sexta-feira, 17 de abril de 2015

IV Jornadas das Letras galego-portuguesas em Pitões das Júnias.


Programa (Hora portuguesa. Uma hora mais na Galiza)

Dia 30 de maio. Sábado

10:00: Abertura das IV Jornadas das Letras galego-portuguesas em Pitões
  • Lúcia Jorge. Presidente da Junta de Freguesia de Pitões das Júnias
  • Orlando Alves. Presidente da Câmara Municipal de Montalegre
  • José Manuel Barbosa. Desperta do teu sono.
  • Maria Dovigo (AGLP: Academia Galega da Língua Portuguesa)
10:30: 1º Painel. Moderador: José Manuel Barbosa: Desperta do teu sono.
  • 10:30: Mónica O'Reilly: "Myth and identity: Leabhar Gabhála Éireann: Construction and de-construction of irish, Galician and Portuguese Gaelic narrative" (Tradução simultânea: João Paredes).
  • 11:30: João Paredes: "Sobrevivências da antiga religião galaica e concomitâncias na Europa atlântica".
  • 12:30: Marcial Tenreiro: "Mito, realidade e território; Para uma etno-árqueologia jurídica na céltica peninsular".
13:30: Almoço


16:00: 2º Painel. Moderadora: Kátia Pereira representante do Polo Eco-Museu do Barroso-Pitões das Júnias
  • 16:00: Filme: "Cemraiost'abram" de Mónica Baptista.
  • 17:00: Rafael Quintia, João Bieites e José Manuel Barbosa: Apresentação das Atas das Jornadas das Letras galego-portuguesas dos anos passados.
18:00: Livre

Dia 31 de maio. Domingo.



10:00: 3º Painel. Moderador: David Teixeira Vice-Presidente da Câmara Municipal de Montalegre.
  • 10:00: Maria Dovigo: "Lei estranha do herdo. Presença da avó na poesia galega contemporânea: As elegias de Joana Torres".
  • 11:00: Hugo da Nóbrega: "Identidade toponímica do Norte de Portugal e localização do nome da Gallaecia".
  • 12:00: Conclusões e propostas em comum.
13:00: Almoço.

16:00: Visita turística por Pitões das Júnias
  • Visita ao Mosteiro de Pitões das Júnias
  • Visita à Cascata
  • Visita ao Eco-Museu onde se vai expor a panóplia guerreira dos soldados galaicos por parte do grupo Oinaikos Brakaron.
 
Colaboram:  
AGLP (Academia Galega da Língua Portuguesa)
Associação Pró-AGLP
Câmara Municipal de Montalegre 
Junta da Freguesia de Pitões das Júnias 
AGAL: (Portal galego da Língua) e AGAL (Associação Galega da Língua) 
SAGA: http://www.antropoloxiagalega.org/
IDG: https://durvate.wordpress.com/
Polo Eco-Museu do Barroso: 
Oinaikos Brakaron:
Gaiteiros de Pitões das Júnias:

Link da Junta de Freguesia de Pitões das Júnias:
http://jf-pitoesdasjunias.org
Link do Concelho de Montalegre:
 http://www.cm-montalegre.pt/

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Portugal e o Reino dos Suevos (409 a 585 AD)




Por João Casaca. 
(Engenheiro Geógrafo, Membro Conselheiro da O.E.)


