sexta-feira, 8 de junho de 2012

Entrevista a um xamã galaico: Lobo de Lug (Primeira Parte)

Entrevista realizada por David Outeiro:

1 – Porquê é que decides partilhar a tua experiência? Porquê apresentar-se com um pseudónimo?
R – Serei bem directo: - Porque tu me pediste e, sendo assim, é porque é tempo de o fazer, não é verdade? O ser Lobo de Lug, é o que sou, simplesmente, sem qualquer questão de pseudónimo. O Lobo de Lug é quem te fala, respondendo às tuas perguntas.
2 – Como é que foi o desenvolvimento das tuas capacidades e com anos? Tiveste algum mestre ou mestra na tua iniciação?
R – Durante toda a minha vida, em nada tive outra mestra que a própria vida. Desde que me conheço, e conheço-me há muito tempo, aprendi a aprender sozinho, ouvindo tudo e vendo atentamente o que me rodeava, e esta “qualidade” esteve a ponto de me custar a vida ao atravessar, sem me dar conta que o fazia, uma rua de Lisboa, a que mais propriamente devia chamar de avenida. Este facto, divertido, aconteceu por não estar “neste mundo” nesse momento. Mais engraçado é que o condutor do carro era um grande amigo que da janela me gritou: - Quase te mandava para esse mundo em que vais a pensar, maluco!
Aos cinco anos, após a morte do meu Pai, o meu médico recomendou à minha Mãe que me levasse para fora do Porto, para eu não estar no ambiente que se respirava lá por casa, dado eu ter uma sensibilidade muito grande a tudo quanto me rodeava. Assim fomos para uma quinta de umas tias, que eu adorava, no Ribatejo, mais propriamente em são João da Ribeira. Era um casarão velho escuro, cujos corredores eu percorria durante a noite, nos meus ataques de sonambulismo. Poucos dias após a chegada, caí doente e o médico de Santarém que foi chamado para me ver, disse não perceber o porquê da minha febre e conversou com os familiares, dizendo que não havia mais nada a fazer senão esperar. Como mais tarde me contou a minha criada Clementina, a que nos criou a todos e estava particularmente ligada a mim, eu falava que estava ali no quarto o meu Pai e uma Senhora vestida de branco. Dizia-lhe que tivesse cuidado ao andar pela habitação para não embarrar neles. Decidiram então que a Senhora era a Virgem de Fátima, muito em “moda” naquela época, 1950, e foi um carro buscar um garrafão de água bendita à Cova de Iria. Com essa água, a Clementina deu-me um banho e, a partir desse momento, comecei a arribar e fiquei bom. Logo foram feitas promessas, rezadas missas, benzeduras pelo cura da terra. 
Mas a Clementina sempre me disse que quem me tinha curado tinha sido a Senhora da Fonte, e que eu devia, um dia, ir à fonte agradecer-lhe. Fi-lo muitos anos depois.Antes desta época, durante ela e até aos 11 ou 12 anos, passava a vida a ver “coisas” que não me pareciam estranhas mas, quando as contava à minha Mãe eram transformadas em sonhos, coisa que eu não entendia, pois estava bem acordado quando as via.
Aos 10 anos fomos viver para uma quinta, na Chamorra, perto de Canelas e aí havia uma quantidade de crenças em bruxas, curandeiras e videntes, sendo a Sra. Maria, Mãe da caseira, uma das ditas cujas, mas a meu ver mais curandeira. Chamava-me o seu Menino de Luz, ou Luzeirinho. Quase todos os dias dava-me para beber água de uma bilha, não me deixava beber da torneira, fazendo o mesmo ao neto, o meu grande amigo Manel. Eu já sabia que as estrelas não tinham luz fixa, e os planetas sim. Então, nas noites de Verão, com o céu bem estrelado e o piar arrepiante, para todos das corujas, eu juntava o Manel, o António, a Fernanda, a Marinha e o meu irmão Zé Pedro, e íamos para o campo fazer rir as estrelas…A coisa consistia em eu apontar as estrelas, fazer uma reza que já não recordo mas inventada para a ocasião e apontava para o firmamento. Eles seguiam a direcção do meu dedo e viam a estrela a cintilar, ou seja, a rir-se. Era muito respeitado por isso. Ahahahahaha! A Sra. Maria dizia que os outros não podiam apontar as estrelas, quando nos reunia-mos ao lume a ouvir as suas história, pois se o fizessem ficariam com as mão cheias de cravos. Só eu o podia fazer saindo incólume do acto. Isso aumentava a admiração que me tinham. Falo com saudade desses tempos de felicidade.
Um dia, andando com o Manel às pinhas, ouvimos um estranho trovão, num dia de Sol. Ficámos aterrados e corremos para casa que ainda ficava longe, pela viela por onde, nas noites de luar, passava a Porca dos Sete Porquinhos, assim se chamava o caminho. Chegados, perguntámos se tinham ouvido o trovão e ninguém tinha dado conta de tal. Fomos contar à Avó Maria e ela disse que não devíamos ir para o pinhal sós pois ali andava o Dianho e o estrondo era ele a falar.
Comecei então , numa leira, a construir uma lura grande, onde eu cabia, mas a terra de cima estava sempre a aluir. Então o Manel arranjou uma tábua grande, roubou-a ao Pai o Augusto caseiro, o que lhe valeu uma bofetadas, e colocámo-la por cima do buraco. Depois de acabada a escavação e devidamente alargada, para entrarmos os dois, tapámos a parte de cima com terra. Aquele buraco foi o meu lugar de refúgio durante muito tempo. O sítio onde de escondia, adormecia, sonhava e me sentia perfeitamente bem. Mais tarde, a filha de uma amiga inglesa da minha Mãe disse-me com a maior das naturalidades que eu tinha aberto uma porta para as Fadas.
A Clementina e a Sra. Maria, decidiram levar-me à Bruxa de canelas, que era muito conceituada, para que ela visse o Luzeirinho… e ali soube, sem perceber nada, que tinha o corpo aberto. Adorava lá ir. Apareciam umas mulheres que me punham a mão na cabeça, falavam muito umas com as outras e, maravilha, cobriam-me de doces e refresco de limão com mel. A condição para que estas visitas se pudessem prolongar, era o mais completo segredo, sobretudo no que dizia respeito à minha Mãe.
Deixo isto para fazerem uma pequena ideia de como fui crescendo…
3 – Podias falar um bocado sobre a tua experiência com os xamãs San durante a guerra?
R - E cresci tanto, que acabaram por me meter numa guerra, estúpida, como todas as guerras, tendo partido para Angola.
Eu, a partir dos dezassete anos, comecei a dar-me com um grande homem, o Jorge Dias, antropólogo a quem tanto se deve, e aos seus amigos, os irmãos Veiga de Oliveira, que andavam pelo país a fazer recolhas por conta própria.
Assim cheguei a África com alguns conhecimentos e muitas ganas de conhecer novas civilizações, tribos, costumes e, como me haviam ensinado, com muito respeito por tudo quanto visse e ouvisse.
Para abreviar, três anos são um livro, digo eu, comecei a fazer patrulhamentos na região dos Muílas e dos Mucancalas, povos que maravilharam o rapazote de vinte anos que eu era. Os livros, as conversas, as aventuras, estavam abertas diante dos meus olhos. Por essa altura, a PIDE começou a interessar-se por mim, infelizmente, pois todos os apontamentos que vinham na minha mala de porão, no regresso, desapareceram do navio sem deixar rasto. Nunca me fizeram outro mal, mas esse foi revoltante.
