domingo, 25 de março de 2012

Galiza: a Galtia, berço dos celtas.

Por David Outeiro

Segundo o Lebhar Ghabála Érenn (Livro das invasões de Irlanda, S II) a última vaga chegou a Irlanda desde o reino de Brigántia, a terra de Breogan e dos Milesianos, a atual Galiza. Foi Ith, filho de Breogan, quem alviscou a ilha desde uma Torre. Ith embarcou-se de cara aquela ilha, mas os nobres nativos decidiram assassiná-lo. Os Milesianos, celtas goidélicos de Brigántia (Bergantinhos), embarcaram-se rumo a Ilha para vingar a morte de Ith. Após chegar a Irlanda, encaminhar-se-ia a Tara para reclamar a soberania da ilha. Durante o caminho aparecem-se Banba, Fodla e Ériu; tríade divina que representa as deusa-mãe da soberania, a mulher do rei celta. Os Milesianos, com a ajuda do seu druida Amergin, vencem finalmente aos Tuatha Dé Dannan. Por causa disto, os Irlandeses sempre acreditaram ser descendentes de galegos.
Em 2006, Bryan Sykes ex-professor de Genética humana da  Universidade de Oxford publicou o livro com o título de “The blood of the Isles”. O livro é o resultado dum estudo genético com o fim de pesquisar a origem da população das Ilhas Britânicas. Os resultados avaliaram o dito pelo Lebhar Ghabála; os Irlandeses descem de “Galegos”. Uma história conservada durante milénios pôde ser avaliada. Mas não só isso.. A identidade de Breogan existiu entre os galaicos, tal e como evidenciaram os jazigos do Facho de Donão (Cangas do Morraço). Era o deus dos mortos, o hospedeiro do Além, o Dis Pater do que diziam descer os galos.
Faz mais de 2500 anos, um nobre da “viril” Treba ou Teuta (Tribo) galaica dos Nérios morreu  em Tartessos. Lá se achou a sua lápide, e no epígrafe está a menção mais antiga á Galiza; a Gáltia. Quer dizer, a Céltia, o povo céltico genuíno, o berço dos celtas. Um povo que tinha uma “consciência nacional” e que tinha uma estruturação complexa comum aos outros povos celtas. Mas este nome também têm  a ver com a origem da sua linhagem de heróis fundadores da estirpe. É por isso que os galaicos se nomeavam a si próprios de Célticos, e é por isso que os autores do mundo clássico os identificaram como tais. Damos começo a uma viagem à génese mesma do nosso povo, da nossa origem; a “linhagem de celtiato”.
 A Europa do Paleolítico final faz 20.000 anos apresentava um panorama muito distinto ao de hoje. O Último Máximo Glacial supus que as populações se vissem forçadas a ir para o sul pelo avanço do gelo. Isso fez com que procurassem refúgios glaciais, lugares onde o clima fosse mais benigno e permitisse a vida humana. O NW Peninsular foi um importante refúgio glacial que deu acolhimento a estas populações. Pelo outro lado da Europa, os Balcãs e o Mar negro também foram refúgios glaciais similares mas os três estavam isolados e afastados. A população do NW da P. Ibérica passa-se por um gargalo de garrafa demográfico, quer dizer, a população sofre uma importante descida. É neste refúgio onde se origina o gene R1B do que falaremos a continuação. Ao Norte, a Europa estava sob uma grossa capa de gelo, e o nível do mar era 120m inferior ao atual, o que o mantinha afastado 12 km da costa atual.. Irlanda estava coberta pelo chamado Manto Fito-escandinavo, o qual empecia  a vida humana. As capas de gelo puderam supor que o NW da P. Ibérica esteve unida as Ilhas Britânicas neste período.
 Ao NW Peninsular chega uma população procedente do atual País Basco com o marcador genético Rox. Após milhares de anos produz-se uma mutação e surge o marcador Rory que só uma parte dos galegos possuem. Portanto, nesta altura existiriam dous haplotipos: o Rox e o Rory. Deste último gene, o chamado “Haplotipo Modal Gaélico” é do que fala Oppenheimer no livro “The origins of the British”. Este gene está fortemente vinculado a homens irlandeses com  nomes gaélicos.
 18.000 anos atrás chega a fim este máximo glacial, o gelo começa a fundir-se e o nível do mar vai em aumento. A população do NW Peninsular dá começo a repovoamento dos territórios do N. Parte desta população desloca-se às Ilhas Britânicas por via marítima. A colonização pelo continente não é possível por uma razão simples: Citando ao professor Manuel Díaz Regueiro (In Labirinto. Revista galega de divulgação científica) “A história, ainda na atualidade, está contada de tal jeito que se obvia a climatologia, determinante nos movimentos das populações europeias. Os grandes rios Europeus do noroeste de Europa confluíram num super-rio no Canal da Mancha há 20.000 anos, segundo nos contam na Universidade de Cambridge”. É por isto que as populações teriam grandes dificuldades para atravessarem a pé este rio por via continental. Também por via fluvial, já que a corrente e a amplitude do rio faria impossível o seu trânsito com tecnologia da época. Temos de ter também em conta que a corrente marítima chamada hoje Gulf Stream favorecia esse trânsito da península às Ilhas. Esta migração está portanto bem definida como resultado dos estudos genéticos Acrescentamos ao dito o resultado do projecto National Geographic/IBM Genographic Project dirigido por Spencer Wells: “DNA analysis shows that the ancestors of most Irish people came from the Iberian Peninsula, who moved north after the last Ice Age, which had depopulated Ireland”. Portanto, esta população do NW Peninsular levou até as Ilhas a sua cultura, a sua língua céltica (precedente do gaélico) e a sua religião. Sendo esta a origem dos povos que denominamos de celtas cuja população se foi expandindo desde o nosso Fisterra até o N e L de Europa.

