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quarta-feira, 13 de novembro de 2013

O Sangue da Galiza

José Manuel Barbosa diante dum quadro de António Alijó.


Por José Manuel Barbosa

Publicamos o passado mês de novembro deste ano um artigo (leia-se aqui) no que falávamos da informação fornecida por um jornal crunhês onde se dizia que os galegos tínhamos uma importante percentagem de herança genética partilhada com o Norte de África. Na informação do jornal identificavam-se erradamente esses marcadores genéticos como árabes, e nós, do nosso humilde ponto de vista opinamos dizendo que essa identificação ia por outro caminho, não pelo parentesco ismaelita. O nosso parecer foi com que o que há de comum com os países do Magrebe provém da chegada de contributos genéticos provenientes do refúgio franco-cantábrico em épocas do final do Paleolítico e também do Neolítico ao Norte de África, e não ao invés como consequência da invasão islâmica da península no século VIII.
Dali a poucos dias tivemos o prazer de recebermos um correio eletrónico do Doutor Luís Diaz Cabanelas, médico e vogal de saúde ambiental da associação ADEGA que nos forneceu um interessante artigo seu publicado na revista CERNA que a continuação oferecemos como Slide com a finalidade de partilhá-lo com o público leitor do DTS mas também com a vontade de fazermos alguns comentários no que diz respeito.
Aconselhamos ler o Slide antes de continuar com a leitura do nosso texto:



 
 
 
Os comentários que queríamos fazer são os seguintes:
1- As origens do Neolítico são muito discutíveis a dia de hoje. Falou-se tradicionalmente duma origem no Meio-Oriente mas a dia de hoje fala-se de que este fenómeno nasceu em vários lugares do planeta à vez (poligenismo).No que diz respeito da Galiza ainda que a influência viesse do Oriente e do Sul não me parece que a expansão do neolitismo trouxesse consigo necessariamente uma expansão demográfica norte-africana. Foi uma extensão dum fenómeno cultural que aqui apanhou uma identidade própria e que viajou para Norte. Nos mapas do Megalitismo, por exemplo, próprio e típico da Europa Atlântica acrescentamos o Norte de África mas quase sempre percebido como uma ampliação do espaço ocidental europeu.

 
2- No que diz respeito do 25% de Haplogrupo E, do nosso ponto de vista é exagerado se com isso dizemos que a invasão islâmica da península afetou o nosso País tanto. Como é possível que em Al-Andalus tivessem vivido e se tivessem assentado durante 800 anos grupos norte-africanos e ali não tivessem deixado marca genética? Como é possível que os "raids" muçulmanos na Galiza tenham deixado uma marca tão exagerada? O 25% do Haplogrupo E supõe que 1 de cada 4 galegos tem um marcador norte-africano por causa, segundo o Doutor Diaz Cabanelas, das razias e ataques andalusis. Nós é que pensávamos que eram as mulheres galegas as que deixaram a sua marca genética no Sul da península fazendo parte dos haréns das hierarquias de "Ispaniya" ou Al-Ishbam... Quantas mulheres foram violadas e engravidadas pelos ataques dos soldados de Alá para conseguirem que um quarto dos galegos sejamos descendentes deles?. Causa-nos curiosidade que em regiões como a Andaluzia de hoje não se reconheça a herança islâmica tão importante e em qualquer caso maior do que na Galiza. Quando chegavam à Galiza, os soldados dos Umaias, só se dedicavam ao sexo? Porque necessitariam tempo para completar o seu imenso trabalho reprodutor...e fazer da Galiza quase um País magrebino.
Por outra parte comenta-nos o nosso autor que nessas brigas mataram os soldados germânicos.... Talvez é que só os soldados germânicos lutavam contra os muçulmanos? Os nativos galaicos não lutavam? Como foram capazes de eliminar a tanta humanidade se calculamos que na altura do século V entraram na Gallaecia uns 30.000 suevos? 
Do nosso ponto de vista nos ataques muslimes havia mortes, violações e demais abusos mas considerarmos que um povo nunca totalmente dominado nem ocupado como foi este tenha hoje um 25% dos seus filhos herdeiros daqueles tristes episódios é pelo menos um exagero. Se isso chegasse a acontecer haveria lendas, histórias (como há no caso das 100 donzelas e outros parecidos) e mesmo fontes escritas que nos falariam de semelhantes catástrofes.... e não as conhecemos.
Representação do tributo das cem donzelas.
3- Por outra parte completar que segundo os nossos dados o marcador R1b na Galiza excede o 80%, não é um pobre 50% ou 60%... enquanto o marcador E anda pelo 10%, nos lugares da velha Gallaecia onde mais presença tem, que é na parte mais oriental, na asturicense, e não chega ao 25% do que se fala no artigo do Doutor Diaz Cabanelas. Segundo as nossas informações, esse marcador é anterior à invasão da península pelos muçulmanos, pois como falamos no artigo "A manipulação do paradigma: Árabes ou Celtas?" parece-nos que vem do paleolítico/neolítico. Há por outra parte indicativos de presença berbere nas regiões montanhosas do Cantábrico, como é o caso da região do Pas em Cantábria, da Maragateria no atual Leão e de algumas zonas da Astúrias. Nesse artigo pusemos umas ligações com as palestras de várias pessoas, entre elas a de Paula Sanchez, do gabinete do Professor Carracedo (ouvir aqui) mas também podemos ouvir o que diz o próprio professor Carracedo (ouvir aqui).

domingo, 3 de novembro de 2013

A manipulação do paradigma: Árabes ou Celtas?