Comendador Armando de Almeida Fernandes (nascido em Britiandes, em 1917, e falecido em Tarouca, em 2002), sendo licenciado em Ciências Geográficas, distinguiu-se pelo estudo da História dos antecedentes e primórdios de Portugal. Das várias dezenas de trabalhos que publicou, avultam teses tais como a do nascimento de D. Afonso Henriques em Viseu ou a da  origem de Portugal no reino suevo (409 a  585 AD. A argumentação de Almeida Fernandez, especialista em toponímia e antroponímia-onomástica, tem em geral uma base geográfico muito convincente. No primeiro capítulo do livro "Viseu, Agosto de 1109, nasce D. Afonso Henriques" (2007), Almeida Fernandez lembra que um topónimo (nome de lugar) passa frequentemente a corónimo (nome de região) por efeitos administrativos, e sustenta que o topónimo romano-céltico "Portucale" (Porto) passou a designar o condado de Portugal (corónimo) porque o Porto terá sido capital (residência real, centro administrativo e sede de diocese) no final do reino suevo.
Os suevos (quados e alguns marcomanos), juntamente com os vândalos e com os alanos, entraram na Hispânia em 409 AD, a convite do "governador" romano Gerôncio, em rebelião contra o imperador.
Em 411 AD (tendo liquidado Gerôncio), Honório instalou os suevos e os vândalos asdingos na Galiza, os vândalos silingos na Bética, os alanos na Lusitânia e manteve o controlo da província Tarraconense a leste da Galiza. Os suevos ficaram com o território da Galiza entre o Douro e o Minho, prolongado a Leste até Astorga. Até meados do século V, o reino suevo expandiu-se para norte (toda a Galiza) e para sul e leste (chegou a ocupar metade da Hispânia). Posteriormente, por ação dos visigodos, o reino suevo recuou para oeste e para norte do Tejo (Mérida e Lisboa foram perdidas em 466). Em 585, o reino suevo abrangia a Galiza e estendia-se para sul até ao Tejo, a norte do paralelo da foz do Zêzere. O corónimo Portugal, que atravessou incólume a dominação visigótica e muçulmana, abrangia aproximadamente o território entre o Douro e o Minho, mas a leste não ia tão longe como o território original do reino suevo (não incluía o atual distrito de Bragança). É no território condal, onde existe a maior concentração de topónimos germânicos de toda a Península, que a assimilação entre os suevos e os celto-romanos  teve maior sucesso: as terras do Bouro são as terras dos búrios (pequena tribo aliada dos quados). A aristocracia sueva apropriou-se das melhores terras, expropriando os grandes proprietários rurais, mas aliviando a população, em geral, dos pesadíssimos impostos romanos. Por outro lado, o reino suevo procurou manter a estrutura administrativa e judicial romana e praticou uma grande tolerância religiosa. A extinção da dinastia sueva em 585 não acabou com o reino suevo: Leovigildo, rei dos visigodos, passou a ser também o rei dos suevos, como aconteceu em França com os francos e os burgúndios.  

Em 863, Vímara Peres tomou o Porto aos mouros e foi nomeado conde de Portugal pelo rei Afonso III de Leão. A dinastia condal de Portugal extinguiu-se quando o conde Nuno Mendes foi morto, em 1071, pelo rei  Garcia da Galiza, na batalha de Pedroso (perto de Braga). O rei Garcia passou a intitular-se rei de Portugal e da Galiza. O rei Afonso VI de Leão, irmão do rei Garcia, apoderou-se do reino de Portugal e da Galiza e concedeu o condado portucalense ao seu genro D. Henrique, pai de D. Afonso Henriques. A expansão do território portucalense sob a égide do rei de Portugal levou a nova generalização do corónimo Portugal, que passou a designar as terras do senhor de Portugal, até à fronteira do Algarve. No livro “Paróquias Suevas e Dioceses Visigóticas” (1968), Almeida Fernandes leva a cabo uma análise toponímica de dois documentos coevos: o “Paroquial Suévico” e o “Provincial Visigótico”. O “Paroquial Suévico”, escrito c. 580 AD, no reinado de Teodemiro, apresenta uma relação de 134 paróquias agrupadas em 13 dioceses e indica a existência de uma diocese étnica (não geográfica) para os cristãos de origem bretã, emigrados da Grã-Bretanha, na sequência das invasões anglo-saxónicas. O Paroquial refere ainda a existência de vários “pagus”, que seriam paróquias de cristãos arianos, constituídas por sue vos não convertidos ao catolicismo. As dioceses mencionadas em território português (entre o Minho e o Tejo, no paralelo da foz do Zêzere) são Bracara, Portucale, Lameco, Viseu, Conimbria e Egitânia (Idanha). O “Provincial Visigótico”, escrito em meados do séc. VII AD, enumera e descreve os limites geográficos das dioceses visigóticas que, no nosso atual território, coincidem com as suevas, a norte do Tejo (paralelo da foz do Zêzere), e incluem Olissipona, Elbora, Pace (Beja) e Ossonoba (Faro). Tudo isto mostra que a génese de Portugal nada tem a ver com a antiga província romana da Lusitânia (com capital em Mérida) e que a História de Portugal não começa com D. Afonso Henriques.

