que fazia correr os algozes falangistas, causando um enterro gigantesco que demorava a acabar (Hasta cándo durará iste gran enterro?).
O poema passa posteriormente para um sentido mais introspetivo e intimista, a partir daqueles acontecimentos, havendo uma correlação entre o exterior e o interior do sujeito poético: docemente chove./ Enviso, arrodéame unha eterna noite./ Xa non teréi palabras pra os meus versos./ Desvelado, pola mañán cedo/ baixo por un camiño./ Nos pazos onde se trama o crimen/ ondean bandeiras pingando anilina./ Hai un aire de pombas mortas./ Tremo outra vez de medo./ Señor, isto é o home./ Todas as portas están pechadas./ Con ninguén podes trocar teu sorriso./ Nos arrabás,/ bandeiras batidas i esfarrapadas./ Deixa atrás a vila./ Ti sabes que todos os días/hai un home morto na cuneta,/ que ninguén coñece aínda./ Unha muller sobre o cadáver do seu home/ chora./ Chove./ Negra sombra, negra sombra!/ Eu bem sei que hai un misterio na nosa terra, /máis alá da néboa, / máis alá do mar,/ máis alá da chuvia,/ máis alá do bosque (Rodríguez Fer: 1989, 278).
Contrastando com a amarga situação, a chuva cai serena e brandamente, como se não quisesse contribuir para um ambiente ainda mais negro e agressivo, pois a noite já chegou, eterna, como se pretendesse apagar ou tapar os atos violentos cometidos e os corpos que jazem à beira das estradas, mas a anteposição do adjetivo pode também significar que esta noite, este ambiente de terror, demora a acabar, não tem fim, causando cada vez mais vítimas.
Devido ao horror dos acontecimentos que ele próprio presencia, o sujeito lírico não encontrará, depois do que viu, mais vocábulos que expressem a violência e o terror, pois o tempo verbal usado é o futuro, expressando o sucumbir da sua inspiração perante a realidade a que assiste: non teréi palabras pra os meus versos.
Perante o que o rodeia, chega então à conclusão de que isto é o home, apresentando a Deus o resultado da sua criação: um ser que pratica o Mal, que tem prazer em praticá-lo e sente poder ao aterrorizar quem não se pode defender, matando sem qualquer motivo ou sentimento, a não ser ódio. Assim, receando a loucura inimiga insensível a qualquer bom senso ou apelo, todas as pessoas da vila fecham as portas, refugiando-se nas próprias casas, de modo que o sujeito poético, dialogando consigo mesmo, aconselha-se a afastar-se da vila, porque todos os días/ hai un home morto na cuneta,/ que ninguén coñece aínda e o próximo, no dia seguinte, poderá, quem sabe, ser ele próprio. Entretanto, observa ainda uma mulher que chora sobre o corpo do seu home, ao mesmo tempo que a chuva dela se condói e com ela se solidariza.
Profundamente abatido, desolado e carregando consigo as marcas daquilo a que assistiu, o sujeito lírico, sozinho na escuridão, sente a força do mistério sobrenatural do território galego. Por que razão o sente? Talvez porque o ambiente propicia esse sentimento: a noite, a chuva, a névoa, o mar e o bosque são elementos naturais que criam uma auréola de misticismo que contribuem inclusivamente para cristianizar as vítimas dos fuzilamentos. Estes mártires tornam-se também elementos da Natureza, confundindo-se com ela: os seus corpos jazem na terra e talvez as suas almas integrem os bosques envoltos na névoa, dando origem a lendas (não podemos esquecer que a Galiza é um manancial de misticismo, ajudado pelos elementos da natureza que Rosalía de Castro tanto exaltava). No entanto, é referido que esse mistério está além da chuva, da névoa, do mar e do bosque, sendo usada a anáfora para reforçar a ideia de que o mistério está acima de todos estes elementos, portanto, próximo ou ao nível da entidade divina. Esta é a única que poderá saber e entender os acontecimentos trágicos que então ocorriam, interpretação que consideramos pertinente, tendo em conta que, no território galego, os elementos pagão e cristão fundem-se, criando um ambiente de significativa espiritualidade.
O campo semântico predominante relaciona-se com a morte, horror e sofrimento: terror; ametrallada; berro; gran enterro; sangue de mestres e de obreiros; Lama, sangue e bágoas; eterna noite; crimen; esfarrapadas; home morto na cuneta; cadáver; chora; Negra sombra e, de todo o vocabulário usado, poucas são as palavras que têm alguma conotação positiva, como semente, indicadora de que, de tantas mortes e sangue, poderá nascer a revolta e a vitória que acabarão com tanta tragédia. No entanto, até lá, teñen que se encher aínda/ as cunetas/ con sangue de mestres e de obreiros, hipérbole que não estaria muito longe da realidade, na Galiza rural (seus camiños; baixo por un camiño.) ou urbana (Nos arrabás), sendo os assassinatos, fuzilamentos e prisões, pensados e planeados nos pazos onde se trama o crimen. Todas estas ações construíram o quotidiano dos galegos, entre julho de 1936 e março de 1937, sendo assim este poema um resumo esclarecedor da situação vivida nesse espaço de tempo e que perdurou muito além desse ano.
Os galeguistas do interior lutaram, pois, contra situações duríssimas e extremamente adversas, tentando discretamente manter contacto com outros grupos de oposição clandestina não deixando morrer o Galeguismo.

