domingo, 13 de março de 2016

Entrevista a Francesco Benozzo que vai estar connosco nas V Jornadas.





[Versão galego-português – English version below]
Entrevista com o Prof. Francesco Benozzo:
“A Galiza e o Norte de Portugal são a origem da celticidade europeia”
O Professor Francesco Benozzo (Módena, Itália, 1969) é um dos grandes nomes por trás do Paradigma de Continuidade Paleolítica, afirmando que existe uma continuidade clara nas origens e desenvolvimento dos povos europeus, origens que podem ser colocadas ainda mais atrás no tempo do que normalmente é considerado. Esta mudança no compreensão da arqueologia, pré-história e linguística europeia é de enorme relevância para a Galiza e (Norte de) Portugal, pois situa este território no centro da génese da chamada Cultura Celta, entre outros aspectos.
Com dois doutoramentos em linguística e filologia pelas universidades da Bolonha (Itália) e Aberystwyth (País de Gales), na actualidade lecciona na nomeada universidade italiana. Contudo, Francesco Benozzo não está limitado pelo formalismo que normalmente acompanha a vida académica. Ele também é um reconhecido poeta e harpista, com um grande número de obra e música editada, o que fez com que o seu nome fora proposto como Prémio Nobel de Literatura.
Teremos a fortuna de recebê-lo este próximo Abril (dias 2 e 3) na quinta edição das Jornadas das Letras Galego-Portuguesas (Pitões das Júnias, Montalegre, na “raia” galego-portuguesa), onde debaterá sobre estes e outros temas, como vai indicado na entrevista a seguir.
- Qual foi a primeira coisa que chamou a sua atenção sobre a Galiza e Norte de Portugal? Foi algo puramente académico ou houve algum outro factor motivando que se centrara em nós?
Desde que era criança o meu instinto sugeria que o significado original das coisas reside nas áreas e localizações periféricas. Com isto não quero dizer “periférico” simplesmente num sentido geográfico mas, principalmente, num sentido poético. Esta é uma das razões pelas quais fui viver ao País de Gales (e não Inglaterra) durante uns anos, e também a razão pela qual deixei a minha cidade natal de Módena, no norte da Itália, e decidi viver nas montanhas. Também acredito que, como académicos, devemos estudar e concentrarmos-nos em tradições “periféricas”: tradições populares, dialectos, textos orais, culturas das pessoas marginais e assim por diante, porque o que agora é percebido como “marginal” e “periférico” foi , em muitos casos, o centro original do que na actualidade percebemos como centro.
A Galiza e o Norte de Portugal sempre foram parte desta minha “topografia poética” e da minha concepção poética, começando pelas suas lendas e tradições e grandes poetas como os trovadores medievais, até mesmo Rosalia de Castro ou Eduardo Pondal.
- Considera que o noroeste ibérico pode ser considerado a origem da “celticidade” na Península desde um ponte de vista linguístico?
Não só. Penso que pode ser considerado a origem da celticidade em toda a Europa.
- Qual é a sua opinião sobre a relação entre o mundo céltico e Tartesso, como postula o Prof. Koch?
John [Koch] tem produzido um trabalho extraordinário sobre isso na última década. Não vejo quaisquer razões linguísticas que puderam negar essa conexão postulada. O problema com a teoria de Koch é que auto-limita-se à Idade do Bronze Tardio, o qual contradiz a sua ideia de “Celtas do Oeste”. Em vez disso, se falarmos de etnogénese, devemos ir além das restrições das fontes escritas e termos a habilidade para conectarmos-las com outro tipo de fontes como assim as lendas, tradições, genética, etno-textos ou léxico dialectal. Em consequência, poderemos falar de “Celtas Paleolíticos” nesta área. Dentro deste quadro, Tartesso pode ser visto como uma das muitas relíquias escritas “recentes” de um fenómeno muito mais antigo.
- Por que acha que há este esforço renovado em algumas partes da Europa para desacreditar o termo "celta", ou mesmo até a existência de uma cultura celta?
Por três razões principais. Em primeiro lugar, sendo eu mesmo um anarquista, diria que há uma tendência inata por parte dos que estão no poder de excluírem a diversidade e, acima de tudo, “centralizarem” qualquer tipo de estratégia ligada ao seu poder. Assim, como sabemos, desde a sua proto-história os celtas sempre foram os “perdedores” em termos geopolíticos e foram excluídos logo de qualquer jogo de poder das elites europeias.
Em segundo lugar, podemos encontrar um desconforto geral com a celticidade se a compararmos às culturas oficiais padronizadas que, de certa forma, governam o mundo. Noutras palavras, admitir que a inquietante, multiforme, colorida, rural, estratificada e arcaica cultura celta possa ser parte de nós é, em muitos casos, difícil de aceitar para as pessoas criadas com a certeza e o mito conformista da estabilidade e um conhecimento superficial da história europeia.
Por último, e em relação às razões mencionadas acima, a cultura celta representa, em termos psicanalíticos, o subconsciente da Europa, o que provoca uma contínua tentativa para reprimi-lo e suprimi-lo.
- Como reconhecido investigador, mas também como poeta e músico, há algum tipo de conexão entre o seu trabalho académico e o seu trabalho artístico? Ou tenta manter ambos mundos separados?
Espero que estes três aspectos convivam, como acontece com diferentes elementos duma mesma paisagem. A minha expectativa é provavelmente parecer como um músico que estuda filologia, um poeta que toca harpa e um filólogo que compõe poemas.
- Depois de todas as suas viagens e investigações, como resumiria o “carácter céltico”? Por exemplo, quando visita a Galiza-Norte de Portugual, que sente em conexão com outros territórios célticos?
Primeiro de tudo, há um sentimento especial com o mar, que é diferente do que tenho observado noutras comunidades, tais como as das Ilhas Féroe ou do Mediterrâneo. Nas terras celtas este sentimento está ligado a uma atitude "lendária" e melancólica na percepção da paisagem marinha, e na capacidade de conectar lugares com histórias.
Há também uma clara, inata, não previsível, percepção musical do mundo. Além disso, existe a consciência do valor arcaico e civilizador de coisas que foram esquecidas noutros lugares, como partilhar umas bebidas, alimentos e histórias.
Nas V Jornadas das Letras Galego-Portuguesas, o Prof. Benozzo participará com a palestra intitulada “Uma paisagem atlântica pré-histórica. Etnogénese e etno-filologia paleo-mesolítica das tradições galegas e portuguesas”.
O evento é aberto e de assistência livre e gratuita, e a intervenção do Prof. Benozzo será em inglês com tradução ao português.

