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sábado, 2 de novembro de 2024

O Magusto (e não "Samaín"): a autêntica tradição celto-galaica

 

A tradição Celta apresenta quatro festas que coincidem com o ponto central de cada estação, cujos nomes são: Samhain, Imbolc, Beltaine e Lughnasadh, mas esses nomes são gaelicos e não têm qualquer tradição galega, nem sequer são nomes de tradição britónica (galesa, córnica ou bretã) cujos nomes são outros e não por isso são menos celtas. O que têm tradição são as festas por si próprias cujos nomes galegos são:

Magusto (11 de novembro),

Entrudo ou Entroido (festa de fevereiro)

Maios ou Maias (festa de Maio)

Seitura ou Centeada (esta última corresponde com a festa do verão do 15 de agosto que se celebra em todas as paróquias galegas, portuguesas, asturianas e leonesas).

Nas diferentes tradições célticas britónicas os nomes são os seguintes:

(Festa de novembro) Calan Gaeaf (C), Kalan Gwav (Ker) y Kalan Goañv (B).

(Festa de fevereiro) Gŵyl Fair y Canhwyllau (C), Gong Puja (Ker), Emwalc'h (B).

(Festa de maio) Calan Haf/Cyntefin (C), Kallan-Mae/Obby Oss (Ker), Kala-Mae (B).

(Festa de agosto) Gŵyl Awst (C), Golowan (Ker), Gouel Eost (B).


(C=Cymru, Walles, Gales; Ker=Kernow, Cornwall, Cornualha e B=Breizh, Bretagne/Brittany, Bretanha)

A roda do ano céltico em britónico galês

A evidência da correspondência nos dias só há que comprová-lo observando um calendário de outubro de 1582, quando se fez a mudança do Calendário Juliano, para o Gregoriano. Assim do 4 de outubro, passou-se ao 15 de outubro. Com um pequeno exercício contável observaremos que o 1 de novembro juliano corresponde ao 11 de novembro gregoriano atual, com o qual relacionamos imediatamente a data tradicional da festa em questão, que na tradição galaica e portanto galego-portuguesa, recebe o nome de Magusto e variantes, na gaélica Samhain e variantes e na britónica Calan Gaeaf e variantes

Se pomos um nome irlandês (nem sequer gaélico escocês ou manx) é porque Irlanda é um país independente e tem um relato próprio, referência do mundo celta internacional. Se nós tivéssemos relato chamaríamos a estas festas com o nosso nome, não "Samaín", que é uma péssima cópia do original "Samhain"... (aliás a pronúncia é "xouim", não samaín). E, infelizmente , isto vai às escolas para criar galegos que nem vão saber no futuro que era o Magusto (vão pensar que os seus avós celebravam uma festa gastronómica com produtos de temporada), nem vão saber que o português era o nosso galego quando este desaparecer da Galiza. 

 




segunda-feira, 24 de novembro de 2014

O Magusto Celta de Pitões das Júnias














Por José Manuel Barbosa.

Sabido é que o mês de novembro é o mês no que os galegos celebramos o Magusto. Desta vez tivemos a oportunidade de recriar como poderia ser uma celebração desta festividade num passado mais ou menos longínquo e tentamos fazer. Com certeza que há de haver alguma falta ou algum erro mas esses vamos procurar ir limando isso pouco a pouco segundo vamos organizando mais. Queremos deixar com isto muito claro que tudo o que em Pitões fizemos nada tem a ver com qualquer ritual religioso legalmente constituído. Nem somos sacerdotes de nenhuma religião nem queremos sê-lo. Tentamos simplesmente reconstruir seguindo critérios de investigação mas nunca levarmos a cabo atos prescriptivos nem preceptivos.





Contamos-vos: A organização levou-nos semanas... mesmo meses e com a ajuda dos nossos amigos de Pitões e do grupo reconstrucionista Oinaikos Brakaroi onde os nossos também amigos Francisco Boluda e o Xavier Bobillo foram fundamentais no arranjo do evento. O primeiro que fizemos foi reunir à gente no Salão de Atos da Junta de Freguesia para dar-lhes um explicação do que é e significa o Magusto para nós, galegos e portugueses. Com um simples PDF demos uma visão do que para nós é a festa que nos outros países celtas recebe o nome de Samhain na Irlanda, Samhuinn, na Escócia, Hop tu Naa na Ilha de Man, Calan Gaeaf no Gales, Kalan Gwav na Cornualha, e Kalan Goañv na Bretanha) e os vínculos existentes entre todas as variantes atlânticas da festividade.
O positivo do assunto foi que mesmo a gente da aldeia quis recuperar nomes perdidos há milénios sentindo a chamada dos ancestrais e dum passado remoto que vive ainda no nosso subconsciente coletivo.
Acabados de explicar sobre o assunto e torcendo pela denominação de Magusto em vez de pelo nome incorreto mas muito popularizado na Galiza por causa do sistema de ensino "Samaín" procedemos a oferecer ao todos os participantes uma lista de nomes galaicos recolhidos nas aras achadas em época galaico-romana onde aparecem nomes de pessoas, tanto de género masculino como feminino, nomes como: Nicer, Klutamo, Kaitia, Maturo, Loucia, Atlos, Katueno Fronto, Avia, Boutio, Kaila, Klutamo, Ammia, etc... (comentar-vos que de agora em adiante eu sou Katuro).
 Finalizamos o batizado por volta das 14:00 horas que foi quando na Taberna Terra Celta da Margarida e o Bruno pudemos desfrutar dum jantar (segundo a moda transmontana e galega mas pequeno almoço segundo o padrão) onde não faltou o presunto barrosão, os cogumelos, queijinho, alheira, caldo transmontano e picadinho de carne de vitela. Os participantes pudemos desfrutar das conversas e das não mesmos engraçadas tormentas de ideias próprias destes casos que nos levaram a acrescentar atividades para enriquecer e melhorar o evento.De tarde já e preparados os elementos com os que íamos trabalhar vimos aparecer o espetacular Sol de palha e cana que íamos queimar queimar essa noite.
O simbolismo é a queima do Velho Sol, quer dizer, do ano velho. Ao lado dous crânios de vacas barrosãs que simbolizavam a prosperidade duma sociedade que vive entre outras cousas da ganadaria.  Fizemos colares com castanhas e landras (bolotas) e fitas vermelhas para identificar no tempo o primeiro Magusto Celta de Pitões.
Uma vez chegada a noite desfilamos pela aldeia com o estandarte solar e os crânios de vaca pedindo "longa vida aos nossos mortos" e pedindo prosperidade futura.
Chegados ao Largo do Eiró e já com o lume acesso chantamos o estandarte solar no meio da praça e preparamos a churrascada com febras, pão do Barroso, vinho, jeropiga e doces feitos pela nossa amiga Marta Delgado. A música do grupo de gaiteiros fez que a gente bailasse ao redor do Sol Velho ainda com algo de chuva sobre as nossas cabeças. Tivemos o temor de que a palha ficasse húmida impedindo que o Sol pudesse ser queimado. Foi por volta da meia-noite quando queimamos o Sol Velho (o Ano Velho). Ardeu dificilmente por causa da chuva mas ardeu. Posteriormente pudemos desfrutar do Celti-Rock de Pitões, com música de grupos de música celta.Contamos com o seguimento informativo da TV Barroso quem por meio do nosso caro João Xavier e da sua equipa teremos informação pontual para toda a região. Igualmente e por obra e graça da net também vamos poder estar informados em qualquer outro lugar do mundo,... evidentemente, também na Galiza onde com total probabilidade vamos estamos atentos já que este tipo de festividades têm por finalidade recuperar na medida do possível aquelas tradições galego-portuguesas que nos vinculam à natureza, ao nosso passado histórico comum e nos unem mais uma vez neste nos
so espírito céltico e atlântico ao qual nunca deixamos de pertencer por direito.
O resultado final foi ótimo mas serviu também para que outros anos possamos adequar ritualmente e temporariamente o nosso evento com intuito de perdurar no tempo.





