Associação Cultural Pró-Academia Galega da Língua Portuguesa (Pro-AGLP)
Abril 2014
No Estado espanhol as normas
ortográficas de qualquer das línguas oficiais do estado não são
objeto jurídico. Por isso não existem normas ortográficas
"oficiais" e não vigora disposição jurídica alguma que
obrigue os administrados à utilização duma norma ortográfica concreta.
As normas de escrita das línguas
são só princípios orientadores, que as pessoas aplicam com maior
ou menor grau de conhecimento. De maneira estrita, se as normas
ortográficas fossem "oficiais", qualquer escrito que
contivesse o que se entende por "erros" (acentuação,
irregularidades ortográficas, etc.) seria juridicamente inválido.
Mas isto não acontece. Juridicamente não cabe o estabelecimento de
fronteiras entre o que se entende como um escrito "correto"
ou "incorreto". Na expressão escrita de qualquer língua
cabe um amplíssimo leque de variabilidade e criatividade - incluindo
quaisquer formas mistas de expressão que combinem princípios
normativos - variabilidade que, desde que a compreensão básica do
texto não se veja afetada, fica fora de qualquer regulação e
sanção jurídica
Velho e certeiro desenho de Xaquin Marin.
como exceção parcial, o Decreto
173/1982, do 17 de novembro, de normativización da lingua galega,
estabelecia a obrigatoriedade de ensinar nos centros escolares sob
competência autonómica a norma da Real Academia Galega, mas sem
afetar outros âmbitos administrativos nem impedir que também
puderam ser ensinadas nos centros escolares outras normas distintas
da citada. O antedito decreto fixava três normas de correção
idiomática para serem ensinadas nos estabelecimentos educacionais:
1.- A norma NOMIGa ILG-RAG, só
para a formulação de 1982-1983, dado que as posteriores, dos anos
1995 e 2003, não foram acompanhadas do correspondente decreto.
2.- O vocabulario ILGa, que decaiu
por não cumprir o prazo.
3.- A norma mista ILGa-RAGa,
resultado das duas anteriores, aliás, decaídas.
No caso da Galiza, a Disposição
adicional da Lei 3/1983, de 15 de junho, de normalización
lingüística, refere-se à correção idiomática para estimar "como
criterio de autoridade o estabelecido pola Real Academia Galega"
indicando claramente que a opinião desse organismo é apenas um
critério de autoridade que não se define como único ou exclusivo,
nem como obrigatório para os administrados e muito menos como
oficial.
A Sentença 1992/1993, de 4 de
maio, do TSJG, confirmada pela sentença do Tribunal Supremo de 2 de
outubro de 2000, defende a legitimidade do uso de "outras regras
ortográficas do idioma galego assumidas e praticadas em eidos
intelectuais e por capas sociais que atopam o seu fundamento e
legitimidade em razões históricas, consuetudinárias, geográficas
e de polimorfismo próprio das falas", acrescentando que
"Consequentemente, constituirá um atentado ao direito à
liberdade ideológica, científica, de expressão e de livre
circulação das ideias, todo intento por parte dos poderes públicos
de seiturar, com o galho da defesa a ultrança duma normativização
oficial, posturas linguísticas que, não apartando-se do seio comum
de origem e convivência idiomáticas, se amossem como discrepantes".
Ampliando o Artigo 5.4. do Estatuto
de Autonomia da Galiza, a Lei 3/1983, de 15 de junho, de Normalização
Linguística, indica em seu Artigo 3º que "Os poderes públicos
da Galiza adoptarão as medidas oportunas para que ninguém seja
discriminado por razão de língua", não devendo excluir-se as
escolhas ortográficas individuais desta garantia. Deve ressaltar-se
que o próprio Tribunal Superior de Justiça da Galiza tem utilizado
normas ortográficas distintas das da Real Academia Galega
na hora de emitir sentenças, como são a 177/1986 ou a 378/1989.
Desenho de Xaquin Marin
Por isto, a Administração,
conforme à lei, deve admitir qualquer texto duma língua oficial
redigido em qualquer norma ortográfica baseando-se no critério de
inteligibilidade. Se um texto é inteligível, se pode entender-se,
deve ser admitido a trâmite. Qualquer rechaço dum texto por razão
de norma ortográfica é discriminatório.
Como reconhece a Sentença
1992/1993 do TSJG, de 4 de maio, existem outros critérios
ortográficos para a escrita da língua galega distintos e
concorrentes com o da Real Academia Galega. Estes critérios de
autoridade são estabelecidos igualmente por entidades em cujos
estatutos, legalmente reconhecidos, consta o fim ou objetivo de
estabelecer critérios de correção idiomática para a língua
própria da Galiza, como é o da Academia Galega da Língua
Portuguesa, conforme a Orden CUL/1075/2011, de 1 de marzo, por la que
se inscribe en el Registro de Fundaciones la Fundación Academia
Galega da Língua Portuguesa (BOE, 29 de abril de 2011). A AGLP
propõe, como continuadora da Comissão Galega do Acordo Ortográfico,
a adoção do Acordo Ortográfico de 1990 como norma para a escrita
do galego. A citada Comissão Galega foi responsável pela delegação
de observadores da Galiza que tomou parte nas reuniões do Acordo
Ortográfico de 1990, tratado internacional que inclui a Galiza no
seu primeiro parágrafo e que foi ratificado por sete Estados
signatários.