Mas o que queres saber, aconteceu mais tarde, no norte de Angola, numa povoação de nome Quiquiemba, para onde fui destacado com o meu pelotão.
Apreendi que havia outras coisas na vida, para lá do que me tinha ensinado a sociedade “civilizada” que eu habitara.
Estava de conversa com um século, um velho, durante a pesagem do café da sanzala. E dizia-lhe eu:
- Século, porque não cultivas o café como os brancos, com sombra?
- Para quê?
- Ora, para teres mais café.
- Para quê?
- Para ganhares mais dinheiro.
- Para quê?
Foi como uma paulada na cabeça. Que besta eu era. Que vida tinha vivido? Para que me serviam tanto estudo, tanta filosofia, tanta merda? Em menos de um minuto tinha-se aberto outro universo diante de mim.
Fomos grandes amigos, o século e eu, até à sua morte, dois meses depois. Decidi fazer-lhe um enterro digno do grande homem que era. Coloquei o caixão feito de ramos de palmeira, onde meteram o corpo envolvido num cobertor, em cima de uma viatura do exército e conduzi-o para a cemitério. Foi feito o enterramento em silêncio, o que me surpreendeu, pois sempre acompanham os mortos com danças e batuques. Sobre a campa deixei-lhe uma garrafa de White Horse, dizia que bebida de branco iambote, era boa, e os familiares deixaram as suas oferendas. Passados dois dias, apareceram em minha casa uns velhos para falar comigo, muito excitados. Disseram-me que o século andava na aldeia e assustava toda a gente. Não entendi, mas acabei por perceber que tinha cometido um grande erro. Ao levá-lo de carro, a alma tinha ficado para trás. Foi assim que o desenterrámos, voltámos a trazer para casa e depois, no dia seguinte fizemo-lo regressar ao descanso, desta vez numa marcha dançada ao som do batuque, das lamúrias das carpideiras e dos cantares das mulheres. Descansava em paz e eu aprendera a respeitar as tradições dos outros.
Na semana seguinte fui convidado pelos velhos para uma cerimónia. De principio tive medo e pensei levar dois soldados armados comigo, mas depois achei que estava a ser mais uma vez ridículo. Fomos para baixo de uma palhota sem paredes laterais, afastada da povoação. Dois troncos de árvore, paralelos, ladeavam uma fogueira sem chama, que deitava um cheiro desagradável e sufocante. Ali nos sentamos, eles falando uma língua incompreensível, eu só sabia meia dúzia de palavras da sua língua, e eu protestando com o fumo, mudando de lugar sempre que a fumarada vinha para mim, o que lhes provocava muitos risos. Comemos peixe seco com fuba e bebemos bastante marufo, seiva de palmeira pura. Comecei a ficar tonto, mas estranhamente lúcido, com uma visão de pormenor espantosa e com um ouvido que captava muitos mais sons que aqueles que eu ouvia usualmente. A minha cara deu origem a uma conversa surda entre os velhos e ouvi falarem em Nzambi, ou Zambi, que é deus, o deus deles evidentemente, pois não estavam, felizmente cristianizados. Deram-me a fumar um cachimbo cheio de tabaco misturado com maconha, erva, e pouco a pouco entrei num mundo que posso considerar divino.
Entrei em contacto com Yami, que na língua dos Yorubas significa minha Mãe, e segui as suas instruções.  Quando um homem entra em contacto com a Terra, depois de ter pedido permissão a Onilé, pode ser possuído por todo o universo e explicaram-me que eu podia ser como o vento forte ou como uma briza boa. Se fosse o vento forte teria uma energia destruidora e faria coisas más, tendo de ser julgado pelas Yami que estão debaixo do poder de Oso que é um grande feiticeiro marido de todas as grandes mães. Vi os espíritos das florestas, dos animais que foram homens, do javali que tem o poder de tirar aos homens o que eles gostam mas que, se arrepende e oferece como alimento, vi muita destruição feita pelos seres demoníacos e mergulhei, por fim, num grande espaço de luz. Nada mais te posso dizer a não ser que acordei com o médico do exército ao lado na enfermaria do quartel, para onde me tinham levado. Estava super feliz e apanhei um castigo. Evidentemente.
A guerra deixou de ser o que era, a partir dali. Praticamente, deram-me como afectado mentalmente. Que maravilha.
 4 – Qual a tua religião? És cristão ou praticas a velha religião celta? Em que deuses acreditas?
R - Não tenho que ter uma religião. Não sou cristão porque considerei ter sido baptizado sem ter noção do que me estavam a fazer e fiz a negação do catolicismo diante de um cura, na igreja. Não sou mais filho de deus, mas pertenço a todos os deuses. Pertenço à energia cosmocêntrica, antropocêntrica e teocêntrica.  Sou um animista e, portanto, acredito na anima como princípio vital. E, por isso mesmo, sinto-me muito ligado aos princípios religiosos dos celtas, mas não só. Estou muito ligado ao pensamento de Lao Tsé, mas não abdico totalmente do confucionismo. Respondi?
5 – Que as crenças celtas chegassem até hoje pode parecer muito forte. Há gente que pode pensar que isto tem a ver com o movimento “New Age” ou o “Neodruidismo”, o reconstrucionismo..., mas acho que este não é o caso. Que achas sobre o Neodruidismo?
R – Se estivessem aqui uns amigos das artes já estariam a rir-se por causa do Neo. Eu não gosto mesmo nada de neos. Ahahahahaha
Eles são animistas, é verdade, e estão em sintonia com a minha maneira de pensar, com sabes, no que diz respeito ao acreditar na sacralidade da Natureza e no politeísmo. Mas eu não gosto de grupos e a situação destes se denominarem dos Bosques, das Clareiras, dos Ramos, dos Carvalhos, dos Castros, não vai comigo. Sou de opinião que as pessoas se devem juntar naturalmente, vestidos como lhes apetece, sem mascaras e imitando os de outras épocas, e falarem do que pensam e das suas crenças. Nem mesmo no meu campo da pintura pertenço a qualquer grupo. Claro que sofro com isso, mas há sempre que pagar qualquer atitude que se tome, de uma maneira ou outra.
Se eles pregarem a nova consciência, o novo pensamento a que todos nos temos de dedicar nestas circunstâncias que esta parte da Terra atravessa, ajudando o homem a regressar ao amor do planeta e a esquecer toda uma doutrina de positivismo que tem sido como um cancro que corroeu o Mundo, serão muito necessários.
Sei que, muitos deles fazem estudos muito profundos de história e arqueologia, dentro da sua busca da religião dos devanceiros, isso é útil, sim, mas tu sabes bem que a luta terá de ir por outros caminhos. E há muitos trilhos para se atingir o cume da montanha, não é verdade
Nesta luta, há que ter em mente que 30.000 contra 3.000, é uma derrota; mas 3.000 contra 30.000, é vitória. Entendes? Claro que sim.