sábado, 28 de março de 2015

Brasil: Novamente um alvo geoestratégico




 Por Artur Alonso Novelhe

A velha guerra encoberta entre Emergentes e Império Ocidental, agora – como já tínhamos comentado – se tornou nova guerra aberta. O Brasil joga em esse nó geoestratégico um papel de relevo na América Latina. Na tentativa de derrubar o Brasil – e com ele terminar com o sonho breve de independência econômica continental – estão depositadas parte das necessidades Imperiais anglo-saxônicas de manter o controlo hegemônico global.
Tomar o Banco do Brasil, entregá-lo a uma pequena elite de banqueiros vassalos do anel de poder londrino e de Wall Street com o fim de derrubar a Petrobras, transformá-la numa empresa menos dinâmica, privatizando-a ao serviço das grandes transnacionais petrolíferas Ocidentais; faz parte duma necessária estratégia de sobrevivência imperial, que passa inevitavelmente pela recolonização do jardim traseiro, que para os EUA foi sempre desde o século passado, a América do Sul.
A recentes manifestações em várias cidades do Brasil, nas que pudemos observar em várias das faixas reivindicativas, chamamentos ao exército para tomar o controle do país, não deixam de ser paradoxais, dado que em estes momentos é o atual governo brasileiro o único que manifestou sua disposição a garantir a soberania real do território. Os rivais mais próximos nas ultimas eleições, levavam em seus programas de governo a conversão do Banco Central, em um banco privado ao serviço do capital financeiro transnacional seguindo o modelo da Reserva Federal Americana ou do Banco Central Europeu o qual na pratica significa a entrega do fluxo monetário, sua expansão e contração, ao sector bancário privado. Este sector não conta com um anel de poder regional nem global limitando a sua ação para integrar-se no marco dos mercados mundiais geridos pelo anel de poder imperial anglo-saxão, nem tem hipótese, no curto prazo, de qualquer tipo de controlo sobre seus próprios recursos e patrimônio.
Nenhum militar entregaria a soberania do seu pais, a um poder econômico estrangeiro, pelo que podemos afirmar que se de algo pode estar preocupada a cúpula militar do país é sem dúvida, de que a situação de descontentamento brasileira, possa deteriorar-se ao extremo de o país ficar dividido em duas realidades irreconciliáveis. Esta divisão provocaria uma tensão semelhante a que hoje vive a Venezuela e não é de estranhar que todos os país da América de Sul, que estão a fazer hoje grandes esforços pela integração regional, dentro do Mercosul, Unasul ou Celac, etc, estejam sendo almejados pelos ataques econômico–financeiros, mediáticos e sociais, sendo utilizados nos protestos a corrupção como arma política muito eficaz, visando como alvo a destruição da convergência regional.

Fora da analise de modelos partidários ou da polarização esquerda–direita, o certo é que se um país tem o objetivo de ser o centro referencial dum novo poder emergente, ele precisa desenvolver um anel de poder abrangente que se consolide internamente e no âmbito regional que tenciona influenciar. Sendo no caso do Brasil, ele é o único ator com capacidade real, para impulsionar uma independência certa do continente Sul-Americano. Deve pois criar um modelo referencial exportável e compatível com o resto dos seus parceiros políticos e vizinhos continentais.

No cultural, o modelo está claro: um modelo de unidade na diversidade. Isto é relativamente fácil, num país que abrange dentro de si próprio todas as culturas, raças e tradições do planeta e que durante decênios tem colaborado na sua integração e miscigenação em contraste com o encerramento dentro dos seus próprios limites de estas próprias comunidades em outros territórios americanos.

No nível sócio–político e econômico, o Brasil precisa criar modelos flexíveis que sejam facilmente adaptáveis às realidades do seu contorno. Esse processo é secular, lento e paciente. Paciência e diplomacia têm sido duas das ferramentas que melhor sabe utilizar o poder brasileiro.

No entanto, na nova conjuntura internacional de guerra direta entre Emergentes e Anglo-saxões, é inevitável, que o Brasil ao mesmo tempo que define sua estratégia regional, resista as tentativas dos poderes exteriores de dominação.

