sexta-feira, 13 de julho de 2018
Os celtas atlânticos da Galiza e o mito da Atlântida: evidência científica para uma velha lenda?
Francesco Benozzo esteve connosco o passado 30 de junho e com ele o seu magistério. Eis uma entrada no blogu amigo da IDG (Irmandade Druídica Galaica) organizadora do evento onde se pode ouvir a palestra do professor.
A palestra foi apresentada pelo nosso amigo e colaborar Joam Paredes a quem lhe agradecemos tal iniciativa. Obrigado
Palestra do Professor Francesco Benozzo:
IDG
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30/6/2018,
Francesco Benozzo,
Irmandade Druídica Galaica
sábado, 23 de junho de 2018
O olhar revelador de promontórios remotos
Francesco Benozzo
Limiar para as II Actas das Jornadas
Galego-Portuguesas (2015-2017)
Tradução desde o inglês: Joam Paredes
Tradução desde o inglês: Joam Paredes
Na sua palestra plenária, dada quando recebeu
o Prémio Nobel de Literatura em 1995, o poeta irlandês Séamus Heaney falou da
existência de lugares pequenos que podem ser frequentemente considerados como
janelas insubstituíveis abertas ao nosso passado e ao nosso futuro. Há de facto
poucas aldeias e partes miúdas do território que por umha parte preservem
intimamente algo que pertence às raízes perdidas das culturas, que seica andam
desaparecidas, e que por outra nos deam a possibilidade de encontrarmos imagens
e visons autênticas e inesperadas de nós mesmos, das nossas vidas tal e como
poderiam ter sido e como ainda poderiam ser. Reconheço esta mesma
característica e senti precisamente esta consciência as duas vezes que fiquei
em Pitões das Júnias para as Jornadas Galego-Portuguesas.
Esta aldeia é um umbral único entre diferentes
mundos e diferentes percepçons da realidade, umha espécie de fronteira
flutuante entre as origens celtas pré-históricas da Europa e o zumbido
post-neolítico, moderno (e post-moderno) das cidades contemporâneas. Aqui um
pode decatar-se de que a Galiza e Norte de Portugal representam ainda a dia de hoje
umha paisagem cultural unitária, apesar do Tratado de Alcanizes que em 1297 deu
a Portugal o status de reino independente. Além disso, Pitões pode ser tomado
como umha hipóstase viva da unidade da cultura atlântica como um todo, das
Ilhas Shetland e possivelmente as Féroe até os vales do Tejo e Sado. Esta
coesom cultural, natural e antropológica, e os possíveis vieiros e regatos que
conduzem até a sua evidência, emerge muito bem dos artigos meritoriamente
recolhidos neste diverso e precioso volume.
Umha das
principais qualidades dos artigos aqui reunidos é representada polo fato de
que, como em todos os melhores exemplos de investigaçons notáveis, o método
rigoroso está aqui misturado com umha abordagem conscientemente nom neutral,
emocional e dalgumha forma política. Como resultado, este livro é ao mesmo
tempo um tesouro de dados científicos e um baú de visons imprevisíveis e de
imagens poderosas. Umha pesquisa séria, verossímil e nom seriada provavelmente
precisa de ser simultaneamente meticulosa e poética; deve ser capaz, em última
análise, de criar e expandir a imaginaçom. Nesse sentido, estas actas
constituem um exemplo excelente e possivelmente incomparável do que chamo
Etno-filologia: um experimento notável de cartografia cultural capaz de superar
supostos e falsas certezas que normalmente som aceitadas sem mais.
[ENGLISH]
Foreword for the II
Proceedings of the Galician-Portuguese Symposium (2015-2017)
Francesco Benozzo
The revealing gaze from
remote promontories
In his plenary lecture
given when he received the Nobel Prize in Literature in 1995, Irish poet Séamus
Heaney spoke about the existence of small places which can be often considered
as irreplaceable windows opened to our past and to our future. There are in
fact few villages and minor parts of the territory which, on the one hand,
deeply preserve something belonging to the lost roots of cultures which seem
now to be disappeared and, on the other hand, give us the possibility to find
out true and unexpected images and visions of ourselves, of our lives as they
could have been and could still be. I recognized this exact feature and felt
this precise awareness the two times that I stayed in Pitões das Júnias for the
Jornadas Galego-Portuguesas.
This village is a
unique threshold between different worlds and between different perceptions of
reality, a sort of fluctuating frontier between the Prehistoric Celtic origins
of Europe and the post-Neolithic, modern (and post-modern) buzzing of
contemporary societies. Here one can realize that Galicia and Northern Portugal
represent still nowadays a unitary cultural landscape, despite the Treaty of
Alcanices which in 1297 gave to Portugal the status of independent kingdom.
Moreover, Pitões can be assumed as a living hypostasis of the unity of the Atlantic
culture as a whole, from the Shetland and possibly the Faroe Islands to the
valleys of Tagus and Sado. This cultural, natural and anthropological cohesion,
and the possible paths and streams which bring to its evidence, very well
emerges in the papers praiseworthily collected in this precious miscellaneous
volume.
One of the foremost
qualities of the articles here gathered together is represented by the fact
that, as in all the best examples of remarkable investigations, the rigorous
method is blended with a consciously non-neutral, emotional and somehow
political approach. As a result, this book is at the same time a treasure trove
of scientific data and a chest of unpredicted visions and of powerful images. A
serious, believable and non-serial research probably needs to be simultaneously
meticulous and poetic. It must be able, ultimately, to create and expand
imagination. In this sense, these proceedings constitute an excellent, and
possibly unmatched, example of what I call Ethnophilology: an outstanding
experiment of cultural cartography able to overcome acquisitions and false
certainties which are usually taken for granted.
sábado, 5 de maio de 2018
VII Jornadas galego-portuguesas de Pitões das Júnias
Sábado
26 de Maio
1º
Painel de manhã: (Apresenta
Maria Dovigo)
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10:00 Apresentação
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10:30 Marcial Tenreiro: Mouras, Melusinas, Deusas: Algumas supervivências do mito no folclore
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11:15 Luisa Borges (Tradição Druídica Lusitana): Para uma arqueologia poética da Finisterra galaico-portuguesa.
