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quarta-feira, 19 de agosto de 2015

VITÓRIA!!!!!





Em Fevereiro de 2012 fazíamos esta entrevista a Sra Maria Isabel Alonso, nomeada por nós como Guardiã da capela pré-românica de época germânica de Santa Comba de Bande.
(Eis a entrevista)
http://despertadoteusono.blogspot.com.es/2012/03/o-desrespeito-ao-patrimonio-galego.html
Elaboração por parte da equipa do DTS:
Gravação e elaboração: José Goris Cuinha O Goris Cuinha
Colaboração Técnica: Ana Bernardez e Carolinha Hortsmann
Apresentação: José Manuel Barbosa



Notícia no Facebook: Aqui:


A nossa campanha fez com que denunciássemos publicamente que o seu cuidado e manutenção caia de forma abusiva na pessoa da Sra Isabel sem ajuda de qualquer instituição, nem Concelho, nem Deputação, nem Junta da Galiza, nem o Governo do Estado nem sequer a Igreja. Todos os anos e sempre que podíamos levávamos e levamos ainda gente para expor a circunstância, sendo o nosso monumento um dos mais importantes da Europa do estilo e pondo à Galiza como protagonista dum passado muito importante do ponto de vista histórico-artístico.
Hoje acordamos com esta boa notícia que achamos no Jornal La Región de Ourense. Portanto podemos e queremos berrar dizendo alto e claro VITÓRIA!!!!!!!!
A ajuda inestimável do Grupo Ecologista "Outeiro" foi fundamental pela tramitação da denúncia pertinente às autoridades pertinentes e que isto se resolva assim. Obrigado, caros. Temos muitos ânimos para continuarmos com o nosso labor!
Bravo pela Sra Isabel!!! Bravo por Santa Comba!!!! Bravíssimo!!!

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

O desastre do Castelo de Monte Rei.




Por Eduardo Castro

Por onde começar quando de desfeitas patrimoniais se tenta falar? A comarca de Verim não é uma excepção. Desde os corta-fogos ou aceiros que destroem castros, mamoas e petróglifos, à autoestrada que arrasou um jazigo possivelmente único em Galiza e os incontáveis estragos da obra do AVE.
Todo isto, unido ao desleixo das administrações locais, provinciais, autonómicas e estatais, mais preocupadas por ganhar eleições e manterem-se nos postos de poder, do que de se preocuparem do bem-estar dos seus governados, e muito menos no seu património. Não posso deixar de fazer certa reflexão ou analogia entre um assunto e o outro. Por exemplo, lembrando o acondicionamento da estrada de Verim para Vilar de Bárrio há uns anos, justo antes das eleições... O mesmo quando falamos da estrada Verim – Campo Bezerros, que se fez a consciência, ficando claro o porquê, pois já se sabia que ia ser necessária para o trânsito de camiões e maquinaria pesada. Se nos pomos a falar do Castelo, pensemos que quando se arranjou o acesso e se destrói a calçada é já com a intencionalidade de utilizá-la para transportar o material da obra que hoje se está a levar a cabo.



Quero dizer com isto que o Património, tanto cultural como histórico ou natural, não lhes interessa às administrações, excepto como fonte de ingressos privados, camuflando centos e milhares de milhões de euros no processo. Monte Rei é um castelo muito visitado todo o ano. Gosta. Gentes de muitos lugares vêm vê-lo e escutamos os comentários que fazem os visitantes sobre o deplorável estado da Fortaleza, do seu contorno, do abandono e da falta de uma adequada conservação. O vandalismo e as inclemências do tempo, chuvas e vento, afetam também gravemente às muralhas e os edifícios. Quando se decide, por parte da administração qualquer projeto de restauro ou de conservação fez-se sempre pouco e nem sempre bem. Lembramos um muro de tijolo que se fez naquele primeiro restauro, que felizmente se chegou a tempo de retificar para fazê-lo em pedra. Aquelas máquinas desfizeram a calçada, ao Sul, na Porta do Sol, quando puseram o sistema de esgotos. As obras desfizeram o empedrado que ficou de cimento armado ou terra com uma moreia de tampas de esgoto de fundições, redondas (quarenta em menos de 300 metros), e muitos sumidoiros, pelo menos uns quinze.

O caminho real também sofreu um restauro, para mim pouco afortunado. No interior do Palácio dos Condes eliminaram-se o lagar e a adega do Castelo. Quando eu era rapaz levaram treze canhões para a Crunha ainda que posteriormente devolveram quatro. Ali, no passeio marítimo hai canhões de Monte Rei sem qualquer referência de que são regiomontanos; e no Castelo de Santo Antão, está, ou deveria estar ainda o canhão chamado de “Golondrina”, que levaram para lá a finais do século XIX com o fim de avisar com um canhonaço a chegada do correio de Cuba. 
Dizia o Professor Xesus Taboada Chivite que pelos anos 30, havia em Monte Rei mais de trinta c canhões. Hoje só ficam quatro e meio...