quarta-feira, 2 de março de 2016

V Jornadas Galego-Portuguesas em Pitões das Júnias.


Pela Equipa do DTS:
Foto: Paulo Ferreira
Cartaz: Noa Rios e José Goris.

Mais um ano, aqui estamos para celebrarmos uma nova edição das Jornadas  Galego-Portuguesas de Pitões das Júnias. Cada ano vamos consolidando o nosso trabalho e a qualidade das nossas Jornadas ainda com tremendos obstáculos gerados por múltiplas circunstâncias. 

O programa será publico em poucos dias, assim como a lista de apoiantes.
Neste cartaz só fazemos referência à celebração do já tradicional evento nas datas acima indicadas, adiantadas este ano por razões alheias a nós e para ir preparando o público para a festa e a cultura.

Haverá palestras, música, festa da maneira em como enxergamos galegos e portugueses e aguardamos dar com o ponto de união de ambos povos vizinhos.
Ide preparando esse fim de semana para nos vermos, para desfrutarmos e para nos sentirmos mais próximos os uns aos outros.


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Entrevista ao Professor Higino Martins



Equipa do DTS: José Goris e José Manuel Barbosa

O Professor Higino Martins Esteves esteve connosco entre o 5 e o 21 de outubro de 2015 apresentando o seu livro "Etimologias escuras ou esconsas".


Tivemos a oportunidade de partilhar com ele estes dias de atendimento à sua pessoa e aproveitamos para fazermos-lhe uma entrevista para o DTS.
A entrevista foi feita, como sempre, com a colaboração técnica do nosso amigo e colaborador José Goris. Eis o nosso trabalho:




Outras obras do professor Martins:











sábado, 6 de fevereiro de 2016

3ª GUERRA MUNDIAL OU ACORDO GLOBAL?




Por Artur Alonso Novelhe:

Como bem vínhamos observando, em contradição com aqueles que agoiram sempre a pronta queda do Império Ocidental, Ocidente que segue a controlar os três tabuleiros principais, onde se joga a partida pela supremacia (a saber: Militar, Econômico e Social – Cultural), comanda e toma a iniciativa, em todos os campos de jogo. Depois de um pequeno período em que parecia a China poder desafiar o gigante Norte-Americano, dentro do tabuleiro económico, de novo o comando imperial anglo-saxão, volta reconduzir a situação em seu favor...