Desenho de Xaquin Marin.
A Lei 1/2014, de 24 de março, para
o aproveitamento da língua portuguesa e vínculos com a lusofonia, a
"Lei Paz-Andrade", reconhece a importância dessa Comissão
- cujo vice-presidente dá nome à lei -, citando-a na sua exposição
de motivos, e estabelecendo ainda em seu Artigo 1.º a
responsabilidade dos poderes públicos em promover o conhecimento da
língua portuguesa como fundamento da potencialidade e utilidade da
língua própria da Galiza, e o fomento do conhecimento de português
por parte dos empregados públicos.
Um crescente número de galegas e
galegos, tanto pessoas como entidades judíricas cívicas e de
investigação, em consonância com o espírito da Lei Paz-Andrade,
utilizam diariamente uma escolha ortográfica distintada proposta
pela Real Academia Galega para a representação escrita das falas
galegas conforme a uma visão extensa e útil da língua própria da
Galiza, escolha que também está amparada pelos Artigos 3º, 5º e
9º da Declaração Universal de Direitos Linguísticos, aprovada em
Barcelona em junho de 1996.
Esta escolha individual pode ser
aplicada pelo usuário da língua em todos os âmbitos de uso: no
privado e no público, no familiar e no laboral, exercendo o direito
vigorante na Espanha a expressar-se por escrito como melhor entender
e/ou souber, sem obrigação de seguir uma norma ortográfica
concreta, e com a possibilidade de seguir qualquer das normas
possíveis. Portanto todas as normas estabelecidas por organismos
competentes em língua podem ser usadas de maneira corrente tanto em
textos administrativos quanto em textos laborais, escolares e
pessoais, por esse uso estar dentro do quadro legal explicado.
Manuel
Garcia, graças à sua iniciativa com o apoio de José Posada a
concentração parcelar na Límia e o consequente desastre ecológico foram
abortados. A dia de hoje só o Concelho de Rairiz de Veiga pode
apresentar um aspeto saudável em contraste com outros concelhos limiãos
que sofreram o vandalismo da insensível administração com o sector
primário da economia galega.
Por José Manuel Barbosa (23/11/2005)
Nestes últimos dias do mês de Novembro de 2005 tem sido atualidade o facto de
se noticiar que o Presidente Touriño era o primeiro em ter falado em
galego no Parlamento Europeu. Do nosso ponto de vista isto pode ser
errado, pois houve antes várias pessoas que falaram em galego nesse
Parlamento. Nós entrevistamos uma dessas pessoas. Ele é Manuel
Garcia, representante do Movimento Ecologista da Límia (M.E.L.) e
gerente da empresa de alimentos naturais e ecológicos Daiqui.
Manuel, quando te inteiraste dessa notícia, de que o Touriño dizia
que fora o primeiro em falar em galego no Parlamento Europeu, tu o que
pensaste?
Bom, pensei... propaganda!! Eu sabia de certo que antes o Sr. Posada já
tinha falado galego e que Camilo Nogueira -nunca o escutei- suponho que
também utilizaria a sua língua. O certo é que eu estou muito seguro de
que estive ali a falar em galego e que fui traduzido para os nove
idiomas oficiais, naquela altura, da Comunidade Europeia.
Perez Touriño, ex-presidente da "Xunta de Galicia"
Conta-nos, quando é que foste ali ao Parlamento Europeu e para o que é que foste?
Foi no ano 1994 e eu fui ali promover uma denúncia que fizemos na contra
do Governo Fraga por mor de umas concentrações parcelares selvagens que
estavam a destruir todo o ecossistema agrário e natural da comarca da
Límia. Estas concentrações estavam a se fazer com fundos comunitários
sem se respeitarem as cláusulas nas quais se diz que nunca o dinheiro
comunitário deverá ser utilizado para destruir o património cultural e
natural de qualquer uma das nações europeias.
Exemplo de concentração parcelar selvagem.
Pelas tuas palavras podemos deduzir que tens um sentir galeguista, e
claro, que sentes a natureza como parte essencial da Galiza...
Eu penso que é um sentimento de pertença a um lugar, a uma cultura, a
uma língua, a um espaço geográfico, a uma natureza, a uma flora, e quem
suprimir alguns destes aspectos vê a realidade de um jeito muito
parcial.
Dizias-nos que anteriormente ao Touriño falou o José Posada, mas dizia o Presidente Touriño
que os anteriores que estiveram no Parlamento Europeu não falavam galego
mas falavam português. Ora, tu falaste na variante portuguesa?
