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domingo, 24 de agosto de 2014

Prefácio do Novo Dicionário Estraviz digital




Por Isaac Alonso Estraviz:

Dicionário Estraviz digital: Aqui
Prefácio: Aqui


Há na história da lexicografia portuguesa uma grave lacuna, esquecer, propositada ou inconscientemente, uma realidade: que a língua e o léxico de que consta, nasceu no território conhecido historicamente como Gallaecia –GALIZA-, que abrangia, não as quatro províncias da atual Galiza unida politicamente a Espanha, mas o território que ia de Cantábria passando polas Astúrias, Leão e Samora, até ao Douro, ou ainda usque ad Mondecum, como dizia sempre o saudoso Rodrigues Lapa.

Essa Gallaecia deu origem em romance à Galiza, não só à que pertence hoje à Espanha, mas também a Portugal. Dizer que a língua nasceu na Galiza (estou a referir-me ao território espanhol) é totalmente falso. O mesmo de falso se dizemos que nasceu em Portugal. Nasceu num território comum que hoje pertence politicamente parte a Espanha e parte a Portugal, gostemos ou não da História. Disse politicamente porque culturalmente continuamos a sermos os mesmos. E Galiza, como reconheceram muitos intelectuais portugueses, que ultrapassaram o Minho, é física, cultural e linguisticamente uma continuação de Portugal ou vice-versa.
"Galiza é uma prolongação de Portugal ou Portugal é uma prolongação da Ggaliza, o mesmo me faz" Outeiro Pedraio.
De 18 a 23 de julho de 2005 celebrou-se na Universidade de Santiago de Compostela o VIII Congresso da Associação Internacional de Lusitanistas. Congresso no qual houve muitos intervenientes galegos que desvendaram muitas questões do galego e da cultura da Galiza. De então a hoje a Diretiva da AIL está constituída por galegos. Os intelectuais amigos não podem ignorar isto se não querem cair no ridículo. Nele apresentei eu também um trabalho intitulado Do Návia ao Mondego Semente da Língua Portuguesa (Estraviz, 723-732). Nele começo por justificar o título e digo:
Cartaz do Congresso da AIL (Associação Internacional de Lusitanistas) do ano 2014. O Autor está a se referir ao Congresso de 2005

O título podia ser: Do Mondego (Paróquia de Sada, Corunha) ao Mondego (Coimbra), Semente da Língua Portuguesa. Do Eu ao Mondego, Semente da Língua Portuguesa. Ou Do Návia (nas Astúrias) ao Mondego, Semente da Língua Portuguesa, para estabelecer os limites de um rio a outro, considerando-o mais de acordo com a realidade histórica e corrigir em parte as palavras de João de Barros na sua Gramática da Língua Portuguesa que fala no Minho e o Douro.  

"Nã sómēte ôs que achamos per escrituras antigas, mas muitos q[ue] se usam antre Douro e Minho, conservador da semente portuguesa: os quáes alguns indoutos desprezam, por nam saberem a raiz donde náçē" (Buescu, 168).

 
Sempre houve pola parte portuguesa um afã por ignorar as origens territoriais completas da sua língua. Não nego que tanto da parte de Além como de Aquém Minho, se reconhece um momento na História de uma literatura comum a ambas as partes, a dos Cancioneiros Galaico-Portugueses das cantigas medievais. Mas a partir de uma determinada altura, fora de importantes e contadas exceções, existe um grande cuidado em prescindir da Galiza e dos Galegos. Ainda hoje, depois de toda uma série de estudos, ao estarmos em grupo onde galegos e portugueses reconhecem a unidade linguística, aparece sempre alguém que fala na língua portuguesa e na língua galega como duas realidades diferentes.

O problema parece surgir porque a Galiza do Sul se converteu em reino independente e a do Norte passou a formar parte do que seria com o tempo o Estado de Espanha. De aí que os dirigentes portugueses confundissem independência linguística com independência política, o qual dá origem a um crasso erro. Portugal politicamente nunca foi território galego e Galiza cultural e linguisticamente nunca foi território espanhol. Portugal não perde nada reconhecendo a realidade galega como reconhece a brasileira junto com os países aos que levou a língua e a cultura e que hoje formam a comunidade internacional da Lusofonia. E Espanha ganha reconhecendo no seu conjunto um território político onde se fala outra língua de igual categoria e parecidas perspetivas internacionais. Galiza pode viver dentro de um Estado de língua diferente, com cultura e língua comum a outro Estado sempre que não se imponha nada contra a vontade. Há países onde convivem harmoniosamente territórios de línguas diferentes e Espanha e Portugal contam com outros estados independentes que falam as suas línguas.

Como nasce o nome da língua?
Em textos redigidos em território da atual Galiza temos diferentes vocábulos ao referir-se a aquele falar que se vai diferenciando do latim. Assim

 "Na Historia Compostellana, texto latino do século XII, aparece a expresión gallaeco vocabulo; e nunha relación de libros da biblioteca do arcebispo compostelán Bernaldo II dáse notícia, arredor de 1226, dun libro vello de sermóns de littera galleca, que con seguridade quererá indicar que estaba escrito en galego e non en latín" [...] Porén, a denominación predominante era, en contraposición a latín, a de romanço (aparece a fins do século XIV na Crónica Troiana e tamén nos Miragres de Santiago, por exemplo), xuntamente coa de lenguagem, linguagem ou a nossa linguagem, estas máis frecuentes en textos escritos en territorio portugués".(Monteagudo, 1994: 171; Freixeiro Mato, 26)

O mais frequente é romanço, linguagem ou a nossa linguagem, sem especificar território algum. Mas nos Miragres de Santiago aparece já especificado:

"Osana fili[o] Dauidi", que quer dizer en lingoajen galego: "señor faysnos salvos!" (Pensado, 27). 

E na Crónica de 1344 aparece especificada a linguagem com outro adjetivo: 

"... el rei dom Vermudo era mal doente de hũa door dos pees a que os físicos dizem pedraga, segundo a lĩguagem de Portugal" (Cintra III, 180). 

