Em
Fevereiro de 2012 fazíamos esta entrevista a Sra Maria Isabel Alonso,
nomeada por nós como Guardiã da capela pré-românica de época germânica
de Santa Comba de Bande. (Eis a entrevista) http://despertadoteusono.blogspot.com.es/2012/03/o-desrespeito-ao-patrimonio-galego.html Elaboração por parte da equipa do DTS: Gravação e elaboração: José Goris Cuinha O Goris Cuinha Colaboração Técnica: Ana Bernardez e Carolinha Hortsmann Apresentação: José Manuel Barbosa
A nossa campanha fez com que denunciássemos publicamente que o seu
cuidado e manutenção caia de forma abusiva na pessoa da Sra Isabel sem
ajuda de qualquer instituição, nem Concelho, nem Deputação, nem Junta da
Galiza, nem o Governo do Estado nem sequer a Igreja. Todos os anos e
sempre que podíamos levávamos e levamos ainda gente para expor a
circunstância, sendo o nosso monumento um dos mais importantes da Europa
do estilo e pondo à Galiza como protagonista dum passado muito
importante do ponto de vista histórico-artístico. Hoje acordamos com
esta boa notícia que achamos no Jornal La Región de Ourense. Portanto
podemos e queremos berrar dizendo alto e claro VITÓRIA!!!!!!!! A
ajuda inestimável do Grupo Ecologista "Outeiro" foi fundamental pela
tramitação da denúncia pertinente às autoridades pertinentes e que isto
se resolva assim. Obrigado, caros. Temos muitos ânimos para continuarmos com o nosso labor! Bravo pela Sra Isabel!!! Bravo por Santa Comba!!!! Bravíssimo!!!
Por onde
começar quando de desfeitas patrimoniais se tenta falar? A comarca
de Verim não é uma excepção. Desde os corta-fogos ou aceiros que destroem castros, mamoas e petróglifos, à autoestrada que arrasou um
jazigo possivelmente único em Galiza e os incontáveis estragos da
obra do AVE.
Todo isto, unido ao desleixo das administrações
locais, provinciais, autonómicas e estatais, mais preocupadas
por ganhar eleições e manterem-se nos
postos de poder, do que de se preocuparem do bem-estar dos seus
governados, e muito menos no seu património. Não posso
deixar de fazer certa reflexão ou analogia
entre um assunto e o outro. Por exemplo, lembrando o acondicionamento
da estrada de Verim para Vilar de Bárrio há uns anos, justo antes
das eleições... O mesmo quando falamos da estrada Verim – Campo
Bezerros, que se fez a consciência, ficando claro o porquê, pois já
se sabia que ia ser necessária para o trânsito de camiões e
maquinaria pesada. Se nos pomos a falar do Castelo, pensemos que
quando se arranjou o acesso e se destrói a calçada é já com a
intencionalidade de utilizá-la para transportar o material da obra
que hoje se está a levar a cabo.
Quero dizer com isto que o Património,
tanto cultural como histórico ou natural, não
lhes interessa às administrações, excepto como fonte de ingressos
privados, camuflando centos e milhares de milhões de euros no
processo. Monte Rei é um castelo muito visitado
todo o ano. Gosta. Gentes de muitos lugares vêm vê-lo e escutamos
os comentários que fazem os visitantes sobre o deplorável estado da
Fortaleza, do seu contorno, do abandono e da falta de uma adequada
conservação. O vandalismo e as inclemências do tempo, chuvas e
vento, afetam também gravemente às muralhas e os edifícios. Quando
se decide, por parte da administração qualquer projeto de restauro
ou de conservação fez-se sempre pouco e nem sempre bem. Lembramos um muro de tijolo que se fez
naquele primeiro restauro, que felizmente se chegou a tempo de
retificar para fazê-lo em pedra. Aquelas máquinas desfizeram a
calçada, ao Sul, na Porta do Sol, quando puseram o sistema de
esgotos. As obras desfizeram o empedrado que ficou de cimento armado
ou terra com uma moreia de tampas de esgoto de fundições, redondas
(quarenta em menos de 300 metros), e muitos sumidoiros, pelo menos
uns quinze.
O caminho real também sofreu um
restauro, para mim pouco afortunado. No interior do Palácio dos
Condes eliminaram-se o lagar e a adega do Castelo. Quando eu era
rapaz levaram treze canhões para a Crunha ainda que posteriormente
devolveram quatro. Ali, no passeio marítimo hai canhões de Monte
Rei sem qualquer referência de que são regiomontanos; e no Castelo
de Santo Antão, está, ou deveria estar ainda o canhão chamado de
“Golondrina”, que levaram para lá a finais do século XIX com o
fim de avisar com um canhonaço a chegada do correio de Cuba. Dizia o Professor Xesus Taboada Chivite
que pelos anos 30, havia em Monte Rei mais de trinta c canhões. Hoje
só ficam quatro e meio...