A recente Teoria da Continuidade Paleolítica aponta a esta evidência. Citando novamente ao Professor Manuel Díaz Regueiro (Labirinto. Revista galega de divulgação científica p. 41-40): ”Nos anos 90, três arqueólogos e três linguistas, apresentaram independentemente uns dos outros, uma nova teoria das origens do indo-europeu -semelhante á Teoria da Continuidade Urálica-, na que se reclama a ininterrupta continuidade paleolítica também dos povos e das línguas indo-europeias. Os três arqueólogos e pré-historiadores são: o americano Homer L. Thomas, o belga Marcel Otte, um dos maiores expertos do mundo do Paleolítico Meio e Superior, e o alemão Alexander Haurler, um especialista na pré-história da Europa Central. Os linguistas são: Mário Alinei, Gabriele Costa e Cicerone Poghirc. “A ‘misteriosa chegada’ dos Celtas ao ocidente de Europa, obrigatória tanto do ponto de vista da Teoria Tradicional como da Teoria da Discontinuidade Neolítica (TDN), é substituída pelo panorama duma mais primitiva diferenciação dos celtas, entendido como grupo indo-europeu mais ocidental da Europa. É evidente que a Europa Ocidental deve ter sido sempre celta e a recente pré-história do Ocidente Europeu -desde a cultura megalítica, atravessando pela cultura do vaso campaniforme, até colonizar La Téne- deveu ser celta. Em consequência, a duração da expansão colonial dos celtas foi muito mais alargada do que se tem pensado e cresceu de oeste para leste, e não ao invés”.
 Durante milhares de anos as populações dos países celto-atlânticos continuariam interagindo após a migração por causa do seu posicionamento “geo-estratégico”. Esta evidencia é salientável no transcurso dos milénios, o qual deu lugar ao que o prof. André Pena Granha denomina Direito Celta Comum ou “Celtic Common Law”.
Temos de salientar o facto de os Irlandeses conservarem em forma de lenda esta realidade histórica. Mas não só isso, pois em certo modo os galaicos viviam na genuína céltica: a Gáltia. Temos a prova num epígrafe Tartéssico da Idade do Bronze.
O linguista e especialista em estudos celtas John T. Koch decifrou a língua tartéssica como  língua celta. Um interessante epígrafe pertencente  a uma lápide, decifrado por Koch diz o seguinte:
 “A invocação dos Lúgoves da gente Néria, por um nobre da Kaltai/Galtai(=Celtia =Gal(i)tia) descansa ainda dentro. Invocando todos os heróis, o sepulcro de Tasionos recebeu-o”
Com curiosidade sinala o Professor Moralejo "...que Callaecia tendría sus allegados etimológicos en latín callus ‘callo” y collis ‘colina, en el (pre)griego colofón… Y Celtae también podría entrar en la opción etimológica *kel-. Serían algo así como los ‘altivos’(…)”. (Juan J. Moralejo Álvarez. In Callaica Nomina)
Os Nérios, etimologicamente “os viris” eram uma treba galaica. Plínio IV,111” Celtici cognomine Nerii et Supertamarci, quorum in paeninsula tres arae Sestianae Augusto dedicatae” (Os célticos ditos de Nérios e Além-Tamâricos, em cuja península há três aras Sestianas dedicadas a Augusto). Mela III,11.  “Cetera Supertamarici Nerique incolunt in eo tractu ultimi” (aliás, Além-Tamáricos e Nérios moram nessa região última). Para o professor Higino Martins, Nérios e Supertamâricos eram os mesmos.

Todo isto quer dizer que nesta altura já existia uma complexa estruturação na sociedade galaica, a qual tinha portanto uma “consciência nacional”. As relações eram próprias duma sociedade estratificada, partindo desde os castros que se agrupavam em filiações de reinos tribais até grandes reinos ou confederações, chegando a ter um centro real como em Irlanda. Em certas datas do ano, principalmente Samhain (Sâmanos galaico), Beltaine (Beltónios), Imbolc (Ambíwolka) e Lughnasad (Lugunastada)  reuniam-se nas Óenach (Oinaikoi); assembleias políticas, religiosas, judiciarias mas também com características festivas. Estas assembleias realizavam-se em lugares com carácter sacro e não habitado onde confluíam distintas tribos ou até grandes reinos. A mais importante, o umbigo da Gáltia, a qual poderia estar vinculada o Rei Supremo era Nemetóbriga. O equivalente galaico de Tara.
Um ônfalon (umbigo) é um centro desde o qual se acha que foi criado o mundo. Neste caso o mundo dos Galaicos: a Gáltia. Este lugar, este Axis Mundi, era um eixo de comunicação entre o mundo dos homens e o mundo superior dos deuses. Mas também era uma volta ao centro, às origens, ao vínculo com os devanceiros e aliás por que isso, neste ponto central celebrava-se o grande Óenach, Oinaikos em galaico) da Gáltia. Citando a Manuel Almendro: “A Óenach representava assim o retorno à unidade original e à recriação da ordem. Servia para manter os simbolismos e o “Status quo”(…).” Era um regresso às origens, ao principio de todas as cousas, uma comemoração e uma representação do acontecimento mitológico que deu origem á sacralidade do lugar. Era um velório ao defunto fundador e as carreiras e competições de jogos funerários. Na Óenach, em presença de reis, nobres e povo em geral, o completo passado mitológico e cronológico da nação era conjurado ao presente pelos druidas (na Gáltia chamados de Durbedes”. Este Ómphalos era Nemetóbriga (Situado em Trives) onde à sua vez convergiam as três grandes confederações: Os Oinaikos dos Ártabroi, dos Gróbioi e dos Austúroi que com a chegada do Império Romano deram lugar aos Conventos (=Oinaikos/Óenach) Lucense, Bracarense e Asturicense.
Em Nemetóbriga deveu existir uma mâmoa fundacional, ao igual do que em muitos campos sacros da nossa terra. Estas mâmoas puderam pertencer a famílias das elites dirigentes. Eram uma referência para justificar o seu poder proveniente legitimamente do devanceiro ou herói fundador. É o caso duma mâmoa fundacional calcolítica de Cela-Nova cuja estela dizia “Aqui jaze Lateron, filho de celtiato” ou mesmo um epígrafe provavelmente vinculado ao guerreiro de Rubiães que diz “Latronus Veroti Filius”: ”Ladron (de Lateronus, que anda ao par do príncipe da treba), filho de Veroto, c.f Proto-celta *U(P)ERO>UERO>VERO “alto”, ”elevado”, ”importante mais o sufixo latino –tus- veja-se comparativamente Uero Breo “Senhor da Alta Casa”( André Pena Granha: Narão, um concelho com história de seu I. pág 38). Temos de ter em conta que as magníficas estátuas galaicas estiveram originalmente sobre grandes mâmoas dizendo: Esta é a nossa terra porque aqui descansam os nossos devanceiros.
E quem será o “herói fundacional” da Gáltia (=Céltia) e dos Celtas (os altivos)? Qual será a origem da linhagem galaica?. Os gauleses diziam ser descendentes de “Dis Pater”. E se os celtas eram os altivos e a Gáltia era a altiva…todos seriam filhos do “Altíssimo”, do “Dis Pater” do senhor da elevada fortaleça, da Bero-Briga da que falam as aras do Facho de Donão. Como diriam os cristãos “todos somos filhos de Deus”.
No Facho de Donão (Cangas do Morraço) acharam-se mais de 170 aras votivas dedicadas a um Deo Lari Bero-Breo ou Bero Breogoco, quer dizer, “O Senhor da Alta Casa (dos mortos)”, o senhor de Bero-briga…a elevada fortaleça. É o deus Hospedeiro, relacionado com a palavra Irlandesa Briugú e que aparece num epígrafe galaico como “Vestio Allonieco” (O Hospedeiro do Além(?)). Mas este deus têm outros epítetos, entre eles Cernunnos. O deus cornudo, soberano do Além. A cornamenta, como a do cervo, é também uma promessa de regeneração, de nova vida.