-
12:00 Debate
-
13:30 Comida
2º
Painel de Tarde (Apresenta Maria
Dovigo)
-
16:00: Manuel Dias Regueiro. Identidade genética atlântica e doenças tipicas dos celtas
-
16:45: Exposição Fotos do José Goris: “Gallaecia: um passado mágico”
-
17:30 Debate
3º
Painel Tarde de sábado
(Apresenta Maria Dovigo)
-
19:30 Apresentação das Atas das IV, V e VI Jornadas
-
20:00 Música celta: Grupo Ama Fai Falta de Chaves
-
20:30 Churrascada
Domingo
27 de Maio
-
10:30: Visita às Mamoas do Planalto da Mourela
-
13:00: ComidaALOJAMENTOS e COMIDAS:https://www.facebook.com/casadopreto/http://www.casadopreto.com/
sábado, 28 de abril de 2018
O parlamentarismo nasceu aqui.
![]() |
| (Mapa da Península Ibérica segundo a historiografia inglesa) |
Por José Manuel Barbosa
http://pgl.gal/o-parlamentarismo-nasceu-aqui/
O dia 6 de dezembro não se passou desapercebido no Reino da Espanha.
Os média e a sua orquestra áudio-visual premeram o acelerador da
pseudo-pedagogia política informando-nos do grande e boa que é a
Constituição de 1978. Tudo bem se não fosse que os mais grandes
opositores a essa Constituição são os que se auto-proclamam a si
próprios de “constitucionalistas”, que dizem defender a liberdade, a
igualdade e a fraternidade empregando o seu tempo político em conculcar
os direitos civis e políticos, em atropelar os direitos económicos,
sociais e culturais, em esmagar os direitos de terceira geração, como
são os chamados Direitos de solidariedade, e em fazer-lhe pensar à gente
que estamos no mais democrático país do mundo. Não sabemos bem se isto
que fazem é preparando um futuro prometedor para um totalitarismo à sua
imagem e semelhança ou é falta do sentidinho tão louvado por eles, que
embora vazio de conteúdo, permite limitar princípios filosóficos básicos
saídos do iluminismo do século XVIII, consolidados a sangue e fogo
durante o XIX e o XX após indesejáveis guerras, abusos e genocídios.
Mas se do 6 de dezembro ficou todo o mundo inteirado, não foi assim
com o 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos, assim
declarado pela UNESCO desde 1948. Talvez, do nosso ponto de vista,
tivesse de ser esse dia 10 o que deveria ser feriado e não tanto o 6,
que em teoria é um fruto e consequência do primeiro.
A Declaração Universal dos Direitos Humanos, lei Suprema de toda a
Humanidade à qual se subordinam teoricamente todas as legalidades de
todos os países que admitem e assumem o Direito Internacional, incluído o
próprio Reino da Espanha, é a que está fazendo força jurídica e
filosófica contra o histórico conceito duma Espanha unitarista e
uninacional, pois na sua articulação está, entre outros, o Direito de
Autodeterminação que marca as agendas políticas da vida da Monarquia
Bourbônica nos últimos tempos.
Mas o conceito positivista da democracia na Península Ibérica teve as
suas origens no Reino atlântico e cristão do noroeste, enquanto os seus
antagonistas foram sempre as realidades políticas do centro sobre as
que se baseou o projeto de Estado-Nação sob e dentro do qual vivemos, em
parte de tradição andalusi sulista e em parte de tradição castelhana e
cristã nortenha.
O Reino denominado pela historiografia tradicional espanhola com o
nome de Reino de Leão, e que segundo as fontes do mundo medieval é
conhecido como o Reino da Galiza, ou de Galiza-Leão, foi o autêntico
protagonista do nascimento duma legalidade proto-democrática (A). Não vou
procurar raízes mas longínquas no Cilindro de Ciro do século VI a. C,
nem na Grécia clássica, nem no cristianismo primitivo onde não existiam
os conceitos de Direito. Nessa altura as pessoas sofriam os excessos de
poder dos governantes que herdavam os seus poderes dos deuses e nada
livrava à gente do comum de ser propriedade desses monarcas
auto-proclamados filhos e descendentes das divindades à moda, forem
estes da religião que forem.
![]() |
| (Mapa da Península no século X segundo as fontes árabes) |
Temos igualmente ideia que com os movimentos revolucionários europeus
de época Moderna, aconteceram os factos históricos que nos levaram ao
que hoje chamamos democracia e mesmo é que nos consta que até o século
XX a historiografia tinha reconhecida a Carta Magna inglesa
sancionada em 1215 para limitar os poderes de John I Lackland, o
primeiro ato histórico onde se pôs a origem do Parlamentarismo.
Sabido é que na Inglaterra do século XIII começa a funcionar uma
legalidade que impede o poder absoluto dos Reis que teriam a
responsabilidade de reinar, sendo-lhes limitada a sua autoridade com o
fim de evitar quaisquer abusos por parte dele ou dos nobres contra o
povo. Mas poucos temos conhecimento que em 18 de junho de 2013 a própria
UNESCO reconheceu que o texto mais antigo da Europa onde se pode
localizar a origem do Parlamentarismo foram os chamados “Decreta legionenses” saídos da “Cúria Plena”
reunida em Leão, capital do nosso Reino, em 1188. Nele recolhiam-se
importantes direitos individuais como o direito à inviolabilidade do
domicílio, o direito ao segredo dos correios, da propriedade, da
proteção que a justiça deve exercer contra qualquer abuso de poder por
parte dos nobres, o clero ou o próprio Rei contra a gente da comum e a
obriga que tinha o Monarca de convocar as Cortes para declarar a guerra,
resolver as querelas por meio da legalidade e da justiça, e ainda mais…
Posteriormente a estes Decreta elaborou-se em 1194 uma
Constituição para o território da Galiza Compostelana, quer dizer, da
Galiza atual que nos serviu de legalidade durante muito tempo (1).
O Parlamentarismo europeu parece ter a sua origem nestes movimentos
legislativos porque a elaboração de toda esta legalidade tinha sido
feita pela Cúria conformada tanto pelos nobres e o clero quanto
pela denominada gente do Comum, quer dizer, os representantes dos
burgos, ou na nomenclatura tradicional, os burgueses, conceito que no
século XIX e XX tomou outras conotações acrescentadas pelo marxismo e
que não deveriam obscurecer o significado que se lhe dá na
historiografia tradicional.