A Rússia, que muitos acreditam possa desafiar o poder militar do Ocidente, está claramente à defensiva em este jogo, a pesar de seus esforços bem encaminhados tanto na Crimeia, como na Ucrânia ou na Síria (exercícios combinados de bom fazer militar, diplomático e político)... Vimos advertido duma prolongada guerra encoberta entre Emergentes (com direta implicação do binómio Rússia – China) e Ocidente, que a cada dia se torna mais visível. Realmente o confronto direto é sem duvida com China – única potencia capaz de desafiar economicamente Ocidente. Mas a Rússia, ao ser a única potencia com capacidade real de defrontar Ocidente – alem de sua situação geo-estratégica e seu gigantesco tamanho, bem como suas riquezas energéticas – deve ser dominada; pois controlando Rússia, não é possível grande mobilidade ao expansionismo chinês... A tentativa de deteriorar a economia russa através da combinação de sanções exteriores e declínio dos preços do petróleo; obrigando, paulatinamente, a um aumento do défice orçamental e do défice da balança de pagamentos... 

Não tem funcionado de tudo, mas tem minorado consideravelmente as capacidades da economia russa e sua angariação de fundos de reserva. As sanções exteriores, pela contra não tem sido muito haveis a hora de aumentar a pressão sobre a sua económica, na tentativa de obrigar a seu governo a privatizar em favor de investidores internacionais. Na Rússia atual, desenvolve-se um poder bicéfalo, onde neoliberais mais achegados ao Primeiro Ministro Medvedev e os nacionalistas mais estatistas mais achegados ao Presidente Putin, convivem em relativa harmonia. A contração da economia não tem ajudado a criar um clima favorável a privatizações, dado a baixa cotação agora dos ativos russos. O qual impede um plano que seria de interesse do ocidente, de transformar a economia russa numa economia rendista, que num prazo mais alargado – vencera as leis aprovadas por Putin, que impedem o acesso maciço do capital estrangeiro a Federação – permitindo na pratica o domínio exterior, por meio da retirada continua de lucros em benefícios de proprietários estrangeiros (com a desculpa duma maior industrialização)... Algo que de momento o governo russo tem evitado. Mas uma tentativa de privatização, embora seja com intuito de voltar os capitais dos oligarcas russos no estrangeiro, poderia abrir essa porta, se o poder russo não manter um vigoroso tecido publico industrial, em contrapeso do privatizado... 

E este jogo ainda está andamento, variante que faz possíveis acordos mais globais entre a Rússia e os EUA– que mesmo possam concluir no reverter das sanções a Moscovo. A sua vez Ocidente tem melhorado suas posições por todo o planeta, com a criação na Ásia, de acordos de Livre Comercio que tem debilitado a posição anterior dominante da China, regredindo para uma posição de participante ativo e sócio muito importante. A criação dum banco de investimento Emergente, e alça da Bolsa de Valores de Xangai – obrigava a um movimento rápido do Ocidente, na corrida pelo poder económico global. Na América do Sul, a tentativa brasileira de criação dum marco geográfico de interação e poder, que possibilitasse uma independência econômica do Continente – por meio de reforçar Mercosul e fundamentar Unasul – tem sido bem contrapesada, com a criação da Aliança do Pacifico, e a queda da presidência da Argentina, com laços muitos fores com Brasília; assim como a grave crise gerada na Venezuela. Brasil tem reagido com habilidade, tacto e sutilidade; mas as pressões dentro da sua própria casa – onde o sector neoliberal, aliado do Ocidente, está a aumentar seu poder, impedem grandes contra-ataques. 

Uma futura Privatização do Banco Central do Brasil – com a subida ao poder de partidos de corte neoliberal, converteria sua economia numa plataforma rendista, onde o poder inversor estrangeiro se faria com o controlo total de seu património, ao privatizar o poder creditício real, comutando para bancos privados (dependentes do poder financeiro ocidental) o planeamento económico, que deveria permanecer na posse do governo, se quisermos seguir avançando na agenda de emancipação continental. África anda está para desenvolver em próxima agenda – ainda que as tensões provocadas no Centro do Continente – os desequilíbrios imensos no Norte (nomeadamente no Magrebe) e a baixa do petróleo, comodities, controlo do monopólio dos diamantes pelas companhias internacionais (a pesar da concorrência chinesa, que tem aberto alternativas novas), não permite ainda criar nem sequer uma ilusão de independência económica, mesmo nem no Sul continental. Lastres como a corrupção, em países dum poder geo-estratégico tão imenso como Sul África, complicam mais a situação, em favor duma agenda de unidade regional (já de por si muito complexa, pela difícil relação da Angola com Pretoria). 