Como se pode ver, dão-lhe o nome do território onde está o escriba ainda que empreguem o mesmo léxico.
Resulta por isso muito interessante pesquisar o que pensam os gramáticos portugueses a respeito do território onde nasceu a sua língua. Nas primeiras gramáticas não se fala para nada da Galiza, quer como parte integrante na Espanha, quer como realidade política e linguística dos tempos antigos.
Fernão de Oliveira, é o primeiro gramático português. Ele só menciona a Galiza no capítulo 41 quando nos diz que de Galiza deriva o gentilício galego. De resto quando tem que falar das particularidades linguísticas históricas sempre fala do Minho para o Douro. Ignora totalmente o que acontece do Minho para cima, do Minho até as Astúrias. Vejamos o que nos diz:


"Mas porque dixemos que os nomes de nações faziam no plural em ãos, alemão não faz assi, mas faz alemães, e bretão, bretões, e assi haverá outros muitos. A parte desta regra que mais comprende é dos nomes que mudam todo o ditongo, como lição, lições; podão, podões; melão, melões. Estes nomes, posto que parecem mudar mais que nenhuns dessoutros que já dissemos, todavia, se olháremos ao singular antigo que já teveram, não mudam tanto como agora nos parece, porque estes nomes todos, os que se acabam em ão ditongo, acabavam-se em om, como liçom, podom, melom, e acrecentando e e s formavam o plural lições, podões, e melões, como ainda agora fazem. E outro tanto podemos afirmar dos que fazem o plural em ães, como pães, cães, dos quaes antigamente era o seu singular pã, cã, cujo testemunho aindagora dá Antre-Dourominho (Torres, 147)

Resulta igualmente interessante o que nos diz no capítulo 47 ao falar dos verbos onde já não fala do Douro e o Minho, mas da Beira. Eis o que nos diz:

"Nos generos dos verbos não temos mais que ha só voz acabada em o pequeno, como ensino, amo e ando, a qual serve, como digo, em todos os verbos, tirando alghuns poucos como são estes: sei, de saber, e vou e dou e estou e mais o verbo sustantivo, o qual huns pronunçiam em om, como som e outros em ou, como sou, e outros em ão, como são; e também outros, que eu mais favoreço, em o pequeno, como so. No parecer da primeira pronunciação com o e m, que diz som, é o mui nobre João de Barros; e a rezão que dá por si é esta: que de som mais perto vem a formação do seu plural, o qual diz somos. Contudo, sendo eu moço, fui criado em são Domingos dEvora, onde faziam zombaria de mim os da terra, porque o eu assi pronunciava segundo que o aprendera na Beira (Torres, 150-151).

Nestes textos Fernão de Oliveira, como veem, não faz a mínima referência a como se dão esses fenómenos na Galiza. Só se limita à parte portuguesa, do Minho para baixo. Como se sabe, essa forma som que ele aprendera de pequeno, típica da Beira natal (e não só), é ainda hoje a forma mais geral na Galiza. O seu texto naquela altura era galego-português e hoje muito mais galego do que português.

João de Barros, que se atribui a honra de ser ele o primeiro a fazer uma gramática da língua portuguesa, publica a sua obra em 1540. Segue na mesma linha de falar do idioma do Minho para sul. Mesmo me baseei nele para lhe dar título ao meu trabalho. Eis o que nos diz no Diálogo em louvor da nossa linguagem:

"A my muito me contentam os termos que se confórmam com o latim, dádo que sejam antigos: ca destes nos devemos muito prezár, quãdo nam achármos serem tam corrutos, que este labęo lhe fáça perder sua autoridáde. Nã sómēte ôs que achamos per escrituras antigas, mas muitos q[ue] se usam antre Douro e Minho, conservador da semente portuguesa: os quáes alguns indoutos desprezam, por nam saberem a raiz donde náçē (Buescu, 168)

É na Gramática onde faz referência, não sei se ao galego da Galiza ou ao galego do norte de Portugal quando diz:

"Os mais dos nomes que se deviam acabár ē, am, se escrevem a este modo. Razão, razões. E se o uso nam fosse contrairo que tem gram força açerca das cousas, nam me pareçeria mal dester[r]ármos de nós esta prolaçam e orthografia galega. Porque a meu ver quando quisęrem guardár a verdadeira orthografia destas dições, se deve dizer, razam, e no plurar, razões. Ca este, m, finál nosso tem aly o oficio do mem çerrado dos hebreos, que e hũa das leteras que elles chamam dos beiços: a quál lhos fáz fechár quando acábam nella, de maneira que se vay fazendo aquella variaçam ocandose a vóz. E este ę hũ módo de áfrautár como se frautam os instrumentos de musica. E entam os que pouco sentęm quęrem remediar o seu desfaleçimento escrevendo agalegádamente: poēdo sempre, o, finál ē todalas dições que acábam ē, am". (Buescu, 83)

Duarte Nunes de Leão é o terceiro dos gramáticos importantes. Ele distingue perfeitamente os galegos da Galiza. Eis o que nos diz em "Ortografia e Origem da Língua Portuguesa" quando intenta descrever o fenómeno da confusão entre v e b:

"O que muito mais se vê nos Galegos e em alguns Portugueses de Entre Douro e Minho, que por vós e vosso, dizem bós, e bosso, e por vida, dizem bida. E quasi todos os nomes, em que há u consoante mudam em b. E como se o fizessem às avessas, os que nós pronunciamos por b pronunciam eles por v. (Buescu, 54)

Mais adiante concreta ainda mais ao falar da terminação om que tinham os Portugueses e que ainda continua viva nas gentes de Entre Douro e Minho e nos Galegos. Eis o que nos diz:

"E a razão dos ditos vocábulos se não escreverem por am e suceder aquelle ditongo, em lugar das ditas letras, segundo tenho advertido, é a analogia e respeito que a língua portuguesa vai tendo com a castelhana, que sempre onde a castelhana diz, an ou on que é a sua particular terminação, responde a portuguesa com aquela terminação de ão que sucede em lugar da antiga terminação dos Portugueses de om que punham em lugar do an ou on dos castelhanos. A qual ainda agora guardam alguns homes de Entre Douro e Minho e os Galegos, que dizem, fizerom, amarom, capitom, cidadom, tabaliom, apelaçom (Buescu, 90.)