Pois, eu acho que não. Gostaria de saber falar à portuguesa mas eu falei o
meu galego paterno e materno. Simplesmente isso, não utilizei mais do
que o galego de «andar por casa».
José Posada,Eurodeputado galego da Coligação Galega nos anos 90. Graças a ele o galego como variante do conhecido oficialmente com o nome de português faz com que a possibilidade de falar na nossa língua no Parlamento Europeu seja uma realidade não aproveitada por todos os deputados da Galiza. Essa vantagem não está da mão de outras nações sem Estado.
Encontraste muita dificuldade em ser compreendido e em ser traduzido
pela gente que ali estava ou pelos funcionários que ali trabalhavam?
Pois, acho que não tiveram muito problema. Havia um tradutor português
que é o que levava todo o peso da tradução. Todos sabemos que galego e
português som uma mesma língua queira ou não muita gente...
O Deputado Camilo Nogueira também defendeu a unidade linguística galego-portuguesa no parlamento europeu usando o seu galego natural com sotaque da Costa da Morte.
É mais, posso contar um detalhe. No último dia em que eu estava no
Parlamento tratando de fazer as últimas gestões, pela uma da tarde
partia o avião de volta e eu estava sem encontrar a saída do Parlamento e
com muita pressa. Então, peguei numa pessoa, embora eu pensava que não
me poderia ajudar pois seria inglesa, belga ou francesa, mas aconteceu
que era portuguesa, entendeu-me perfeitamente e pôde pegar no táxi, sair
dali e ir na procura do avião.
Logo da Comunidade dePaíses de Língua Portuguesa usado em várias cimeiras internacionais dos países envolvidos com a bandeira da Galiza no centro como reconhecimento por parte dos países lusófonos da matricialidade galega da língua comum.
Então, que achas a respeito do que se está a noticiar de que o Touriño foi o primeiro em falar galego no Parlamento Europeu?
A mim dói-me muito que se esteja a fazer propaganda a uma pessoa que,
com segurança, fala habitualmente castelhano na sua casa e com as suas
amizades. Acho-o um ato de hipocrisia máxima e é triste que a língua e
a nossa cultura fique só para atos protocolares, políticos e de grande
aparato. É isso o que mais me dói de tudo isto.
Onde é que falaste exatamente tu no Parlamento Europeu?
Eu falei exatamente numa reunião preparatória do Grupo Arco-Íris onde
estavam deputados independentes e da esquerda europeia. Tentei pô-los ao
dia da denúncia que a seguir ia ser tratada em Comissão.
Além disso visitei um por um muitos deputados explicando-lhes a nossa
denúncia pormenorizadamente para ela não passar desapercebida quando
chegasse ao pleno. Fui fazer certa pressão e dar a conhecer que a nossa
denúncia existia e estava ali.
Parlamento Europeu
Nesse grupo havia parlamentares de muitos países. A todos é que falavas galego?
Pois claro, embora também tenha utilizado o espanhol e mais o inglês. O
Sr. Posada também ajudou muito, pois ele é um homem que domina muitas
línguas. Também entregava documentação gráfica que complementava a explicação.
Touriño falava o outro dia que os galegos que estiveram no Parlamento
Europeu falaram em português em detrimento do espanhol. Tu pensas que
se pode falar uma única língua no Parlamento Europeu?
Pois eu penso que não. O bonito é a diversidade. De todos os jeitos em
detrimento do espanhol em absoluto, deveríamos ver isso mesmo com
alegria pois acho que o português tem a ver mais com a nossa cultura.
Conta-nos um pouco como foi a origem da tua ida a Bruxelas?
Bom, nós apresentamos a nossa denúncia na Direção Geral 11, que é a que
leva os temas relacionados com o meio ambiente, e certamente sabíamos
que todas as denúncias que lá chegam acabam no caixote do lixo se não há
ninguém a puxar por elas. Então, nós começamos a contactar e chegamos
junto o Sr. Posada, na altura deputado em Bruxelas. Ele não só se
ofereceu a ajudar-nos nos trâmites, mesmo nos convidou a ir ao
Parlamento para eu ter oportunidade de falar com os deputados e todos os
membros da Comissão que iam estudar a denúncia.
Na verdade, foi algo incrível, não habitual no resto dos políticos. O
Sr. Posada convidou uma série de pessoas, não só a mim, a irmos ali e
conhecermos aquela instituição e nisso investiu o seu orçamento de
eurodeputado.
Lá em Bruxelas estivestes hospedados num hotel onde também falavam galego, não é?
Pois é, não só falamos galego entre os membros da expedição. Na receção
em Bruxelas havia uma pessoa que sendo belga falava português...
Eu acho que temos de ir com a identidade por diante, sem vergonha.
Talvez assim começarmos a ser um povo. Eu mesmo fui a Madrid há pouco e
falei lá em galego e mesmo os madrilenos o agradeciam.