No acesso norte, pela porta de São
Francisco, uma calçada -calculamos que pelo menos é de época
medieval- foi tapada há pouco tempo, em boa parte do seu percurso
com “adoquins” (paralelepípedos de pedra). Debaixo está a
calçada coberta com cimento armado, com vareado de ferro, terra e
“adoquins”. Subiu o caminho pelo menos uns 40 cm, que para além
de tapar o empedrado antigo tira-lhe estética a portas e muros. No
interior da “garita” que está para levar controlo da porta ao
lado do Cárcere, só poderia estar um soldado anão, muito pequeno.
A obra não foi terminada, pois deveu de dar-lhes vergonha. Disseram
que se tinha feito com conhecimento e a autorização de Património.
Se isto se fez sem autorização, está mal, mas se se fez com
autorização, está pior.
Hoje, não se pode visitar boa parte do
Castelo porque está cheio de andaimes e de valados que proíbem a
passagem.
Brigadas de operários estão desfazendo
por dentro do Palácio dos Condes, “tabiques”, escadas.... Deixam
só as paredes mestras. Não sei se eles sabem bem o que vão
fazer.... Dizem-me que um negócio hoteleiro. Quartos, cozinhas,
taberna, restaurante e lojas parece que também lhe porão um
elevador.
A ideia é genial pois ao pé do
Castelo onde noutro tempo houve uma escola de Jesuítas, a primeira
em Galiza, está o Parador de Turismo a menos de 500 metros. Este
fecha quatro meses no ano e esteve quase por desaparecer por falta de
clientes e por má gestão. Monte Rei é referente histórico,
cultural e turístico da bisbarra mas lamentamos a má vida lhe dão
aos que deveriam cuidá-lo, conservá-lo, restaurá-lo e difundir a
sua imagem como reclamo turístico-cultural.
Muitos aldrajes se levam fazendo neste
monumento no transcurso do tempo. Uma mágoa.
“Não
há nada com mais fascínio do que examinar como a
memória regressa; para alguns, um cheiro é o detonante,
para outros, a linha do rosto, a cor de um objeto ou ainda mais, uma
palavra que há de fazer surgir inúmeros pequenos
instantes que hão de confirmar o conjunto da memória”
Brousseau 1991
Aproveitando
os dias de carnaval, quisemos agasalhar uns amigos que visitavam
Galiza pela primeira vez com um interessante percurso pelos lugares
mais antigos e significativos de Ourense. Foi chegar a São
Pedro de Rochas, e os nossos queridos visitantes deram-se conta de
algo curioso que a nós parece ter-nos “vacinados” contra
este tipo de horrores. Puderam comprovar, ao quererem fotografar a
rocha fundacional deste mosteiro, datada em 611 da era Hispânica
(equivalente a 573 da Era cristã) que esta estava custodiada
no Museu Arqueológico Provincial de Ourense e no seu lugar
acharam uma maravilhosa fotografia a cores reproduzindo o objeto tão
desejado
Deslocamo-nos
até a cidade para eles poderem comprovar o que lhes estávamos
a contar no caminho e que repete toda Oficina de Turismo: “ El
Museo lleva cerrado más de 10 años, por lo menos en 4
años más no abrirá sus puertas”. A pedra
levava já muitos anos repousando na cave-armazém do
Instituto Santa Maria de Europa, sem acesso aos visitantes.
Entre
a Fantasia e a Realidade
Estes
últimos dous anos, perguntando a pessoas próximas ao
mundo da arte, a responsáveis de oficinas de turismo e a
transeuntes despistados, conseguimos recolher as mais interessantes
respostas dos cidadãos perante tamanho e tão lamentável
encerro: desde que 'um homem vive aí apetrechado com as obrs
de arte' vivendo numa constante êxtase por desfrutar do saber
de tanta beleza (quase com um mal de Stendhal às costas); até
que têm achado mais e mais vestígios ao irem escavando,
o que demoraria a abertura em, pelo menos mais 7 anos.
Lendas
urbanas? Quem sabe...O mais triste do assunto é que a gente
deixou de pôr em questão às suas autoridades que
levaram a isto, deixaram de procurar respostas.
Tantos
anos sem acesso à própria cultura deixam a gente sem
necessidade de acharmos respostas, totalmente à deriva,
permeáveis perante qualquer cultura de fora. Sabemos que o
contato direto com o património impulsiona o sentimento de
pertença a um povo, afiança e estimula a consciência
e a identidade com o território e o povo em que se vive; cria,
em definitiva, uma total integração com o contorno e a
sua cultura. A cidade de Ourense leva mais de 10 anos sem ter acesso
ao seu património, à totalidade dos tesouros da sua
região ourensana, à maravilha da sua história.