Se por uma parte a chegada cada vez mais maciça do capital chinês tem sido importante para livrar a região duma vassalagem real ao capital transnacional ocidental, também por outra parte põe em evidência os medos do Império Norte-americano de ver-se ultrapassado como parceiro comercial e que isso signifique uma aliança Sul-americana em favor da hegemonia global chinesa. Nada mais absurdo para o futuro desenvolvimento potencial do Brasil, como trasladar o eixo do mundo do Atlântico Norte ao Pacífico... Assim que o Brasil, terá de saber movimentar-se com melhor subtilidade em este difícil contexto, exigindo de Washington novos modos de fazer política ao tempo que utiliza os amortecedores chinês e russo para evitar ser engolido pelo gigante Ocidental.

É pois em esta tessitura que Brasília precisa urgentemente criar um modelo inclusivo, a nível interno, que leve aos diferentes atores políticos do país a pactuar, precisa também um rascunho de acordo que permita pôr em marcha um anel flexível de poder propriamente brasileiro baseado na intocabilidade do Banco Central que é quem garante da independência econômica mas também precisa a manutenção das empresas estratégicas como Petrobras, garante de Independência energética, nas mãos do governo brasileiro. Terá igualmente que acordar-se um modelo econômico próprio que do nosso ponto de vista deve ser derivado do antigo modelo europeu do Estado Providência, onde o Estado faz ponte entre a força do trabalho e o capital, mantendo o equilibro entre ambos, permitindo a livre inovação, iniciativa e criatividade privada mas ao mesmo tempo desenvolvendo um modelo de redistribuição social justo e equitativo que permita às classes sociais mais humildes viver dignamente e crescer continuamente como seres humanos, com capacidade para desenvolver suas potencialidades e nobres valores. 
 

sábado, 21 de março de 2015

Carlos Peregrin Otero e o paradigma galaico da formação das línguas ibéricas




Por José Manuel Barbosa

Carlos Peregrin Otero foi um linguista e gramático galego nascido em 1930, pensamos depois de várias pesquisas que em  Vila Nova da Lourençã. Estudou em Madrid Ciências Político-económicas e Direito para posteriormente completar a sua formação na Universidade de Berkeley onde fez Linguística e Literatura Românica. A partir de 1959 trabalhou como Professor na Universidade de Califórnia em Los Ángeles para exercer de professor de linguística e literatura espanhola desde 1969 gerando uma grande revolução nos estudos relativos à língua castelhana. Grande seguidor de Noah Chomsky a quem lhe fez traduções de alguns dos seus livros. Foi autor de livros de grande peso científico de tema linguístico como "Disputaciones (lengua, cultura y política)", "Introducción a la linguística transformacional" publicado em México em 1970 e de um livro de grande interesse para nós que leva o título de "Evolución y Revolución en romance. Mínima introducción a la fonologia" publicado em 1971 em Barcelona.
Este é um estudo diacrónico da língua castelhana onde bota abaixo todos os velhos conceitos que a velha linguística manteve sobre o castelhano durante muito tempo e manifesta a sua ideia de que o castelhano é uma derivação da língua galego-portuguesa.
A censura franquista proibiu este último livro, obrigando-o a mudar parte do seu texto para adequá-lo aos paradigmas nacional-católicos dos anos da ditadura. Uma desses atos de censura foi o facto de ele afirmar que o galego é um passo anterior ao castelhano criticando que os hispanistas concluíssem com grande convencimento uma origem do castelhano independente e com vocação imperial. Segundo nos diz ele: 

"Si tuviésemos testimonios escritos de una época muy antigua, a finales del primer milenio, comprobaríamos que ambos idiomas diferían muy poco. La sintaxis actual del gallego es más arcaica, no sólo tiene propiedades del castellano de hace mil años, sino que parece plausible que estas propiedades fueran comunes. La similitud, se debe a que el gallego evoluciona más lentamente que el castellano aunque, durante siglos, da pasos similares. Es como si las lenguas románicas estuvieran canalizadas para seguir un mismo curso y que las diferencias sean de rapidez en hacerlo"

O esquema genealógico das línguas hispânicas para Peregrin Otero é um muito similar ao que um dia nós elaboramos na velha página da AGAL, lá por 2003 e que posteriormente acrescentamos e melhoramos no nosso Atlas Histórico da Galiza. Tudo, sem conhecermos a figura deste galego do qual, talvez por ser anti-franquista e relacionado com o anarquismo, não tenhamos muitas notícias.
Curioso é o facto de ser ele o que distinga duas variantes dialetais romances na península Ibérica: uma galaica no norte e outra moçarábica no sul à que lhe dá o nome de "Yudió" por serem os judeus sefarditas os que segundo ele melhor conservam os restos dessa variante linguística.