sábado, 15 de novembro de 2014

Magusto Celta em Pitões das Júnias


Programa para o dia 22 de Novembro:

 Evento em facebook

12:00-13:00: Batismo celto-galaico. 
Recuperação de nomes celto-galaicos e entrega de fitas da sorte (uma fita anual com cores diferentes).

13:00: Almoço livre.


16:00: Concentração no Largo do Eiró para assistir ao pregão do Magusto.


16:30: Desfile pela aldeia trajados com mandis e capas de burel.


17:00: Despedida do verão.


18:00: Magusto convívio no Largo do Eiró com animação dos gaiteiros de Pitões.


terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Sobrevivência da roda das festividades pagãs na Galiza (1ª Parte)





Por José Manuel Barbosa



A Galiza pertenceu sempre à área cultural atlântica. Isso significa que a sua tradição étnica tem a ver com os povos célticos, como vem de demonstrar a ciência e como se pode ver nos seus costumes populares tradicionais.



Já o nosso Vicente Risco na década de 70 deixou um importante trabalho feito sobre as festas tradicionais galegas, estudadas no seu ritual mas que pouco estudaram outros galeguistas posteriores. O conhecimento da realidade etnográfica, já for relacionado com a cultura material, imaterial, festividades ou ritualismos é de grande importância para a filiação e identificação duma entidade nacional como é a galega necessitada de reconstrução e reconhecimento como matriz tanto do mundo céltico como lusófono.



Para Vicente Risco as festividades importantes da Galiza e consequentemente do Ourense histórico, tanto citadino como regional, seriam as seguintes (VVAA:1979)



  • O Ciclo de Natal
  • O Entroido
  • A Quaresma
  • A Semana Santa
  • A festa dos Maios
  • O Corpus Christi
  • A festa do São João
  • As festas das Paróquias
  • O dia de defuntos



Do nosso ponto de vista e seguindo uma ordenação vinculada ao mundo atlântico do qual fazemos parte, começando portanto pelo início do ano céltico é assim:


  1. Festividade dos Mortos (Magusto)-Sâmanos ou Sâmonis
  2. Ciclo do Natal ou Solstício de Inverno- Yule
  3. Carnaval, Entrudo-Ambiwolka
  4. Ciclo de Primavera-Ostara
  5. Os Maios-Beltónios
  6. Solstício de Verão-Litha
  7. Ciclo de Verão-Lugunástada
  8. Festa da Colheita-Mabon


Faremos um pequeno repasse por cada uma delas.


  1. A Festividade dos Mortos:


Relacionamos esta festa com o Sâmanos, Sâmonios ou Sâmonis, festividade céltica relacionada com o culto aos mortos, que na Galiza se recolhe com o nome popular e tradicional de Magusto, ainda que ultimamente tenha sido adoptado o nome mal traduzido do gaélico irlandês de “Samain” a toda esta temporada (1).



Esta celebração, comum a todo o mundo celta, comemorava a abertura das portas do Além (conhecido como Sidh em gaélico) fazendo que houvesse comunicação entre os vivos e os mortos.

Em origem, as cabeças cortadas ao inimigo eram esvaziadas e uma candeia posta no seu interior para produzir medo àqueles caminhantes que se achegarem até as proximidades da aldeia. Com o tempo e a cristianização passaram a ser nabos em vez de cabeças e ultimamente o nabo deixou o seu lugar a um cabaço fruto da influência cultural norte-americana, denominando-se com o nome de Halloween. Esta tradição foi levada a América pelos emigrantes irlandeses e trazida de volta por causa dos média globais chefiados pelo mundo norte-americano. A festa originária, na Galiza e em Portugal derivou no nosso Magusto e nas Astúrias no Maguestu todos eles celebrados tradicionalmente o 11 de Novembro, data que no antigo calendário Juliano (anterior a 1582) e atual calendário ortodoxo coincide com o 1 de Novembro. Foi o São Martinho de Tours, santo padroeiro da cidade de Ourense e lutador contra as tradições paganistas a quem foi dedicado esse dia como remédio contra as crenças pré-cristãs tão estendidas na Gallaecia alto-medieval e que nunca foram totalmente erradicadas.