No acesso norte, pela porta de São Francisco, uma calçada -calculamos que pelo menos é de época medieval- foi tapada há pouco tempo, em boa parte do seu percurso com “adoquins” (paralelepípedos de pedra). Debaixo está a calçada coberta com cimento armado, com vareado de ferro, terra e “adoquins”. Subiu o caminho pelo menos uns 40 cm, que para além de tapar o empedrado antigo tira-lhe estética a portas e muros. No interior da “garita” que está para levar controlo da porta ao lado do Cárcere, só poderia estar um soldado anão, muito pequeno. A obra não foi terminada, pois deveu de dar-lhes vergonha. Disseram que se tinha feito com conhecimento e a autorização de Património. Se isto se fez sem autorização, está mal, mas se se fez com autorização, está pior.

Hoje, não se pode visitar boa parte do Castelo porque está cheio de andaimes e de valados que proíbem a passagem.

Brigadas de operários estão desfazendo por dentro do Palácio dos Condes, “tabiques”, escadas.... Deixam só as paredes mestras. Não sei se eles sabem bem o que vão fazer.... Dizem-me que um negócio hoteleiro. Quartos, cozinhas, taberna, restaurante e lojas parece que também lhe porão um elevador.
 

A ideia é genial pois ao pé do Castelo onde noutro tempo houve uma escola de Jesuítas, a primeira em Galiza, está o Parador de Turismo a menos de 500 metros. Este fecha quatro meses no ano e esteve quase por desaparecer por falta de clientes e por má gestão. Monte Rei é referente histórico, cultural e turístico da bisbarra mas lamentamos a má vida lhe dão aos que deveriam cuidá-lo, conservá-lo, restaurá-lo e difundir a sua imagem como reclamo turístico-cultural.

Muitos aldrajes se levam fazendo neste monumento no transcurso do tempo. Uma mágoa.


sábado, 30 de março de 2013

Aluga-se: Museu Arqueológico de Ourense


Por Carolina Hortsman

“Não há nada com mais fascínio do que examinar como a memória regressa; para alguns, um cheiro é o detonante, para outros, a linha do rosto, a cor de um objeto ou ainda mais, uma palavra que há de fazer surgir inúmeros pequenos instantes que hão de confirmar o conjunto da memória” Brousseau 1991

Aproveitando os dias de carnaval, quisemos agasalhar uns amigos que visitavam Galiza pela primeira vez com um interessante percurso pelos lugares mais antigos e significativos de Ourense. Foi chegar a São Pedro de Rochas, e os nossos queridos visitantes deram-se conta de algo curioso que a nós parece ter-nos “vacinados” contra este tipo de horrores. Puderam comprovar, ao quererem fotografar a rocha fundacional deste mosteiro, datada em 611 da era Hispânica (equivalente a 573 da Era cristã) que esta estava custodiada no Museu Arqueológico Provincial de Ourense e no seu lugar acharam uma maravilhosa fotografia a cores reproduzindo o objeto tão desejado

Deslocamo-nos até a cidade para eles poderem comprovar o que lhes estávamos a contar no caminho e que repete toda Oficina de Turismo: “ El Museo lleva cerrado más de 10 años, por lo menos en 4 años más no abrirá sus puertas”. A pedra levava já muitos anos repousando na cave-armazém do Instituto Santa Maria de Europa, sem acesso aos visitantes.

Entre a Fantasia e a Realidade

Estes últimos dous anos, perguntando a pessoas próximas ao mundo da arte, a responsáveis de oficinas de turismo e a transeuntes despistados, conseguimos recolher as mais interessantes respostas dos cidadãos perante tamanho e tão lamentável encerro: desde que 'um homem vive aí apetrechado com as obrs de arte' vivendo numa constante êxtase por desfrutar do saber de tanta beleza (quase com um mal de Stendhal às costas); até que têm achado mais e mais vestígios ao irem escavando, o que demoraria a abertura em, pelo menos mais 7 anos.
Lendas urbanas? Quem sabe...O mais triste do assunto é que a gente deixou de pôr em questão às suas autoridades que levaram a isto, deixaram de procurar respostas.
Tantos anos sem acesso à própria cultura deixam a gente sem necessidade de acharmos respostas, totalmente à deriva, permeáveis perante qualquer cultura de fora. Sabemos que o contato direto com o património impulsiona o sentimento de pertença a um povo, afiança e estimula a consciência e a identidade com o território e o povo em que se vive; cria, em definitiva, uma total integração com o contorno e a sua cultura. A cidade de Ourense leva mais de 10 anos sem ter acesso ao seu património, à totalidade dos tesouros da sua região ourensana, à maravilha da sua história. Teve que conhecê-la e bebê-la como um conta gotas, saboreando só uma obra exposta por mês num blogue pendurado da net. Como se fosse um grande presente que devêramos agradecer a tão magnânima mão amiga que achega isso 'pelo bem dos cidadãos', fazendo-nos pensar que tudo é normalidade e livre acesso a esse património tão valioso.
Poderíamos tentar compreender e empatizar com os acontecimentos reais que nos levaram a nos acharmos nesse ponto 'zero', nesse momento de 'animação suspensa' do património ourensano...mas 10 anos (na realidade mais de dez!) falam por si sós.