É, como sustém o prof. André Pena Granha, “O deus do terceiro passo (do sol)”. Mora lá onde se oculta o Astro-Rei, na ilha paradisíaca a onde se dirigem as almas: Tír na nÓg, Tir Na Ambam, Ávalon, Beróbriga...
Lateron dizia ser filho de Celtiato (o altivo) para justificar a sua linhagem e Latronus dizia ser filho de Veroto (o alto, elevado ou importante). É por isso que os celtas, entre eles os gauleses que diziam descer do Dis Pater, eram filhos do “Senhor da Alta Fortaleça” criador da estirpe, da linhagem da Gáltia.
E esse Senhor…Bero-Breo ou Bero Breogoco não é outro que ao que o Lebhar Gabhála Érenn é que se refere como Breogan.
Com razão o Hino galego, escrito por Eduardo Pondal, é que se refere à Nossa Terra como “Fogar de Breogan” ou “Naçao de Breogan”.

 http://www.calameo.com/read/0012929578820193f534d?authid=FfCi9pTFPgnJ

sexta-feira, 16 de março de 2012

Programação V/S Criatividade


Por Carolina Horstmann

A finais do ano 2010, tive a sorte de assistir a um interessante evento que reuniu a grandes expoentes em temas de inovação e criatividade. Entre eles: Guy Kawasaki e Arianna Huffington. Dirigido especialmente a gente na área das comunicações, conetividade e novas tecnologias.
A surpresa veio (para muitos) da mão de Sir Ken Robinson, um homem com nome muito sonoro e um discurso próximo. Quem, em menos de 40 minutos deixou completamente hipnotizados a um centenar de pessoas, sentido-se a grande maioria profundamente impressionados e representados nas suas palavras.
Na exposição, muito amena, expõe de maneira clara e singela a criatividade humana. Ele leva pouco a pouco a cada pessoa a penetrar no que foram os primeiros anos de vida escolar, conseguindo conetar com essa criança que fomos; cheios de alegria e sem medo ao erro.

Em que momento foi que nos perdimos?

A criatividade humana no transcurso da história não deixa de nos surpreender. Muitas vezes as grandes mentes não dependem de qualquer prestigiosa Universidade ou centro de estudos. São autodidatas ou pessoas que ficaram fora do sistema tradiciona por serem considerados de “distintos” ou “problemáticos”.
A educação atual, para além de guiar os nenos e desenvolver plenamente as suas potencialidades, ignora por completo esse aspecto. Isto fica salientado ao converter o sistema educacional numa chave que quer levar ao sucesso num futuro desconhecido; é nessa carreira da vida onde as crianças perdem ou ignoram compleamente os seus talentos naturais. Onde ser “distinto” está mal e ser parte do coletivo, uniforme, é o socialmente aceitado.
É nesse cenário onde o Sir Ken Robinson nos lembra que “a criatividade é tão importante como a alfabetização e deveria dar-se-lhe o mesmo status”. Os nenos precisam arriscar, tentar e provar sem medos ao ridículo, sem medos a errar (numa sociedade onde “errar” está muito mal visto).
Precisam se exprimir nas artes e na música, apreender dança (do mesmo jeito que se obriga muitas vezes a jogar numa determinada equipa de futebol). Formas de expressão que lhe permitam explorar cada um dos seus interesses e em consequência, reconhecer e potenciar os seus talentos.

Infelizmente, con a chegada da idade adulta, muitos são os que se acham perdidos. Possuem grandes conquistas e uma parede cheia de diplomas que dão crédito de todos os esforços mentais e conquistas materiais. Exercendo o labor escolhido com cansaço, tédio e sobre tudo...uma falta total de paixão pelas cousas.

Que temos conseguido?