Este grupo social emergente durante a Idade Média e que tanto
protagonismo têm na História do nosso País foi o que delineou os
aconteceres dos nossos séculos XI, XII, XIII, XIV e XV e lhe deu carta
de identidade a todas as revoluções sociais que se levaram a cabo desde a
época de Gelmires até os Irmandinhos, identificando esta última como
uma das primeiras revoluções burguesas da História da Europa que atingiu
poder, junto com a Revolução Hussita na Chéquia. O interessante é que
triunfou e se manteve no poder durante três anos funcionando a Galiza
como uma “República monárquica”, muito galega na sua
ambiguidade concetual e muito britânica como se viu a partir do século
XVII quando começou o seu funcionamento o sistema bicameral inglês.
Nesta “República monárquica” irmandinha se bem a autoridade real e as decisões estavam nos dirigentes da Irmandade, a figura Real na que se baseava dita autoridade, atribuía-se ao Rei Henrique III de Galiza (e IV Castela) que em realidade não teve o poder de facto até que se livrou, na guerra civil castelhana, do seu irmão Afonso que aspirava ao trono.
| (Mapa da Península Ibérica segundo a historiografia espanhola) |
O facto de ser reconhecido o nosso Reino como a origem do
Parlamentarismo europeu em tempos de Afonso VIII de Galiza-Leão
baseia-se em que os habitantes dos burgos tinham um espaço no
organograma de poder e parece ser que fomos os primeiros, muito antes de
que em Inglaterra fosse proclamada a Carta Magna que favorecia a entrada do estamento popular no esquema de poder do Reino britânico.
No entanto, temos uma outra referência anterior a 1188 que nos vem
dada por Manuel Fernandez Rodriguez num artigo para a Revista “Anuário de Historia del Derecho Español”
no seu número 26 do ano 1956 no que nos fala de que no Arquivo da
Catedral de Tui se conserva um privilégio de Fernando II, pai de Afonso
VIII, correspondente ao mês de março de 1170, entre o dia 18 e o 25,
datas em que o Rei esteve em Tui, no que se manifesta a presença dos
representantes dos burgos na reunião da Cúria convocada
relativamente ao traslado da cidade de Tui a um lugar mais seguro do
situado até o momento para se defender dos ataques de Afonso Henriques
quem no seu afã de se fazer com a posse da região de Toronho atacava
constantemente a cidade como cabeça da região. O texto diz:
(…) Ego, siquidem, Fernandus dei gratia ispaniarum rex, meo regno
providens bonorum hominum consilio, pontificum, militum, burgensium
civitatem tudensem cui ostium frequentissime parabantur insidie, (…)
Trad: (…) Eu, com certeza, Fernando, Rei dos hispanos (2)
pela graça de Deus, cuidando do meu reino por conselho dos homens bons,
prelados, nobres e burgueses da cidade de Tui onde tinham sido detidos
frequentemente os ataques dos inimigos, (…)
No texto dos Decreta de Afonso VIII, não nos fala explicitamente de “burgensium” como nos fala o documento de Fernando II, mas de “… electis civibus, ex singulis civitatibus…” o que nos apercebe da existência dos “procuradores”
dos Concelhos e representantes das cidades nomeados pelo Rei, quer
dizer, uma sorte de funcionários reais, mas nada nos diz que fosse essa a
primeira vez em que esta representação urbana ou burguesa estivesse
presente na Cúria.
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| Afonso VIII de Galiza |
Em 1964, uns anos depois da publicação do trabalho de Manuel
Fernandez Rodriguez, o professor Sanchez Albornoz y Menduiña, de
interessante lembrança pela sua relação epistolar com Castelão, publica
outro artigo na “Revista Portuguesa de História” na que nos diz que esse texto foi falsificado em época de Afonso VIII de Galiza (3)
de maneira que -segundo ele-, não podemos fiar-nos do seu conteúdo
(Sanchez Albornoz: 1964: pp 18-29). Não temos conhecimento dos
pormenores da intervenção da qual foi objeto o texto tudense, nem
sabemos a parte do texto manipulado, nem se a data ou a expressão onde
se nos fala que houve “burgensium” naquele pleno foi
modificada, acrescentada, manipulada ou inventada por alguém. Pode ser
qualquer parágrafo o suscetível de ser interpolado, qualquer palavra,
qualquer expressão, mas ficamos com a ideia principal e mais importante
sobre todas as outras de que não podemos fiar-nos do texto…
Visto o visto, e sabendo como foi que “Don Cláudio” falou e opinou
sobre nós nos seus escritos, sabendo como é que fez referência da nossa
realidade histórica, ainda ele reconhecendo certas realidades
incontestáveis -que o faz, devemos ser justos-, deixa para a letra
pequena e as notas a pé de página esses pequenos tabus historiográficos
já que quando deve pôr-lhe os nomes as cousas, o nome da Galiza não
aparece. Visto o visto, parece que deveríamos revisar o documento de
Tui, se não no-lo sequestram antes de que se nos ocorra estudá-los, para
darmos a nossa opinião galega sobre a veracidade do tal diploma
tudense.
De todas as maneiras, fosse em 1188 ou fosse em 1170 quando se
celebrou a primeira sessão dum Parlamento na Europa com participação
cidadã, quer em Leão, quer em Tui, sempre contamos com um antagonista
que sediou os seus reais no centro peninsular e que se fez com o projeto
político iniciado pelos galegos muito antes de que Castela fosse um
Reino ou mesmo antes de que tivesse esse nome. Com essas credenciais de
antagonista do ponto de vista nacionalitário e mesmo do ponto de vista
do avanço social que supõe a assunção da burguesia às instituições
políticas, a oposição da Castela Imperial foi manifestada contra nós
durante os séculos finais da Idade Média, XIII, XIV e XV, impedindo que a
gente das nossas cidades pudesse exercer o seu direito a aceder o
poder. É no nome dessa Castela, que a sua atual Nobreza, tão ressesa
como a sua antecessora medieval, celebra os 6 de dezembro o dia duma
Constituição de papel de madeira de eucalipto (4), na
se que reconhecem direitos na teoria mas que são conculcados na prática,
e não celebra, como devera ser, o 10 de dezembro promovido pela UNESCO,
que certifica que foi o nosso Reino medieval o que reuniu pela primeira
vez na História uma Cúria com representação popular, quer dizer, a reunião dum Parlamento, precursor das atuais democracias europeias.