Posteriormente autores como Rodrigues Lapa no ano 1981:

 “A unidade linguística sob forma galego-portuguesa, que os mapas de Pidal demonstram para vastas regiões do centro e do sul de Espanha e os estudos recentes de Carlos Peregrin Otero acabam de confirmar, declarando que o pré-castelhano e o pré-galego foram uma e a mesma língua, a que conviria chamar romance galaico (Evolución y revolución romance, 135), seria a chave desse mistério. Já em 1929-1930 o procuramos esclarecer à luz dos elementos fornecidos por Julian Ribera e Menendez Pidal. Explica-se com isto a razão por que nos séculos XII e XIII se empregava o português como língua do lirismo. É que eles não era uma língua estranha, vivia ainda, mais ou menos alterado por influências várias nas camadas inferiores da antiga população muçulmana e moçárabe. Só assim se compreende o fenómeno realmente estranho de o vulgo castelhano o usar para a poesia lírica e satírica (...). É que havia em Espanha um lirismo que devia ser contado em português, língua falada em Castela e em outras regiões penínsulares no século XII.

 
Genealogia linguística da Península Ibérica segundo Peregrin Otero
Carvalho Calero em 1983:

 “Recorrendo à necessária abstraçom e coas cautelas e reservas que toda abstracçom implica, podemos falar em consequência dum latim gallaeco do que se derivou um proto-romanço galaico que se estendia, diversificado em distintas realizaçons do Atlântico à cordilheira Ibérica. Este pré-romanço tivo que apresentar primitivamente duas variantes: a atlântica e a mesetenha; é dizer, o fundamento do galego e o fundamento do leonês. E ambos romanços em contacto com formas idiomáticas exteriores produziram duas inflexões ou dialectos que estavam chamados a eclipsar culturalmente como consequência da sua fortuna política, às respectivas polas nas que agromaram.
Implantado sobre o substrato moçarábico lusitano, o galego deu origem ao português. Projetado sobre o adstrato eusquera, convertido às vezes em substrato pela penetração política leonesa, ou em superestrato pelas vicissitudes de repovoação, o leonês deu origem ao castelhano. Português e castelhano seriam, pois, originariamente dialetos fronteiriços do galego e do leonês, respetivamente. A Gallaecia seria um viveiro de romanços. Quando os nossos eruditos ou afeiçoados do século XIX incidiam teimosamente no erro de considerarem o castelhano como um derivado do galego, não faziam senão confundir, segundo a exposição anterior, o galego com o galaico ou galaico. Deste sim se derivaria o castelhano, mas não através do galego -galaico ocidental- senão através do leonês -galaico oriental- e Eugen Coseriu em 1989:
Genealogia das línguas da Península elaborado por nós para o trabalho "Alguns aspectos da Pré-história da Lingua"

"Poco despuesde la invasión árabe, interrumpe tambien este desarrollo, mucho antes de que las innovaciones partidas desde el centro pudiesen imponerse, tambien como norma de conservación a los centros innosvadores de Gallaecia, o la Tarraconense. De suerte que ahora puede hablarse ya del perfilarse de una unidad gallega (o quizá galaico-asturiana) sobre todo con la creación del reino de Astúrias, que muy pronto engloba a Galicia (...). Por outra parte, sin embargo, las conservaciones que oponen esta lengua (fala do galego), al castellano, al catalán o a ambos dialectos, son propias tambien del asturiano, por lo menos del asturiano occidental y -lo que otra vez, es más importante- tambíen algunas de sus innovaciones se extienden a ese mismo asturiano occidental. De acuerdo con el criterio adoptado con respecto a las lenguas que se están delineando, deveriamos, por lo tanto, decir que -como en la época anterior- se está perfilando una lengua "galaico-asturiana" con centro en Galicia; tanto más en cuanto una unidad política "Portugal" todavia no existe".

manifestam algo parecido ou igual.
Se a isto acrescentamos o manifestado pelo Professor Roger Wright em 1991:
"Antes do milénio e talvez antes do século XIII desterremos também os conceitos distópicos, pouco úteis e anacrónicos tais como galego, leonês, castelhano (...); todos esses conceitos modernos estorvam à vista clara. A península (aparte dos que falavam basco, árabe, hebreu, etc) formavam uma grande comunidade de fala complexa mas monolingue"