Atualmente, temos um sistema castrador da criatividade, no que se vai progressivamente tirando-lhe o espaço para o movimento aos nenos até deixá-los imóveis olhando de “cara ao futuro” para um grande quadro preto que promete ser a chave da salvação para uma realidade vital vista como “inadequada (a aldeia, a vila...). Criam-se estudantes eternos, que enchem as suas horas de livros focados num só tema e limitando os outros aspectos de aprendizado com um esquema mental rígido que antes ou depois acaba passando ao corpo. Assim a tensão passa-se a fazer parte das nossas vidas, dando-nos tempo só para o “realmente importante” (o que dá dinheiro ou qualquer outro benefício material) deixando a exploração num lugar sem importância, fazendo do ensino que nos chega uma verdade absoluta, limitando a capacidade de investigação, de confirmação da informação, perdendo a oportunidade achar ideias próprias.
Existe uma progressiva perda da cultura tradicional em tudo isto, desvinculando à gente das suas terras, aumentando dramaticamente o despovoamento nos seitores rurais, como é que acontece na Galiza. Introduzem-se mudanças que trazem consigo uma cultura artificial que leva às crianças a desvalorizar o seu, o autótone, a desconhecer a autêntica riqueza do seu contorno ainda que este possua uma potência infinita mesmo do velho ponto do vista
As escolas rurais perdem nenos. Temos verdadeiros “colégios fantasmas” com capacidade para um grande número de estudantes que só acolhem uns poucos nenos. Em alguns casos até 10, só, das mais variadas idades. Os pais vem-se na obriga finalmente de se deslocarem às cidades, quer por causas económicas, quer por causas políticas
As famílias estão necessitadas de apoio real, duma orientação ao reencontro com a terra e os seus benefícios, sendo mais “prático” e fácil comprar uma verdura num hipermercado (com os seus respetivos processos de congelação e pesticidas) a cultivá-la na sua própria terra. Portanto, não há alternativas claras para quem sonha com uma sustentabilidade fora do sistema.
Outro dos problemas é desconhecimento profundo da história real da Galiza, que magoa a estoestima do mais aguerrido. Os professores vem-se na obriga de ministrar as aulas que não lhes correspondem, dependentes dum sistema obsoleto e adepto ao antolho dos dirigentes que provoca uma ubiquação do docente num ou noutro lugar da geografia do País sem fazer qualquer prevenção das necessidades reais, tanto dos nenos, quanto dos mestres. Estabelecimentos que costumam ficar em alguns casos a muitos quilómetros das cidades de residência, com longas viagens, gasto de dinheiro, comida, combustível...em fim, alimentando o sistema com isso mais do que para satisfazer as necessidades reais do funcionario docente ou beneficiar a qualidade do ensino.
Com este breve resumo do panorama galego, claramente é muito mais cómodo cair na programação e aceitar a rutina e a pertença à engrenagem sistémica sob a lei do mínimo esforço . Cansaço, tédio, frustração, falta de dinheiro e agora...os cortes económicos. É nestes momentos de crise quando é que se pode ver realmente quem tem realmente vontade de fazer achegas construtivas ao seu labor, quem sente paixão pelo seu trabalho, quem pode criar com originalidade e muito poucos recursos, formas diferentes de encher a vida das crianças que vão chegando às nossas aulas.

O final desta história não está escrito. Poderíamos claramente elucubrar saídas, soluções ou finais. Esta história do dia-a-dia fica aberta para que o leitor possa decidi-la, possa imaginá-la. A saída a este sistema temo-la entre todos e entre todos havemos de procurar uma porta: Programação ou criatividade?

Nota: O artigo tenta ser uma reflaxão breve, não apresentar todas as respostas. Deixo aberta a porta para colheitar e partilhar mais pontos de vista sobre a realidade de educação Galega.

SEFCHOVICH, Galia; WAISBURD, Gilda.- "Hacia una Pedagogía de la Creatividad".- Ed. Trillas. 2a. Ed. México 1987.

quarta-feira, 7 de março de 2012

O desrespeito ao património galego (Video entrevista com Isabel Alonso, Guardiã de Santa Comba de Bande)


Equipa do DTS
Câmara: José Goris 
Ajuda Técnica: Ana Bernardez e Carolina Hortsmann
Apresentaçao José Manuel Barbosa

Tenho teimado contra as mentiras históricas e contra a manipulação historiográfica; tenho querido desvendar para o leitor fiel mais de uma cousa, e de duas, que deixam a Galiza discriminada do conhecimento da sua própria realidade passada; tenho criticado o castelhanismo compulsivo do ensino no que diz respeito da História e da língua; tenho denunciado a debilidade daqueles que não consideram a Galiza dentro da Península Ibérica como ponto fulcral e decisivo na/da conformação política, territorial, social e cultural tanto da Espanha como de Portugal. Tenho trabalhado por todas essas cousas e por isso os meus afetos nunca vão estar da parte do Império Castelhano tornado em Reino da Espanha, não. Os meus afetos vão estar com o nosso País, com a nossa Pátria, com a nossa Nação galega.
 Como isto é assim ainda que do céu venham centelhas nunca vou deixar de confrontar-me contra todo aquilo, humano, desumano ou inumano que atente contra as bases conformadoras da Galiza Eterna. Da Galiza que existia antes de Roma, nomeada de Kalláikia, Oestrímnia ou Ophiusa; da Galiza romana, sueva, medieval e hegemónica na Hespéria; da Galiza camponesa e marinheira da Idade Moderna; da Galiza anti-napoleónica de Cachamoinha; a Galiza provincialista e murguiniana; da Galiza galeguista, reintegracionista, celta e celtista e daquela que sonha com a sua soberania. É por isso que nunca vou deixar de evidenciar a maldade de qualquer governo madrileno, bruxelense ou compostelano que permita que aquilo que ficou do passado seja destruído, ocultado ou manipulado com o fim de obscurecer o nosso País, de negar-lhe personalidade para que perda a sua existência e o seu ser. Quem isso faça vai-nos ter a nós justo frontalmente, com a esferográfica preparada para jogar à esgrima das letras.
 A desfeita está nos livros, nos média, no ensino. Entra pelos olhos, pelos ouvidos...mesmo pelo nariz quando cheira a queimado, quando sentimos calor no inverno e frio no verão, quando nos falam de amor à Galiza à vez que lhe cravam a faca nas costas...quando vemos uma anta estragada com adornos de arquitetos modernistas; quando identificam um castro com não sei que vínculos mediterrâneos à vez que o destruem  para fazer um porto exterior sem antes ter sido estudado por arqueólogos responsáveis e livres de ataduras espúrias pagadas pelo poder político às ordens de fenícios mesetários, quando vemos uma igreja sueva que fazem passar por visigótica esquecida por todas as instituições e atendida só pela boa fé da gente do povo. Essa desfeita é como mínimo consentida quando não planificada maliciosamente por uma administração que não nos mata, mas que nos dá para que morramos, uma administração cujo sentido das cousas é tipicamente otomano ou atiliano.
Partindo dessa conceitualização das cousas, queremos apresentar um trabalho feito nos passados meses de Janeiro e Fevereiro onde queremos fazer público à vez que denunciamos os Sultães de Madrid e os seus Sátrapas compostelanos tanto laicos como curiais exercendo a mais subtil das limpezas. Esse tipo de limpezas que se passam desapercebidas porque não saem na TV mas que acabam igualmente com os povos. Se realmente ao Reino lhe parecesse importante ou de utilidade a nossa Igreja de Santa Comba de Bande (como importante é para ele a Dama de Elche, as Covas de Altamira ou os achados de Atapuerca...), este exemplo de capela pré-românica  e mesmo paleocristã seria um modelo de cuidado, de atenção administrativa e de aproveitamento do património para qualquer finalidade positiva, mesmo para que o Estado ou a Junta da Galiza pudessem minimizar a crise na que nos meteram, pelo menos nessa comarca querquérnica, autêntico ônfalon do património artístico galaico.