Referências:
(A)
https://www.facebook.com/Despertadoteusono/posts/1671294792930012?hc_location=ufi
- Em 1187 houve umas Cortes em Castela, em San Esteban de Gormaz mas parece ser que não houve representação da gente do Comum. Os assistentes, para além da nobreza castelhana, incluiu os Meirinhos, funcionários de designação real os quais em qualquer caso não tinham voto, portanto as Cortes Castelhanas de 1187 não podem ser consideradas o primeiro evento político em que a representação popular esteve presente. Certo que os parlamentos podemos datá-los muito antes. Assim, por exemplo os AlÞingi islandeses datam de 930 e o Tynwald da Ilha de Man data, segundo a tradição, de 979 embora não haja documentação que assim o acredite. O seu primeiro registo em papel data do século XIII e em ambos os casos eram os poderosos os que geriam e dominavam a assembleia: os goðar no caso islandês e os nobres de origem escandinavo no caso manx sobre um povo de origem céltico submetido às suas leis. Como os primeiros registos do Tynwald datam do século XIII, estes são da época em que a gente do Comum começa a ter participação nas decissões comunitárias e portanto é da mesma época em que começam em outros lugares da Europa. Finalmente reparemos que o século XIII não é 1188 nem 1170, ambos do século XII.
- O facto de os Reis da Galiza se denominarem às vezes “hispaniarum reges” obedece à ideia imperial que os monarcas sediados em Leão tinham de si próprios já que a vocação dum projeto imperial de unificação territorial peninsular sob a autoridade legionense existia desde o tempo em que o neogoticismo ocupou a ideologia do Gallaeciense Regnum.
- Afonso IX diz Sanchez Albornoz, computando como VIII um Rei castelhano que nunca foi Rei galego nem leonês.
- Contava-nos Castelão no seu Sempre em Galiza o seguinte :
Nas Cortes Constituintes disse D. Miguel
de Unamuno que estávamos a fazer uma Constituição de papel. Eu era um
dos deputados que mais gostava de ouvi-lo falar nos “corredores”; mas
naquele dia dialogámos. Contei-lhe uma anedota que vou repetir agora,
pedindo-vos licença para apresentá-la encoira: “Estávamos num comício de
propaganda nas últimas eleições, e um velho petrúcio teimou em falar e
falou assim: “Agora imos fazer uma Constituição, que não vai ser como as
outras, porque esta imo-la escrever em papel de lixa para que ninguém
possa limpar o cu com ela” (pedoai-me tanta claridade em graça da funda
transcendência que o dito encerra). D. Miguel ceivou uma gargalhada e
depois de remoer a ideia do velho petrúcio fez-me uma preposição: “Esa
es la voz auténtica del pueblo y usted debe repetirla ahí dentro”. Eu
respondi-lhe que não tinha autoridade para falar tão claro no Salão de
sessões; mas mais duma vez senti tentações de gritar da minha bancada:
“Que se escriba eso en papel de lija!!”.
Não foi preciso que a Constituição
chegasse a velha para ser desprezada, pois os mesmos que a fizeram
encarregaram-se de lhe roubar o crédito. (…). (Castelão: Sempre em
Galiza: Livro II, Cap VII. Adaptação para Português de Fernando Vasquez
Corredoira. Ed. Através. 2010)
segunda-feira, 7 de agosto de 2017
Algumas etimologias célticas: Bisbarra e Ourense
(bisbarra “comarca”, barra “vara”, “baixio”, barro “argila”, bairro“ "Sector urbano”, bairro“ terra caliça”)
Coromines cria o galego bisbarra“comarca” de origem céltica e via-o composto de barra com outro nome incógnito ou com um prefixo, acerca dos quais formulou várias hipóteses.Barra, de semântica complexa, a meu ver é o célt. BARRO - “alto” (*bhars-o-), de vasta progénie. Como “(vara) alta”, “tranca para obstaculizar”, nota o valor original. De barra vem barreira “limite (feito de barras)”. Barra“baixio arenoso” foi “(areia) alta”. E barro “argila” alude aos lugares altos,verticais, donde se extrai, para evitar os alagamentos que a impermeabilidade dessa terra produz.No séc. VIII, o árabe vulg. bárri “externo, exterior” interferiu barra (Coromines cria-o étimo de bairro). E também o advérbio árabe barra “afora”, “substantivado em Argélia com o valor de campo (em oposição à vila )”. Isso decerto influi u, mesmo nas terras do Norte, pouco tempo dominadas. Do cruzamento, quase inextricável, testemunha bairro “parte da urbe”, como nota o outro bairro “terra caliça” (por barro). O cruzamento é provável em barra, não em bisbarra, que é do torrão mais imo. A base deste será céltica pura e significará “território”, qualquer que seja o jeito em que tal valor se articule com o de “alto”. Haveria barra “altura; altura central” com o harmónico de “pendor”, e daí “circuito”. Os cursos possíveis são vários e escassas as bases documentais, mas ao cabo cabe recordar ser usual designar um território a partir dos limites: comarca, contorno, arredores, distrito. Benveniste provou o latim regio, antes que “território”, ter sido o “ponto atingido por uma linha reta traçada na terra ou no céu ”. Além disso, a articulação dos sentidos “altura; altitude” com os de “profundidade” e “extensão” é conhecida e dispensa outras explicações. Se embarra retemos o valor de “território”, a questão do primeiro membro ou prefixo é menor. Pode ser um latino-céltico vīcī barra “território da aldeia”, mas parece melhor *W ĒKE-BARRĀ, composto bimembre puramente céltico, similar ao *WĒKEBRIGAIKO(N) “dos dos castro do clã”, da inscrição de Rairiz de Veiga. Portanto teríamos um “território do clã”. A sequência evolutiva seria *WĒKE-BARRA românico *vezebárra" βez’barra bisbarra, que foneticamente soa [bizbarra]. A proto-história da Galiza pega a desvendar-se. Eis justamente um dado interessante,sobretudo para as comarcas onde a palavra tem uso, como assinala Coromines.