Igualmente já o temos manifestado em outras ocasiões que em épocas do Rei Afonso VI, morto em 1109 a língua usada pelo próprio Rei era esta na que estamos a escrever como nos conta o historiador castelhano Prudencio de Sandoval: 

".... y en la lengua que se usaba, dijo con dolor y lágrimas que quebraban el corazón:
Ay meu filho! meu filho! Alegria do meu coraçom et lume dos meus olhos, solaz da minha velhece! Ay espelho em que me soya veer, et com que tomava muy grand prazer! Ay meu herdeyro mor! Cavaleiros, hu me lo leixastes? Dade-me o meu filho, Condes!"

Por outra parte, que o Rei denominado de "Sábio", numerado como X pela historiografia castelhana mas IX segundo o nosso cômputo, escrevesse as cantigas de tema religioso mais famosas da nossa língua na Idade Média não tem nada de estranho. Era a sua língua.

Como também não é nada estranho comprovar mais personagens que aderiram a esta forma de ver a genealogia das línguas peninsulares comentando o dito pelo Marquês de Santillana no século XV  sobre uma História da Espanha escrita no Século XIII em castelhano, mas como para ele era um castelhano tão popular e tao puro, reconhecia que estava escrita numa "lengua castellana, tan cerrada que parece portuguesa".

Nada disto é partilhado pelo ensinado nas Universidades espanholas. Para elas o castelhano ou espanhol não é derivado mais do que do latim, herdeiro direto dele e língua orgulhosa falada por todos os seres inteligentes do planeta. É por isso que não faz falta conhecer mais línguas do que o espanhol. Para que?



Notas linkográficas:

(Neste web há um link que leva a um foro nazista onde se reproduzem uns mapas sobre a evolução das línguas na península ibérica. Esses mapas foram feitos pelo autor deste artigo em 2003 para a página web da AGAL (Portal Galego da Língua) e nunca foram cedidos a ninguém e muito menos a uma página dessa ideologia que traduz para o castelhano o texto e ainda não põe referências donde foram apanhadas. Os mapas originários estão aqui neste outro link:
http://www.agal-gz.org/modules.php?op=modload&name=My_eGallery&file=index&do=showpic&pid=332&orderby=titleA)
Finalmente agradecemos ao responsável pelo web "Geografias de España" Oscar Pazos a aclaração sobre a origem dos mapas.


terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Um Telejornal na TV galega: O NO-DO ou o nada?




Por José Manuel Barbosa
Tomei a moléstia de recompor o guião dum Telejornal da TVG o dia 30 de dezembro de 2014 para ver qual é a mensagem dos média galegos dependentes da Junta da Galiza e deu o seguinte:

- A Siriza preparada para as eleições à presidência. (Manifestações de personagens do Pepé espanhol comparando com Podemos e o perigo que suporia que houvesse uma ruptura na Europa. Não houve opiniões de partidos galegos)
-Imagens e informações sobre o acidente do avião que caiu em Malaysia.

-Imagens e informações sobre o naufrágio do barco italiano no Adriático.

-Abertura da Auto-estrada Crunha-Irun. (Um grande mérito do governo. Rajoi chupando câmara com manifestações de recuperação da crise)
-Informações sobre Venezuela. (Maduro falando e opiniões críticas de políticos vinculados ao poder em Espanha)

- Baixam os Preços em Espanha (Grande sucesso do governo).

-Problemas de duas empresas galegas (Fecham... Que lhe vamos fazer!).

-Tribunal Constitucional abaliza fusão das caixas galegas. (O recurso foi posto pelo Presidente Feijó e foi um mérito do governo  galego. As caixas galegas já não existem como tais. Não parece que se vão recompor).

-Informação sobre o chamado "Céntimo Sanitário" nos combustíveis para ajudar na sanidade. (Foi reconhecido como ilegal pelos tribunais e vai ser o Estado quem tome a responsabilidade. O lucro a conta deste imposto sobre os combustíveis era grande. As autoridades competentes vigentes são as responsáveis da consideração como ilegal deste imposto.... e claro, é luta contra a corrução. Quem se lucrou? Não sabemos)

-Alfonso Rueda, vice-presidente da Junta de Galiza substitui à Conselheira de Meio Rural provisoriamente por doença desta (Há que estar a todas. Trabalhamos muito).