Se tivéssemos que compará-lo com algum outro Museu em dificuldades, vem-se-me à cabeça automaticamente o desastre ocorrido em Bagdá em 2003, momento em que o Museu foi atacado e saqueado ainda quando meses antes da invasão do Iraque se pedira resguardo e proteção especial deste às tropas dos EUA. Talvez o que muitos não sabem é que este museu foi durante muitos anos “o cofre do tesouro privado de Saddam Hussein” e se manteve fechado desde o ano 1991 até o ano 2000, podendo unicamente ser visitado pelo seu círculo de amigos próximo, proibindo o acesso ao público.
Ainda com todas as dificuldades, os destroços, saques e a metade das salas fechadas abriram as suas portas ao público em 2009, só 6 anos depois de tamanha destruição, sabendo que a história patrimonial é a força para o ressurgir dum povo, tendo total consciência de que não se pode abalizar a destruição cultural.

O acontecer em Ourense...

O modelo de organização compartilhada por duas administrações, não só demonstra um fracasso do ponto de vista da gestão, mas também um desinteresse total por levar a bom porto esta longa agonia patrimonial. Em definitiva, uma negligência de proporções maiúsculas. Por um lado a Administração Central desconhece a realidade ourensana completamente e envia os dinheiros e o pessoal ao edifício de Santa Maria de Europa (A Carvalheira) que basicamente funciona como uma cave-armazém sendo em origem um Liceu de formação profissional. Por outro lado a “Xunta” que não é capaz de gerir de maneira adequada as instalações, supostamente, por uma incapacidade de gerar acordos com a entidade titular... estando pelo meio a Deputação Provincial...Durante estes 10 anos realizaram-se escavações arqueológicas, implementou-se uma sala de exposições (pequena, para todo o património que detenta o Museu) e manteve-se na tabela também 'a peça do mês'. Olha, que também não afirmamos que ficaram de braços cruzados sem fazerem nada, simplesmente, fazer notar que os esforços são poucos, estão mal focados ou mal direcionados ou simplesmente, não há boa vontade para promocionar e pôr em valor o nosso património. As notas impressas às que pode aceder qualquer pessoa que procure alguma informação fazem referência a que estaria 'fechado por obras de reabilitação e ampliação'. Quando o cidadão comum vai ter acesso real ao interior do Museu para comprovar por si próprio esses avanços?
Faz poucos dias, percorrendo os arredores, pudemos comprovar com assombro as deploráveis condições em que estava o edifício (antigo Palácio Episcopal e anteriormente Palácio Real Suevo...e antes Pretório Romano). Achamos os seus muros riscados com graffitti, grande parte das janelas quebradas, sujidade no contorno que rodeia o edifício e dentro da sala expositora dos miliários que dá à rua cheia de folhas secas, terra, lama seca e excrementos. São algumas das amostras que tão insigne edifício apresenta ao cidadão ourensano e visitante. As perguntas, fazem-se evidentes: Que é o que acontece realmente no Museu de Ourense? A que é que se deve a sua tão deteriorada façada? O interior está nas mesmas condições? Quem guarda pela exposição dos miliários na sala visivelmente suja, com uma estética totalmente deteriorada (um deles deitado no chão escondido atrás dum pilar)? Talvez a câmara de segurança dirigida para eles e a entrada de acesso a uma ala do Museu está ativa? Se o Museu leva fechado mais de 10 anos, continua a funcionar o sistema de segurança? Está obsoleto? Ou é simplesmente um 'automatic doorman'?