Ourense
Atinamos
na origem do bairro de Oira, que vem do frequente ORIA “a da fronteira
(*OROS)”, que não é outro que nome céltico da vila. Já tem sido dito,
mas talvez não de jeito claro, capaz de captar o imaginário coletivo.
*ORIA
(A longo; asterisco não pola palavra, pola aplicação a este lugar) caiu
numa paretimologia ou etimologia popular polos achados áureos do Minho,
que era fronteira tribal. Daí o *Aurea latino que também não está documentado, se não erro. O que aparece documentado é Auria, cuja subtil refração deu a pista. A evolução não concluiu. De Auria formou-se o adjetivo latino auriensis, donde Ourense.
Deixo
a hipótese para o final Há quem pensa que a linguística é campo
virgem, transitável alegremente com a intuição. Ou explica-se pola
inércia da velha indefensão da cultura galega; distrai do estudo da
identidade, faz irrisão do já feito, ousa ignorar os ditongos AU e Ou
que historicamente sempre estiveram presentes. Não há nos léxicos do
céltico antigo, nem nos neocélticos nada que tenha esse perfil.
Etiquetas:
Etimologia de Bisbarra.,
Etimologia de Ourense
sexta-feira, 4 de agosto de 2017
Crónica das jornadas galego-portuguesas. Pitões das Júnias. 13-14 de maio de 2017
Por Maria Dovigo e José Inácio Regueiro
Começamos
as jornadas com a apresentação a cargo de David Teixeira,
vice-presidente da câmara de Montalegre, Lúcia Jorge, presidente da
junta de freguesia de Pitões das Júnias, José Barbosa, um
dos organizadores
das jornadas, e Maria Dovigo, em nome da Academia Galega da Língua
Portuguesa. David Teixeira
destaca
a universalidade do saber rural, Lúcia Jorge
a
continuidade das jornadas e o José Barbosa agradece a todos,
organizadores e participantes, o facto de fazerem possíveis
as jornadas.
As
palestras começam com a intervenção de Íria-Friné Rivera,
historiadora da arte e fotógrafa, atualmente a fazer uma tese sobre
a teoria estética de Vicente Risco. A sua apresentação, “Celtismo,
o amanhecer da estética moderna galega”, demonstra a centralidade
do celtismo na criação duma estética galega, com a figura central
de Vicente Risco como teórico e o trabalho de Camilo Díaz Balinho
como artífice duma iconografia celta e galega consolidada. Ajuda a
percebermos a arte do começo de século de temática céltica, as
relações entre os inteletuais da época e a expressão artística,
percorrendo trabalhos de Camilo Diaz Balinho,
Asorei, Uxio Souto, Urbano Lugris... Com muito atino faz que os
nossos olhos percebam os pormenores das obras e o conjunto, já não
só da tela ou escultura, mas também da história e as suas
ondulações no mar da cultura no tempo anterior à guerra civil
espanhola. A apresentação abrange também trabalhos atuais, como o
conjunto escultórico criado por Isaac Díaz Pardo no entorno da
Torre de Hércules na Crunha ou a media-metragem de animação de
Miguelanxo Prado De
profundis.
Joám
Evans Pim, formado em jornalismo e antropologia, académico da AGLP,
com a sua palestra “Ogham: apontamentos sobre uma escrita galega”,
convida-nos a questionar o nosso conceito de escrita como
transliteração, transcrição fonética da linguagem articulada, e
abri-lo a outras escritas não linguísticas, como o Ogham irlandês,
as marcas poveiras da costa atlântica, da Póvoa de Varzim e da
Guarda, as talas de Rio de Onor e Múrias de Rao. Estes outros tipos
de escrita são igualmente registos de informação. Relembra que o
conceito convencional de escrita foi criado no contexto do
colonialismo e que foi fundamental para consagrar a ideia duma rutura
histórica com a emergência da escrita que marcasse uma fronteira
definida entre os povos civilizados e os povos primitivos. Desde o
início da consagração deste paradigma as descobertas de conjuntos
de arte rupestre demonstravam que os povos primitivos tinham
consciência histórica. Esta conceitualização não convencional da
escrita permite-nos ver, ou ler, o território galego como um
território coberto de signos.
Francesco
Benozzo, professor na Universidade de Bologna, etnofilólogo, figura
destacada do paradigma da continuidade paleolítica, apresentou
Speaking
australopithecus. A new theory of origins of humam language,
livro que escreveu conjuntamente com Marcel Otte. O livro sustenta a
tese de que a linguagem humana apareceu com o Australopithecus,
há 3 ou 4 milhões de anos, e não com o Homo
sapiens,
como Chomsky e outros destacados linguistas defendem.
Comemos
em convívio, bacalhau, feijoada. Aqui, a Espanha, apenas a cinco
quilómetros em linha reta, já fica longe. O
“mundo real”
é algo que entra pela tevê. Enquanto comemos, a janela aberta ao
velho
paradigma
do
país e
os seus mitos fundacionais, impacta-nos com imagens continuadas do
Papa e Fátima. Mas não sei polo quê, será polo nevoeiro que
envolve hoje estas montanhas, que as gentes semelhamos impermeáveis.
Vai
um chisco de fresco, a pedra emergida da entranha desenha o horizonte
sul
em
cinzas variadas. A aldeia está recolhida sobre si.
Começa a tarde.
Começa a tarde.
A
palestra de Joaquim Pinto, investigador do Centro de estudos de
Filosofia da Universidade Católica de Lisboa, “Ética espiritual
celta: valores intemporais para tempos atuais”, propõe a reflexão
sobre os eixos éticos que sustentam a tradição celta e como eles
poderiam contribuir para o destino da humanidade. Joaquim fala-nos da
ideia de comunidade definida pela partilha de um sentido comum, dos
princípios de Verdade, do Bem e do Belo, entendidos de maneira
dinâmica, com necessidade de serem atualizados no mundo da
sustância, apontando para o outro mundo, as transcendências da
Liberdade, do Amor e da Felicidade. Falou-nos
ainda da atualidade em que as tecnologias, especialmente a televisão,
acabaram com a tradição comunitária da lareira, provocando a
clausura humana e a desterritorialização. Tudo é feito para não
precisarmos do outro e para destruir a noção da reciprocidade. O
homem teve de ser dividido para se apoderarem dele.