Com tudo isto, só queremos lembrar duas cousas:
1-    A Galiza tem mais património artístico dentro da CAG do que todo o resto do Reino junto, o qual poderia fornecer uns ingressos económicos que poderiam tirar da precariedade e da emigração a muitos galegos...e não só riqueza económica...e...
2-   Um governo galego e uns interesses de Estado que permitem isso e que favorecem a eliminação da memória dos galegos, que permitem que museus como o de Ourense sejam “bunquers” onde nem se possa ver o seu interior por levar quase doze anos fechado merecem o nosso desrespeito e o nosso rechaço. Nós somos os donos do nosso património e a administração está ao nosso serviço, não ao invés. Nós somos os que sustentamos esses aparatos governamentais e nós somos os que podemos dar-lhes o seu merecido por se desviarem do seu cometido principal. Que emigrem eles! Que fiquem eles sem trabalho!....Porque? Porque nos querem mal!, e nós devemos querer-nos a nós próprios.

Eis:



Gravação e elaboração dos vídeos: José Goris
Colaboração Técnica: Ana Bernardez e Carolina Horstmann

Declaração de Santa Comba de Bande Monumento Nacional:
“Ilmo. Sr.: Visto el expediente incoado sobre la declaración de Monumento nacional de la iglesia de Santa Comba o San Torcuato de Bande, en la provincia de Orense, y de conformidad con el dictamen emitido sobre dicho particular por las Reales Academias de Bellas Artes de San Fernando y de la Historia, S.M. el Rey (q.D.g.) ha tenido a bien resolver sea declarada la referida Iglesia Monumento nacional, quedando como tal Monumento bajo la tutela y protección del Estado y la inmediata custodia y vigilancia de la Comisión provincial de Monumentos de Orense. De Real orden lo digo a V.I., para su conocimiento y efectos. Dios guarde a V.I. muchos años. Madrid, 11 de agosto de 1921, publicada esta en el BOE. 16-08- 1921.” 

sábado, 25 de fevereiro de 2012

A Galiza e a Lusofonia


Por Carlos Jorge Mota

Aprendemos na História e na Literatura que a Língua Portuguesa é o resultado duma lenta e gradual evolução do galaico-portucalense, língua falada em terra galaica e no Condado Portucalense. Mas houve dois Condados Portucalenses, ou Condados de Portucale: o primeiro, fundado em 868 por Vimara Peres, após a Presúria de Portucale (Porto), e cujo território se situava entre Minho e Douro, incorporado depois, em 1071, no Reino da Galiza, cujo soberano era simultaneamente detentor dos Reinos de Leão e das Astúrias; e o segundo, constituído em 1095, em feudo de Afonso VI, Rei de Galiza-Leão e Castela, e oferecido ao burguinhês Henrique (de Borgonha) que recebeu também a mão de sua filha D. Teresa de Leão. Era constituído também por territórios mais a sul, abrangendo já as áreas de Viseu, de Lamego, de Coimbra e de Idanha.
Os Suevos, povos de origem germânica, chegados à Península Ibérica aquando das Invasões Bárbaras, encabeçados por Hermerico, através dum Pacto de ajuda recíproca (foedus) com os Romanos, formam, no ano de 409, o Reino da Galiza (Gallaecia) cuja capital era Bracara Augusta, a atual Braga. Entretanto, chegados os Alanos, tentam eliminar o Reino Suevo, nomeadamente em lutas na atual cidade do Porto, mas infrutiferamente. Todavia, em 585, os suevos não conseguem resistir aos Visigodos e o seu reino é anexado por estes, que tinham a sua capital em Toledo. A designação de Reino da Galiza cessa só no Séc. XIX, com a dissolução da Junta Superior, por Maria Cristina de Bourbon, entretanto formada para defesa mais eficaz das invasões dos exércitos napoleónicos.
 Com estes pressupostos, historicamente comprovados, é legítimo nos questionarmos sobre qual a língua antigamente falada no território que hoje constitui Portugal. Óbvio que teria que ser o galego – considerando a Gallaecia de então e não a Galiza atual. Consequentemente, o Português não será mais do que um derivado da língua galega.