 Por José Manuel Barbosa

O jornal "La opinión" da Crunha reproduz um artigo que leva por título “El origen árabe de los gallegos”. Nele o jornalista afirma que num estudo realizado pela Universitat Pompeu Fabra de Barcelona e a Leicester University (Reino Unido), no qual colaborou o diretor do Instituto de Medicina Legal da Universidade de Santiago, o Professor D. Ángel Carracedo, -conhecido das pessoas que participamos no Congresso “Os celtas da Europa Atlântica” celebrado em Narão (Comarca de Trasancos) os passados 15, 16 e 17 de Abril de 2011- se considera a origem dos galegos como árabe.

No artigo comenta-se que os galegos, asturianos e leoneses (não fala dos portugueses do Norte) têm uma herança genética muito importante proveniente do Norte da África mais alta do que outras zonas, nomeadamente, Valência, Granada ou Castela-A Mancha onde supostamente houve mais muçulmanos. As causas, diz-nos o artigo, foram expostas pelos investigadores. Fala-se-nos que são os geneticistas quem opinam, mas não espertos em história, pré-história, arqueologia, linguistas ou antropólogos... e guardariam relacionamento com as deportações massivas de mouriscos de Granada para outros lugares da Espanha no século XVI. Parece ser que o Doutor Carracedo indicava já em 2002, nas Jornadas sobre Genética e História no Noroeste Peninsular, que isto mesmo poderia ser causa dos primeiros povoamentos árabes que chegaram a Galiza no século VIII.



Sobre isto quereríamos comentar o seguinte:

Lembramos que o Professor Angel Carracedo comentou-nos em Narão, algo parecido sobre o vínculo genético entre os galegos e os norte-africanos mas naquele caso dissera que eram os norte-africanos os que conservavam as achegas genéticas do norte peninsular cantábrico. Justo ao invés de como se nos expõe no jornal.

A investigadora Paula Sanchez, colaboradora da equipa do professor Carracedo também nos expus nas II Jornadas de História da Galiza celebrado em Ourense em março de 2009, o seu pensamento não muito distante do diretor do seu gabinete


O próprio Carracedo nos contou em conferência organizada pelo Facho em novembro de 2011 o que aqui podemos ouvir:


No Congresso de Narão, Carracedo reafirmou as teses que confirmavam as migrações pré-históricas que levaram as populações do norte da península até as Ilhas Britânicas mas também até o Norte de África, dizendo-nos a todos, com a presença de professores de diversas nacionalidades cujo prestígio científico internacional é indiscutível que os atuais irlandeses e britânicos são descendentes daquelas populações paleolíticas e neolíticas que chegaram às Ilhas em épocas de deglaciação. 
O E3b de origem norte-africano no UK
A sua admirável exposição naquela altura levou-o a considerar que "a xenética aínda ten moitas limitacións cando as poboacións son moi próximas pode falar de migracións, particularmente mediante o uso de marcadores do cromosoma Y e do ADN mitocondrial que falan das liñas paterna e materna, pero non pode dicir cal era a cultura ou a fala das persoas que levaban esos linaxes"

Reparemos em que...:

… não se pode dizer qual era a cultura ou a fala das pessoas que levavam essas linhagens...”. 
Reparemos por outra parte nas notícias que se deram e em como a deram: 




Durante o seu discurso sobre os movimentos de população do Noroeste galego à luz da genética, Carracedo confirmou que Galiza serviu de refúgio glacial e que depois das glaciações, parte desta população se deslocou até Inglaterra e Irlanda mas também até África...

Mas apesar dessa afirmação, quis deixar claro que ele, quando se está a referir aos movimentos da população, não fala de celtismo, nem de culturas ou línguas mas de genética dos povos. E para analisá-la disse que “se usam marcadores do cromossoma e do ADN mitocondrial”

Consequentemente Carracedo  não se pronunciou em favor ou em contra da celticidade da Galiza, simplesmente manifestou que as investigações oferecem resultados de mapas populacionais que indicam parentesco, direções nos movimentos de povoamento e que o labor de interpretar historicamente os dados não corresponde ao geneticista mas ao historiador. As suas achegas são ferramentas de muita utilidade para que os espertos em história, língua, arqueologia e antropologia usem com precaução e objetividade para integrar no entramado de reconstruirmos a realidade passada, presente e futura da Galiza.

Do que concluímos com esses dados objetivos não é o que o irresponsável jornalista diz duma suposta procedência árabe. Os dados falam-nos de vínculos com o norte de África e os povos nativos daquela zona são basicamente berberes, não árabes. Esses povos têm uns vínculos muito antigos com outros grupos humanos geograficamente atlânticos e europeus até o ponto de ser em pontos das Ilhas Britânicas, da própria Gália e de outros lugares do continente onde encontram uma manifestação também importante.
Tom Jones, um celta-galês que muitos acreditariam norte-africano

Não há muito a dizer sobre a presença física, de muitos habitantes do Atlas, com elementos muito similares a quaisquer outros territórios europeus mais nortenhos. A pela branca em muitos casos, os cabelos loiros ou ruivos, os olhos claros... são caraterísticas históricas unidas de forma importante aos norte-africanos.
Não sabemos se isto tem a ver com a hipótese trabalhada pelo professor John T. Koch sobre a celticidade ou proto-celticidade da língua tartéssica, emparentada portanto com as falas celtas do ocidente da Europa.



Também algo sabemos, igualmente sobre o périplo norte-africano dos povos cuja genética reconhecemos a dia de hoje como culturalmente celta..