domingo, 3 de junho de 2012

Uma crítica pontual a respeito da historiografia castelhanista


Por José Manuel Barbosa

Conta-nos a história oficial que América foi descoberta por Cristóvão Colombo um 12 de outubro do ano de 1492; pelo menos a história oficial espanhola. Nos países como Islândia, Dinamarca, Suécia ou Noruega estuda-se nas aulas que lá pelo ano 1000 Erik Thorvaldsson, um chefe viquingue, chegou desde Islândia à terra de Gronelândia e o atual Canadá, ao que denominou com o nome de Vinland, quer dizer, Terra das Vinhas. Diz-que os viquingues, grandes marinheiros, elaboraram cartas de navegação com as costas norte-americanas desenhadas em pergaminhos de coiro as quais e sem qualquer dúvida passaram à posteridade de mão em mão de grandes navegadores, conhecedores da existência dessas terras do sol-pôr.
 Não se explica de outra forma que haja mapas como o do grande cartógrafo turco Piri Reis, conservado no Museu Topkapi de Estambul e feito a começos do século XV, mesmo muito antes do nascimento do descobridor oficial para a Coroa Castelhana: Colombo. Naquela altura foi quando os portugueses, fechadas as suas fronteiras pela Monarquia Hispânica, decidem se botarem ao mar para poderem fazer do Reino de Portugal um Estado viável e não caírem nas mãos de Castela. É por isso que começam as suas navegações. África foi a saída natural para estas explorações com o qual penetrar no Atlântico tenebroso cheio de lendas era uma saída possível e muito mais se conheciam a tradição secular iniciada por aquele Erik Thorvaldsson, o Ruivo e o seu filho Leif Erikson continuada da mão de posteriores navegantes medievais italianos, turcos e de outras nacionalidades até chegarem aos povos marinheiros do ocidente atlântico peninsular ibérico, como neste caso é Portugal. Há muitas notícias das navegações rumo ocidente que eram favorecidas pela coroa portuguesa e que eram olhadas como uma saída que mesmo servia para premiar servidores esforçados. Temos referências de expedições nos anos 40 do século XV. 
Fala-se que o Diogo de Teive, navegante e descobridor dalguma das Ilhas atlânticas portuguesas dos Açores chegou até terras americanas por volta do ano 1452, e ainda de alguma outra expediçom nos anos 60 do próprio Diogo juntamente com o seu irmão João de Teive que exploraram as partes mais orientais de Norte da América. Nessa situação, com provas documentais reais, está a descoberta da “Terra Nova dos Bacalhaus”, ou “Terra Nova dos Corte Real” como era denominada nesta altura histórica a actual Terra Nova canadiana.  Em 1471 ou 1472 os navegadores João Vaz Corte Real e Álvaro Martins Homem chegaram ao atual Canadá, numa aventura conjunta Luso-Dinamarquesa efetuada a pedido de D. Afonso V. É interessante reparar no nome galego-português que se lhe dá à Terra Nova, já não em latim, como se nos tem dito, pois originariamente era como tínhamos dito acima: “Terra Nova dos Bacalhaus”. 
 Pêro de Barcelos e João Fernandes Lavrador partiram em 1491 rumo ao atual Canadá, um ano antes de que o Cristóvão Colombo “descobrira” as Ilhas das Caraíbas. Foi o segundo quem lhe pôs o nome de Península de Lavrador ao grande território onde está assente o actual Quebeque. É por isso pelo que muitos historiadores suspeitam que o Cristóvão Colombo já sabia da existência destas terras muito antes de ele falar com Isabel de Trastâmara, a Rainha Católica. Mesmo o facto de lhe pedir a propriedade das terras descobertas por ele numa exposição perante a rainha que dava a entender que o queria tudo -por isso não aceitou o Rei Português- faz-nos pensar nisso quase com total segurança. A firmeza que o navegador pseudo-genovês, manifestada em todo o momento, de que ele ia achar territórios para além do conhecido comumente, os muitos segredos que tinha aos olhos dos castelhanos e o ter vivido anteriormente muitos anos em Portugal fazem-nos acreditar na ideia de que estava bem informado do que poderia haver ao final do Atlântico. Diz um bom amigo nosso, amante deste tema referido à descoberta de América que ao “Colón” (aqui com nome em espanhol) lhe chamavam assim porque de ser o último em chegar ao Novo Continente passou-se a ser o primeiro sem licença dos primeiros descobridores. 
 A História sempre é uma narração que cada um interpreta segundo o seu jeito e os seus interesses, daí o dito famoso de que “Cada um fala feira segundo lhe vai nela” mas no caso da  mal chamada descoberta da América é muito evidente a mentira histórica na que nos meteu o a historiografia castelhanista, que tanto criticamos. Esta não se vem abaixo pelo sustento político que tem dum poder político que transcende qualquer premissa científica. Esse castelhanismo historiográfico é dos mais irreais e manipuladores de Ocidente fazendo com que a grande maioria dos cidadão sob a sua influência fiquem convencidos duma falsa narração. O problema é que está tão assumida pelos cidadãos do Estado que mesmo insinuar simples eventos facilmente demonstráveis, como o protagonismo do Reino da Galiza durante a Idade Média ou a chegada dos europeus à América são temas de muita controvérsia pois são os eventos que lhe dão sustento a ideia da Espanha castelhana tal qual no-la ensinam ainda a diade hoje. Sem essas usurpações historiográficas, esse construto nacionalitário não seria mais do que uma autêntica caricatura do que se nos faz ver. Só a preocupação da gente em procurar a realidade faria com que ficássemos totalmente desiludidos e com a visão perante os nossos olhos dum ente estatal e nacional muito diferente ao que vemos atualmente . O dia que conhecermos uma interpretação mais em harmonia com as fontes existentes, esse dia, o modelo “cañi” tal qual o conhecemos hoje, vai deixar de existir para bem de todo o mundo dentro e fora da  península.
Mesmo uma dos ocultamentos pode ser a origem galega do Cristóvão Colombo. Há uma importante teoria bem argumentada que defende essa possibilidade. 
 Capitulo 1

Alfonso Philippot: Luz para un enigma 2/5

 Capitulo 3
Capitulo 4
Capitulo 5

domingo, 27 de maio de 2012

Entrevista à Doutora Maria de Fátima Figueiredo



Equipa do DTS (Desperta do Teu Sono)  
Câmara: José Goris
Apresentaçao: José Manuel Barbosa

Os passados 5 e 6 de Junho deste ano celebramos em Pitões das Júnias (Montalegre-Portugal) como é sabido, as Jornadas das Letras Galego-Portuguesas. Tivemos a grande sorte de estarmos com pessoas comprometidas com a Galiza, com Portugal e com o mundo lusófono e céltico, esses dous mundos dos quais a Galiza faz parte por direito próprio e por matriz. O recital, a estadia na casa do Padre Fontes e as paletras na sala da Junta da Freguesia de Pitões ficaram na nossa memória com muito prazer e com muita vontade de repetirmos mais outra vez o ano que bem. Tudo isto ficou dito e ficou na rede, como uma gravação na pedra com letras inscritas para perdurarem no tempo, como se forem algum dos nossos petróglifos que desde o Calcolítico estão aí para nos lembrarem que somos o que somos, e somos de quem somos.