No Oriente Meio surgem as maiores incógnitas. Eis aqui onde o poder Ocidental, tem de evitar ambições de outras potencias regionais, como Rússia e China ou a Índia, dado serem esta região a ponte de transição dos três mercados mais rentáveis no nível global: energia, armas, drogas. Drogas e armas que normalmente vão associadas ao trafico de seres humanos. Segundo um relatório da Oficina de Crime e Droga, da ONU de 2012 – as máfias ilegais (que derivam dos três mercados) movem perto do 1,5% do PIB mundial, afirmando que o 70% destes ingressos são lavados através do sistema financeiro global. Para consolidar o controlo desta região, o poder Norte Americano, tem trabalhado em vários relatórios sobre a necessidade de criação dum novo Oriente alargado – com supremacia relativa sunita, dos aliados do Ocidente. Mas sua implementação tem chocado com os interesses regionais de potencias menores como Turquia, Arábia Saudita, e potencias maiores como a Rússia, que tem intervido militarmente em defesa de seu aliado Bachar Al Assad, com um relativo sucesso. Devido a esta situação tão poliédrica, os Estados Unidos, tem chegado a um acomodo razoável, sobre a situação Síria, dentro dum acordo global mais amplo que inclui ao Irão e Israel. Mas que não deve ter convencido muito aos sauditas e turcos... O Ministro de Assuntos Exteriores da Arábia Saudita, Al-Jubeir, bem de ameaçar a Bashar Al-Assad com uma intervenção militar direta na Síria, em caso este não abandone voluntariamente o poder (que se levaria a cabo desde território turco, onde já estão a ser concentradas tropas)... Turquia pela sua parte, bombardeia posições do exercito sírio, mas sobre tudo enfrenta diretamente às YPG curdas, pois a pesar da aliança curdo – norte-americana, os turcos não se fiam por causa dos estreitos laços entre YPG sírio e o PKK, turco... 

A madeixa enreda-se cada vez mais... E tudo faz pensar que a tentativa de Serguei Lavrov e John Kerry (responsáveis de exteriores dos Estados Unidos e Rússia), de uma cessação de hostilidades, na Síria, pode ficar em águas de bacalhau... Arábia Saudita, que está a ver como na pratica seus aliados rebeldes estão sendo banidos do mapa pelo exercito sírio, graças ao poder da aviação russa, está a ficar muito nervoso, pela possibilidade de ficar fora do grande tabuleiro de xadrez, em que se converteu o Oriente Meio... No entanto o primeiro ministro russo em entrevista ao jornal alemão  “Handelsblatt”, advertiu: “Os norte-americanos e nossos parceiros (referindo-se ironicamente aos árabes) devem pensar bem: querem mesmo guerra permanente?” O problema duma guerra permanente, com implicação direta de protagonistas que antes estavam por trás do cenário – cada um ajudando a seu aliado – é, que nunca se sabe quando o confronto indireto, pode derivar em um confronto direto das potencias implicadas. Sabendo que Turquia pertence a NATO, não da muita confiança que uma frição de exércitos turcos, árabes e russo possa derivar em algo que ninguém, sendo sensato, desejar... Mas o ser humano tem demonstrado – por ativa e passiva – que em situação de medo, custa-lhe muito manter-se saudável mentalmente...
Pelo lado positivo, de momento Washington não se deixa pressionar pela Turquia, para que escolha entre os turcos e os curdos; a pesares de Erdogan ter conseguido excluir as YPG das negociações de Genebra. A nomeação de Brett McGurk, como encarregue de lutar contra o Daesh (Califado Islâmico) pelo presidente Obama é uma boa noticia. O apaziguamento com o Irão, trás a queda de Ahmadinejad e a subida ao poder dum grupo menos anti-ocidental, tem facilitado uma reviravolta na Administração Obama, que agora mesmo tenta deitar fora da agenda o confronto regional xiita – sunita. Mesmo no Iraque, a colaboração dos EUA e os iranianos, fez-se cada vez mais evidente... Esse acomodo também poderia possibilitar uma paz entre as diversas facões curdas, que mesmo ameaçava com a cisão em dous da YPG Síria. Pelo lado negativo, isso alimenta o medo saudita, a ficar marginalizado. Um acordo mais amplo, que incluía Irão, Turquia e Arábia Saudita, baixo supervisão de EUA e Rússia, tem de ser alcançado, para evitar o confronto... Mas ele será possível?

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

A Galiza: Uma identidade pouco conhecida.