O Buraco negro de objetos patrimoniais

Como relatávamos no começo, ao comentarmos sobre a pedra fundacional de São Pedro de Rochas (porque nos guias em galego sempre põe 'Rocas'?), toda obra importante, única e sem precedentes parece cair nas mãos fantasmais da cave-armazém -não podemos chamar-lhe de outra forma-, onde vão parar as peças do Museu Arqueológico de Ourense, que é o edifício da Santa Maria de Europa no bairro da Carvalheira. Ficamos condenados a ver uma e outra vez gigantografias a cor ou reproduções de duvidosa qualidade, enquanto os originais passam a fazer parte das listagens sob o lema: “Original: Museu Arqueolóxico de Ourense”. Como tantas outras peças de incalculável valor que deveriam estar expostas, em contato com o público e bem cuidadas.

Não há dinheiro para o Museu, mas pode-se andar pelos cantos de Europa fazendo promoção do “Paraíso Termal”, esbanjando grandes quantidades de dinheiro, deixando a um lado a cultura que se poderia promocinar a esse turista, duma cidade com tanta história como é Ourense. O turista atual não só vem remolhar o corpo nas águas quentes mas é um grande curioso por conhecer história e arte, um verdadeiro investigador que tenta submergir-se no quotidiano das ruas, na gastronomia, na língua das gentes que habitam estes cantos da Europa...assim como a história e o seu passado.
Gastam-se esforços e dinheiro num completo e também, porque não dizê-lo, necessário trabalho arqueológico das Burgas (remodelação de edifícios incluídos), com dous mil metros quadrados onde nos apresentam como a “peça estrela” uma piscina romana, mas não atendem as necessidades arqueológicas culturais e históricas anteriores a Roma. Talvez é que antes da chegada dos romanos não havia cultura aqui? Não havia culto às águas? Não havia religião? Não havia crenças? Não eram os nossos antepassados?
Por parte da “Xunta” também não há dinheiro para atender o Museu mas gastam milhões de euros na construção duma cidade da Cultura (ainda sem terminar) no monte Gaiães em Santiago de Compostela, de duvidosa utilidade e de duvidosa imparcialidade política (a Avenida principal chama-se 'Manuel Fraga')
Tudo isto faz-me lembrar uma citação de Philip Shepherd que dizia “Se estiveres dividido do teu corpo, também estarás dividido do corpo do mundo, que portanto aparece como outro distinto de ti, ou separado de ti, em vez de viver um 'continuum' ao que pertences”. Enquanto, a cidade e os seus habitantes vão continuar aguardando 'qualquer forma de milagre' que abra essas portas que os separam de toda a magia e a grandeza que viveu na antiguidade. Talvez possamos dar-nos conta aos pouquinhos de que o Museu não só tragou os objetos como se dum buraco negro se tratasse, mas também as nossas cabeças...


sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Entrevista ao Homem da Pedra


Por David Outeiro

José Luís Lozano Rua é um homem humilde, mas conhecedor e sabedor do valor do nosso património. Há algo mais dum ano ele fez um achado importante. Trabalhando uma das suas leiras junto com o seu irmão deu com uma pedra enterrada que resultou ser uma "estela" com petróglifos e mais alguns outros elementos dignos de ser tidos em conta por uma administração que não só não atende aquilo que os galegos herdamos do passado mas que mesmo destrói o nosso legado ancestral. O fim da administração? Talvez seja muito arriscado dizer que não quer que exista o nosso passado porque não quer que existamos no futuro?....




Vamos ver que opina o nosso Homem da Pedra: 

Quando e onde é que apareceu o jazigo? Como é que fizeste o achado? foi casual?

O de jazigo é uma nova palavra para mim, suponho que é mais correcta do que achado, mas vou usar esta.

Tentarei de responder por ordem e não repetir as cousas. Eu faço isto desde um telemóvel, com o qual não tenho capacidade de ler em conjunto todo o que escrevo, para além dum pequeno parágrafo. Uma vez isto fica dito, lá vamos. Começo respondendo às duas primeiras de vez.
A leira onde apareceu a estela, está enquadrada no termo chamado da Pedralta. Não se sabe a sua antiguidade, mas sim a sua origem, a própria estela. No ano 2009, meu irmão, o proprietário desta leira, mandou-a lavrar a um vizinho de Vilamaior, uma aldeia próxima. O trator que usou é mais potente do que o nosso e aprofundou mais no terreno do que já tinha feito em outras vezes anteriores. Com isto quero dizer que o achado foi totalmente casual e o vizinho não lhe deu mais importância do devido, excetuando o dano causado no apeiro. Este labor foi feito em primavera e não foi até o outono -acho que foi novembro-, quando fui dar um passeio até o rio da Veiga, nome que lhe damos ao Tâmega. Desde a estrada de terra por onde ia eu, chamou-me a atenção aquele penedo, numa margem da leira. Uma pedra de granito, um perpianho distante uns cem metros de mim. Nesta margem do rio não há granito, só xisto (lousa), por isso o raro do assunto. Quando me aproximei para vê-lo melhor, o sol-pôr estava próximo, como muito a uma hora de luz. Essa luz que lhe dava à pedra, quase esguelhada, permitiu-me ver uns gravados desde longe, talvez uns quinze metros. O coração deu-me um pulo no peito. Aquilo era um petróglifo ali, saindo da terra! Isto pode parecer exagerado, inclusivamente poético, mas foi como sucedeu. O significado desses gravados não os soube até muito tempo depois.