Teve que conhecê-la e bebê-la como um conta gotas,
saboreando só uma obra exposta por mês num blogue
pendurado da net. Como se fosse um grande presente que devêramos
agradecer a tão magnânima mão amiga que achega
isso 'pelo bem dos cidadãos', fazendo-nos pensar que tudo é
normalidade e livre acesso a esse património tão
valioso.
Poderíamos
tentar compreender e empatizar com os acontecimentos reais que nos
levaram a nos acharmos nesse ponto 'zero', nesse momento de 'animação
suspensa' do património ourensano...mas 10 anos (na realidade
mais de dez!) falam por si sós.
Se
tivéssemos que compará-lo com algum outro Museu em
dificuldades, vem-se-me à cabeça automaticamente o
desastre ocorrido em Bagdá em 2003, momento em que o Museu foi
atacado e saqueado ainda quando meses antes da invasão do
Iraque se pedira resguardo e proteção especial deste às
tropas dos EUA. Talvez o que muitos não sabem é que
este museu foi durante muitos anos “o cofre do tesouro privado de
Saddam Hussein” e se manteve fechado desde o ano 1991 até o
ano 2000, podendo unicamente ser visitado pelo seu círculo de
amigos próximo, proibindo o acesso ao público.
Ainda
com todas as dificuldades, os destroços, saques e a metade das
salas fechadas abriram as suas portas ao público em 2009, só
6 anos depois de tamanha destruição, sabendo que a
história patrimonial é a força para o ressurgir
dum povo, tendo total consciência de que não se pode
abalizar a destruição cultural.
O
acontecer em Ourense...
O
modelo de organização compartilhada por duas
administrações, não só demonstra um
fracasso do ponto de vista da gestão, mas também um
desinteresse total por levar a bom porto esta longa agonia
patrimonial. Em definitiva, uma negligência de proporções
maiúsculas. Por um lado a Administração Central
desconhece a realidade ourensana completamente e envia os dinheiros e
o pessoal ao edifício de Santa Maria de Europa (A Carvalheira)
que basicamente funciona como uma cave-armazém sendo em origem
um Liceu de formação profissional. Por outro lado a
“Xunta” que não é capaz de gerir de maneira
adequada as instalações, supostamente, por uma
incapacidade de gerar acordos com a entidade titular... estando pelo
meio a Deputação Provincial...Durante estes 10 anos
realizaram-se escavações arqueológicas,
implementou-se uma sala de exposições (pequena, para
todo o património que detenta o Museu) e manteve-se na tabela
também 'a peça do mês'. Olha, que também
não afirmamos que ficaram de braços cruzados sem
fazerem nada, simplesmente, fazer notar que os esforços são
poucos, estão mal focados ou mal direcionados ou simplesmente,
não há boa vontade para promocionar e pôr em
valor o nosso património. As notas impressas às que
pode aceder qualquer pessoa que procure alguma informação
fazem referência a que estaria 'fechado por obras de
reabilitação e ampliação'. Quando o
cidadão comum vai ter acesso real ao interior do Museu para
comprovar por si próprio esses avanços?
Faz
poucos dias, percorrendo os arredores, pudemos comprovar com assombro
as deploráveis condições em que estava o
edifício (antigo Palácio Episcopal e anteriormente
Palácio Real Suevo...e antes Pretório Romano). Achamos
os seus muros riscados com graffitti, grande parte das janelas
quebradas, sujidade no contorno que rodeia o edifício e dentro
da sala expositora dos miliários que dá à rua
cheia de folhas secas, terra, lama seca e excrementos. São
algumas das amostras que tão insigne edifício apresenta
ao cidadão ourensano e visitante. As perguntas, fazem-se
evidentes: Que é o que acontece realmente no Museu de Ourense?
A que é que se deve a sua tão deteriorada façada?
O interior está nas mesmas condições? Quem
guarda pela exposição dos miliários na sala
visivelmente suja, com uma estética totalmente deteriorada (um
deles deitado no chão escondido atrás dum pilar)?
Talvez a câmara de segurança dirigida para eles e a
entrada de acesso a uma ala do Museu está ativa? Se o Museu
leva fechado mais de 10 anos, continua a funcionar o sistema de
segurança? Está obsoleto? Ou é simplesmente um
'automatic doorman'?
O
Buraco negro de objetos patrimoniais
Como
relatávamos no começo, ao comentarmos sobre a pedra
fundacional de São Pedro de Rochas (porque nos guias em galego
sempre põe 'Rocas'?), toda obra importante, única e sem
precedentes parece cair nas mãos fantasmais da cave-armazém
-não podemos chamar-lhe de outra forma-, onde vão parar
as peças do Museu Arqueológico de Ourense, que é
o edifício da Santa Maria de Europa no bairro da Carvalheira.