BIBLIOGRAFIA

BACHOUD, André, Franco, Lisboa, Editorial Verbo, 2003

BARREIRO MALLÓN, Baudilio e RECUERO ASTRAY, Manuel, Historia de Galiza, 1ª ed., trad. David Martelo, Lisboa, Edições Sílabo, 2008

BERAMENDI, Justo e NUÑEZ SEIXAS, Xosé Manoel, O Nacionalismo Galego, Historia de Galicia, Vigo, Edicións A Nosa Terra, 1996

FERNÁNDEZ FERREIRO, Xosé, Agosto do 36, 8ª ed., Vigo, Edicións Xerais de Galicia, 1991

PESTON, Paul, A Guerra Civil de Espanha, Col. História Narrativa, Lisboa, Edições 70, 2005

RODRIGUEZ FER, Claudio, Poesía Galega, Vigo, Edicións Xerais de Galicia, 1989.

_______________ A Literatura galega durante a Guerra Civil, Vigo, Edicións Xerais de Galicia, 1994

DVD

La memoria recobrada, RTVE/TVE, Edivisa, dirigida por Alfonso Domingo, 2006

Referências:

1 Constituído em 1958 por um grupo de jovens e estudantes de esquerda, editou uma colecção de poesia,
organizava tertúlias e outras atividade culturais e, a nível teórico, defendeu o Marxismo.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Santarém: A confluência cultural






Maria de Fátima Santos Duarte Figueiredo *

Poucas terras como Santarém terão uma história tão dramática. (…) A posição estratégica, o sítio quase inexpugnável, a fertilidade das terras da região, a posição entre Lisboa e Coimbra, tudo explica que Santarém fosse rijamente disputada por cristãos e mouros, logo que os primeiros iniciaram a reconquista.(…) No gigantesco duelo entre duas raças e duas religiões que se prolongou por quatro séculos, Santarém foi terra mártir, disputada a ferro e fogo, ora a bandeira de Cristo, ora a bandeira da meia-lua vitoriosas nas ameias do seu castelo roqueiro. (In “Entre a cruz e o crescente”, O Correio do Ribatejo, 24 de dezembro de 1948)
preciso lugar onde acabava o al-Andaluz, para dar lugar à terra dos “galegos”, dos cristãos do Norte”, depois que, havia muito pouco, estes haviam conquistado Coimbra. (…) é o local onde o Islão se separa- e se encontra- com a Cristandade. (“Em torno de Santarin: posições e funções”, de Hermenegildo Fernandes, in De Scallabis a Santarém, 48)