-Pleno da Deputação de Lugo.

-Recorde de turistas em Galiza durante o ano 2014. (Um sucesso do regime. O comentário lembrou-nos com o seu tom triunfalista, teatral e surpreendida essas comentaristas norte-coreanas que emitem a retransmissão dum desfile militar na honra do Brilhante Camarada. Quando morreu o Patrão também nos pareciam as pragideiras do Presidente Eterno...o seu pai)

-Translação dos restos do Apóstolo Santiago e pedido de ajuda ao santo para erradicar a corrução da Espanha por parte dum representante do Estado. (Rezemos. O santo já nos livrou dos mouros... agora vai-nos livrar da corrução. Por certo... haveria algo na caixa do morto?)

-Fiscal Superior de Galiza fala contra a corrução.

-Caso NOOS que implica ao genro do Rei Juan Carlos e a sua filha. Rebaixa na multa (A lei é para todos...).

-As condena por corrução contra o ex-presidente do Barça permitem que saia do cárcere no Natal para estar com a família. (Outros não voltam à casa pelo Natal... Esses serão os de sempre)

-Problemas com um ERE (Redução de pessoal duma empresa) em Andaluzia.

-Climatologia adversa e muito frio em Galiza (Falando do tempo e da saúde).

-Empresa de Salinas andaluza destina o seu sal para as estradas galegas com o fim de produzir descongelação das mesmas e evitar acidentes (... o que eu diga: O tempo e a saúde).

-Clima produz problemas de saúde na Galiza (Já o venho dizendo: o tempo e a saúde).

-Um homem mata à sua mulher em Venuezuela para cobrar um subsídio. Detido o assassino pelas forças da ordem (Cumprindo com o dever quando se pode).

-Sequestro fingido que provoca detenções. Bom trabalho das forças do ordem (Cumprindo com o dever.....).

-Raparigas adolescentes provocam o suicídio duma companheira por acosso escolar (De injustiças também se fala na TV).

-Fabricação de moedas falsas. As forças da ordem fazem o seu trabalho muito bem feito. (Bem feito)

-Desarticulado um grupo narco em Ourense. Bom trabalho das forças da ordem. (Pois isso. Bem feito)

-Cultura:

  • Organização da obra de Teatro Musical "Los Miserables" de Vitor Hugo. (Victor Hugo falava castelhano)
  • A TVG emite uma série sobre o roubo do "Códice Calistino". Entrevistas aos protagonistas reais, responsáveis da Catedral e do trabalho policial (Há que deixar tranquilos aos espectadores. Tudo é normalidade e tudo acaba bem)
  • A FUNDEU (Fundación del Español Urgente) nomeia palavra do ano "Selfi" (se E final) adaptando-a ao castelhano (Cumprindo com a função do governo e da TV galegas na sua promoção do castelhano).
  • Livro do Jornalista de La Voz Fernándo Ónega sobre o Rei Juan Carlos dando a conhecer o seu pensamento sobre os episódios dos últimos anos que o levaram à abdicação (Que a gente não pense que somos uns irresponsáveis)
-O Tempo (...e a saúde. Já o disse)
-Desportos (Isso sim, mais de 20 minutos... que a gente tem direito à informação por mandato constitucional que isto é uma democracia!!) 
 
Pelo demais, de vida parlamentar galega, da opinião dos partidos galegos, do posicionamento dos partidos galegos sobre este ou aquele outro tema, de debates parlamentares, de atividade interna dos partidos, de espectativas nas próximas eleições, sobre temas conflituosos galegos onde não há acordos, das críticas às ações do presidente ou do governo galegos, de novas leis galegas que saiam do parlamento galego,... sobre essas cousas, nós não nos metemos porque o lema da TV galega é "Fazemos como Franco, como Aznar e Feijó que não se metiam nunca em política". Pelo demais? A economia vai bem, a crise já não existe, é Natal.... ups! desculpem... Nadal!!! e como dizia aquele paisano de Lobeira que não sabia falar castelhano do que nos falava o nosso amigo Medela: "Nós falamos castelhano, que é o nosso".
E feliz ani... que o ano é outra cousa.

domingo, 21 de dezembro de 2014

Perguntas e mais perguntas.