Ficamos condenados a ver uma e outra vez gigantografias a cor ou
reproduções de duvidosa qualidade, enquanto os
originais passam a fazer parte das listagens sob o lema: “Original:
Museu Arqueolóxico de Ourense”. Como tantas outras peças
de incalculável valor que deveriam estar expostas, em contato
com o público e bem cuidadas.
Não
há dinheiro para o Museu, mas pode-se andar pelos cantos de
Europa fazendo promoção do “Paraíso Termal”,
esbanjando grandes quantidades de dinheiro, deixando a um lado a
cultura que se poderia promocinar a esse turista, duma cidade com
tanta história como é Ourense. O turista atual não
só vem remolhar o corpo nas águas quentes mas é
um grande curioso por conhecer história e arte, um verdadeiro
investigador que tenta submergir-se no quotidiano das ruas, na
gastronomia, na língua das gentes que habitam estes cantos da
Europa...assim como a história e o seu passado.
Gastam-se
esforços e dinheiro num completo e também, porque não
dizê-lo, necessário trabalho arqueológico das
Burgas (remodelação de edifícios incluídos),
com dous mil metros quadrados onde nos apresentam como a “peça
estrela” uma piscina romana, mas não atendem as necessidades
arqueológicas culturais e históricas anteriores a Roma.
Talvez é que antes da chegada dos romanos não havia
cultura aqui? Não havia culto às águas? Não
havia religião? Não havia crenças? Não
eram os nossos antepassados?
Por
parte da “Xunta” também não há dinheiro para
atender o Museu mas gastam milhões de euros na construção
duma cidade da Cultura (ainda sem terminar) no monte Gaiães em
Santiago de Compostela, de duvidosa utilidade e de duvidosa
imparcialidade política (a Avenida principal chama-se 'Manuel
Fraga')
Tudo
isto faz-me lembrar uma citação de Philip Shepherd que
dizia “Se estiveres dividido do teu corpo, também estarás
dividido do corpo do mundo, que portanto aparece como outro distinto
de ti, ou separado de ti, em vez de viver um 'continuum' ao que
pertences”. Enquanto, a cidade e os seus habitantes vão
continuar aguardando 'qualquer forma de milagre' que abra essas
portas que os separam de toda a magia e a grandeza que viveu na
antiguidade. Talvez possamos dar-nos conta aos pouquinhos de que o
Museu não só tragou os objetos como se dum buraco negro
se tratasse, mas também as nossas cabeças...
José Luís Lozano Rua é um homem humilde, mas conhecedor e sabedor do valor do nosso património. Há algo mais dum ano ele fez um achado importante. Trabalhando uma das suas leiras junto com o seu irmão deu com uma pedra enterrada que resultou ser uma "estela" com petróglifos e mais alguns outros elementos dignos de ser tidos em conta por uma administração que não só não atende aquilo que os galegos herdamos do passado mas que mesmo destrói o nosso legado ancestral. O fim da administração? Talvez seja muito arriscado dizer que não quer que exista o nosso passado porque não quer que existamos no futuro?....
Vamos ver que opina o nosso Homem da Pedra:
Quando e onde é que apareceu o
jazigo? Como é que fizeste o achado? foi casual?
O de jazigo é uma nova palavra
para mim, suponho que é mais correcta do que achado, mas vou usar esta.
Tentarei de responder por ordem e não repetir as cousas. Eu faço isto desde um
telemóvel, com o qual não tenho capacidade de ler em conjunto todo o que
escrevo, para além dum pequeno parágrafo. Uma vez isto fica dito, lá vamos.
Começo respondendo às duas primeiras de vez.
A leira onde apareceu a estela,
está enquadrada no termo chamado da Pedralta. Não se sabe a sua antiguidade,
mas sim a sua origem, a própria estela. No ano 2009, meu irmão, o proprietário
desta leira, mandou-a lavrar a um vizinho de Vilamaior, uma aldeia próxima. O
trator que usou é mais potente do que o nosso e aprofundou mais no terreno do
que já tinha feito em outras vezes anteriores. Com isto quero dizer que o
achado foi totalmente casual e o vizinho não lhe deu mais importância do
devido, excetuando o dano causado no apeiro. Este labor foi feito em primavera
e não foi até o outono -acho que foi novembro-, quando fui dar um passeio até o
rio da Veiga, nome que lhe damos ao Tâmega. Desde a estrada de terra por onde
ia eu, chamou-me a atenção aquele penedo, numa margem da leira. Uma pedra de
granito, um perpianho distante uns cem metros de mim. Nesta margem do rio não
há granito, só xisto (lousa), por isso o raro do assunto. Quando me aproximei
para vê-lo melhor, o sol-pôr estava próximo, como muito a uma hora de luz. Essa
luz que lhe dava à pedra, quase esguelhada, permitiu-me ver uns gravados desde
longe, talvez uns quinze metros. O coração deu-me um pulo no peito. Aquilo era
um petróglifo ali, saindo da terra! Isto pode parecer exagerado, inclusivamente
poético, mas foi como sucedeu. O significado desses gravados não os soube até
muito tempo depois.