A antiquíssima Scallabis1 não é uma cidade que atraía o visitante, à primeira vista. Ao chegar do norte, ele depara-se com entradas pouco atrativas: hipermercados e bairros urbanos; vindo do sul, pela ponte D. Luís I, o panorama é muito mais agradável, pois avista-se o monte da Alcáçova com as muralhas das Portas do Sol, olhando imponente a lezíria e o rio Tejo. À beira deste encontram-se, tristes e escuros, a Ribeira de Santarém e Alfange; no entanto, das Portas do Sol, o turista pode deliciar-se com a belíssima paisagem da lezíria que se alonga, cheia de força pletórica.
A Ribeira e Alfange, outrora portos fluviais de grande importância, revelam os efeitos de longos anos de um poder autárquico de costas voltadas para as suas potencialidades turísticas e económicas que levaram à região povos de muitas origens, devido à sua localização, aos produtivos campos e à existência do Tejo. De facto, a cidade, entre o norte e o sul, o Atlântico e o Mediterrâneo, situa-se numa posição estratégica única que lhe valeu uma História antiquíssima, cuja origem remonta à mitologia grega2 e regista um interessante cruzamento étnico: fenícios, gregos, romanos, focenses, cartagineses, massiliotas, judeus, árabes, sírios, berberes, normandos, ingleses, suevos, visigodos, alanos, cruzados do norte, incluindo francos, homens do norte da Península Ibérica (norte de Portugal, Galiza e Astúrias) e ingleses. 
A exploração agrícola das terras junto ao Tejo começou no neolítico, com o estabelecimento populacional em Alcácova, cuja prova é o “Vaso de Santarém”, tendo sido encontrado também o linho chamado Linum humile, da Ásia Menor, que chegou entre 2.500 e 1.200 a.C., por via fluvial. Esta facilitou o comércio da mineração e metalurgia do cobre e estanho que teve início no Calcolítico, o que revela o caráter mercantil único desta urbe desde o início.
Os primeiros sinais de ocupação humana da cidade foram descobertos nas Portas do Sol, num oppidum pré-romano habitado entre os séculos X- IX a.C. e I d. C., localizado, como o resto do Ribatejo, na antiga Lusitânia3, sendo díspares os estudos e opiniões apresentados pelos diversos autores no que respeita à origem dos lusitanos4. Inequívocos, no entanto, são os registos da sua valentia e ousadia, personificados em Viriato. Diodoro da Sicília, por exemplo, considerava-os os mais fortes de entre os iberos5 e, segundo Estrabão, eram hábeis em emboscadas e perseguições (….) usam um pequeno escudo que tem dois pés de diâmetro e é côncavo è frente, e é manejado com correias, e que não tem, ao que parece, nem presilhas nem alças.6, usando a guerrilha como forma de combate. Os guerreiros lusitanos eram um grupo social muito importante e respeitado, por isso, ficaram imortalizados em estátuas que, pelo facto de serem consideradas galaico-lusitanas revelam, na nossa opinião, a dificuldade em distinguir as respetivas tribos, mais aparentadas e próximas, a nível étnico, geográfico e cultural do que as fronteiras artificialmente estabelecidas fazem crer7.
No Ribatejo e na Estremadura portuguesa, surgiu a denominada “cultura de Apiarça”, que caracteriza a Idade do Ferro no centro de Portugal, região povoada pelos túrdulos e em que existiam cidades tão importantes como Olissipo (Lisboa). Outros locais de relevo eram Sellium (talvez Tomar), onde há um povoamento pré-romano, um castro (celta) em Torres Novas, em Mação (o de Caratão), em Abrantes e na Cova Nascente do Almonda, ocupado desde o fim da Idade do Bronze e durante toda a Idade do Ferro. Contudo, Chões de Alpompé (próximo de Santarém) destaca-se por ser provavelmente a Morón referida por Estrabão, onde Décimo Júnio Bruto, em 138 a.C. estabeleceu o seu acampamento militar contra os lusitanos. Aqui, o achado mais antigo foi um fragmento de um machado de talão unifacial, com uma única argola, enquadrável no chamado “tipo lusitânico”, datável dos inícios do I Milénio a.C.8, tendo sido encontrada também cerâmica decorada com os característicos S da cultura castreja do noroeste da Península Ibérica. Também da Idade do Bronze foram encontrados, na capital ribatejana, um machado em S. Bento e esporões na Alcáçova, onde a presença humana data da Idade do Ferro, portanto, da ocupação fenícia, havendo vestígios orientais num conjunto artefactual muito característico e em técnicas de construção específicas do mundo oriental.9, o que comprova o intercâmbio interregional na época pré-romana que se registou também na época do conventos scallabitanus e na fase islâmica. Além destes objetos, destacamos também os torques que foram achados em Almoster e as arrecadas descobertas na Golegã, que sugerem uma ligação à ourivesaria nortenha e, portanto, a um substrato cultural comum entre este território e o norte.