Na Origem da Língua Portuguesa Nunes de Leão distingue a Galiza da Lusitânia ao falar da existência das letras:

"E os Gregos que habitavam Galiza e a Lusitânia e outras regiões de Espanha teriam a língua grega e as letras gregas (Buescu, 206)

Mas onde Nunes de Leão especifica claramente o seu pensamento acerca do galego é no capítulo VI: A língua que se hoje fala em Portugal, donde teve origem, e por que se chama romance. Ouçamos as suas palavras:

"Depois deste cativeiro, vindo-se recuperar muitos lugares do poder dos Mouros, pelas relíquias dos cristãos que da destruição dos Mouros escaparam nas terras altas de Biscaia, Astúrias e Galiza. E, fazendo cabeças de alguns senhorios, ficou aquela língua gótica, que era comum a toda Espanha, fazendo alghũa divisão e mudança entre si cada hum em sua região, segundo era a gente com que tratavam, como os de Catalunha, que, por àquela parte vir el-rei Pepino de França com os seus, ficou naquela província sabor da língua francesa e, se apartou, lhes ficou notável diferença entre ela e a língua de Castela e das de Galiza e Portugal, as quais ambas eram antigamente quase hũa mesma, nas palavras e nos ditongos e pronunciação que as outras partes de Espanha não têm.
Da qual língua galega a portuguesa se avantajou tanto, quanto na cópia como na elegância dela vemos. O que se causou por em Portugal haver reis e corte que é a oficina onde os vocábulos se forjam e pulem e donde manam para os outros homens, o que nunca houve em Galiza" (Buescu, 219-220).

Erra Nunes de Leão quando diz "o que nunca houve em Galiza", pois 

"Todos os reis se titularon reis da Gallaecia desde capitais diferentes (Oviedo, Santiago ou León), se ben moitos deles desde Afonso II asentaron a súa capital en Santiago ou na parte occidental de Gallaecia, como Ramiro I, Afonso III, Ordoño II, Sancho Ordóñez, Ramiro II, Afonso V, García e Afonso VII, fortalecendo e estendendo o seu reino, e mesmo chegando no occidente até Coimbra xa con Ordoño II. Para Camilo Nogueira Ramiro II "constitúe unha referencia fundamental na construcción do reino galaico", pondo de relevo a ocultación por parte de Sánchez Albornoz de documentación histórica onde se cualifica a Ramiro II como rei dos galegos e estes a nación máis poderosa. Bermudo II, fillo de Ordoño III e neto de Ramiro II, foi educado en Santiago e coroado rei de Gallaecia na catedral compostelá, reinando até o ano 999. No reinado do seu fillo Afonso V (999-1028) a Gallaecia vaise estender cara aos territorios de Al-Andalus, ao sul da Cordilleira Central. A Afonso V vaino suceder Bermudo III (1028-1037), que é recoñecido como emperador por Sancho o Maior de Navarra; o seu cuñado Fernando, consorte de Sancha e fillo de Sancho III, fora nomeado por este, en 1035, como gobernante de Castela sobre un reducido territorio na fronteira oriental de Gallaecia, cando o reino galaico levaba séculos de existencia." (Freixeiro Mato, 2).
Manipulaçao da História da Galiza apagando o nome do País favorecendo interesses espúrios.
No mundo espanhol foram mais generosos. Eis o que nos diz o Marquês de Santilhana:

"E despues fallaron esta arte que mayor se llama e el arte comun -creo- en los Reynos de Gallizia e de Portugal, donde non es de dubdar quel exerçiçio desta sçiençia más que en ningunas otras regiones e prouinçias de la España se acostunbró en tanto grado que non ha mucho tiempo qualesquier dezidores e trobadores destas partes, agora fuessen castellanos, andaluçes, o de la Estremadura, todas sus obras componían en lengua gallega o portuguesa" (López Estrada, 59)
I Conde do Real de Manzanares e I Marquês de Santillana
Íñigo López de Mendoza
Todos os grandes vultos da Romanística defenderam a unidade linguística galaico-portuguesa. Respeito dos galegos a lista seria interminável: Pe Feijó, Pe Sarmento, Eduardo Pondal, Manuel Murguia, Antão Vilar Ponte, Vicente Risco, Afonso Rodrigues Castelão, Otero Pedraio, Vicente Biqueira, Evaristo Correa Calderão. A tradição galeguista até ao 1936 foi defensora destas ideias. Na atualidade o número de pessoas e instituições cresce diariamente. Pola parte portuguesa: Carolina Michaelis de Vasconcelos (que cunha o sintagma galego-português), Rodrigues Lapa, Lindley Cintra, Maria Helena Mira Mateus; da parte brasileira: Celso Cunha, Gladstone Chaves de Melo, Leodegário A. de Azevedo Filho, Sílvio Elia, Reynaldo Valinho; espanhóis: Menéndez Pidal, Dámaso Alonso, Manuel Alvar; outros: Coseriu.... No Congresso sobre a situação atual da Língua Portuguesa no mundo, celebrado em Lisboa em 1983, aprovou-se polo Congresso a seguinte proposta: 

"Primeiro ponto: atendendo à situação actual dos estudos linguísticos, o Congresso reafirma a tese de que o galego e o português são normas cientificamente reconhecidas de um mesmo sistema que engloba as comunidades linguísticas luso-brasileiro-africanas" (Atas, 587-588)