Há máis jazigos arqueológicos
nessa zona? há alguma lenda?
As estradas e pistas que hoje percorrem esta terra, não se correspondem com as
anteriores à concentração parcelar dos anos 60/70. O mais provável é que a
estela fosse quebrada e sepultada nessa época. Nas proximidades da Pedralta há
outros termos, como o Castro, onde houve uma vila romana ou São Martinho, onde
houve uma capela do mesmo nome e uma necrópole romano-sueva segundo os restos
achados, vários sartegos e uma ara com o nome do primeiro homem empadroado
nestas terras: Júlio Caro Tamagano. Neste ponto quero dizer, que a estela do
Guerreiro também deixa constância doutro homem, mil anos anterior a este.
Somente que a escritura é diferente. Pode-se dizer que hieroglífica no que diz
respeita dos símbolos gravados. A estrada desde onde vi a pedra-estela leva o
nome de Corredoira. Transcorre em direção Norte-Sul, quase paralela ao rio.
Quinhentos metros ao norte, por arriba de São Martinho, está o castro da
Cabanca, prospetado por Tavoada Chivite nos anos 50/60. No que diz respeito das
lendas, estão as típicas de castros e mouros que falam de túneis até o rio e
cousas assim.
Qual foi a reaçao do pessoal de Castrelo quando soube da
estela e qual a dos responsáveis do património, dos arqueólogos e
profissionais?
Agora passamos às pessoas. No povo não se faz muito caso deste achado, não
porque não tenha importância, mas porque não se sabe avaliar essa mesma como
património local e como possível fonte de recursos. A vida rural não deixa
muito tempo para interessar-se noutras cousas. Desde o concelho de Castrelo,
desde o primeiro momento passou o mesmo e quando vieram técnicos e arqueólogos
datar, estudar e catalogar o achado já foi tarde. Isto não é uma opinião
pessoal, é uma realidade comum a muitos temas, sobre tudo culturais. A cultura
não dá de comer, portanto não é importante.
Resumo um pouco as voltas que me tocou dar desde o ano 2009. Nomear neste ponto
a Bruno Rua, um amigo que tem um pequeno guia arqueológico da comarca e que foi
o primeiro a quem lhe falei da pedra-estela naquele mesmo mês de novembro. Ele
não soube ver as caraterísticas do achado, penso que condicionado pelas suas
leituras, onde as estelas não existem no mundo castrejo, as influências celtas
são posteriores, e a cultura atlântica não é tal.
Todo isto que falo também não o
conhecia eu, no entanto a feição da pedra sempre significou algo para mim,
desde o primeiro momento. Um homem jazendo, uma tumba, nunca um guerreiro de
pé, talvez uma figura ou lembrete de algo...
Continuemos. Quando finalmente,
por meio de Bruno, vieram dous arqueólogos que andavam a fazer um estudo em
Verim -Alberte Reboreda e Breogam Nieto- a ambos lhes surpreendeu a pedra. No
entanto não falaram da sua importância nem de que era única em Galiza. Uns dias
depois voltaram com um experto e o que eu pensei um técnico de património que
se manteve em segundo plano. Geraldo (ou António, não lembro agora) Seara,
diretor de património na província de Ourense. O experto é António de la Peña
Santos, penso que diretor do museu de Ponte-Vedra e grande 'conhecedor' dos
petróglifos galegos. Aqui começa o desencontro, digamo-lo así, entre aldeãos e
património. Em primeiro lugar, depois de acordarmos avisar ao Concelho e interessados
da sua chegada, não o fizeram. Após aguardar uma chamada, ao vereador de
cultura, José Luís Santiago e mais eu, decidimos nos achegarmos a Pedralta... e
surpresa!, quatro pessoas estavam a fotografar a estela in situ, e pareceu que
a nossa chegada lhes produzia incomodo. Depois de alguns comentários fora de
lugar e com muita pressa, acedeu-se ao traslado da estela ao pequeno museu
etnográfico de Castrelo do Vale. As pressas nunca foram boas, disse o sapo
quando caiu do valado e assim foi. No dia seguinte deu-se a noticia na imprensa
e na televisão, sem nos dar tempo ao concelho e demais de tentar fazer as
cousas doutro modo, algo que nos prejudicou ao longo desse ano e deste que
remata. O tira e afrouxa continua.