Na tradição culinária dessas datas está o costume de comer as castanhas e o vinho novo recém vindimado sendo este um costume que já é recolhido em textos do século XVIII da autoria de estudiosos como Henry Swinburne que no seu livro “Travels through Spain in the year 1775 and 1776” nos conta que os galegos acreditavam em que por cada castanha comida um ânima do purgatório ficava libertada para poder ir ao céu. Mas também na não menos importante tradição ritual contávamos com o costume de pedir pelas portas o presente de Todos os Santos da mesma forma na que se faz hoje nos países onde se celebra o Halloween. Diz-nos o inquisidor António de Guevara e recolhe a cita André Pena (Pena Granha 1991:398-399):



“Nos constó por la visita que el Día de Todos los Santos y al día siguiente de difuntos andan todos los mozos de la feligresía a pedir por las puertas y les dan pan y carne y vino y freixós y pixóns y otras cosas, y que piden así los hijos de los ricos que los pobres; y por ser más este rito gentil que cristiano, ordenamos y mandamos que, de aquí en adelante, ningún mozo vaya aquellos dos días de puerta en puerta a pedir sinó que el beneficiado, el rector, el primiclero y otro que nombrare la feligresía pidan aquel pan y todo lo demás que les dieren lo repartan en la iglesia el día de los finados entre los pobres y necesitados, so pena que el padre o la madre que enviaran a su hijo a pedir aquellos días pague mil maravedís”


  1. O Solstício de Inverno


Nas culturas agrárias a celebração das estações era o normal, recebendo e santificando os ciclos naturais, a produtividade da terra e a mudança de atividades segundo a época. Igualmente o agradecimento à terra mãe e produtora fazia parte da vida quotidiana como uma forma de estar em harmonia com a que fornecia de alimentos e prosperidade à comunidade. Esta festividade conhecida por alguns povos da Europa como “Yule” não era alheia ao mundo celta e por consequente à Galiza. O celebração do nascimento da principal figura do cristianismo liga diretamente com a tradição proto-europeia de nascimento do Sol e com toda uma série de rituais que tanto no tempo antigo como no atual reconhecemos com uma identidade comum que transcende os tempos. Assim, tanto a árvore de Natal, como as “Estreias” ou “Aguinaldo” (assim chamado em outros lugares da península), a recolha do visco ou do azevinho, como da figura paternal dum homem generoso e barrigudo que vem para fazer presentes aos nenos são heranças dum passado nunca esquecido.


A árvore de Natal é uma tradição relativamente moderna na Galiza mas em algumas comarcas da região desde a que escrevemos –Ourense-, existia o chamado “Tição de Natal” do qual existe memória na tradição familiar de quem vos escreve, consistente num madeiro que se deixava aceso do 24 de Dezembro, desde a Missa do Galo em adiante, até o dia 6 de Janeiro, simbolizando o calor que o sol mantinha em momentos em que a obscuridade tinha avançado até o máximo e o Astro Rei nascia novamente representado no madeiro como se este fosse uma autêntica criança recém nascida que chegaria à sua plenitude nos momentos centrais do verão. Passadas as datas solsticiais a cinza guardava-se para botar-lhe à terra como fertilizante ou bem deixava-se para completar a sua queima em momentos de trovoada, tentando com isso espantar aquilo que de assustador tinha a mesma, com o fim de se livrar dos perigosos raios. A crença popular de que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar ainda existe na atualidade entre a gente do rural galego e se os antigos queimavam o tição percebiam que uma vez ardido o madeiro por mão humana as forças da natureza não tinham razão para fazê-lo arder de novo por causa dum lôstrego (VVAA: 1979)



O tempo foi modificando o costume dentro da Europa e do originário tição, mais ou menos grande, da tradição primigénia evoluiu até dar com uma árvore típica da época, de folha perene, à qual enchiam com candeias e maçãs, símbolos de luz e de prosperidade em origem, cristianizados como símbolos igualmente da luz de Cristo e do pecado, respetivamente, mas com uma marcada tradição céltica. O tempo foi modificando essas candeias e essas maçãs pelos posteriores adornos por todos conhecidos, sendo o processo de mundialização da cultura nos últimos tempos quem trouxe a árvore de Natal aos nossos fogares atuais.


Do mesmo jeito esta figura da árvore traz-nos à memória o mítico Hy-Brasil céltico, árvore da vida correspondente com o Yggdrasyl germânico. Essa árvore sagrada será protagonista de muitas das celebrações e tradições da roda das estações dentro da cultura europeia em geral e céltica em especial. É a árvore que roda segundo rodam as estações, correspondendo-se na etapa invernal com uma imagem sem folhas. Na imaginação mítica céltica seriam as raízes que estavam para a cima, enquanto a copa estava para abaixo. O fim é apanhar a força da terra necessária para no verão dar os seus frutos ao se pôr novamente de pé, com as raízes na terra e a copa para a cima. A memória desta ideia subsiste ainda hoje em alguma localidade galega, como é o caso de Rodeiro, na Comarca do Deça e ainda em algumas localidades da Comarca do Arenteiro, já na região ourensana.


Outra tradição interessante ainda conservada até muito pouco tempo na Galiza rural é o das “Estreias”, nome que em outros lugares da península muda pelo de “aguinaldo”. A sua origem pode ser comum com o famoso “ Trick or Treat” da tradição samânica, pelo facto de ir pedindo pelas portas um presente. De forma parecida à do rito anteriormente citado, a pessoa que recebe a visita dos que vêm pedir a Estreia pode dar ou não dar, mas se não dá, os visitantes põem-se a cantar autênticas cantigas de Maldizer contra o avarento vizinho.