Por José Manuel Barbosa

A consciência entre lusófonos da importância da Galiza na conformação da identidade de cada um dos povos que conformam a chamada "Lusofonia" começa a ser maior mas o desconhecimento ainda é grande. 
O Professor Marcos Bagno apresenta-nos o seguinte trabalho que posteriormente comentaremos. 
Compreendemos o desconhecimento que se possa ter desde o Brasil da longínqua Galiza, um povo com pouca autonomia para defender os seus interesses legítimos internacionalmente e governada por gente dirigida desde a Madrid pouco interessada em estreitar laços com um mundo para eles alheio. Por isso procedemos a corrigir alguns erros:
1- O reino de Galiza não existiu entre os séculos VIII e XI diz-nos o autor do texto mas o Reino da Galiza nasceu em 411 da mão do seu primeiro Rei de dinastia suevica Hermerico e deixou de existir por lei em 30 de novembro de 1833 em época da Rainha Isabel II.
2- O Reino da Galiza não era um reino vassalo do reino de Leão. O reino da Galiza era o território que ocupava todo o NW peninsular e a sua capital política, quer dizer, a corte, estava em Leão enquanto o poder religioso estava em Santiago de Compostela seguindo o modelo do Sacro Império Romano Germânico onde o poder civil e o religioso tinham duas capitais (Aachen e Roma no caso do SIRG). Galegos e Galiza, yallaliqa e Yalliqija era como os andaluzis denominavam a todo o território coincidente com a velha província romana de Gallaecia até bem entrada a Idade Média.
O reconhecimento da Galiza é testemunhado pelas fontes de toda Europa e também de Al-Andalus. Neste mapa do século XIX o autor da História de Espanha Modesto Lafuente traduz o nome árabe de "Jalikiah" por "Reino de León".

3- O conceito de "Reconquista" está em desuso por inexato e porque leva parelho outro conceito errado: o de "Repovoação". Não houve descontinuidade populacional nem organizativa nas regiões do Norte e Noroeste, enquanto no Sul o que houve foi uma autêntica conquista.

4- Em 1230 Galiza não passou a depender da Coroa de Castela e Leão. Foi em 1230 a primeira vez com que a Galiza (com Leão) se unificou com Castela, mas houve durante esse século e o seguinte períodos nos que ainda foi independente e outros períodos nos que se unificou novamente com Castela. Finalmente a princípios do Século XIV a unificação foi definitiva mas o poder político galego, a sua nobreza e a sua sociedade ainda eram soberanos e defensores dos seus interesses, só a partir de finais do século XV, após as revoltas Irmandinhas e a eliminação da nobreza galega por parte dos chamados Reis Católicos é quando a Galiza perde a sua soberania política. Daí em adiante a margem de autonomia era menor mas não nula e a categoria de Reino continuou até Século XIX. Não é certo, como diz o autor do texto que a Galiza esteve 750 anos dependente de Castela... Foi Castela a dependente até que com Sancho, filho de Fernando e Sancha e irmão de Afonso VI, teve o seu primeiro Rei independente em 1065... Até esse momento Castela era um território periférico da velha Gallaecia. No cômputo seguido pela historiografia castelhana figura como Sancho II mas na realidade é o primeiro Sancho de Castela, portanto Sancho I.
Os reinos hispânicos durante o século XIII: Portugal, Galiza-Leão, Castela-Toledo, Navarra, Catalunha-Aragão e reinos andaluzis.
5- Também não é certo que a Galiza nunca tivesse exército nem marina... Os exércitos galegos participaram de todos os confrontos desde o seu nascimento até a sua abolição como reino: contra Roma, contra os vândalos, alanos e visigodos, contra o poder andaluzi onde podemos salientar episódios como a conquista e entrada em Sevilha em 1248 da mão do ponte vedrês Paio Gomes Charinho Almirante das tropas galegas... as fontes dizem que a sua entrada foi com som de gaita...;
Tumba do Almirante Paio Gomes Charinho na Igreja de São Francisco em Ponte Vedra
Exércitos galegos também houve defendendo os direitos dinásticos de alguns Reis (Pedro de Trastâmara, Joana de Trastâmara...), defendendo tendências sociais (Irmandinhos ou exércitos nobiliários), fazendo parte dos terços galegos em América, guerras de Europa... o exército galego que lutou contra Napoleão organizado pela Junta Geral do Reino de facto independente por falta de monarca e sendo o primeiro País da Europa livre de franceses... Lembramos com isso figuras sobranceiras como o grande Bernardo Gonçalves do Vale "o Cachamoinha", libertador de Vigo e chamado assim por ser natural da aldeia do mesmo nome das aforas de Ourense e pertente ao Concelho do Pereiro de Aguiar ...,
Bernardo Gonçalves do Vale "Cachamoinha" Coronel do Exército galego libertador da parte sul-ocidental da atual Galiza dos franceses.
6- Não há uma família de línguas derivadas do galego... há uma língua histórica nascida na Gallaecia romana e medieval com variantes nacionais e regionais e cujo mapa se apresenta abaixo. Língua só há uma, origem só há um e variantes há umas quantas... Diversidade e unidade harmonizando-se entre si.