Há máis jazigos arqueológicos nessa zona? há alguma lenda?

As estradas e pistas que hoje percorrem esta terra, não se correspondem com as anteriores à concentração parcelar dos anos 60/70. O mais provável é que a estela fosse quebrada e sepultada nessa época. Nas proximidades da Pedralta há outros termos, como o Castro, onde houve uma vila romana ou São Martinho, onde houve uma capela do mesmo nome e uma necrópole romano-sueva segundo os restos achados, vários sartegos e uma ara com o nome do primeiro homem empadroado nestas terras: Júlio Caro Tamagano. Neste ponto quero dizer, que a estela do Guerreiro também deixa constância doutro homem, mil anos anterior a este. Somente que a escritura é diferente. Pode-se dizer que hieroglífica no que diz respeita dos símbolos gravados. A estrada desde onde vi a pedra-estela leva o nome de Corredoira. Transcorre em direção Norte-Sul, quase paralela ao rio. Quinhentos metros ao norte, por arriba de São Martinho, está o castro da Cabanca, prospetado por Tavoada Chivite nos anos 50/60. No que diz respeito das lendas, estão as típicas de castros e mouros que falam de túneis até o rio e cousas assim.

Qual foi a reaçao do pessoal de Castrelo quando soube da estela e qual a dos responsáveis do património, dos arqueólogos e profissionais?

Agora passamos às pessoas. No povo não se faz muito caso deste achado, não porque não tenha importância, mas porque não se sabe avaliar essa mesma como património local e como possível fonte de recursos. A vida rural não deixa muito tempo para interessar-se noutras cousas. Desde o concelho de Castrelo, desde o primeiro momento passou o mesmo e quando vieram técnicos e arqueólogos datar, estudar e catalogar o achado já foi tarde. Isto não é uma opinião pessoal, é uma realidade comum a muitos temas, sobre tudo culturais. A cultura não dá de comer, portanto não é importante.
Resumo um pouco as voltas que me tocou dar desde o ano 2009. Nomear neste ponto a Bruno Rua, um amigo que tem um pequeno guia arqueológico da comarca e que foi o primeiro a quem lhe falei da pedra-estela naquele mesmo mês de novembro. Ele não soube ver as caraterísticas do achado, penso que condicionado pelas suas leituras, onde as estelas não existem no mundo castrejo, as influências celtas são posteriores, e a cultura atlântica não é tal. 
Todo isto que falo também não o conhecia eu, no entanto a feição da pedra sempre significou algo para mim, desde o primeiro momento. Um homem jazendo, uma tumba, nunca um guerreiro de pé, talvez uma figura ou lembrete de algo...

Continuemos. Quando finalmente, por meio de Bruno, vieram dous arqueólogos que andavam a fazer um estudo em Verim -Alberte Reboreda e Breogam Nieto- a ambos lhes surpreendeu a pedra. No entanto não falaram da sua importância nem de que era única em Galiza. Uns dias depois voltaram com um experto e o que eu pensei um técnico de património que se manteve em segundo plano. Geraldo (ou António, não lembro agora) Seara, diretor de património na província de Ourense. O experto é António de la Peña Santos, penso que diretor do museu de Ponte-Vedra e grande 'conhecedor' dos petróglifos galegos. Aqui começa o desencontro, digamo-lo así, entre aldeãos e património. Em primeiro lugar, depois de acordarmos avisar ao Concelho e interessados da sua chegada, não o fizeram. Após aguardar uma chamada, ao vereador de cultura, José Luís Santiago e mais eu, decidimos nos achegarmos a Pedralta... e surpresa!, quatro pessoas estavam a fotografar a estela in situ, e pareceu que a nossa chegada lhes produzia incomodo. Depois de alguns comentários fora de lugar e com muita pressa, acedeu-se ao traslado da estela ao pequeno museu etnográfico de Castrelo do Vale. As pressas nunca foram boas, disse o sapo quando caiu do valado e assim foi. No dia seguinte deu-se a noticia na imprensa e na televisão, sem nos dar tempo ao concelho e demais de tentar fazer as cousas doutro modo, algo que nos prejudicou ao longo desse ano e deste que remata. O tira e afrouxa continua.

Na túa opinião, onde deveria de estar a estela?