Ainda mais: o professor Lindley Cintra, que trabalhou no ALPI junto com Menéndez Pidal e outros, nos cursos da Universidade de Lisboa que ministrava nos verãos, punha aos seus alunos fitas gravadas por ele em diferentes localidades da Galiza e Portugal ao falar dos diferentes dialetos –galegos e portugueses- que formavam a língua comum. E na gramática elaborada por Celso Cunha e ele registam:
Mapa de Lindley Cintra e Celso Cunha
"Os dialectos do português europeu
A faixa ocidental da Península Ibérica ocupada pelo galego-português apresenta-nos um conjunto de DIALECTOS que, de acordo com certas características diferenciais de tipo fonético, podem ser classificados em três grandes grupos:
a) DIALECTOS GALEGOS;
b) DIALECTOS PORTUGUESES SETENTRIONAIS
c) DIALECTOS PORTUGUESES CENTRO-MERIDIONAIS" (Cunha-Cintra, 10-11).
Eis também o que nos diz o ilustre gramático Evanildo Bechara:
"Foi este falar comum à Galiza e ao território portucalense que o processo da Reconquista propagou em direção ao sul, sobrepondo-se aos dialetos moçárabes aí correntes. [...] Até o séc. XV, segundo Orlando Ribeiro, o Minho ainda não constituía limite lingüístico entre o galego e o português.
O português, na sua feição originária galega, surgirá entre os séculos IX-XII, mas seus primeiros documentos datados só aparecerão no século XIII; o Testamento de Afonso II e a Notícia de Torto. Curiosamente, a denominação "língua portuguesa" para substituir os antigos títulos "romance" ("romanço"), "linguagem", só passa a correr durante os escritores da Casa de Avis, com D. João I. Foi D. Dinis que oficializou o português como língua veicular dos documentos administrativos, substituindo o latim." (Bechara, 24).
Evanildo Bechara
De uns anos para esta parte a questão politizou-se polo governo galego, que defende a diversidade linguística, seguido servilmente polo governo português, dando lugar a que ilustres conterrãneos portugueses também mudaram de atitude. É esta uma atitude sem sentido. A ciência, neste caso a ciência linguística não pode estar aos vaivéns de quem estiver no poder. Toda ciência, incluída a línguística, tem que estar por cima de muralhas e fronteiras, de particularismos e sentimentalismos. Nós assim o consideramos.
 

Por isso, tendo em conta os avatares da história e que quem prestigiou a língua e a levou fora das suas fronteiras foi Portugal ao tempo que ampliava as suas conquistas, primeiro ao norte de África e depois aos cinco continentes, e que internacionalmente é conhecida por português, ainda que na história da literatura há um espaço de tempo que se conhece como galego-português e mesmo que apareça primeiro em documentos medievais como galego, o nome do idioma é português quer para Portugal, Brasil e Palops como para a Galiza. Falar hoje em galego ou português da Galiza é o mesmo. É o mesmo caso de castelhano e espanhol. O de nomes é indiferente. O fundamental é que estamos a falar da mesma língua.
Elaborar, pois, um dicionário com o léxico da Galiza e dar-lhe o nome de Dicionário do Português da Galiza não é nenhum absurdo nem disparate. O léxico recolhido aqui na Galiza é o mesmo que se emprega em todo o norte de Portugal e mesmo na Beira, na Estremadura e no Algarve. Os clássicos portugueses, Camões e Gil Vicente, e os modernos como Camilo Castelo Branco e Torga, etc. são mais galegos nos seus escritos do que portugueses lisboetas. Léxico este que foi desterrado dos dicionários portugueses mas que, afortunadamente, se está a introduzir nos dicionários atuais, como o da Academias das Ciências de Lisboa, ainda que registados como localismos. Mas localismos são todos, simplesmente que a uns se lhes tem mais em conta do que a outros.

Dizer simplesmente que o Dicionário do Português da Galiza não é um dicionário só para galegos ou portugueses, é um dicionário para todos os que têm como língua o português.
Tendo em conta que Galiza continua a ser, linguisticamente, uma continuação de Portugal para o norte e de que formamos um continuum cultural e linguístico, ao redigirmos o material tivemos em conta esta pertença e redigimos no Acordo Ortográfico do português europeu. Com isto não queremos dizer que seja melhor do que a brasileira. E como em Portugal se optou por uma dupla ortografia para muitos vocábulos que no Brasil ficam inalterados, nós optamos pola variante tradicional mesmo que nalguns casos coincidam Brasil e Portugal. Simplesmente por coerência. Esperemos que Portugal e Brasil deem um passo mais para a frente para assim termos um padrão ao que olharmos todos.




Bibliografia
  • (Atas, 587-588) = Congresso sobre a situação actual da Língua Portuguesa no mundo, Actas,Volume I, Lisboa, 1985.
  • (Bechara, 24) = Evanildo Bechara, Moderna Gramática Portuguesa, 37ª edição atualizada pelo novo Acordo Ortográfico, editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2009.
  • (Buescu, 168) = João de Barros, Gramática da Língua Portuguesa (1540), Reprodução facsimilada, leitura, introdução e anotações por Maria Leonor Carvalhão Buescu, Lisboa, 1971.
  • (Buescu, 54, 90, 206, 219-220) = Duarte Nunes de Leão, Ortografia e Origem da Língua Portuguesa, introdução, notas e leitura de Maria Leonor Carvalhão Buescu, IN-CM, , Lisboa, 1983.
  • (Cintra III, 180) = Cintra, Luís Filipe Lindley, Crónica Geral de Espanha de 1344, Edição crítica do texto português, Academia Portuguesa da História, Lisboa, 1961.
  • (Cunha-Cintra, 10-11) = Celso Cunha-Lindley Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo, 3ª ed. Sá daCosta, Lisboa 1986.
  • Estraviz, 723-732) = Estraviz, Isaac Alonso "Do Návia ao Mondego Semente da Língua portuguesa" em Da Galiza a Timor, A lusofonia em foco, Vol. I, pp. 723-732. Santiago, 2008.
  • (Freixeiro Mato, 26) = Xose Ramón Freixeiro Mato, Lingua galega: normalidade e conflito, Laiovento, 1997.
  • (Freixeiro Mato, 2) = Xose Ramón Freixeiro Mato, A Lingua das Cantigas, Congreso da Lingua Medieval Galego-Portuguesa na Rede, Vieiros.com, 1999.
  • (López Estrada , 59) = Francisco López Estrada, Las poéticas castellanas de la Edad Media, Madrid, Taurus, 1985.
  • (Monteagudo, 171) Henrique Monteagudo "Aspectos sociolingüísticos do uso escrito do galego, o castelán e o latín na Galicia tardomedieval (ss. XIII-XV)", em Estudios galegos en homenaxe ó profesor Giusepe Tavani, Coord. Por Elvira Fidalgo e Pilar Lorenzo Gradín. Publicacións do Centro de Investigacións Lingüísticas e Literarias Ramón, Piñeiro, Santiago de Compostela, 1994.
  • Pensado, J. L. Miragres de Santiago, Edición y Estudio Crítico. Consejo Superior de Investigaciones Científicas, Madrid, 1958.
  • (Torres, 147; 150-151) = Fernão de Oliveira, Gramática da Linguagem Portuguesa (1536), ed. crítica, semidiplomática e anastática por Amadeu Torres e Carlos Assunção, Lisboa, 2000.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