Mas isto não é algo novo, eu posso contar que estive um mês no Japão
aprendendo agricultura ecológica. Percorri o Japão de Norte a Sul, e
numa das zonas tive de intérprete uma japonesa que me traduzia diretamente do japonês para o galego. Lembro bem, ela chamava-se Yoko,
era casada com um galego no Brasil, jornalista e escritor, e ela
dominava perfeitamente o português. Estive durante uma semana tendo como
tradutora esta pessoa.
Essa vantagem não a têm bascos nem catalães, não é?
Pois. Suponho que eles terão mais difícil encontrar no Japão alguém
que fale euscara, ou catalão, mas em qualquer parte do mundo nós podemos
encontrar alguém a falar e entender o português.
Manuel, tu entendes o senso da língua como um eco-linguismo, não é?
Com efeito. Bom, a ecologia estuda-o tudo, a relação do homem com o
seu entorno, e daí nasce a cultura. Então, os povos que não respeitam o
seu entorno natural, a sua cultura, acho que perdem a sua identidade. É
por isso que eu vivo no povo, falo galego, amo a paisagem galega, amo a alimentação e os produtos galegos. Eu entendo como um tudo o que é a
cultura e a identidade de um povo.
Por isso, acho triste quando vêm com grandes obras públicas sem se
respeitar o que é a paisagem, o património cultural, o que é o grande
património agrário que temos e que se está a perder sem que ninguém
repare nele, nem se faça um mínimo estudo para dizer o que é importante
preservar
.
Enfim, eu vejo o futuro da identidade deste povo com bastantes reservas...
Dia 25 de Novembro de 2005 em Paris vai-se sentenciar se o Património
Imaterial Galego-Português é Património da Humanidade. Como é que
valorizas isso?
Bom, isso é uma cousa lógica de uns povos que querem manter o seu
orgulho e a sua cultura. Acho bom tudo o que seja potenciar a
diversidade, afirmando-se nela própria, isso é positivo. Estamos fartos
da «coca-colonização», venha donde vier, dos EUA, da Alemanha ou de
Madrid.
Tu és da Límia, e lá existe um relacionamento muito especial com
Portugal. Desde há séculos o Norte de Portugal e a Galiza limiã têm um
contacto humano muito especial. Como é que influiu o seres tu da Límia
em todo o sentimento de irmandade com Portugal?
Talvez seja o tratamento com os irmãos portugueses, pois vês que é a
mesma cultura, têm a mesma forma de trabalhar a terra, as mesmas formas
de fazer as cousas. Entras em Portugal e vês que os nomes dos povos, dos
lugares, das cousas são iguais do que na Galiza. Mas claro, Portugal
foi uma nação independente que pôde cultivar-se e a Galiza ficou um algo
prisioneira de Castela, isso impediu fazermos parte de uma mesma unidade que seríamos agora.
Que viva a Espanha, sim.
Mas que nos deixe viver em paz, também.
A maligna influência do Reino perpassa Portugal e chega ao Brasil como se fôssemos puros clientes de uma cultura superior. Séculos e séculos de desinformação mui bem pensada e articulada com vistas à destruição de nossa cultura.
Olavo Bilac
(1865-1918) , o maior dos parnasianos brasileiros, publicou, em 1888
– o mesmo ano da abolição da escravatura e o anterior ao da
proclamação da República –, um dos mais famosos poemas escritos
no Brasil: “Língua portuguesa”.
Olavo Bilac (1865-1918
É bem possível que
muitíssimos galegos o ignorem. Por isso, reproduzo-o na
íntegra:
Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...
Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!
Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
Em que da voz materna ouvi: "meu filho!"
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!
Aqui,
detenho-me apenas na primeira estrofe, Última flor do Lácio, inculta e
bela, que em si
concentra a essência do soneto.
Talvez eu vá
um pouco além, mas não muito.
Apesar do
nobre intento – o de louvar, com rigor formal e apuro estético, a
língua em que escreve e fala –, o autor, o esmerado Bilac, não
conseguiu superar a erronia e a ambiguidade.
Sim,
ambiguidade.
Flor inculta
Comecemos,
pois, por ela: não se sabe, exatamente, o que quer dizer o vate com
“inculta”.
De fato, por
inculto podemos entender aquilo que, apesar de todas as suas
potencialidades, não foi cultivado.
Ou, noutro
sentido, aquilo que, desgarrado da cultura que lhe deu origem –
seria o Lácio? – padece de imperfeições culturais que o torna
diminuto ante a própria gênese, ou aos seus pares, porque estes
estão mais próximos e mais afeiçoados à cultura da qual
provieram. O termo “rude”, empregado numas das estrofes mais
abaixo, reforça a percepção de que era esta a intenção do autor.
Contudo, não
sei... Pode ser um ou outro. Ou, um e outro, o que é menos
provável, dada a natureza formal da escola à qual se filiava Bilac.
Como bom parnasiano, Bilac não se lançaria a certas aventuras
coetâneas, simbolistas, como as ambiguidades puramente
surpreendentes e sibirlamente intencionais.