O ADN do Rei Tut e Aspecto Fisico do Rei Tut 
...para além de todas as lendas que ao redor do assunto estão presentes ainda hoje na vida dos povos atlânticos. Na memória mitológica dos celtas está a ideia de que Egito e sobre tudo Scythia foram lugares de origem. 
Anthroeurope

Contrariamente a isto e dum ponto de vista etnológico, antropológico, filológico, (pré-)histórico, arqueológico e mesmo genético não há restos de presença árabe na Gallaecia entendendo por árabe a cultura, língua, etnia, tradições.... provenientes do Meio-Oriente. Se algum jornalista iletrado relaciona islamismo ou norte-africanismo com arabismo está errado. Os três elementos não têm porque coincidir.
Mulher do Rif com o seu neno.

Do nosso ponto de vista a presença, importante, de elementos genéticos comuns com o Norte de África, nem tem a ver com as deportações mouriscas do século XVI, nem tem a ver, pelo menos de forma maciça com a entrada dos berberes como tropa da invasão islâmica na Espanha visigoda. Segundo os dados que contamos fornecidos pessoalmente pelo meu professor Anselmo Lopez Carreira na época na que eu era o seu aluno de História, o Al-Andalus do século X tinha aproximadamente uma população de uns 10 milhões de pessoas entre os que se achavam vários grupos etno-religiosos diferentes: Uma minoria de umas 1000 famílias de origem árabe (sírios ou palestinianos e iemenis) estabelecidas nos vales do Guadalquivir e do Ebro; um grupo importante de berberes que conformavam o exército, sobre tudo os mandos estabelecidos nas zonas montanhosas do Planalto do centro peninsular, Serra de Ronda e o Algarve e por baixo destas minorias dirigentes a grande massa da população conformada por moçárabes (cristãos nativos hispano-godos) e muladis (hispano-godos muçulmanos) que ocupavam a totalidade do território. Aliás havia grupos de origem judeu junto com africanos pretos e eslavos procedentes estes últimos do mercado de prisioneiros e escravos de Bizâncio e de África.

Neno árabe. Algo a ver com os galegos?


Ainda contando com a possibilidade de que a Galiza fosse povoada na Idade Média com elementos étnicos andalusis, cabe perguntar-se quantos eram berberes e quantos hispano-godos islamizados, quer dizer, muladis. Acho que era a populaçao do comum a que fugia das guerras e dos conflitos procurando paz e por isso nem eram árabes, nem provavelmente eram militares berberes por serem ambos grupos dirigentes num conjunto populacional basicamente nativo e hispano. Em qualquer caso não caberia a possibilidade de que fossem muitos mais dos que hoje andam pelas nossas ruas sem que isso faça da Galiza (nem da França ou do Reino Unido... ) um país herdeiro de qualquer ponto de vista da cultura norte-africana. Pensamos que a hierarquia árabe nunca foi deportada à Galiza medieval, porque eram os grupos dirigentes da Al-Shban, não assim outros grupos que ainda de religião islâmica não eram de procedência árabe.

Do nosso ponto de vista os restos genéticos norte-africanos existentes em maior número na área astur da Gallaecia (Leão e zonas orientais das atuais províncias de Lugo ou Ourense) podem ser provenientes de grupos de escravos trazidos às minas pelos romanos ou por populações proto ou pré-históricas existentes aqui, quer por contatos... ou mesmo porque fossem originárias dessa região e que partissem de aqui para Sul em tempos pré-históricos.. como nos indica Carracedo na sua exposição no ivoxx acima apresentada.


Reconstrução do morfotipo caraterístico do oito zonas geográficas nas que o fenotipo R1b1a2 atinge percentagens superiores ao 80% da população. De esquerda a direita e de arriba para abaixo apresentam-se Galiza, Astúrias, Cantábria, Euskadi, Irlanda (Mayo), Irlanda (Ferry), Sudoeste de Inglaterra (Devon) e Cornualha. Nenhuma das fotografias se corresponde com uma pessoa real. Graças a Anthroeurope.
É importante salientar que as traças genéticas norte-africanas estão presentes em boa parte da Europa, mesmo da Europa que nunca fez parte do Império Romano e que calculamos, nunca foi culturalmente berbere (independentemente das suas marcas genéticas).
A incomodidade que para o paradigma historiográfico castelhanista supõe a existência duma região, não só étnica e culturalmente celta, mas matriz desse mundo no seu imaginário hispânico é importante. Levam anos tentando botar por terra a ideia de que a velha Gallaecia seja celta e portanto não vão permitir a ideia muito mais contundente e radical de sermos o berço etnocultural e linguístico das Ilhas Britânicas e do ocidente atlântico europeu em geral. A falta de auto-estima dos espanhóis, alimentada durante os últimos séculos pelo complexo de serem um grupo humano dificilmente aceite pelas nações civilizadas da Europa pelos seus vínculos históricos com o islão, manifesta o seu sintoma mais agudo em que não gostam de que dentro da “sua” península haja uma nação que não termina de se assimilar e que represente de forma viva a presença desse inimigo ancestral politica, económica e culturalmente mais desenvolvido e próspero (nunca deixaram prosperar à Galiza por causa desse medo) ao qual nunca terminaram de se parecer e do qual sempre recebeu desprezo. De volta, o mundo hispâno-castelhano-mediterrânico despreza, ignora, desidentifica, agrede, provoca, deturpa e adoece por causa duma Galiza não castelhana nem mediterrânica mas céltica, atlântica e europeia embora empobrecida pela nefasta gestão histórica de Madrid. É essa Galiza que representou os cristãos velhos que nunca foram islamitas enquanto eles se arrogavam essa etiqueta de cristãos velhos como escusa para limpar etnicamente os muçulmanos ou lhe exigirem conversão. Como forma de pobre reafirmação de identidade nacional, manifestavam em épocas obscuras que África começava nos Pirenéus sem tomarem consciência de que onde realmente estava o limite dum ponto de vista étnico e cultural entre África e Europa foi sempre aproximadamente a linha do Douro-Ebro. Risco falava da Euroibéria e da Afroibéria... Esse sentimento infelizmente racista do espanhol surgido do seu complexo de inferioridade manifesta-se hoje no anti-galeguismo (Artigo do Perez Reverte) que mesmo muitos galegos assimilam e aceitam em forma de endofobia gerada na educação emanada desde o paradigma oficial do Estado e incutida desde a escola primária. Os “mouros” sei-que somos nós... não eles. Como se o facto de ter sido adetos da religião islâmica fosse motivo duma legítima infravaloração... Os “párias” da Europa criam os seus próprios “parias” dentro do seu próprio Estado localizando-os no noroeste peninsular com gente próxima etno-culturalmente aos "amos" do mundo para terem em quem malhar, em quem mandar e com quem se sentirem superiores. Uma forma de dopagem auto-identificativa