Não sei como fiar uma cousa sen outra. A ideia seria conservar o que se possa, os moinhos e represas, os lagares e caminhos, o próprio castro da Cabanca, ou a necrópole. Quando isto começou, há já dous anos, que parecem dez, falamos entre Bruno e eu de fazer uma área de interpretação no lugar da Pedralta. Um projeto a longo prazo, talvez trinta anos... Eu continuo com a ideia. Depois com o Miguel, passeando pelo castro, falamos de roteiros incluídos no projecto. Com Neves Amado a possível escavação da necrópole, restos suevos e romanos e provavelmente mais antigos e a estela como base da ideia. Sem ela não há nada.

Opino que a estela deve ficar na vila de Castrelo, no museu ou na sua ubiquação original. Não é minha intenção deixar de cumprir uma lei, que diz que esta e outras peças devem estar num museu. O feito de que se vaia embora a estela para Ourense é quase um roubo. Não só duma parte da historia de Castrelo e da comarca do alto Tâmega, também duma oportunidade única de melhorar a situação precária deste Concelho, das suas gentes. Uma pequena peça no mundo da arqueologia, mas uma peça fundamental no mundo rural.

Bem, verei se a imprimo ou a repasso. Se queres fazer alguma outra pergunta, aqui estou. Seguro que me queda algo no tinteiro, hei de buscar um par de nomes e apelidos para acrescentar.

Sobre as lendas, há uma referida à necrópole. Um vizinho diz que havia três povos, o castro, a vila romana, e o povo atual. Conta que vinham enterrar-se de trinta léguas à redonda ao São Martinho. Quase nada.

Sobre os crânios, há quem lembra o facto e falaram-me duma cabeça de raposo que veio do castro.

Fala-nos dos problemas que tiveche com a “Xunta de Galicia”?

Quando chegou a Castrelo do Vale o director do museu arqueologico de Ourense, vinha com a ideia de levar já a estela. Cousa que não pôde fazer por vários motivos. Entre eles o feito de que a estela se achava na casa familiar dos meus pais, onde eu lhe ia preparar uma base para expô-la no museu etnográfico. Dá-se a circunstância de ser eu filho de carpinteiro. Fazedor de carros e cubas o meu pai e de exercer o ofício de ferreiro, com o qual me ofereci voluntário para esse cometido. Esta situação não foi do agrado do diretor, de quem não lembro o nome, e decidiu apresentar uma denúncia que levou a abrir um expediente administrativo, onde se me acusou de 'sequestro' de bem patrimonial, com uma possível multa da que se fizeram eco os jornais, sempre sedentos de titulares. Depois de recolher assinaturas na comarca, de apresentar-se diversos escritos atenuantes desde o concelho e de senhas cartas enviadas ao Valedor do Povo e ao Defensor del Pueblo (um dado curioso foi que desde Santiago e desde Madrid, com a mesma lei, um aceitou a petição e o outro não). Bem, depois  desse, digamos, movimento de peças, veio um homem desde Santiago, Roberto Pena (não sei justo qual é o seu cargo, desculpe-se o meu desconhecimento), com a ideia de conciliar posturas.
Salto de novo a pergunta. A ver se acarão do fumeiro me saem as respostas.
Vou pela oito, para falar de prós e contras. 
Quem te apoiou?.

Desde o princípio houve muitas pessoas que se interessaram pelo achado dum ponto de vista pessoal e académico. Em primeiro lugar, o meu amigo Bruno Rua, que se plantou com argumentos irrefutáveis sobre a permanência da estela em Castrelo do Vale. Em especial Miguel Losada, pessoa envolvida em qualquer projeto cultural, que fale de conservar tradição ou mostras da nossa historia. Neste ponto falar de Manuel Gago, quem desde a notícia dada na imprensa, apoiou o seu estudo e estadia no povo onde foi feita e posta em pé; a arqueóloga Neves Amado, que respondeu com firmeza todas as minhas perguntas. Mais pessoas se foram conhecendo a partir destes quatro nexos, com maior ou menor interesse na particularidade do achado. Nas últimas datas, começando por ti, David Outeiro, José Manuel Barbosa e a partir dele André Pena Granha.
Quando estive a recolher assinaturas pela comarca, as primeiras foram no escritório de Correios, onde a resposta foi positiva e me animou a continuar. Depois em locais comerciais e de hostelaria, quase todos conhecidos meus. Nomear ao Miguel e ao Suso, que se envolveram e recolheram um bom monte de assinaturas entre os dous. Falar duma moça, que pus em risco o seu posto de empregada, por uma causa que ela considerava justa. Visitei também várias escolas, onde firmaram a maior parte de mestres e mestras, ainda que logo não quiseram fazer mais nada, como uma visita ao Gaias que eu lhes propus...