E vamos à
erronia.
Como se pode
reputar inculta – no primeiro dos sentidos, o mais improvável, de
que cuidamos –, a língua que produziu um dos maiores gênios do
Renascimento – e ele consta do próprio do poema de Bilac – que
nada deve a Dante ou Shakespeare? Como se pode reputar inculta esta
terra úmida, arejada, de cujo útero provieram escritores admiráveis
– já ao tempo de Bilac –, como Camilo, Castilho, Alencar,
Azevedo, Machado, Herculano e Eça?
E, indago,
como pode ser inculta – na segunda das acepções –, uma língua
que, já nos séculos XIII e XIV, adornada por melodias de incrível
beleza, hoje em parte reconstituídas, perpassava e grassava, com sua
graça, corações e almas de não apenas de andarilhos menestréis,
em mulas montados, mas – coisa inusitada e irrepetível em
quaisquer das eras – de nobres e soberanos poderosos, agora
convolados em músicos e poetas inspirados, a exemplo de D. Diniz de
Portugal e do estrangeiro D. Afonso de Castela? E vejam que D.
Afonso, renunciando à língua que ajudou, com grande esforço, a
construir, não compunha e escrevia senão em português. Enquanto o
castelão engatinhava, o português – ou o galego, como queiram –
já era uma língua culta, assentada em boa escrita e belíssima
literatura. Somente italiano e o provençal – hoje agônico, este
último – poderiam, dentre as línguas neolatinas, ombrear-se então
ao português, desde já antigo, bem escrito e belo. Um esplendor
naquelas épocas medievas. Um esplendor ainda hoje – quem o nega? –
e um esplendor nas épocas de alhures e algures.
E não é o
português, como pretende Bilac, a última flor do Lácio.
É, sim, o
português esplendor, mas não sepultura.
O túmulo a
outros pertence.
Na visão de
Bilac, o português desgarrou-se doutro romanço – que não pode
ser outro que não o galego – e se constituiu em língua própria:
o último rebento – o caçula, o benjamim – do latim.
Creio que o
que sucedeu foi bem o inverso: o velho e culto galego manteve-se em
Portugal, tal e qual quando este ainda era mero condado da Galiza, e,
conservando-lhe a estrutura e ingênita poesia, livre de toda nefasta
– primeiro próxima; depois poderosa e ao final iminente –
injunção castelhana, galgou amplos horizontes. Mas, em contraponto,
a Galiza, a pátria mãe, a gênese magnífica de todos nós, não
logrou a mesma sorte. Todos o sabemos.
Nada há de
mais legitimamente galego do que se fala – e sempre se falou – ao
sul e para além do Minho. Sempre foi galego e sempre o será. Se o
galego, fadado à extinção nos próprios lindes, se expandiu,
adornou-se de novas cores e de ritmos, se se deixou penetrar polos
ventos cálidos dos árabes, ameríndios, africanos ou asiáticos,
cumpriu apenas o seu fado, o seu desiderato. Levou-se pelo hálito
inexorável do tempo e do destino. Mas a si próprio não renunciou,
e, por isso, conservou-se em si mesmo, malgrado em terras alhures,
bem alhures, que não a própria, tão condoída de hostes castelãs.
Hoje, todo brasileiro, ainda que não o saiba, fala galego. Mas nem
todo galego, quando não está a falar o habitual castelão, ainda
que pense estar a falar a língua de sua pátria, porque convicto de
que aprendeu corretamente o galego na escola – e não , como seria
natural, com sua mãe, ou a mãe de sua mãe–, não o fala.
Paradoxo? Quem sabe se não?
Em e-correio
dirigido ao mestre Estraviz, escrevi, com muita convicção: “Eufalo galego com toda honra que o galego me permite, e escrevo na língua galega com todo ardor.” Bilac também o fazia –
infinitamente melhor que eu – e o demonstrou em seu pulcro soneto,
embora não se desse conta de que falasse galego. Sim. Assim
como Machado, Bilac falava galego. Mas não somos a última flor do
Lácio, nem somos incultos. Quanto à beleza... O próprio poema de
Bilac – sim, o lindo poema de Bilac – já o responde.
A língua
portuguesa é, sim, esplendor, porque em si mesma dor e esplendor.
Mas não último rebento. E, jamais, sepultura. Não fomos nós que,
incultos, impusemos uma pá de cal no latim. Este mérito, ou
demérito, a nós, que a falamos – seja em Valença do Minho, Tui,
Maputo, Dili, Benguela, São Tomé, ou Itabuna – não nos pertence.
Quiçá a outros, realmente incultos, em ambos os sentidos, acuda a
pecha .... Quiçá...
Talvez a
Galiza se faça sepultura da própria língua – a língua de Dom
Dinis, Camões, Rosália, Castelão , Machado e Herculano – que
meigamente criou. Que construa em si mesma, e de si mesma erija o
próprio túmulo, cravado de inscrições espanholas, à guisa de um
arrogante epitáfio de puro desdém.