7- Finalmente concordar com o Marcos Bagno com que a obriga de estreitar vínculos é uma necessidade geo-estratégica, económica e identitária tanto para galegos como para o resto dos falantes da nossa língua.

XXIX Congresso de Medicina Popular em Vilar de Perdizes (Montalegre)


Os próximos dias 4, 5 e 6 de setembro em Vilar de Perdizes (Concelho de Montalegre-Portugal) vai-se celebrar a XXIX edição do Congresso de Medicina Popular que desde os anos 80 vem organizando o nosso querido Padre Fontes junto com a freguesia de Vilar de Perdizes. Nele, a música popular, os roteiros pela região, a tradição medicinal dos nossos antepassados ao lado da manifestação antropológica do povo português e galego vão dar lugar a um ambiente festivo que nos vão alegrar estes dias de finais do verão.

Divulguem e venham com companhia, o nosso saber ancestral e a festa estão asseguradas.



quarta-feira, 19 de agosto de 2015

VITÓRIA!!!!!





Em Fevereiro de 2012 fazíamos esta entrevista a Sra Maria Isabel Alonso, nomeada por nós como Guardiã da capela pré-românica de época germânica de Santa Comba de Bande.
(Eis a entrevista)
http://despertadoteusono.blogspot.com.es/2012/03/o-desrespeito-ao-patrimonio-galego.html
Elaboração por parte da equipa do DTS:
Gravação e elaboração: José Goris Cuinha O Goris Cuinha
Colaboração Técnica: Ana Bernardez e Carolinha Hortsmann
Apresentação: José Manuel Barbosa



Notícia no Facebook: Aqui:


A nossa campanha fez com que denunciássemos publicamente que o seu cuidado e manutenção caia de forma abusiva na pessoa da Sra Isabel sem ajuda de qualquer instituição, nem Concelho, nem Deputação, nem Junta da Galiza, nem o Governo do Estado nem sequer a Igreja. Todos os anos e sempre que podíamos levávamos e levamos ainda gente para expor a circunstância, sendo o nosso monumento um dos mais importantes da Europa do estilo e pondo à Galiza como protagonista dum passado muito importante do ponto de vista histórico-artístico.
Hoje acordamos com esta boa notícia que achamos no Jornal La Región de Ourense. Portanto podemos e queremos berrar dizendo alto e claro VITÓRIA!!!!!!!!
A ajuda inestimável do Grupo Ecologista "Outeiro" foi fundamental pela tramitação da denúncia pertinente às autoridades pertinentes e que isto se resolva assim. Obrigado, caros. Temos muitos ânimos para continuarmos com o nosso labor!
Bravo pela Sra Isabel!!! Bravo por Santa Comba!!!! Bravíssimo!!!

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Atividades em Pitões das Júnias no mês de agosto.



Os próximos dias 7, 8 e 9 de agosto a vila de Pitões vai celebrar duas atividades de grande interesse para as pessoas que gostam da cultura popular.  São estas o II Fiadeiro de Contos e o VI Convívio da Portela, a realizar nos dias acima indicados.
Anos anteriores a chegada do público a Pitões foi grande e o interesse dos galegos chegados deste lado da raia deu carater de atividade transfronteiriça. A festa está assegurada e a irmandade também.

Venham, divulguem e tragam um amigo, pois os eventos prometem!

domingo, 26 de julho de 2015

A Des-Grécia


Por Artur Alonso Novelhe
Vivemos num mundo interdependente. As velhas noções de territorialidade, independência nacional e domínio particular do Estado Naçao, foram, aos poucos, chumbadas. A soberania regional substitui à velha soberania.
Dentro do Império Ocidental e no atual marco de guerra encoberta pela hegemonia global (entre este império e nomeadamente a China) qualquer dissidência deve ser castigada. Eis um apontamento sobre o que está realmente acontecendo em Grécia.
O construtor do Império Ocidental e governador real, por trás da falácia da "governabilidade política", é a Elite Financeira. Esta elite tem criado o seu corpo atual através da metamorfose da velha Elite Mercantil, própria do anterior período mercantilista (superador do Sistema Feudal e das Monarquias Absolutas), ate a nova Elite das Finanças, própria dum período de mudança desde O Capitalismo Financeiro ate o Novo Capitalismo das Rendas (Sistema que como bem definiu Michael Hudson é sem dúvida de caráter, paradoxalmente, Neo-Feudal).
Temos de reconhecer a este poder uma capacidade muito grande de adaptação as continuas mudanças intrínsecas à história e fazem parte das leis naturais de Impermanência e Desenvolvimento continuo o que provoca renovação constante.
A União Europeia já levou à frente o trabalho para o qual fora programada por estas mesmas elites, a pesar da resistência inicial de líderes como Degaulle. O velho sistema de Estado Providência ou Estado do Bem-Estar ficou sem sentido uma vez obtida a vitoria sobre a União Soviética no período chamado de “Guerra Fria”.
Em este momento e uma vez assinado o Tratado de Livre Comércio com os EUA, o velho Continente faz-se sem hesitação, uma parte integrante do Império Ocidental, agora em processo de construção. As Elites Centro Europeias, que detêm o poder baseado na vassalagem das Elites do Sul da Europa, estabelecendo relações de vassalagem e submissão à sua vez a respeito das Elites Anglo-Saxónicas. Mas esta rede de poder e seu labiríntico e eficaz organograma deve ser, entendo de maneira alegórica, circular e transversal e não linear ou piramida.