terça-feira, 23 de abril de 2013

O culto às Deusas Mães Galegas


Por Carlos Solha

Aproveitando o relanço da Semana Santa -Luceira Túrvia, como a nomeiam os canteiros da cerna, pois “túrvios” somos os pecadores-, espremendo-lhe, digo, todo o sumo ao lazer, fiz repouso em Cerdedo e ali partilhei um gostoso jantar adubado com sobremesa paroleira. Muito dão de si os latriques cafeinados.
Quase ainda não tinha engolido duas xícaras e um sorvo dum Porto, quando uma das comensais, bem aproximada aos setenta, soltou uma expressão que fez esticar as minhas orelhas do etnógrafo lupário e as daquele neno que fui.
A informante involuntária andava na porfia de apaziguar um pequeno malandro, uma miga consentido. Esgotado o repertório da “supernanny”, a avó, revirando a criança, espetou-lhe: “Se não te aquietas, ponho-te fora para que te leve tua mãe galega!”.
As primeiras são as "Matres" de Bibracte, cidade do povo celta dos Aedui da Gália
Olhem, eu não lhes fui um santo e meu irmão pequeno, também não. Na aldeia, andávamos, entre outros apelidos, pelos Zipi-Zape... Escuso portanto, oferecer ao leitor muitas mais explicações.
Sendo como éramos afilhados do demo, muito sabíamos de ameaças. Que eu lembre, minha mãe tinha foro com o homem do saco, com a bruxa do moinho dos Montinos, com as aranhas, com o lobo, com o tio Gardunho, com os bichos peludos, com a Sisocorda, com o homem das barbas, com o cocão, com a Ramuda, com o Sacauntos... e, na casa, escutávamos chamar por eles a cada pouco.
O ritual da invocação sempre se acompanhava do brandir duma chinela, duma escumadeira ou duma vassoura. Costumes que a moderna sociedade foi extinguindo, pelo medo ao que dirão. Hogano, leva-se mais o do “colegueio” e a negociação inter pares. Intuo que os enxebres assusta-nenos, a poder de reclui-los no ostracismo, já devem ter procurado outras ocupações, ou outras latitudes.
Mais, amentar a “mãe galega” para amedrontar um menino era-che uma circunstância novedia, daí que a minha má consciência de pilhabão optasse, de primeiras, pela alerta “Defcon 1”.
Uma vez racionalizada a situação, sobreveio-me a impressão de ter escutado uma das muitas expressões ofensivas com as que os de fora, batujando no estereótipo, nos presenteiam cada pouco. Recomendo para o particular a leitura da coleção de ensaios intitulada “El gallego, Galicia y los gallegos a través de los tiempos” (1985), da autoria de José Luís Pensado.
Era inconcebível que aquela avó reconviesse o seu neto chantando-lhe que, de não mudar a conduta, o ia botar à rua para que a sua verdadeira mãe –de nacionalidade galega- o aturasse. Mulher da vida?, filho de trás da silveira?...
Não me contendo, perguntei. Com o riso nos lábios, a mulher respondeu-me que o que acabava de ouvir era um dito velho e que sua mãe e a mãe de sua mãe também o empregaram nas retesias domésticas. Assim, mesmo, acrescentou que desconhecia o significado da locução e que, inconscientemente, fazia uso dela com o objetivo –infrutuoso- de endireitar os cativos que deixavam ao seu cuidado. Quando lhe enumerei a restra de assusta-nenos que empregava minha mãe comigo, disse-me que habitualmente eram requeridos também por ela, que toda ajuda era pouca para encarreirar as novas gerações: “Estes já não se assustam com nada, estão afeitos a ver de todo na televisão”.
Já na casa, procurei informação sobre a “mãe galega” e, suspeitando a demonização dum antigo númen indígena, após muito remexer, fui dar com o nº 3 de El Eco de Galicia (Revista Semanal de Ciencias, Arte y Literatura), editado na Havana em 16 de julho de 1882.
Na página 2 da nomeada publicação, reparei no titular “Las Madres Gallegas” e, assim que comecei a leitura do artigo, assinado por M. Esmorís, fiquei atordoado:
En casi todo el territorio de Galicia puede decirse sin temor que no hay madre alguna que no haya intimidado alguna vez a sus inocentes hijos con la legendaria frase de “Busca a tu madre gallega”. Cuando sucede esto, es que el niño ha cometido alguna falta reprensible y después de regañarle fuertemente, si aún no se muestra arrepentido, entonces se le lleva a la calle, se le cierra la puerta de la casa y entre otras amenazas, aún hoy se usa la de “Busca a tu madre gallega”.
Aufanian Matrónae do templo romano de Görresburg, Nettersheim (Rheinisches Landesmuseum Bonn).