Cabe aos
galegos a escolha.
Se os galegos
optarem por destruir o que há de maior de si mesmos, o que fazer?
O conforto
está alhures. Se Deus me deu a magnífica honra de falar galego, e
ensiná-lo aos meus filhos, tal é uma atitude divina. Se o galego
não cabe na Galiza, expande-se maravilhosamente. Queira ou não
queira o Reino de Espanha.
E com esta já sao três as ediçoes das Jornadas das Letras Galego-Portuguesas em Pitões das Júnias.
Dia 30 de Maio Sexta-feira (Hora portuguesa)
20:00: Receção dos participantes nas Jornadas na casa de Turismo Rural
do Padre Fontes em Mourilhe e atuação do Bruxo Queimam e o Padre Fontes.
21:00: Ceia na Casa Rural do Padre Fontes em Mourilhe (ceia 18 Euros) 23:00: Deslocamento dos palestrantes a Pitões Dia 31 de Maio Sábado (hora portuguesa) 10:00: Apresentação das Jornadas 10:15: João Paredes: “A utilidade do celtismo. Celticidade galaica no S. XXI” 11:15: Rafa Quintia e Miguel Losada: “Celtismo, construção cultural e identidade” 12:15: Perguntas, questões e debate. 12:45: Descanso e café 13:00: Oinaikos Kallaikoi 14:00: Comida popular na Praça da Junta da Freguesia (música) 16:30: Oinaikos Kallaikoi 18:30: Maria Dovigo: “O conto de Santo Amaro, desde a procura da ilha paradisíaca à diáspora dos galegos de Lisboa” 19:30: Debate, perguntas e questões 20:00: Descanso, café e visita por Pitões. 20:30: Folião celto-galaico. 21:00: Atuação do Bruxo Queimam 21:30: Folião celto-galaico. 21:45: Ceia livre por Pitões Dia 1 de Junho Domingo (hora portuguesa) 10:00: Abertura da sessão 10:15: Alberte Alonso: As pedra-fitas, observadores astronómicos. 11:15: André Pena Granha: Constituição política celta das galaicas trebas e toudos. Etno-arqueologia institucional. 12:15: Pedro Teixeira da Mota: “As fontes matriciais de Portugal” 13:15: Debate, perguntas e questões 13:45: Encerramento 14:00: Almoço no Dom Pedro.
A GENTE PODE VIR LIVREMENTE ÀS JORNADAS. NÃO HÁ QUE PAGAR MATRÍCULA, SÓ
HÁ QUE PAGAR A CEIA NA CASA DO PADRE FONTES O DIA 30 DE MAIO ÀS 21:00
HORAS. NÃO É OBRIGATÓRIO ASSISTIR A ELA PARA PARTICIPAR NAS JORNADAS
MAS QUEM QUISER VIR DEVE CONFIRMAR PARA OS COZINHEIROS PODEREM MEDIR AS
QUANTIDADES E A GENTE ASSEGURAR UM LUGAR ENTRE OS COMENSAIS.
-CEIA: -Atuação do Bruxo Queimam às 20:30 aproximadamente.
EMENTA:
-Entradas: azeitonas, presunto, chouriço e fios de bacalhau -Prato principal: Carne assada, salada de alface, arroz, verduras cozidas e ovos cozidos -Sobremesas: Torradas e frutas -Bebidas
O novo livro do nosso amigo Luís Magarinhos editado por CulturePrint que poderemos comprar a 8 Euros em Pitões no contexto das III Jornadas das Letras galego-portuguesas, é um livro que faz um estudo comparativo do ser europeu do ponto de vista cultural, dos seus valores civilizacionais e o processo de construção da unidade europeia com todos os obstáculos que isto comportou e comporta, os pontos fortes, as ameaças e os novos critérios a ter em conta para essa construção. Segundo ele, um continente fundado em origem pelo povo celta do qual o noroeste peninsular ibérico é berço, com vocação unitária tem no seu passado os alicerces e os piares para um interessante futuro: as crenças ancestrais e pagãs que mesmo tingiram o próprio cristianismo chegado ao nosso continente em momentos em que a identidade continental já estava determinada; os princípios de amor e cuidado da natureza traduzida numa economia tradicional baseada na terra que nos fornece de alimento e de fontes de energia proclama um ambientalismo e ecologismo de raiz assim como o respeito e amor pelos animais companheiros de viagem neste mundo. Todos esses valores fariam da Europa o lugar que sempre ocupou na história, o de cabeça e chefe da humanidade do ponto de vista político, ideológico, filosófico, económico, diplomático e modelo para o resto das populações do planeta.
O autor, galego de Ponte Cessures, é Mestre em Cultura e Literatura comparada pela Universidade de Santiago de Compostela, Licenciado em Humanidades pela Universidade Pompeu Fabra de Barcelona, ampliando estudos nas Universidades de Vigo, Porto e a Presbiteriana Mackenzie de São Paulo.