De quando a cidade era Scallabis Praesidium Iulium (fim do século I a.C.), foram descobertas, por exemplo, ânforas em Alfange, havendo então dezanove villae no Conventus Scalabitanus e importantes estradas romanas perto da urbe que, partindo de Olisipo (Lisboa), davam acesso ao norte (Bracara Augusta) e a Espanha (Mérida), havendo igualmente uma para Ebora. Assim, estas estradas ligavam, pelo interior, o Sul Mediterrânico ao Norte Atlântico. A antiga via romana que começava em al- Ushbûna (Lisboa) rumava a partir de Shantarîn para norte, atravessava al-Shârât (as Serras) pelo estreito corredor natural que seguia do norte de Tomar até às proximidades de Qulumriya (Coimbra), continuando depois por Burtuqâl (Portucale) para terminar na Gallîsiya (Galiza)10.
Em 460, Suenerico, servindo o rei godo Teodorico, conquistou Scallabis, mas os romanos continuaram a revelar uma forte posição no porto fluvial da cidade, onde a comunidade judaico-síria se mostrou contra as crenças visigodas11, influenciando o respetivo povo a participar e a assimilar a religião cristã bizantina, fazendo assim com que se mantivessem os laços ao Mediterrâneo oriental. Durante o domínio visigodo, a urbe aumentou, surgindo Sesirigo, nome de origem germânica, depois denominada Sanctae Eirenae (Santa Iria ou Santa Irene) aquando do reinado de Recesvinto (653-672), para designar a povoação junto ao rio onde se venerava aquela santa, e depois, em árabe, Sanctaren ou Xantarin12. Curiosamente, também existia, na região de Santiago de Compostela, o local de Iria (…) como elemento de atração dos povoadores (…) para um lugar sagrado13. Sede de bispado, Santarém tinha vários outros cultos cristãos e várias igrejas que perduraram durante o período islâmico.

Os árabes chegaram no século VIII d. C., época bastante conturbada: em 714, Abd al´Aziz conquistou a cidade aos hispano-godos e, cerca de 760, terá havido uma conquista da cidade por parte dos normandos. Em 784, houve uma visita do emir Abd al Rahman I, que ordenou a construção de uma mesquita; dois anos depois, o seu filho incentivou uma insurreição na cidade que os reis asturianos aproveitaram, apoiando as populações que se revoltavam contra o invasor, tendo Afonso II das Astúrias, o Casto, alcançado Lisboa em 798. Durante o domínio islâmico, o rio Tejo e os seus campos férteis mantiveram-se preciosos na economia da urbe e despertaram tanto a admiração de autores árabes que estes compararam as lezírias (al-jarirà) aos terrenos produtivos do rio Nilo. Essa terá sido certamente uma das razões pelas quais Shantarin adquiriu fama nas artes e letras, quando integrou o reino de taifas de Badajoz.
Aquando do califado de al-Hakam II, os alcaides mandados pelo califa para combater os majus (bandos vikings que atacavam as costas cristãs e as muçulmanas) estavam na cidade, onde souberam que aqueles tinham ido embora, o que foi confirmado por espiões que tinham sido incumbidos de ir a Santiago de Compostela. Este facto comprova a circulação de pessoas e informações entre o norte e o sul, favorecida pela existência de vias rodoviárias herdadas dos romanos.