Por José Manuel Barbosa

Falam de que a língua perde falantes e está ao borde do desastre. Dizem os responsáveis que eles não são responsáveis porque a culpa não é deles, é das famílias.... Responsabilizar ao povo da política linguística? Tenho visto as famílias aguardar na porta do médico da Segurança Social (hoje Insegurança...) com nenos nos colos; tenho visto famílias aguardando pelos seus filhos nas portas dos colégios; tenho visto famílias de muitas maneiras mas nunca vi famílias na porta da Conselharia de Cultura, Educação e Ordenação Universitária aguardando para assinar ações políticas na seçao da Secretaria Geral de Política Linguística... 
Desenho de Siro
Será que o facto de existir uma Secretaria com tal nome que não tenha culpa da deriva da língua é possível? Será que o facto de as famílias não terem conhecimento do valor duma língua, da sua língua é responsabilidade delas ou é da Conselharia de Cultura, Educação e Ordenação Universitária na sua seção da Secretaria Geral de Política Linguística? Será que não conhece a Conselharia essa lei que diz o que há que fazer com a língua? Será que não sabe o que fazer com ela? Será que não se importa? É possível não se importar? É possível a ignorância? É possível o que acontece... Será possível que quando eu não cumpro uma lei posso andar pela rua com total tranquilidade e ainda ser saudado pela gente e ter toda a honorabilidade? Como é que se chama quem não cumpre a lei? Como se chama a figura legal que define e determina ao governante que não cumpre um mandado legal?
Desenho do humorista ourensano Xosé Lois "O Carraboujo"

Será que quando não se cumpre a lei cabe denuncia? Ou não há denuncia para estas cousas? Se não cabe denuncia... que lei é essa que pode não ser cumprida? Se é uma lei que pode não ser cumprida... que fez o nacionalismo durante mais de 30 anos seguindo uma lei que pode não ser aplicada se for a vontade dum governo? É que existe a possibilidade de que haja governos que possam não cumprir uma lei? Mas se pode ser denunciável... a que aguardamos? Se estamos a aguardar ao final do processo... será que quem não denuncia é também responsável?
É desejável essa legalidade linguística? É preferível outra legalidade ou é preferível a alegalidade?
Polémica surgida porque uma família de Barcelona não aceitou um trabalho em Vigo (cidade onde mais se fala castelhano na Galiza junto com a Crunha). A razão foi que o grupo supremacista castelhanófono "Galicia Bilingue" informou a essa família que em Vigo estava proibido o castelhano no ensino.
Por outra parte, que faz um indivíduo presidente da RAG que não está do lado dos defensores da língua? Que academia é essa?
É possível que um indivíduo, presidente dum País (aqui dito Comunidade Autónoma) não defenda o seu País nem a língua do seu País? Cabe essa possibilidade? É responsável essa pessoa ou é irresponsável como por lei são os reis da Espanha? Que é isso? Quem é esse? Que País tem credibilidade quando um responsável político não é responsável legal perante os seus cidadãos e os seus votantes? Pode-se suster isso? Que possibilidade existe de o botar fora? Com votos? Votos sequestrados no País onde até os mortos votam? Como é que até os bisnetos de galegos no estrangeiro, que não conhecem Galiza nem se lembram dela, nem se consideram já galegos, podam votar sem saber nada dela? Como é que esses descendentes de galegos que já não são galegos votem tão maioritariamente o Partido dos que não têm culpa de nada? Que galegos temos que votam a quem não usa a sua responsabilidade para governar, defender o seu País nem os interesses do conjunto da sociedade que os vota? Como é possível que um Partido que não é responsavel de nada apesar de ter responsabilidade de governo, governe com maioria absoluta com um 76% de galegos que não os votaram?
(Ir)Responsáveis da política linguística da Galiza. Vazquez Abad, Conselheiro de Cultura e Alonso Montero, Presidente da RAG (Real Academia Galega)
Que direitos tem o povo consciente de obrigar a cumprir com o País, com a língua, com os interesses do País, com a sociedade que o vota e que não o vota...?
Que País é este que se deixa extinguir sem mexer um dedo? 

Que é isto? Uma brincadeira?
Desenho do Da Vila


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