Conta-nos Vicente Risco que essa tradição é que se fazia com uma cabeça de touro, uso proibido posteriormente num Concilio de Lugo de discutida existência em época sueva. Risco recolhe um texto no que se fala da condição não lícita destas práticas (VVAA:1979):



“Non liceat iniquas observationes agere Kalendarum neque lauro aut viriditate cingere domos”



Comenta-nos que estes usos nunca foram desterrados, sobrevivendo em algumas práticas atuais embora não relacionadas com a época do solstício de inverno, mas com o entrudo, ou em rituais igualmente atuais e igualmente célticos como o Beltane celebrado na Escócia. Há que dizer que podemos reconhecer que a presença de máscaras feitas como crânios de animais têm a sua origem com probabilidade em épocas muito longínquas, que enterram as suas raízes no xamanismo paleolítico e nas práticas das religiões ancestrais. Só há que ver os primitivos atuais...



Outra das práticas das que queremos fazer referência têm a ver com o visco (Viscum Album), e o azevinho (Ilex Canariensis). O primeiro é uma planta sagrada dos druidas que representa a imortalidade, enquanto o segundo serve para ser guardado na casa em lugar quente para ser oferecido como refúgio às mouras que atendem o chamado do calor do fogar, fugindo do frio do inverno. Elas agradecem correspondendo com felicidade e prosperidade a quem lhe abre as portas da sua morada. O azevinho utiliza-se igualmente e de forma tradicional como remédio contra a esterilidade das pessoas, dos animais e dos campos.



Mas não podemos esquecer uma outra tradição que é a figura dum personagem que tradicionalmente vive na floresta e que por essas datas é que se achega às aldeias para trazer presentes às crianças. Esta figura parece ser comum a toda a cultura europeia conhecido como São Nicolau, Santa Klaus e mais hodiernamente como Pai Natal, popularizado pela influência norte-americana. Na Galiza esta personagem aparece com o nome de Apalpador ou Pandigueiro. Ele é um carvoeiro ou lenhador que habita na espessura da floresta ao lado dos seus perelhos, seres feéricos que o ajudam no seu labor. Um destes perelhos sempre é o que se adianta para levar conta dos nenos que merecem o presente para quando vier o velho e barbudo personagem poder acertar à hora de presentear. Quando ele chegar sempre o faz quando as crianças dormem para poder apalpar as suas barriguinhas e saber se comeram ou não. No caso de estarem mal alimentados ele deixa uma presa de castanhas ao lado.



Como podemos ver, as formas são comuns a todos os personagens acima citados, seguindo uma pauta parecida a todos eles. Na Espanha aparecem as figuras dos Reis Magos que são três e um não só, devido à catolização (já não cristianização) do personagem que com toda probabilidade existiria na maior parte da península Ibérica de tradição indo-europeia (2). Foi provavelmente uma imposição desta tríade como substituto do velho barbudo em épocas passadas dentro do contexto espanhol substituindo à figura tradicional que na Galiza e sobre tudo nas comarcas orientais do nosso País, incluídas as comarcas do oriente ourensano, ainda subsiste. A dia de hoje o galeguismo mais comprometido está a recuperar a figura com certo sucesso. A imagem tradicional dos Reis Magos foi adaptada a uma mentalidade católica cingida a um contexto hispânico.


A data de chegada do Apalpador é o 24 ou o 31 de Dezembro. A primeira é data solsticial polar à do 24 de Junho (3) e portanto fim de estação. O 31 é fim de ano no calendário atual.



  1. A festividade de Inverno


A festividade invernal por excelência no mundo céltico é o Imbolc a celebrar durante o meio da estação, concretamente o primeiro de fevereiro. No calendário cristão relacionamos esta festividade com o ciclo que vai desde a Candelária até o Carnaval ou Entrudo, de grande popularidade e muito tradicional tanto no País como na região ourensana onde conta com pontos importantes de celebração como é o triângulo Ginzo-Verim-Laça. A capital da região, a cidade de Ourense sofreu muitos altos e baixos no transcurso da história recente, tendo-se exercido a censura durante a época franquista pelo uso e prática da liberdade e da crítica. A dia de hoje conta com grande popularidade.


Como todas as festas que estamos a descrever, tem as suas raízes na roda das festividades estacionais das sociedades agrárias como é a celta em geral e a galaica em particular. Reconhecemos o seu caráter ritual em festividades e celebrações ancestrais do nosso contorno etno-cultural atlântico . É, no entanto, a sua etimologia latina. Ou assim nos parece dando uma olhadela por cima. Entrudo ou Entroido, diz-se ser proveniente do INTROITUS latino, que significa “entrada”...no bom tempo, na primavera que se visualiza no horizonte. A outra palavra que define esta época festiva é a de “carnaval” provavelmente originada em “CARRUS NAVALIS”, quer dizer, “carro (de batalha) naval”. Aparentemente não parece muito acaído, pois a festividade não é exatamente uma guerra de barcos, mas se achamos que poderia ter a sua origem numa velha prática de construir carros ou barcos de madeira com rodas, fazendo que se confrontassem entre si de forma festiva, simulando batalhas navais e jogando-se ramalhos, paus e material vegetal, poderia ter mais lógica. Seria o conhecido como o “Carro do Entroido” que às vezes viajava dumas localidades a outras num ritual de fertilidade vegetal que servia como pedido à natureza, não isento de caráter mágico com o fim de fazer produzir à terra. Faz-nos lembrar a festividade típica em Ourense da “Batalha de flores”, típica da festa da cidade embora em outra época do ano.