A
Blanca García Fdez.-Albalat,André
Pena Granha e José Manuel Barbosa, com amor
A
Terra de Montes –no antigo, Montes
Meta– foi
a pátria dos metácios, um dos povos celtas da Gallaecia
(ou
Kalláikia),
imortalizados no Parochiale
suevum,
Divisio
Theodomiri ou
Concilium
Lucensis,
ata que dimanou do Concilio de Lugo celebrado o dia de Ano novo de
569.
O
topónimo Montes
Meta é
um oro-topónimo tautológico, quer dizer, a forma Meta
também
significa “montanha” “elevação”. A expressão latina Montes
Meta é
o resultado de identificar como “monte” uma realidade já
reconhecida como tal em língua celta.
Concilio Galaico-Suevo com Martinho de Dume como guia.
As
raízes *med-/*met-
célticas
aparecem em inúmeros oro-topónimos galegos: Meda, Medo, Medeiros,
Medela, Medelo (sem irmos muito para além, no vizinho
Caroi-Cotobade)..., dando testemunho da sua rendibilidade
sustratística (E. Rivas Quintas, 1982).
Por
outra banda, o sustantivo meta-ae
latino
significa “coluna cónica” ou “extremidade” “termo”.
Compare-se com o irlandês metho
“fito
de deslinde”.
F.
Cabeza Quiles (Os
nomes de lugar,
1992, pág. 259) diz que ovocábulo
“meta” pervive na toponímia de Galiza dando nome a elementos de
topografia mais ou menos cónica que são sempre montes e montanhas.
Cónica
é a feição do monte do Seixo (Outeiro do Coto, 1.015 m), alviscado
desde a estrada de Cerdedo a Soutelo de Montes e, parafraseando a
Floro e a Orósio, a 30 km em linha reta –de cara ao NO– do rio
Minho (Riba d'Ávia). O próprio Cabeza Quiles acrescenta: Topónimo
notável, que pode provir da prolífica “meta” latina, é o do
mítico monte Medúlio [...]
que
ainda que de difícil ou impossível localização há de ter forma
cónica (páx.
260). Meda, medorra, medonha... são outras formas com as que se
nomeia uma mamoa, sepultura neolítica, v.g.: Chão de Mamas, no alto
do Seixo.
O
verbo latino metor
significa
“fixar os lindes” “chantar fitos”. Tomando em consideração
ambas as duas soluções, a Terra de Montes, Montes
Meta,
traz implícito o significado de “montanha cónica que serve de
fronteira”. Mas, fronteira de que?
Voltemos
ao Parochiale.
Neste documento, recolhe-se a divisão paroquial –as treze
cadeiras– que a “potestas” sueva arbitrou para o reino da
Galiza no século VI, reconhecendo Lugo como diocese metropolitana, a
semelhança de Braga. A província romana da Gallaecia
segregava-se,
após o sínodo, em duas sés arcebispais, Lugo e Braga, respeitando
as áreas de influência destes dous antigos conventos jurídicos
romanos. A sé de Lugo vai perder o seu caráter de metropolitana
depois da época sueva.
Mapa físico da Comarca de Terra de Montes.
Na romanidade, as derregas do conventuslucensis
e
do conventusbracarensis
adaptaram-se
aos acidentes naturais do país (o terceiro dos conventus
era
o asturicensis,
a Galiza do leste). Desde o oeste, os lindes seguiam o vale do rio
Lérez –ou o do rio Verdugo– e as serras interiores da atual
província de Ponte Vedra (a serra do Cando e a serra do Candão),
fontes
fluminum,
atingindo de cara ao leste as ribeiras do Sil. Como se deduz, a tribo
dos metácios, os indígenas da Terra de Montes, se assentavam em
prédios fronteiriços.
No
momento de organizar a província da Gallaecia,
a autoridade romana valeu-se duma mais antiga divisão política
(oinaikoi)
de época celta. A federação de territórios políticos (trebas,
mais tarde civitates,
populi)
na que se adscreviam os metácios era o oináikos
Growion,
localizado ao sudoeste da Kalláikia,
tendo como capital a Bracara
(Braga).
Ainda pertencendo á dita federação, os metácios (uma das tribos
dos artódioi)
habitavam a carão da marca do oináikos
Ártabron,
a federação céltica do norte, com capital em Lucus
(Lugo).
Já naquela altura, a estrema estava debuxada pela ria de Ponte
Vedra, o rio Lérez e as serras do Cando e Candão. A treba
metácia
viveu, portanto, desde a mais remota antiguidade, no limes,
no cabo dum território e no começo do outro. (Consulte-se: Atlas
histórico da Galiza,
Barbosa-Gonçales Ribeira, 2008).