Esta rede de poder tem sua base em um núcleo principal: famílias de origem germânica e protestante, judeu-germânicas e irlandesas católicas que dominam o anel de poder das finanças globais cujo centro principal está nos EUA, Europa central germânica, Escandinavia e Inglaterra. Estas tecem redes de vassalagem entre si e com outros poderes regionais por meio das finanças, onde os Estados, bancos, e outras entidades ficam amarrados a elas, através das dívidas e empréstimos.

Este holograma de relacionamento ao ser tridimensional exprime melhor o poliédrico que o poder anglo-saxônico é, onde as diversas sensibilidades e mesmo interesses contraditórios agem num mesmo nível, tecendo com autonomia redes diversas, que finalmente, confluem em um mesmo sistema, governado pelo capital financeiro internacional.
O anel de poder energético que permite o controlo e coexão de todo o sistema é o da Dívida Permanente. Assim é como se efetuam realmente as relações de domínio e dominação. Dominador possuidor dos títulos de dívida, dominado, pagador eterno. A capacidade de respirar depende da abertura ou fechadura do anel mencionado. Uma vez entregado o Banco Central dum país ou região às mãos dos senhores das finanças – já toda a população dessa região fica refém da política a ditar pelos novos donos: os supostos representantes legais dos cidadãos (ainda eleitos por sufrágio universal) só podem gerir a aplicação dos ditados económicos, transmitidos por quem realmente possui o controlo da moeda. Grécia ao eleger Tsipras, dalgum modo, virou esta lógica.
Enquanto mais avançar pela supressão da moeda em papel e deixar mais quota de mercado para moeda virtual e o cartão eletrónico, menos possibilidade terá a cidadania de revoltar-se (pois com um simples apagado bancário uma pessoa fica núa).
Pôr em dúvida este esquema, que na realidade envolve a entrega de todo o património público ou coletivo ao senhores do anel – devagarinho, segundo as necessidades dadas, no tempo preciso – é pôr em risco todo o tecido sistémico. Isso mesmo foi, em alguma medida, que tentou fazer a Grécia: dentro do sistema, modificar o sistema (democratizar algo o sistema, repartir melhor o peso do sistema, dado o inferior da pirâmide já não aguentar seu peso).
Esta ousadia é tomada imediatamente como um ação de guerra. Resposta militar. Não devemos esquecer que o anel energético de poder tem a capacidade de derrubar, mediante a asfixia financeira qualquer território desobediente, com os mesmos efeitos nocivos que um exército invasor. Eis as primeiras manobras da armada financeira contra a Grécia:
Agências de Qualificação (braços ativos do poder financeiro global) Fitch e SP cortaram ratings dos principais bancos gregos. As Agências Moody´s e DBRS reduziram a classificação soberana da dívida grega. Banco Central Europeu cortou o crédito a Grécia, obrigando ao governo na pratica a realizar um “corralito” bancário. Meter medo foi a forma de alocução dos representantes da Europa, nas suas referencias a crise grega. Os meios de comunicação as ordens do grande capital financeiro debruçaram sobre o medo, a sua única esperança de reverter o “Nao” no passado referendo.
Em esta situação é pois de admirar a dignidade e valentia do executivo de Alexis Tsipras. Mas a batalha era muito complexa e Grécia sabia também ter suas cartas marcadas: sair do euro ia trazer muita inquietação, algo que não gostava sobre tudo a Washington. Quando a Europa insistia em apertar a gorja, a Tsipras só lhe restaria jogar a carta Russa. No nível geo-estratégico uma bomba: Putin poderia vingar-se do golpe realizado pelo Império Ocidental na Ucrânia. Mas não deixava de ser uma carta de muito risco, tendo em conta a posição privilegiada da Grécia no Mediterrâneo. China ofereceu a ajuda do BRICS ao país mas dias depois o próprio governo chinês teve de tomar medidas para modificar a queda brutal da bolsa Xangai por causa da bolha de activos que inchou o país. Brasil reiterou estar em favor da solução negociada dentro da União Europeia e a Índia nem se pronunciou...