As
intervenções acabam com uma mesa debate sobre a atualidade do
celtismo em que intervêm os três palestrantes e o P. Fontes.
Fala-se do celtismo como espaço de reconstrução das relações
internacionais da Galiza, relações seculares e ancestrais
interrompidas nos últimos séculos e recuperadas com esforço pelo
galeguismo dos anos 20. Fala-se também da noção de herança, da
nossa capacidade de darmos outros sentidos à nossa cultura, do
problema da desertificação dos nossos territórios, do modelo da
civilização rural tradicional frente ao modelo da urbs romana como
questão central do celtismo, da continuação da resistência, dos
nossos povos como indígenas da Europa, dos baldios, as comunidades
de montes, a posse da terra do modelo céltico, do estigma da
civilização rural, dos perigos da turistificação e o medo a
vermo-nos como algo que pode acabar num museu.
Anoitece.
No eiró, a aldeia prepara um lume de cepos velhos que arderão a
noite toda dando aconchego e calor
às
gentes visitantes.
Dentro do local da junta de freguesia é momento para a música com a voz e as harpas de Francesco Benozzo. Acompanhado da harpa céltica e da harpa bárdica, Francesco oferece-nos canções tradicionais da Bretanha, das Ilhas Britânicas, do norte da Itália e também galegas. Prossegue o convívio, uma churrascada popular, na que também não falta uma cunquinha de caldo quente.
Dentro do local da junta de freguesia é momento para a música com a voz e as harpas de Francesco Benozzo. Acompanhado da harpa céltica e da harpa bárdica, Francesco oferece-nos canções tradicionais da Bretanha, das Ilhas Britânicas, do norte da Itália e também galegas. Prossegue o convívio, uma churrascada popular, na que também não falta uma cunquinha de caldo quente.
Domingo,
céu limpo. Juntamo-nos para irmos
conhecer a aldeia abandonada do Juris, castro habitado até bem
entrada a Idade Média, e o carvalhal de Porto de Laja, antigo
nemetão céltico. Descemos por um caminho calcetado, com augas
cantareiras que acompanham a música do cuco, do papa-figos....
Carvalhos, pedra, musgo, gesta florida. Na aldeia, a Lúcia
oferece-nos um retrato vívido da cultura comunitária e como a
autoridade
chegou, mandou e dividiu.
Durante
o jantar a conversa animada entre todos, os assíduos das jornadas e
os que vêm pela primeira vez. Discute-se sobre a história e as
pesquisas de cada um e sobre a vida atual das nossas comunidades. As
despedidas prolongam-se no tempo
de no espaço para podermos desfrutar até o último minuto o prazer
da companhia, dos amigos de outros anos e dos novos amigos que de
seguro vamos ver novamente no futuro mas que por enquanto deixamos
para baixarmos novamente aos infernos do dia a dia quotidianos,
inçado de tópicos, de falsidades, de mentiras que nos fazem
consumir como a “realidade”. Longe das montanhas do Gerês está
o Portugal de todos os dias e a Espanha que nos mata. Lembramos ao
Santo Ero de Armenteira que quando chegou de volta já tinham passado
trezentos anos. Será que nos vai acontecer o mesmo ao baixarmos o
Monte do Pisco achando à nossa chegada um mundo onde não nos
conheçam? Talvez ao abrirmos os olhos nos vejamos rodeados de quem
nos quer trazer ao “mundo real”? Vamos ver…. Porque depois
deste sonho, tão real vamos ter vontade de ficarmos no paraíso. Os
adeuses não são adeuses, são um
“até para o ano e daqui a lá, muitas vezes”.
Abu
Gaels!!
Que
assim seja.
quarta-feira, 10 de maio de 2017
Interview with Prof. Francesco Benozzo: “Galicia and North Portugal are the origin of European Celticity”
[English
version]
(by
Xoan Paredes)
Professor
Francesco Benozzo (Modena, Italy, 1969) is one of the big names
behind the Paleolithic Continuity Paradigm,
claiming that the there is a clear continuity in the origins and
development of European peoples, origins which may also be placed
further back in time to what it is commonly considered. This shift in
the understanding of European archaeology, prehistory and linguistics
is of the utmost relevance for Galicia and (Northern) Portugal, as it
sets this territory at the centre of the genesis of the so-called
Celtic Culture, among other aspects.
With
two PhDs in linguistics and philology by the universities of Bologna
(Italy) and Aberystwyth
(Wales),
he currently lectures at the former Italian university. However,
Francesco Benozzo is not limited by the formalism that usually
accompanies academic life. He is also an acclaimed poet and harpist,
with a large number of published works and music, leading to his name
being proposed for a Nobel Prize in Literature.
We
will be most fortunate to welcome him this coming April (2-3) in the
fifth edition of the Jornadas das Letras
Galego-Portuguesas (Pitões
das Júnias, Montalegre, right at the Galician-Portuguese border),
where he will be discussing these and many other topics, as outlined
in the following interview.
-
What
was the first thing that got your attention about Galicia and North
Portugal? Was it something purely academic or was there any other
factor that made you focus on us?
Since
I was a child my instinct suggested that the original meaning of
things lies in peripheral areas and locations. I don’t just mean
“peripheral” in a geographical sense but, mostly, in a poetic
one. This is one of the reasons why I went to live to Wales (and not
England) for a few years, and it is also the reason why I left my
hometown of Modena, in Northern Italy, and decided to live in the
mountains. I also believe that, as academics, we must study and
concentrate on “peripheral” traditions: folk traditions,
dialects, oral texts, cultures of the marginal people and so on,
because what is now perceived as “marginal” and “peripheral”
was, in many cases, the original centre of what we currently perceive
as being at the centre.