As pessoas que tivemos connosco para que os ecos da nossa etnogénese flutuassem no ar foram a Doutora Maria de Fátima Santos Duarte Figueiredo, David Outeiro Fernandes e a Professora Doutora Blanca Garcia Fernández-Albalat . Eles falaram e ensinaram-nos desde o seu saber e desde o seu amor a esta terra granítica que nos pariu; eles desfrutaram connosco da beleza sem igual dessa aldeia da montanha barrosã num fim de semana memorável e lindo. Os temas foram vários, mas tivemos também a honra e a sorte de podermos conversar  em entrevista concedidas para este blogue com cada um/a delxs sobre todo aquilo que nos mobiliza...assim a apreendizagem foi acrescentada.

Nas próximas semanas teremos connosco a entrevista com o nosso querido e popular Padre António Lourenço Fontes, feita a sexta-feira dia 13 de Abril; teremos posteriormente a entrevista a  Blanca G. Fernández-Albalat, autoridade no que diz respeito ao mundo celto-galaico, valente nas suas opiniões e insubmissa a respeito do pensamento plano anti-celtista fornecido pelas Universidades. Finalmente incluiremos a entrevista a uma promessa de futuro, a um grande em potência: ao nosso amigo e jovem David  Outeiro que tem colaborado connosco neste “DTS” e a que lhe devemos muito do nosso sucesso.

A dia de hoje temos a primeira entrevista. Também a primeira palestrante das Jornadas. Ela é a Doutora Maria de Fátima Figueiredo. Mora e ministra aulas de Língua em Santarém e é uma pessoa que leva a Galiza no coração e as origens do seu Portugal amado. A sua ligação à Galiza vem-lhe de muito cedo e acredita na ideia de que como portuguesa e descendente de galegos há uma responsabilidade moral por parte de Portugal de recuperar a memória histórica, ancestral, originária e galaica no ensino, na formação e no (in)consciênte coletivo dos portugueses e portuguesas tanto no que diz respeito do conhecimento da História da Galiza como do vínculo linguístico comum. A entrevista foi feita na Sala que a Junta da Freguesia nos deixou para as Jornadas. Graças ao seu apoio isto foi possível. Obrigado.




 


quarta-feira, 23 de maio de 2012

O caso dano-norueguês. Entre o isolacionismo e o reintegracionismo.