Dentro desta tradição há o costume de se disfarçar escondendo-se atrás duma vestimenta que oculta a verdadeira personalidade. Talvez atende mais a uma adatação ao mundo cristão do ritual ancestral no afã de livrar a cabo ações nem sempre bem consideradas do ponto de vista social ou religioso. Estas ações poderiam perceber-se como psicologicamente necessárias por ser uma catarse anterior à etapa sacrificial da Quaresma. Por outra parte, se investigarmos nos vegetarianos atuais e algumas outras crenças que convivem connosco fora do dogma católico, a não ingestão de produtos animais parece ter como objetivo o refinamento do espírito e a sutilização da energia do próprio corpo permitindo a elevação da alma. Se a isto acrescentamos que era uma prática predicada e observada por algumas filosofias religiosas arreigadas na Galiza, como é o caso do priscilianismo, que tentava harmonizar ou sincretizar o culto ancestral, autótone e tradicional galaico com o recém chegado cristianismo, podemos chegar a pensar que essas supostas origens paleo-cristãs podem ser retrotraídas a épocas bem anteriores, envolvendo a festividade mesmo num contexto temporário e ritual céltico cujo conhecimento nos é ainda em parte desconhecido. Se uma sorte de Quaresma pré-cristã existia, deduzimos que a catarse anterior poderia igualmente ter existido. O que sim podemos deduzir é a função de ritual de fertilidade encarnado nas figuras dos mecos que se queimam como símbolo do rechaço ao velho. Consequentemente, é também um recebimento da iminente primavera na que o novo parto e florescimento da terra vai trazer novas colheitas e renovada prosperidade.



Tudo aquilo que para o Carnaval representa uma inversão dos valores é uma preparação para que no seguinte mês e meio a gente possa aguentar a introspeção e a vida interior prévia ao acordar da natureza..



O Carnaval é a época posterior á festa da Candelária datada em 2 de Fevereiro. O dia anterior é o da Santa Brígida, representação católica da Brigit céltica ou o que é o mesmo, a Lua, a luminária feminina a quem se lhe rende culto no ponto polar do calendário do Sol-Lugh.



Na tradição cristã, este culto feminino de fertilidade da terra tem o seu correlato na apresentação por parte da Virgem Maria do seu filho Jesus ao templo. É uma festividade de marcado signo feminino e na tradição céltica do Imbolc, Oimelc ou Imbowolka era época de grandes comelhadas, grandes festas e excessos herdados na tradição carnavalesca galega.

(Continuará) 

Comentários


(1). O nome do qual se apanhou esta má adaptação é o de Samhain, palavra irlandesa que designa o mês de Novembro. A nossa pergunta é: Porque adoptar o nome de Samain e não um derivado do Hop-tu-naa da Ilha de Man, do Calan Gaeaf galês, do Kalan Gwav córnico... Na Galiza existe um nome e esse é o de Magusto. Porque não dar-lhe o seu valor ao lado de todos os anteriores e não adoptarmos um não tradicional do País? Talvez não seja o suficientemente digno, conhecido ou corretamente relacionado com o mundo celta? Porque é tão facilmente acolhido pelos neo-galeguistas de maioria absoluta dos colégios de primária? De existir um nome na Galiza derivado do nome primordial Sâmanos/Sâmonios/Sâmonis seria algo parecido ao nome da formosa vila galega de Samos cuja origem etimológica provém justamente dum Sâmanos medieval



(2) Há que salientar a figura do Olantzero no País Basco que ainda o considerarmos um País fora do contexto indo-europeu pela sua filiação linguística há que salientar a sua origem céltica anterior à sua basconização como nos tem informado não poucas vezes o celtólogo André Pena.
  
(3) O São João, também festa solsticial embora astronomicamente não o seja já que seguindo critérios científicos esta é o 21 de Junho (ou 21 de Dezembro no caso do inverno). O 24 de Junho é dia no que começa o debalar ou queda do sol, como o 24 de Dezembro é o momento em que o dia começa o seu avanço sobre a noite.

Por outra parte, comparando o calendário Juliano com o Gregoriano calculamos que o fim de estação, 21 de Dezembro seria o primeiro dia do começo do ano segundo o cômputo romano herdado pela igreja e pelo calendário juliano, correspondente ao atual 31 de Dezembro no calendário gregoriano a partir do 1582 em diante.


 
Bibliografia:



  • VVAA. Dirigidos por Otero Pedrayo, Ramón: História de Galiza. III Tomos. Tomo I. Etnografia. Cultura espiritual de Vicente Risco. Akal Editor. Madrid.1979
  • Henry Swinburne: Travels through Spain in the year 1775 and 1776.
  • Pena Granha, André: Narón, un Concello con historia de seu. Tomo I. Ed. Concello de Narón. Narón.1991
  • González Pérez, Clodio: As festas cíclicas do ano. Museo do pobo galego. Samtiago de Compostela. 1991
  • Green, Miranda: Simbol and Image in Celtic Religious Art. Edit.Routledge. London and New York. 1989
  • Green, Miranda: Mitos celtas. El Pasado legendario. Akal. Madrid. 199

     O Apalpador, uma figura tradicional do Natal galego:http://www.agal-gz.org/modules.php?name=Downloads&d_op=getit&lid=152

domingo, 13 de novembro de 2011

A viagem ao Além em Eire e na Kalláikia


Por David Outeiro

1-Echtra Nerai; A aventura de Nera, o guerreiro valoroso.

Um antigo escrito irlandês do Ciclo de Ulster conta uma velha história ao redor do tenebroso tempo do Samhain. O mítico relato fala-nos do Echtrai Nerai. A aventura de Nera. Esta história é um velho legado que fala das aventuras dum valente guerreiro celta. Mas isso sim, ainda que semelhe velho e longínquo, chegaremos a ver como os sucessos que descreve encaixam com o velho Sámanos galaico e o Magusto atual. As portas  do além estão abertas, vejamos o que nos trazem...
  
“A noite do Samhain chegara ao reino de Connacht e a Óenach desta celebração transcorria na Rát Cruachna. O rei Aillil e a rainha Mebd estavam presentes neste palácio. O rei dispus-se a pôr a prova a sua gente oferecendo a sua valiosa espada com empunhadura de ouro a em troca duma façanha. A sua espada seria para aquele que ousasse a pôr uma fita aos presos que foram executados no dia anterior. Os prisioneiros foram julgados e sentenciados a morrer enforcados durante a assembleia do Samhain. 