Galicia
and North Portugal have always been part of this “poetic
topography” of mine and of my poetic conception, starting from
their legends and traditions, and from great poets such as the
medieval troubadours, to even Rosalia de Castro or Eduardo Pondal.
-
Do you think that the Iberian north-west can be considered the origin
of "Celticity" in the Peninsula from a linguistic point of
view?
Not
only. I think that it can be considered the origin of Celticity in
all of Europe.
-
What
is your opinion on the relationship between the Celtic world and
Tartessos, as Prof. Koch postulates?
John
[Koch] has produced an extraordinary work in the last decade about
that. I don’t see any linguistic reasons that could deny this
postulated connection. The problem with Koch’s theory is that it
limits itself to the late Bronze Age, which comes in contradiction
with his idea of “Celts from the West”. If we speak of
ethnogenesis instead, we must go beyond the restrictions of written
sources and have the ability to connect them with other sorts of
sources such as legends, traditions, genetics, ethnotexts or
dialectal lexicon. Consequently, we'll be able to speak of
“Paleolithic Celts” for this area. Within this framework,
Tartessos can be seen as one of the many “recent” written relicts
of a much older situation.
-
Why do you think there is this renewed effort in some parts of Europe
to debunk the term "Celtic", or even the existence of a
Celtic culture?
For
three main reasons. Firstly, being myself an anarchist, I would say
that there is an innate tendency of those in power to exclude
diversity and, above all, to “centralise” any kind of strategy
connected to their power. Thus, as we know, since their proto-history
the Celts have always been the “losers” in geopolitical terms,
and have then been excluded from any power play of the European
elites.
Secondly,
we can find a general discomfort with Celticity if compared to the
official and standardised cultures which, in a way, rule the world.
In other words, to admit that the many-sided, coloured, rural,
disquieting, stratified, archaic Celtic culture can be part of us is,
in many cases, difficult to accept for people raised with the
certainty and the conformist myth of stability and with a superficial
knowledge of European history.
Lastly,
and in connection to the above-mentioned reasons, Celtic culture
represents, in psychoanalytic terms, the subconscious of Europe,
which causes a continuous attempt to repress and suppress it.
-
As an accomplished researcher, but also poet and musician, is there
any connection between your academic work and your artistic work? Or
do you keep both worlds separate?
I
hope that these three aspects live together, as it happens with
different elements of a same landscape. My expectation is probably to
look like a musician who studies philology, a poet who plays the
harp, and a philologist who composes poems.
-
After
all your travels and research, how would you summarise the "Celtic
character"? For example, when you come to Galicia-North
Portugal, what do you feel in connection to other Celtic territories?
First
of all, there is a special feeling with the sea, which is different
from the one I have observed in other communities such as the Faroese
or Mediterranean ones. In Celtic lands this feeling is linked to a
“legendary” and melancholic attitude in perceiving the landscape
and seascape, and the capacity to connect places with stories. There
is also a clear, innate, not predictable, musical perception of the
world. Furthermore, there is the consciousness of the archaic and
civilising value of things that have been forgotten elsewhere, such
as the sharing of drinks, food and stories.
At
the V Jornadas das Letras Galego-Portuguesas,
Prof. Benozzo will give a presentation entitled “A
prehistoric Atlantic landscape. Paleo-mesolithic ethnogenesis and
ethnophilology of the Galician and Portuguese traditions”.
The
event is free and open to the public. Prof. Benozzo's talk with be in
English with translation into Portuguese.
quarta-feira, 19 de abril de 2017
VI Jornadas galaico-portuguesas de Pitões das Júnias
Sábado 13 de Maio
1º Painel: Apresenta Maria Dovigo
-
10:00: Presentação
-
10:30: Iria-Friné Ribera: Celtismo: O Amanhecer da estética moderna galega
- 11:30: Joam Evans: Ogham: apontamentos sobre uma escrita galaica
-
12:30 : Francesco Benozzo: Apresentação do livro “Speaking Australopithecus. A new theory on the origins of the human languages” (Francesco Benozzo & Marcel Otte)
-
13:30: Comida
2º
Painel: Apresenta Maria Dovigo
-
16:30: Joaquim António de Jesus Palma Pinto: “Ética Espiritual Celta: valores intemporais para tempos atuais”
-
17:30: Mesa redonda: "A utilidade socio-económica do Celtismo na Galiza e no Norte de Portugal“
-
20:00: Música: Francesco Benozzo."Uma viagem atlântica. Música desde as fronteiras célticas" (voz, harpa céltica e harpa bárdica)
-
22:00: Churrascada popular
Domingo
14 de Maio
-
10:00: Visita à aldeia desabitada de Juris (Castro habitado até a bem entrada a Idade Média) e ao Carvalhal de Porto da Laja (Antigo nemetão céltico).
-
13:00: Clausura
-
14:00: Comida de Irmandade
Participantes:
Sra. Doutora Maria Dovigo, Academia Galega da Língua Portuguesa
Sra. Dra. Íria-Friné Rivera, Universidade da Corunha
Sr. Dr. Joám Evans, Academia Galega da Língua Portuguesa
Prof. Doutor Francesco Benozzo, Universidade de Bolonha / Candidato a Prémio Nobel
Sr. Doutor Joaquim Palma Pinto, Centro de Estudos de Filosofia (UCP) / ATDL
Aqui podem fazer reservas para comidas e dormidas nas Jornadas
http://www.casadopreto.com/
quarta-feira, 12 de abril de 2017
Uma atitude razoável
Por
Paulo Soriano
Há
um conto que começa assim:
Eu
tenho um animal curioso: metade gatinho, metade cordeiro. É parte da
herança de meu pai. Em meu poder, ele se desenvolveu completamente.
Antes, era mais cordeiro do que gato. Agora é meio a meio. Ele tem
do gato a cabeça e as garras; do cordeiro, o tamanho e a forma. E,
de ambos, os olhos, mas agitados e selvagens, assim como os pelos,
macios e rentes ao corpo. Os seus movimentos são saltitantes e
sorrateiros. Ao sol, no peitoril da janela, enovela-se e ronrona. No
campo, corre como um louco e ninguém o alcança. Ele foge dos gatos
e procura atacar os cordeiros. Nas noites de luar, apraz-lhe passear
sobre as canaletas dos telhados. Não sabe miar e abomina os ratos.