HISTÓRIA DA LÍNGUA: Etapa de formação



Por José Manuel Barbosa

A Gallaecia, já romana, entra a fazer parte do mundo imperial e adota pouco a pouco o latim como língua culta embora continuasse com a sua língua autóctone até bem entrada a Idade Média, segundo nos manifestam André Pena e Higino Martins. É essa língua galaico-lusitana o substrato do futuro galego-português e é o latim a base dessa  nova língua neolatina galega, portuguesa ou galego-portuguesa (1)
Segundo Eugênio Coseriu (1989: 793-800) a península ibérica recebe a entrada do latim desde dois diferentes pontos: um desde a costa Tarraconense alimentando os Conventus mediterrânicos; e a outra que penetra desde a Bética subindo pela Lusitânia e chegando á Gallaecia onde de Oeste para Leste vai ocupando pouco a pouco as terras bracarenses, lucenses e posteriormente asturicenses. O primeiro é chamado Latim Citerior. Ulterior o segundo. Mas os acontecimentos posteriores à queda do Império Romano fazem com que a chegada dos povos germânicos à península e nomeadamente os suevos à Galiza tornem o latim numa língua franca entre galaicos-romanos provavelmente bilingues (ou talvez diglóssicos), em latim e galaico-lusitano, e suevos de fala germânica trazida do centro da Europa. Ambos os povos distantes linguisticamente entre si procurassem no latim o seu ponto de encontro. 
 Este latim hispânico ulterior acabaria vendo-se determinado por vários fatores:
1- A chegada do cristianismo, que levaria a cabo o seu projeto ideologizador em latim.
2- A criação do reino suevo fazendo que a língua de Roma se assentasse e consolidasse como língua franca entre galaicos de fala celta e suevos de fala germânica. Esta circunstância vai dar-lhe caráter diferencial dentro dos limites dessa Gallaecia tardo-romana e proto-medieval. 
Com isto, a língua dos suevos, mais débil dum ponto de vista demográfico, cultural e do prestígio social vai ver-se afetada e deslocada do seu contorno natural, próprio do povo germânico que até agora o usava, por este latim galaico durante este processo de substituição, mas também deixando uma importante pegada no novo romanço.
Posteriormente à unificação política do Reino de Visigodo e do Reino da Galiza da mão de Leovigildo e sob hegemonia toledana, pouco ou nada se vai ver na direção duma grande unidade linguistica peninsular, que no seu canto Noroeste, protegido pela incomunicação orográfica, pela unidade política entre as duas etnias aliadas –sueva e galaica- e a fácil adaptação entre ambas, começa a delinear uma criação linguística nova, fruto da dialetalização da língua trazida pelos romanos.
Ao mesmo tempo, com a chegada dos muçulmanos à península, acrescentar-se-ia este facto, delimitando-se um território político com o nome de Gallaeciense Regnum segundo nos dizem as fontes historiográficas andalusis, carolíngias, papais, escandinavas, anglo-saxónicas e grande parte das peninsulares segundo nos informa o professor Lopez Carreira (2005:111-141).
 Em troca, esse Reino galaico vai ser denominado de  Reino de Astúrias ou Reino de Leão nos textos da historiografia tradicional castelhanista embora achemos  em aqueles textos de maior fiabilidade e não retocados pelos cronistas castelhanos de séculos posteriores, um Gallaeciense Regnum, Al-Khalikija ou Christianorum Regnum. A sua primeira corte é em Cangas de Onis, na região das Primórias, posteriormente em Právia, depois Oviedo e mais tarde nas cidades de Leão ou Compostela. Duas capitais: uma política e outra religiosa, seguindo modelos do Sacro Império que tinha a Roma e Aquisgrão.
Foi com a chegada dos muçulmanos à península (710 d.C.) quando aparecem as inovações específicas e mais características da nossa língua, resultado do isolamento dos falares da Galiza medieval e da peculiaridade do Reino criado pelos Suevos trezentos anos atrás. Surge assim nos séculos VIII e IX a língua do Reino da Galiza que se vai manter por oposição à Espanha muçulmana, denominada esta última pelos documentos da época de Spanija, ou Al-Andalus.
Éste latim norte-ocidental começa a se diferenciar dos outros latins da península e da Romania. Já não é tanto ulterior, quanto especificamente galaico e vai acabar impondo-se sobre a sua antecessora e céltica língua galaico-lusitana da mesma forma sobre a fala dos imigrantes germânicos centro-europeus gerando por volta do século X um Proto-romanço galaico, Galaico ou Galeco como lhe chama Carvalho Calero (1983:15-27).
Segundo nos contam estes nossos autores podemos deduzir que houve um momento de bilinguísmo substitutivo entre o romanço proto-galaico e a língua céltica galaico-lusitana que acabou com o retrocesso e desaparição da tradicional língua céltica galega, lusitana e provavelmente também cantábrica a partir do ano 1000 aproximadamente, como nos diz Higino Martins (2008: 151).
         Esta forma de romanço primitivo vai ser a base tanto do galaico-português como do asturo-leonês, assim como ulteriormente do castelhano, como forma de asturo-leonês mas oriental. Coseriu chama-lhe a essa língua Galaico-Asturiana, (1987: 793-805) e Rodrigues Lapa simplesmente nomeia-a de Romanço Galaico (1981:54). Nós concordamos com Carvalho Calero e Rodrigues Lapa no nome de Protogalaico ou Galaico por serem nomes mais amplos e abrangentes de toda a Gallaecia histórica.
        É o professor Ricardo Carvalho Calero quem nos comenta o facto de ser esse Galaico o proto-romanço do qual surgem inicialmente tanto o galaico ocidental ou galego-português quanto o galaico oriental ou asturo-leonês indiferenciados entre si num começo e que ele identifica por volta dos séculos IX e X. (1983: 18)
          Do Galaico Oriental, ou asturo-leonês neste caso, surge na sua parte mais oriental o que posteriormente seria o castelhano sob substrato vasconço e importante influência navarro-aragonesa. O próprio professor espanhol Rafael Lapesa (1991: 162) reconhece que as Glosas Silenses e Emilianenses do Mosteiro Riojano de San Millán de La Cogolla não estám num primitivo castelhano como se nos ensina habitualmente, mas num originário navarro-aragonês, o qual não é em absoluto estranho se temos em conta que a Rioja é uma região originariamente vasconça e navarra.
Segundo Lopez Carreira (2005:105) o vínculo parental e originário entre o Galaico e o castelhano pode ficar intuída num comentário que faz o bispo e historiador castelhano do século XVII Frei Prudencio de Sandoval, quem nos fala duma História da Espanha redigida no século XIII e provavelmente traduzida para o galego-português no XIV. Diz-nos acreditando na sua antiguidade que a original está numa “lengua castellana tan cerrada que parece portuguesa”.
O protagonismo dessa primeira parte da Idade Média corresponde ao Gallaeciense Regnum até o momento em que Castela colhe força política e militar. A língua desse território começa a desenvolver-se com a força que lhe dá um poder político forte e soberano e um prestígio na Europa que reconhece a Galiza segundo John Mundy (1991:40) como um dos três impérios do momento: O Império Bizantino, o Sacro Império Romano Germânico e o Gallaeciense Regnum.