Cerca de 936, o governador da cidade era Umayya ibn Is hâq al-Qurashî al- Marwâni (fundador de Badajoz e sobrinho do califa ´Abd-al- Rahmân al-Nâsir, de Córdoba), que teve, na sua briga com o tio, o apoio e proteção de Ramiro II de Leão, que fora senhor do condado Portucalense. Após sair derrotado, em janeiro de 939, passou a estar ao serviço do rei cristão. Estes tempos conturbados não ficaram por aqui: Lisboa foi saqueada, em 956, pelo rei leonês Ordonho III e, em 30 de abril de 1093, as tropas de Afonso VI de Leão e Castela entraram em Santarém14. Então, o rei de Badajoz e do Gharb al-Andalus, al-Mutawakkil ´Umar ibn al-Aftas, negociou com ele, solicitando a troca de Santarém, Lisboa e Sintra pelo apoio cristão contra os almorávidas, que ambicionavam conquistar os reinos taifas15. Tomando as rédeas do governo da cidade, o rei cristão concedeu-lhe um foral para fixar cavaleiros vilãos para garantirem a defesa da cidade e do Tejo e assim, reforçar a presença cristã, que prevaleceu entre 1093 e 111116. As fontes árabes referem, até, grandes obras de fortificação as quais tornariam Santarém- no dizer de Ibn ´Abdûn de Évora-no melhor protegido das praças-fortes (qa l´a) cristãs.17, o que a impediu, durante algum tempo, de ser conquistada pelos almorávidas e ajudou na reconquista de Lisboa e Sintra até ao domínio daqueles.
Os berberes saarianos tomaram a cidade e dominaram-na ainda durante 36 anos, entre 1111 e 1147, mas os cristãos persistiram na sua reconquista e a urbe voltaria a ter um importante papel defensivo nas mãos destes, após a sua conquista por Afonso Henriques, que contou com o apoio dos moçárabes locais. A cidade continuou a revelar grande desenvolvimento comercial ligado à atividade fluvial, com o grande poder económico dos judeus e árabes. Tal valeu-lhe o primeiro lugar na predileção árabe, sendo Coimbra referida em segundo lugar, para o espaço entre Tejo e Mondego, sem mencionarem Lisboa. (…) E quando a cidade do Mondego deixa de integrar o Dâr al-Islâm, Lisboa toma o seu lugar, mas sempre em posição subalterna18. A conquista definitiva de Santarém ocorreu no dia 15 de março de 1147.

À população local, fruto de uma miscelânea significativa de culturas, foram também acrescentadas, ao longo dos tempos, gentes de do norte trazidas pelas batalhas da chamada Reconquista Cristã (a sua presença já se faria certamente sentir aquando do domínio de Ordonho III, D. Raimundo e de D. Henrique), uma vez que a guerra era um significativo veículo migratório, além das necessidades económicas e comerciais. Como prova desta mobilidade, encontrámos referências a indivíduos da Galiza e Alto Minho, no século XIII: João Mendes de Tui, João Moniz Galego (…), Domingos Moniz Galego e Maria Joanes, dita Galega,19 e João Peres, vizinho de Valença20, e o topónimo “Val dos Gallegos”21.
Há igualmente registos do século XV de indivíduos cuja alcunha faz adivinhar a sua origem, sendo notável a frequência do apelido Galego nos documentos desta época, prova incontestável das migrações sucessivas de gente do Norte, após a reconquista cristã e durante os séculos XII-XIII. Residem de preferência na Alcáçova e na freguesia de Sto. Estevão e alguns são grandes proprietários rurais, como un João Domingues Galego que, em 1348, tinha o seu domicílio na freguesia de sto. Estevão e era proprietário na lezíria do Galego22. O apelido Galego foi comum até ao início do século XX, de que é exemplo o nosso caso pessoal: na árvore genealógica, temos os antepassados do século XIX João Ferreira Gallego, Manuel Ferreira Gallego e António Ferreira Gallego, tendo a nossa aldeia o nome Anteporta, existindouma Anteportas no concelho de Padrão.