E os galegos que língua falam? Bom, aqui a questão não é tão linear como as aparências nos sugerem, pela proximidade temporal da época franquista durante a qual, e apesar de Francisco Franco ter nascido em Ferrol, na Galiza, só se admitia a escolaridade da língua oficial espanhola – o castelhano.
Com efeito, considerando o forte fervor de nação galega que perdura desde há muitos, muitíssimos, anos, os galegos assumem-se como faladores do galego de antanho, e não do galego oficial instituído em 1979, que a capital, Madrid, foi obrigada a autorizar, ao ser incorporada na Constituição Espanhola de 1978 a autonomia de Regiões, algumas das quais com o ensinamento da sua língua nativa. Só que esse galego oficial não corresponde ao galego genuíno das gentes galegas. O argumento utilizado foi subtil … supostamente é para mais fácil aprendizagem dessa língua pelos não autóctones, daí a maioria dos termos serem acastelhanizados, logo, aculturados. A política a isso obriga e as verdadeiras razões são facilmente entendíveis.
Só que muitos galegos – e não será um número nada despiciendo -, principalmente os mais ligados às elites culturais, não aceitam passivamente essa situação e reivindicam, por meios legais que consideram legítimos, a necessária correção para a genuína origem da língua e lutam pela não permissão do seu abastardamento.
Daí, porque consideram ser uma via eficaz, terem requerido o Estatuto de Observador junto da CPLP – Comunidade de Países de Língua Portuguesa. Entretanto, adentro da própria Galiza, constituíram, em 6 de outubro de 2008, a Academia Galega de Língua Portuguesa, e, em 2011, uma Fundação da AGLP. Na cerimónia da constituição da AGLP, em Santiago de Compostela, estiveram presentes na mesa, e fizeram a respetiva intervenção alusiva ao ato, o Prof. José-Martinho Montero Santalha, como anfitrião; José Craveirinha, escritor moçambicano, que aludiu ao facto de, na sua infância em Moçambique, sendo ele filho de português continental, da zona de Abrantes, a sua mãe dizer, com frequência, que ele era um galego como o pai; o Prof. Artur Anselmo, do Instituto de Lexicologia e Lexicografia da Academia de Ciências de Lisboa; o Prof. João Malaca Casteleiro, da ACL; o Prof. Doutor Carlos Reis, da Universidade Aberta de Lisboa; o Professor Evanildo Bechara, da Academia Brasileira de Letras.
No fim da cerimónia, foi tocado e cantado o Hino Galego em cuja letra não se refere Galiza, mas sim Nação de Breogán, figura celta mitológica a quem é atribuída a afirmação da nação galega. A ele, Breogán, também se atribui a fundação da cidade transmontana de Bragança.
Em 5 de outubro de 2009, também em Santiago de Compostela, realizou-se o I Seminário de Lexicologia da AGLP, durante o qual foi assinado um Protocolo com a Universidade Aberta de Lisboa e em que intervieram figuras proeminentes da lusofonia, nomeadamente, por parte da AGLP, o seu Presidente, Prof. José-Martinho Montero Santalha, o Vice-Presidente, Prof. Isaac Alonso Estraviz, e, por parte da Universidade Aberta de Lisboa, o seu Reitor, Prof. Doutor Carlos Reis, e o Pró-Reitor, Prof. Doutor Domingos Alves Caeiro. Intervieram também o Prof. Artur Anselmo, do Instituto de Lexicologia e Lexicografia da Academia de Ciências de Lisboa, o Prof. João Malaca Casteleiro, da ACL, a Professora Maria Francisca Xavier, da Universidade Nova de Lisboa, o Prof. Álvaro Iriarte Sanromán, da Universidade do Minho, o Professor Evanildo Bechara, da Academia Brasileira de Letras, o Prof. Adriano Moreira, Vice-Presidente da ACL.
Em 25 de setembro de 2010 realizou-se o II Seminário onde foi figura destacada o Professor Carlos Amaral, Administrador da Priberam Informática SA, que falou sobre a inclusão do Léxico da Galiza nas ferramentas relativas ao uso da língua portuguesa.
Tive já pessoalmente o privilégio de fazer uma intervenção oral, em janeiro deste ano, na Inauguração duma Exposição de lindos painéis alusivos ao Cinquentenário da Fundação de Brasília, capital do Brasil, na Corunha, na Associação Cultural Alexandre Bóveda, figura heróica que pagou com a vida o seu forte galeguismo, “crime” pelo qual foi fuzilado pelas tropas insurretas de Franco.
Em junho último tive também o privilégio de, no acompanhamento dum grupo de escritores brasileiros, ser conduzido por amiguirmãos galegos a Padrón, terra de Rosalia de Castro, e a Rianxo, terra de Castelão, e sermos recebidos pelo respetivo Presidente da Câmara, por coincidência no seu primeiro dia de funções autárquicas.
Fazendo nós uma reflexão sobre as verdadeiras origens da nossa língua, constatamos que a dita pronúncia do norte de Portugal não será mais do que uma maior aproximação às suas origens, de que se destaca algumas trocas de vês por bês (e vice-versa) e a acentuação de om em vez de ão. Mas uma curiosidade ressalta nesta apreciação do om. No Brasil, terra para onde foi transportado o português (algum dele agora arcaico), perduram palavras terminadas em om em vez de ão, de que serve exemplo o termo cupom em vez de cupão (cupom fiscal), tal qual na Galiza de hoje. A letra k pronuncia-se no Brasil cá, exatamente como os galegos a dizem, enquanto que no resto da lusofonia se fala capa.
Esta diversidade na unidade será, porventura, a maior riqueza duma língua. E não adianta os sulistas procurarem brindar os nortenhos com as brincadeiras da pronúncia do norte, até porque lá, principalmente em Lisboa, há também as suas caraterísticas muito específicas. Serve de exemplo a pronunciação de ô em vez de ou: touro, ouro, mouro; á em vez de ai: baixa, caixa, faixa; ai em vez de ei: feira, tinteiro, madeira; ié em vez de é: fera, chapéu; e no grave erro gramatical de transformar palavras dissilábicas em monossilábicas: rio, tio, desafio.
Face ao que precede sobre a Galiza e o galego, não estará o título deste artigo invertido? Não seria melhor escrever A Lusofonia e a Galiza?

sábado, 18 de fevereiro de 2012

O galego já é oficial na União Europeia




Por José Manuel Barbosa

Já há mais de dezaoito anos, em 1994, algumas pessoas da AGAL tivemos possibilidade de conhecer o funcionamento do parlamento europeu e experimentarmos “in situ” a situação das diferentes línguas comunitárias graças ao convite à nossa Associação feito pela Coligação Galega(CG) liderada na altura pelo que foi europarlamentar José Posada.
Foi no mês de Março e na semana imediatamente anterior à Semana Santa quando um pequeno grupo de representantes da AGAL entre os que figuravam os amigos Jesus Miguel Conde, Carlos Garrido, atual Secretário da Comissão Linguística, Xavier Paz, José Manuel Aldeia, Laureano Carvalho, Rosário Fernandes Velho e um que isto vos escreve.

 Visitamos Bruxelas e com isto também as instituições europeias, e não vimos surpresa no facto de nos podermos defender no dia-a-dia na nossa língua. Não pelo facto tópico e folclórico de acharmos galegos por toda a parte -facto que nalgum caso se deu- mas porque o galego é conhecido dum ponto de vista académico como uma forma ou variante da língua que a romanística denomina “galego-português” e que internacionalmente se reconhece como “português”
Não são duas línguas, mas uma. Isso foi-nos útil para não nos deixarmos levar por complexos de nenhum jeito e entendermo-nos na nossa língua com a rapariga responsável do hotel no que moramos aqueles dias, sendo ela belga mas casada com um brasileiro. Também não foi surpresa o sermos atendidos por alguns funcionários do parlamento europeu na língua de Rosália na que se nos dirigiram quando nos ouviram falar entre nós, pensando que éramos portugueses (estou seguro que se souberem que éramos cidadaos do Estado Espanhol e galegos provavelmente dirigir-se-iam a nós em castelhano).