“in 1159 the northern annals of Cambrai spoke of three empires: the Byzantine, the German and of the Galicia (St. James of Compostela)”

Os limites do romanço dos galegos nessa altura histórica seriam os limites desse Gallaeciense Regnum -que tanto negam os historiadores pró-castelhanistas- até o ponto de Roger Wright dizer (1991:21-22):

“antes do milénio e quiçá antes do século XIII desterremos também os conceitos distópicos pouco úteis e anacrónicos tais como galego, leonês, castelhano(...); todos esses conceitos modernos estorvam à vista clara. A península (aparte dos que falavam basco, árabe, hebreu, etc) formava uma grande comunidade de fala, complexa mas monolíngue”.

Do nosso ponto de vista talvez não monolíngues em tudo o âmbito peninsular  mas sim monolíngues no que diz respeito ao território do Gallaeciense Regnum por ser esse galaico provavelmente diferente do latim citerior que teria originado as falas catalano-aragonesas. Intuimos com isto que o complexo catalano-ocitânico pudesse conformar outro núcleo linguístico diferente ao do Reino Galaico ligado mais à Gália franca do que ao Noroeste hespérico. No meio, o basco marcaria uns interessantes limites pouco reconhecíveis para um leitor do século XX ou XXI.

Essa situação linguística da velha Galiza medieval -que o professor Carvalho Calero diz “Viveiro de Romanços”-, vai perdurar enquanto dura a hegemonia galaica com um intuito de construção de uma unidade peninsular sob projeto nacional galaico. Isto é até aproximadamente a assunção ao poder do navarro-castelhano Fernando I, no século XI e talvez até o século XII onde o começo dos conflitos políticos pelas estremas castelhanas vão favorecer as ruturas linguísticas. De não se produzirem estas ruturas políticas, a unidade linguística galaica e a sua hegemonia no contexto peninsular seria perdurável. Na altura essa língua é nomeada já de “galego”, bem por ser a Gallaecia o seu berço originário, bem por entenderem os coevos que era a língua desse reino denominado por todos na altura de “gallaeciense”.
Finalmente com as ruturas de Castela no oriente e de Portugal pelo Sul, ficam alterados e deslocados os equilíbrios polítivos e as hegemonias vão ver-se modificadas. Justo no momento de maior florescimento da Galiza acontece a sua desintegração territorial, desequilibrando as forças peninsulares em detrimento do poder galaico e em favor do castelhano-toledano.
Entre os séculos IX ao XII vai dar-se uma etapa na história da língua na que o seu uso vai ser fundamentalmente oral enquanto as formas escritas pelos letrados daquela época vão ser um jeito de latim medieval cheio de giros que havemos de reconhecer como próprios do atual galego-português.


Esta situação de oralidade e tendo em conta a importância do Gallaeciense Regnum e da sua língua em época alto-medieval, causa-nos sensação de estranheza. Surpreende-nos que não sejam conhecidos documentos anteriores ao século XII.


No caso de outras línguas romances como o francês ou langue d’oil existem documentos do século IX como são os Juramentosde Estrasburgo (842) ou a Sequência de Santa Eulália (881) que consolidam esta língua bem diferenciada do Latim. Mesmo nos romanços italianos achamos os primeiros documentos em 960. Porque, portanto, o galego-português só tem textos desde finais do século XII? Quiçá dentro da luta pela hegemonia peninsular entre galegos e castelhanos se chegasse ao ponto de ter-se produzido destruições de documentos antigos por razões políticas e interesses espúrios da mesma forma que temos constância de manipulações e de outras desfeitas conhecidas como é o caso do Bispo Pelayo de Ovedo, Ximenez de Rada, Lucas de Tui, e outros?
Partindo desta oralidade, pouco a pouco o já galego vai ser empregue como língua normal em todas aquelas funções que uma língua tem num país normalizado e soberano, sem distingos sociais. Todas as funções, exceto a internacional, que é reservada para o latim.
            Esta situação funcional é também normal na Europa nesta altura histórica da que estamos a falar. Na Galiza parece apresentar uma situação de diglossia galego/latim que não oferece obstáculos nem anormalidades dentro dum contexto inserido no Orbe cristão europeu que se exprime basicamente em Latim como língua franca continental. É portanto o galego a língua de todos os galegos, mesmo dos reis da Galiza, forem estes coroados em Compostela, Oviedo ou Leão. Os reis -comenta-nos André Pena- falavam galego e mesmo os filhos dos reis eram criados por tutores da aristocracia galega, os quais marcavam o caráter dos futuros monarcas, marcavam a política e mesmo as relações diplomaticas da época (A. Pena, A:1995).
Guardamos provas documentais indiretas da língua dos Reis, como a recolhida por Frei Prudencio de Sandoval, historiador originário de Valhadolid do século XVI-XVII que reproduz os soluços de Afonso VI perante a morte em 1108, na batalha de Uclês do seu filho Sancho, herdeiro do trono. A língua na que chora o Rei não é precisamente o castelhano.
Segundo nos conta Sebastián Rico (1970: 219) na crónica do Frei Prudêncio de Sandoval o Rei diz:

 “...y en la lengua que se usaba dijo con dolor y lágrimas que quebraban el corazón: Ay meu filho! Ay meu filho! Alegria do meu coração et lume dos meus olhos, solaz da minha velheçe! Ay espelho em que me soya veer, et com que tomava muy grand prazer! Ay meu herdeyro mor! Cavaleyros, hu me lo leixastes? Dade-me meu filho Condes!”