Como podem imaginar, não desapeguei os olhos do texto até a sua conclusão. Acrescentamos, portanto, umas passagens do mesmo por considerá-las de grande interesse:
As “Mães Galegas” trazem a sua origem das divindades célticas sob cuja proteção se punham os celtas, designando-as com o nome do terreno que ocupava cada tribo [...] Com o transcurso do tempo, os homens estudiosos e afeiçoados ao conhecimento das antiguidades, a força de investigações e de trabalho, chegaram a nos provarem com dados muito seguros, a existência das “Mães Galegas”, que foram representadas ordinariamente por três donzelas, levando nas suas mãos, flores, frutos e pinhas.
Murguía o ilustre historiador galego, que possui muitos e eloquentes dados em matéria de antiguidades, traz na sua obra “Historia de Galicia”, copia de uma inscrição que foi achada perto da Crunha e diz assim: T. Fraternus / Matribus / Gallaicis / v. s. l. m. “Tito Fraterno pagou de boa vontade o seu voto às “Mães Galegas”.
As “Mães Galegas” são divindades da mitologia céltica a cuja intervenção e poder nos destinos da humanidade deveram render culto das suas crenças os idólatras, nossos progenitores, avezados ao fatalismo e à heroicidade por temperamento e pela educação do povo do qual procediam...
Desde aquela altura, os celtas galegos, cedendo no entanto ao contato contínuo e preciso de outras tribos irmãs [...] legaram a sorte dos seus filhos às “Mães Galegas”, e a través daquelas gerações que variavam em costumes e em crenças, sem se darem conta elas próprias, ficou, apesar dos conquistadores, como uma reminiscência, como uma vaga lembrança de primitivos dogmas [...] quando duma forma ou de outra, fazem uso do dito vulgar “procurar a tua mãe galega”.
M. Esmorís, autor do artigo, vincula a inscrição votiva à cidade da Crunha, mas, consoante as minhas pesquisas, a vila onde se achou o epígrafe lapidário foi “Coruña del Conde”, na atual província de Burgos (prédios da antiga Gallaecia). Consultem-se no que diz respeito a Júlio Núñez Marcén e Álvaro Blanco (2002) ou o artigo de Joaquín Gómez-Pantoja titulado “Las Madres de Clunia” (1999). 
As chamadas "Mães Galegas" ou "Matribus Gallaicis" estão no Corinium Museum de Cirrencester (Inglaterra).
Em Núñez-Blanco, lemos: O mais interessante é o sobrenome que as “Matres” receberam em esta ocasião, “Gallaicis” e que parece obvio relacionar com os epítetos de caráter étnico ou de “nacionalidade” [...] Longe de se tratar de dedicatórias tópicas [...] parece mais lógico explicar este tipo de testemunhas como uma tentativa por parte de um “estrangeiro” de “atrair sobre si a benevolência das deusas protetoras do seu povo”
O lugar onde se erigiu ou achou o altar tem uma importância relativa. O substancioso do achado acouta-se ao contido da inscrição. Um galego de há 2.000 anos, longe ou não do seu lar, encomendando-se às deusas, às nossas Mães Galegas.
J. Gómez-Pantoja, no citado trabalho, enumera os atributos com os que habitualmente eram representadas as Deusas Mães: “cestas de frutos, cornucópias, pão, moedas...”, acrescentando que estas ctónicas divindades são advogosas da fertilidade, da prosperidade, dos negócios..., atingindo as virtudes salutíferas doutras deidades aquáticas (ninfas): fertilidade, fartura e saúde. As Deusas Mães vinculavam-se aos mananciais mineiro-medicinais, aos ilhós salutíferos, às burgas, muito abundantes na geografia galega, “benéfica exsudação das divindades da Terra”.
A Mãe Galega é uma deusa trinitária. A tríade divinal que, desde o alvorecer do nosso tempo, rege no tradicional panteão galego, revela-se em Cerdedo, não só na fraseologia popular, mas também no folclore petrificado, adubo conatural deste bento território.
Cumpre, daquela, lembrar a tripla manifestação da Moura já consignada para o monte do Seixo, montanha da prodigalidade: a Moura Pirocha, a Moura do Castro Grande e a Moura da Laja-Moura.
A Moura Pirocha, donzela, arquétipo da pródiga primavera; a Moura do Castro Grande, a mulher madura, adscrita ao verão, ao tempo da colheita, e a Moura da Laja-moura, venerável anciã, a Velha, sábia oraculária, identificada com o inverno: “Ainda vai vir muita chuva, que brilham as pedras do Seixo”, diz-se em Cerdedo.
A Moura Pirocha, explícita, tombada ao cumprido sobre a sua almofada de pedra; a Moura do Outeiro do Castro, núbil, casadoira, custódia de riquezas nunca inventariadas; a Velha da Laja-Moura, fazedora do arco do céu que, fincado naquela fatídica peneda do monte de Meilide, abaixa o lombo para abeberar nas aguas do poço Fumegas, góio do rio do Seixo.
A mesma Moura, humanizada baixo o antropónimo Maria: Mari Diz, a costureira afogada no tremedal da Mulher Morta, em Gestido; A Maria Diz da Serra da Mulher ou do Cordal do Testeiro (Forcarei); a Maria Miguez da Cuinha de Vidoido (Cerdedo); a Maria Amena das lombas da Cima-da-Vila (Caroi-Cotobade); a Marimanta, a Marujaina; a Maria evocada no principiar dos melhores contos: “Em tempos de Maricastanha...”, aquela pretérita idade na que a Deusa Natureza acaparava toda a nossa atenção.
A Deusa Mãe Terra, uma e trina, a semelhança das três Marias que esconjuram o enganido infantil à roda dum cachopo carvalhão, na fronde da aldeia cerdedense de São Bernabeu (advocação substitutiva), ou de redor duma mesa propiciatória.
As Três Laranjiñas do Mar, as Três Mouras, as trigémeas da fonte das Donas de Vidoído (Cerdedo); Ana, Aureana, Ana Manana... Quem sabe se a expressão “Madre!” “Minha Mãe!” ou as suas castelhanizações “Mi madrinha!” (ou “Mimá!”) não serviram para exortar o seu valimento.
O culto á Deusa não é uma religião, mas ao contrário, é a porta do auto-conhecimento, como indivíduos, como povo. O dia no que os galegos lhe viramos as costas á Mãe Galega, e optamos pelo culto aos bonecos procissionantes, trocamos, abofé, os olhos pelo rabo.



sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

HISTÓRIA DA LÍNGUA: Antes do Latim


 Por José Manuel Barbosa

Dedico este artigo à boa gentinha de Pitões das Júnias e à gente do Barroso

Parece ser que o território galaico-lusitano anterior à conquista romana estava ocupado por diferentes povos de raiz indo-europeia e de fala provavelmente proto-celta.

Se repararmos na configuração étnica desses territórios teríamos de norte para sul os seguintes: os povos ártabros (Martins, Higino 2008) ou posteriormente chamados pelos romanos de galaicos lucences que ocupariam a atual Galiza norte (províncias da Corunha, Lugo e norte de Ponte Vedra); os povos gróvios (Martins, Higino 2008) ou galaicos bracarenses (atuais províncias galegas de Ourense e sul de Ponte Vedra junto com todo o norte de Portugal até o Douro); e os povos asturos (atuais Astúrias, Leão, a Zamora do norte do Douro e a parte oriental de Trás-os-Montes).

Ao sul do Douro habitariam os lusitanos até o Tejo incluindo no seu espaço territorial a Estremadura espanhola atual ao norte desse rio. Para sul um conjunto de povos de nome genérico célticos por todo o Alentejo e ficando para o extremo Sul os cônios ou cinetes no Algarve de estirpe celta segundo os autores clássicos.

Segundo os estudos recentes baseados nos achados litográficos de Lamas de Moledo (Évora), Cabeço das Fráguas (A Guarda) e Arroyo del Puerco (Cáceres), a língua falada pelos lusitanos mas também pelos galaicos incluindo neles os asturos e provavelmente também os cântabros, tendo como fronteira oriental com os vascons o rio Asón, era uma língua com capacidade para poder ser compreendida e reconstruída a partir das línguas célticas modernas por linguistas e arqueólogos.

O espaço que poderia ocupar haveria que reconstruí-lo a partir, não só pela localização destas inscrições conhecidas, mas também pela onomástica, a toponímia e a teonímia. Corresponder-se-ia com os velhos conventos romanos da Scallabientense, Asturicense, a Bracarense, a Lucense e parte da Emeritense, bem como parte da atual Cantábria.

Essa parte norte-ocidental da península falaria o que os cientístas denominaram com o nome de lusitano ou como diz Ulrich Schmoll (Schmoll 1959) galaico-lusitano por serem a Gallaecia romana e a Lusitânia originária (entendida como o berço do povo lusitano, não da província romana) a sua zona.

As provas que falam da existência deste galaico-lusitano estão nesses achados litográficos de época imperial romana, cuja época ajustamos e deduzimos por estarem escritos com a ortografia latina.
 
 São os exemplos dos textos litográficos os seguintes:

- Texto de Lamas de Moledo

rufinus et tiro scripserunt: veaminicori doenti angom lamatigom crougeai magareaigoi petranioi radom porgom ioveat caeliobrigo

Este texto datado já em época romana (no século I d.C.) com introdução em latim viria significar o seguinte segundo a tradução de André Pena Granha, arqueólogo e historiador galego:

Rufino e Tiro escreveram: Os Veaminicori (cojunto de jovens solteiros em idade militar) dão um anho lamático (de Lamas de Moledo) para o altar de Petranio (o oficiante), um grosso porco para o Júpiter do Castro de Caelio.

Segundo Higino Martins (2008:87) Veamini Cori ou Wegamenoi korioi significaria “os que viajam em carros”, quer dizer, “os chefes”, ou “senhores”.

- Texto da Pedra de Cabeço das Fráguas:

 oilam trebopala indi porcom laebo commaiam iccona loiminna oilam usseam trebarune indi taurom ifadem(...) reve tre(barune)

Texto também de finais do Império com latinismos como porcom (com p- inicial aparentemente não céltico) e redigido na pedra para um ritual de tipo suovetaurília com o fim de proteger a Treba (território político sob a influência do povo que oferece o ritual). A tradução que o professor André Pena Granha fez a finais do século passado apoiando-se noutras línguas célticas vem sendo a seguinte. 

...uma ovelha para trebopala (protetora da Treba) e um porco para Laebo (divindade feminina), uma égua para a luminosa Iccona (deusa dos cavalos), uma ovelha dum ano para trebarune (a deusa protetora do País) e um touro dum ano para Reva, senhora da Treba.

 A dia de hoje o professor Pena Granha defende que este texto é uma forma de latim baixo-imperial. Uma forma de castrapo celtico-latino.

- Texto de Arroyo del Puerco ou Arroyo de la Luz (Cáceres)

ambatus scripsi carlae praisom secias erba muitie as arimo praeso ndo singeieto ini ava indi veam indi vedagarom teucaecom indi nurim indi udevecom rurseaico ampilva indi loemina indi enu petanim indi arimom sintamom indi teucom sintamo...

isaiccid rueti puppid carlae enetom indi na(.) (...)ce iom.m

Interpretação de Witczak-Wozniak:

“(Eu), Ambatus escrevo: Em Carla, o pacto de amizade ou de reciprocidade por um (parente) que deve ser enviado (ali), que seja contraído (jurado) sem participação de avó e mulheres de irmãos e noivas de filhos e dona da casa (quer dizer, esposa do chefe da família) e sem (participação de) Rursenco Ampilua e servidão, e sem (participação de) Petanim, e (sem) o maior dignatário, e (sem) o filho maior...”