A alguém lhe poderia parecer uma surpresa que um companheiro de expedição e representante dum grupo ambientalista da Límia, o nosso amigo Manuel Garcia, apresentasse publicamente e no seu galego limego (ou limião) uma informação sobre a concentração parcelar na sua comarca perante o pleno do grupo parlamentar europeu do "Arco Íris", grupo dentro do qual estava o Eurodeputado Posada. Como bem se sabe, havia, e há umas cabinas de tradução simultânea que transpunham a fala do amigo Manuel Garcia aos diferentes idiomas dos distintos europarlamentares dos diferentes países que integravam aquele grupo. Quiçá ninguém se deu conta de que se isto fosse feito por um catalão ou um basco, ou um escocês...não poderia ter sido feito pelos tradutores porque essas línguas não pertencem ao grupo de línguas oficiais da União...infelizmente....mas é assim, cousa que não acontece com a nossa língua que sim é oficial. Por isso pode ser traduzido às outras línguas comunitárias.

Lembro que havia uma porta-voz escocesa, lembro um corso que interveio e algum flamengo... e todos percebiam perfeitamente o que o nosso companheiro expunha porque os funcionários de tradução reconheciam aquilo como uma das línguas oficiais dum Estado membro..., neste caso, reconheciam-no como português e faziam o seu labor transladando para inglês, francês, neerlandês, etc...
Tanto na altura como ainda hoje a informação que se verte sobre a situação da nossa língua na Galiza não chega a todos os galegos, pelo que é fácil acreditar que ninguém tivesse nem, ainda hoje, tenha muito conhecimento, nem consciência do que é o Informe Killilea, nem das cartas cruzadas entre o europarlamentar Posada e o presidente do Parlamento Egon Klepsch, nas quais se reconhecia o galego implicitamente como língua oficial por sê-lo o português, língua oficial dum dos Estados membros: Portugal.
Egon Klepsch
Essas cartas estão publicadas nas AGÁLIAS dos anos 1993 e 1994 e nelas se toma o assunto por causa da dúvida que alguns funcionários tinham em relação à língua do eurodeputado. Eles diziam que era português com um sotaque que eles não conheciam mas o Senhor Posada clarificou com argumentos históricos e linguísticos que aquilo era a mesma língua de Portugal embora com o sotaque galego das Rias Baixas donde ele é originário. Posteriormente e com a intervenção do europarlamentar irlandês Mark Killilea que reconheceu as variedades linguísticas da U.E. e do próprio presidente do Parlamento reconheceu-se que todas as intervenções do eurodeputado galego foram feitas numa variante da língua conhecida internacionalmente como “português” e portanto recolhidas no diário de sessões da Câmara.
Mark Kilillea
Há um tempo, quando governava o bipartido, víamos nos meios de informação galegos a notícia de a Espanha pedir para o galego o “status” de língua oficial dentro da U.E. e não pôde mais do que olhar a notícia franzindo as sobrancelhas. Veremos no futuro a mesma petição para o alsaciano ou o para o andaluz?? Veremos isso para o valão, o francês da Bélgica, ou o alemão da Áustria? Veremos também na ONU essa petição para a língua dos norteamericanos diferenciada da dos britânicos?. Evidentemente a proposta não foi aceite porque dum ponto de vista internacional as falas galegas sempre foram reconhecidas como uma das variantes dessa língua ibero-românica ocidental conhecida historicamente como “galego” ou “galego-português” mas dum ponto de vista político conhecida com o nome de “português”.


Ora bem, estou certo que o flamengos da Bélgica não vão pedir algo assim para o flamengo porque já é oficial o neerlandês, língua comum a holandeses e flamengos, nem a haverão de pedir aos moldavos no momento em que entrarem na União a oficialidade do moldavo quando já dentro achem o romeno como língua oficial por ser a República de Roménia sócia de pleno direito desde 2007.
Já o eurodeputado Posada em 1994 e em 1999, e posteriormente o Camilo Nogueira desde o 1999 até 2004 fizeram o seu trabalho na nossa língua, gerando mesmo reações à contra de conhecidos políticos antigalegos que mesmo chegaram ao insulto. Dentro esses políticos salientamos o ex-alcaide da Crunha, Francisco Vázquez que denominou Camilo Nogueira de Nazi por falar "português" no parlamento europeu e com isso deixar de falar espanhol...
Isto faz que tenhamos a necessidade de dizer por se a nossa gente não se tem inteirado, que a Nossa Língua, a língua que Pondal denominou "Língua do grã Camões, fala de Breogão", a língua das Cantigas do único Império peninsular com Afonso VII e que assim se podia considerar na Idade Média, a língua de Castelão, de Risco, de Carvalho Calero...é já oficial tanto na sua versão lusitana como na sua versão galega, facto este reconhecido pelas instituições comunitárias. Com ela se trabalhou na Europa desde 1986, data na que os países da península Ibérica entraram de pleno direito na U.E., e com ela trabalham os deputados galegos bons e generosos que têm a Galiza na sua mente e no seu coração.

Ultimamente a deputada Ana Miranda em 2012 também está a usar a nossa língua no parlamento mesmo com dificuldades por parte dos tradutores de espanhol que desrespeitosamente não traduzem o que ela diz quando fala no seu galego natural, embora os funcionários que transladam para o inglês, francês, etc... não tenham qualquer problema. Se a nossa fosse uma língua extra-oficial a possibilidade de tradução seria nula...

Sabemos que o BNG tradicionalmente não se manifesta claramente em favor dum reintegracionismo prático e consequente, sabemos mesmo que apoiaram a ideia do bipartido de levar a cabo a “oficialização" do galego (RAG, entenda-se) obviando a realidade comunitária de reconhecimento do galego (português, entenda-se também) como língua oficial desde a passagem do eurodeputado Posada pelo parlamento. Aproveitando a presença do BNG no parlamento europeu, este é um bom momento para fazer pedagogia institucional e ensinar aos seus militantes, seguidores e votantes (e também os que não o são) que galego é português e português é galego com todas as consequências possíveis, mesmo normativas e geo-estratégias, e nao para seguir a política linguística do PP e do PSOE que querem "oficializar" o que eles denominam de "galego" para consumar a ruptura entre as falas galegas e portuguesas convertindo a nossa língua em carniça para o uniformismo castelhanófilo que rege o Reino da Espanha desde que este existe como tal.

Se a ideia é dar a conhecer a realidade linguística comum galego-portuguesa, parabéns, mas se a ideia do BNG é fazer coerente uma ideia de galego “de seu”, como parece que faz em boca da Ana quando quer meter a nossa língua na mesma saca do que o catalão, basco e outras ao querer "oficializá-lo"... e conceitualizá-lo implicitamente como diferente do português, acabará fazendo evidente a ideia que muitas pessoas têm de que o reintegracionismo bloqueiro, até agora, platónico é só uma via para conseguir votos dum eleitorado galeguista cada vez mais virado para o sentimento de unidade linguística galego-portuguesa e fará ver o BNG como mais um partido que joga contra a língua dos galegos.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Há muita fome no mundo.