Outros autores confirmam isso mesmo como por exemplo António José Saraiva (1995:15), ou mesmo Afonso o Sábio na sua Primeira Crónica Geral de Espanha, Benito Cano em 179 etc...
Mas foi na época de Afonso VII Reimundes o Imperador, que se nos faz passar por castelhano nos estudos oficiais de todas as universidades da península (2) quando o condado portucalense consegue a sua  independência fazendo da nossa língua comum a sua língua nacional. Língua que desde esse momento vai começar a ser enxergada como língua portuguesa.
Também não nos admira que reis posteriores como Afonso o Sábio (Afonso X segundo o cômputo castelhano, mas IX segundo o cômputo galego) ou Fernando III empregassem o galego-português como língua veicular. Era a língua natural desses Reis mas foram curiosamente estes dous últimos os que mudaram o sentido do projeto unificador peninsular. Dum projeto galaico passou-se a um projeto castelhano. É por isso porque a península ibérica de hoje está ocupada majoritariamente pela língua castelhana.

Textos
 
Documento não orginal mais antigo galaico-latino (doação á igreja de Sozelo). Ano 870.

            Christus. In nomine domini nostri Jhesu christi. In honore sanctorum Apostolorum Martirum confessorum Atque uriginum et omnium chorum angelorum salutem Aeternam amen. Ego cartemiro et uxor mea Astrilli abuimus filios et filias nominibus fofinu et gaton et arguiro et uistremiro quinilli et aragunti.et peruenerunt illos filios barones ad ordinem monacorum.et accepit inde fofinus ordinem primiter habitantem in eclesia uocabulo sncte eolalie uriginis fundata in uilla sonosello de presores de ipsa uilla. Ego carterimo et astrilli una cum filiis meis fundaui eclesiam in nostro casale proprio exepre de nostros heredes uocabulo sancti saluatoris sancti andree apostoli sancte marie uirginis et sancti thome apostoli sancti petri apostoli accepit uoluntas dei.et factus de ipsa eclesia cum ipso casale testamentum post partem de propinquis nostris et pro remedio animas nostras et omnes defunctorum que in ipsa eclesia sepulti sunt. Contestamus ad ipsa eclesia illa hereditate per suis terminis qui habuimus de presuria que preserunt nostros priores cum cornu et cum aluende de rege et habuimos VIª de ipsa uilla que habuimus per particione et medietate de illa fonte de salmegia.contestamus cum suo ornamento eclesie libros casullas uestimenta altaris uel templi cruces super euangelia et corona et calice et patena argentea.contestamus in ipsaeclesia cum quantum ominis hic aprestitum esto.sgnum caballos equas boues et uaccas pecora promiscua cubus et cupas lectos et cagtedras mensas sautos et pumares mexinares uineales terras ruptas uel barbaras casas lacar petras mobiles uel immobiles.et diuidet ipso casal ubi ipsa baselica fundata est per casal de louegildo.et inde per rego qui descorret a casa de trasmondo.et inde per ipso uallo et suos dextros et tornat se unde primitus inquoauimus. Ego cartemiro concedo ibidem larea que iacet in çima de ipso uiniale.et habet ipsa larea in amplo VIIIº passales et in longo peruallatur.contestamus ipsum quod in testamento resonat ad ipsa eclesia et ad propinquis nostris fratrum uel sororum monacorum uel clericoru.et qui bono fuerit et uita sancta perseuerauerit habeat et possideat.contestamus ipsa eclesia cum omnia sua ornamenta et sua prestantia.et qui hunc factum nostrum inrumpere quaesierit uel extraneare uoluerit sedeat separatus et excomunicatus et cum iuda traditore habeat participium.et insuper pariat due libra auri bina talenta et a domno qui illa terra imperuerit aliud tantum, et hunc factum nostrum testamentum plenam habeat roborem. Notum die erit pridie kalendas magii era DCCCCVIIIª Cartemiro et astrilli in hoc testamento manus nostras rouoramus.

Gaton abbas confirmo –Zalama abba conf. –Randulfus presbiter conf. –Biatus presbiter confo. –Gundisaluus conf. –Elias presbiter conf.

Pro testes –Aluaro testes –Trasmondo test. –Gondulfo test. –Viliatus test. –Vimara test. –Gaton test.

Menendus presbiter notuit.


Texto original galaico-latino mais antigo que se conserva datado no ano 882 e escrito em letra mal chamada visigótica (3). Fala da fundação da igreja de Lauridosa, hoje Lordosa em Vila do Conde:

Christus. In nomine patri et filii et spiritus sancti.domnis inuictissimis ac triumphatoribus sanctis martiris petri et pauli sancti migaeli arcamgeli.cuius baselica fundamus in uilla quod uocitant lauridosa inter duas annes kaualuno et cebrario subtus monte petroselo territorio anegrie.ego serbus dei muzara et zamora damus adque concedimus ad deum et ad ipsa baselica que nos fundamus in nomine sancti petri et pauli et sancti migaeli arcangeli.damus ipsa uilla ubi ipsa eclesia fundamus in omnique circuitu suos dextruos sicut kanonica sententia docet : duodecim pasales pro corpora tumudamdum (sic) et LXXIIos ad tolorandum fratrum adque indigentium et foru dextruos ipsa uilla pro ubi illa obtinuimus de presuria pro suis locis et terminus antiguiis cum pascuis padulibus montes fontes petras mobiles uel inmouiles aquis aquarum uel sesicas molinarum terras ruptas uel barbaras arbores fructuosas uel infructuosas accessum uel regressum cubus cubas lectus katedras mensas signum de medalo cruce kapsa calice de ariemto cum quamtumque ibidem aprestamo omnis est.damus atque concedimus ipsum que sursur taxatum est pro remedio animabus nostris ad ista eclesia adque sacrosancto altario quod subra taxatum est.concedimus ut diximus pro uicto atque uestimentum monagus et fratres et sirores et propinquis nostris et qui bonus fuerint et in uita sancta perseueraberint seculariter et uia monastica obtinuerint in ipso loco.sibe pro luminaria latariorum uestrorum uel elemosias pauperum.sicut lex et canonica sententia docet.et ibi notuimus ut nec uimdendi nec donandi neque a rex neque ad commide neque ad episcopo neque ad numlo omine inmitendi.se sidea semper inienua usque in sempiternum.et post parte propimquis nostris et qui unc facto nostro infringere uel conare tentaberit reus sit ad sancto comunione separatus et cum iuda traditore accipiat participio in eterna dnanatione sint dimersit (sit) in baradro inferni ubi fletus et ullulatus et anathema marenata accipiar.et in conspectu domini.et não abeant cum domino in prima resurectione ressusitandi.nisi percusus (?) ad eclesia et ab omni cetum christianorum......et insubra parient tantum et alium tanto quantum inde abstulerit et insuper auri talemtum post parti testamenti et coram pontificum.et iudice suo iudigado.et anc scriptura testamenti plena abea firmitate: notum die quod erit VI kalendas abriles era DCCCCXXª. Muzara et zamora in hanc kartula testamenti manu nostras.