Possíveis interpretações de Blanca María Prosper da linha final que é conhecida como Texto de Arroyo de la Luz III:

“Deste jeito fica dito o que em Carla (está) estabelecido e não (??)...”
“Por aqui fica o que corresponde ao término de Carla...”
“Aqui limita/começa o que está incluído em Carla...”
....................

Ao sul do Tejo dos diferentes povos de filiação céltica segundo os clássicos mas com importante influência tartéssica e fenícia pouco sabemos, mas quiçá não nos sejam de muito interesse por não serem a base, nem as suas línguas, o substrato da futura língua galego-portuguesa.

A língua galaico-lusitana poderia ser identificada como uma língua celta ou proto-celta como nos comenta Armada Pita (1999:260-263) mais ainda nos fornece a ideia de ser a partir do conhecimento das línguas celtas que pode ser possível a tradução dos textos conservados. A compreensão dos mesmos reafirma o parentesco entre esta língua da que estamos a falar com o celta antigo.

A identificação como língua celta é discutida, no entanto, por alguns autores argumentando que algumas palavras possuem um /p/ inicial inexistente neste grupo de línguas, tanto nas atuais como nas antigas.

Mas é o professor valenciano Xaverio Ballester (1998:65-82) da Universidade de Valência quem nos diz:

"O problema na realidade não é a presença linguisticamente incorreta do /p/, mas, dir-se-ia, a posição geograficamente incorreta do lusitano. Se essa mesma documentação que possuímos para o lusitano aparecesse, por exemplo nalguma zona próxima aos Alpes, previsivelmente a linguística indo-europeia tradicional consideraria tal documentação uma testemunha da primeira pola separada da árvore céltica, dessa fase ainda com /p/ que por ser língua indo-europeia, reconstruímos como célticas."

O parentesco com o celta comum parece maior do que se aguardava, portanto.

Diz-nos ainda a professora Fdez-Albalat (1996:39):

"Segundo a minha opinião, estamos perante uma rama celta possivelmente anterior à divisão entre goidels e britons ou bem uma terceira rama de tipo arcaico"

Atendendo para o trabalho de Robert Omnès (1998:247-268) professor da Universidade de Brest, o galego-português tem uns importantes elementos substráticos celtas que determinariam a nossa língua como um “patois” celto-latino. Alguns (e só alguns) desses elementos seriam os seguintes:

1-     Léxico (ver o apêndice n.º 1 da Gramática elemental del gallego común de Carvalho Calero)

2-     Semântica:
  • Preferência pelo verbo ser em vez de ter em frases possessivas do tipo:
O jardim é meu (galego-português)
Y mae gardd gennuf i (galês)
  • Uso da forma levantar (sevel em bretão) com o sentido de “construir”
Levantei uma casa (galego-português)
Sevel eun ti (bretão)
Por exemplo em francês seria construir une maison ou no espanhol construir una casa

3-     Fonética e Fonologia
  • O /k/ implosivo devém num iode ante /t/ explosivo como em irlandês
noctem>noite; octo>oito
  • Em galego-português os ditongos descendentes são os mais numerosos, o que se explica pelo modelo silábico céltico
  • Evolução dos grupos cl-, pl-, fl- iniciais: clamare>chamar; plorare>chorar; flagrare>cheirar
  • A metafonia que Rafael Lapesa (1991:44) identifica como celta:
tenebat>tinha                         Mestr (sg.)/Mistri (pl.): “mestre” em bretão
molinum>moinho                     Bran/Brini: “corvo” em bretão

4-     Morfossintaxe
  • A repartição dos géneros: os nomes das árvores som femininas em galego-português e em bretão
  • O cal, o labor, o nariz, o sal, o mel, o leite, o sangue, o cume... como em bretão (por exemplo em outras línguas latinas como o espanhol são palavras femininas)
  • A mesma forma pode ser utilizada pelo adjectivo qualificativo e o advérbio tanto em bretão como em galego-português
Henned a labour mad (bretão). Traduc: Ele trabalha bem
Tem bem anos (galego-português)
  • O durativo no infinitivo:
Estou a trabalhar (galego-português)
Rydw i’n gweithio (galês)
Emaonn o labourad (bretão)
Taim a(g) dul Traduc: Estou a ir (irlandês)
O galego-português é a única língua romance que partilha esta característica com as línguas célticas
  • Perguntas e respostas: em galego-português as respostas não são “sim” ou “não”. Exemplo em gaélico escocês:
- Rapaz, tens fome?            - Ydy’r bwyd yn barod? Traduc: Está o jantar pronto?
         - Tenho!                              - Ydy! (Está!)
  • etc

Conectando, portanto com a Teoria da Continuidade Paleolítica formulada pelos professores M. Alinei e F. Benozzo, o galaico-lusitano viria ser a língua da qual derivariam as outras línguas célticas e o ocidente da Península Ibérica o seu berço.

Para o professor Higino Martins Estêvez, em entrevista concedida ao Portal Galego da Língua em 13 de Dezembro de 2008 com motivo da apresentação do seu livro As Tribos Calaicas. Proto-História da Galiza à Luz dos Dados Linguísticos, a velha língua céltica da Galiza pôde ter ressistido viva até aproximadamente o ano 1000 momento no que começou o seu declínio real. Também no-lo diz neste seu livro (2008:151) quando falando de Ogrobe onde nos comenta:

OKOBRIXS “Castro da Ponta” pode nascer antes ou trás a conquista (romana), pois a língua céltica subsistiu, sem registos fora da toponímia, em todo o primeiro milénio cristão.