Ele passa longas horas espreitando o galinheiro, mas jamais
aproveitou uma oportunidade para matar...
O
conto foi escrito, em 1917, pelo escritor morávio, de expressão
alemã, Franz Kafka. Nele, o brilhante contista retrata a angustiante
condição de quem padece do hibridismo, mescla que leva à absurda
situação em que qualquer tentativa de identidade é impossível e,
ao final — veremos — imensamente destrutiva. Mas, não nos
antecipemos. Juntos, voltaremos ao conto de Kafka mais tarde.
Soube por meio de meu amigo José Manuel Barbosa, de uma entrevista ao sociolinguista espanhol Henrique Monteagudo — que é
profesor
de Filoloxía Galega na Universidade de Santiago de Compostela e Secretário da Real Academia Galega —
publicada no sítio Quilombo Noroeste. Leia
aqui. Cá, falo algo
sobre
o que, como brasileiro e lusófono, penso acerca do que disse o
súdito de sua Majestade.
Não
hei de resumir a entrevista concedida pelo escudeiro de El-Rei. O
leitor pode lê-la na íntegra no sítio acima indicado. Digo,
apenas, que o senhor espanhol parece muito pouco fiel à sua língua
de nascença (sim, o senhor Monteagudo nasceu não em Madri ou em
Sória, mas na Galiza!), quando, tomando por castiços, emprega
termos canhestros como a
respecto
ou por
suposto,
utiliza uma conjugação verbal de causar arrepios (aínda
que parece
estar),
troca — e sem trocadilhos, leitor! — “trocar” por “cambiar”
(as
cousas cambien),
e ainda se digna a debuxar (o filólogo conhece com certeza o verbo
desenhar,
mas, como bom feudatário espanhol, prefere o galicismo tão comum e caro
ao seu suserano franco-castelão) os caminhos nos quais o galego deve
seguir doravante...
A
um valete assim tão fiel, a um funcionário tão sensível, seria possível
imaginar o galego como uma língua internacional? Já lhe não basta
e sacia um galego que, para a alegria de Castela, não é carne e nem
é peixe? Nem
gato, nem
cordeiro, mas, ao mesmo tempo — e tragicamente — gato e
cordeiro?
A quem interessa o insulamento da Galiza? A quem interessa um galego
castrapo? A quem interessa a normativa castelã, que tanto estorva e
empeça a comunicação escrita da Galiza com as demais nações
lusófonas?
O
real acadêmico assegura que, falando galego em suas palestras a
ouvintes brasileiros, a
intercomprensión mutua é moi doada e esixe pouco esforzo.
Concordo com ele. E vou além. Digo, por experiência própria, e bem
fecunda, que o mesmo acontece quando um brasileiro palestra na Galiza
(de Oeste a Leste da Galiza, e vice-versa, em verdade). Mas ele
alega que a
comprensión espontánea do discurso en galego tamén me ten
acontecido ante públicos hispanófonos.
E por que não? Por que seria diferente, se a fala vem de um filólogo
que se esmera em escrever galego na ortografia espanhola; substitui,
e sem necessidade, os termos castiços por vocábulos e expressões
profundamente castelãos; viola — e rudemente — do galego
elementares vozes de conjugação verbal?
A
reação do sociolinguista espanhol ao reintegracionismo era-me bem
esperada. Nada a dizer. Não vou malhar em ferro frio. Neste
sentido, devolvo — e bem devolvido, já que não sou espanhol, mas
brasileiro — a ele, coa mesma moeda, o sexo
dos anxos.
Quanto
a nós, brasileiros, estamos bem (e muito
bem,
obrigado!) na companhia de Alexandre Herculano, Camilo Castelo
Branco, Castilho, Fernando Pessoa, António Vieira, Florbela Espanca,
Gil Vicente, José Eduardo Agualusa, Bocage, Antero de Quental,
Miguel Torga, Mia Couto, Eça de Queiroz, Sophia de Mello Breyner
Andresen, Herberto Hélder, Almada Negreiros, Almeida Garret,
Sá-Carneiro, Camões...
Não,
amigos, os brasileiros não precisamos de secessão
alguma. Nem de norma brasileira autônoma qualquer, o primeiro e
decisivo passo àquela ruptura indesejada. Amamos a nossa língua
como ela é, com todas as suas variedades, cores, sabores e
gradações. E ela é a língua portuguesa. Esteja ela onde
estiver, mesmo que — e talvez por melhor motivo — acima do
Minho, nós a amamos.
Ela,
e somente
ela, é a nossa Soberana.
Mas,
será que não concordo em nada com Monteagudo? Concordo sim! Já o
esbocei um pouquinho lá em cima. E, um bocadinho mais abaixo, devo
concordar plenamente com que o que disse o sociolinguista espanhol:
Polo
camiño que imos, o galego corre un serio risco de retroceso
catastrófico e irreversible.
Com
certeza! O camiño
que
ele apregoa, aqui no Brasil e alhures, não leva senão a uma triste
e autodestrutiva conclusão. Ele — este tenebroso sendeiro, este
caliginoso caminho
— não é nada menos que aquele que nos diz o desfecho do conto de
Franz Kafka:
...Acredito
seriamente nisto. Ele tem em si tanto a inquietude do gato quanto a
do cordeiro, embora estas sejam diferentes. Por isso, ele sente-se
tão incomodado na própria pele. Às vezes, ele salta à cadeira de
balanço, apoia as patas dianteiras em meu ombro, e toca-me o ouvido
com o focinho. É como se falasse comigo. De fato, ele vira a cabeça
para mim e me olha, observando o efeito que a sua comunicação
produziu em mim. Para comprazê-lo, ajo como se o compreendesse,
balançando a cabeça. Então, ele salta ao chão para brincar.
Talvez
a faca do açougueiro seja um alívio para esse animal, mas ele é
uma herança de família e, por isso, eu tenho que lhe negar o favor.
Por isso, ele deve esperar até que deixe de respirar por si próprio,
malgrado às vezes ele me olhe com os olhos da razão humana,
exigindo de mim uma atitude razoável.
Sim...
Uma atitude razoável...