Dos (inúmeros) acontecimentos marcantes ao longo dos séculos, podemos ainda referir que foi nos paços da antiga Scallabis (onde atualmente se encontram o Seminário e a Sé) que ocorreu a morte de dois dos assassinos de Inês de Castro (Pêro Coelho e Álvaro Gonçalves), em fevereiro de 1360. Nos séculos XIV e XV, o hospital de Jesus Cristo, de João Afonso (nobre, proprietário de terras e benemérito), quer na perspectiva organizacional, quer no enfoque estritamente médico-assistencial (…) denota um (quase certo) contacto ou conhecimento com a nova realidade hospital de (…) Santiago de Compostela23.
Santarém foi residência de reis e nela tiveram lugar cortes de D. Afonso III, D. Afonso IV, D. João I, D. Afonso V e D. João II; no Convento de S. Francisco, existe um alpendre onde, segundo Rui de Pina, foi jurado rei D. João II24; no claustro quadrangular, há escudos dispostos alternadamente com as armas dos Menezes e Castros; a Igreja de S. João de Alporão (fins do século XII ou início do século XIII), segundo José Anastácio de Figueiredo, foi cabeça da ordem de Malta25; na Igreja da Graça, foi sepultado Pedro Álvares Cabral, depois trasladado para a sua terra natal, Belmonte; em 1640, o 1º conde de Unhão, Fernão Telles da Silveira, foi o primeiro a proclamar a independência, num edifício na Praça Visconde Serra do Pilar; a urbe combateu os franceses, aquando das invasões napoleónicas, que a despojaram de grande riqueza, do que é exemplo a Igreja da Graça e, no período entre 1833 a 1834, defendeu a causa dos liberais, após o que o general Sá da Bandeira a elevou a cidade. Na madrugada de 24 de abril de 1974, o capitão Salgueiro Maia partiu da Escola Prática de Cavalaria para rumar a Lisboa e contribuir heroicamente para derrubar a ditadura fascista.
Após tantas influências culturais e tantos acontecimentos marcantes inclusive para a História nacional, a velha Scalabicastrum esconde, pois, as riquíssimas memórias por detrás dos velhos e escuros edifícios, becos e lugares pouco conhecidos e visitados. Neste planalto e lezírias onde muito se esconde, as lendas e a História atestam a sua milenar existência, na qual o norte e o sul confluíram intensamente.



* Licenciada em Português e Inglês (via ensino) e Mestre em Estudos Ibéricos com a dissertação O Nacionalismo Galego (o percurso político e literário do século XIX à década de 1950).
1Scala pode ser a palavra latina para escada, mas também pode ser um elemento pré-latino e explicar-se quer pela raiz “Kal”-pedra” (…) quer pela raiz “Sk”-altura” (…) Como o derivado é Scalabitanum, o que tem de se explicar é o radical
“ bit”; penso numa raiz pré-indo-europeia bet-bi҃t (Santarém e Scalabis, uma tese revolucionária, José H. Barata, Vida Ribatejana, 1955).
2Abidis é uma divindade da mitologia dos celtiberos e o nome de um rei mitológico ligado a Santarém. Durante a sua odisseia, Ulisses de Ítaca teria passado por esta região, onde se apaixonou por Calipso, filha do celtibero Gorgoris, rei dos Cunetas, relação de que nasceu Abidis, que o avô abandonou, colocando-o numa cesta atirada ao Tejo. Esta subiu o rio e foi recolhida por uma loba ou cerva na praia de Santarém, que cuidou dele. Mais tarde, Calipso reconheceu-o e tornou-o o legítimo herdeiro do trono, escolhendo aquela cidade para capital do reino, dando-lhe o nome Esca Abidis (o manjar de Abidis).