Ainda o nosso professor diz no seu livro quando fala da etimologia do antropónimo Urraca (2008:529):

 b) os montanheses iletrados da cornija cantábrica ainda falavam céltico. Somente ficarom rastos toponímicos (só se escrevia latim); o que não era latim era invisível, mesmos os romances. Da Orracas de reis surge a língua estar viva nos sécs. IX e X
c) O Reino de Leão (sequela da Gallaecia para os cristãos e muçulmanos) era âmbito rude e iletrado. Os montanheses que só falavam céltico –arcaico e próximo do gaélico- nessa língua residual chamavam Esposa por excelência à do rei. Até o século XII só era dado a rainhas por casamento. Então aparecem desse nome duas rainhas per se. Petronila-Orraca é dúbia: ementam a mudança de nome e a seguir o matrimónio com o conde de Barcelona. A castelhana, rainha de 1109 a 1126, a meu ver já demonstraria a opacidade: em céltico chamariam *RIGANI, não *WRAKKA”
d) não se vê diferença entre cântabro e calaico: a voz é compartilhada pela cornija cantábrica (369)

e diz a pé de página:

369 Nem entre calaico e lusitano, cf. Promontorium Artabrum (Plinio IV 113), Cabo da Roca. Norte da foz do Tejo

e continua na página 543:

Os anos 944 e 1097 notam justo o ponto final do sistema linguístico céltico na cornija cantábrica.

Acrescenta na sua entrevista que mesmo em algumas regiões do nosso país, nomeadamente os Ancares pudo ter durado mais quatro ou cinco séculos. A sua conclusão vem dada pola etimologia dum nome de família exclusivo dos Ancares, como é Deiros o qual só pode ser interpretado apartir dum nome céltico testemunhado na Irlanda.

Para reconfigurar e aproximar os limites desta língua galaico-lusitana da qual estamos a falar são de grande ajuda os mapas elaborados pela professora Fdez-Albalat (1990:422-427) e a opinião de Rosa Brañas (1995:211-253) e o próprio Higino Martins, pelo que também, a partir dessa informação, quisemos elaborar um mapa, o número 5, desde a nossa modéstia que poderemos achar no Atlas Histórico da Galiza na página 18.

Roma entra na Kalláikia:


No século II antes de Cristo o imperialismo romano no seu afã de alargar o domínio sobre a península toma contacto com os lusitanos. São momentos de sofrimentos e guerras nos que os povos do norte do Douro participam como se com eles fosse, razão que nos faz pensar na unidade étnica galaico-lusitana que Roma quebrou por razões políticas para o seu projeto imperial.

Decimus Junius Brutus, entre o 139 e o 137 a.C. passa-se para a ribeira direita do Douro após uma feroz batalha, como nos conta Casimiro Torres, na que morrem segundo fontes romanas mais de 60.000 soldados galaicos, fazendo que o rio se tinja de vermelho.

São os habitantes da foz do Douro, os Kaláikoi, os que lutam contra os romanos e os que a partir de agora vam dar o nome a todo o país ao norte do rio que eles chamam “Dwórios” ou “das Portas” ou “das Portelas” segundo nos traduz o linguista e celtista galego-argentino Higino Martins Esteves (2008:17).

Brutus chega até o Minho (rio “do Tesouro” ou “da Riqueza”), segundo Martins Esteves (2008:337) levando a guerra aos povos marinheiros do atual norte de Portugal, mas é sobre a sexta década do século I a.C. quando Caesar, Julius Caesar, chega por mar desde a Gália à costa galaica até Brigântia tentando submeter de forma definitiva os Kalláikoi.

Isto não vai ser fácil nem possível até que o seu sucessor Augusto desenvolva as guerras cântabras e acabe, embora não definitivamente, com o problema que lhe ocasionavam os povos do norte da península.

É no 22 d.C. segundo o professor Pedro López Barja, num trabalho feito num livro coordenado por Sanchez Palencia e Julio Mangas (2000:36) quando no monte Medúlio os galegos após intenso assédio morrem envenenados pela sua própria acção de ingerirem seiva do teixo antes de se deixarem capturar pola escravatura que Roma lhes tinha reservada.

No desenvolvimento dessas guerras chamadas Cântabras as últimas batalhas pela conquista do território do Noroeste têm lugar nas montanhas mais afastadas e mais inacessíveis. Ao tempo que se produz o desastre do Medúlio, e quase paralelamente, os astures são também vencidos pelo Império no Mons Víndius situado no cordal Cantâbrico fazendo com que finalmente a totalidade da península se passe ao domínio romano constituindo uma nova província dirigida diretamente pelo imperador Augusto com o nome de “Transduriana”, como nos diz o autor acima citado, Pedro López Barja. Esta província integrava os novos territórios conquistados e habitados por cântabros, astures, lucenses e bracarenses. Segundo ele, essa província duraria desde o 22 a.C. aproximadamente até o 13 a.C. momento no que desapareceria integrada provavelmente dentro da Lusitânia (2000:31-45).



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NOTA: A FIGURA DO GUERREIRO GALAICO QUE APARECE NESTE ARTIGO É DA AUTORIA DE CARLOS ALFONSO FEITA COM MOTIVO DA ASSESSORIA QUE O PROFESSOR ANDRÉ PENA GRANHA FEZ NA GRAVAÇÃO DO FILME "GALLAICUS".

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