Didagu conf. –gumsalbo conf. –uermudo conf. –gutierit conf. –uiliulfo conf. –sisnando conf.

Uimara conf. –gundiarius conf. –quiriagus conf. –gudesteo conf. –gudino conf. –iauini conf.

Floresindo test. –mido test. –pelagio test. -gaton test. – sendino test. –iaquinto test.

Rodorigus abba conf. –Joanne abba conf. –uermudus presbiter conf. –gunsalbus presbiter conf. –didagus presbiter conf. –frariulfus presbiter conf. –froila presbiter conf.

Gudinus presbiter notuit



Referências

(1) O latim galaico é um latim ulterior, diferente em origem do latim citerior. Se bem este segundo foi um latim que penetrou com a chegada dos romanos nos século III a.C. na península pela atual Catalunha, ou a Tarraconense da época, o primeiro, o citerior é um latim que chegou via comercial e militar pela Bética até a Gallaecia passando-se pela Lusitânia. Portanto o latim galaico do qual surgem tanto o galego-português como o asturo-leonês é um latim ulterior, diferente em origem e diferente em substrato do citerior que posteriormente criaria o catalão e o navarro-aragonês. Este último em contato com o basco. 
O castelhano, do nosso ponto de vista é um latim basicamente citerior mas também sob um substrato bascão muito importante que lhe da forma embora numa região na que confluem também outras linhas de convergência linguística: por uma parte a influência galaico-astur de toda a etapa medieval na que o Gallaeciense Regnum marcava as linhas políticas, culturais e portanto linguísticas de toda a Idade Média e da que salientamos o facto de ser Compostela o foco irradiador de cultura como nos diz Eugen Cosériu; por outra parte a colonização da meseta norte pelos faramontãos provenientes da montanha cântabra, provavelmente de história linguística próxima do povo basco; e por último de grandíssima influência navarro-aragonesa, identificativamente citerior. 
Diz Rafael Lapesa na sua “Historia de la Lengua Española" editada por Gredos na sua edição nona na página 162 que  tanto as Glosas emilianenses como as silenses do mosteiro de San Millán de La Cogolla estão num original dialeto navarro-aragonês (não em castelhano). Lógico, se temos em conta que La Rioja é uma região originariamente bascona e navarra. Portanto, como poderíamos enquadrar o castelhano? Do nosso ponto de vista achamos que na península há dous blocos: o ocidental ao qual pertencem o galego-português e o asturo-leonês e o oriental o qual pertencem o aragonês e o catalão. Achamos que o castelhano é um latim surgido de todas as confluências anteriores que em nada teria como dialetos, dum ponto de vista genético, ao asturo-leonês nem ao aragonês. Por isso de fazermos os estudos dialetológicos peninsulares deveríamos tratar o castelhano, ou ibero-romanço central sozinho, enquanto os outros blocos, o ocidental (galego-português e asturo-leonês) e oriental (aragonês e catalão) independentemente do central. Devemos perder o medo a reivindicar o parentesco íntimo e não castelhano do galego-português com as falas asturo-leonesas mesmo tendo em conta a liberdade com a que se fala do assunto em Portugal. Não há mais do que lembrar  Leite de Vasconcelos quando falava em co-dialetos no que diz respeito ao Mirandês, Guadramilês e Riodonorês a quem ninguém lhes discute a sua raiz asturo-leonesa. Digamos portanto que o asturo-leonês é um co-dialeto do nosso complexo linguístico ibero-românico ocidental surgido da velha Gallaecia. Não há vontade de assimilação do asturo-leonês mais que pela parte do castelhanismo histórico político-cultural que desfaz identidades e cria confusão no que diz respeito às origens dos povos da península Ibérica e especialmente no referido ao seu histórico concorrente: o projeto nacional galaico

(2) Castela tinha nascido como reino independente sete anos antes da coroação de Afonso VI em Compostela e o mesmo ano no que se corou em Leão, em 1065. Nas Universidades galegas e espanholas Afonso VI é denominado Rei de Castela, do mesmo jeito do que o seu neto Afonso VII. Mas o primeiro rei castelhano da história foi o irmão de Afonso VI, Sancho o forte, na realidade I (primeiro) de Castela. Na historiografia castelhanista é numerado como Sancho II em vez de III como seria seguindo as matemáticas básicas sem se lembrarem (seguindo a filosofia castelhanista) de que houve antes mais dois Sanchos: Sancho Ordonhes, o I (925-929) e Sancho o Gordo, que seria em realidade o II (955-956, e 960-967). Sancho Ordonhês que para além de ser coroado em Compostela e posteriormente no resto do “Gallaeciense Regnum” alguns textos da historiografia oficial preferiram deixá-lo de fora do cômputo e sem número. Como diz Anselmo Lopez Carreira (2003:90) “só as vezes é catalogado de “Rei privativo de Galiza” (com o que se quer dizer que foi quase um ninguém!)”

(3) A letra chamada de “Visigótica” já existia na península antes da chegada dos visigodos ao ângulo Noroeste. Do nosso ponto de vista seria mais correto chamarmos-lhe letra “suevica” ou “galaica”. http://despertadoteusono.blogspot.com/2011/09/o-que-verdade-esconde-1-parte.html

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