Os presentes não puderam evitar a surpresa perante tal oferecimento pois aquela era uma noite muito perigosa e aterrorizante .Já sabemos que a barreira entre o  mundo dos vivos e a dos mortos estava a esvaindo-se. Mas havia um valente guerreiro presente na celebração: Nera. Foi ele quem aceitou a proposta.


Nera coloca-se uma armadura e dirige-se ao lugar onde se acham os enforcados. Enquanto lhes colocava as fitas, um dos enforcados disse-lhe ao guerreiro que teria que levá-lo a beber. Nera aceita e o enforcado elogia o seu comportamento. Por causa disto, terá que levar o enforcado às suas costas até achar água para ele.

Seguidamente o guerreiro levou o enforcado para uma casa mas o defunto rejeitou entrar posto que esta estava rodeada por um lago de fogo. Continuaram até uma segunda, mas acharam-na rodeada por um lago de água, pelo que se vem obrigados a continuar. Chegaram a uma terceira casa, onde por fim, o defunto satisfez a sua sede. Após ter bebido o terceiro copo, o enforcado cuspiu sobre os rostos dos moradores da casa provocando neles a morte. Perante isto, o Nera devolveu-o a forca.

Nera retorna e vai na procura de Aillil, mas acha a fortaleza destruída pelas tropas do Sidh, o exército do Além. Nera após esta situação penetra na Cova de Chruachain, uma das entrada ao Sidh. Dentro, já, dá com as cabeças cortadas da gente da Rát Cruachna. O guerreiro é descoberto pelos habitantes do Sidh e para ficar, vai ver-se obrigado a fornecer lenha.


Com o tempo e antes do seguinte Samhain, a companheira de Nera no Sidh conta-lhe que viu uma imagem da destruição do Cruachna mas que não era real. O que Nera viu no Samhain era uma visão, uma premonição do que ia acontecer no próximo Samhain. Nera voltou com a sua gente chegando a receber a espada do rei. Mas o tempo que tinha passado no Sidh não se correspondia por excessivamente dilatado com o tempo no mundo dos homens. A sua gente foi advertida e preparam-se para atacar o Sidh quando se produzisse a nova apertura deste durante o Samhain. Os guerreiros de Connacht venceram aos do Sidh e conseguiram três importantes tesouros ainda que o valente Nera ia ficar no mundo do Além até o fim dos tempos”.

Como podemos comprovar nesta narração, Nera é um guerreiro que têm a capacidade de se deslocar entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos tal e como analisaremos. A etimologia do seu nome remete-nos a "força, grandeza" mas também a "chefe". No velho galês existe a palavra "nar", quer dizer, chefe. No  gaélico  "ner"  significa javali, animal relacionado com a fortaleza e os guerreiros. Na antiga Kalláikia, ao sul do Cabo Fisterra, existia uma treba chamada "Neros" (Nerii em latim) relacionada também com este significado. Neros/Neroi provém do celta NERIOI que significa "virís, cheios de força masculina"; adjetivo de Neros "varão, macho". Há que apontar a que na narração do Echtra Nerai, o enforcado louva a Nera chamando-lhe "viril" por ajudá-lo. Neros/Neroi é o nome que se dava a si própria esta treba mas eram conhecidos por outras trebas com o nome de  Supertamaricos em época latina, anteriormente como ALLOTAMARIKOI ou ALNOTAMARIKOI (As tribos calaicas, Higino Martins. p 191). Este povo, recebia o seu nome porque morava para além do Tâmara-Tambre, um rio temido, perigoso e  relacionado com o além e a deusa tenebrosa. Segundo diz o Higino Martins na sua obra, essa é a origem do nome do rio, a designação de tenebroso... semelhante ao Hades, o escandinavo Gjallr, ou o rio de ondas negras que há que passar para chegar ao país do além: Tuoni. Nomenclatura similar recebe o famoso rio Tamisa de Londres.

Outro aspecto interessante de Nera é o facto de ter que atar aos enforcados. O facto de os atar, suporia que suas as Ânimas não poderiam abandoar o corpo que empregaram durante a sua vida. Mas a sua vez pode ter um sentido psycopompo, quer dizer, de levar as Ânimas de cara ao além. Este vinculo entre os laços e a condução das Ânimas ao outro mundo está presente no deus gaulês Oghmios (irlandês ogma) que possui uma cadeia que atravessa a sua língua e pela que leva aos homens atados pelas orelhas. Mas esta cadeia pode ser uma representação simbólica do seu caracter persuasivo e sábio. Oghmios têm a capacidade, portanto, de persuadir os homens e levá-los até os confins da terra.


O caracter das ligaduras e do seu carácter negativo como anudador da Ânima achamo-la nas crenças galegas atuais. Quando se produz um enforcamento, a gente evita falar da vitima, já que as Ânimas dos enforcados permanecem no lugar. Isto é devido a que o facto de se suicidar por meio duma soga, supõe que o seu espírito permanece na zona manifestando-se em ocasiões por meio de pequenas luzes que ficam no lugar. A aparição de destas luzes relaciona-se a uma morte violenta, aparecendo até que se abençoe o lugar ou se solucione o caso. Com estas crenças topou Vicente Risco: "No Castro de Caldelas suicidou-se umha pessoa e a pouco viram-se umas pequenas luzes no lugar do suicídio". Outro aspecto da mitologia galega é o da Ânima que se aparece para que lhe "rachem o hábito" e que a sua Ânima possa ser libertada. Mas há que ter cuidado, agindo contrariamente à recomendação do defunto no que diz respeito da forma de rachar, pois senão pode-nos levar com ele. No II Concílio de Braga, ano 572, fica interdito: "Não seja lícito aos bispos e padres fazer encantamentos e ligaduras".