Na túa opinião, onde deveria
de estar a estela?
Não sei como fiar uma cousa sen
outra. A ideia seria conservar o que se possa, os moinhos e represas, os
lagares e caminhos, o próprio castro da Cabanca, ou a necrópole. Quando isto
começou, há já dous anos, que parecem dez, falamos entre Bruno e eu de fazer
uma área de interpretação no lugar da Pedralta. Um projeto a longo prazo,
talvez trinta anos... Eu continuo com a ideia. Depois com o Miguel, passeando
pelo castro, falamos de roteiros incluídos no projecto. Com Neves Amado a
possível escavação da necrópole, restos suevos e romanos e provavelmente mais
antigos e a estela como base da ideia. Sem ela não há nada.
Opino que a estela deve ficar na
vila de Castrelo, no museu ou na sua ubiquação original. Não é minha intenção
deixar de cumprir uma lei, que diz que esta e outras peças devem estar num
museu. O feito de que se vaia embora a estela para Ourense é quase um roubo.
Não só duma parte da historia de Castrelo e da comarca do alto Tâmega, também
duma oportunidade única de melhorar a situação precária deste Concelho, das
suas gentes. Uma pequenapeça no mundo da arqueologia, mas uma peça fundamental
no mundo rural.
Bem, verei se a imprimo ou a repasso. Se queres fazer alguma outra pergunta,
aqui estou. Seguro que me queda algo no tinteiro, hei de buscar um par de nomes
e apelidos para acrescentar.
Sobre as lendas, há uma referida
à necrópole. Um vizinho diz que havia três povos, o castro, a vila romana, e o
povo atual. Conta que vinham enterrar-se de trinta léguas à redonda ao São
Martinho. Quase nada.
Sobre os crânios, há quem lembra o facto e falaram-me duma cabeça de raposo que
veio do castro.
Fala-nos dos problemas que
tiveche com a “Xunta de Galicia”?
Quando chegou a Castrelo do Vale o director do museu arqueologico de Ourense,
vinha com a ideia de levar já a estela. Cousa que não pôde fazer por vários
motivos. Entre eles o feito de que a estela se achava na casa familiar dos meus
pais, onde eu lhe ia preparar uma base para expô-la no museu etnográfico. Dá-se
a circunstância de ser eu filho de carpinteiro. Fazedor de carros e cubas o meu
pai e de exercer o ofício de ferreiro, com o qual me ofereci voluntário para
esse cometido. Esta situação não foi do agrado do diretor, de quem não lembro o
nome, e decidiu apresentar uma denúncia que levou a abrir um expediente
administrativo, onde se me acusou de 'sequestro' de bem patrimonial, com uma
possível multa da que se fizeram eco os jornais, sempre sedentos de titulares.
Depois de recolher assinaturas na comarca, de apresentar-se diversos escritos
atenuantes desde o concelho e de senhas cartas enviadas ao Valedor do Povo e ao
Defensor del Pueblo (um dado curioso foi que desde Santiago e desde Madrid, com
a mesma lei, um aceitou a petição e o outro não). Bem, depois desse, digamos, movimento de peças, veio um
homem desde Santiago, Roberto Pena (não sei justo qual é o seu cargo,
desculpe-se o meu desconhecimento), com a ideia de conciliar posturas.
Salto de novo a pergunta. A ver se acarão do fumeiro me saem as respostas.
Vou pela oito, para falar de prós e contras.
Quem te apoiou?.
Desde o princípio houve muitas
pessoas que se interessaram pelo achado dum ponto de vista pessoal e académico.
Em primeiro lugar, o meu amigo Bruno Rua, que se plantou com argumentos
irrefutáveis sobre a permanência da estela em Castrelo do Vale. Em especial
Miguel Losada, pessoa envolvida em qualquer projeto cultural, que fale de
conservar tradição ou mostras da nossa historia. Neste ponto falar de Manuel
Gago, quem desde a notícia dada na imprensa, apoiou o seu estudo e estadia no
povo onde foi feita e posta em pé; a arqueóloga Neves Amado, que respondeu com
firmeza todas as minhas perguntas. Mais pessoas se foram conhecendo a partir
destes quatro nexos, com maior ou menor interesse na particularidade do achado.
Nas últimas datas, começando por ti, David Outeiro, José Manuel Barbosa e a
partir dele André Pena Granha.
Quando estive a recolher assinaturas pela comarca, as primeiras foram no
escritório de Correios, onde a resposta foi positiva e me animou a continuar.
Depois em locais comerciais e de hostelaria, quase todos conhecidos meus.
Nomear ao Miguel e ao Suso, que se envolveram e recolheram um bom monte de
assinaturas entre os dous. Falar duma moça, que pus em risco o seu posto de
empregada, por uma causa que ela considerava justa. Visitei também várias
escolas, onde firmaram a maior parte de mestres e mestras, ainda que logo não
quiseram fazer mais nada, como uma visita ao Gaias que eu lhes propus...