Agora um apontamento do rechaço ou desinteresse de certas pessoas, que na minha opinião deveriam, quando menos, interessar-se. Num instituto de ESO, os papeis 'extraviaram-se' duas vezes, depois soube que os professores de história decidiram não assinar em bloco. Algumas pessoas que não assinaram argumentando diferentes razões, cada qual mais curiosa. E por último, o caso que mais salientamos: Uma visita ao concelho de Verim, uma conversa com a pessoa responsável de Cultura desse concelho. Isto foi em Abril de 2012, quando a notícia se deu a conhecer um ano antes. A resposta à minha petição de apoio, foi contestada com un contundente " não sei nada'. Esta resposta, para além de me deixar frio demonstrou-me o interesse certo das administrações na cultura.

Onde é que está atualmente a estela? Sabes qual é o que pretendem fazer com ela num futuro?

Teve lugar uma reunião na Câmara Municipal (tentações tenho de pôr “inquisitorial”), entre as partes interessadas. Decidiu-se um convénio, só verbal, de ceder durante un ano a custódia da estela ao Concelho, prorrogável mais tempo se assim se decidia. Também envia-la à exposição “Gallaecia Pétrea”, durante o tempo que esta dura-se. Nesse intervalo de tempo, o Concelho levaria a cabo a habilitação duma sala no pequeno museu etnográfico da localidade, cousa que está sem fazer, depois de seis longos meses, porque pode que esse convénio verbal não seja válido. Como se diz: não é vinculante de qualquer jeito. Se quiserem desde património cumpre-se e se não, não há nada que fazer.

Tens algum projecto atualmente ou de futuro?

A recolhida de assinaturas foi o começo do caminho. Posto que não há resposta por parte de concelhos e equipas docentes. Nem da gente do comum, longe de assinar, decidi procurar apoio em associações culturais doutras partes de Galiza, ou da Gallaecia, pois fui a Chaves e à Póvoa da Seabra. Vendo o que se faz em Lugo com Trebas Galaicas, em Santiago com O Sorriso de Daniel ou a Gentalha do Pichel, ou a associação de Amigos dos Castros, Penas Mouras, o Galo..., por nomear algumas. Seguindo esse exemplo, quis formar uma associação cultural na Vila de Castrelo do Vale, algo que por enquanto não tem sido possível por varias causas. Curiosamente, eu sempre fui amante da natureza, graças ao grande Félix Rodríguez de la Fuente e durante este ultimo ano dei-me conta que a conservação do património pode e deve ir unida a conservação do espaço que criou esse património, tanto natural como imaterial... às tradições e costumes, ao jeito de aproveitar os recursos naturais, à forma dos próprios rios e montes... Todo isto conforma uma cultura, um modo de vida e à gente.
Não quero voltar ao século dezanove, nem há três mil anos, no entanto pode-se cuidar o contorno em lugar de usá-lo e com ele cuidar essa nossa cultura e história. Algo tão simples como limpar os caminhos antigos ,cheios de silvas e tojos, às margens dos rios, com o mesmo problema, os montes, invadidos de espécies forâneas que literalmente esgotam e envenenam a terra, ou manter em pé moinhos, lagares, pressas, que foram construídas pelos nossos antergos. Ruínas que falam, não de quem fomos, mas de quem somos hoje e não permitirmos que a nossa história e cultura esmoreçam a prol dum progresso nocivo e destrutor do espírito humano.




quarta-feira, 7 de março de 2012

O desrespeito ao património galego (Video entrevista com Isabel Alonso, Guardiã de Santa Comba de Bande)


Equipa do DTS
Câmara: José Goris 
Ajuda Técnica: Ana Bernardez e Carolina Hortsmann
Apresentaçao José Manuel Barbosa