Assumido
o cristianismo pelo povo suevo –muitos galaicos já eram
priscilianistas desde o século IV–, o rei Miro (570-583) fez
realidade o projeto de seu pai, Teodomiro, de organizar a Igreja
nacional sueva. O plano reestruturador contou com o apoio do
influente bispo Martinho de Dúmio (515c-580c), flagelo do arianismo
de Ájax –“o inimigo da fé católica e da Divina Trindade”,
segundo o cronista Hidácio–, impulsor, que foi o dumiense, da
conversão religiosa dos bárbaros do Noroeste.
O
reino suevo da Galiza ficou dividido em treze “sedes” (hoje,
dioceses). Cada uma das “sedes” dividia-se à vez em “dioceses”
(hoje, na Galiza Compostelana, comarcas ou arciprestádegos).
As treze Sés galaicas em época sueva.
Segundo
se lê no Parochiale,
à diocese de Íria, inserida no arcebispado de Lugo,
correspondia-lhe a gestão do seu próprio território e o das
paróquias (antigas trebas
celtas)
dos Morracio, Salinense, Contenos, Celenos, Metacios,
Mercienses, Postamaricos (Coporos, Celticos, Bregantinos, Prutenos,
Prucios, Besancos, Trasancos, Lapaciencos e Arros); todos eles
etnónimos.
No
Chronicón
Iriense,
composto em época posterior (sécs. XI-XII), corroboramos a
atribuição da Terra de Montes à diocese de Íria por parte do rei
Miro: Mirus
Rex Sedi suae Iriensi contulit Dioeceses, scil. Moracium, Salines,
Moraniam, Celinos, Montes
(Terra
de Montes),
Mertiam, Taberiolos (A
Estrada),
Velegiam, Loutum, et Pistomarcos, Amercam, Coronatum, Dermianam,
Gentines, Celtagos, Barchalam, Nemancos, Vimiantium, Salagiam,
Bregantinos, Farum, Scutarios (Cotobade),
Dubriam, Montanos, Nemiros, Prucios, Visancos, Trasancos, Lavacengos,
et Arras, et alias, quae in Canonibus resonant.
Baixo
o reinado de Afonso II o
Casto (760c-842),
acha-se em Íria Flávia (ano 813), capital da diocese, o suposto
sepulcro do apóstolo Santiago. As constantes razzias viquingues vão
propiciar, posteriormente, o traslado da sé iriense –e dos
veneráveis despojos (com certeza, de Prisciliano)– a Compostela,
que se vai converter em metropolitana no transcurso do século XII,
em tempos de Gelmírez, e até os nosso dias.
Porta Nigra em Trier onde decapitaram Prisciliano.
Recuemos
de novo no tempo. Durante as campanhas militares que o Imperador
romano Octávio Augusto (63 a. C.-14 d. C.) levou a cabo no norte da
Península, aconteceu, num lugar impreciso, mas montuoso, do interior
da Galiza, a célebre batalha do monte Medúlio, decisiva na
conquista do território galego.
Por
volta do ano 20 a. C., os superviventes daquele feroz combate
resistiram afoitamente o delongado assédio ao que os someteram as
legiões romanas de Caio Fúrnio e Públio Carísio. Os celtas da
citânia do Mons
Medulius preferiram
o suicídio –depois da ingesta de bagas de teixo–, antes de se
entregarem com vida ao inimigo: “Denantes mortos que escravos”,
escreveria Castelão. Lembremos que o episódio de Trentinão, a
mítica vila assolagada do Seixo, amenta os romanos no alto da
montanha. Na mesma, ergue-se majestosa a peneda fortificada do Castro
Grande.
Se
atendemos a uma das etimologias propostas para Medulius
(Mediolanum),
este viria significar “a chaira do medio” “lugar central”. A
profesora Blanca García Fdez.-Albalat descreve o mediolanum,
por causa das suas características, como lugar assembleário,
cenário ritual, santuário, feira, foro, oenach,
onfálica encruzilhada...
Blanca Garcia Fernández-Albalat
Chegados
a este ponto, a vista volve-se de novo, sem esforço, para ao alto do
Seixo, para ao cruzamento de Portalém (a porta do Outro Mundo), cara
o Marco do Vento, descomunal pedra-fita (a trebopala),
ali, na Feira Velha, onde como diz a lenda, todos os ventos dão a
volta.
Desde
tempos imemoriais, os 30 m3
de
pedra de granito do Marco do Vento (ou Marco do Seixo) –6 m de
altura– e as cruzes de termo gravadas nas suas faces vêm exercendo
de chanta divisória. A chaira onde se ergue, relanço sacro, terra
de ninguém e de todos, confluência de caminhos, foi senlheiro
cenário do ciclo festivo celta. Os metácios, o populus
que
morou na redonda da montanha, condensam no seu nome o caráter
singular dos que habitaram ao pé do outeiro da marca, na fronteira
final.
Portalém, na Montanha Sagrada do Monte do Seixo (Cerdedo)
Muitas
são as candidaturas apresentadas para acolher o nemeton
meduliano,
mas nenhuma tão ricamente adubada como a proposta pelo monte do
Seixo. Quem dá mais?