Agora um apontamento do rechaço
ou desinteresse de certas pessoas, que na minha opinião deveriam, quando menos,
interessar-se. Num instituto de ESO, os papeis 'extraviaram-se' duas vezes,
depois soube que os professores de história decidiram não assinar em bloco.
Algumas pessoas que não assinaram argumentando diferentes razões, cada qual
mais curiosa. E por último, o caso que mais salientamos: Uma visita ao concelho
de Verim, uma conversa com a pessoa responsável de Cultura desse concelho. Isto
foi em Abril de 2012, quando a notícia se deu a conhecer um ano antes. A resposta
à minha petição de apoio, foi contestada com un contundente " não sei
nada'. Esta resposta, para além de me deixar frio demonstrou-me o interesse
certo das administrações na cultura.
Onde é que está atualmente a estela? Sabes qual é o que
pretendem fazer com ela num futuro?
Teve lugar uma reunião na Câmara Municipal (tentações tenho de pôr
“inquisitorial”), entre as partes interessadas. Decidiu-se um convénio, só
verbal, de ceder durante un ano a custódia da estela ao Concelho, prorrogável
mais tempo se assim se decidia. Também envia-la à exposição “Gallaecia Pétrea”,
durante o tempo que esta dura-se. Nesse intervalo de tempo, o Concelho levaria
a cabo a habilitação duma sala no pequeno museu etnográfico da localidade,
cousa que está sem fazer, depois de seis longos meses, porque pode que esse
convénio verbal não seja válido. Como se diz: não é vinculante de qualquer
jeito. Se quiserem desde património cumpre-se e se não, não há nada que fazer.
Tens algum projecto atualmente
ou de futuro?
A recolhida de assinaturas foi o começo do caminho. Posto que não há resposta
por parte de concelhos e equipas docentes. Nem da gente do comum, longe de
assinar, decidi procurar apoio em associações culturais doutras partes de
Galiza, ou da Gallaecia, pois fui a Chaves e à Póvoa da Seabra. Vendo o que se
faz em Lugo com Trebas Galaicas, em Santiago com O Sorriso de Daniel ou a
Gentalha do Pichel, ou a associação de Amigos dos Castros, Penas Mouras, o
Galo..., por nomear algumas. Seguindo esse exemplo, quis formar uma associação
cultural na Vila de Castrelo do Vale, algo que por enquanto não tem sido
possível por varias causas. Curiosamente, eu sempre fui amante da natureza,
graças ao grande Félix Rodríguez de la Fuente e durante este ultimo ano dei-me
conta que a conservação do património pode e deve ir unida a conservação do
espaço que criou esse património, tanto natural como imaterial... às tradições
e costumes, ao jeito de aproveitar os recursos naturais, à forma dos próprios
rios e montes... Todo isto conforma uma cultura, um modo de vida e à gente.
Não quero voltar ao século dezanove, nem há três mil anos, no entanto pode-se
cuidar o contorno em lugar de usá-lo e com ele cuidar essa nossa cultura e
história. Algo tão simples como limpar os caminhos antigos ,cheios de silvas e
tojos, às margens dos rios, com o mesmo problema, os montes, invadidos de
espécies forâneas que literalmente esgotam e envenenam a terra, ou manter em pé
moinhos, lagares, pressas, que foram construídas pelos nossos antergos. Ruínas
que falam, não de quem fomos, mas de quem somos hoje e não permitirmos que a
nossa história e cultura esmoreçam a prol dum progresso nocivo e destrutor do
espírito humano.
Câmara: José Goris Ajuda Técnica: Ana Bernardez e Carolina Hortsmann Apresentaçao José Manuel Barbosa
Tenho teimado contra as mentiras históricas e contra a manipulação historiográfica; tenho querido desvendar para o leitor fiel mais de uma cousa, e de duas, que deixam a Galiza discriminada do conhecimento da sua própria realidade passada; tenho criticado o castelhanismo compulsivo do ensino no que diz respeito da História e da língua; tenho denunciado a debilidade daqueles que não consideram a Galiza dentro da Península Ibérica como ponto fulcral e decisivo na/da conformação política, territorial, social e cultural tanto da Espanha como de Portugal. Tenho trabalhado por todas essas cousas e por isso os meus afetos nunca vão estar da parte do Império Castelhano tornado em Reino da Espanha, não. Os meus afetos vão estar com o nosso País, com a nossa Pátria, com a nossa Nação galega.