Por José Manuel Barbosa
Uma rapariga adolescente fez-me um comentário de sobremesa o outro dia num jantar: “Não haverá cousas mais importantes nas que empregar esforços e dinheiro do que fazê-lo pelo galego? Há gente que passa fome no mundo!!
A rapariga, adolescente lúcida e inteligente tapou a minha boca com uma manifestação rotunda e categórica para além de verídica e real perante a minha paixão galeguizadora acrescentada com uns quantos anos de compromisso linguístico. A sua lógica feita com a visão realista das cousas duma nena de 16 anos que começa a ver o mundo tal qual é trouxe-me à realidade.
A sua ideia simples mas impecável levou-me a cavilar toda a tarde e não pôde mais do que dar-lhe a razão finalmente. Pensei que países como Uganda ou Tanzânia, Zimbabué ou Namíbia têm prioridades mais importantes do que desterrarem o inglês dos seus territórios para fazerem das suas múltiplas línguas nativas instrumentos de cultura, comunicação ou criação literária.
É assim como neste caso o inglês se faz a língua mais poderosa do planeta; porque os pobres orçamentos desses países não vão destinados para a normalização do swahili ou o hotentote mas para erradicar a fome, vacinar as populações contra enfermidades que não conhecemos na Europa pelas nossas condições higiénicas e de salubridade ou ensinar a ler às crianças para elas poderem ver um futuro de maior qualidade de vida nos seus países.
Já o dizia Jordi Pujol a respeito do catalão: “O catalão custa dinheiro”. Tinha razão o velho dirigente catalão, como razão tem a rapariga, mas evidentemente Catalunha não é Uganda e a fome como mal social endémico não existe, como também podemos dizer que o seu sistema de saúde é dos melhores da Europa que é como dizer que está entre os melhores do mundo.
 Catalunha pode portanto permitir-se o luxo de investir na sua língua milhões de Euros e fazer com que o catalão seja uma língua de cultura, arte, comunicação e seja aliás elemento gerador de riqueza material ao existir com isso a possibilidade de que haja um mercado linguístico que crie e agilize o movimento económico e enriqueça os catalães.
Por outra parte o Reino da Espanha ingressa aproximadamente um 15% do seu P.I.B. graças ao castelhano por ser esta a língua oficial de 22 países do mundo e um total de mais de 400 milhões de utentes. A política linguística da Espanha a respeito do espanhol é por isso geradora de riqueza material fazendo da língua de Cervantes uma das mais prósperas do mundo do ponto de vista criativo, cultural, artístico e literário mercê a um mercado amplo que lhe dá umas possibilidades importantes a respeito doutras línguas de países com mais poder político e económico.
No que diz respeito da Galiza podemos dizer com total tranquilidade que também não somos Namíbia; também não passamos fomes, nem andaços embora não sejamos tão desenvolvidos como a Catalunha, pois vivemos numa conjuntura económica europeia que nos faz ricos com referência ao contexto mundial embora pobres dentro do contexto europeu.
Para além de todo isto a Galiza tem uma política linguística que pelo menos na teoria -e digo na teoria, porque é isso o que se diz, não entro no que se faz- vai destinada para fazer do galego essa língua de cultura, arte e comunicação que sonharam os nossos grandes galeguistas e que não só fosse usada por razões de voluntarismo patriótico ou fervor nacionalista mas também por gerar riqueza material com o qual a nossa gente se sentisse achegada a ela por algo mais do que por sentimentalismo neo-romântico.
Mas também Galiza não ingressa o 15% do seu P.I.B. pela sua língua, mais bem neste caso tem um índice negativo. A Junta da Galiza perde dinheiro por causa do galego de tal jeito que se as nossas instituições deixassem de investir na língua -ou quiçá fosse melhor dito contra ela- o nosso P.I.B. subiria 2 ou 3 pontos. Essa situação dá asas e argumentos a pequenos coletivos kukuxklánicos que se organizam para atacarem o galego, reivindicarem o direito de ignorá-lo e agirem para que este desapareça do nosso país. Hábil política linguística que não mata mas dá para que morra.
Curiosamente, ou por acaso, o galego é reconhecido por linguistas, filólogos e cientistas como uma das três variantes do sistema linguístico galego-português (galego, português lusitano e brasileiro), falado por quase 320 milhões de pessoas por todo o mundo e os cinco continentes; é oficial em 10 países, co-oficial desde o 2007 na antiga Guiné-Equatorial espanhola, segunda língua de Uruguai e oficial lá desde 2008; segunda língua latina em número de utentes depois do espanhol, por acima do francês, do alemám e do italiano em extensão territorial e humana; terceira língua europeia depois do inglês e do espanhol, quinta do mundo depois do chinês, hindi, inglês e espanhol; língua oficial da ONU, da EU, Mercosul, Unidade Africana... Com um futuro importante por ser o Brasil uma nova potência emergente que faz da CPLP uma organização lusófona atrativa para países, mesmo anglo-saxônicos como a Austrália, que quer entrar nela quebrando com ideias quase racistas surgidas no carpeto-vetonismo histórico no que vivemos.
Com uma política linguística acertada e focada não só para a sua sobrevivência mas também para o seu florescimento, com um bom tratamento filológico e linguístico, adaptando a norma a esta realidade científica, política e geoestratégica tão favorável quiçá não chegaríamos a ingressar o 15% do P.I.B., (ou sim?) mas sim o 8% ou o 10% ou o 6%... com o qual a nossa língua geraria riqueza material para além da cultural.
E digo eu: Não haverá cousas mais importantes nas que empregar esforços e dinheiro que em eliminar a nossa língua? Em vez de gerar gastos e perdas por causa dum modelo de normalização que mata e inutiliza a língua dos galegos, fornecendo de argumentos a pequenos grupos muito ideologizados e ultras que trabalham para bani-lo da Galiza, não seria melhor fazermos da língua um autêntico setor económico com um mercado prospero que lhe desse o prestígio que teve em épocas medievais? Porque queremos um galego pequeninho e de aldeia em vez de um grande, internacional e concorrente com as grandes línguas do mundo? Não estamos para deitarmos a casa pola janela. Há muita fome no mundo!!!

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