3Ptolomeu (…) menciona Scallabis (Santarém) (Viriato, a luta pela liberdade, Mauricio Pastor Muñoz, Edições Ésquilo, 5ª ed., Lisboa, 2004, 24) e Fernandez Ochoa apresenta como uma das regiões Lusitânia o Ribatejo e Estremadura (Viriato, a luta pela liberdade, Mauricio Pastor Muñoz, Edições Ésquilo, 5ª ed., Lisboa, 2004, 45), sendo as outras a das Beiras e o oeste da província de Cáceres.
4Oriundos das montanhas helvéticas, estabeleceram-se, com certeza, nesta região, por volta do século VI a.C. (idem, 21). O investigador Lambrino defendia que os lusitanos constituíam um grupo tribal de origem celta relacionado com os lusões de Contrebia, que se haviam fixado no Leste Peninsular. (…) Os lusões ter-se-iam estabelecido na nascente do rio Tejo, enquanto os lusitanos, descendo pelo vale do rio, acabariam por se estabelecer no seu baixo curso, por volta do século VI a.C.. O vocábulo lusitani, de raiz lus- e sufixo –tanus, seria de origem celta e significaria “tribo de lusos” (ibidem).
No entanto, alguns investigadores como, por exemplo, Leite de Vasconcelos, consideram-nos autóctones que terão sido subjugados pelos celtas, sendo, portanto, uma etnia de origem pré – ibérica. Sendo ou não os lusitanos anteriores à vinda maciça de tribos celtas para a Península Ibérica, é, pois, tida como certa a sua origem céltica e a sua língua era indo-europeia e mais antiga do que, por exemplo, o celtibero.
5idem, 29
6ibidem
7Segundo Maurício Pastor Muñoz, A norte do rio Tejo e ocupando totalmente o centro e o norte de Portugal viviam os lusitanos, o povo de Viriato, cujo território ia do Douro ao Tejo (idem, 21). O seu território era delimitado a sul pelo dos célticos, a norte pelo dos galaicos e a nordeste pelo dos vetões, ou seja, ocupavam, entre os dois rios,a zona de declive da Meseta estendendo-se pela Estremadura (idem, 22).
Estrabão refere que A sul a Lusitânia é delimitada pelo Tejo; a ocidente e a norte pelo Oceano; a oriente pelos carpetanos, vetões, vaceus e galaicos (...) alguns também lhes (aos galaicos) chamam lusitanos (idem, 23). É aqui interessante a (mais do que natural e lógica) identificação dos galaicos com os lusitanos.
8“Chões de Alpompé”, de Carlos Fabião, De Scallabis a Santarém, 151
9“A Alcácova de Santarém e os fenícios no estuário do Tejo”, de Ana Margarida Arruda, in De Scallabis a Santarém, 30
10“Madînat Shantarîn. Uma aproximação à paisagem de Santarém muçulmana (séculos X-XII)”, de Manuel Sílvio Alves Conde, in Santarém na Idade Média, 349
11Só na época visigoda é que desapareceram as tribos, a religião indígena e as línguas pré-latinas.
12Até meados do século XII, mantiveram-se os vocábulos Scallabis para o núcleo da Alcáçova e Sanctaren para o da Ribeira de Santarém.
13Santarém e Tomar- A lenda e a posse da terra, in Santarém na Idade Média, 391
14Quatro séculos foram precisos para se saber se a terra ficaria com o nome cristão de Santa Irene, ou com o nome árabe de Chantireyn. A reconquista cristã aproximou-se do Tejo e Santarém desde que Fernando, o Magno, se apoderou definitivamente de Coimbra, nos meados do século XI. Foi, por isso, possível a Afonso VI, o Bravo, rei de Leão e Castela, avançar com as suas hostes até Santarém, onde entrou a 30 de abril de 1093. Não houve então propriamente conquista. A cidade foi-lhe entregue por um príncipe muçulmano de Badajoz, a fim de obter a ajuda do rei de Leão contra o famoso general almorávide Sir, o “rex Cyr” das crónicas cristãs. As guerras intestinas que dilaceravam o império de Córdova facilitaram assim a posse de Santarém nas mãos de Afonso VI, o Bravo que, Afonso VI reconquista Santarém pouco tempo depois, e em 1095 concede-lhe o seu primeiro foral, em paga dos bons serviços que lhe prestaram os santarenos (In “Entre a cruz e o crescente”, O Correio do Ribatejo, 24 de dezembro de 1948).
15Duas décadas após a conquista de Coimbra por Fernando, O Magno (1064), Toledo passa para o domínio cristão, sob a chefia de Afonso VI (1085). Os árabes andaluzes solicitaram então o auxílio dos Almorávidas para os ajudarem mas, apercebendo-se da sua ambição desmedida , pediram ajuda ao rei cristão. Então, o último chefe de Badajoz, ´Umar al-Mutawakkil, entregou-lhe as cidades de Santarém, Lisboa e Sintra, o qual, por sua vez, as deu a Raimundo de Borgonha, nomeado governador da Galiza e Portugal em 1090 ou 1092, após casar com D. Urraca. Mais tarde, Afonso VI separou, como sabemos, o Condado Portucalense da Galiza, dando-o a D.Teresa aquando do seu casamento com D. Henrique de Borgonha, mais apto que D. Raimundo para cuidar da defesa do território, incluindo Santarém, preciosa para o norte.
16 Temendo um ataque a Santarém, o conde D. Henrique mandou em 1110 um corpo de tropas a fim de reforçar a guarnição, mas foi surpreendido em Vatalandi e dizimado. A este trágico sucesso se refere a Crónica dos Godos (…) Em 1111 (26 de maio), o famoso general Sir cerca Santarém. (…) Santarém cede e a fome obriga a guarnição cristã a abrir as portas à torrente muçulmana. (…) “Os cristãos, diz Abdune, preferiram a humilhação à morte, a submissão ao cativeiro.” (ibidem).
17 “Shantarîn/ Santarém, fronteira ambivalente islamo-cristã”, de Abel Sidarus, in Santarém na Idade Média, 323
18idem,328
19Santarém medieval, Maria Ângela V. da Rocha Beirante, 1ª ed. Lisboa,1980, 56
20idem, 72
21idem, 136
22Idem, 259
23Santarém na Idade Média, atas do colóquio 13 e 14 de março 1998, Câmara Municipal de Santarém, 2006, Santarém, 1ª Edição, 249
24Arqueologia Scalabitana, Francisco Nogueira de Brito, 18
25idem, 16