Como isto é assim ainda que do céu venham centelhas nunca vou deixar de confrontar-me contra todo aquilo, humano, desumano ou inumano que atente contra as bases conformadoras da Galiza Eterna. Da Galiza que existia antes de Roma, nomeada de Kalláikia, Oestrímnia ou Ophiusa; da Galiza romana, sueva, medieval e hegemónica na Hespéria; da Galiza camponesa e marinheira da Idade Moderna; da Galiza anti-napoleónica de Cachamoinha; a Galiza provincialista e murguiniana; da Galiza galeguista, reintegracionista, celta e celtista e daquela que sonha com a sua soberania. É por isso que nunca vou deixar de evidenciar a maldade de qualquer governo madrileno, bruxelense ou compostelano que permita que aquilo que ficou do passado seja destruído, ocultado ou manipulado com o fim de obscurecer o nosso País, de negar-lhe personalidade para que perda a sua existência e o seu ser. Quem isso faça vai-nos ter a nós justo frontalmente, com a esferográfica preparada para jogar à esgrima das letras.
A desfeita está nos livros, nos média, no ensino. Entra pelos olhos, pelos ouvidos...mesmo pelo nariz quando cheira a queimado, quando sentimos calor no inverno e frio no verão, quando nos falam de amor à Galiza à vez que lhe cravam a faca nas costas...quando vemos uma anta estragada com adornos de arquitetos modernistas; quando identificam um castro com não sei que vínculos mediterrâneos à vez que o destruem para fazer um porto exterior sem antes ter sido estudado por arqueólogos responsáveis e livres de ataduras espúrias pagadas pelo poder político às ordens de fenícios mesetários, quando vemos uma igreja sueva que fazem passar por visigótica esquecida por todas as instituições e atendida só pela boa fé da gente do povo. Essa desfeita é como mínimo consentida quando não planificada maliciosamente por uma administração que não nos mata, mas que nos dá para que morramos, uma administração cujo sentido das cousas é tipicamente otomano ou atiliano.
Partindo dessa conceitualização das cousas, queremos apresentar um trabalho feito nos passados meses de Janeiro e Fevereiro onde queremos fazer público à vez que denunciamos os Sultães de Madrid e os seus Sátrapas compostelanos tanto laicos como curiais exercendo a mais subtil das limpezas. Esse tipo de limpezas que se passam desapercebidas porque não saem na TV mas que acabam igualmente com os povos. Se realmente ao Reino lhe parecesse importante ou de utilidade a nossa Igreja de Santa Comba de Bande (como importante é para ele a Dama de Elche, as Covas de Altamira ou os achados de Atapuerca...), este exemplo de capela pré-românica e mesmo paleocristã seria um modelo de cuidado, de atenção administrativa e de aproveitamento do património para qualquer finalidade positiva, mesmo para que o Estado ou a Junta da Galiza pudessem minimizar a crise na que nos meteram, pelo menos nessa comarca querquérnica, autêntico ônfalon do património artístico galaico.
Com tudo isto, só queremos lembrar duas cousas:
1-A Galiza tem mais património artístico dentro da CAG do que todo o resto do Reino junto, o qual poderia fornecer uns ingressos económicos que poderiam tirar da precariedade e da emigração a muitos galegos...e não só riqueza económica...e...
2-Um governo galego e uns interesses de Estado que permitem isso e que favorecem a eliminação da memória dos galegos, que permitem que museus como o de Ourense sejam “bunquers” onde nem se possa ver o seu interior por levar quase doze anos fechado merecem o nosso desrespeito e o nosso rechaço. Nós somos os donos do nosso património e a administração está ao nosso serviço, não ao invés. Nós somos os que sustentamos esses aparatos governamentais e nós somos os que podemos dar-lhes o seu merecido por se desviarem do seu cometido principal. Que emigrem eles! Que fiquem eles sem trabalho!....Porque? Porque nos querem mal!, e nós devemos querer-nos a nós próprios.
Eis:
Gravação e elaboração dos vídeos: José Goris Colaboração Técnica: Ana Bernardez e Carolina Horstmann
Declaração de Santa Comba de Bande Monumento Nacional:
“Ilmo. Sr.: Visto el expediente incoado sobre la declaración de Monumento nacional de la iglesia de Santa Comba o San Torcuato de Bande, en la provincia de Orense, y de conformidad con el dictamen emitido sobre dicho particular por las Reales Academias de Bellas Artes de San Fernando y de la Historia, S.M. el Rey (q.D.g.) ha tenido a bien resolver sea declarada la referida Iglesia Monumento nacional, quedando como tal Monumento bajo la tutela y protección del Estado y la inmediata custodia y vigilancia de la Comisión provincial de Monumentos de Orense. De Real orden lo digo a V.I., para su conocimiento y efectos. Dios guarde a V.I. muchos años. Madrid, 11 de agosto de 1921, publicada esta en el BOE. 16-08- 1921.”