Por José Manuel Barbosa

Para compreendermos melhor a problemática do dano-norueguês temos primeiramente que botar a mão de umas pequenas considerações históricas. A saber:
Antes do século VII d.c. as regiões que ocupam os actuais Reinos de Dinamarca, Suécia e Noruega estavam habitadas por povos nórdicos germânicos com uma língua comum derivada directamente do proto-germânico e à qual se lhe deu o nome de proto-nórdico. Desta antiga língua temos testemunha escrita nas inscrições rúnicas e por restos adstráticos no lapão e no finês, línguas, estas,  não germânicas, mas fino-úgrias e no entanto próximas geograficamente da língua dos povos escandinavos.
Do século VII em diante as falas desses povos que passaram à história com o nome de Vikings, quer dizer, piratas, começam a tomar distância entre si com pequenas diferenças dialectais que embora reais, eram tão mínimas que os próprios utentes nunca consideraram dar-lhes nomes particulares. Eram essas variantes duas fundamentalmente: uma seria o nórdico oriental (danês e sueco); e a outra o nórdico ocidental (norueguês, islandês e dialectos das Feroé, Shetland, Orcadas e Gronelândia). Estes dialectos nórdicos, tanto o oriental como o ocidental também nos são conhecidos pelas inscrições rúnicas achadas nas pedras desses países, sobretudo no que diz respeita a marcos territoriais, lugares de reunião ou  rituais religiosos.
Entre os anos 1150 e 1350 começam a aparecer os primeiros textos feitos com caracteres latinos, as primeiras diferenças entre o faeroês, islandês, gronelandês e o próprio norueguês, quer dizer, entre as distintas falas do nórdico ocidental. Também aparecem as primeiras diferenças no nórdico oriental entre o sueco e o dinamarquês embora a união política escandinava surgida a partir da União de Kalmar em 1397 favorecesse uma língua padrão unificada sobre base dinamarquesa. Foi nesse ano quando a Península Escandinava e Jutlândia, anteriormente organizadas sob a base de pequenos reinos independentes procedem a uma união política, a chamada União de Kalmar da que falamos, na que com a Dinamarca como cabeça do novo reino unido ficam todos os territórios escandinavos sob o mesmo rei.
Em 1520 a Suécia, após muitos problemas e lutas, faz-se independente da União de Kalmar com Gustavo I levando consigo os territórios da actual Finlândia não-germânica. Com isto começam uma série de transformações linguísticas que diferenciam Suécia do resto da Escandinávia à vez que se unifica a sua língua escrita cujo modelo era o sueco da tradução luterana da Bíblia. A própria reforma protestante e as traduções das Bíblias às diferentes realizações linguísticas ajudam na individualização linguística entre Suécia por um lado e o que fica da União de Kalmar, quer dizer, o reino dano-norueguês por outro. A Suécia, pouco antes das guerras napoleónicas, em 1732 faz nascer oficialmente o chamado “novo sueco moderno” com a publicação do Then Swänska Argus de Olof von Dalin.
No entanto na Noruega as falas populares e a língua padrão mantêm uma ligeira distância, mas não maior do que em qualquer outro reino da altura e mesmo na atualidade, sendo o nome do padrão o chamado de Riksmål, quer dizer, língua do reino, norma partilhada com Dinamarca.
O reino dano-norueguês comete o erro de apoiar Napoleão durante os começos do século XIX. Após as Guerras Napoleónicas e a Guerra dos Canhoeiros entre 1807 e 1814, o Reino de Dinamarca-Noruega foi derrotado cedendo parte do território da Noruega ao Rei da Suécia pelo Tratado de Kiel. . Isto traz consigo muitas mudanças, já que com a derrota do imperador francês e por imperativo do tratado de Kiel em 1814, posteriormente reafirmado no Congresso de Viena em 1815 a Noruega perde as suas possessões da Gronelândia, Islândia e as Ilhas Feroé que permaneceram sob controle dinamarquês. Os noruegueses opuseram-se a esta situação com a que perdiam grande parte dos seus domínios e posteriormente uma assembleia constitucional declarou a independência norueguesa em 17 de maio de 1814, elegendo para o seu governo uma monarquia constitucional onde o Príncipe Cristiano Frederico da Dinamarca passa a reinar a Noruega independente com o nome de Cristiano VIII. Mas o conflito não acaba aqui, pois a Noruega é invadida pela Suécia e obrigada a aceitar uma nova união, agora com o país invasor sendo-lhe permitido ter uma constituição liberal e umas instituições autónomas com amplas competências. Só a política militar e assuntos estrangeiros eram dirigidos por Estocolmo.
A União Sueco-Norueguesa durou até 1905 quando num referendum democrático a Noruega decidiu a sua independência após quase um século de luta contra o domínio sueco e a necessidade de se diferenciar da Dinamarca do ponto de vista linguístico. Esta independência é respeitada pela Suécia.
Mas é durante todo o século XIX em que vai estar tingida a ideologia política da Escandinávia dum nacionalismo unionista pan-escandinavo, escandinavismo ou nordismo chefiado, quer pela Suécia, quer pela Dinamarca, embora concorrendo com o nacionalismo da Noruega defensora dum Estado independente e complementado com um isolacionismo linguístico no que diz respeito do padrão dano-norueguês. Esse isolacionismo está sustentado por uma versão da língua chamada de Landsmål, ou língua do país. Esta normativa que nós chamaríamos de isolacionista na Galiza de hoje, foi elaborada a partir do conjunto de falas norueguesas autótones, dialetais, populares e coloquiais construída por dous linguistas noruegueses defensores da separação linguística das falas dinamarquesas das norueguesas com o intuito da elaboração duma língua norueguesa independente. Som eles Ivar Aasem e K. Knudsen quem concretizaram o que havia de ser a língua duma Noruega soberana. 
Aasem com o seu trabalho de dialectólogo percorreu os fiordes recolhendo as  falas das pessoas mais rústicas, menos letradas e mais afastadas do mundo urbano e da cultura para elaborar o que chamou Nynorsk ou novo norueguês antes chamado Landsmål. O seu trabalho elaboracionista incluiu uma gramática, o Norske Grammar, ou o que hoje chamaríamos o norueguês normativo. Aliás Aasen criou um dicionário normativo que lhe levou grande parte da sua vida. Este trabalho teve o seu fruto em 1884 quando o Nynorsk consegue, após um grande esforço de Aasen, a igualdade legal perante a lei da sua normativa no que diz respeito do padrão dano-norueguês ou Riksmål, “Língua do Reino”, a partir de 1929 denominado Bokmål  ou “língua do livro”, para evitar cair na politização que neste momento supunha o chamar-lhe com o velho nome do Reino Dano-Norueguês agora inexistente: As escolas ensinavam as duas sem se lhe impor qualquer delas aos alunos, embora se respeitassem as particularidades trazidas por eles das suas moradas.
A dualidade normativa norueguesa nessa altura era um assunto mesmo político pelo que o Nynorsk/Landsmål e o Riskmål/Bokmål  concorrem pela consideração de língua própria dos noruegueses. No entanto, os grandes literatos, talvez levados por uma ideia inteligente de estarem com uma língua de mais amplitude e utilidade escrevem em Bokmål. Autores como Knut Hamsum, Henrik Ibsen, Björnstjerne Björnson, Jones Lis e Alexander Kielland deixam pegada na história como escritores na língua comum dano-norueguesa.
A igualdade legal conseguida em 1884 de ambas as normativas fez com que os funcionários tivessem que conhecer as duas sem existir para ninguém qualquer problema de compreensão e de intercomunicação. O Nynorsk/Landsmål avançou perante o Riskmål/Bokmål  durante todo o começo do século XX até o final da II Guerra Mundial com muito sucesso, sobretudo no mundo rural, tradicional e conservador, mas foi desde o momento no que se fez extensiva a educação, a cultura, e os médios de comunicação em massa quando o Bokmål recuperou o seu terreno até a época atual na que esta normativa é a mais importante em percentagem de utentes. Em 2011 é a língua de preferência do 87% dos alunos da escola primária enquanto o Nynorsk/Landsmål é considerada como uma variante regional dos quatro condados mais ocidentais e mais rurais da Noruega.
O professor José Luis Alvarez Enparantza “Txillardegi” da Universidade do País Basco diz: “Tudo parece indicar que as novas gerações norueguesas não se importam com falar e escrever a mesma língua que os dinamarqueses”. É portanto que o projeto isolacionista de Ivar Aasen foi um fracasso tendo em conta a deriva natural da sociedade norueguesa num século de independência no que diz respeito da sua língua. É-lhes mais rendível a variante mais próxima ao dinamarques do que outra que isola as falas norueguesas do resto das falas germânicas escandinavas, pois a vantagem que supõe a proximidade é grande e de muita utilidade, mais quando mesmo hoje as distintas realizações linguísticas nórdicas não apresentam diferenças fundamentais e importantes nem no léxico, nem na grafia, nem na morfologia ou a sintaxe, só pequenas variações fonéticas que não impedem a intercompreensão entre dinamarqueses e noruegueses e mesmo entre estes e os suecos; isto é assim até o ponto de existirem programas concursos nas TVs destes países nas que participam cidadãos dos três reinos sem quaisquer problemas de compreensão nem necessidade de legendagens ou traduções. 
Igualmente, queremos salientar é a absoluta liberdade do país nórdico para a convivência de duas normas linguísticas com filosofias de base totalmente diferentes. Nada a ver com a ditadura normativa e a intolerância das autoridades galego-espanholas a respeito do tratamento que a nossa língua recebe das instâncias oficiais. Na Noruega vivem todos juntos e assim se respeitam; na Galiza o poder destrói a língua e favorece o "apartheid" dos que defendemos o nosso "Bokmål" galego-português em favor do seu "Landsmål" populista. Por outra parte, a quase totalidade dos partidos políticos que se denominam galeguistas numa amostra de anormalidade histórica no que diz respeito de outros movimentos nacionalitários europeus faz seguidismo do "Landsmålismo" absurdo e permite uma situação que não se vê em qualquer país são da Europa. Aguardamos que a cultura se estenda, que o exemplo se difunda e que o sentimento de liberdade, tolerância, democracia e sentido prático sejam contagiosos num Reino de Espanha falto de todo isso e numa Galiza cujo modelo castelhanocéntrico assobalha perante qualquer vestígio, suspeita ou indício de inteligência.