Tenho teimado contra as mentiras históricas e contra a manipulação historiográfica; tenho querido desvendar para o leitor fiel mais de uma cousa, e de duas, que deixam a Galiza discriminada do conhecimento da sua própria realidade passada; tenho criticado o castelhanismo compulsivo do ensino no que diz respeito da História e da língua; tenho denunciado a debilidade daqueles que não consideram a Galiza dentro da Península Ibérica como ponto fulcral e decisivo na/da conformação política, territorial, social e cultural tanto da Espanha como de Portugal. Tenho trabalhado por todas essas cousas e por isso os meus afetos nunca vão estar da parte do Império Castelhano tornado em Reino da Espanha, não. Os meus afetos vão estar com o nosso País, com a nossa Pátria, com a nossa Nação galega.
 Como isto é assim ainda que do céu venham centelhas nunca vou deixar de confrontar-me contra todo aquilo, humano, desumano ou inumano que atente contra as bases conformadoras da Galiza Eterna. Da Galiza que existia antes de Roma, nomeada de Kalláikia, Oestrímnia ou Ophiusa; da Galiza romana, sueva, medieval e hegemónica na Hespéria; da Galiza camponesa e marinheira da Idade Moderna; da Galiza anti-napoleónica de Cachamoinha; a Galiza provincialista e murguiniana; da Galiza galeguista, reintegracionista, celta e celtista e daquela que sonha com a sua soberania. É por isso que nunca vou deixar de evidenciar a maldade de qualquer governo madrileno, bruxelense ou compostelano que permita que aquilo que ficou do passado seja destruído, ocultado ou manipulado com o fim de obscurecer o nosso País, de negar-lhe personalidade para que perda a sua existência e o seu ser. Quem isso faça vai-nos ter a nós justo frontalmente, com a esferográfica preparada para jogar à esgrima das letras.
 A desfeita está nos livros, nos média, no ensino. Entra pelos olhos, pelos ouvidos...mesmo pelo nariz quando cheira a queimado, quando sentimos calor no inverno e frio no verão, quando nos falam de amor à Galiza à vez que lhe cravam a faca nas costas...quando vemos uma anta estragada com adornos de arquitetos modernistas; quando identificam um castro com não sei que vínculos mediterrâneos à vez que o destruem  para fazer um porto exterior sem antes ter sido estudado por arqueólogos responsáveis e livres de ataduras espúrias pagadas pelo poder político às ordens de fenícios mesetários, quando vemos uma igreja sueva que fazem passar por visigótica esquecida por todas as instituições e atendida só pela boa fé da gente do povo. Essa desfeita é como mínimo consentida quando não planificada maliciosamente por uma administração que não nos mata, mas que nos dá para que morramos, uma administração cujo sentido das cousas é tipicamente otomano ou atiliano.
Partindo dessa conceitualização das cousas, queremos apresentar um trabalho feito nos passados meses de Janeiro e Fevereiro onde queremos fazer público à vez que denunciamos os Sultães de Madrid e os seus Sátrapas compostelanos tanto laicos como curiais exercendo a mais subtil das limpezas. Esse tipo de limpezas que se passam desapercebidas porque não saem na TV mas que acabam igualmente com os povos. Se realmente ao Reino lhe parecesse importante ou de utilidade a nossa Igreja de Santa Comba de Bande (como importante é para ele a Dama de Elche, as Covas de Altamira ou os achados de Atapuerca...), este exemplo de capela pré-românica  e mesmo paleocristã seria um modelo de cuidado, de atenção administrativa e de aproveitamento do património para qualquer finalidade positiva, mesmo para que o Estado ou a Junta da Galiza pudessem minimizar a crise na que nos meteram, pelo menos nessa comarca querquérnica, autêntico ônfalon do património artístico galaico.

Com tudo isto, só queremos lembrar duas cousas:
1-    A Galiza tem mais património artístico dentro da CAG do que todo o resto do Reino junto, o qual poderia fornecer uns ingressos económicos que poderiam tirar da precariedade e da emigração a muitos galegos...e não só riqueza económica...e...
2-   Um governo galego e uns interesses de Estado que permitem isso e que favorecem a eliminação da memória dos galegos, que permitem que museus como o de Ourense sejam “bunquers” onde nem se possa ver o seu interior por levar quase doze anos fechado merecem o nosso desrespeito e o nosso rechaço. Nós somos os donos do nosso património e a administração está ao nosso serviço, não ao invés. Nós somos os que sustentamos esses aparatos governamentais e nós somos os que podemos dar-lhes o seu merecido por se desviarem do seu cometido principal. Que emigrem eles! Que fiquem eles sem trabalho!....Porque? Porque nos querem mal!, e nós devemos querer-nos a nós próprios.

Eis:



Gravação e elaboração dos vídeos: José Goris
Colaboração Técnica: Ana Bernardez e Carolina Horstmann

Declaração de Santa Comba de Bande Monumento Nacional:
“Ilmo. Sr.: Visto el expediente incoado sobre la declaración de Monumento nacional de la iglesia de Santa Comba o San Torcuato de Bande, en la provincia de Orense, y de conformidad con el dictamen emitido sobre dicho particular por las Reales Academias de Bellas Artes de San Fernando y de la Historia, S.M. el Rey (q.D.g.) ha tenido a bien resolver sea declarada la referida Iglesia Monumento nacional, quedando como tal Monumento bajo la tutela y protección del Estado y la inmediata custodia y vigilancia de la Comisión provincial de Monumentos de Orense. De Real orden lo digo a V.I., para su conocimiento y efectos. Dios guarde a V.I. muchos años. Madrid, 11 de agosto de 1921, publicada esta en el BOE. 16-08- 1921.” 

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