2-Nera, Oghmios, Cuchulainn e os seus paralelismos na Kalláikia
No que diz respeito ao aspecto das ligaduras e da guerra aparece no "panteão" galaico na figura de Bândua. Um achado descoberto no acampamento romano de Banhos de Bande (Aquis Querquernis) remete-nos a uma representação dessa deidade que deu nome ao topónimo do concelho. Consiste numa figura dum deus guerreiro que apresenta uma corda atravessando o seu peito. Esse laço que envolve o seu peito corresponde-se com o de Oghmios e inclusivamente com o nome de Bândua os quais estám relacionados: *bhend, "atar" (A. Pena Granha). Essa anudadura supõe uma ligação, um vinculo entre as fratrias que lhe rendem culto. O seu nome aparece em relacionado em vários epítetos que denotam as suas qualidades: Aposolego "forte na vitoria", Cadogus "o lutador", Aetobrigus "a fortaleça dos fogosos" ou "fogosamente forte", Roudeacus "vermelho" (cor relacionado com os guerreiros) etc. O epíteto Aposolego é claro em relação à sua força na batalha. Citando a Blanca García-Fernández Albalat (1990, pp 185-1909; "A vitoria neste deus não seria mais que a derrota do inimigo após a sua imobilização imobilizando-lhe os membros com os seus laços mágicos" .Outra citação da mesma autora diz: “estão registradas estas capacidades que achamos nas divindades indo-europeias: a de atar, ligar, implícita no seu nome e a guerreira derivada dos seus epítetos e da "interpretatio". Por estas causas devemos deduzir, que existe alguma semelhança entre Bândua e este tipo de divindades. Ora bem, se é evidente que as comparações com os deuses dos laços no mundo indo-europeu dão explicação ao vínculo existente entre as ligaduras mágicas e a guerra, ainda permanecem sem resolver duas caraterísticas que atingem a Bândua: a confusão que se apresenta entre Marte e Mercúrio (39) e a relação com as comunidades. A primeira ao nosso entender só podemos resolvê-las no seio do panteão celta e a sua particular concepção da guerra e a magia. A segunda incógnita desvenda-se procurando de novo no seio das religiões indo-europeias, com o fim de pesquisar se os deuses dos laços dirigem a um grupo de gente determinado ou se é que se formam confrarias seguindo ou imitando os deuses dos laços”. No que diz respeito da sua posição, há que dizer que é um deus de primeira função ao modo do Odin germânico mas também se lhe atribui o aspecto obscuro da função soberana Dumeziliana. Bândua é um deus guerreiro mas também pode estar relacionado com a agua, de facto existem banhos termais na zona de Aquis Querquernis. A mesma relação pode estar presente em Bormánico, do proto-indoeuropeu “bhreue” (ferver, violenta efervescência). Mas temos de ter em conta que Bândua têm relação com Coso e com Marte, de facto foi identificado erroneamente com este último por desconhecimento dos arqueólogos ou historiadores. O deus aparece "recrutado" pelas tropas romanas por causa do seu carácter, testemunhado pelo epígrafe "Martis socio Banduae". Bândua e Coso são duas versões galaicas, ao meu ver, da mesma divindade. No caso de Coso, que aparece onde não aparece Bândua e ao invés, trata-se igualmente dum deus guerreiro mas também é um deus vinculado as aguas e à confluência destas. Este aspecto vemo-lo no seu "irmão" do Norte da Grã-Bretanha e França: Condatis. Estes aspectos aparecem claramente em Aquis Querquernis. Um deus guerreiro vinculado a fratrias galaicas que pertenceriam as tropas romanas mas também ao rio e a aguas termais. Isto não é estranho, pois muito do que se tem por romano na Gallaecia realmente é uma nova forma de se verem refletidas na cosmovisão galaica celto-atlântica: Novos jeitos de velhas formas.


A morte do grande guerreiro Cuchulainn em Muirthemne achega-nos um dado de muito interesse: Quando ao  guerreiro irlandês lhe chegou a sua hora no campo de batalha é atado pela cintura a uma coluna de pedra. Morre assim o guerreiro dignamente, marcado o trágico final por um corvo que se pousa sobre ele. Esse corvo é Babd (da tríada de Morrigan e Macha), o mesmo corvo de mau agoiro para os galegos, essa velha deusa chamada na mitologia galega " A Lavandeira" que a sua vez tem relação com um pássaro. Achamos de novo a mesma simbologia vinculada à guerra e à última viagem guiada por Oghmios. Mas se analisarmos a história de Cuchulainn podemos tirar dados de interesse. O nome original deste heróico personagem era Setanta. Este, numa ocasião, de criança, foi visitar o seu pai adoptivo à casa do ferreiro Culann. Nesse momento, teve de se enfrentar ao cão do ferreiro, vendo-se na obriga de o matar. Setanta comprometer-se-ia a fazer de guarda a Culann por ocasionar a morte do seu cão e foi por isso pelo que adoptou o nome de Cuchulainn: o cão de Culann.


O professor André Pena Granha diz ao respeito: "Setanta "Caminhante" e "Ogmios" o caminho são uma mesma coisa, representa ao solar deus no seu decadente e psychopompos aspecto. A acidental' morte do cão de Culann intensifica o caracter psychompompos. A última fase do Deus, como a de Odin, é a sua morte, defendendo aos seus colegas. Tanto se ata à árvore para morrer lutando, quanto os seus laços servem logo para arrastar aos seus colegas caídos em combate ao Além". Blanca García-Fernández Albalat diz ao respeito "É muito possível que existisse um vínculo muito forte entre Ogmios e Cúchulainn, pelo menos de tipo funcional. Cúchulainn é filho de Lug do mesmo jeito que Hércules é de Júpiter, e por outra parte, Ogmios na Gália é qualificado de Heracles”.