sábado, 19 de maio de 2012

Pequena crónica-percurso pelas Jornadas das Letras galego-portuguesas


Por Francisco Varela
Tínhamos, por volta de 20 pessoas um encontro programado para celebrarmos, nos dias 5 e 6 de maio, as 1 Jornadas das Letras Galegoportuguesas. Foi desde o momento que soube da iniciativa, que a ansia invadiu o meu pensamento. Imaginava o irmanamento galaico do Norte com o Sul, do Sul com o Norte, o 'reencontro' da Galiza com a Galiza, imaginava o quebramento do silêncio intencionado e malvado, que desde os centros peninsulares de poder mantêm para submeter, a um povo, à ignorância da sua história e da sua verdade, para manter um mesmo país dividido secularmente pola metade.
Mas, o dia chegou, finalmente, e o encontro teve lugar e hora; foi em Mourilhe (uma freguesia de Montalegre) às 12:30 horas. O entorno de interior, montanhoso, achei-o insuperável, mesmo tocando a raia, essa artificial, que tanto dano nos leva feito; de um lado da serra, a norte, a Galiza que um dia renunciou a um futuro próprio, e que hoje anseia alcançar, e deste outro lado, a Galiza também, mas a Galiza sucedida e livre das fauces do colonialismo castelhano, a Galiza, que em dada altura da história, esqueceu o seu passado, e que hoje, quer recuperar.
Encontramo-nos então, no exterior da casa rural do grande estudioso da nossa história, costumes e cultura, o Padre Fontes, foi lá o primeiro contato que tanto esperei, do Norte com o Sul.


Após apresentarmo-nos, estreitarmo-nos as mãos, e cruzarmos umas palavras cheias de formoso colorido fonético, fomos convidados a passar ao interior. Foi ali, ao pé da lareira que já aquecia o nosso espirito celta, que o Barbosa, com amabilidade, apresentou o pessoal ao Padre Fontes.
Após a apresentação, fomos fazer um percurso polo interior da casa, da mão do Padre, que nos explicou a história de todos os tesouros históricos que ele, com carinho e sabedoria foi e vai classificando a modo de museu etnográfico.
Por volta das 14:00h tocou jantar, ou almoço (como o dizem de Ginzo para Sul): bacalhau ou carne a escolher, vinho da região e convívio afetuoso. Comimos sobremesa e batimos papo para, a continuação, o Padre Fontes dar-nos o seu mais sincero agradecimento por nos termos chegado e juntado ali, com o intuito de nos irmanar e aprofundar no conhecimento das nossas raízes celtas e encorajar-nos a continuar com iniciativas do tipo. Houve brinde e aplausos.
 
Vinha em breve a hora de achegarmos os nossos corações com recitais poéticos, a hora do conhecimento e a aprendizagem com palestras sobre a realidade celta da Gallaecia em Pitões das Júnias, e foi, por volta das 16:30h que saímos caminho da Junta de Freguesia. Assistimos ali os poemas e vídeo-poemas tão lindos que recitaram Rosa Martínez, Cruz Martínez, Nolim Gonçales, Ro Palomera, Barbosa, e Nel Gonçales (filho do amigo Nolim). Foi, com certeza um momento emotivo, de reivindicação, de protesto.
Nas palestras aprendimos da mão de Fátima Figueiredo, como a literatura medieval galegoportuguesa liga diretamente com a tradição celta por meio das cantigas.


Após a palestra, saímos para conhecermos os segredos das ruas de Pitões, aldeia que nos transporta a tempos nos que a humanidade, o trabalho e a festa ião de mãos dadas, a tempos nos que a pesar do hermético da fronteira transgalaica o povo de um lado e do outro da raia, fazia o impossível por penetrar e trespassar.
Já às 20:00h juntamo-nos na Taberna Terra Celta para usufruir do convívio e da irmandade ao redor duma boa ceia e boas conversas.
No dia 6, após o descanso necessário para repousar e assentar tantas lindas sensações e tão interessantes conhecimentos, reunimo-nos de novo na Junta de Freguesia para assistir à palestra de David Outeiro. Ele falou-nos e ensinou-nos sobre a pervivência das divindades celtas na mitologia e hagiografia galegas. Apreendimos também da mão de Blanca Garcia Fernández-Albalat, como ainda hoje, continua vivo na tradição galega, a soberania indo-europeia, celta e galaicoportuguesa.
Por volta das 13:00h e depois da intervenção (de agradecimento e encorajamento para continuarmos à frente em próximas datas com a iniciativa de reencontro e reconhecimento galaico) do Presidente da Junta de Freguesia de Pitões, o senhor António Azevedo “Ferreirinha”, como não podia ser doutra maneira, juntamo-nos de redor de uma mesa bem celta; equipada de boa jantarada, bom vinho e muito bom convívio, mas ao tempo, vendo já com grande pesar, que o final desta deliciosa e frutuosa experiência, aos poucos, ia chegando.
Depois da comida, da troca de impressões, experiências e entranhamento, de amizade fraterna com os companheiros e companheiras, saímos de visita turística polos arredores de Pitões, indo a conhecer a famosa 'Cascata' e o lindo Mosteiro de santa Maria, todo, num entorno natural e verdeceste que me deixou impressionado.
Após a visita, dirigimo-nos de volta, a aldeia de Pitões. Já ali, a despedida virou incontornável, mas que, longe de ser um adeus, foi um fraterno e saudoso, ATÉ JÁ IRMÃOS!