domingo, 27 de maio de 2012

Entrevista à Doutora Maria de Fátima Figueiredo



Equipa do DTS (Desperta do Teu Sono)  
Câmara: José Goris
Apresentaçao: José Manuel Barbosa

Os passados 5 e 6 de Junho deste ano celebramos em Pitões das Júnias (Montalegre-Portugal) como é sabido, as Jornadas das Letras Galego-Portuguesas. Tivemos a grande sorte de estarmos com pessoas comprometidas com a Galiza, com Portugal e com o mundo lusófono e céltico, esses dous mundos dos quais a Galiza faz parte por direito próprio e por matriz. O recital, a estadia na casa do Padre Fontes e as paletras na sala da Junta da Freguesia de Pitões ficaram na nossa memória com muito prazer e com muita vontade de repetirmos mais outra vez o ano que bem. Tudo isto ficou dito e ficou na rede, como uma gravação na pedra com letras inscritas para perdurarem no tempo, como se forem algum dos nossos petróglifos que desde o Calcolítico estão aí para nos lembrarem que somos o que somos, e somos de quem somos.

As pessoas que tivemos connosco para que os ecos da nossa etnogénese flutuassem no ar foram a Doutora Maria de Fátima Santos Duarte Figueiredo, David Outeiro Fernandes e a Professora Doutora Blanca Garcia Fernández-Albalat . Eles falaram e ensinaram-nos desde o seu saber e desde o seu amor a esta terra granítica que nos pariu; eles desfrutaram connosco da beleza sem igual dessa aldeia da montanha barrosã num fim de semana memorável e lindo. Os temas foram vários, mas tivemos também a honra e a sorte de podermos conversar  em entrevista concedidas para este blogue com cada um/a delxs sobre todo aquilo que nos mobiliza...assim a apreendizagem foi acrescentada.

Nas próximas semanas teremos connosco a entrevista com o nosso querido e popular Padre António Lourenço Fontes, feita a sexta-feira dia 13 de Abril; teremos posteriormente a entrevista a  Blanca G. Fernández-Albalat, autoridade no que diz respeito ao mundo celto-galaico, valente nas suas opiniões e insubmissa a respeito do pensamento plano anti-celtista fornecido pelas Universidades. Finalmente incluiremos a entrevista a uma promessa de futuro, a um grande em potência: ao nosso amigo e jovem David  Outeiro que tem colaborado connosco neste “DTS” e a que lhe devemos muito do nosso sucesso.

A dia de hoje temos a primeira entrevista. Também a primeira palestrante das Jornadas. Ela é a Doutora Maria de Fátima Figueiredo. Mora e ministra aulas de Língua em Santarém e é uma pessoa que leva a Galiza no coração e as origens do seu Portugal amado. A sua ligação à Galiza vem-lhe de muito cedo e acredita na ideia de que como portuguesa e descendente de galegos há uma responsabilidade moral por parte de Portugal de recuperar a memória histórica, ancestral, originária e galaica no ensino, na formação e no (in)consciênte coletivo dos portugueses e portuguesas tanto no que diz respeito do conhecimento da História da Galiza como do vínculo linguístico comum. A entrevista foi feita na Sala que a Junta da Freguesia nos deixou para as Jornadas. Graças ao seu apoio isto foi possível. Obrigado.




 


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