Voltando ao Echtra Nerai, achamos muitos aspectos dos que falamos no anteriormente. Nesta noite, Nera, leva aos defuntos á procura duma petição ao mundo dos vivos. Mas só podem aceder à terceira casa, o último passo do sol, o da decadência do astro mas também pode ter a ver com as mágicas atribuições deste número. O paralelismo do morto é o mesmo dos disfarces, de pintar-se a cara com chamiços no Magusto e pedir comida pelas casas, é o facto de dar uma oferenda as Ânimas a cambio da tranquilidade (a parte pelo todo). Infelizmente, na historia de Nera, o enforcado não ficou contente pois considerou que a agua que lhe deram de beber não era viável. Depois Nera tem uma visão e acesa ao mundo do Sidh, onde supostamente estaria a sua gente decapitada. Para entrar, acede por uma cova, uma forma de aceso ao mundo dos mouros como conta a lenda da "cova da coruja", o sidh galego. Já dentro, Nerai é aceitado ainda que tem a obriga a levar lenha. O guerreiro inclusivamente chega a casar lá. Já sabemos que os galegos que casam com a moura ficarão com ela no grandioso mundo dos mouros. Volta de novo a Ráth Cruachna, com um tempo que não se corresponde com o passado no sidh, alteração que também se produz na mourindade. Finalmente a sua gente acesa a este mundo, vence, e leva três tesouros. A procura dos tesouros são é constante da mitologia galega, sempre ao redor das mâmoas e dos castros, e no contato com os mouros.

Acho de interesse fazer de novo uma reflexão com respeito à etimologia do Magusto. Como apontei anteriormente sobre o Sámanos e o Magusto, Mag é um termo que faz referencia a achandar ou chaira. A chaira é para os povos celtas uma alegoria do mar, o qual representa ao Além. É por isso que as Óenach de Irlanda ou as Oinakoi da antiga Kalláikia se faziam em lugares de chãos. Mas essas chairas estavam num lugar elevado e fronteiriço. Precisamente essa relação existe na mitologia irlandesa com a designação do Além como Mag Réin, a chaira do mar. Se o Magusto se faz em outeiros, lugares fronteiriços e visíveis desde vários pontos duma ou varias paróquias, isto leva-nos a este carácter sacro de chaira e altura como comunicação com o Além. Pois bem, se a característica do Magusto é a sua realização nestes encraves, poderíamos estar a falar da raiz Mag como chaira com estas conotações?. Temos também o elemento do fogo: Ustus, enceso pelos druidas na óenach de Tara. Mas também não podemos excluir a hipótese de que estejamos ante um termo que provenha duma etimologia cruzada com umas características que definem o festejo: Mag (celta) como chaira; Mago (latino) como druida e depois o elemento do fogo.

3-A pervivência das divindades condutoras de Ânimas na religião e mitologia galegas

Estamos a falar portanto de que na antiga Eire e na antiga Kalláikia não só existiram os mesmos festejos mas também uma mesma base mítica com semelhante simbologia. Bândua é um guerreiro, um deus relacionado com as fratrias galaicas, mas também com o deus Oghmios. Essa relação também existe em Nerai, um valente guerreiro que é capaz de viajar entre o mundo dos vivos e o mundo dos espíritos, do Sidh. Finalmente, diz a história, Nera ficará no Sidh até a fim dos tempos.

Mas todo isto do que falamos não ficou no passado. Há evidências as que apontam a que São Trocado ou Torquato, santo ao que se lhe rende culto num monte duma paróquia de Bande, posse ser a forma cristianizada de Bândua. As relíquias deste santo, acham-se, supostamente em Santa Comba de Bande.


Nesta mesma igreja, existia um ara consagrada a este deus, hoje desaparecida. Temos de observar que no irlandês antigo, “torc” equivale a javali. Na Península Ibérica achamos o epígrafe TVRCAVDI, quer dizer "rico em javalis". Portanto, a nomenclatura deste santo pode-nos remeter novamente à relação entre  o javali, o guerreiro e a fortaleza, presentes em Nera e em Bândua. Mas Torquato, tem a ver com "portador de torques".


Outro aspecto do deus, é a relação com o carácter militar do torques, traçando uma relação portador-divindade guerreira. Esse vínculo está testemunhado em alguns epígrafes, entre os quais está o de Fornos de Algrodes (Beira alta, Portugal) que diz "tatideaicus" (pai dos condecorados) .

No que diz respeito de Oghmios e a condução de Ânimas ao Além não podemos finalizar este artigo sem falar de certas aparições nocturnas: A estântiga, companha, estadeia, hoste etc.

Na mitologia galega do S XX-XXI ainda temos presente o carácter deste deus. A companha aparece como uma comitiva de espíritos que nos pode levar com ela no seu vagar eterno. Em algumas ocasiões, a comitiva aparece guiada por um fantasma alto chamado " A Estadeia". Este fantasma é provavelmente a herdeira de Oghmios-Bândua, deus psycopompo.

Outra evidencia temo-la ao redor da crença de que a hoste pode ir dirigida por Bode .A hoste é um exército de almas, uma das aparições da Nossa Terra, tal como se iriam os espíritos das antigas fratrias galaicas. No caso de Bode acho que se pode tratar do nosso Bândua. Há que lembrar o carácter de ligação *bhend e de liderado de fratrias. Os autores do magnífico "Dicionário dos seres míticos galegos" associam a Bode com Odin; Wode ou Wotan. A similitude entre Bândua e Odin é evidente e mais quando os celtas e germanos são povos próximos, mas acho que há que ter em conta a hipótese de que Bode seja em realidade Bândua. Em algumas ocasiões estas comitivas aparecem nos lindeiros paroquiais, nos velhos territórios sacros celtas. No seu percorrido aparecem nas encruzilhadas, como os "lares viales". Não há muita dúvida com respeito a que estas aparições semelhantes ao “ankou” bretão ou a Sluagh escocesa  são a lembrança dos guerreiros conduzidos por Oghmios ou Bândua  que agora saem na sua eterna marcha ao cair a noite. Mas isso, caros amigos, já é outra historia.
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