quinta-feira, 10 de maio de 2012

Casos de reintegracionismo na Europa: O moldavo-romeno


Por José Manuel Barbosa 

Dentro da Romania (1) há dez línguas neolatinas reconhecidas pelos romanistas. São de ocidente a oriente: o galego-português, o castelhano-espanhol, o catalão, o ocitano, o francês, o reto-românico, o italiano, o sardo, o dálmata (extinto desde finais do século XIX) e o romeno. Esta última língua consta de quatro variantes dialetais: daco-romeno geralmente chamado apenas de romeno e  falado ao norte do Danúbio; o Aromeno na Grécia, na ex-república iugoslava da Macedónia e na Sérvia; o Megleno-romeno ao norte da Grécia e o Istro-romeno na península da Ístria.
Destas, o daco-romeno é base do romeno actual, língua oficial da República de Roménia com capital em Bucareste. Mas a língua romena não é falada só na república romena; uma das suas variantes, o moldavo, que pertence também ao dialecto daco-romeno é falado na actual República da Moldávia, ex-república soviética e anteriormente protagonista dum processo histórico complicado, como complicadas são as cousas em toda a região balcânica.
Vejamos:
Os territórios ao norte do Danúbio foram povoados antes da chegada dos romanos por uma etnia ligada familiarmente com os actuais albaneses ilíricos. Eram os chamados dácios, conquistados por Roma no século II d.C. governando Trajano. A Dácia foi totalmente evacuada de funcionários imperiais quase 170 anos mais tarde pela chegada dos godos mas a romanização foi tão eficaz que a língua latina permaneceu na população apesar das inúmeras e contínuas invasões que se sucederam até que no século XVI chegaram os turcos ocupando toda a região balcânica. Foi desde este século quando se começou a representar o romeno como língua, embora escrita com o alfabeto cirílico por influência eslavo-bizantina. No entanto tem-se conhecimento da existência do romeno desde o século VI, ano no que um historiador bizantino, Theofanes Confessor, nos relata a expressão dum condutor de mulas do exército imperial numa expedição contra os ávaros. Nessa circunstância e pedindo ajuda a um companheiro para que o ajude a recolher a carga caída do animal diz: “Torna, Torna, Fratre!!” (Volta, volta, irmão!!).
Nos finais do século XIX o romeno recupera a sua farda latina ao se constituir a atual Roménia independente da Turquia otomana, mas sem a região norte chamada nessa altura Bessarábia que era o nome com que o Império Russo identificava a parte oriental do principado da Moldávia que acabava de ser cedido pelo Império Otomano (do qual a Moldávia era vassalo) à Rússia, em 1812, através do Tratado de Bucareste, após a Guerra Russo-Turca entre 1806 e 1812. Sob o domínio russo, estruturou-se o governo geral da Bessarábia enquanto a parte Sul da Moldávia uniu-se à Valáquia em 1859, dando origem ao novo Reino da Roménia. É durante 1917 que a Bessarábia se independiza da Rússia em descomposição por causa da Grande Guerra e da Revolução soviética. Cria um parlamento, o  Sfatul Ţării, que um ano mais tarde, em 1918, decide por maioria incorporar-se à Grande Roménia que nesses momentos tinha o seu exército ocupando a região. A Grande Roménia unida, com a Bessarábia incorporada é reconhecida pelo Tratado de Paris de 1920. Em 1924 nos territórios bessarábicos que ainda pertenciam ao domínio moscovita cresceu a ideia por parte das autoridades soviéticas de russificar a língua dos moldavos apoiando-se nas diferenças com a língua romena estandar e aproveitando a situação de analfabetismo dos camponeses. 
No entanto a nova URSS (União de Repúblicas Socialistas Soviéticas) saída da revolução russa não aceita a situação duma Moldávia pertencente na sua maior parte a Roménia e mantém uma situação de tensão política com o vizinho de língua latina reivindicando toda a região em disputa. Foram, no entanto, por meio dos Tratados de Kellogg-Briand de 1928 e o de Londres de 1933 que a URSS e a Roménia decidiram solucionar as suas discrepâncias territoriais seguindo princípios de não-violência. Enquanto a maior parte da Bessarábia -e portanto a Moldávia-, faziam parte da Roménia, a língua romena era a língua oficial. O russo era conhecido e usado por parte da população mas em vias de desaparecimento por causa da política dirigida desde Bucareste que tentava unificar o seu território nacional também do ponto de vista linguístico. 
Por volta de 1932, para o estado soviético a anexação da Moldávia tinha um objetivo claro do ponto de vista político e linguístico: Penetrar ideologicamente na população por meio do idioma romeno ainda com a tentativa de não alertar à população contra o que ia ser o objetivo final que era o de russificar totalmente o país. Era a chamada  teoria “moldovanist”.  Os planos da URSS não saíram bem, já que a língua produzia sentimentos de unidade moldavo-romenos, totalmente opostos aos planos de Moscovo. Isto fez com que a União Soviética em 1938 optasse por uma nova tática: Criar uma nova língua moldava diferente da romena, baseando-se no alfabeto cirílico russo e nas diferenças existentes entre as falas da Moldávia e da Roménia. Recorreu-se a uma equipa de linguistas favoráveis a “normalização linguística” da variante moldava chefiados por Pavel Chior, fiel ao Partido Comunista da União Soviética e Leonid Madan.. A elaboração duma normativa filo-russa isolacionista não se fez aguardar. Criaram-se gramáticas, dicionários e trabalhos sobre dialectologia que salientavam as diferenças entre as falas dos dous territórios daco-romenos e aplicou-se sem qualquer pudor no sistema de ensino. A terminologia mais popular aceitava os empréstimos do russo ou no seu defeito decalques ou adaptações às vezes elaboradas artificialmente com o fim de incrementar as diferenças, algumas delas ininteligíveis para o povo moldavo alheio a todo este acontecer dirigido desde as alturas.
Com o Pacto germano-soviético Molotov-Ribbentrop em 1939 a Alemanha e a Rússia decidem se repartirem Europa secretamente. A Rússia tem o intuito de recuperar toda a Bessarábia, cousa que consegue quando a URSS entra em guerra em 1940 anexando e criando a República Socialista Soviética de Moldávia unindo a Bessarábia, parte da Ucrânia oriental e a Transnístria. A partir de 1940 com a ocupação, anexação e criação da RSS de Moldávia, a ideia de Staline era a russificação total e sem qualquer tipo de contemplações, as purgações e uma política contrária à teoria “moldovanist” que agora se vai chamar “chovinismo moldavo” considerado pelas autoridades como um desvio “burguês-capitalista”. O que antes era uma estratégia pró-russa de fazer do moldavo uma língua diferente da romena, agora é uma heresia pela que os defensores desta opção serão deportados ou purgados. Anteriormente víamos como em 1932 quis-se recuperar a operação de influenciar na Roménia com, mais uma vez, o alfabeto latino recuperado para a variante moldava para poder penetrar ideologicamente contra o poder de Bucareste independente de Moscovo, mas de novo os moldavos se viam identificados linguisticamente com as falas do Sul. A URSS teve de voltar atrás e com Staline se resolve de novo recuperar o cirílico e limpar de “inimigos do povo operando em Moldávia com uma política hostil, poluindo a língua moldava com palavras e termos romenos de salão burguês e introduzindo o alfabeto latino ininteligível para os trabalhadores moldavos”. Os intelectuais pró-romenos foram também purgados e acusados de “nacionalistas burgueses”, “inimigos do povo” e “agentes do capitalismo”. Sibéria acolhia-os a todos nos seus campos de trabalho. A segunda guerra mundial vai trazer uma anexação de mais território romeno para a URSS, após grande quantidade de mortos, repressão e deportações. 
Roménia ficava calada perante todo isto e perante uma URSS que emergia como potência mundial, mas desde os 60 Bucareste tentou afastar-se de Moscovo. Isso criou disputas entre ambos os países comunistas a respeito da Moldávia. A política soviética após a morte do ditador Staline vai ser mais moderada embora siga sendo de vontade russificadora e anti-moldovanist, mas com a chegada da perestroika e a glastost de Mikhail Gorvachov nos anos 80 vai-se favorecer-se um “bilinguismo nacional” que toleraria o posicionamento pró-romeno, embora os mais conservadores seguiam na sua teima pró-russa e contrários a qualquer bilinguismo e grafia latina. Para estes últimos, o romeno e o moldavo são línguas do mesmo grupo romance, mas são reconhecidas umas diferenças sócio-linguisticas que impediriam o acercamento. Em 1989 declara-se o moldavo língua oficial da república moldava optando-se pela transição para o alfabeto latino e por um processo de normalizaçom real. Surge com isto um movimento nacional moldavo que propugna a independência conseguida quando em 1991 rebenta a gastada União Soviética. O novo país se vai ver numa situação de hesitação entre a sua integração na Roménia ou seguir independente. Aliás, tantos anos governada por Moscovo trouxe consigo uma importante minoria eslava com certo poder e uma outra minoria, a gagaúze turcófona de religião ortodoxa que reclamava pelos seus direitos. Perante este panorama, a dia de hoje, a Moldávia tem perdido interesse pela integração na Roménia, uma vez tem criado estruturas de Estado independentes. A Roménia também não quer a integração por não se ter que ver com problemas de minorias étnicas alheias fortemente reafirmadas. Por outra parte a própria Moldávia nestes últimos anos tem cedido democraticamente às demandas gagauzes reconhecendo-lhes a autonomia e o direito de autodeterminação, permitindo aliás a ajuda da Turquia a este povo. Isto é-lhes de utilidade para equilibrar a atração da Rússia e os eslavos em parte chegados na época estalinista que se vem na necessidade de voltar à sua pátria de origem ou adaptarem-se a uma nova situação nacional onde não têm os velhos privilégios nem o poder político que tiveram nos tempos dos comunismo. Hoje a Moldávia regida desde Chisinau reconhece-se romeno-parlante seguindo critérios gloto-históricos ainda usando esta língua segundo as características próprias do Norte do rio Prut que a separa da Roménia, vivem em paz, com afã de progresso e os olhos postos na UE.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Obrigado