Portanto, nesta conjuntura, Obama poderia pressionar para tirar no futuro parte da dívida à Grécia: algo simbólico. Nada que possa pôr em causa todo o edifício da austeridade que as próprias elites anglo-saxônicas impulsaram para evitar uma concorrência Euro–Dólar, como moedas de reserva internacional, em tempos de forte contração e surgimento de rivais monetários à nivel global como o Renminbi chinês.
O mais fatível seria negociar a queda de Tsipras mas por enquanto ele se mantém ao frente apesar do abandono do sector mais beligerante do seu partido. No entanto que ninguém tenha esperanças, mesmo se outros partidos da esquerda ganharem no sul da Europa. A situação dentro do Império Ocidental vai ser cada vez menos compatível com a democracia. Reformar a estrutura de poder ocidental, dentro ou fora do sistema, só parece possível com uma queda do plano global delineado pelo poder europeu.
A dia de hoje derrubar o poder das finanças na Europa significaria demolir o edifício europeu, algo só possível com a licença ou abandono da aliança com os EUA. Não parece viável. No entanto se é que der o caso, antes de construir um novo modelo, a Europa ficaria na ruína com a demolição do sistema bancário europeu que atingiria a todo o orbe.
E isso também comportaria a emanação dum poder alternativo chinês no nível Mundial e Russo, a nível Continental, de marcado controlo estatal sobre o cidadão que nada tem a ver com democracia. Em esse cenário a Europa seria um paria global que desenvolveria um papel similar ao que hoje ocupa a África mais pobre. Quer dizer, um período muito prolongado de queda sistémica, de transformação das antigas estruturas e relações de poder, de construção de novas alianças, incerteza e grandes dificuldades para além de trazer um imenso sofrimento às populações da Europa e passando-se da dependência dos EUA a outra.
Como bem sabemos ninguém quer esse cenário pelo que os devaneios de Tsipras com Putin não são mais que movimentos acertados para criar pressão na contra.
O caminho do meio terá de ser por força o guião deste novo filme, no que aparentemente Tsipras ceda em todo, para consumo da Alemanha, Espanha, Itália e Portugal, e Europa, no fundo permita uma reestruturação mais coerente da dívida grega com um inevitável perdão, total ou parcial, da dívida grega incluída. Com isto, Tsipras poderá ter mais margem de manobra para tentar elaborar um política que alivie na medida do possível, a entrega de todo o património do país aos banqueiros do Norte. Acordo único possível sem lume de arder, por enquanto.
Enquanto a ilusão de realizar desde Ocidente um revolução que ajude a evolução para um novo ser humano mais consciente, ecológico e justo, esqueçam amigos. Isso não poderá ser feito nem desde aqui nem desde Rússia ou China. Teremos que aguardar pacientes, no melhor dos casos, a que estes extremos cedam por desgaste mútuo, e aturarmos o seu cetro planetário.
Será pois o Hemisfério Sul, que hoje tanto desprezamos desde o Norte, aquele que possa realmente abrolhar uma nova Era para humanidade. E dentro deste hemisfério o continente mais preparado é, sem dúvida, a América do Sul cujo foco central é o Brasil, país irmão de língua, da língua mais falada em este hemisfério. Mas para isso paciência, muito terá ainda que mudar o mundo, muito terá ainda que mudar o Brasil e toda a América do Sul. Enquanto estes países mantenham seus bancos centrais, e seu poder energético em suas mãos estatais, todo será possível se continuam a realizar políticas de maior justiça social, modelos económicos que possam iniciar uma viragem real, no continente mais desigual do mundo.
Desde a Galiza, se formos mais estratégicos do que estamos sendo, gastaríamos menos recursos em alianças na Europa e faríamos melhor trabalho em alianças lusófonas e americanas para facilitarmos o desloque paulatino e pacífico desde o Atlântico Norte ao Atlântico Sul. Assim é que evitaríamos a verdadeira desgraça.
Não devemos esquecer que no trânsito de modelo político–económico, e de desloque hegemónico do Atlântico Norte ao Sul o tempo há de lhe dar à CPLP, muito protagonismo e terá muito a dizer e fazer. Os tempo são chegados, devagar. Desta vez aguardemos galegos e galegas saber criar os relacionamentos certos que devem sempre começar pela aliança cultural.


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