      Por:  Dts Editores

O DTS, um dos organizadores do evento “Jornadas das Letras Galego-Portuguesas” quer agradecer à Câmara Municipal de Montalegre e à Junta de Freguesía de Pitões das Júnias todas as atenções, o seu carinho e amizade, assim como a difussão das Jornadas.


Agradecemos igualmente ao Padre Fontes a sua hospitalidade, a sua amabilidade e o acolhimento e o calor com o que fomos tratados num jantar de irmandade cálido e inigualável.

Queremos nomear e agradecer especialmente ao Presidente da Junta da Freguesia de Pitões das Júnias António Gregório Azevedo Dias, à Secretária Lúcia Araujo Jorge e ao Tesoureiro António Manuel Cascais Fernandes, a sua ajuda, disposiçaõ e amizade.
 
Um agradecimento especial para os amigos da Taberna Terra Celta e especialmente para a Margarida e a Ana. Desfrutamos imenso com o seu carinho e os seus ricos pratos.


À TV do Barroso representados pelos amigos João Xavier e a Zidélia Pires, à Rádio Montalegre e a todos os meios de Comunicação ali presentes que cobriram a notícia. Ao PGL, à AGLP, ao IGEC, a AELG...,  por difundir a notícia e a todos os que colaboraram na organização do evento... e a todos os assistentes pela sua presença e colaboração.

Aguardamos poder estar novamente todos juntos numa nova edição das Jornadas da Língua (Convívio galego-português) com novos temas e com novas pessoas.

Graças a eles foi tudo um sucesso que nos fazem pensar numa próxima vez.

Obrigado. 




sexta-feira, 4 de maio de 2012

Na reta final...

     



Por: Dts Editores

     Achamo-nos na reta final. Faltando só um dia para as Jornadas das Letras Galego-Portuguesas, as quais se vão levar a cabo os dias 5 e 6 de maio em alguns dos lugares mais emblemáticos do Concelho de Montalegre, ainda é que nos chegam mensagens de partilha e de colaboração, quando não manifestações de ânimo e apoio explícito.

    Vamos começar o sábado dia 5 reunindo-nos no Hotel Rural "A Nossa Senhora dos Remédios" de Mourilhe (Casa do Padre Fontes) por volta das 12:00 horas em horário português (e aquele horário que deveria, por razões evidentes, ser também galego) onde vamos inaugurar a jornada partilhando jantar (almoço para muitos portugueses...) entre todos os assistentes. O distintivo deste convívio será dado por um recital de poesia no que os mesmos convidados às Jornadas partilharão os seus poemas inéditos e próprios com o conjunto dos assistentes. Também pode ser que as leituras de poemas, em vez de serem próprios e inéditos incluam os escritos dalgum clássico galego, português ou em geral de qualquer autor das nossas letras, estas que viajam mares e continentes e que fazem de nós uma comunidade humana com personalidade própria, numa língua que é a quinta da humanidade e visualizada como uma das mais importantes do mundo para aqueles que mesmo não a falam.

      Posteriormentte, cerca das 16:00 horas vamos nos deslocarmos para Pitões das Júnias para começarmos as palestras na aula que a Junta da Freguesia nos cedeu para ouvirmos a quatro pessoas, queridas e admiradas, que nos vão falar daquelas raízes celtas que nos alimentam e nos dão razão de ser e existir como galaicos que somos, dum ou doutro lado da raia. O nosso Padre Fontes, a nossa amiga Fátima Figueiredo, o prometedor David Outeiro e a grande Blanca G. Fernández-Albalat vão lembrar a próprios e a estranhos que um sangue corre pelas nossas veias, um sangue quente e vermelho que bota chispas quando a palavra "celta" soa no ar; esse sangue, que como nos dizia a cantiga de Cabanilhas, nos dá direito à livre e honrada chouça; esse sangue vertido na batalha do Douro e no Medúlio contra o imperialismo mediterrânico; esse sangue que faz de nós um único povo apesar de raias e de impérios; esse sangue que nos une e que nos vai fazer rir, comer e ouvir-nos nuns dos lugares mais lindos da velha Gallaecia; nuns lugares frios de clima mas aquecido por uma gente valorosa e corajuda: Mourilhe e Pitões.

     Para conhecermos os pormenores, convidamos ao leitor para dar uma nova vista de olhos ao programa (click)

     Agradecemos a todas as pessoas inscritas para participarem, pois ainda nestes tempos de dificuldades, vemos como a gente continua a se interessar pela cultura, as letras, o convívio entre irmãos e mesmo pelas raízes e pela ancestralidade comum. Obrigadíssimos ao Padre Fontes, o nosso druída, porque foi pé e origem de tudo isto; obrigados ao amigo António Ferreirinha que nos abriu as portas do Concelho e da Câmara Municipal de Montalegre à qual também agradecemos imenso; obrigados ao nosso amigo Cascais pela sua disposição, amabilidade, hospitalidade e o seu calmo e eterno sorriso; obrigados à Margarida e à Ana da Taberna Celta.... Obrigados a todos e a todas. Sois gente linda, como essa terra barrosã limpa e sã que nos acolhe. 

     Ficamos contentes de pensar que aquilo que nasceu como um sonho de irmandade se vai transformando lentamente com o trabalho constante dos organizadores e o entusiasmo dos participantes numa realidade tangível.










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